Câmaras Municipais: carreirismo impede o surgimento de novas lideranças

A história das câmaras municipais começa no Brasil Colônia. Salvo engano, a primeira câmara municipal foi a de São Vicente (SP), em 1532.

Somente possuíam câmaras municipais as localidades que tinham status de vila. Essa condição era decretada por ato régio da Coroa portuguesa.

Adveio o Império e a Constituição de 1824 fixou a duração da legislatura em quatro anos.

Com o surgimento da República, as câmaras municipais foram dissolvidas e os governos estaduais nomeavam os membros do “conselho de intendência”.

O intendente, que assemelhava-se ao prefeito de agora, foi criado em 1905 e essa figura jurídica permaneceu até 1930, quando foram criadas as prefeituras.

Somente com a Revolução de 1930, as câmaras passaram a desempenhar o papel de casas legislativas propriamente, mas foram fechadas entre 1937 e 1945, período do Estado Novo varguista. Em 1945 adquiriram o formato que ainda possuem.

No modelo atual, as Câmaras Municipais foram estruturadas, a princípio, pela Constituição de 1988, que delineou as bases e os vícios que ostentam. Mas impôs limites, alguns limites.

Tudo isto pra dizer que até a metade de 1960 o cargo de vereador não era remunerado, mas os edis mantinham o status de líderes municipais e até, em alguns casos, a liderança passava de pai para filho, como ainda hoje.

O vereador ou o prefeito de ontem é o pai do vereador ou do prefeito de hoje, de sorte que a atividade política se fecha num círculo familiar inevitável.

A democracia também constrói equívocos, vícios, privilégios.   

Em 1977, no regime militar então capitaneado pelo general-presidente Ernesto Geisel foi instituído o salário de vereador, que tem o pomposo nome de subsídio. Antes, somente os vereadores das capitais gozavam desse benefício salarial.

O intuito de Geisel, segundo a história, foi angariar apoio político nas bases interioranas e fortalecer a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido que dava sustentação à ditadura militar.

Não mudou muito.

Hoje o presidente da República de plantão abarrota os bolsos dos membros do Congresso Nacional (senadores e deputados federais) com as chamadas emendas parlamentares, emenda de relator, emendas impositivas, etc. Outros presidentes também o fizeram, cada um a seu modo, viabilizando-as.

Em consequência, os parlamentares continuam dando sustentação, desta vez não mais à ditadura militar, mas à ditadura do Poder Judiciário, também conhecida como ditadura da toga que, de fato, manda no Brasil atual.

Poder Executivo e Poder Legislativo hoje são enfeites de nossa combalida República. Executivo e Legislativo vivem de cócoras para o Supremo Tribunal Federal, que dita as regras, restringe atos dos demais poderes e interfere em suas decisões, sem nenhum pudor.

Nesse cenário, os vereadores se valem do assistencialismo. Alegam que trabalham para a população em tempo integral, são espécies de “despachantes do povo”. Muitos deles se intermediam entre a Câmara Municipal e a Prefeitura visando carrear benefícios próprios que dizem de interesse da população.

Nesse vai-e-vem parlamentar, os vereadores negociam seus votos com o Executivo e apoiam projetos e atos do alcaide.  O que menos fazem é legislar.

O carreirismo eleitoreiro passa a fazer parte da vida dos vereadores, de sorte que essa circunstância impede o surgimento de novas lideranças, até em razão de falta de lastro financeiro e eleitoral junto à população.

Quem está há mais tempo em contato com o poder tem experiência, votos, conhecimento, sabe os caminhos em direção às benesses. Aí reside a dificuldade do surgimento de novos líderes.

Outra anomalia que apequena as Câmaras Municipais é esta: na maioria dos municípios os vereadores se reúnem apenas uma vez por semana ou, no máximo, duas vezes, o que afronta a população que paga seus subsídios e mordomias do cargo.

Como se sabe, a carga horária do cidadão comum excede, em muito, essa mamata dos afortunados edis.   

Entretanto, vícios, erros e arestas podem ser aparados, aperfeiçoados, descartados, excluídos.

Ainda assim, as Câmaras Municipais são os andaimes da democracia e essenciais ao viver cotidiano da população.

A essencialidade das Câmaras Municipais se sustenta na soberania do voto popular e isto é o bastante.

araujo-costa@uol.com.br

Os parasitas e sanguessugas do Poder Judiciário

Além dos muitos privilégios que desfrutam, inclusive férias de 60 (sessenta) dias, os juízes federais reivindicam mais uma vergonha: a cada 03 (três) dias trabalhados, querem 01 (um) dia de folga, que pode ser paga em dinheiro.

