Quando ainda se escreviam cartas

Omar Dias Torres/Crédito: Brasil de Fato

“Sonhador é aquele que percebe a aurora antes dos outros” (Oscar Wilde, escritor e dramaturgo irlandês, 1854-1900)

O cronista se perde e se acha, quase sempre tropeça na memória e o faz em razão das saudáveis armadilhas tramadas por seu principal instrumento de observação: o cotidiano.

É sobre o cotidiano que o escrevinhador se debruça em momentos de reflexão para rememorar fatos, pessoas, circunstâncias, quadras históricas e até, em certas ocasiões, rir-se de si mesmo.  

Já vai longe no tempo em que os amigos mandavam cartas dizendo sentir saudades, rememorando fatos, dando e pedindo notícias, reclamando ausências.

Hoje, quando muito – e se ainda são amigos – mandam e-mails ou, brevíssimas mensagens para não arranhar fragmentos do tempo dedicado ao seu mister diário.

Adequamo-nos todos à exiguidade e às exigências do tempo.

Certa vez um senhor me disse que meus textos são longos demais. Só faltou me chamar de jurássico, ultrapassado, descontextualizado da linguagem da internet e das redes sociais.

O tempo, hoje, chega a ser mais importante do que as amizades. É o perseguir constante dos objetivos que todos pretendem alcançar.

Em 12/03/2018 recebi um simpático e-mail de Omar Dias Torres (Babá), já carregando nos ombros alguns anos bem vividos.

Prezo muito esse ilustre curaçaense Babá. Sujeito de boa estirpe, linhagem exemplar, caráter irrepreensível.

Guardo, com zelo e cuidado o e-mail de Babá e aprendi muito com aquelas bem traçadas linhas.

Num certo trecho, ele dizia que discorda de algumas posições deste escrevinhador, o que se afigura muito saudável.

“O fogo da rebeldia juvenil que ainda arde em mim, me leva, por vezes, a discordar de algumas posições por você defendidas. Mas também é imperioso ressaltar que o faço com respeito e merecida reflexão, prevalecendo sempre a convicção de que na minha contabilidade ainda tens imenso saldo positivo”.

Honra-me o saldo positivo que ainda tenho a haver na contabilidade do amigo Babá.

Espero que este saldo tenha aumentado nesses seis anos que nos separam de março de 2018, operadas as somas e subtrações imperiosas.

Memorialista imaginoso, mais adiante Babá se referia ao tempo do Jornal Asa Branca, de Curaçá e ao programa Nossa Presença que ele apresentou durante algum tempo na Emissora Rural, de Petrolina:

“O sonho e a luta pela construção de um mundo mais justo, que poderia começar por Curaçá, ainda sobrevive em mim. Só gostaria de parar no dia que existir uma sociedade onde todos tenham direito ao mesmo ponto de partida, deixando que a capacidade e o esforço de cada um determinem o seu ponto de chegada. Uma sociedade onde não mais existam poucos com muito e muitos com pouco ou mesmo sem nada”.

Também concordo.

Ao final, Babá saiu-se com esta: “Chego aos 70, insistindo na juventude”.

Como se vê, um jovem sonhador.

Antever a alvorada fez parte dos sonhos de minha geração. O problema é que outros a enxergaram primeiro e conseguiram ofuscar o caminho.

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Juazeiro tem novo bispo

Dom Valdemir Vicente/Crédito AJN1

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) comunicou que o Papa Francisco nomeou novo bispo para a diocese baiana de Juazeiro.

Trata-se do sergipano D. Valdemir Vicente Andrade dos Santos, de 51 anos – nasceu em 05/01/1973 – que estava na condição de bispo auxiliar de Fortaleza, onde foi pároco, vigário geral e diretor de colégio.

Graduado em Filosofia no Seminário Maior de Aracaju, obteve Licenciatura e Licença em Teologia no Ateneu Regina Apostolorum dos Legionários de Cristo, em Roma.

