Perguntar não ofende. Ou ofende?

Está circulando um vídeo em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) diz algumas asneiras sobre o Supremo Tribunal Federal. Errou. Ele é membro do Poder Legislativo, precisa ser comedido, cauteloso, responsável.

Imediatamente alguns ministros do Supremo Tribunal Federal se sentiram ofendidos e vieram a público repudiar a fala do deputado e, salvo engano, um ministro até sinalizou com pedido de investigação.

Evidente que é dever dos ministros do STF defenderem a instituição. Não se discute isto. E é evidente que deputado não pode sair por aí, dizendo besteiras.

Ocorre que, em data não muito distante, outro deputado federal, este do PT, Wadih Damous, do Rio de Janeiro, também pediu rispidamente o fechamento do Supremo Tribunal Federal e, pior, pronunciou palavras duras contra um de seus ministros.

Nenhum ministro do STF veio a público rebater o deputado petista.

Como perguntar não ofende, pergunto:

Onde estavam os ministros Dias Toffolli, Rosa Weber, Celso de Melo, Marco Aurélio Melo e Alexandre de Moraes que não se pronunciaram contra as duras palavras do deputado petista?

A Justiça não pode ser cega apenas quando não quer ver as coisas. Tem de ser cega, sempre.

Está aí o vídeo com o pronunciamento do deputado, que os ministros do Supremo não viram ou não quiseram ver.

Haddad e os votos do Nordeste

É comum que candidatos façam suas estratégias de campanha com base em levantamentos próprios e não, unicamente, baseados em dados apontados pelos institutos de pesquisas.

Não há novidade nisto. Candidatos também fazem pesquisas próprias e se servem delas para traçar planos, roteiros, estratégias e antever vitórias ou derrotas.

Sendo assim, deve haver algo preocupante na campanha de Fernando Haddad relativamente ao Nordeste.

No primeiro turno, ele foi muito bem votado nos estados do Nordeste, aliás sua melhor votação, assim como os governadores de lá que lhe apoiam incondicionalmente.

Entretanto, se não mudar, parece que Haddad voltará ao Nordeste na reta final da campanha, quinta e sexta-feira próximas, exatamente para fazer comícios em alguns dos estados em que obteve expressiva votação: Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Ou Haddad tem informações internas no sentido de que está perdendo votos para o adversário naqueles estados e precisa recuperar ou a direção da campanha do PT está perdida.

No primeiro turno, foi esta a votação que teve nos estados que ele pretende visitar:

Bahia: 60,28%;

Pernambuco: 48,87%;

Rio Grande do Norte: 41,19%;

Inegável a supremacia de Haddad no Nordeste sobre Jair Bolsonaro, graças ao carisma de Lula.

Haddad esteve no Ceará no último final de semana, mas isto é compreensível. Lá ele obteve 33,12% dos votos no primeiro turno, mas em seguida o senador eleito Cid Gomes fez um estrago na campanha do PT, que justificou a visita do candidato. Botar panos quentes, serenar os ânimos. E até, para ficar bonito, tirou foto com chapéu de couro aos pés do padre Cícero, em Juazeiro do Norte.

Magoado com Lula e o PT, após o primeiro turno Ciro Gomes foi para a Europa e deixou o irmão para jogar esterco no ventilador de Haddad. Deu certo.

É a vingança maligna contra Lula, que Ciro ama, mas não é de ferro. Sentiu-se traído.

Quando Ciro Gomes voltar, não haverá mais tempo para fazer alguma coisa em benefício de Haddad, se quisesse. Mas ele não quer.

Pelo que se vê, parece desnecessária a presença de Haddad nesses estados em que saiu vitorioso no primeiro turno. A tendência é manter a votação do primeiro turno, com a força dos governadores, que foram bem avaliados pela população de seus estados.

Observe que Haddad encerrou a campanha de segundo turno na Bahia, lá para as bandas de Feira de Santana.

Na Bahia, os votos de Rui Costa, eleito no primeiro turno com 75,50%, Jaques Wagner e aliados vão para ele, independentemente de sua visita ao estado.

A lógica indica que o razoável seria Haddad visitar as regiões em que se saiu mal nas urnas, tentar evitar abstenções e tirar votos do adversário.

Haddad sonhou com uma frente partidária lhe apoiando no segundo turno. Alguns partidos foram subindo ao telhado, um a um e se negaram a apoiá-lo publicamente. Outros sequer chegaram ao telhado. Ficaram em cima do muro e lhe ofereceram  o chamado “apoio crítico”.

Ao invés de ver navios, Fernando Haddad ficou a ver Bolsonaro.

araujo-costa@uol.com.br

O PT insiste em confundir o eleitor.

“Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo” (San Tiago Dantas)

A Folha de S.Paulo vai usar o direito constitucional de preservação do sigilo da fonte para omitir o possível dedo do Partido dos Trabalhadores (PT) na veiculação da matéria sobre envio de mensagens contra Haddad, através do aplicativo WhatsApp, prática  atribuída pela reportagem ao candidato Jair Bolsonaro.

As empresas citadas na reportagem já negaram que tenham sido contratadas pelo candidato do PSL ou qualquer pessoa de sua campanha, de modo que, em princípio, a acusação do PT, com base na matéria jornalística, não encontra amparo fático e legal.

Repórter respeitável, a jornalista Patrícia Campos Mello é experiente e, pelo que se conhece, muito correta profissionalmente. Cumpriu seu papel de repórter, certamente obedecendo, como de praxe, a pauta do jornal em que trabalha.

Entretanto, as redes sociais estão misturando alhos com bugalhos e passaram a insultar a jornalista, em razão da reportagem, o que vai contra o pluralismo democrático.

Sabe-se que a jornalista se declara petista desde sempre, não nega sua condição de integrante da esquerda, mas isto é direito dela e não significa, necessariamente, que seja parcial e tendenciosa, tampouco labore em má-fé, no exercício da profissão.

Todo profissional, seja jornalista ou outro qualquer, tem direito a ostentar suas convicções políticas. Isto não quer dizer que, em quadro assim,  essa condição macule o exercício de sua profissão ou arranhe o caráter de jornalista.

Pensar de modo diverso é desrespeitar a liberdade de pensamento, de escolha e de expressão de cada um de nós. Seria uma barbaridade, uma afronta à liberdade individual.

Todavia, o que fica difícil entender é o fato de a jornalista ter consultado o advogado da presidente nacional do PT Gleisi Hoffmann sobre eventuais consequências das mensagens disparadas via WhatsApp sobre a candidatura de Jair Bolsonaro, vez que dispõe de um corpo jurídico respeitável na própria Folha de S.Paulo, que está lá exatamente para dar sustentação ao jornal. O advogado consultado mora no Paraná.

O advogado que a jornalista generosamente classificou de “jurista” já foi preso por envolvimento nos escândalos financeiros do PT e está sob as malhas da lei, acusado de ter embolsado ilicitamente R$ 7 milhões entre 2010/2015, em conluio com o marido da senadora Gleisi Hoffman.

Convém ressalvar que investigação, indiciamento e prisão cautelar não significam provas irrefutáveis de culpa.

O marido da senadora fora ministro das Comunicações e do Planejamento dos governos petistas de Lula e dona Dilma e se envolveu com desvio de dinheiro público, segundo a Polícia Federal e o Ministério Público. À época, o retro aludido causídico já exercia o papel de defensor de Gleisi Hofmann.

Estranha aí é esta mistura de fatos ou a coincidência entre eles. Todavia, isto não quer dizer que a jornalista tenha agido de má-fé, embora se tenha declarado petista e embora tenha baseado a matéria também em informações colhidas com o advogado da presidente nacional do Partido dos Trabalhadores.

Entretanto, a matéria, neste particular, além de confusa, ficou duvidosa, estrambótica, difícil de assimilar.

Tendo em vista pedido apressado do PT, o caso está sob investigação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o intuito de apurar se houve crime eleitoral por parte do candidato Jair Bolsonaro.

É razoável dizer que o PT mirou em Jair Bolsonaro e atingiu o próprio pé. Simultaneamente, a Procuradoria Geral da República pediu investigação sobre possíveis e semelhantes propagandas ilegais nas redes sociais envolvendo também o Partido dos Trabalhadores.

Mas são injustificáveis os insultos que as redes sociais estão direcionando à jornalista Patrícia Campos Mello, que está cumprindo o seu papel profissional. Mesmo que a reportagem não tenha atingido Bolsonaro ou Haddad, a jornalista demonstrou que há empresas oferecendo o serviço ilícito para campanhas eleitorais.

A ilicitude reside no fato de que as mensagens disparadas através de WhatsApp e referidas na reportagem foram contratadas e pagas por empresas, o que é proibido pela legislação eleitoral.

Mas a Folha de S. Paulo é um jornal sério e sabe se conduzir muito bem.

araujo-costa@uol.com.br

A cultura de Mauá pede socorro

“A cultura forma sábios; a educação, homens” (Louis de Bonald, filósofo francês, 1754-1840)

Mauá, para quem não sabe – e ninguém tem obrigação de saber – é um dos sete municípios que formam a próspera região do ABC paulista. Não custa nada citá-los: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Mauá, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Tenho grande predileção por Mauá. Vindo do Nordeste, foi o primeiro lugar que me acolheu na segunda metade da década de 1970.