É possível acreditar num descalabro desses vindo do Poder Judiciário?

Mais: querem embolsar R$ 241 milhões em supostos benefícios já extintos, ou seja, benefícios que já foram, “pagos e repagos inúmeras vezes”, segundo a ministra Maria Tereza, do Superior Tribunal de Justiça (Folha de S. Paulo, 18/11/2023).  

Um acinte aos brasileiros que passam fome e pagam os salários do Poder Judiciário, além das mordomias estratosféricas, inclusive jatinhos, bebidas e festas nababescas.

Como se não bastassem as aposentadorias dos inúmeros juízes corruptos que se enveredaram pelo crime e têm como punição máxima a aposentadoria paga com os impostos que os brasileiros arcam.

No Brasil, para os magistrados, o crime compensa.

O Brasil precisa mudar.     

Mas como mudar se, por exemplo, o Brasil tem como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) um ministro ativista político, cujo vocabulário deplorável que usa, incompatível com a linguagem de magistrado, vai na linha do “Perdeu Mané”?

Mesmo assim, o Brasil precisa mudar.

A mudança está nas escolas, nos professores.

A educação de nossos jovens é o único caminho possível para que no futuro não tenhamos magistrados corruptos e ativistas políticos comandando o Poder Judiciário, mas juízes probos, sérios e éticos.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté se despede de Mundinho

Mundinho e Rosângela Brandão/Álbum da família

Raimundo Brandão Filho (Mundinho) sempre esteve rodeado de familiares, amigos e admiradores. Exemplo de dignidade, pisou com altivez o chão poeirento e garranchento da realidade do sertão.

Mundinho morava na Fazenda Almeida, nas redondezas de Patamuté, salvo engano. Em tempo de memória esburacada, às vezes chego a confundir datas, lugares, pessoas.

Por lá se acostumou com o gibão, guarda-peito e chapéu de couro, parte de sua indumentária de vaqueiro. Manuseou estribo e sela e definiu seu viver com fundamento na simplicidade, decência e honradez.

Mundinho enfrentou a quentura da caatinga, os percalços da vida sertaneja. Cuidou de seus animais, de sua labuta diária, do seu cotidiano de proprietário rural.  

Constituiu e criou família decente e respeitada.

Lutou, tenazmente, na condição de homem do campo, da fazenda. Sustentou sua moral irrepreensível, transmitiu educação e conhecimento à família, incluídos aí netos e demais da descendência.

Mundinho observou o nascer do sol e o crepúsculo, viu a lua que amenizava a noite, clareava a escuridão e suavizava o viver sertanejo. Levantou com a alvorada e cantar dos pássaros.

A esperança do sertanejo se fortalece no alvorecer e nas dificuldades do caminhar.

Mundinho viu as árvores ressequidas em tempo de seca e terra esturricada, alegrou-se com o verde em tempo de chuva, admirou a água que saciava a vida e a sede de seu criatório.

Já se vão, por aí, algumas décadas. Minha geração aprendeu a admirar as pessoas boas, honestas, de bom caráter. Lembro Mundinho, José Brandão, João Brandão, Bonfim, Pedro, Manu e outros tantos que já se foram e faziam parte dessa admiração que todos nós tomávamos como exemplos de vida.

Admirávamos também as mulheres que faziam parte da família desses homens, enfeitavam os lares e amparavam a educação de seus filhos. Elas eram os esteios que os sustentavam na labuta diária.

Mas tudo chega ao fim. É o mistério inarredável da vida e da morte.

“É morrendo que se vive para a vida eterna”, segundo o ensinamento de São Francisco. A fé nos dá esse bálsamo nos momentos de crueldade da despedida.

Beirando um século de vida (1929-2023), Mundinho partiu para a distância inalcançável rumo à eternidade. Seu adeus deixou saudade.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, lhe indique o caminho e Deus o ampare.  

Deixo pêsames à família.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá o atendimento da Prefeitura é confuso

“A lei é como uma cerca. Quando é forte, a gente passa por baixo; quando é fraca, a gente passa por cima” (Coronel Chico Heráclio, 1885-1974).

O lendário coronel Francisco Heráclio do Rêgo, chefe político, dono do poder e proprietário rural de Limoeiro, agreste pernambucano, tinha uma forma peculiar de cumprir a lei. Inventava uma maneira de cumpri-la a seu modo.