Foi pároco em Aracaju, professor do Seminário Maior, reitor do Seminário Menor e chanceler.

Trabalhou na Itália (vigário na diocese de Albano) e em 2018 foi nomeado bispo auxiliar de Fortaleza.

A diocese de Juazeiro estava vaga desde a transferência de Dom Beto Breis para arcebispo coadjutor de Maceió.

Dom Beto Breis/Crédito Diocese de Juazeiro

Segundo as regras da Igreja Católica, enquanto houver a vacância, os assuntos da diocese são geridos por um Administrador Apostólico. Em Juazeiro, foi eleito o padre Josemar Mota, de Remanso, que exerceu com eficiência e sabedoria esse mister.  

Como se vê, D. Valdemir Vicente tem uma rica trajetória eclesial e certamente usará essa sua experiência em benefício do povo, da diocese de Juazeiro e da Igreja.

As sementes foram bem plantadas pelos redentoristas D. Tomás Guilherme Murphy (1917-1995), D. José Rodrigues de Souza (1926-2012) e os bispos subsequentes D. José Geraldo da Cruz (1941-2022) e Carlos Alberto Breis Pereira (D.Beto).   

É nosso dever dar-lhe as boas vindas à querida diocese sanfranciscana.

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“Quando enxugardes toda lágrima de nossos olhos”

Na oração eucarística seguida pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, do Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Salvador, há uma súplica muito forte sobre os desígnios de Deus e a partida de nossos entes queridos: “Quando enxugardes toda lágrima de nossos olhos”, esperamos também nós a certeza do acolhimento na glória eterna.

É só o que nos resta depois do abalo de nossas estruturas emocionais. Pedir a Deus que lembre e acolha todos aqueles que chamou à sua presença, depois que participaram da morte de Cristo pelo batismo.

D. Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo, dizia que “sempre somos noviços e todos os dias aprendemos a conhecer mais uma face da bondade e misericórdia divinas”.

Talvez, aí, resida a razão por que, embora tropeçando, aprendemos a ter forças para conviver com a ausência das pessoas queridas que se foram antes de nós. Ausência difícil, dilacerante, cheia de lágrimas.

Contudo, antevemos a certeza de uma festiva ressurreição da vida que a fé nos permite enxergar.

Amparados nessa condição de noviços diante da bondade e misericórdia de Deus somos capazes de absorver o entendimento desses mistérios e o abismo entre nossa condição humana e a certeza da morte.

Virgílio Ribeiro de Andrade e familiares anunciaram a missa para “rezarmos juntos” em memória de Maria do Socorro Menezes Ribeiro (1937-2024) às 10h de 20/07/2024 na Igreja do Senhor do Bonfim, em Chorrochó.

Remoendo a saudade e ajustando-a ao meu dever de rezar, também estarei, mesmo distante, unindo-me através da oração aos familiares e amigos de Socorro e elevando preces pela gloriosa vida que ela conquistou na eternidade.

É muito difícil suportar a saudade, as lembranças, o dever de gratidão que tenho por Maria do Socorro Menezes Ribeiro, embora infinitamente menores do que a dor que estão passando Virgílio Ribeiro e família.

A saudade é um despenhadeiro que se precipita em direção à solidão. Mas equilibra a pequenez de nosso andar.

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Conversa de aniversário: Odilon Soares de Toledo

“Amigo é o que chega quando as outras pessoas estão indo embora” (Walter Winchell, jornalista americano, 1897-1972)

Odilon e sua esposa Conceição/Crédito: Álbum da família

A vida – ou a passagem dela – é feita de pedaços, fragmentos tais que se somam e nos tornam completos, embora frágeis e efêmeros.

Os amigos que encontramos pelo caminho fazem parte dessa soma que nos completa. Terá sido uma soma inquestionável se cada parcela tiver a prova de que não somos medíocres diante deles.

