Lula da Silva e a articulação política

Presidente Lula/Crédito: Andressa Anholete/Getty Imagens

“Aquele gabinete presidencial é uma desgraça. Não entra ninguém para dar uma notícia boa. Os caras só entram para pedir alguma coisa.” (Lula, segundo Sebastião Nery, Brasil 247, 21/06/2015)

Tendo em vista seguidas derrotas no Congresso Nacional, Lula da Silva sinalizou que vai pensar em aprimorar a articulação política.

É assustador Lula pensando.

Quando Lula pensou, surgiram mensalão, petrolão, refinaria Abreu e Lima, empréstimos para Venezuela e Cuba, relações espúrias com empreiteiras e outra série de escândalos que permearam os dois primeiros governos Lula que respingaram no período Dilma Rousseff.   

Quanto às derrotas do governo na Câmara dos Deputado e Senado Federal, nada que deva preocupar o presidente. Lula sabe disto. E sabe de cátedra.

Os parlamentares são dobráveis, vergonhosamente vergáveis.

Lula é experiente ao lidar com parlamentares. Ele foi deputado constituinte e conviveu com os “300 picaretas” que ele dizia ter lá. E disse na condição de presidente nacional do PT.

É razoável presumir que para resolver o problema de articulação no Congresso Nacional, basta o governo abrir os cofres e encher as burras de deputados e senadores de dinheiro público.

Sempre foi assim. Dinheiro amolece. Não existe ideologia que resista a um bolso cheio de dinheiro fácil. Ideologia de parlamentar só funciona no palanque em campanhas eleitorais e longe dos conchavos de gabinete.

Parlamentar só vota contra o governo – qualquer governo, de direita, de centro ou de esquerda – quando não é aquinhoado com benesses, mordomias, emendas parlamentares e etc.

É assim nos Estados. É assim nos municípios.

Parlamentares mudam até de partido político para viabilizarem o caminho do dinheiro em direção aos seus interesses.

A rigor, o único articulador respeitável de Lula da Silva é o senador e ex-governador baiano Jaques Wagner, líder no Senado Federal. Jaques Wagner tem pinta de senador, estatura de senador e é senador.

O senador Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso Nacional, por si só é uma piada sem graça. Articulação política pressupõe moderação. Ninguém pode levar a sério um parlamentar tão espalhafatoso.

O experiente deputado cearense José Guimarães, líder do governo na Câmara dos Deputados, parece ter vontade de articular, mas encontra resistência de colegas, inclusive de seu partido, o PT.

Lula tem um problema maior e bem próximo à sua mesa de trabalho. É o ministro palaciano Alexandre Padilha, das Relações Institucionais.

Homem de extrema confiança de Lula, responsável pela articulação política, Padilha não é bem aceito no Congresso. Arthur Lira, presidente da Câmara, o abomina.  Não é pouco.

O fato é que Lula disse que vai dar mais atenção à articulação política com o Congresso Nacional e isto pressupõe que Lula vai pensar.

É preocupante.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, a marca de um profissional

Igreja de Chorrochó/Crédito: Edilson Oliveira

O experiente radialista Edilson Oliveira Maciel, sempre atento às coisas de Chorrochó, registrando fatos e imagens do lugar.

Esta imagem traduz a marca de um profissional de respeito.

Edilson publicou esta foto da Igreja de Senhor do Bonfim, obra do idealismo de Antonio Conselheiro, símbolo e sustentáculo da fé católica de Chorrochó.  

Parabéns a Edilson pelo trabalho profícuo em prol de Chorrochó e também pelo aniversário natalício neste 31 de maio.

araujo-costa@uol.com.br  

Chorrochó, o porco-espinho e a raposa  

Em agosto de 2012, a imprensa noticiou que apareceu na fazenda Jurema, município de Chorrochó, sertão da Bahia, não se sabe procedente de onde, um simpático porco-espinho, que segundo alguns, parecia um porco-espinho mas não devia ser um porco-espinho.

Imagem ilustrativa: Porco espinho/Crédito QC Animais

O descobridor do animal, que não lembro o nome, assegurou que o encontrou em cima de uma árvore, se não me falha a memória.

História incomum, mas é maldade duvidar. Aliás, o porco-espinho tem hábitos noturnos.

Durante o dia, dizem os entendidos, ele se recolhe e não fica por aí nas alturas admirando a paisagem do sertão até porque, em tempos de seca – e agosto comumente é tempo de seca – a paisagem não é lá tão bonita assim que ocupe a atenção turística de um porco-espinho. 

