O arquivista ACM

Antonio Carlos Magalhães/Crédito: Arquivo Nacional

“Sua mania de se informar fez dele uma espécie de arquivista – da própria vida e, sobretudo, da alheia.” (Marcos Sá Correia, in Política é Paixão, Editora Revan, Rio de Janeiro, 1995).

Jornalistas experientes do seu tempo o chamavam “arquivista”. Era a melhor e mais confiável fonte do jornalismo político.

Tempo de jornalistas decentes, hoje quase em extinção, e não arremedos de jornalistas. Estes estão à margem do bom jornalismo, o que mais se vê nos dias de hoje.

Tempo de jornalistas e não ativistas políticos, ridiculamente tendenciosos e vergonhosamente dispensáveis sob o ponto de vista da seriedade jornalística e contaminados pelo extremismo ideológico.

Antonio Carlos Magalhães arquivava na memória nomes, fatos, versões, circunstâncias, verdades, mentiras e, mais do que isto: a vivência política.

Arquivistas desse naipe conseguem discernir política de politicagem, afastam vivandeiros e, sobretudo, não misturam ética política com desmoronamento moral.

Em décadas de vida pública, ACM foi o político mais consultado por todos os governos da República. E o mais poderoso dentre todos, mesmo em interregnos que não se sustentavam em mandados eletivos.

Controverso, visitava até inimigos na prisão.

Político sagaz, quando mantinha o poder na Bahia, visitou na prisão o ícone do comunismo baiano, Jacob Gorender, jornalista, historiador e ativista, preso na Casa de Detenção de Salvador.

Levou até presentes para os presos, embora politicamente de lado oposto.

ACM estava aliado à ditadura militar, que mandou prender Gorender e outros tantos presos políticos, mas não misturou ideologia com seriedade política, tampouco com o dever de solidariedade.

De outro turno, os militares estavam irredutíveis na disposição de cassar o mandato do deputado federal Oliveira Brito, baiano de Ribeira do Pombal, que havia sido ministro das Minas e Energia (1963-1964) do presidente deposto João Goulart.

ACM intercedeu junto ao marechal-presidente Costa e Silva para evitar a cassação. E evitou.

Curiosidade. Oliveira Brito foi cassado, mais tarde, pela Junta Militar, que substituiu Costa e Silva, em razão da enfermidade do presidente, mas o pedido inicial de ACM foi atendido.

O major Cosme de Farias, lendário rábula da Bahia, atendia na sacristia da Igreja de São Domingos, no Terreiro de Jesus, centro histórico de Salvador. Lá fez sua trincheira em defesa dos pobres e oprimidos.

O repórter chegou, se abancou, perguntou:

– Major, o senhor gosta do governador Antonio Carlos Magalhães?

– É um bom rapaz, até me mandou um cartão de Natal, que eu respondi.

O Brasil está precisando de arquivistas como ACM, que até mandem cartão de natal e ajudem a aparar as arestas da incompreensão e da intolerância política.

Post scriptum

Fonte: “Ninguém me contou, eu vi”, do jornalista Sebastião Nery.

araujo-costa@uol.com.br

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