Em Curaçá, município baiano do submédio São Francisco, parece que há discípulos do coronel Chico Heráclio.

A Prefeitura disponibiliza ou chegou a disponibilizar, não se sabe a que critério – e isto aqui não interessa – máquinas para proprietários rurais abrirem pequenas aguadas ou cuidarem da manutenção de barragens antigas, o que permite o enfrentamento do difícil período de seca.

Todavia, há casos em que, para a execução do serviço pretendido, foi exigido o combustível do sitiante, que já anda capengando. Não está clara se essa exigência é extensiva a todos ou apenas a alguns, em situações esporádicas e eventuais.

Parece aí que o município precisa fazer alguns ajustes nessa forma de atendimento à população. Ou, no mínimo, esclarecer sobre as condições legais em que a Prefeitura pode ou não disponibilizar o equipamento e se o pagamento do combustível é exigido por disposição legal e, como tal, obrigatório.  

Nalguns casos, para pequenos proprietários rurais, disponibilizar o equipamento sem combustível significa uma forma de dizer não.

Como se diz no Nordeste, “além da queda, coice”.

O pequeno proprietário rural já anda fragilizado com a constante situação de penúria natural da região e, ainda, por cima, o poder público dá-lhe um empurrão em direção à queda, ao precipício.   

Excetuam-se dessa avaliação, por óbvio, os casos de tratores e outros equipamentos destinados a comunidades e associações. Razoável entender que, em quadro assim, os custos precisam ser diluídos entre os associados, de modo que a solidariedade é necessária, imperiosa, compreensível.

Morador em sítio do distrito de Patamuté pediu à Prefeitura um caminhão de água para abastecer sua cisterna. A resposta foi curiosa, para dizer o mínimo: o servidor orientou o morador no sentido de colocar calhas na residência para colher água da chuva e abastecer a cisterna.

Orientação valiosa, útil, prestimosa, mas no momento errado.

Noutras palavras o servidor quis dizer: espere a chuva. Mesmo assim, prometeu a ida do caminhão, que não foi. 

De qualquer modo, salvo melhor juízo, não parecem claras as informações que a Prefeitura de Curaçá disponibiliza aos munícipes, mormente no que tange às atribuições de cada setor. Quem deve ser instado a atender o munícipe e se o servidor que o atendeu o fez satisfatoriamente.

Por exemplo. Na estrutura administrativa da Prefeitura, consta como atribuição da Secretaria de Agricultura Sustentável e Ações do Interior:

“XXV – promover, em articulação com a Secretaria Municipal de Fazenda, a elaboração do diagnóstico turístico de Andradas e propor as estratégias do Governo Municipal para dinamizar o setor;” 

A mesma competência é atribuída à Secretaria Municipal de Urbanismo e Serviços Públicos.

Confesso que tenho dificuldade de entender essas atribuições e, menos ainda, porque simultaneamente vinculadas às duas secretarias.

Pode ser burrice deste escrevinhador, ignorância, desconhecimento da realidade local, mania de meter o bedelho.

Mas deve haver alguma desconformidade no agir da Prefeitura de Curaçá, ainda que seja apenas no campo das informações.

Aperfeiçoar não faz mal a ninguém, nem precisa de fuá.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

Por falar em Limoeiro, lembrei do forró de Jackson do Pandeiro:

“Eu fui pra Limoeiro
E gostei do forró de lá
Eu vi um caboclo brejeiro
Tocando a sanfona, entrei no fuá”

As estradas de Patamuté

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” (Graciliano Ramos, 1892-1953, Vidas Secas)

Amiúdam-se relatos dando conta de que as estradas que permitem o acesso ao distrito de Patamuté estão intransitáveis. Todas elas. Qualquer uma que o usuário escolher vai se arrepender de não ter escolhido a outra.

Situação que não significa nenhuma novidade. Sempre foi assim. Em Curaçá, há precedentes de administradores relapsos, negligentes, preguiçosos, desatentos.

O fato é que se torna difícil chegar a Patamuté, transitar por lá. As estradas estão esburacadas, ruins, difíceis.

O prefeito de Curaçá certamente se espelhou nos antecessores e, pelo que se vê, presume-se que ele entende que está tudo bem em Patamuté.

A título de exemplo, morador de Patamuté informa que o Mercado Municipal está “caindo aos pedaços”, portas danificadas, sem qualquer manutenção, inclusive da pintura.

