Memória dispersa de Chorrochó: Eloy Pacheco de Menezes

“O homem de responsabilidade política não mente, inventa a verdade” (José Cavalcanti, Patos-PB)

Eloy Pacheco de Menezes fez parte de uma época de lutas e turbulências do município baiano de Chorrochó. Integrante de família tradicional, Eloy carregava no nome a marca de uma estirpe muito respeitável naquela região sertaneja: Pacheco e Menezes.  

Em todo o território do município e circunvizinhança, principalmente na zona rural, quando os sertanejos falavam em respeito e dignidade, era comum a referência a “os Pachecos”, como senhores portadores desses atributos tão importantes na vida do povo nordestino.

Um dos legados de Eloy Pacheco de Menezes foi e será a luta constante e intensa que travou, ao lado de Dorotheu Pacheco de Menezes, amigo e confidente, em prol dos interesses de Chorrochó.

Ao consolidar-se a emancipação do município em 12.09.1954, Eloy foi nomeado gestor dos negócios municipais, uma espécie de prefeito provisório, por decreto do então governador da Bahia, Luís Régis Pacheco Pereira. Nessa condição, foi o responsável pela instalação dos serviços públicos do município, enquanto as instituições precariamente se acomodavam.

Todavia, a história registra alguns atributos de Eloy, além dessa arraigada luta política ao lado de Dorotheu: o caráter inflexível, a dignidade e a intransigência quando, eventualmente, sentia sua honra ameaçada. Noutras palavras, era valente, pavio curto e, sobremaneira, decidido. Em defesa da família e de seus valores morais, tornava-se impassível, afoito, corajoso, audaz.

Como diria Raul Pompéia (O Ateneu), Eloy tinha “as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter”. Não arredava o pé de seus alicerces, de seus valores, dos ditames de sua consciência.

Embora Chorrochó, através dos órgãos de cultura, nunca tenha evidenciado o papel de Eloy Pacheco de Menezes na história do município, é inegável sua contribuição para edificar os alicerces de que hoje o município dispõe.

Eloy foi um daqueles senhores intransigentemente engajados na luta em defesa do município. Dir-se-ia convicto, seguro dos valores que defendia, apegado aos seus pontos de vista.

Eloy viveu numa época em que evidenciava-se a ausência de entendimento entre as lideranças municipais, fato esse que direcionava os assuntos políticos para o terreno das relações pessoais. Tempos difíceis, em que a convivência entre os políticos e líderes locais dava-se de forma arredia, desconfiada, vigilante, atenta.

Naquele tempo, as correntes políticas de Chorrochó eram diuturnamente vigilantes em relação aos adversários. Entretanto, Eloy nunca subestimou o lado contrário, mas não vergava quando o assunto era o arranhar de sua honra.  Em razão disto, tinha fama de duro, valente, intransigente.

Aqui, o fundo de verdade é de ordem geral. O homem nordestino daquele tempo era sobremaneira zeloso com sua honra e construía a reputação alicerçada no respeito e na palavra empenhada.   

Casado com Maria Argentina de Menezes, elegante senhora da sociedade chorrochoense, Eloy constituiu família honrada e decente que enriquece Chorrochó até hoje, através de sua valiosa e respeitável descendência. Transmitiu aos seus filhos a mesma retidão de caráter que ostentou até a morte.

Eloy, a esposa Maria Argentina de Menezes e os filhos Ernani do Amaral Menezes, Maria Menezes (Pina) José Eudes de Menezes (Iê) e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó) contribuíram, cada um a seu modo, para uma quadra inesquecível da história de Chorrochó, que deve muito a todos eles.

A história de Chorrochó precisa retirar Eloy Pacheco de Menezes do esquecimento e colocá-lo à luz do conhecimento das novas gerações.

araujo-costa@uol.com.br   

Sobre maus tratos aos animais

Este é um lembrete às autoridades, aos políticos, às pessoas que votam.

Talvez com a intenção de chamar a atenção quanto aos maus tratos, pessoas postam nas redes sociais imagens tristes de animais judiados, abandonados, agredidos, famintos, sofridos, espancados, feridos.