Lá arranjei o primeiro, sonhado e necessário emprego em São Paulo e encontrei os primeiros amigos que me suportaram, alguns deles me ajudaram em meus momentos de dificuldades. Fase difícil, mas guardo gratas lembranças da luta, das amizades, do tempo.

Agora, a imprensa noticiou (Diário do Grande ABC, 19/10/2018) que a Prefeitura de Mauá está fechando bibliotecas da cidade sob a alegação de falta de dinheiro para mantê-las.

Já fechou a biblioteca Dias Gomes e está fechando a Cecília Meireles.

Salvo engano e se não interpretei equivocadamente a notícia, a Prefeitura vai manter, por enquanto, apenas duas bibliotecas em bairros afastados: Sonia Maria e Jardim Zaíra. Ou seja, no centro, não haverá mais biblioteca, o que dificulta sobremaneira estudantes, professores, pesquisadores, pessoas da terceira idade que as frequentam, leitores em geral, et cetera.

O prefeito de Mauá, que não conheço, esteve recentemente envolvido em acusações no que tange ao uso indevido de dinheiro público, o que custa acreditar que Sua Excelência tenha surrupiado recursos do povo em benefício próprio e deixado as bibliotecas desamparadas.

Em data recente, o prefeito esteve afastado do cargo, por decisão judicial e, em consequência, a vice prefeita, senhora de família política tradicional de Mauá, assumiu as funções, em caráter provisório.

Contudo, o prefeito reassumiu as funções, também por ordem judicial e está cuidando do município ou, pelo menos, deveria cuidar. É razoável pressupor que a população de Mauá espera isto de seu alcaide.

Mas – parece – tem alguma coisa em Mauá que não está no lugar certo: a gestão acusa a vice, que substituiu o prefeito por pouquíssimo tempo, de ser a responsável pelo descalabro, a ponto de não ter dinheiro para manter as bibliotecas públicas.

Mais: a Prefeitura informou que não tem disponibilidade financeira para pagar o aluguel do imóvel ocupado pela biblioteca central Cecília Meireles, algo da ordem de R$ 7.500,00 por mês. Então, a situação financeira do município de Mauá está mesmo periclitante.

Convenhamos, tem alguma coisa errada em Mauá.

Uma administração municipal que, nos primeiros sinais de crise, fecha suas bibliotecas e espezinha sua cultura, realmente não pode ser levada a sério.

Gestores públicos que pensam assim devem pegar o boné e voltar para suas casas.

                                                                    São Bernardo do Campo, primavera de 2018.

 

Os equívocos da campanha de Haddad

A propaganda eleitoral do candidato Fernando Haddad parece ter optado pelo vale tudo, o que, definitivamente, não é bom.

As práticas conhecidas e mirabolantes do PT não são louváveis no que tange ao uso dos serviços de marqueteiros, que ditaram o norte de suas campanhas, nem sempre favoráveis à civilidade e à ética política.

Assim deu-se na campanha presidencial de 2014. Dona Dilma Rousseff disse o que os marqueteiros mandaram dizer e deu no que deu: cometeu estelionato eleitoral.

O próprio Lula da Silva reconheceu os erros cometidos pela propaganda eleitoral do PT – e disse isto publicamente – erros que, mais tarde, vieram desaguar no impeachment.

A mentira tem pernas curtas, diz a sabedoria popular. Se dona Dilma tivesse falado a verdade na campanha eleitoral de 2014, possivelmente não teria sido defenestrada do poder. Ela alardeou tudo aquilo que não se sustentava na verdade, com o intuito de ganhar a eleição.

Deu certo eleitoralmente, mas não deu certo moralmente. Os marqueteiros do PT foram presos, porque ganharam rios de dinheiro oriundo de propina, para mandar dona Dilma mentir. E ela obedeceu candidamente.

Em 2018, a propaganda de Haddad, para o segundo turno, tem apelado para imagens fortes e ilustrativas de torturas, atribuindo-as à predileção do candidato adversário Jair Bolsonaro.

Duplo equívoco: tortura no Brasil faz parte do passado distante da ditadura e hoje é crime hediondo e imprescritível em nosso ordenamento jurídico; nenhum candidato sensato incluiria a defesa de torturas em sua linha de pensamento governamental. Seria preso.

Tentar colocar na cabeça do eleitor que o adversário é adepto da tortura depõe enormemente contra a inteligência dos idealizadores da campanha de Haddad. Isto prejudica o próprio candidato petista, que certamente pensa de modo diverso.

A população sabe diferenciar a mentira da verdade. Pensar que o eleitor embarca em qualquer canoa é ingenuidade.