Como se vê, falta empenho dos líderes políticos locais no sentido de reivindicar, cobrar, cutucar, exigir atenção da Prefeitura.

Quanto à conservação das estradas, trata-se de coisa difícil de acontecer.

E por que não acontece? Porque os homens públicos de Curaçá são politicamente fracos, subservientes, incompetentes. Faltam-lhes altruísmo, vontade de lutar pelo lugar e capacidade de saber exigir. Mais do que isto: consciência de cumprir o dever.

A situação chega a ser constrangedora, dizem relatos mais recentes. Donos de automóveis chegam a carregar enxadas, pás e picaretas, para fazer pequenos reparos nalguns pontos das estradas. Coisa que o poder público tem o dever de fazer, mas não faz.

Os líderes locais se apequenam e contentam-se em tirar fotos ao lado de políticos estaduais e federais com o intuito de espalharem nas redes sociais e mostrar aos eleitores que têm prestígio, de olho nas próximas eleições.

Fotos e imagens de líderes distritais em pré-campanha, ao lado de políticos demagogos, dão um baita resultado: atestado de bajuladores.

A Bahia sempre teve simulacros de governantes, figuras opacas, mesquinhas, preguiçosas, narcisistas, arrogantes, politiqueiras, despreparadas enquanto homens públicos.

O peso dos votos de Patamuté e dos eleitores de todo o distrito é insuficiente para pressionar quem tem o dever de cuidar das estradas do distrito – e não somente das estradas. Se sequer terraplenagem é feita regularmente, imaginemos o que se pode esperar.

A Igreja Católica elevou a gruta de Patamuté à condição de Santuário. Não se sabe de nenhum movimento de autoridades do município para fomentar o turismo e movimentar a economia do lugar, pelo menos em ocasiões de romarias.

Veem-se medidas imediatistas, ínfimas, estanques.

Entre 30 de outubro e 1º de novembro deste 2023 realizaram-se os festejos da Gruta de Patamuté.

E o estado das estradas?

Tapa-buracos e paliativos outros, em ocasiões sazonais, não resolvem, mesmo que sejam feitos anualmente, quando feitos.

Sem nenhuma infraestrutura, em tempo de chuva, os romeiros, turistas e outros que tais enfrentam lamaçal, atoleiro; em tempo de seca, poeira, solavancos.

Todavia, o charme de Patamuté reside em suas dificuldades, porque o povo precisa viver e outra maneira não há, senão viver em meio às dificuldades.

Mas nos resta a esperança nos jovens de Patamuté, futuros líderes. E esperança nos professores de hoje, que iluminam os caminhos desses jovens.

As gerações passadas fracassaram. Os sonhos não fracassaram.

Um dia Patamuté chegará ao seu destino.

Basta refletir na hora de votar.

E o que tem a ver a frase acima de Graciliano Ramos com as estradas de Patamuté?

Nada. Apenas saudade da caatinga.

araujo-costa@uol.com.br

O PT e o fracasso da lógica

“A lógica não pode substituir a evidência” (Giovanni Sartori, cientista político italiano, 1924-2017)

Promessas

Nada melhor do que o PT para não cumprir as promessas do PT.

Na campanha eleitoral de 2018, Rui Costa (PT), à época governador da Bahia, elencou 144 promessas que cumpriria, se eleito fosse. E foi. Os baianos o reelegeram com retumbante 75,5% dos votos.

Findo o governo, Rui Costa havia cumprido 63 das promessas de campanha, o que equivale a 43,75% do que disse que faria, dentre outras que as cumpriu parcialmente.

Os dados são do G1 Bahia, 04/01/2023.

Nenhuma novidade, todavia.

Não só o PT deixa de cumprir o que promete. Isto faz parte da malandragem dos candidatos, independentemente de partidos políticos. O que mais se vê é embuste nos palanques eleitorais.

Puxa-sacos e tapinhas nas costas

Eleito em 2022 para o terceiro mandato, Lula da Silva, em discurso, disse que este seu novo governo não precisa de “puxa-sacos” ou “tapinha nas costas” (Veja, 22/12/2022).

Então, se assim for, Lula da Silva precisa repreender o exagerado Flávio Dino (PSB-MA), ministro da Justiça e Segurança Pública.

O ministro Flávio Dino caminha na contramão da orientação do chefe Lula da Silva, que não quer tapinhas nas costas, nem puxa-sacos, neste seu terceiro governo.