O certo é que na ocasião esse porco-espinho chorrochoense ficou famoso, embora um porco-espinho, que não devia ser porco-espinho.

A caatinga nunca foi habitat do porco-espinho ou do ouriço, que é parecido com ele ou, no mínimo, parente dele.

Sou do mato, caatingueiro legítimo dos cafundós de Curaçá e Chorrochó e me atrevo a dizer isto, talvez mais uma besteira das muitas que tenho dito e continuo dizendo.

Mas até aquela ocasião, não conhecia precedente em nossa região. Se esse paisagístico animal estava em cima de uma árvore e, sendo um porco-espinho, como foi tirado de lá, sem que a pessoa que o resgatou se ferisse?

É ilógico admitir que na fazenda Jurema tenha porco-espinho. Se tem um, tem mais de um.

Não sei se os estudiosos chegaram a explicar, cientificamente, como surgiram por lá. Esse não caiu das nuvens, sozinho, isoladamente. Tem – ou teve – pai, mãe, parente, aderente, tem família ou seja lá que nome é usado pelo porco-espinho para definir sua prole.

É uma conclusão mais biológica que conjectural.

À época Chorrochó estava em campanha política acirrada. Até sugeri na ocasião que o porco-espinho fosse eleito símbolo da campanha eleitoral de 2012. Mas ninguém deu bola para esse meu desatino e minha idiotice.

Os espinhos são o mecanismo de defesa do animal. Quando o porco-espinho é atacado, os espinhos se desprendem e anulam a ação do predador.

Como os candidatos não têm espinhos para anular a provocação dos adversários, o porco-espinho poderia servir como analogia para contê-los e a campanha política correria em paz absoluta, sem desavenças, sem acusações mútuas, sem excessos.

Agora, outra notícia de Chorrochó.

Imagem ilustrativa: Raposa/Crédito Fox

Em data recente, apareceu uma raposa no centro de Chorrochó. Esta sim, habitante legítima da caatinga e, por óbvio, comum naquelas paragens.

Pelo jeito, a raposa estava raivosa e chegou a atacar uma senhora de lá e também um rapaz que foi defendê-la da investida do enxerido animal.

Um amigo de lá me telefonou indignado. Já um tanto acostumado com as coisas estranhas que acontecem em Chorrochó, principalmente na política, foi logo dizendo:

“Estranho não foi a raposa aparecer na Praça do Cruzeiro, no centro de  Chorrochó. Estranho é que na rede pública de saúde do município não tinha medicamento antirrábico para atender a urgência”.

Parece que a saída foi Chorrochó socorrer-se de Paulo Afonso.  

Interessante é que eu tinha lido, nalgum lugar, que o secretário de Saúde de Chorrochó, salvo engano, ganhou selo de qualidade por sua eficiente atuação no setor.

Confesso que me senti orgulhoso com a notícia do desempenho e do mérito atribuído ao ilustre secretário. Isto significa presumir que a saúde de Chorrochó vai muito bem.

Ou alguma coisa não está bem clara.

araujo-costa@uol.com.br

Reflexões de outono

“Toda saudade é uma espécie de velhice. É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências” (Rubem Alves, 1933-2014).

Início da noite, quando o burburinho do ambiente profissional já se havia dissipado, um amigo pondera, entre confuso e reflexivo: Deve haver explicação para tantos tropeços que enfrentamos na vida.

Para não deixá-lo desapontado, concordei, embora sem nenhum condição de concordar ou discordar. Deve haver, sim. Mas são explicações que não conseguimos explicar.

Às vezes no decorrer da caminhada falta coragem e sobra medo de enfrentar os tropeços. Quase sempre. É por isto que vamos deixando vácuos pelo caminho, lacunas não preenchidas, dúvidas, reticências, arrependimentos, saudades, arrogâncias.

Cora Coralina (1889-1985) foi além: “Devia ter tido a coragem que me faltou e não devia ter tido o medo que me sobrou”.

Chega o outono inevitável, o período da maturidade, o tempo de grisalhar. Até os sonhos às vezes fracassam e caem, à semelhança das folhas e se esvoaçam em direção à distância.

Recebo notícia crudelíssima dando conta de que uma amiga de Chorrochó está muito doente, enfrentando dificuldades nesta sua quadra outonal da vida.

Estou com saudade. “Olhos se enchendo de ausência”.