É na juventude que fincamos os esteios do caminhar, vislumbramos os horizontes, perseguimos os sonhos e, sobretudo, começamos a amadurecer para enfrentar os tropeços e as quedas constantes, que são muitas e inevitáveis.

Creio que os amigos que perduram surgem, quase sempre, nessa fase da vida. São essenciais, indispensáveis, necessários. Em certas circunstâncias, preenchem o nosso vazio, diluem as angústias e seguram as fragilidades. Impedem a empáfia, apontam os rumos e aparam as arestas de nossa arrogância. Flexibilizam a inexperiência e ajudam a diminuir os efeitos de nossas ruínas. 

Sou grato a Mauá, que me acolheu, deu-me o primeiro emprego em São Paulo e me preparou para enfrentar o desconhecido e muitas regras de convivência.

Nordestino, passei a viver na terra dos outros e, bem por isto, meu modo de ser e agir precisava de muitas adaptações e constantes ajustes.

Surgiram os primeiros amigos. Dentre poucos, Odilon Soares de Toledo e sua esposa Conceição Gonçalves de Toledo. Prestativos e generosos, estes amigos permitiram a minha presença entre eles por muito tempo e deram-me o apoio que eu tanto precisava longe do meu habitat, o sertão da Bahia.

A convivência com Odilon me permitiu aprender a pensar, a conjecturar, a refletir.

O convívio me foi fundamental para discernir o melhor caminho em busca de outros valores, sem transgredir o meu passado.

Conceição e Odilon casaram-se ainda jovens em 1971, ele por volta de 19 anos.

Passei a frequentar a residência do casal como se fora da família e colher a sabedoria de um lar sustentado na simplicidade, no respeito e na dignidade.

Em sadias reuniões em sua casa, ouviam-se Linda Batista, Aracy de Almeida, Chico Buarque, Lupicínio Rodrigues, Vinícius de Morais, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Caetano Veloso etc.

Lia-se Pablo Neruda e discutiam-se as matérias do periódico Movimento e dos jornais O Pasquim e Opinião, que faziam parte da chamada imprensa alternativa tolerada pela ditadura militar.

O pai de Odilon me ensinou a dar nó em gravatas. Lembro o momento, guardo o ensinamento, prezo a lição de paciência e vontade de ensinar. 

Parece um gesto insignificante dar nó em gravatas. É-o, para muitos. Neste caso, não.

Minha esburacada memória ainda me faz lembrar o delineamento daquele momento eufórico de aprendiz. Eu viria a fazê-lo incontáveis vezes até hoje, por força do exercício da profissão.

Já se vão, por aí, aproximadas cinco décadas dessa convivência.

Quando a memória me leva à ocasião em que fui acolhido por Odilon e Conceição, recordo a frase de Walter Winchell que encima esta crônica.

Não tenho visto Odilon, não tenho visto Conceição, não tenho visto seus filhos. Faço aqui o registro de meu desleixo e de minha indiferença, alguns dos meus defeitos, dentre muitos que tenho.

Hoje é o aniversário de Odilon.

Deixo parabéns e desejo-lhe êxito sempre e à sua distinta família.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva, o ministro e o professor de grego

O compadrio em política e administração pública se faz presente em nossa história há séculos.

A ineficiência do serviço público deve-se, quase sempre, ao inchaço da máquina administrativa, geralmente ocupada por pessoas despreparadas, a maioria delas içada aos cargos por seus padrinhos políticos.   

É comum o chefe do Poder Executivo (prefeito, governador, presidente da República), no início de seu mandato, abarrotar as páginas da imprensa oficial com atos nomeando pessoas suas ou indicadas por correligionários seus.

E nessa leva, vão os cargos de confiança, geralmente ocupados por pessoas absolutamente despreparadas para exercer qualquer função pública. Todavia, são apadrinhadas porque prestaram favor aos políticos em suas bases e campanhas eleitorais.