São imagens que nos fazem refletir sobre a crueldade que pessoas carregam dentro de si e são incapazes de imaginar que, assim como nós, os animais também sentem dor, fome, sede, abandono, carência de atenção e necessidade de afeto, de medicamentos, de amparo.

Impressionante como é grande a quantidade de pessoas que pratica crueldade aos animais. Entristece-me ver imagens que, no mundo de hoje, simplesmente não deveriam existir.

Aos poucos estão surgindo leis que punem essas pessoas cruéis, maldosas, repulsivas. Entretanto, ainda falta um aparato legal e policial no Brasil para investigá-las, puni-las, prendê-las.

Urge que em cada município seja criado um fundo para proteção aos animais, de tal forma que, pessoas que os maltratam, além da punição criminal, devam ser severamente obrigadas a pagar pesadas indenizações revertidas em prol de entidades que lutam em defesa dos animais.

Imaginemos um animal sendo espancado, indefeso e frágil, sem ninguém por perto que possa evitar a ação furiosa do desprezível agressor. É muito triste. É inaceitável. Até o olhar de um animal sofrido é dilacerante.

A sociedade evolui, mas as pessoas se embrutecem cada vez mais .

Mesmo em se tratando de abate, nos casos permitidos, o procedimento deve evitar o sofrimento do animal. É o mínimo que se espera de uma sociedade que se diz civilizada.

araujo-costa@uol.com.br

Conversa do PT para boi dormir

“Se não puder convencê-los, confunda-os” (Harry Truman)

Se a “determinação” da ONU, para que o Brasil permita a participação de Lula da Silva nas eleições de outubro, tiver a mesma e costumeira força que sempre teve quando a organização “determinou” o fim das guerras da Síria, Iraque, Bósnia, Afeganistão, conflitos no Oriente Médio e et cetera, a situação eleitoral de Lula não vai mudar um milímetro.

A ONU não “determinou”, como espalhafatosamente diz o PT, simplesmente porque, neste caso, não pode determinar. Apenas recomendou. Qualquer manual de Direito Internacional explica isto.

Mais: não foi a ONU que “determinou”, mas um comitê técnico da instituição que recomendou. É um parecer preliminar. Só isto. Salvo melhor juízo, o parecer ainda precisa ser submetido ao Alto Comissariado de Direitos Humanos.

As eleições de qualquer país democrático obedecem às leis internas e a comunidade internacional abrigada na ONU obedece ao princípio de autodeterminação dos povos.  O resto é balela.

A ONU nunca foi e não é capaz de aniquilar a fome no mundo, a exemplo dos países africanos, não é capaz de por ordem em situações degradantes como a que está passando o povo da Venezuela, imaginemos se é capaz de “determinar” que o Brasil seja obrigado a obedecê-la quanto ao caso de Lula da Silva.

A ONU nunca foi capaz de evitar que guerras e conflitos internos em países dominados por ditadores e governantes medíocres matassem centenas de milhares de crianças, idosos e inocentes civis e deixassem mutilados outras tantas centenas de milhares, assim como nunca foi e não é capaz de minorar o sofrimento de milhões de famintos dispersos no mundo.

A ONU é um pêndulo necessário às nações que se dizem unidas, um conchavo entre países, mormente os ricos, para a instituição dizer que resolve os problemas do mundo.

São os tribunais brasileiros que vão decidir a situação jurídica de Lula da Silva e não a ONU. Afirmar de modo diverso é confundir a opinião pública. O PT está fazendo isto.

O PT adotou a frase atribuída a Harry Truman; “Se não puder convencê-los, confunda-os”.

O PT deve disputar as eleições presidenciais, com Lula ou sem Lula, dentro das normas democráticas a que os demais partidos se submetem. Tentar confundir a população beira a ingenuidade. Chega a ser desespero.

Mas as piadas também fazem parte do folclore eleitoral.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá, pedaços de saudade.

Desvanecido recebo manifestação de Antonio Edmar de Araújo (Tuna), baiano de Curaçá, que mora em Itabuna, sobre a crônica Curaçá, pedaços de saudade*publicada neste espaço em 11/08/2017.

Edmar é filho ilustre de D. Nenzinha, ícone da cultura curaçaense o que, por si só, lhe engrandece diante de seus conterrâneos aos quais me incluo.