Tempo de descer ao pé da escada para refletir, sem perder a coragem de elevar a humildade ao último degrau, pedir desculpas, chorar.

araujo-costa@uol.com.br

A “desgastada credibilidade do Supremo”, segundo a Folha de S.Paulo  

Supremo Tribunal Federal/Gabriela Biló/Folhapress

Editorial da Folha de S.Paulo de 10/05/2024:

“A mais alta corte do país manteve em vigor a Lei das Estatais, mas preservou a validade de nomeações feitas ao arrepio dessa mesma lei. É inevitável a sensação de que os ministros se alinharam aos interesses do governo Lula, num gesto que mina a já desgastada credibilidade do Supremo”.

Explica-se:

“Consta do diploma de 2016 que não podem ser nomeadas para o comando dessas companhias pessoas que tenham atuado, nos últimos três anos, como dirigentes de partidos ou na organização de campanhas eleitorais”.

Apesar da Lei, Lula da Silva nomeou alguns de seus amigos nessas condições para postos em estatais, que estão lá nababescamente remunerados, sorvendo dinheiro público.

Provocado em ação judicial, o STF disse que a Lei das Estatais é constitucional, mas validou as nomeações feitas por Lula da Silva, apesar de contrárias à lei.

Noutras palavras, Lula da Silva está errado e feriu a lei, mas pode.

Parece a inflação de Miriam Leitão: está alta, mas está boa.

Em quadro assim, como esperar credibilidade do STF?

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Janoca sai de cena e Patamuté lhe dá adeus.

Janoca/Crédito: arquivo da família Batista/Rodrigues

A família noticiou o falecimento de Joana Maria da Conceição ocorrido em 12/05/2024. Nascida em 23/06/1922 e, portanto, no próximo mês de junho – mês de Santo Antonio – completaria 102 anos.

Raiz de primoroso afeto, carinhosamente chamada Janoca, era a matriarca de família numerosa e vivia rodeada de gente de sua descendência bem estruturada e educada em berço exemplar.

Quis o destino – e certamente a vontade de Deus – que Janoca fosse perdendo, ao longo do caminho, muitos dos seus entes queridos muito próximos: o marido Estêvao e alguns de suas filhas e filhos.

Por certo, a dor foi grande, mas ela suportou ou, pelo menos, parece que soube suportar e conviver com as ausências e crueldade das perdas.

Janoca enfrentou a senectude com humildade e paciência. Nos últimos anos já vivia alquebrada, cansada em razão da passagem do tempo, do peso da idade e fragilizada pela saudade dos seus entes queridos que já se haviam partido em direção à eternidade.

A partir da Fazenda Maquiné, Janoca soube escrever o roteiro para o palco do seu tempo. Neste roteiro, incluiu a bondade, fincou as raízes de sua família e moldou o esteio que sustentou sua vida honrada.   

Agora Janoca disse adeus.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo lhe indique o caminho, e que Deus a ampare.

Registro o fato e deixo pêsames à família.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva e “A tonga da mironga do kabuletê”

Em 1979, tempo de feroz ditadura, o poeta e diplomata Vinicius de Moraes e Toquinho encontraram uma forma de xingar os militares, sem que eles percebessem. Compuseram a canção A tonga da mironga do kabuletê.  

Segundo os entendidos em linguagem africana e do candomblé inclusive, tonga é terra distante destinada à lavoura, mironga é feitiço e kabuletê é indivíduo desprezível, reles, sem importância.

Confusa, mas esta era a explicação de Vinicius de Moraes. Os militares nunca perceberam o xingamento. Toquinho ainda está por aí, vivíssimo da silva e pode confirmar ou desmentir este insignificante cronista.

A expressão assemelha-se ao “vá plantar batatas” ou coisa pior, que para bom entendedor basta. Segundo as estatísticas, este blog também é lido por menores e estudantes e não fica bem traduzir ao pé da letra, o significado da expressão “Vá para…

Deixa para lá.

Em 10/05/2024, Lula da Silva esteve em Teixeira de Freitas (BA) para inauguração do Hospital Estadual Costa das Baleias e um prédio da Universidade Federal do Sul (UFSB).

O presidente estava acompanhado do governador do Estado e dos ministros da Educação (Camilo Santana), da Saúde (Nísia Trindade) e da Casa Civil (Rui Costa).  

O prefeito de Teixeira de Freitas (União Brasil) não estava presente e Lula da Silva se irritou. Achou uma “falta de respeito” do prefeito que “tinha que ter vergonha”, devia estar lá ao seu lado, agradecendo e coisa e tal.  