Não custa nada acrescentar que as Forças Armadas não admitem, por óbvio, bater continência para eventual presidente eleito contra a lei, contra as regras democráticas, ao arrepio dos ditames legais e com base em eleições sustentadas em ofensas desnecessárias às instituições.

Não podemos esperar de nossos militares do Exército, Marinha e Aeronáutica que sejam coniventes com armações de quaisquer campanhas, que distorçam a realidade constitucional, com o intuito tão-somente de ganhar a eleições com base na mentira.

Mais seriedade, PT. Mais juízo.

As campanhas eleitorais devem ser limpas e sérias. Devem espelhar as intenções dos candidatos e suas propostas em benefício do Brasil e não se fundarem em acusações, em mentiras, em subterfúgios.

É preciso respeito à hierarquia, à disciplina, à ética, à verdade, ao Brasil, à Pátria, aos símbolos nacionais.

Em 25/07/1966, a esquerda explodiu uma bomba no saguão do aeroporto dos Guararapes, em Recife, causando duas mortes e quatorze feridos. A bomba era destinada ao então ministro do Exército, marechal Arthur da Costa e Silva, anos depois presidente da República, mas atingiu fatalmente um jornalista funcionário do governo de Pernambuco e um vice-almirante.

Naquele dia, o ministro Costa e Silva participava de atos no prédio da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), mas não foi envolvido no atentado, para decepção dos autores da ação tresloucada.

Durante a ditadura militar, houve inúmeros atentados praticados pela esquerda da época, que resultaram em mortes, mutilações, traumas, et cetera. Muitos da esquerda que participaram dessas iniciativas reprováveis estão aí vivos, muitos deles mamando nas tetas do serviço público, como sonhavam.

O resto da história e da escuridão pela qual o Brasil passou anos seguidos todos conhecem.

Não podem o PT e o PCdoB, agora, se valerem de imagens ilustrativas e até fotos de ambientes de tortura, simplesmente por uma razão simples e inegável: a esquerda também matou e fez barbaridades contra inocentes.

E se o lado adversário mostrar também as imagens dessas barbaridades perpetradas pela esquerda?

Mais: a lei de anistia de 1979 valeu para todos, tanto da esquerda quanto da direita.

Desenterrar isto com a finalidade de ganhar eleição é, no mínimo, uma burrice incorrigível.

Fernando Haddad não merece ser envolvido em tamanha insensatez e deve conversar com esses radicais inconsequentes, que cuidam de sua campanha, sob pena de manchar sua biografia definitivamente, em nome de tresloucados do PT, PCdoB e aliados.

Ainda há tempo.

araujo-costa@uol.com.br

A República, o cárcere e os presidentes

O tempo vem humilhando nossa combalida República e sucateando a conduta de políticos que detêm ou detiveram o poder.

Já escrevi, neste espaço, que a cadeira presidencial em que se sentou Jânio Quadros não podia ter acolhido as “nádegas indevidas” de Lula da Silva e dona Dilma Rousseff, ressalvada a vontade soberana e inquestionável do povo, que os escolheu.

O próprio Jânio a desinfetaria – se vivo fosse – como fez em 1985, ao desinfetar a cadeira do gabinete da Prefeitura de São Paulo, na qual equivocada e apressadamente se sentou Fernando Henrique Cardoso, que concorreu com Jânio, sentiu-se vitorioso a ponto de tirar foto na cadeira do prefeito, mas perdeu. Acreditou demais em pesquisas de opinião e passou o vexame histórico.

“Desinfeto porque nádegas indevidas se sentaram nela”, disse Jânio Quadros.

Contudo, a democracia ainda é o melhor de todos os regimes políticos, porque fruto da soberania popular. Escolher errado não exclui e nem macula o direito de escolher.

Há uma disparidade entre o caráter inflexível de Jânio, o respeito que ele tinha com a coisa pública e a postura de estadista comparados com a conduta e forma de governar de Lula e de dona Dilma.

O ex-ministro Palocci, que foi ministro e pessoa de extrema confiança de ambos, apresentou uma enxurrada de acusações e, segundo ele, de provas, contra Lula e dona Dilma, envolvendo o uso indevido de dinheiro público. Entristece-nos a todos.

Hoje, acrescento a esta lista de desajustados presidentes, o senhor Michel Temer, que se mostrou uma decepção e inegável vergonha no comando da República.

No curto período de seu governo, ainda em curso, Temer se preocupou mais em se defender de pesadas acusações do que da administração pública, até por falta de tempo e tranquilidade para, simultaneamente, cuidar de sua defesa e da administração.