Há casos em que até tais procedimentos passam a frequentar as páginas do folclore político nacional.

Durante a ditadura de Getúlio Vargas, o Estado Novo (1937-1945), o presidente nomeou Vitorino Freire, político pernambucano, para interventor no Maranhão, cargo equivalente ao de governador. 

Vitorino tinha um compadre a quem lhe devia favores eleitorais. Chamou-o ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.

– Compadre, já lhe nomeei professor de grego no Ginásio Estadual, aqui em São Luís.

– Que é isso compadre? Mal sei ler português, nunca vi uma palavra grega.

– Não tem importância. Como a disciplina é optativa, não há nenhum aluno matriculado.

Todo mês o compadre do interventor comparecia ao Ginásio Estadual para assinar o ponto e habilitar-se para receber os vencimentos. Sem conhecer sequer o vocabulário grego.

Um dia foi comunicado pela direção do Ginásio que um aluno havia se matriculado para estudar grego. Ficou em pânico. Foi ao Palácio, falar com o amigo governador.

– Compadre tem um aluno matriculado. O que faço?

– Tinha. Não tem mais. Já mandei prendê-lo. Um sujeito que quer estudar grego aqui em São Luís é doido ou comunista.

E o compadre continuou professor de grego.

Juscelino Filho, ministro das Comunicações de Lula, foi indiciado pela Polícia Federal por desvios de verbas públicas, em benefício próprio, enquanto deputado federal pela União Brasil do Maranhão.

A imprensa já havia noticiado a maracutaia, exaustivamente, envolvendo verbas provenientes de emendas parlamentares e atreladas à CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba).

“Juscelino foi indiciado sob suspeita dos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, falsidade ideológica e fraude em licitação”.

O presidente Lula da Silva encontrou uma brecha para manter o ministro no governo, não obstante o indiciamento: sinalizou que só o demite se a Procuradoria Geral da República apresentar denúncia ou o próprio ministro pedir para sair.

Como no tempo de Vitorino Freire, a política de compadrio não mudou.

É assim nos governos de direita. É assim nos governos de esquerda.

araujo-costa@uol.com.br 

A hipocrisia da esquerda

“Mais mentiroso que epitáfio de cemitério” (Agripino Grieco, crítico literário e ensaísta, 1888-1973)

Lula da Silva não tem culpa quanto aos incêndios que estão acontecendo na região de Mato Grosso.

Bolsonaro também não tinha culpa no que tange ao desmatamento na Amazônia e incêndios havidos no período de seu governo.

Entretanto, parte da esquerda, à frente artistas pendurados na Lei Rouanet, intelectuais e a histérica imprensa lulopetista em geral, ocupavam diariamente todos os espaços possíveis na mídia para espinafrar o então presidente Bolsonaro, culpando-o pelos incêndios, desmatamento e morte de índios yanomamis.

Como não sou lulista, nem bolsonarista, tampouco admirador de outros “istas”, sinto-me à vontade para falar sobre este assunto.

“O número de yanomamis mortos no 1º ano (2023) da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi de 363, segundo dados obtidos pelo Poder 360 via LAI (Lei de Acesso à Informação).

É uma alta de 5,8% sobre os 343 mortos no ano anterior, 2022, quando comandava o país Jair Bolsonaro (PL)”, conforme Poder 360, 21/02/2024.

“O número de queimadas na Amazônia bateu um novo recorde durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): a incidência do fogo na floresta é 154% maior nos quatro primeiros meses do ano em relação ao mesmo período de 2023” (Gazeta do Povo, 29/04/2024). 

Interessante. Hoje todos esses “defensores” dos povos indígenas e do meio ambiente estão silentes. São hipócritas acintosamente calados, porque não têm o que dizer. Agarram-se à ideologia com o intuito de defender interesses próprios. Só isto.

A esquerda vive de sugar dinheiro público. Retire-lhe o acesso aos cofres públicos que ela murcha. A esquerda gosta de cargos, fama, poder, mordomias, benesses, altos salários, vida elitista.

