Exército, ABIN e esculhambação

Estamos todos em risco.

Assuntos veiculados sobejamente na imprensa durante esta semana vêm trazer a constatação de que estamos todos em condição de absoluta vulnerabilidade.

Furtaram metralhadoras e fuzis do Arsenal de Guerra do Exército, em São Paulo. Ou seja, sem arrombamento e nenhuma violência, surrupiaram do paiol de uma de nossas respeitáveis Forças Armadas, 21 armas potentes capazes até de derrubar helicópteros.

A vigilância do Exército não vigilou.

Algumas dessas armas, segundo as polícias do Rio e São Paulo e o próprio Exército, foram encontradas no Rio de Janeiro em área dominada por traficantes e pelo crime organizado que a polícia chama de narcomilícia.  

Chega a ser hilário, embora o assunto seja tão sério. A polícia diz que um dos grandes criminosos se recusou a adquirir as armas do Exército porque, em sua avaliação, não eram eficientes para o padrão de delinquência do grupo criminoso de que faz parte.

Ou seja, o crime organizado está mais bem armado do que o Exército.

Os órgãos de segurança de São Paulo dizem que esse criminoso está sendo monitorado. Ora, se estiver sendo monitorado, por que ainda não foi preso?

Presume-se que um depósito de material bélico do Exército seja altamente seguro, à prova de qualquer tipo de ataque externo, o que parece não ser o caso, tanto que as armas saíram pela porta da frente e, segundo consta, o furto somente foi notado um mês depois.

Supõe-se que, nessa condição de negligência do Exército, até emissários de qualquer país pode adentrar nossos arsenais de guerra e levar as armas.

Como se vê, a história está mal explicada pelo Exército.

Estamos nesse nível de falta de credibilidade do Exército?

Outra notícia, também cabeluda, dá conta de que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) espionou pelo menos 30 mil brasileiros, através de um sofisticado mecanismo de inteligência adquirido ainda no governo Temer e posto em prática no governo Bolsonaro.

A espionagem foi ilegal, segundo a Polícia Federal, porque invadiu e bisbilhotou a privacidade de políticos, jornalistas e outros et ceteras, sem ordem judicial.

Aliás, do jeito que parte do Poder Judiciário, mormente o Supremo Tribunal Federal, está contaminada pelo ativismo político, até uma ordem judicial dessa natureza causaria estranheza e afigurar-se-ia altamente questionável.  

Portanto, estamos todos vulneráveis ou, pelo menos, estivemos vulneráveis por um longo período.

Falta eficiência no Exército.

Sobra ilegalidade na ABIN.

O Brasil está uma esculhambação só.

Post scriptum I

Novo Triunfo (BA), Custódia (PE) e Maravilha (AL) são alguns municípios que, segundo a Folha de S.Paulo de 22/10/2023, criaram turmas fantasmas de alunos com o intuito de desviar verbas públicas.

Novo Triunfo, com 10.660 habitantes, tem 2.151 matrículas no programa EJA (Ensino de Jovens e Adultos), 20% da população. Em 2020 o município tinha 30 alunos na modalidade.

Post scriptum II

Marília Marton, secretária estadual de Cultura de São Paulo, criou uma briga com os conselheiros da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) e se declarou “pós-doutora em pedagogia do constrangimento”.

A arrogância tem vários nomes.      

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Explicações, mais que explicadas

Mais do que explicado – I

Explicada a repentina mudança das críticas do senador Randolfe Rodrigues (AP), líder do governo no Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal: a mulher dele foi nomeada para ocupar um cargo no gabinete da ministra Carmen Lúcia, do STF (site Metrópole, 19/10/2023).

Mais do que explicado – II

Explicado o atabalhoado desempenho da inexpressiva senadora Eliziane Gama (PSD-MA) na CPMI do 8 de janeiro: Lula da Silva nomeou o marido dela para ocupar cargo no Serviço Geológico do Brasil, empresa pública vinculada ao Ministério das Minas e Energia com salário de R$ 27 mil (sbt News, 03/08/2023. Mais: uma irmã da senadora foi nomeada para exercer o cargo de superintendente no Ministério da Pesca no Maranhão (G7, 02/06/2023).

