A submissão das Forças Armadas ao poder civil.

O comandante do Exército em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo de 09/09/2018 esclareceu o que todo brasileiro precisa saber: “As Forças Armadas são instituições de Estado, de caráter apolítico e apartidário”. E pronto.

Disse mais, que Jair Bolsonaro não é candidato das Forças Armadas, embora capitão da reserva do Exército. Bolsonaro é político, deputado federal, exerce função política. E pronto.

O candidato a vice-presidente de Jair Bolsonaro é general da reserva do Exército. E pronto.

Eventual governo de Jair Bolsonaro será civil, porquanto eleito pelas regras democráticas e não governo militar. E pronto.

No regime democrático, as Forças Armadas se submetem ao poder civil, independentemente de quem seja o presidente da República, que é o seu comandante supremo.

O que as Forças Armadas não admitem, por óbvio, é bater continência para eventual presidente eleito contra a lei, contra as regras democráticas, ao arrepio dos ditames legais. Não podemos esperar isto de nossos militares do Exército, Marinha e Aeronáutica. Eles não vão fazer isto, em respeito à hierarquia, à ética, ao Brasil, à Pátria, aos símbolos nacionais.

Dito isto, agora um lembrete: em 25/07/1966, a esquerda explodiu uma bomba no saguão do aeroporto dos Guararapes, em Recife, causando duas mortes e quatorze feridos. A bomba era destinada ao então ministro do Exército Arthur da Costa e Silva, anos depois presidente da República, mas atingiu fatalmente um jornalista funcionário do governo de Pernambuco e um vice-almirante.

Naquele dia, o ministro Costa e Silva participava de atos de campanha no prédio da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), mas não foi envolvido no atentado, para decepção dos autores da ação tresloucada.

O resto da história e da escuridão pela qual o Brasil passou anos seguidos todos conhecem.

Em 2018, bastaram se acirrarem os ânimos da campanha presidencial, para integrantes da esquerda radical, certamente espelhando-se no exemplo reprovável de seus antepassados, atentarem contra a vida do candidato Jair Bolsonaro. Pior: o porralouca que esfaqueou o candidato declarou à polícia que o fez por razões políticas, o que obrigatoriamente lhe remeteu para a Lei de Segurança Nacional. Repete-se 1966, 1968, 1969…

A democracia está ferida, feridos estão nossos símbolos nacionais, feridas estão as urnas que colherão nossos votos.

Passadas algumas décadas, a esquerda imbecilizada e incompetente não aprendeu a lição. Diferentemente de 1966 – época do caso de Recife – quando vivíamos numa ditadura, hoje estamos no saudável regime democrático, que não comporta atos dessa natureza, em nenhuma hipótese. A esquerda não consegue entender. É uma questão de inteligência ou falta dela.

As contestações devem ser feitas civilizadamente, pelas vias do diálogo, através do debate, das urnas, do convencimento. Derramar sangue de compatriotas por discordar de ideias antagônicas afigura-se estupidez, idiotice, um atestado de incomprensão.

De qualquer forma, as Forças Armadas do Brasil de hoje se submetem ao poder civil, porque assim diz a Constituição da República, não importa se o presidente eleito é de direita ou de esquerda. Importa se investido no cargo mediante sufrágio popular e legítimo, de acordo com o nosso ordenamento jurídico.

Entretanto, os imbecis continuam por aí, violentos, soltos, idiotas, ávidos para tumultuarem o ambiente político. Não terão sucesso.

araujo-costa@uol.com.br

O petista Lula que os petistas não conhecem

Segundo turno das eleições presidenciais de 1989. Alberico Souza Cruz, poderoso diretor de telejornais da Rede Globo, editou o debate havido entre os candidatos Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva.

Noticiada pela imprensa, a edição do debate deu-se numa sexta-feira e no sábado seguinte, a pedido de Lula, oito mil militantes foram protestar na porta da TV Globo contra a emissora.

A eleição aconteceu no domingo, 17 de dezembro. Lula da Silva perdeu por pequena margem de votos, derrota atribuída à montagem do debate vista como grosseira e desonesta, a favor de Collor.