Flávio Dino disse que Lula é “homem honrado, honesto, orgulho do Brasil e um dos maiores estadistas do mundo”.

A imprensa publicou. Está gravado. Matéria prima para os humoristas.

Este escrevinhador não duvida que Lula é tudo isto e até mais do que isto, mas um subalterno elogiar assim o chefe é, no mínimo, constrangedor, ainda mais para Flávio Dino, que sonha em ser indicado por Lula para ministro do Supremo Tribunal Federal.  

Só faltou Lula parafrasear o professor Raimundo e dizer: “menos, ministro, menos”.

Culpa das nuvens

Um jornalista perguntou à espevitada ministra Marina Silva (Rede Sustentabilidade), do Meio Ambiente e Mudança do Clima, qual a diferença entre os índices publicados pelo governo (menores) e os índices publicados por órgãos de imprensa (maiores) no que tange ao desmatamento e aos incêndios na Amazônia.  

Crítica feroz do governo Bolsonaro, a ministra recebeu o microfone, passou para um assessor, que passou para outro, que passou para outro, que retornou, sem resposta, para Marina Silva. Visivelmente constrangida, ela declarou:

– São as nuvens. A atualização dos índices acontece em tempo real, mas quando tem nuvens isto não é possível, pode dificultar.

O jornalista esqueceu de perguntar à ministra, se no governo Bolsonaro, que ela tanto espinafra, não havia nuvens.

Déficit zero nas contas públicas

Lula da Silva escolheu o professor paulista Fernando Hadad, presumível futuro candidato do PT à presidência da República – se Lula não puder disputar – para comandar a economia, por enquanto.

Haddad saiu alardeando que em 2024 o Brasil terá déficit zero. O tamanho dos gastos, mais juros da dívida pública, não podem ser maior que a receita. Vai daí que o governo não pode gastar mais do que arrecada. Até aí, tudo bem. Corretíssimo. 

Lula deu corda a Haddad e o ministro pensou que era verdade. Agora, Lula fez caminho inverso, de olho nas urnas de 2024. Disse que déficit zero é muito difícil e que quer os ministros gastando em obras e investimentos.

O PT precisa de votos nas eleições municipais e precisa alimentar os políticos do chamado Centrão e suas bases nos estados, que Lula tanto criticou na gestão Bolsonaro.

Lula não disse, nem precisava dizer, que o PT necessitará de votos nas eleições de 2024.

Pelo jeito, nos governos do PT, dá-se o fracasso da lógica.

araujo-costa@uol.com.br

Morte de Tito Costa enterra um pouco da história de Lula

Tito Costa/Prefeitura de São Bernardo do Campo/Reprodução de O Globo

Antonio Tito Costa (1922-2023), político e jurista, respeitado nas áreas de Direito Constitucional e Eleitoral, ex-prefeito do município paulista de São Bernardo do Campo (1977-1983) e deputado federal constituinte (1987-1990), faleceu em 28/10/2023.

Tito Costa foi o responsável, em parte considerável, pela ascensão nacional de Lula da Silva e seu amigo nos momentos de extrema dificuldade do petista. Chegou a esconder Lula e a família por cerca de 20 dias, em sua chácara, no município paulista de Torrinha, quando a polícia política do general Ernesto Geisel perseguia o então sindicalista.

Na ocasião em que o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) prendeu Lula, Tito Costa não o abandonou.

Quando Lula se debandou para o lado da corrupção, Tito Costa se afastou com uma frase dura: “Decepção. Lula perdeu a chance de ser um operário-estadista. Preferiu outros caminhos” (Diário do Grande ABC, 22/09/2015).

Tito Costa viria a se encontrar com Lula, anos depois do rompimento, em duas ocasiões: na posse do ministro Ricardo Lewandowski no Supremo Tribunal Federal. Lewandowski e Tito Costa eram amigos de muitos anos; a outra, no lançamento da Universidade Federal do ABC.

Nas famosas greves de 1979, quando Lula se despontou e firmou sua liderança sindical e política , Tito Costa cedeu o Estádio Municipal de Vila Euclides para os grevistas se reunirem, em assembleia, sob a liderança de Lula.

Os primeiros contatos de Lula com Tito Costa deram-se em 1976. Lula era dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e Tito Costa candidato a prefeito. Lula o apoiou e recebeu a retribuição do prefeito três anos depois, nos agitados dias das greves dos metalúrgicos.