Reproduzo abaixo a crônica em referência, com o intuito primeiro de evidenciar a memória das pessoas citadas e em deferência à insigne presença dos que ainda vivem. Também para fazer algumas correções necessárias, em respeito àqueles que perdem tempo em ler meus textos.

O respeito aos leitores pressupõe a publicação de textos escorreitos, inclusive no que tange à linguagem e técnicas de escrita. Confesso, não tenho conseguido. Por isto, penitencio-me diante de todos. Eis a crônica:

Curaçá, pedaços de saudade.

Primeira metade da década de 1970. Antes de morar na pensão de Maria de Fortunato (Maria de Lourdes Lopes), eu morava no Curaçá Hotel, um casarão de grandes janelas na esquina da Rua Coronel Pombinho, que traduz o estilo das primeiras construções da cidade sanfranciscana.

Os proprietários Maria Roselita Xavier e Adelson Xavier tocavam o empreendimento com dedicação. Mais parecia uma confraria entre amigos do que, propriamente, um hotel. Os hóspedes se tornavam amigos entre si, afáveis e confiáveis.

Nos fundos do casarão existia um boteco de frente para a lateral do Teatro Raul Coelho. Era lá que Adelson, Edvaldo Araujo e eu nos encontrávamos para o conhaque de alcatrão.

Adelson tinha pressão alta. Uma vez ele parou a ponte presidente Dutra, que liga Juazeiro a Petrolina. Passou mal no meio da ponte e o trânsito virou um caos. Amigo de verdade, Adelson deixou, além da saudade, algumas histórias engraçadas, que ele contava com humor e irreverência.

Edvaldo Araujo, amigo e colega de trabalho na Prefeitura Municipal, homem de caráter irrepreensível e exemplo de vida, era casado com Maria de Almeida Araujo (D.Nenzinha), a pessoa mais amável que conheci nessas décadas de vida atribulada.

À época, D. Nenzinha exercia o cargo de delegada escolar de Curaçá, função muito respeitável nos quadros da Secretaria de Educação da Bahia. Hoje, não sei se ainda existe essa função. Se existir diminuiu de importância, em proporção à deterioração do ensino, que se dá não por culpa dos abnegados professores, mas em razão de negligência do Estado.

Se não me falha a memória – e ela sempre falha – D. Nenzinha consta no livro-reportagem “Herdeiras de Feliciana: Perfis de Mulheres de Curaçá”, de autoria da jornalista e professora de História Alinne Suanne Araújo da Silva Torres, que ainda não tive a oportunidade de ler, o que é uma pena.

Nenzinha era uma conselheira diuturna dos jovens. Sentia-se bem, orientando-os. Faleceu em 24/04/2013, salvo engano, beirando os 97 anos. Tenho saudade de nossas conversas na calçada em frente de sua residência. Ao fundo, as águas tranquilas e misteriosas do Rio São Francisco.

Naquele encontrar de ruas, Astério Xavier cuidava da agência dos Correios e Juvêncio Oliveira, “seo” Maroto, se ocupava de sua venda de secos e molhados. E nesse cruzar de ruas e esquinas, surgiam os bate-papos sobre amenidades. Eram conversas despretensiosas, convidativas, interessantes.

Como falo de saudade, deixo aqui um registro: nesse tempo, Adelson Xavier Júnior era criança. Cresceu bondosamente e há pouco se retirou de nosso convívio como uma abelha que se vai subindo em direção às alturas.

araujo-costa@uol.com.br

*Hoje volto a publicar a crônica em referência, com o intuito de acrescentar duas fotografias do arquivo da família de D. Nenzinha, que me foram gentilmente enviadas por Antonio Edmar de Araújo. Vale o registro, vale a saudade.

Petistas e lulistas

O jornalista Sebastião Nery conta que Armando Falcão, que foi ministro da Justiça dos presidentes Juscelino Kubitscheck e Ernesto Geisel, candidatou-se ao governo do Ceará em 1954.

Em campanha, encarregou um deputado amigo para organizar grande comício, o que foi feito. O político providenciou palanque, som, iluminação, bandeiras e tudo mais.

Armando chegou e a praça estava vazia. Perguntou: Cadê o povo, deputado?