Se os ventos não soprarem em rumo diverso, pelo andar da carruagem teremos três ex-presidentes presos ou, no mínimo, com prováveis chances de serem condenados: Lula da Silva, que já amarga o cárcere, Dilma Rousseff e Michel Temer, coisa nunca vista na história do Brasil.

Salvo engano ou tecnicismo das leis penais, os crimes pelos quais Michel Temer está sendo acusado – corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa – são os mesmos atribuídos a Lula da Silva, o que faz pressupor que existia uma identidade de propósito político entre ambos, mais por conta da estrutura partidária (PT e MDB) que comandavam, estrutura esta que mandava no governo.

Lula da Silva empurrou Michel Temer goela abaixo de Dilma Rousseff, que não o queria, para compor a chapa na condição de vice-presidente no primeiro mandato dela e o manteve, estranhamente, no segundo mandado.

Hoje os petistas e aliados chamam Michel Temer de golpista, mas omitem que ele foi posto lá estrategicamente por Lula da Silva.

“Neste angu tem caroço”, diriam os desconfiados. Algumas das práticas delituosas atribuídas a Michel Temer se irmanam com as práticas das quais Lula é acusado: o uso de decretos e medidas provisórias para beneficiar empresas em troca de propinas, dentre outras parecidas. O caminho para o delito parece igual. Coincidência? Pode ser.

Lula e Michel Temer dizem que são inocentes. Como diria o humorista, “esta nem brasileiro acredita”.

Todavia, isto nos remete para conjecturas: ou Lula da Silva ensinou a maracutaia a Michel Temer ou Michel Temer ensinou a maracutaia a Lula, mas parece que um aprendeu com o outro.

É verdade que tudo isto será apurado, o que não significa que restará provado. Ninguém pode ser condenado por antecipação ou com base em notícias veiculadas na imprensa. O que vale é a palavra final do Poder Judiciário, considerados todos os recursos processualmente cabíveis. Mas está cheirando mal.

Neste tempo de safadeza, altas figuras da República passam a ter estreito e possível relacionamento com o cárcere, o que é uma tristeza para todos os brasileiros.

araujo-costa@uol.com.br

Para refletir, para acordar, para chorar

Dilacerante a reportagem abaixo do Câmera Record, programa jornalístico exibido em fevereiro pela TV Record.

Este é o Nordeste. Este é o retrato do Brasil desamparado que luta pela sobrevivência.

Este é o Nordeste que Lula da Silva e o PT dizem que tiraram da pobreza.

O PT e seus arraigados apoiadores têm sofisticadas técnicas para distorcer a verdade. Mas a verdade está aí, nua, crua, inegável, inescondível.

Quem não conhece a região Nordeste e a miséria que dilacera a vida dos que ainda sobrevivem por lá nos locais mais inóspitos acredita na conversa desses impostores.

Há pessoas que conhecem o Nordeste apenas pela televisão e redes sociais e não têm a mínima ideia do que seja uma região entregue a políticos inescrupulosos durante seguidas décadas, séculos até.

Na região Nordeste, como noutras partes do Brasil, ainda vale o tapinha que os políticos embusteiros dão no ombro do eleitor, em época de campanhas eleitorais. Eleitos, viram as costas para a população, desaparecem, vão cuidar dos seus interesses pessoais. É regra, não é exceção. Os exemplos estão aí claros. Assim se sustentaram as oligarquias, assim se sustentam os políticos até hoje.

O nordestino é humilde, hospitaleiro, simplório, gosta de atenção, atenção esta que quase sempre vem em forma de interesses escusos de políticos malandras.

Sou nordestino da caatinga. Conheço bem. Ninguém me contou nada disto. Eu vi. Ainda é assim, continuará assim.

A pobreza no Nordeste existe há séculos. Não é culpa do PT. Seria insensato dizer isto. O PT não pode ser responsabilizado por tudo. O que está errado é o PT e Lula da Silva alardearem, acintosamente, que exterminaram a pobreza ou quase toda ela.

Não sei se é cara de pau ou menosprezo à inteligência alheia, inclusive dos nordestinos que sofrem.

Dados recentes noticiados pela imprensa dão conta de que há, pelo menos, 52 milhões de pessoas no Brasil, abaixo da linha da pobreza, isto significa dizer que essas pessoas vivem em condições subumanas. Ou seja, não comem ou, se comem, o pouco que comem não é suficiente para eliminar a fome. Moram em situações de risco, expostas a intempéries, insetos, insegurança, fome, descaso do poder público, etc.

Até dezembro de 2017, o programa bolsa família do governo federal atingiu aproximados 13,4 milhões de brasileiros. É pouco nesse universo de desamparados.