Convenhamos. Se o prefeito não compareceu em razão de justificável impossibilidade, é “engolível”, tudo bem. Mas se não o fez por questões políticas e ideológicas, errou redondamente, até porque o União Brasil tem ministros no governo, faz parte do governo.

Se não justificada, a ausência do prefeito é, no mínimo, uma indelicadeza. Primeiro, porque seu partido, o União Brasil, faz parte do governo; e, segundo, porque as obras são públicas e não de Lula ou do governador Jerônimo.   

Como a Bahia é um escancarado feudo petista desde 2007 – Jaques Wagner (2007-2015), Rui Costa (2015-2023) e o atual Jerônimo Rodrigues – Lula da Silva queria unanimidade política na inauguração. É próprio de Lula.

O deputado federal Paulo Azi, presidente estadual do União Brasil, classificou as falas como “agressões e lamentou que o petista tenha utilizado um ato institucional como palanque político” (O Antagonista, 10/05/2024).

Lula “usou o evento como palanque”, disse Paulo Azi. O deputado não devia estranhar, “está por fora”. É o que Lula sabe fazer com inegável eficiência. Lula sempre foi assim.

Lula adora microfones e paparicos. Diante deles, dispara dislates e despautérios a torto e a direito e ainda há os “súditos” que aplaudem.    

Em tempo de tantas incompreensões neste insensato matagal político, não se sabe se Lula mandou o prefeito para a tonga da mironga do kabuletê ou foi o prefeito Marcelo Belitardo (União Brasil) que mandou o presidente.

araujo-costa@uol.com.br

Escola de Chorrochó completa 50 anos

“Ninguém embarcaria se antes considerasse os perigos do mar. Toda travessia exige confiança no risco” (Frei Betto, frade dominicano, jornalista e escritor).

Escola Professora Josefa Alventina de Menezes/Crédito: professora Thereza Menezes

Fundada legalmente em 10/05/1974, a Escola Professora Josefa Alventina de Menezes completa 50 anos. O cinquentenário traz o retrato de um estabelecimento já tradicional no ensino do município.   

O histórico da escola é rico, robusto e, sobretudo, fundamental no cenário educacional de Chorrochó.

Limito-me a citar algumas referências, louváveis referências, sustentado em informações e documentos oficiais da escola.

A primeira direção compunha-se da forma seguinte: professora Maria Rita da Luz Menezes, Diretora; professora Maria Abigail de Menezes, vice-Diretora;

Somam-se as professoras pioneiras que se dedicaram tenazmente ao mister de ensinar: Maria Clotilde da Silva Menezes, Maria Efigênia Félix Fonseca, Maria da Conceição Menezes e Maria da Paz Rios Menezes.

A estrutura inicial naquele distante 1974 ainda contava com Antonia Soares Barbosa da Silva, agente de Portaria.

Construída e oficialmente criada na gestão do governador Antonio Carlos Magalhães (ACM) e sob os auspícios de Rômulo Galvão de Carvalho, à época secretário de Educação e Cultura do Estado, a escola foi municipalizada em 2005, no primeiro mandato do prefeito municipal Humberto Gomes Ramos.

Surgiu, naquela quadra do tempo, a primeira coordenadoria pedagógica que vem sendo dirigida pela professora Thereza Helena Cordeiro de Menezes, graduada em Pedagogia e com Licenciatura Plena e habilitação em Magistério.

Outros nomes de reconhecida experiência e dedicação à causa do ensino de Chorrochó desempenharam funções de destaque na direção da escola. São exemplos perenes e dignificantes: Maria Creuza Miranda dos Santos Araujo, Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, Izabel Ramos dos Santos, Maria Auxiliadora Gomes Nery, Maridete Amorim de Carvalho e Rosineide Rodrigues dos Santos.

A atual Diretoria, reconhecidamente eficiente, é exercida pelo professor Jadson Aleques Ribeiro, graduado em Licenciatura Plena e tem como vice-Diretora a professora Alessandra Barbosa do Nascimento Santos, graduada em Ciências Biológicas.   

A Escola Professora Josefa Alventina de Menezes funciona em dois turnos – matutino e vespertino – e neste 2024 conta com um universo de 226 alunos matriculados.

A escola tem Bandeira e Hino próprios. Esteiam-se em iniciativas e autorias de Maria Rita da Luz Menezes e Neusa Maria Rios Menezes de Menezes.