O exemplo mais gritante é o de Lula da Silva, guru da esquerda:

“Na Itália, para participar de um encontro do G7, grupo que o Brasil nem mesmo faz parte, o casal esbanja, como foram apelidados em Brasília graças aos gastos sem limites, vai se hospedar no Borgo Egnazia, um dos cinco estrelas mais caros da Europa. A diária passa dos R$ 71 mil” (Diário do Poder, 13/06/2024)..

A esquerda do  Brasil acompanha  o caminho do vento, desde que o vento siga em direção aos cofres públicos.

Cadê Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, que ia consertar o mundo?

Dentre as muitas críticas a Bolsonaro, a ministra Marina Silva disse, em entrevista à CNN, que “o Brasil sofreu um “apagão” de políticas climáticas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)”.

Ora, por que então ela não produz luz e acaba com o apagão?

Fiat Lux, D. Marina Silva!

Faça-se a luz, ministra! Este é um latim de caixa de fósforo, mas oportuno. Faça-se a luz do bom senso. Governar não é criticar o adversário. Procurar culpado é ausência de ideias para fazer valer o novo.

Cadê o espevitado, espalhafatoso e inconveniente senador Randolfe Rodrigues (AP), líder do governo no Congresso Nacional?

A região de Corumbá está em chamas. É uma das que sofrem.

Ninguém da esquerda faz estardalhaço como fazia no governo Bolsonaro.

Cadê a imprensa lulopetista?

Cadê aqueles artistas que se diziam defensores do meio ambiente?

Parafraseando Agripino Grieco, a esquerda do Brasil é mais mentirosa que epitáfio de cemitério.

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Caraíbas e o legado de Oscar Araújo Costa

“Bafejado pelo êxito qualquer homem se imagina predestinado a grandes missões” (Luís Viana Filho, 1908-1990, historiador e governador da Bahia no período de 1967/1971)

Oscar Araújo Costa/Arquivo Lusineide Miranda

Já se vão, por aí, alguns anos. A essência do engendramento político do município de Chorrochó passava, necessariamente, pela liderança de Oscar Araújo Costa e ramificações dele decorrentes.

Oscar foi o esteio, a estrutura, o início do caminhar, o olhar que enxergava a política como meio de vislumbrar melhores dias para a população do município.

Líder em Caraíbas e circunvizinhança, Oscar Araújo Costa era casado com a elegante e altiva Umbelina Miranda de Araújo (D. Bela) e com ela construiu base familiar e política sólida e respeitável.

O lugar onde viveu e construiu sua liderança política acabou ficando conhecida como Caraíbas de Oscar.

Houve uma quadra do tempo em que toda e qualquer decisão política de Chorrochó passava pelo crivo de Oscar Araújo Costa, Dorotheu Pacheco de Menezes e Antonio Pires de Menezes (Dodô), que costuravam apoios e conjecturavam estratégias. Mais do que isto: definiam caminhos.

A liderança política de Oscar foi-se transferindo paulatinamente ao filho José Juvenal de Araújo, cuja história de vida e dedicação à causa do município de Chorrochó é sobejamente conhecida e não comporta nenhum acréscimo.

O livro História de Chorrochó, de autoria da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e do Dr. Francisco Afonso de Menezes traz merecida homenagem ao grande líder popular e ex-prefeito José Juvenal, falecido em 2015.

Noutro livro, Dorotheu: caminhos, lutas e esperanças, de autoria deste escrevinhador, deixei lançado o registro: à semelhança de Oscar, José Juvenal tinha qualidade inquestionável de lidar com aliados e adversários e isto lhe sustentou politicamente durante muito tempo.   

Com a morte de José Juvenal, que deixou uma rica e inquestionável estrutura política e eleitoral, é inevitável constatar que sua liderança foi-se transferindo aos filhos.

Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que foi vice-prefeita, fez parte do secretariado de Chorrochó e hoje preside a Câmara Municipal.

Oscar Araújo Costa Neto, à semelhança da irmã Sheila, desempenhou função no secretariado do município, salvo engano, até hoje. Oscar Neto também herdou do pai José Juvenal o valioso patrimônio político-eleitoral.

Sheila e Oscar Neto continuam ostentando razoável influência na atual administração do prefeito Humberto Gomes Ramos, que sempre teve juízo e os manteve ao seu lado, até por gratidão.      

Contudo, vale destacar que a família Araújo tem, em seus quadros, outra liderança respeitável, embora se tenha mantido discreta e modesta: Marina Maria de Araújo Menezes.

Marina foi casada com o serventuário da Justiça da Bahia, José Eudes de Menezes (Iê), lídimo integrante dos Menezes de Chorrochó, homem de caráter irrepreensível, defensor intransigente das tradições locais, atributo oriundo do pai Eloy Pacheco de Menezes.

Marina sempre teve grande participação na vida local, na condição de professora e coordenadora das escolas do município, assim como na condição inconteste de defensora da cultura de Chorrochó.       

Neste contexto, Marina Maria Araújo Menezes participou, com muito empenho, de importantes eventos do município, que se firmaram no calendário local.

A organização inicial da festa dos vaqueiros, que hoje é tradição, contou com sua decidida contribuição, assim como melhorias no sistema educacional à época atrelado a formas antigas de ensino.

A história de Chorrochó contou com sua participação decisiva na idealização da Bandeira do Município, o que fez na condição de Coordenadora Municipal de Educação, cargo que exercia à época.

Marina determinou a confecção da Bandeira, o que não é pouco no cenário cultural de Chorrochó. Decisão perene, culturalmente enraizada na defesa das tradições locais.

Marina Araújo atuou politicamente ao lado de José Juvenal, com admirável fidelidade à liderança do irmão e, em certas situações, serviu como ponto de apoio diante da iminente tendência da família em dividir-se politicamente, aparando arestas desnecessárias.

Sua sábia atuação evitou que se alterassem a coesão, o entendimento e o espírito de civilidade entre os familiares em determinado momento político de Chorrochó.

Com o desaparecimento de alguns membros da família Araújo, inclusive José Juvenal, Marina Araújo despontou como uma liderança natural nos movimentos políticos de Chorrochó e, como tal, será capaz de somar com as novas lideranças, a exemplo de Adriana Araújo, a ex-vereadora Rafaela Araújo, os filhos de José Juvenal, ambos admiravelmente presentes e atuantes na vida do município. Seu filho Eloy Neto também labora politicamente e tem sido muito presente e vigilante no que tange à causa de Chorrochó.

O fato é que Caraíbas se mantém na política de Chorrochó através da família Araújo, não obstante a liderança inconteste de Barra do Tarrachil. Marina Maria de Araújo Menezes faz parte desta espinha sobre a qual devem se firmar as decisões políticas.

O lastro eleitoral de Caraíbas é respeitável. Algumas centenas de eleitores.

Parece razoável presumir que, sem nenhuma sombra de dúvida, Marina será ouvida, consultada e respeitada tanto em anos eleitorais quanto fora deles e passou a ocupar espaço importantíssimo na vida política de Chorrochó. 

Como se vê, o legado deixado por Oscar Araújo Costa se estendeu à história de Chorrochó como um todo.

Difícil apagar a marca e a estrutura política familiar de Oscar Araújo Costa.

Por fim, deixo uma frase de Roberto Mangabeira Unger, fundamental para quem faz política:

“Não se constrói sem aglutinar e não se muda sem dividir. Para saber quando aglutinar e quando dividir, não basta ter senso de oportunidade. É preciso ter visão”.

araujo-costa@uol.com.br

O arroz suspeito de Lula da Silva

“É junto dos bão que a gente fica mió” (Ditado caipira mineiro)

Parafraseando o mineiro Benedito Valadares, o PT está onde sempre esteve.