Entretanto, esse programa assistencialista, apesar de valioso, não resolve a situação da extrema pobreza. O que resolve é a adoção de pesados investimentos da União, estados e municípios que atinjam educação, saneamento básico, saúde, moradia, produção de alimentos, preparo escolar e técnico de jovens e, sobretudo, uma política perene e constante com o intuito de permitir opções para que os necessitados se levantem e andem de acordo com sua própria vontade e não dependam de promessas mirabolantes de políticos e governos irresponsáveis.

Outro dia o governador do Piauí Wellington Dias (PT) emocionou-se diante das câmeras de televisão, porque foi eleito para o quarto mandato.

Não sei se Sua Excelência se emociona ao transitar nos paupérrimos municípios do seu estado, principalmente na zona rural, onde a cara da fome é o retrato mais presente, inclusive Guaribas, objeto da reportagem do Câmera Record.

Sintomático que esse município visitado pela reportagem tenha sido escolhido por Lula da Silva para lançar o fracassado programa Fome Zero, que os governos petistas de Lula e de dona Dilma Rousseff foram abandonando no meio do caminho, ao tempo em que dilapidavam os cofres públicos de estatais e afins.

Nesta campanha eleitoral, o Nordeste está, mais uma vez, diante do fogo cruzado de petistas e aliados de um lado e, de outro lado, não petistas e seguidores de outras denominações partidárias.

Trata-se de uma imbecilidade, que nada acrescenta aos moradores da Região, mormente os desesperançados e expõe as vísceras e a falta de caráter dos políticos regionais ou com interesses e ramificações nacionais.

O Nordeste é dono de sua vontade, queiram ou não os idiotas de plantão.

A reportagem a que me referi acima é do jornalístico Câmera Record. Ei-la:

Chorrochó, tempo de contar: Francisco Afonso de Menezes

“A verdadeira juventude é uma qualidade que só se adquire com a idade” (Jean Cocteau, 1889-1963)

Deixo de lado a modéstia – se é que a tive nalgum tempo – e cuido aqui de um amigo precioso: Francisco Afonso de Menezes.

Amigos que tenho, alguns tantos que não são meus amigos e outros mais que detestariam ser meus amigos já me disseram, por vezes, que sou mais arrogante do que modesto. Eles devem ter razão.

Todavia, vivo também meus momentos de humildade. Lembro os amigos, os caminhos percorridos, os tropeços, as pessoas boas com as quais convivi e, sobretudo, sou grato a todas, mormente aquelas que me suportaram. Foram tantas! São tantas!

Francisco Afonso de Menezes é chorrochoense da gema. Mantém-se ligado ao município por simultâneos vínculos de família e tradição. Defensor intransigente da cultura de Chorrochó, Afonso tem sido vigilante no sentido de preservar as tradições da Paróquia de Senhor do Bonfim, embora tenha sido cauteloso no trato com o entendimento às vezes exaltado de pessoas que pensam de modo diverso. Quase sempre é contemporizador em benefício das tradições locais.

Afonso é uma espécie de personal consultant de muitos. Confesso que aprendi muito com ele em momentos em que era preciso saber lidar com os impulsos que me empurravam para o despenhadeiro da inconsequência e do imponderável.

Afonso é cria da pioneira Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), que lhe concedeu a graduação e o tecnicismo profissional que soube exercer com afinco e responsabilidade.

É estudioso dos assuntos de sua formação e profissional respeitado em seu meio de atuação. Ostenta considerável folha de serviços prestados ao desenvolvimento da agricultura moderna da região como grande conhecedor das ciências agrárias.

Começou sua vida profissional na então conceituada EMATER-BA, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Bahia, instituição que prestou, em sua área, valiosa e eficiente contribuição para a população do semiárido baiano.

Contudo, não trato aqui do profissional. Não tenho preparo para tanto. Quero dizer mesmo é que me fiz amigo de Afonso, coisa lá de algumas décadas. Também, não quero falar aqui de sua conspícua família, esteio de pessoas de bem de Chorrochó, tampouco de seu pai Joviniano Cordeiro de Menezes (Jovino) e de sua mãe Maria Alventina de Menezes (Iaiá).

Limito-me ao jovem Afonso que conheci em Chorrochó: afável, estudioso, inteligente, cortês, encantador.

Na juventude, em Chorrochó, ele fazia parte de um vistoso quarteto: José Osório de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, Juracy Santana e ele próprio. A eles se somavam outros tantos, a exemplo de Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes. Eu não fazia parte dessa saudável confraria.

Quase todos já se foram. Continuamos alguns poucos, saudosos e circunstantes, cônscios da efemeridade da vida, meditando, remoendo, ruminando as vicissitudes do existir.

Admiro algumas qualidades de Afonso, dentre essas o apego às tradições da terra natal, o arraigado interesse pela história do município e, sobretudo, a lealdade aos seus princípios.