A TV Globo puxou a sardinha para o lado de Collor, que saiu vitorioso com 53,03% dos votos. Lula teve 46,97%.

Enquanto os manifestantes se apinhavam na porta da TV Globo, no Rio de Janeiro, Lula da Silva jantava, escondido, com a direção da emissora, a convite do próprio Alberico Souza Cruz, que manipulou o debate contra ele.

– “Derrubamos 3 litros de uísque”, contou Lula depois. E ponderou: “não vou brigar com a Globo, né?”.

Os manifestantes e defensores de Lula fizeram papel de bobos em frente à Globo. Protestaram, esgoelaram-se, levantaram bandeiras, gritaram palavras de ordem e Lula lá, em jantar com a direção da emissora, comendo, bebendo e extasiando-se.

– “Aquilo doeu e me pareceu falta de dignidade pessoal”, disse César Benjamin, ícone da esquerda do Brasil, fundador do PT e um dos responsáveis pelo protesto. Depois disto ele abandonou o PT.

Até o íntegro Leonel Brizola ficou indignado com a edição do debate e comprou a briga com a TV Globo. E Lula lá, fingindo que estava brigando com a emissora.

Até hoje tem militantes que embarcam nas lorotas de Lula e pensam que ele é contra a Rede Globo, ao ouvirem suas bravatas. Lula da Silva “joga pra galera”, de acordo com o momento. É um esperto estrategista político. Sabe dizer na hora certa o que a militância quer ouvir.

Curioso é que Lula da Silva considerava Fernando Collor inimigo figadal, mas quando assumiu o poder uniu-se a ele e passaram a viver aos abraços até hoje, um defendendo o outro. Coisas do amor.

A inimizade começou porque na campanha eleitoral, Collor divulgou assuntos da vida pessoal de Lula, o que não vem ao caso citá-los. Convenhamos, vida pessoal não deve ser misturada com campanha eleitoral. É baixaria, mau caráter.

Há outros episódios que Lula da Silva protagonizou às escondidas de seus admiradores, como a greve de fome que simulou quando estava preso no DOPS paulista no tempo da ditadura militar.

Mas esta é outra história que, de tão hilária, entrou para o folclore lulista.

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Curaçá: um registro sobre Maurizio Bim

“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D. Helder Câmara)

Nas amizades, a confiança é atraída pelo diálogo, embora nem sempre ela tenha o condão de nascer de frequentes conversas. A confiança quase sempre surge casualmente, como se, depois de uma peregrinação, encontrasse lugar seguro para pousar.

Neste “mundo coberto de penas”, como dizia o mestre Graciliano Ramos, as amizades se desgastam facilmente e se perdem nos labirintos das incompreensões, que são muitas, amiúde.

Contudo, algumas surgem subitamente, surpreendentemente. E ficam, ainda bem que surgem e ficam.

Em Curaçá, amparo de minha aldeia Patamuté, o tempo me presenteou com amizades que perduram até hoje, algumas construídas na juventude, outras no decorrer do tempo e outras poucas já em minha ostensiva fase de chatice, quando passei a me levar muito a sério, o que não é bom, nunca foi bom, nunca será bom.

A pureza da juventude esvaiu-se-me e me tornei um sujeito esquisito, tosco, arredio, às vezes incompreensível. Passei a confiar menos nas pessoas, quiçá em razão dos tropeços, da poeira engolida nas estradas, das decepções enfrentadas ao longo da caminhada e de minha incompatibilidade de conviver com hipocrisias.

Não tenho conseguido ajoelhar-me diante da arrogância, mas sei entender os antagonismos, discernir as aparências. E nas encruzilhadas das incertezas, tentei seguir o caminho menos espinhoso, a direção possível.

Viver exige lhaneza, simplicidade, afabilidade, o que me falta a todo tempo. Mas resisto em ceder às tentações para não me tornar grosseiro, indesejável, ferino, estúpido.

Às vezes é preciso que derrubemos os anteparos para que a luz que está do outro lado desponte e traga clareza ao nosso caminhar e à necessidade de sermos humildes. A esperança sempre nos permite alcançar o outro lado da luz.

Dentre os amigos mais jovens que conquistei em Curaçá está Maurizio Bim.