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A Justiça da Bahia e o cupim da indecência

Tribunal de Justiça da Bahia

O cupim da indecência está roendo o Poder Judiciário da Bahia.

Há algum tempo não muito distante – anos de 2019 e 2020 –  o Superior Tribunal de Justiça mandou prender alguns magistrados da justiça estadual baiana, incluída aí uma ex-presidente do Tribunal de Justiça, afastou cautelarmente o então presidente do Tribunal e outros desembargadores e alcançou até juízes de primeira instância, todos acusados pela prática de crimes, inclusive venda de sentença e formação de quadrilha.

Um descalabro.

Naquela quadra do tempo, aconteceram senões que envergonharam a Justiça da Bahia e expuseram as vísceras de alguns de seus integrantes, que se desviaram da decência e dos ditames da nobre função jurisdicional e optaram pela delinquência.

Há muito que alguns magistrados da Bahia vêm envergonhando os baianos e não só os baianos, mas todos os brasileiros. É conhecida a tendência de alguns magistrados à delinquência. Poucos, felizmente.

Entrementes, nem tudo está perdido. Isto não chega a contaminar, no todo, a nobre Justiça baiana. Há magistrados sérios, de caráter irrepreensível. Sempre há, certamente a maioria.

Do alto de suas corruptas arrogâncias, esses apequenados magistrados que enveredaram para o crime, certamente deram muitas lições de moral a pessoas humildes que procuraram a Justiça para defesa de seus direitos, enquanto eles se locupletavam de dinheiro sujo, segundo o Superior Tribunal de Justiça.

Aliás, em audiências, passar descomposturas em advogados e pessoas humildes que procuram a justiça, é comum entre magistrados pequenos, insignificantes, arrogantes, avessos à nobreza da judicatura.

A incompatibilidade entre a nobre função de magistrado e a prática de crime afigura-se abismal. Portanto, é inconcebível o desvio moral de magistrado em direção ao crime.

Como acreditar em magistrados que enxovalham suas togas e jogam o caráter no despenhadeiro do crime?

Agora a história é outra, mas não menos vergonhosa.

“Líder da principal facção criminosa da Bahia foi solto no plantão judiciário por um desembargador, num domingo, às 20h42. Quando outro desembargador revogou a decisão já era tarde demais, ele havia desaparecido. É normal? É aceitável?”, pergunta Ricardo Capelli, secretário-executivo do Ministério da Justiça.

Como se vê, não é normal. Não é aceitável.

Mas, data venia, o traficante não fugiu, não desapareceu. Simplesmente cumpriu ordem judicial e saiu da cadeia.

De tão mal explicada a decisão do desembargador, “o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a abertura de uma reclamação disciplinar para apurar a conduta do desembargador Luiz Fernando Lima, do Tribunal de Justiça da Bahia, que mandou soltar um dos maiores traficantes do estado” (Veja, 16/10/2023).

Como se vê, Sua Excelência é um primor de bondade.

O que estarrece, em quadro assim, é que a Bahia vem atravessando uma grave crise na segurança pública, de modo que é sabido que organizações criminosas estão assustando a população, ocupando espaços e enfrentando a polícia.  

O Conselho Nacional de Justiça afastou das funções o bondoso desembargador.

Em 2022, em operação desencadeada pelo Ministério Público da Bahia, o juiz aposentado Rosalino dos Santos Almeida, ex-titular da comarca de Paulo Afonso, foi preso acusado de participar de fraudes milionárias e organização criminosa (Diário do Poder, 07/06/2022). Muito triste. 

Na Bahia, cumpre-se o que Rui Barbosa disse:

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

A Justiça da Bahia precisa extirpar esse cupim da indecência.

araujo-costa@uol.com.br

A CPMI do 8 de janeiro

“Este é o único sucesso real das esquerdas: sua capacidade de difamação” (Paulo Fancis, jornalista e escritor, 1930-1997).

Amigo de longa data me telefona – ainda há amigos que telefonam – um tanto injuriado com meu silêncio sobre a denominada CPMI do 8 de janeiro ou dos atos golpistas.