Outra qualidade de Afonso é a aptidão para preservar amizades, dentro as quais me incluo, honrosamente, não obstante tropeços ao longo do caminho, que ele sempre soube entender e contornar. Mantenho-o amigo. Mantemo-nos amigos. É um amigo generoso, sábio, compreensivo, prudente.

Afonso já se debruçou em tarefas ingentes com vistas ao enriquecimento da história de Chorrochó. Sobressaem-se dois livros: Memorial Cordeiro de Menezes e História de Chorrochó, este em coautoria com a insigne professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes de quem sou renitente admirador.

Afonso é autor do Hino de Chorrochó e da Bandeira do município, relevantíssimos feitos que, por si sós, enriquecem e emolduram sua biografia de forma perene e contribuem valiosamente para a grandeza de Chorrochó.   

Afonso é também administrador de empresas. Extraí estas suas palavras do discurso de formatura: “A capacidade sonhadora é bem maior que as realidades existenciais e a força de identificar sonhos com a vida faz com que acreditemos que o amanhã será melhor”.

Trata-se de pensamento otimista, eloquente, estribado na esperança e na crença de horizontes promissores. É um bálsamo para a juventude, mesmo aquela que se tornou jovem com o envelhecimento, com o passar dos anos.

Deixei para o final, adredemente, a inclusão do título (Doutor) que omiti no texto e que Afonso dignamente ostenta: Dr. Francisco Afonso de Menezes.

E como iniciei este texto citando a frase de Jean Cocteau sobre a juventude e, presumindo que Afonso algum dia venha a se deparar com esta crônica, faço-lhe a pergunta, usando o linguajar de nosso tempo: continua jovem, bicho?

araujo-costa@uol.com.br

Haddad tenta dialogar com a indiferença

“Não se faz política sem vítimas” (Tancredo Neves).

Fernando Haddad foi obrigado a assumir sua candidatura presidencial, em decisão tardia, mas necessária.

A equipe de confiança de Haddad o convenceu de que é por demais constrangedor ele ir quase todos os dias ao cárcere, ajoelhar-se aos pés de Lula e ouvir as ordens do morubixaba petista, o que tem sido para ele uma rotina embaraçosa.

Pessoas próximas a Haddad orientaram-no no sentido de assumir sua identidade, ser ele próprio o candidato presidencial e não fantoche do ex-presidente Lula, o que lhe desmoraliza como político e dá munição aos adversários. Haddad aceitou a sugestão aliviado.

Haddad não é títere, mas vítima da malandragem política de Lula, que o usou até mais não poder.

Já está dando certo a decisão da campanha de Haddad. O nome de Lula vai ser omitido, paulatinamente, nas falas e propagandas do segundo turno e, mais do que isto, a coordenação da campanha petista está adquirindo ares de seriedade, o que não se via antes.

O senador eleito e ex-governador da Bahia Jaques Wagner parece que vai integrar a coordenação da campanha presidencial petista e já ponderou: “o povo precisa conhecer o Haddad. Ele tem de assumir personalidade própria”.

Jaques Wagner era a primeira opção de Lula para a cabeça de chapa, em sua substituição. Experiente, declinou do abacaxi e abraçou a candidatura ao Senado da República. Está rindo à toa, sentado na prerrogativa de foro adquirida nas urnas da Bahia. Se a Lava Jato não lhe importunar até 31 de janeiro de 2019, somente poderá fazê-lo depois de oito anos.

Entretanto, Lula sinalizou para que Jaques Wagner passe a coordenar a campanha de Haddad, diante do clima de desânimo que tomou conta do candidato, após o primeiro turno das eleições, tendo em vista que ainda persiste a divisão do PT no que tange à candidatura Haddad.

Também faz parte da equipe que tenta mudar os rumos da campanha presidencial petista o ex-guerrilheiro Franklin Martins, homem de estrita confiança de Lula e profundo conhecedor de suas intenções na área da imprensa e Gilberto Carvalho, “o seminarista” de Santo André, pés e mãos de Lula.

A preocupação petista é que Jair Bolsonaro cresceu em todas as regiões, exceto no Nordeste, o que já era esperado. Isto tem dificultado as negociações do núcleo da campanha de Haddad para angariar apoios no segundo turno.

Os eleitores de Bolsonaro não se vinculam a líderes partidários e por isto a ausência de canais na campanha de Haddad tendentes a atrair tais eleitores para seu lado e mais alguns incautos.

Certo mesmo, por enquanto, só o apoio do lulista convicto Ciro Gomes, o que já se esperava e também o pífio apoio do invasor de propriedades Guilherme Boulos.