O apoio do então prefeito do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) a Lula, lhe custou um chamado a Brasília e uma conversa difícil com o general Golbery do Couto e Silva, todo poderoso ministro chefe da Casa Civil do presidente Geisel e com o chefe da Casa Militar.

Tito Costa contou: “Eles me falaram que eu estava colocando muita lenha na fogueira em São Bernardo. Falei que não, que colocava água na fervura” (Entrevista ao Diário do Grande ABC, 16/07/2018).

O distanciamento de Tito Costa e Lula da Silva deu-se mais por razões éticas do que políticas. Tito Costa achava Lula “inteligente e sagaz”.

Lula da Silva foi receber o título de “Cidadão de São Bernardo” na Câmara Municipal. No momento que foi anunciado o nome de Tito Costa, as galerias repletas de lambe-botas lulopetistas explodiram em vaias.

Entretanto, Lula demonstrou grandeza, gratidão e jogo de cintura. Agradeceu a presença de Tito Costa. O  ambiente ficou mais ameno.

Mas Tito Costa tinha uma opinião muito clara sobre o Partido dos Trabalhadores (PT) e os dirigentes petistas: “Ninguém tira da minha cabeça que o PT tinha plano de poder e não projeto de Brasil. Isso foi o Frei Beto quem falou e eu acredito nisso” (Entrevista ao Dário do Grande ABC, 16/07/2018).

A história de idealismo e seriedade da luta sindical de Lula da Silva se foi ficando pelo caminho, despedaçando-se.

A política partidária lhe roeu o idealismo e o colocou na vala comum, igualando-se aos demais do mundo político.

A morte de Tito Costa enterra um pouco dessa história séria de Lula.  

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: José Eudes de Menezes

José Eudes, esposa Marina Araújo e filhos Eloy Neto e Adriana/Álbum da família

José Eudes de Menezes () era filho de Eloy Pacheco de Menezes e Maria Argentina de Menezes.

Todos deixaram um vazio enorme, cruel e inominável na vida social de Chorrochó.

A comarca de Chorrochó foi instalada em outubro de 1967. Já se vão, por aí, 58 anos. José Eudes de Menezes foi o primeiro escrivão dos feitos criminais e serventuário do primeiro juiz titular Dr. Olinto Lopes Galvão Filho.

Todavia, aqui não quero falar da comarca. Já o fiz noutras ocasiões. Tampouco do cargo que ele exerceu com tanta honradez, dignidade e dedicação, tarefa esta reservada a historiadores e memorialistas, que não é o meu caso.

Refiro-me aqui ao amigo Iê. Convivi com ele alguns anos, poucos anos, tempo suficiente para desfrutar de sua amizade. Ele me ensinou datilografia. Disponibilizava sua máquina de escrever portátil para que eu pudesse aprender e treinar no local onde trabalhava, o Bar Potiguar.

À época ginasiano do Colégio Normal São José, ao lado dele construí muitos dos meus sonhos, alguns realizados, outros não.

A máquina de escrever era verde, deve ainda estar por aí, nalgum lugar de Chorrochó e nela o vi, muitas vezes, datilografando certidões forenses no cumprimento de seu dever. Uma escrita limpa, sucinta, cuidadosa.

Para alguns jovens, que nunca viram uma máquina de escrever, o que não é nenhum demérito, explico que não se trata de nenhuma geringonça jurássica, mas um utilíssimo equipamento que antecedeu o computador. O que hoje se diz digitar, antes se dizia datilografar.

O escritor paraibano José Lins do Rêgo escreveu que “a idade nos cura dos achaques da infância”. Outro escritor, este amazonense, Milton Hatoum, diz que “talvez a velhice seja um naufrágio”. Creio que ambos estão certos.

Benditos os achaques da infância. Benditos os caminhos que nos levam à velhice. Benditas as recordações.

O diabo é que a idade não cura também os traumas. Muitos deles ainda carregamos no cambalear de nossos tropeços. A saudade dos amigos que se foram faz parte desses traumas, o martelar da constante ausência desses amigos e, mais do que isto, a crudelíssima certeza de que não será mais possível encontrá-los.

O falecido jurado de televisão Pedro de Lara me disse uma vez numa tarde em São Paulo, que os sonhos permitem tudo, inclusive o encontro com os mortos.

Cético, zombei, duvidei, questionei. Sério, semblante fechado, olhar desafiador, cabelos desalinhados, Pedro de Lara escreveu num pedaço de papel e me passou. Guardo-o até hoje: “você duvida, mas acredita”. Achei-o profundo, filosófico, reflexivo.