Nossos contatos se estreitaram depois que ele lançou o livro História da Imprensa de Curaçá, resultado de cuidadosa pesquisa sobre a história do município, mormente relativamente à tenra imprensa local.

É muito difícil cultivar a seriedade nesta quadra do tempo. Maurizio consegue, não obstante o monturo de influências externas que nos abalroam diariamente. Encaminhou-se para a pedagogia, o jornalismo e para o ofício de escritor, áreas que domina com competência e desenvoltura.

Maurizio é filho da professora Dionária Ana Bim e recebeu da mãe – e certamente também do pai – o gosto pelas coisas sérias, a arte de dirigir o espírito para a investigação da verdade e, sobretudo, o caráter irrepreensível.

Dionária foi minha professora no Colégio Municipal Professor Ivo Braga e a tenho em alta consideração. Foi professora é modo de dizer, continua sendo. Não se esquecem as boas lições, não se esquecem os mestres, não se esquecem os bons ensinamentos.

O livro História da Imprensa de Curaçá é uma promissora iniciativa que Curaçá passou a dispor para o enriquecimento e sedimentação de sua história. Leitura agradável, enriquecedora, formidável.

Anos depois, em novembro de 2015, Maurizio fez mais uma façanha, dentre outras: lançou o livro, Barro Vermelho – memória e espaço, obra também cuidadosamente lastreada em pesquisas sobre o elegante distrito curaçaense, sua gente, suas raízes e sua cultura. Um indestrutível e perene monumento ao lugar.

O lançamento do livro aconteceu no Memorial Filemon Gonçalves Martins, marco da cultura musical e da história de Barro Vermelho. Tive vontade, mas não pude estar presente.

Todavia, além do registro da amizade, o que conta aqui é o registro de sua generosidade. Quando ele me apresentou a História da Imprensa de Curaçá fez constar na dedicatória: “É preciso que lembremos, mas também é mister que os outros saibam para que a todos seja comum”.

Pensamento de grandeza, de desprendimento, de compartilhamento do saber.

Maurizio Bim faz parte dos intelectuais que não gostam de pedestais. Aí está sua grandeza, o orgulho da humildade.

araujo-costa@uol.com.br

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Deixo de citar o crédito da foto por desconhecer a autoria, o que não invalida o respeito pelo autor.

Candidato sem noção

O presidenciável e invasor de propriedades Guilherme Boulos (PSOL) distribuiu nota atribuindo o incêndio do Museu Nacional ao presidente Michel Temer.

Ele não disse que a diretoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que administra o Museu Nacional, é formada de filiados ao seu partido, o PSOL: o reitor, a vice-reitora, a pro-reitora de Extensão, o pro-reitor de Pessoal e o decano, além de outros, certamente.

Boulos também não disse que o Museu Nacional existe há 200 anos e os presidentes anteriores nada fizeram por ele, inclusive os do PT, que pariu o PSOL. Lula da Silva e dona Dilma fizeram alguma coisa em benefício do Museu?

Ele também não disse que o Ministério da Cultura dos últimos governos foi aparelhado para ser um cabide de empregos da esquerda, que está se lixando para a cultura, incluído o Museu Nacional.

Michel Temer está governando por aproximados dois anos, aliás botado lá por Lula da Silva, que o impôs como vice de dona Dilma por duas vezes. Como pode ser responsabilizado pelo incêndio do Museu, resultado da negligência governamental por seguidas décadas?

Grande parte do mal do Brasil se deve ao descaso e à hipocrisia desses mentecaptos.

araujo-costa@uol.com.br

O PT parece encaminhar-se para o bom senso

Membros do Partido dos Trabalhadores que têm poder de comando – ou, pelo menos, suas opiniões pesam nalguma direção – não querem o nome do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad como substituto de Lula da Silva na condição de cabeça da chapa presidencial.

José Dirceu, que está solto por gratidão de seu ex-empregado Dias Toffoli e ainda tem voz e influência no partido, disse em data recente que “até as pedras” querem o ex-governador da Bahia Jaques Wagner.