O amigo usou a sinceridade:

– Armando, se eu tivesse capacidade de trazer o povo para o comício, o candidato não seria você, seria eu.

Quando Lula da Silva estava prestes a ser preso, a bravateira senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, ameaçou colocar o povo na rua e até, irresponsavelmente, usou a expressão “matar gente”, se houvesse a prisão.

Lula foi preso e a população ficou silente, exceto parte desidratada da militância petista, por uma razão muito simples: no Brasil, com quatorze milhões de desempregados, ninguém acredita mais em bravatas de políticos sabidamente embusteiros e, mais, a população tem consciência dos erros de Lula da Silva, independentemente do que dizem os dirigentes petistas e seguidores.

Em visita a Lula no cárcere, sabe-se que o ex-presidente cobrou a promessa da senadora e teria perguntado pelo povo que a senadora disse que ia colocar na rua. Não se sabe a resposta. Nem tem nenhuma importância saber. O que ela fala não tem importância.

Entretanto, sabe-se que no dia de registro da candidatura de Lula no Tribunal Superior Eleitoral, o PT prometeu levar uma multidão para as ruas de Brasília. Bazófia. Foram apenas militantes dos movimentos sociais, com roupas e bandeiras vermelhas, arrebanhados pelos MST e outras organizações que apoiam o partido, aproximados dez mil, segundo cálculo das autoridades.

Há uma diferença basilar neste contexto. Lula da Silva não é nenhuma divindade, mas assemelha-se a um líder messiânico. Tem seguidores arraigados, independentemente de sua situação jurídica, preso ou solto. Quem é lulista não é necessariamente petista. Há admiradores de Lula que não gostam dos métodos do PT.

Petista é uma situação, lulista é outra, completamente diferente. Quem é lulista o é, em qualquer circunstância, incondicionalmente.

Gleisi Hoffmann ainda não entendeu isto. Não vai entender, não tem condições de entender. Sua fanfarronice a impede de raciocinar decentemente.

À semelhança do deputado cearense, a presidente nacional do PT não tem nenhuma capacidade de colocar multidões nas ruas. Se, eventualmente, pessoas forem às ruas, o farão por causa de Lula e  não a pedido de Gleisi Hoffmann.

Primeiro, o povo precisa comer, pagar aluguel, cuidar da família.

Ninguém faz política de barriga vazia.

araujo-costa@uol.com.br

A esquerda tem nomes melhores e respeitáveis

“O caráter, como os rochedos, pode ter fendas” (Victor Hugo, Os miseráveis)

O debate entre os presidenciáveis na TV Bandeirantes tinha tudo para nortear-se no caminho do alto nível, até o momento em que Guilherme Boulos resolveu insultar o deputado Jair Bolsonaro, tentando puxar o nível para baixo, sem sucesso.

Bolsonaro é capitão da reserva do Exército, da arma de artilharia e frequentou a respeitada Academia Militar das Agulhas Negras. Especializou-se em paraquedismo e, como se vê, tem bagagem suficiente para nocautear o incentivador de invasão de propriedades, que é a única coisa que Boulos sabe fazer.

Ficou clara a disposição dos demais candidatos no sentido de serem elegantes, educados, civilizados, respeitosos. Demonstraram que queriam discutir os problemas nacionais e não assuntos pessoais dos adversários.

Até Ciro Gomes optou por deixar a faísca de lado e não acender seu pavio curto e se portou educadamente, que é o mínimo que se espera de um postulante a presidente da República.

Todavia, Guilherme Boulos estava preocupado em falar da “mulher que cuida dos cachorros” do Bolsonaro e da vida pessoal do adversário e não de assuntos sérios. Inventou acusações contra o candidato Bolsonaro, que a história não registra, demonstrando total desconhecimento do período da ditadura militar, quando ambos os lados – esquerda e direita – cometeram crimes e outras atrocidades reprováveis que mancharam o Brasil.

Boulos tem obrigação de conhecer a história. É graduado em  Filosofia e ativista político, além de incentivador de invasão de propriedades.

Razoável é entender que um debate entre presidenciáveis, nesta quadra do tempo, não comporta mais piegas de quem matou quem no período do regime militar. O Brasil é outro, a sociedade exige mudanças e não um constante olhar no retrovisor da história.