O telefonema alcançou-me ao cair da noite, depois de estressante expediente. Às vezes o crepúsculo é o bálsamo para desanuviar as angústias, as decepções do dia a dia.

“Não vi nada em seu blog sobre o assunto”, diz ele em tom de cobrança.

É verdade. Não viu porque não escrevi.

Entretanto, esclareço. Deixei de escrever sobre o assunto, propositadamente, porque toda vez que vejo aqueles parlamentares mentecaptos se engalfinhando no plenário da CPMI, dá-me nojo, asco, vergonha de tê-los como representantes no Congresso Nacional.

Aliás, como dizia o presidente Jânio Quadros, “o Congresso Nacional é um clube de ociosos em permanente dissidência demagógica”. Não há afirmação mais verdadeira.

Deputados e senadores estão lá defendendo interesses pessoais, à cata de dinheiro de emendas parlamentares, cargos, benesses, fama, poder, holofotes. A defesa dos brasileiros está em plano secundário.

Não precisa ser inteligente para vislumbrar isto. E eu não sou.

Há exceções, por óbvio.

Há coisa mais patética do que os senadores Randolfe Rodrigues, do Amapá, líder do governo no Congresso e Humberto Costa (PT-PE) ambos fazendo, por tabela, propaganda de uma marca de chocolate, a pretexto de responder a desatinos de bolnonaristas e de defender um conhecido piolho lulopetista das redes sociais?

É esta a função de um senador da República?

Convenhamos, é mutilar o debate político e a função parlamentar.

Independentemente de o presidente da República ser Lula da Silva ou outro qualquer, mesmo que se acredite nos propósitos de Lula, arranha quaisquer centelhas de seriedade entronar Randolfe Rodrigues como líder do governo no Congresso Nacional.

Randolfe Rodrigues muda de ideia – se é que tem ideia – de acordo com o vento. Antes espinafrava o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, como se vê no discurso que fez em 16/04/2019 na 51ª Sessão Deliberativa Ordinária do Senado Federal. Hoje lhes lambe as botas.

Há senadores mais sérios e abalizados da base do governo, inclusive petistas, para o exercício daquela função congressual.

Mas voltando à CPMI de 8 de janeiro ou dos atos golpistas, a senadora Eliziane Gama (PSD-MA), relatora da comissão, apresentou o relatório final dos trabalhos, que ainda vai ser votado, cujo conteúdo todos já conheciam, de antemão: a recomendação para o indiciamento de pessoas vinculadas ao governo anterior.

A senadora maranhense, declara-se “amiga de Flávio Dino” (Portal Terra, 17/10/2023), o ministro que, na condição de governador, apreciava caras guloseimas à custa do povo do Maranhão.

O relatório da senadora recomenda, dentre dezenas de outros, o indiciamento de oito generais e um almirante: generais Marco Antonio Freire Gomes, Augusto Heleno, Walter Braga Neto, Luiz Eduardo Ramos, Paulo Sérgio Nogueira, Carlos José Russo Assumpção Penteado, Ridauto Fernandes e Carlos Feitosa, além do almirante Almir Garnier.   

O relatório da senadora recomenda também o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que não é nenhuma novidade. Todos já sabiam disto. É o objetivo da CPMI.

A CPMI sequer ouviu o ex-presidente, como manda a boa prática investigativa.

Qualquer primeiranista de Direito sabe que o indiciamento pressupõe prévia oitiva do investigado, exceto nas hipóteses de indiciamento indireto que, gritantemente, não é o caso.

Como se vê, tratam-se de um relatório atabalhoado, de uma CPMI hipócrita e de parlamentares apequenados diante da grandeza do exercício da nobre função legislativa, o que confirma a frase de Paulo Francis, que encima este texto.    

Milhões de dinheiro público foram torrados para a CPMI funcionar e montar palanque para deputados e senadores expressarem suas vaidades, asnices, imbecilidades.

A produção da CPMI é risível. A Polícia Federal já vem investigando com mais eficiência e seriedade os supostos crimes que a CPMI investigou ou diz ter investigado. Portanto, dispensável o teatro parlamentar à custa do dinheiro público.