Ocorre que Jaques Wagner labora com a possibilidade de eleição garantida para uma vaga no Senado Federal e, compreensivelmente, não aceita a aventura de disputar a presidência. A Bahia certamente lhe vai garantir o Senado. O homem é bom de urna e de voto. E de conversa.

Nas caatingas do sertão nordestino há um ditado popular, segundo o qual, “mais vale um passarinho na mão do que dois voando”.

O carioca Jaques Wagner captou o significado da expressão, tanto que vinha insistindo que Lula deve ser o candidato. A eleição ao Senado Federal lhe assegura prerrogativa de foro, o chamado foro privilegiado, que ele vai precisar.

Tudo conversa fiada, lorota. Jaques Wagner sabe que Lula não pode. Lula sabe que não pode. O PT sabe que Lula não pode.

Fernando Haddad é um sujeito decente, educado, culto, advogado, professor universitário, inteligente, ético e, sobretudo, disciplinado. Ainda não lhe grudou a pecha de demagogo, como os demais candidatos que estão por aí.

Todavia, se Haddad ganhar a eleição, é possível que o PT o transforme da posição de possível estadista para a de assíduo frequentador das páginas policiais. O PT é bom nisto. Aliás, quase todos os partidos políticos são especialistas em transformar seus líderes em meliantes.

Contudo, ainda não pesam acusações sobre Haddad que o desabonem, exceto algumas em fase inicial, mas nada que ostente provas sobre possíveis arranhões em sua conduta. Por enquanto, é a pessoa ideal para substituir Lula da Silva.

Haddad pode trazer credibilidade ao combalido PT e ânimo à militância, vez que, parte dela, já demonstra vergonha de declarar-se em público que é petista, diante dos escândalos e prisões de graúdos dirigentes, todos acusados de “amigos do alheio”, tais como: José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Vaccari Neto, Sílvio Pereira, Lula da Silva, et cetera.

O imbróglio já esteve mais complicado. Parece que o PT encaminha-se para o bom senso: a definição da candidatura de Haddad, mesmo sendo empurrado por Lula da Silva goela abaixo de petistas resistentes.

Entretanto, a batalha nos tribunais vai continuar. Lula da Silva tem 24 advogados constituídos em diversas frentes, inclusive eleitoral, todos aptos a arrancarem estratosféricos honorários do ex-presidente, que tem muito dinheiro para bancá-los.

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A recaída do ministro Edson Fachin

Até há pouco tempo os feitos mais notórios da biografia do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, tinham sido o discurso de tietagem política que fez em favor de dona Dilma Rousseff, que lhe presenteou com o cargo e a homologação destrambelhada e apressada da delação premiada do bilionário dono da JBS, façanha que o ministro fez em comum acordo com o então procurador-geral da República Rodrigo Janot, delação esta que veio a ser desmascarada, tamanha a maracutaia nela envolvida. A própria Procuradoria-Geral da República pediu depois a anulação daquela delação fajuta.

À semelhança do aluno Sandoval Quaresma, da escolinha do professor Raimundo (“estava indo tão bem!”), Fachin vinha bem até pronunciar seu voto contraditório e injustificável no Tribunal Superior Eleitoral, a favor do registro da candidatura de Lula da Silva.

Na estrutura do voto, em si, não há o que reparar. Trata-se da convicção do juiz Fachin. Todavia, estranha-se o desconhecimento e o atabalhoamento do ministro Fachin sobre os pontos que adotou quanto ao famigerado parecer do comitê da ONU, que qualquer primeiranista de Direito sabe, porque são informações constantes nos manuais de Direito Internacional e até em notícias de jornais.

O que o ministro Fachin não sabe ou finge que não sabe:

Primeiro: a diferença entre o comitê que deu o parecer a favor de Lula da Silva, assinado apenas por dois de seus membros e não pelos dezoito que o compõem e o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU que, de fato, representa os Estados soberanos, as nações unidas;

Segundo: o comitê não tem papel jurisdicional e, logo, suas recomendações não têm efeito vinculante, ou seja, não são obrigatórias e, tampouco, estão acima das leis brasileiras ou de qualquer país. O comitê não pode alterar o ordenamento jurídico de qualquer país sob pena de arranhar a soberania das nações. No caso, a lei da ficha limpa, constitucional e aprovada pelo Poder Legislativo brasileiro;

Terceiro: o comitê não representa as nações e é formado por peritos independentes cuja função precípua é tão-somente fazer relatórios e não determinar. Eles exercem função burocrática e não decisória. O máximo que suas atribuições permitem é recomendar procedimentos. Recomendar não é obrigar.