Realmente, Boulos destoou dos demais candidatos. Mas não se pode esperar outra coisa dele. Um sujeito que incentiva e comanda invasões de propriedades particulares, sem nenhum respeito ao direito de quem as adquiriu, não pode primar pela decência. Mas é uma questão de caráter e cabe a ele moldá-lo, se quiser. É problema dele, unicamente. Pode melhorar.

Entretanto, vale registrar que a parte da esquerda que apóia Guilherme Boulos tem nomes mais gabaritados, em seus quadros, para representá-la na disputa pelo comando da República.

Há bons quadros, inclusive no partido político que lhe deu guarida para sustentar a candidatura.

A questão de nossos partidos políticos e lideranças nacionais é misturar democracia com esculhambação.  E mesmo em momentos mais graves, como este que o Brasil atravessa, indicam qualquer zé ruela para disputar o honroso cargo de presidente da República.

Em nosso sistema presidencialista, o eleito passa a ser chefe de governo e chefe do Estado brasileiro. Não pode ser qualquer um.

araujo-costa@uol.com.br

Partidos políticos, triplex e elite suprema

“Há de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hipocrisia” (Shakespeare)

É indiscutível que os partidos políticos são essenciais ao exercício democrático, de modo que não existe democracia plena sem agremiações partidárias.

Todavia, não temos partidos políticos conceitualmente considerados, mas um amontoado de interesses em benefício de dirigentes, asseclas e parasitas do dinheiro público.

Nessas eleições previstas para outubro vindouro, temos clareza de sobra para entender que nossos partidos políticos são apenas incoerentes arcabouços jurídicos desprovidos de ideário, todos indiferentes às necessidades da população e de olho no bilionário fundo partidário.

Exemplo: em pelo menos 15 estados, o PT se aliou a partidos políticos que apoiaram o impeachment de dona Dilma Rousseff. Muitos desses partidos fizeram ou fazem parte da base governista do presidente Michel Temer, que os petistas dizem inimigo.

Em 2016, para o PT, esses partidos e seus integrantes eram “golpistas”, inimigos ferrenhos. Hoje são aliados de primeira hora. Onde está a coerência programática?

No Ceará, por exemplo, o canibal PT ameaça engolir seu senador José Pimentel e o proibir de disputar a reeleição, para estrategicamente permitir a vitória do também senador Eunício Oliveira, do MDB de Michel Temer, que ajudou a derrubar a petista dona Dilma Rousseff do governo.

A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que coordena essas composições estaduais a mando de Lula da Silva, passou a ser amiga de infância dos políticos que contribuíram para o afastamento de dona Dilma e que o PT os denominava golpistas.

Triplex

Lula da Silva está preso, por enquanto, exatamente em razão do famoso triplex do Guarujá, que ele diz nunca ter sido dele, mas a Justiça assegura que dispõe de robustas provas que dizem que é e são suficientes para condená-lo.

Ironia. Agora o PT inventou uma chapa triplex, para disputar a eleição presidencial de outubro. A chapa é composta de Lula da Silva, do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad e da comunista Manuela D’Avila. É um engendramento informal, nada mais do que isto.

Assim, não é bem chapa, mas uma expectativa de chapa, com o intuito de escarafunchar brechas na legislação eleitoral e viabilizar a eleição de Lula da Silva. É o direito de espernear, o jus sperniandi.

Ainda não se sabe onde o PT vai chegar com essa inovação eleitoral, mas isto não tem nenhuma importância. O partido é mestre em esquisitices.

A elite suprema está com miopia

O Supremo Tribunal Federal propôs incluir na proposta orçamentária de 2019 um reajuste de 16,38% nos vencimentos de seus supremos ministros, o que elevaria a despesa do Tribunal em R$ 2,77 milhões por ano e causaria um impacto sobre todo o Poder Judiciário da ordem de R$ 717,1 milhões anuais, segundo estimativa preliminar dos técnicos.

O impacto se dará também sobre Executivo e Legislativo. Em consequência, todos terão direito a aumento de vencimentos, o chamado efeito cascata, porque o teto do Judiciário servirá como parâmetro para os demais funcionários públicos das outras esferas de poder.