Em meio à tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, o presidente Lula da Silva, mui apressadamente – e não mais que de repente – resolveu importar arroz.

Não se duvida, aqui, da boa intenção de Sua Excelência.

Tudo providenciado, segundo o governo, dentro dos conformes.

A Federarroz, entidade  que representa mais de 6 mil produtores de arroz, foi contra a importação do cereal determinada por Lula da Silva e justificou: 83% da plantação de arroz já foi colhida e não há risco de desabastecimento.  

Desnecessária a importação, segundo os produtores. 

A principal corretora que transitou para viabilizar o leilão é de um ex-assessor do secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura envolvido no negócio nebuloso.

A oposição descobriu a falcatrua. A imprensa lulopetista silenciou.

Em resumo, aconteceu o seguinte:

Uma das empresas vencedoras do leilão é uma pequena mercearia que vende queijos em Macapá, capital do Amapá; a outra é uma sorveteria; a terceira é uma empresa de transporte.

Como se vê, nada a ver com importação de arroz e, menos ainda, com lastro financeiro para sustentar e garantir o dinheiro público envolvido.

A quarta empresa arrematante parece ser idônea e do ramo de importação.

Vamos aos números.

Lula da Silva autorizou a importação de 263,3 mil toneladas de arroz por R$ 1,3 bilhão. Dinheiro público, por óbvio.

A falcatrua mais gritantemente visível, embora todas as outras também sejam, é o caso de uma das arrematantes do leilão.

Trata-se de uma pequena empresa que tinha capital social de R$ 80 mil e sem nenhuma estrutura para importar. Receberia do governo Lula da Silva R$ 736,3 milhões para importar o arroz. Na semana do leilão, a empresa alterou o contrato social e aumentou o capital social para R$ 5 milhões. Não colou.

Portanto, a empresa de Macapá – mercearia de queijo – receberia do governo R$ 736,3 milhões para operar a falcatrua.    

Embora a grande imprensa lulopetista tenha silenciado sobre o escândalo, Lula da Silva ficou sem jeito e mandou cancelar o leilão, o que foi feito.

Neste particular, Lula acertou.

O secretário que coordenou o quiproquó, sem saída, pediu demissão. Caiu e já vai tarde.

Há precedente no PT.

Quando governador da Bahia e dirigente do chamado Consórcio Nordeste, Rui Costa comprou 300 respiradores de uma empresa que, segundo ela própria anunciou, entende  de confecção de roupas femininas íntimas e importação de medicamentos à base de maconha.

Pagou adiantado e não recebeu os respiradores. Salvo engano, as investigações continuam.

O fato é que, com tanta experiência política, Lula da Silva não está conseguindo se juntar aos bons.

E o PT está onde sempre esteve.

araujo-costa@uol.com.br

Socorro Menezes: a solidão da despedida

“Tudo se acaba com a morte, até a própria morte” (Padre Vieira, Sermões)

Adeus difícil, dilacerante, cruel.

Maria do Socorro Menezes Ribeiro/Arquivo da família

À semelhança das folhas que caem, também nos desprendemos da árvore que sustenta a existência.

Maria do Socorro Menezes Ribeiro deixou Chorrochó e seguiu em direção à eternidade.

Nas últimas semanas, ela travou uma luta silenciosa para vencer o sofrimento, mas chegou o dia do adeus que dilacerou todos nós, parentes e amigos.

Mulher de muita fé e resignação, Socorro enfrentou a angústia da perda de seu núcleo familiar mais próximo: a mãe Izabel (Biluca), o pai Dorotheu, o filho Rogério e os irmãos José Evaldo e João Bosco (Joãozito). Travessia muito dolorosa para ela.

É o esteio de uma geração que foi trincando com a ação do tempo, mas os desígnios de Deus não nos permitem fazer reparos.   