Mais: no caso de Lula da Silva, o comitê sequer consultou o Brasil sobre o assunto, antes de emitir o parecer, o que contraria flagrantemente o princípio do contraditório exigido para esses casos. Mais ainda: a delegação permanente do Brasil, em Genebra, já havia expedido entendimento no sentido de que o documento do comitê não tem nenhuma praticidade quanto ao caso de Lula da Silva.

Entretanto, o ministro Fachin entendeu que Lula é inelegível, porque assim diz a lei, mas pode disputar a eleição presidencial. Ou seja, Lula é Lula, mas não é Lula. O entendimento do ministro Fachin ficou nas nuvens, isolado, até por uma questão de bom senso e lógica jurídica.

Os demais ministros do Tribunal Superior Eleitoral não podiam acompanhá-lo. Não havia amparo legal para acompanhá-lo.

Pergunta-se: qual o efeito prático para o Brasil que um candidato, Lula da Silva ou  qualquer outro, possa disputar eleição, estando legalmente impedido e cuja eleição será inevitavelmente comprometida, o diploma cancelado e o eventualmente eleito impedido de assumir?

O ministro Fachin diz que pode. E apequenou-se.

A posição do ministro Edson Fachin parece clara e indubitável: uma recaída em suas posições de tietagem política.

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Michel Temer, Aécio Neves e outros “inocentes”

“Nenhuma soma de experiência pode provar que se tem razão, mas basta uma só experiência para mostrar que se está errado” (Albert Einstein)

Os construtores de Brasília tiveram a ideia de nominar a residência oficial da vice-presidência da República de Palácio do Jaburu, aquela ave de pescoço comprido que vive a espreitar os circunstantes.

Presume-se que, se o presidente Michel Temer, que lá mora, tivesse esticado o pescoço, à semelhança do jaburu, talvez houvesse notado o gravador que Joesley Batista carregava no bolso e gravou as conversas suspeitas entre ambos, tarde da noite, nos porões do palácio.

Michel Temer diz que nada houve de ilegal naquela conversa, que é inocente, coisa e tal. É tão comovente que passa a impressão que naquela noite eles ficaram rezando o terço, lendo versículos da Bíblia e orando pelo bem dos brasileiros.

Até hoje me parece estranhíssimo que o Gabinete de Segurança Institucional e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), o serviço secreto do governo, não tenham detectado a geringonça no bolso do visitante e liberado a entrada em palácio, talvez até com um sorriso generoso dos agentes da segurança presidencial. Ou não quiseram detectar.

Um sistema de segurança pessoal do presidente da República como este não pode ser levado a sério.  É falho, é ineficiente, é tosco.

Por outro lado, o senador Aécio Neves, que se diz honesto – e não estou afirmando o contrário – também caiu na arapuca do sofisticado açougueiro dono da JBS e foi flagrado negociando com ele alguns milhões de reais que, segundo as investigações, trata-se de propina.

Aécio diz ser inocente, honesto, correto e que não é homem de pedir propina. Ah bom!

Com aquela cara de relações públicas de boite, Aécio ainda queria ser presidente da República. Caiu na desgraça, decepcionou seus 51 milhões de eleitores e agora disputa uma vaga de deputado federal, para não perder o foro privilegiado.

A presidência da República passou a ser tão banalizada que seus últimos inquilinos – Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer – estão sendo acusados de negociarem propina em suas dependências. Um horror.

É o que dizem Antonio Palocci, amigo e ministro de Lula da Silva, os marqueteiros de dona Dilma e o bilionário Joesley Batista.

Esse pessoal precisa respeitar os símbolos nacionais e aprender, pelo menos, que “a Pátria confia” em todos nós, inclusive em quem se dispõe a ser presidente da República.