Parece que o Supremo Tribunal Federal está míope e não enxerga as dificuldades econômicas e sociais pelas quais passa o Brasil, tampouco os quatorze milhões de desempregados.

O STF é uma elite que está precisando de cuidados. E esses cuidados dependem da vigilância da sociedade.

araujo-costa@uol.com.br

Parte da esquerda não leva o Brasil a sério

“Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo” (San Tiago Dantas)

Francisco Clementino de San Tiago Dantas, jornalista e advogado, considerado em sua época – décadas de 1950 e 1960 – o mais abalizado intelectual da esquerda moderada brasileira, foi deputado federal e ministro das Relações Exteriores do Brasil.

A esquerda do Brasil hoje precisa buscar a lição, ensinamento e ponderação de San Tiago Dantas: “Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo”.

Este parece ser o caso do Partido dos Trabalhadores e aliados, ingenuidade mais do PT do que dos aliados: a insistência em manter a candidatura de Lula da Silva no quadro eleitoral de disputa à presidência da República.

Disputar é direito de Lula da Silva, isto não se discute. Contudo, para um ex-presidente da República que apregoa a todo momento a defesa da democracia é, no mínimo contraditório, rebelar-se contra as instituições nacionais, dentre elas o Poder Judiciário.

Sempre entendi que a prisão de Lula da Silva é inoportuna, tendo em vista o dispositivo constitucional que assegura aos condenados de um modo geral – e não somente a Lula – o direito de não ser preso enquanto houver recurso pendente de julgamento. E Lula tem diversos recursos à espera de decisão da Justiça.

Entrementes, o que está acontecendo não é exatamente a discussão jurídica da situação prisional de Lula da Silva, mas o movimento “sem noção” criado pelo PT sob o título “Lula livre”. Explico: a soltura de Lula da Silva não depende de paixões políticas de seus seguidores, mas de obediência ao estado de direito. Isto vale para o Brasil e qualquer país do mundo.

Insurgir-se contra a prisão injusta é direito inalienável do preso, mas para isto existem seus advogados que, no caso de Lula da Silva, são defensores de inegável astúcia e capacitação jurídica.

A Justiça mandou prender, a Justiça que mande soltar, dentro dos trâmites processuais e no momento próprio.

Não estamos em regime de exceção, como diz o PT, tampouco as instituições nacionais passam por estado crítico a ponto de a prisão de Lula da Silva, que se estriba em crime comum, ser entendida como prisão política.

Trata-se de ingenuidade partidária do PT. A sociedade sabe o que Lula da Silva fez e quem o acompanhou nessa conduta reprovável e, por extensão, sabe quais as decisões contrárias à lei e à ética que ele tomou.

Os eleitores também sabem, inclusive os de Lula que, não obstante, continuarão votando em seu nome, se a Justiça Eleitoral permitir, independentemente do que ele tenha feito.

Se a Justiça decidir que Lula da Silva deve participar das eleições de outubro, tudo bem. Mas através do caminho legal e não se subjugando a pressões destrambelhadas de seguidores lulopetistas.

O mínimo que se espera é que o Supremo Tribunal Federal obedeça à lei e aos mandamentos da Constituição da República e não se ajoelhe diante da vontade política de seus ministros.

Mandar prender após condenação em segunda instância é aberração processual e isto é o que o STF está fazendo. Não importa se com relação a Lula da Silva ou milhares de condenados que estão na mesma condição e o PT nunca defendeu.

“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”, mas a pimenta ainda não tinha caído nos olhos petistas. Agora o PT ficou sabendo que só em São Paulo há pelo menos quinze mil presos na mesma situação de Lula da Silva. Vai defendê-los?

O PT tem juristas e mestres respeitáveis em seus quadros e sabe que a prisão de Lula da Silva não é política, mas em razão de crime comum. Qualquer estudante de Direito sabe disto. Até leigos sabem disto.

Insistir nesta idiotice é menosprezar a inteligência dos brasileiros e malícia levada ao extremo. Nada mais do que isto.

A julgar pela quantidade de ex-dirigentes petistas condenados pela Justiça, alguns presos,  é difícil acreditar que o partido esteja preocupado com o Brasil.

Como se vê, parte da esquerda não leva o Brasil a sério, mas apenas os seus bolsos,  ávidos por dinheiro público

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: Theodomiro Mendes da Silva, uma lembrança.