Uma respeitável equipe de valorosos colaboradores, cada um a seu modo e função que ocupa, dá sustentação à Escola Professora Josefa Alventina de Menezes: Adalsira Mota Menezes, Alessandra Barbosa do N. Santos, Eliane Gomes da Silva Barbosa, Fabiana Ribeiro dos Santos, Irailde Pereira Jericó da Silva, Jadson Aleques R. de Oliveira, Janicleide Maria Ribeiro, Lucineide Rodrigues dos Santos, Maria Aparecida Alves de A. Moura, Maria Valdilea R. de Souza, Marileide Alves dos S.Barbosa, Patrícia Alves Teixeira, Raniclecia Feitosa da Silva, Thereza Helena Cordeiro de Menezes, Keilla Caroline Belfort A. Ribeiro, Cléubia Rosana A. de Oliveira, Elza Araujo do N. Oliveira, Hizaete Pereira dos Santos, Janice Pereira da Silva.  

Salvos erros e omissões que me permito a corrigi-los, se instado a fazê-lo.

A travessia enfrentada pelos idealizadores da Escola Professora Josefa Alventina de Menezes assumiu o risco e deu certo: chegamos ao cinquentenário com luzes muito claras e horizontes promissores.

O mar do ensino de Chorrochó continua navegável.

A memória da professora Josefa Alventina de Menezes faz-se presente nestes 50 anos e a contribuição da professora Maria Rita da Luz Menezes torna-se indelével.

araujo-costa@uol.com.br  

Lula da Silva quer saber: cadê o povo?

Imagem do evento de 1º de maio de 2024 em São Paulo/Crédito: Poder 360

O político cearense Armando Falcão foi ministro da Justiça e dos Negócios Interiores de Juscelino Kubitscheck, o presidente mais democrata que o Brasil conheceu até os dias de hoje.

Entretanto, contraditoriamente, Armando Falcão foi, durante cinco anos, ministro da Justiça do general Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura militar de 1964.

Em tempo de ditadura, Armando Falcão ficou conhecido como ministro do “Nada a Declarar”, porque assim se expressava toda vez que a imprensa lhe perguntava sobre assuntos do governo, escabrosos ou não.

Outubro de 1954. Armando Falcão se candidatou a governador do Ceará pela coligação PSD/PSP. Em campanha, chegou a uma cidade para comício previamente combinado.

Tudo pronto. Palanque, som, microfones testados. A praça vazia, completamente vazia.

Armando Falcão chama o organizador do comício e pergunta: “Cadê o povo?”.

Resposta imediata: “Ora, seu Armando! Se eu tivesse poder para trazer o povo, o candidato seria eu e não o senhor”. 

Maio de 2024. O presidente Lula da Silva chega a São Paulo para o evento do Dia do Trabalhador, ambiente em que ele se sente à vontade, ou, pelo menos, se sentia à vontade.

Tudo pronto. Palanque gigantesco montado na zona leste da capital, microfones, alguns puxa-sacos circulando, o vice Alckmin com boné da CUT e cara de freira contemplativa, a praça vazia, algumas poucas pessoas presentes.

A “multidão” lulopetista não chegava a 2 mil pessoas num espaço escolhido e destinado a receber dezenas de milhares, segundo parte da imprensa mostrou e a GloboNews escondeu, porque Lula está despejando milhões em publicidade no Grupo Globo para falar bem do governo.

Somente de janeiro a outubro de 2023, Lula despejou no Grupo Globo R$ 66,18 milhões a título de verba publicitária (Veja, 17/11/2023).

Com uma generosidade assim, está explicado porque a jornalista Eliane Cantanhede qualifica Lula da Silva de gênio e Miriam Leitão diz que a inflação está alta, mas “é bom”.

Talvez Mirim Leitão seja a única jornalista do mundo que diz que inflação alta é boa para a sociedade.

Diante do fiasco de público, Lula da Silva, que costuma falar para milhares, se irritou e quis saber: Cadê o povo?

Ninguém conseguiu explicar. Lula cobrou em público explicação do ministro Márcio Macedo que, dentre outras atribuições, cuida dos movimentos sociais.

Márcio Macedo é o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, o mesmo que usou de dinheiro público para que três assessores o acompanhassem no Carvanal fora de época em Aracaju (SE) e se justificou pela farra à custa dos impostos que os brasileiros pagam: “Foi um erro formal”, disse o ministro folião.

Então, tá.