Passei a observar: quando sonho com amigos falecidos, ao acordar tenho a sensação de que estavam ali presentes.

Todavia, quanto a , guardo algumas recordações, além da amizade, que é indestrutível, apesar da morte: a boemia, os encontros diários, a generosidade, a lealdade, a convivência, o sorriso.

Espirituoso, vi-o algumas vezes pensativo, mas nunca o presenciei triste e cabisbaixo.

Uma vez no desaparecido Bar Potiguar, em Chorrochó, um senhor se desentendeu comigo e, estranhamente, dias depois, em atitude duvidosa, passou a andar nas proximidades.

Nada muito sério, mas eu era jovem, inexperiente, não tinha cacife para enfrentar situações embaraçosas, quiçá perigosas.

percebeu e me deu uma cobertura destemida e diária. Difícil esquecer essas demonstrações de lealdade e amizade, mesmo que distantes no tempo.

deixou mulher e filhos. Família bem estruturada, admirável, moralmente sadia.

Prezo todos, admiro todos, gosto de todos. Talvez seja uma marca do que ele me ensinou em nossa convivência: o valor da amizade.

Tempo de Amada amante, A beleza da rosa e Pensando em Marisa, que Roberto Carlos e José Ribeiro alegravam nossa juventude. Tempo dos bailes da antiga Barra do Tarrachil ao som de Izabela, de Renato e seus Blue Caps e Mar de rosas, de The Fevers.

Não importa o tempo, mas a lembrança.

Amigo relapso, não tinha em meus arquivos sequer uma foto de que pudesse ilustrar esta crônica. Vali-me dos préstimos de sua atenciosa família: Marina, Adriana, Taciana e Eloy Neto. Agradeço a todos pela presteza e generosidade.     

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: Eloy Pacheco de Menezes

Igreja de Chorrochó. Construção de 1885 idealizada e construída por Antonio Conselheiro, o beato de Canudos.

Eloy Pacheco de Menezes fez parte de uma época de lutas e turbulências do município baiano de Chorrochó. Integrante de família tradicional, Eloy carregava no nome a marca de uma estirpe muito respeitável naquela região sertaneja: Pacheco e Menezes.  

Em todo território do município e circunvizinhança, principalmente na zona rural, quando os sertanejos falavam em respeito e dignidade, era comum a referência a “os Pachecos”, como senhores portadores desses atributos tão importantes na vida do povo nordestino. Hoje isto mudou.

Um dos legados de Eloy Pacheco de Menezes foi e será a luta constante e intensa que travou, ao lado de Dorotheu Pacheco de Menezes, amigo e confidente, em prol dos interesses de Chorrochó.

Mas – e  sempre há um mas se intrometendo – na opinião deste escrevinhador, o que Eloy deixou de mais admirável foi seu caráter irrepreensível e inquestionável.

Ao consolidar-se a emancipação do município em 12.09.1954, Eloy foi nomeado gestor dos negócios municipais, uma espécie de prefeito provisório, por decreto do então governador da Bahia, Luís Régis Pacheco Pereira. Nessa condição, foi o responsável pela instalação dos serviços públicos do município, enquanto as instituições precariamente se acomodavam.

Todavia, a história registra alguns atributos de Eloy, além dessa arraigada luta política ao lado de Dorotheu: o caráter inflexível, a dignidade e a intransigência quando, eventualmente, sentia sua honra ameaçada. Noutras palavras, era valente, pavio curto e, sobremaneira, decidido. Em defesa da família e de seus valores morais, tornava-se impassível, afoito, corajoso, audaz.

Como diria Raul Pompéia (O Ateneu), Eloy tinha “as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter”. Não arredava o pé de seus alicerces, de seus valores, dos ditames de sua consciência.

Embora Chorrochó, através dos órgãos de cultura, salvo melhor juízo, nunca tenha evidenciado o papel de Eloy Pacheco de Menezes na história do município, é inegável sua contribuição para edificar os alicerces de que hoje o município dispõe.

Eloy Pacheco de Menezes/Arquivo Margareth Gomes Pires

Eloy foi um daqueles senhores intransigentemente engajados na luta em defesa do município. Dir-se-ia absolutamente convicto, seguro dos valores que defendia, apegado aos seus pontos de vista.

Eloy viveu numa época em que se evidenciava a ausência de entendimento entre as lideranças municipais, fato esse que direcionava os assuntos políticos para o terreno das relações pessoais. Tempos difíceis, em que a convivência entre os políticos e líderes locais dava-se de forma arredia, desconfiada, vigilante, atenta.