Agora, dona Dilma Rousseff disputa, por Minas Gerais, uma vaga no Senado Federal. Está indo bem nas pesquisas, com grandes chances de ser eleita, mas houve impugnação da candidatura, sob a alegação de que, por ocasião do impeachment da madame, o ministro do STF Ricardo Lewandovski e o PT construíram uma maracutaia para que ela não tivesse os direitos políticos suspensos, contrariando a Constituição da República.

Einstein dizia que basta uma só experiência para atestar que estamos errados.

O presidente Temer, Aécio, Lula da Silva e dona Dilma ainda não conseguiram provar que são honestos, corretos e inocentes. As experiências ao contrário são muitas.

Os brasileiros aguardam.

araujo-costa@uol.com.br

TV Globo, Bolsonaro e falta de seriedade

Não sou daqueles que seguem na embarcação das críticas à TV Globo, simplesmente porque é a TV Globo.

Mas, convenhamos, a entrevista que o Jornal Nacional fez com o candidato Jair Bolsonaro foi um emaranhado de hipocrisia e falta de seriedade, de modo que nada acrescentou em benefício do eleitor, que esperava coisa melhor, tanto do presidenciável quanto da emissora.

Aproximou-se do ridículo a pauta da entrevista, em detrimento de assuntos urgentes de interesse da população que vive ansiosa por um Brasil melhor. Explico por que:

Apartamento funcional: em 1960, quando a capital federal mudou-se do Rio de Janeiro para Brasília, o governo Kubitscheck havia viabilizado os apartamentos funcionais para acomodar a estrutura governamental na nova capital, composta de funcionários federais, diplomatas, parlamentares, membros dos três Poderes da República, etc, por uma razão simples. Todos esses agentes públicos moravam no Rio de Janeiro e foram obrigados a mudar-se para Brasília, por força da transferência da capital e da função que exerciam no governo da República. Logo, por óbvio, precisavam de imóveis para suas residências.

O uso do apartamento funcional não é invenção do candidato Jair Bolsonaro, mas privilégio de todos os parlamentares do Congresso Nacional e até de agentes públicos do Poder Executivo.

Os parlamentares que não ocupam apartamentos funcionais moram em sofisticados hotéis pagos pela respectiva casa legislativa, Câmara dos Deputados e Senado Federal. Há leis que assim dizem e autorizam a esculhambação.

Portanto, questionar candidato, seja Bolsonaro ou outro qualquer, sobre o porquê de usar o apartamento funcional é, no mínimo, falta de sinceridade e uma forma de negligenciar assuntos de interesse da população.

Esse privilégio nunca foi tirado dos parlamentares, porque nenhum presidente da República quis mexer no vespeiro dos parlamentares que lhe dão apoio no Congresso Nacional e os parlamentares, por sua vez, não querem perder a mamata. Nunca arredaram uma palha para acabar com esse privilégio imoral.

TV Globo.  A TV Globo foi fundada em abril de 1965, exatamente um ano após a instalação do governo militar. Não é nenhuma novidade que as Organizações Globo viveram à sombra da ditadura, que lhe sustentou com publicidade oficial, tornando-a a segunda maior emissora comercial do mundo. Mais: sempre noticiou o que interessava à ditadura.

Portanto, não tem sentido a TV Globo melindrar-se porque o candidato Bolsonaro tocou na ferida e lembrou que o fundador da emissora apoiou os governos militares. Significa menosprezar a inteligência dos brasileiros. A TV Globo apoiou os governos militares, sim. Outra época, outro cenário, outra circunstância. Por que a emissora insiste em negar isto?

Comunidade GLBT. Os entrevistadores do Jornal Nacional, mais uma vez, deixaram de lado assuntos mais urgentes de interesse da população. O direito e o espaço desses segmentos sociais já estão garantidos no Brasil e no mundo, através de leis e regulamentos. Os direitos são iguais para todos, independentemente dos valores que cada um carrega dentro de si. Qual a importância de saber, numa sabatina dessa envergadura, se o candidato é contra ou a favor de uma situação que ele não vai e não consegue mudar?