Theodomiro Mendes/Álbum de Theodomiro Mendes Filho

Nossa amizade nasceu em junho de 1968 na igreja de Santo Antonio, em Patamuté.

Padre Adolfo Antunes da Silva, vigário de Curaçá, fazia alguns batizados. Theodomiro e eu estávamos presentes e ali mesmo diante das bênçãos de Santo Antonio a amizade se principiou, germinou, nasceu. Depois floresceu, perdurou, nunca morreu, não podia morrer, não devia morrer.

Já escrevi alhures sobre Theodomiro Mendes da Silva. Lembrei casos pitorescos que vivemos e até, em certos momentos, me serviram de lição, além de contentamento e estímulo para o prosseguimento da caminhada.

Há algum tempo me debrucei sobre uma tarefa ingente, mas precisei suspendê-la: a quase-biografia de Theodomiro. Quase-biografia, porque não me acho capaz de retratar, fielmente, a riqueza de sua vida, de seu caminho percorrido, de sua luta. Destemido, sabia enfrentar situações difíceis sem empurrar o adversário em direção à queda.

Seguro de suas convicções, Theodomiro não abdicava das posições que defendia, mesmo que soubesse inapropriadas para a ocasião. Ao contrário, tinha determinação para caminhar em busca do que pretendia fazer e sustentava-se em si mesmo.

Entretanto, minhas pesquisas encontraram alguns obstáculos, dentre eles a escassez de tempo para entrevistar pessoas mais próximas de seu convívio, parentes, familiares, amigos da época, quem restou do que passou. E passaram muitos.

Caatingueiros ele e eu, a diferença é que vim de um berço muito pobre, nascido nos barrancos do Riacho da Várzea, em meio a cactos e pedras disformes, amarfanhado pelas intempéries da seca e ele descendia de família bem posta e estruturada de Patamuté.

Desde jovem sempre me imbuí do intuito de guardar confidências de amigos. Talvez por isto tenha mantido alguns até hoje e outros tantos não suportaram minha pequenez e disseram adeus ao longo do caminho.

Um dia, em Salvador, Theodomiro e eu fomos conversar num bar na Rua da Ajuda, à noite, imediações da Rua Chile. Guardo gratas lembranças daquele momento: ele demonstrou impressionante generosidade, desprendimento, consideração, vontade de ajudar a quem dele precisasse. Quase uma contrição, um ajoelhar-se diante da esperança de vencer as dificuldades. Acho que chegou lá.

Contudo, isto é assunto para mais vagar, mais tempo, mais espaço, mais coragem para enfrentar o tumulto das emoções.

À época eu fazia treinamento na Secretaria de Segurança Pública da Bahia, condição exigida para assumir o cargo de chefe do primeiro Posto de Identificação de Curaçá, criado por Theodomiro em sua primeira administração como prefeito. Ele fazia questão de acompanhar meu desempenho, como se amparasse minha inexperiência e abrandasse a arrogância de jovem que queria consertar o mundo. Contente engano aquele meu. Hoje vejo os escombros do fracasso de minha geração.

Theodomiro tinha alguns amigos, não direi poucos, não direi muitos, porque não conheci todos. Um deles era Aristóteles de Oliveira Loureiro, conhecido como Tote.

Líder político incontestável, Theodomiro conseguia eleger qualquer nome que indicasse e Tote foi um agraciado. Tote era um sujeito decente, experiente, caminheiro de velhas estradas na política de Curaçá. Eles andaram juntos em determinada quadra do tempo.

A relação entre ambos situava-se muito próxima. Theodomiro era casado com D. Valdeth Conduru Mendes, mais tarde primeira-dama elegantíssima e educada, à semelhança de D. Adalice Conduru Loureiro, esposa de Tote.

De família tradicional, respeitável, curaçaense da gema, referência de seriedade e decência, Tote sabia conjecturar, engendrar, alinhavar acordos. Sorriso quase irônico, temperamento calmo, discreto, sábio, inteligente, sagaz, Tote conhecia os meandros da política de Curaçá e os dominou por algum tempo.