Naquele tempo, as correntes políticas de Chorrochó mantinham-se diuturnamente vigilantes em relação aos adversários. Entretanto, Eloy nunca subestimou o lado contrário, mas não vergava quando o assunto arranhava sua honra.  Em razão disto, tinha fama de duro, valente, intransigente.

Aqui, o fundo de verdade é de ordem geral. O homem nordestino daquele tempo era sobremaneira zeloso da sua honra e construía a reputação alicerçada no respeito e na palavra empenhada.   

Casado com Maria Argentina de Menezes, elegante senhora da sociedade chorrochoense, Eloy constituiu família honrada e decente que enriquece Chorrochó até hoje, através de sua valiosa e respeitável descendência. Transmitiu aos filhos a mesma retidão de caráter que ostentou até a morte.

Eloy, a esposa Maria Argentina de Menezes e os filhos Ernani de Amaral Menezes, Maria Menezes (Pina) José Eudes de Menezes (Iê) e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó) contribuíram, cada um a seu modo, para uma quadra inesquecível da história de Chorrochó, que deve muito a todos eles.

Eloy voltava-se à vida do sertanejo: a luta, o sofrimento, a esperança imorredoura e até o lamento. Admirador do poeta cearense Patativa do Assaré, ouvia, com absoluto respeito, a música “Triste Partida” gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, talvez o melhor retrato sociológico do retirante nordestino em direção às estradas do sudeste em que São Paulo é uma gritante referência.    

Chorrochó precisa retirar Eloy Pacheco de Menezes do esquecimento e colocá-lo à luz do conhecimento das novas gerações, através de seus registros históricos.

Se “um país se faz com homens e livros”, segundo Monteiro Lobato, Chorrochó precisa cuidar da memória dos homens que fizeram sua história já que nunca se preocupou com os livros.

Se me não engano, parece que Chorrochó tem uma secretaria municipal de cultura, uma diretoria de cultura ou coisa parecida, o que se trata de uma boa notícia.

Tenho esperança que esse setor, que cuida da cultura – ou deveria cuidar – retire do esquecimento nomes de pessoas que contribuíram para a história do município, a exemplo de Eloy Pacheco de Menezes e da professora Marieta Argentina de Menezes, evidenciando-os perante as novas gerações.  

araujo-costa@uol.com.br   

A Bolsa Família de Lula da Silva

“Precisa-se ter estômago para engolir cobras, aranhas e jacarés” (Ademar de Barros, que foi governador de São Paulo, 1901-1969)

Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República

Lula está cumprindo à risca o que prometeu nas campanhas eleitorais presidenciais das quais participou.

Ele está extirpando a pobreza. Em sua casa.

“Lula e sua mulher escalaram 74 funcionários, que se revezam 24 horas do dia paparicando o casal. As extravagâncias incluem 11 motoristas para oito carros, aspones, maître, chef de cozinha, garçons, camareiras, fisioterapeuta e diversos outros” (Diário do Poder, 23/10/2023).

Só uma ligeira e parcial amostra das despesas da residência oficial de Lula da Silva em 2023:

Conta de luz: R$ 589,2 mil

Conta de água: R$ 418,5 mil

Conta de gás: R$ 57,3 mil

Conta de água do viveiro do palácio: R$ 265,8 mil, certamente a mais bem empregada.

Portanto, mais de R$ 1 milhão em contas básicas de consumo que os brasileiros pagam para sustentar Lula da Silva e a ilustríssima primeira dama Janja. Somem-se as demais despesas obrigatórias do palácio, tais como estrutura alimentar e bebidas finas, necessárias para receber visitantes, inclusive estrangeiros.    

É uma Bolsa Família de respeito.

Essa estrutura palaciana também foi usada por outros presidentes da República, cada um ao seu estilo. A diferença é que Lula da Silva se diz defensor dos pobres e dos oprimidos. Aí está a incompatibilidade entre a gastança e o discurso.

O PT e seus penduricalhos há muito vêm acabando com a pobreza no Brasil.

Por exemplo, os ministros lulistas Rui Costa (Casa Civil), Wellington Dias (Combate à Fome), Renan Filho (Transportes) e Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) arranjaram emprego para suas mulheres, cargos vitalícios, em tribunais de contas, com salários mensais acima de R$ 35 mil, além das mordomias.

Como se vê, o combate à fome existe.

araujo-costa@uol.com.br