Haddad forçosamente terá de tentar dialogar com a indiferença, com o antipetismo e com os eleitores decepcionados com os desacertos da era Lula/Dilma.

É um tanto difícil.

araujo-costa@uol.com.br

Haddad e a sabedoria de Jaques Wagner

Diz o conhecido ditado popular que “água de morro abaixo, fogo de morro acima e eleitor querendo trair, ninguém segura”.

O encerramento da campanha de primeiro turno de Fernando Haddad dar-se-ia no ABC paulista, mais precisamente em São Bernardo do Campo, berço do Partido dos Trabalhadores e local da residência de Lula da Silva. Este é um simbolismo muito caro ao lulopetismo.

Todavia, o vertiginoso crescimento do capitão da reserva do Exército Jair Bolsonaro nas pesquisas de opinião, mormente no Nordeste, reduto de Lula até aqui inquestionável, fez com que a direção da campanha do candidato petista o deslocasse para o município baiano de Feira de Santana, salvo alguma mudança de última hora.

Lá, mais à vontade, ao lado de Jaques Wagner e do governador Rui Costa, Haddad vai repetir o discurso lulista de defensor dos pobres e oprimidos.

A estratégia parece errada, como outras que o PT adotou nesta campanha. Na Bahia, Jaques Wagner e Rui Costa, salvo improvável tsunami nas urnas, estão com a eleição garantida para o Senado e governo da Bahia, respectivamente, ao passo que há outros lugares mais desfavoráveis a Haddad, que precisam da presença dele.

Todavia, o PT quer encerrar a campanha com apoteose e a Bahia é o lugar ideal, porque a maioria do eleitorado vota no PT, segundo os institutos de pesquisas, diferentemente do ABC paulista. Na Bahia, todo mundo o agrada, eleva-o à glória, exalta-o.

Quanto ao sensato Jaques Wagner é homem de partido. Desde a indefinição do nome de Lula, em razão de entraves jurídico-processuais, ele entendia que, no caso de impedimento do ex-presidente, o PT não deveria lançar candidato próprio, mas apoiar um nome viável de outro partido.

Wagner tinha simpatia por Ciro Gomes que, segundo ele, ainda tem chances de corresponder às “expectativas dos eleitores”.

O PT não aceitou a sugestão do ex-governador baiano. E Jaques Wagner passou a falar a mesma língua do partido e até embarcou na patacoada do ineficaz movimento “Lula livre”, embora soubesse que Lula estava juridicamente impedido de disputar a eleição presidencial. Mas é homem de equipe, estava fazendo o seu papel.

Jaques Wagner era o nome ideal para substituir Lula na chapa presidencial de 2018. Esperto, declinou da condição e preferiu a eleição para o Senado da República, que lhe garante oito anos de mandato, além de foro privilegiado.

Sobrou para Fernando Haddad, a outra opção de Lula.

Haddad segurou o rojão, embora uma parte dos petistas graúdos não o quisesse. Houve muita conversa,  Lula bateu o martelo e mandou que todos obedecessem.

No PT ainda é muito clara a máxima “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. E quem manda no partido é Lula e os demais obedecem, baixam a cabeça, subservientemente.

Contudo, Haddad não é homem de palanque. É uma cria da universidade. Intelectual, professor, mestre em economia e doutor em filosofia. Tem dificuldade de conviver com as cobras e lagartos petistas. Haddad tem pinta de sério e de defensor de suas convicções, o que é muito difícil estando no PT.

Em recente visita a Juazeiro da Bahia, Haddad ficou visivelmente desconfortável, quando um militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra colocou um boné vermelho na cabeça do candidato presidencial. Haddad o tirou de imediato. Percebeu a gafe e o recolocou, mas, em seguida, livrou-se do incômodo boné. Um pouco de timidez, quiçá falta de costume com a demagogia das campanhas eleitorais.

Quando o PT o abandonou em 2016, depois de derrotado na disputa pela reeleição de prefeito de São Paulo, Haddad esteve em vias de deixar o partido, mas o esperto e estratégico Lula o impediu. Lula sabia o que estava fazendo.

Agora, às vésperas do primeiro turno, Haddad encarna o sonho de vitória dos petistas e aliados e ostenta a dificuldade de carregar o pesado fardo com os erros do partido. Até o momento, não tem conseguido justificar o conteúdo da maracutaia que o PT lhe passou às mãos.

Difícil mesmo de Haddad carregar é a tendência do eleitor no sentido de aderir à candidatura de Bolsonaro nesta reta final da campanha.

Não deixa de ser uma preocupação para o polido Fernando Haddad. Se ele for eleito, sairá das urnas com cacife suficiente para mudar o rumo das práticas estrambóticas do PT e firmar-se como líder à semelhança de Jaques Wagner.

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