Nascida em lar cheio de amigos e enfeitado com a família decente e alegre, Socorro manteve a tradição acolhedora. Atenciosa, generosa com todos e, sobretudo, dona de uma humildade impressionante.  

Sua árvore mais dileta foi-se desfolhando, mas ela pode contar, até o fim, com a grandeza e dignidade do marido Virgílio Ribeiro de Andrade, que sofreu ao seu lado todas as perdas e a amparou na solidão e nos momentos mais difíceis de dor e sofrimento.

Ao lado de Virgílio, seus familiares mais próximos enfrentaram esses dias finais de angústia.

Todos nós que ainda ficamos por aqui estamos todos fragilizados. A convivência com a saudade de Socorro e a adequação dos dias sem a sua presença serão difíceis, muito difíceis.

Mas o que explica o naufrágio da morte é a certeza da vida.  As palavras do padre Vieira conformam-se com o preceito de São Francisco: “É morrendo que se vive para a vida eterna”.

Socorro deixou alguns exemplos: a dignidade, a retidão de caráter e a generosidade, dentre muitos.  

Momento muito difícil.

Além da convivência fraterna que tivemos, Socorro era madrinha de batismo de minha primeira filha.

Deixo pêsames para compadre Virgílio e todos da família.

Que Senhor do Bonfim nos dê a capacidade de compreender o momento.

E que Jesus Cristo, redentor do mundo, lhe indique o caminho e Deus a ampare.

araujo-costa@uol.com.br  

Crônica, amigo e a certeza de uma saudade.           

Borboleteava entre bares, desde o cair da noite, até o amanhecer do dia seguinte. Deleitava-se com a alvorada, inspirava-se no indizível do crepúsculo.

Boêmio, simpático, espirituoso, culto, inteligente. Boa pinta, extrovertido, respeitador, interessante.

Quando cumprimentava uma mulher, nova ou adiantada em anos, fazia um salamaleque qualquer e, por fim, beijava-lhe a mão, cerimoniosamente.

Tinha um estranho hábito: telefonar para a casa dos amigos, madrugada afora, etilicamente calibrado, dando sustos desesperadores. Naquele tempo não existia telefone celular.

Convenhamos, não fica bem telefonar para a casa dos outros na madrugada, exceto para tratar de assuntos urgentes e inadiáveis, como a inesperada visita da morte a algum amigo ou conhecido.

Mas ele telefonava, sem constrangimento. Alongava-se em bate-papo e misturava alhos com bugalhos à vontade, altas madrugadas, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Advogado de sucesso, não precisava ganhar o pão com o exercício da profissão porque, segundo ele, o “pai deixou alguns réis” que davam para comprar um destilador de uísque para abastecer-lhe até o fim da vida. E “morrer bêbado”, acrescentava com alegre desenvoltura. 

Feriado prolongado, telefonou agitado, coisa que só amigo faz.

– Preciso de uma garrafa de uísque, urgente. Os bares estão fechados e não vou ficar sem beber.

– E eu com isso? Procure nos supermercados, disse-lhe.

– Eu não quero uísque de supermercado, quero de sua casa, para me ajudar a beber.

Logo entendi. Queria a companhia, como sempre. O uísque era desculpa.

Era assim, meu amigo. Bom amigo, grande amigo, difícil nos dias de hoje. Seguiu o caminho para a distância, obedeceu à morte. Deixou as marcas da saudade.

Eu costumava recitar pra ele o verso do baiano José Amâncio Filho, Meu Mano do Abaré, ícone das serestas sanfranciscanas de Curaçá.

Dava gostosas gargalhadas.

“Vivo hoje satisfeito

Gordo, sadio e forte

De nada tenho receio

Não temo nem mesmo a morte

E ainda tem gente que diz

Que cachorro não tem sorte”.

Mais do que uma crônica, uma saudade, intraduzível saudade.

araujo-costa@uol.com.br