Aprendi com Theodomiro que não se deve misturar amizade com política. Como é difícil separar! Não dá certo, nunca deu certo, nunca dará certo. Grande lição, também aprendi a ter cautela ao ouvir conversa de político. Convém saber no que devemos acreditar.

Houve alguns episódios entre nós. Entretanto, Theodomiro e eu continuamos amigos até ele morrer. Nossa amizade não podia acabar na esquina de uma situação política transitória, insignificante, passageira.

Já morando em São Paulo, fui passar uns dias nas caatingas de Patamuté. Aproveitei para fazer uma visita a Theodomiro em sua casa em Curaçá, nas proximidades do Teatro Raul Coelho.

Conversamos muito. Conversa saudosa, calma, sem pressa de acabar. Amigo atencioso, prestativo, fidelíssimo, entendeu a visita, absorveu as lembranças, laborou nas reflexões. Nunca mais nos vimos.

Theodomiro era mestre na arte da política. Caatingueiro astuto de Patamuté, sabia engendrar, sabia articular, sabia conspirar e sabia entender o âmago das pessoas.

Li, tempos depois, um texto escrito pelo ínclito e conspícuo curaçaense Omar “Babá” Torres, que citava a sabedoria mineira: “na política, o melhor é não falar. Se falar, não diga; se disser, não escreva; se escrever, não assine, mas se tiver que assinar, assine com a mão errada”.

Honra e glória de Patamuté, Theodomiro Mendes da Silva foi um dos melhores amigos que tive nesta minha vida de tropeços. Sinto muito sua falta, mas como diz o caipira do interior de São Paulo, “ele foi antes do combinado”. Coisas da vida ou da morte. Ou do imponderável.

araujo-costa@uol.com.br

O PT quer derramar o munguzá de Ciro Gomes

O ex-governador cearense Ciro Gomes sempre apoiou Lula da Silva, bajulando-o pelo menos durante dezesseis anos. Foi adulador contumaz do cacique petista e até seu ministro.

Entretanto, no frigir dos ovos visando as composições eleitorais do primeiro turno das eleições de outubro próximo, o PT o defenestrou, cônscio de que corre perigo tendo-o em sua companhia na corrida eleitoral, até mesmo na condição de aliado.

Ciro Gomes diz que se surpreendeu com a decisão do PT. Lorota. Ele conhece o PT a fundo, mas não quer admitir a ingratidão sofrida e tem esperança que a situação mude.

Trata-se de canibalismo habitual do PT: devora os próprios aliados quando vê seu poder ou expectativa dele ameaçado.

Com o imbróglio da prisão de Lula da Silva, que comanda as negociações políticas de dentro do cárcere, o PT não tem mais tempo para fazer composições e atrair aliados.

Desesperado, o PT mete os pés pelas mãos. Alijar de sua chusma uma liderança do quilate de Ciro Gomes parece mais suicídio político do que estratégia eleitoral. Convenhamos, não é uma boa astúcia.

Lula da Silva – que sabe tudo de negociação política e entende de maracutaias como poucos – orientou o PT para deixar Ciro Gomes de lado, por enquanto, já que, em conjecturas, o cearense não aceitou ser vice na suposta chapa presidencial de Lula que, tudo indica, disputará a eleição sub judice.

O problema é que há uma diferença sutil entre candidatura sub judice e candidato inelegível. Sutil, mas considerável.

Concernentemente ao caso de Lula da Silva, parece razoável entender que ele se situa no campo da inelegibilidade, porque foi condenado por órgão colegiado e isto é o que a lei prevê para o candidato tornar-se inelegível.

A disputa sub judice é possível, natural e comum na Justiça Eleitoral. Não há novidade nisto. Lula se valerá dessa situação para manter-se vivo politicamente. Não há outro caminho.

Todavia, como tudo está ainda muito nebuloso, o previsível é que o PT vai registrar a candidatura de Lula da Silva no último momento permitido pelo calendário eleitoral. O resto virá depois e será discutido juridicamente nos tribunais.

O PT quer derramar o munguzá de Ciro Gomes e queimar sua chance eleitoral nas urnas de outubro.

Se não houver recuo do PT, quando a ficha de Ciro Gomes cair, os televisores não poderão ser ligados na presença de crianças. Ele é especialista em palavrões e nisto se parece adequadamente com seu guru Lula da Silva.

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