Desigualdade salarial entre homens e mulheres. Esta é uma anomalia existente no mundo inteiro. Países da Europa passam por esse problema, assim como o Brasil. O Brasil precisa ajustar-se, corrigir isto através de leis e sistemas educacionais. Não é culpa do candidato Bolsonaro, nem de nenhum outro candidato que está aí disputando a eleição presidencial.

Todavia, a hipocrisia maior na entrevista foi a apresentadora do Jornal Nacional insinuar que não aceita salário menor em relação a colega do sexo masculino no exercício de função análoga. Chega a ser risível.

A apresentadora deve viver no mundo da lua. Ninguém deixa de aceitar um emprego porque o salário é menor que aquele pago a um colega, seja do sexo masculino ou feminino.

Que as mulheres têm o direito de igualdade de condições, em todos os níveis, isto não se discute, inclusive quanto ao salário. É uma conquista das mulheres e de seus movimentos justos e necessários. E as leis devem assegurar isto.

Mas estes – parece – são os assuntos que a TV Globo entende como prioritários para a solução dos problemas do Brasil.

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Eleições de 2018: candidatos, corrupção e páginas policiais

“Dinheiro é como azeite: por onde passa, amolece” (José Cavalcanti, Patos-PB)

Tenho cá minhas ingenuidades, que são muitas, mas elas não chegam ao ponto de me fazerem acreditar que os políticos de antigamente eram mais sérios, honestos e incorruptíveis e somente os de hoje são embusteiros, corruptos, alguns até “amigos do alheio”, o dinheiro público.

As estátuas que vemos em praças públicas nem sempre são de homens de caráter irrepreensível ou de heróis. Muitas refletem a ruína moral dos homenageados que deixaram a fama de impolutos.

Ocorre que a sociedade de décadas atrás não tinha meios de expor as fragilidades dos seus governantes, tampouco existiam órgãos de controle independentes e eficientes, jornalismo investigativo, imprensa livre e outras formas modernas de alcançar os larápios. E eles reinavam absolutos, como se honestos fossem.

A dificuldade em apontar falcatruas dos governantes residia, inclusive, no medo de perseguição política e no receio que as pessoas tinham de perder cargos, benesses, favores, amizades, apadrinhamentos.

Juízes, delegados e promotores, para ficar nesses exemplos, comumente eram indicados e nomeados pelos poderosos, dentre amigos, amigos dos amigos, parentes, aderentes, eleitores fiéis, et cetera.

Esses agentes públicos, depois de encastelados em suas funções, passavam a atuar no interesse dos chefes políticos aos quais deviam o glamour, a construção da reputação e o cargo vitalício com suas inúmeras vantagens.

Mais: este sistema estrambótico gerou as oligarquias e as elites que se enraizaram e perduram até hoje em todos os estados e se acham intocáveis, insubstituíveis, indiferentes ao clamor público.

Os concursos públicos consistiam apenas em formalidades para cumprimento dos requisitos de provas e títulos, mas o que contava, de fato, era a vontade de quem ostentava o poder e tinha a caneta na mão.

Houve tempo em que um poderoso governador de estado – Deus o tenha na mansão dos mortos ou dos infames – ditava as normas ao seu talante, coadjuvado pela subserviência dos coestaduanos.

Há décadas, dizia-se que em concurso para juiz de direito, tal governador elencou os nomes dos candidatos que deviam ser aprovados e as comarcas para as quais seriam nomeados, exatamente aquelas comarcas dominadas por políticos locais que o apoiavam e se sentiam incomodados com os juízes que lá atuavam, que depois seriam substituídos e transferidos para regiões distantes e inóspitas.

Não é difícil presumir que a comissão do concurso e as autoridades responsáveis pelas nomeações seguiram à risca a determinação do governador.

Corrupção no Brasil “tanto faz ver como saber que tem”. Sempre teve, sempre terá, embora não exista placa indicando onde ela está.

Muitos negam que a corrupção existe. Curiosamente, a negativa vem das autoridades que, de forma hipócrita, fingem não saber e deveriam erigir o bom exemplo. É mais cômodo fingir que não tem do que dizer que tem.

Em 2018, assim como em anos anteriores, muitos candidatos que disputam cargos no Legislativo e Executivo frequentam as páginas policiais com regularidade e não mais o colunismo social, como era praxe em tempos idos.