Experiente, Lula disse que o evento de 1º de maio foi mal convocado. As centrais sindicais silenciaram e o fato é que o povo não compareceu.

Lula tinha razão. O povo escafedeu.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva, o 1º de Maio e o PT

“O problema é estrutural no País. Os partidos políticos não representam as opiniões públicas, mas os interesses econômicos. Você elege o candidato para que ele defenda os interesses dele.” (Lincoln Grillo, político de esquerda, que foi prefeito de Santo André – SP, 1926-1982, Repórter Diário, setembro de 2012) 

Quando o Partido dos Trabalhadores (PT) ainda estava nos cueiros e engatinhava com dificuldade – década de 1980 – uma animada turma costumava se reunir no convento dos frades dominicanos, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Bandeira do PT/Site do Partido

Essa turma compunha-se de frequentadores, à época não tanto famosos: Lula, que ainda era somente Luiz Inácio da Silva; Djalma Bom, que foi deputado e vice-prefeito de São Bernardo do Campo; Jacó Bittar, amigo de Lula desde sempre, pai do dono formal do famoso sítio de Atibaia; Devanir Ribeiro, que tinha sido diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema na gestão de Lula; o combativo advogado de presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh; Paulo de Tarso Vannuchi, mais tarde ministro de Lula e o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, frei Betto.

Frei Betto, amigo e confidente de Lula da Silva, coordenava o grupo e cuidava da comida, experiência adquirida na Ordem dos Dominicanos e na cozinha mineira onde estão suas raízes.

Propósito das reuniões: fazer autocríticas, ouvir críticas dos companheiros e confessar erros e equívocos dos presentes. Uma espécie de confessionário especial e coletivo, embora restrito à turma.

O grupo recebeu o nome de “Grupo do Mé”, porque era regado a conhaque e outras bebidas estimulantes do ego, que permitiam a descontração e a expiação dos defeitos de cada um dos participantes, a submissão às críticas, a penitência, a reflexão.

Lula da Silva aprendeu muito nesse grupo. Mais pela autocrítica – que hoje não gosta de fazer – e menos em razão do “mé”, que ele já conhecia de cátedra. As circunstâncias difíceis da ditadura militar exigiam as amizades como bálsamo para o enfrentamento das dificuldades.

Os tempos mais difíceis são aqueles de atrocidades e incompreensões. E aquele era um tempo difícil.

Lula reinava absoluto na esquerda. Hoje está encurralado entre a direita e parte da própria esquerda, cuja especialidade é exagerar em tudo, inclusive na ânsia desenfreada de ocupar todas os espaços do poder .

Aliás, esquerda e direita no Brasil perderam o juízo e a sensatez.

Lula da Silva continua líder, independentemente dos erros que eventualmente tenha cometido ao longo do caminho político que vem trilhando. E quanto a erros parece não haver dúvida que os cometeu.

Mas as misérias e fraquezas de Lula da Silva não devem ser obstáculos ao império da civilidade política.

Em São Paulo, o dia 1º de Maio era sinônimo de unanimidade em torno do então sindicalista Lula da Silva. Hoje, não mais.

O PT não é mais coeso. Ninguém nega isto, nem mesmo próceres do partido e não é uma questão somente de divergência interna no campo democrático. É disputa por cargo, poder e mordomias.

Nesta quadra do tempo – e não só no PT – escasseiam líderes esquerdistas de envergadura moral a exemplo de Waldir Pires, Miguel Arraes, Darcy Ribeiro, Paulo Brossard, Ulysses Guimarães e tantos outros. E sobram figuras menores e folclóricas, incapazes de robustecerem os sonhos da esquerda, mas altamente capazes de radicalizarem o ambiente político nacional.

O destrambelhamento ideológico da presidente nacional PT destoa de grande parte dos filiados. O cansaço de Lula da Silva com essas festividades protocolares, 1º de Maio inclusive, o afastam das bases sindicais e populares, razoavelmente esfaceladas.

Em São Bernardo do Campo, berço político de Lula da Silva e do PT, o que mais se ouve é um amontoado de críticas ao antigo sindicalista Lula. Dos botequins aos ambientes mais sofisticados da elite sambernadense, Lula é uma espécie de “Vai Passar”.

O fato é que Lula da Silva flexibilizou seu discurso de conteúdo voltado ao 1º de Maio e se desviou em direção ao palanque político com vistas às eleições municipais deste 2024.

Escorregou, tropeçou na lei eleitoral e pediu voto extemporaneamente.

araujo-costa@uol.com.br