O que assusta não é a frequência com que aparecem no noticiário policial, mas a cara de paisagem que fazem, como se nada tivesse acontecido ou acontecendo.

É o dinheiro passando e amolecendo.

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Pesquisas eleitorais e conversa para nordestino cochilar

Com a abertura das urnas do segundo turno das eleições de 2014, desenhou-se no Brasil um quadro eleitoral curioso no que tange à geopolítica brasileira.

Entretanto, nada de novo, nada surpreendente, apenas o mapa da vontade popular.

A reeleição da presidente Dilma Rousseff foi assegurada, basicamente, pelos estados da região Nordeste. Lá dona Dilma ganhou folgadamente, em grande estilo.

Isto foi suficiente para que parte da imprensa e as redes sociais lançassem pedras sobre os nordestinos, que precisam mesmo é de sossego para enfrentar os problemas diários, que são muitos. 

Na ocasião, criou-se um clima “nós contra eles” e vice-versa, idealizado por Lula da Silva, com o intuito de fomentar um quê de desavença entre os brasileiros que, graças a Deus, não vingou. Nem vingará.

Com a aproximação das eleições de 2018, o mesmo lengalenga parece que já começa a se repetir, tão-logo foram publicadas as primeiras pesquisas de opinião nos estados do Nordeste.

Nordestino e baiano que sou, quero meter o bedelho nessa conversa insossa, excessivamente idiota, desconexa, inoportuna, preconceituosa, abominável.

O pessoal que fala mal dos nordestinos gosta mesmo é de lorota, balela. Ora, o voto é a expressão maior da democracia, que todos dizem querer.

A população nordestina tem o direito de votar em quem bem entender, seja em candidatos da esquerda ou da direita, PT, PSDB, DEM, PSB ou quaisquer outras dessas excrescências partidárias que estão por aí. Eleição não é mesmo para escolher? 

Oportuno lembrar que na região Nordeste, ainda prevalece, com muita clareza, a figura do político sobre a ideologia partidária. O eleitor vota no candidato, independentemente do partido político que o abriga.       

Contudo, os nordestinos são duros na queda. Estamos acostumados com seca, sofrimento, fome, miséria, abandono do poder público, críticas de sociólogos e cientistas políticos e abismos de toda ordem. E continuamos firmes, fortes, decididos e, sempre, dando o que falar. Somos mesmo importantes. E daí? 

E mais: não obstante as constantes safras de políticos ruins, eles ainda não conseguiram destruir o Nordeste. Bem que tentaram.  

Os nordestinos não estão interessados em conversa fiada. Têm o direito de decidir sobre o seu destino. Se a escolha não for bem feita, isto não invalida o direito de escolher. Escolher errado também faz parte do exercício democrático.

Apesar de insinuações descabidas, em 2014 o senhor Aécio Neves perdeu a eleição não por culpa dos nordestinos. Perdeu porque dona Dilma teve mais votos. Só isto. A democracia é assim, a maioria vence e a minoria baixa a crista.

Havemos de nos submeter às regras. E as regras dizem que a disputa dá-se nas ruas e nas urnas quem tiver mais votos vence. É lógico, razoável, incontrastável, inquestionável.

Essa conversa cabeluda de que a eleição de 2014 dividiu o Brasil entre Nordeste e estados do Sul e Sudeste e que o fato tende a se repetir em 2018, tem tanta importância quanto a falta de importância. É de somenos, coisa de gente que não está acostumada com as surpresas das disputas eleitorais.

Nós nordestinos conhecemos muito bem isto. Desde sempre convivemos com campanhas eleitorais. Temos experiência até para dizer que o candidato que tiver maioria nas urnas de outubro em nada vai resolver a situação do Nordeste. Nem do Brasil. Mas fará o seu papel de demagogo, como todos fazem em épocas eleitorais. Dirá estrategicamente o que o povo quer ouvir.

Há muita gente do Sul e Sudeste em polvorosa, criticando os nordestinos. Isto nos dá uma malemolência danada. É conversa para nordestino cochilar.

araujo-costa@uol.com.br