As comissões parlamentares de inquérito estão previstas na Constituição da República. Tais instrumentos do parlamento devem ser usados com seriedade e sempre que necessário, mas não como palanque político.

Pergunto ao amigo que telefonou para reclamar:   

É ou não caso para ter nojo, asco?

Ou, no mínimo, desprezo pela hipocrisia de alguns parlamentares.

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Patamuté, traços e tropeços da memória

Euza de Júlia

A memória foi buscar, nos cafundós do tempo, algumas lembranças, boas lembranças.

As páginas da memória sustentam a lembrança das boas pessoas. São os traços e tropeços das recordações.

Sempre revejo o caminhar, as marcas da juventude, o reviver dos tropeços e das alegrias.

Folheando essas páginas, lembro de Euza de Júlia, da família Alcântara, uma doce criatura com quem convivi em Patamuté na primeira metade da década de 1960.

Euza fazia parte de uma turma alegre da sociedade de Patamuté: Adalzira de Souza Alcântara, Celina Moreira de Souza, Ivone Alves de Souza, Maria Mendes (Nazinha), Edelzuíta Prado, Regina Souza, Delza, etc.   

Euza se mudou para São Paulo onde viveu, lutou, trabalhou.

Salvo engano, parece que não mais voltou a Patamuté.

Euza faleceu em 31 de agosto de 2017.

A foto foi reproduzida da página de Camila Leal (facebook), também filha de Patamuté.

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O exemplo de Canudos

Ou quando um magistrado vingativo pode contribuir para dizimar vidas e arruinar uma sociedade.  

Estátua de Antônio Conselheiro e Museu Histórico de Canudos em Canudos Velho Local: Canudos – BA Data: 10/2021 Codigo: 07ADR679 Autor: Adriano Kirihara

A história atribui o estopim da guerra de Canudos ao juiz Arlindo Leôni, que havia servido em Bom Conselho e respondia pela comarca de Juazeiro na região do São Francisco.

Vingativo, antes ele havia saído às pressas de Bom Conselho, outro município da Bahia, em razão de atuação dos adeptos de Antonio Conselheiro.

Já na outra comarca, prestou-se a distribuir boatos no sentido de que o beato invadiria Juazeiro.

História longa, sustentada em fatos, registra que Antonio Conselheiro pretendia retirar razoável quantidade de madeira em Juazeiro, adquirida para a construção da Igreja de Canudos, mediante acordo firmado com o juiz e que, propositadamente, não lhe havia sido entregue.

O juiz aproveitou a oportunidade para vingar-se do Conselheiro. Ainda hoje abundam juízes assim, vingativos, despreparados para o exercício da nobre função judicante.

A imprensa noticia ad nauseam.

Pululam magistrados vaidosos, vingativos, divorciados da função precípua de juiz e absortos pela fama e poder, regados a dinheiro público que sustenta suas vaidades e caprichos.  

A dignidade de um juiz – seja ele de primeira instância ou ministro do Supremo Tribunal Federal – não reside nos livros que leu, nas universidades que frequentou, nos títulos que ostenta e, tampouco, na nota que obteve no concurso para a magistratura, quando a ele se submete.

A dignidade de um magistrado está em sua índole, em sua honra e, sobretudo, no respeito à função que exerce e no dever precípuo de servir à sociedade que paga os seus salários e espera dele o correto dizer do Direito e da Justiça.

A guerra, que começou em Uauá em 21/11/1896, dizimou pelo menos 25 mil pessoas.

Ainda assim, “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo” (Euclides da Cunha, Os Sertões).

Em Uauá, deu-se uma demonstração de estratégia dos conselheiristas.

O tenente Pires Ferreira, comandante da Primeira Expedição, chegou a Uauá dia 19/11/1896 e fez valer seu serviço de segurança, “postando guardas avançadas nas quatro estradas, a fim de evitar qualquer surpresa”, segundo seu relato de 10/12/1896.

Segundo o militar, “o dia vinte passou-se sem nenhum incidente notável, a não ser o abandono do arraial à noite, e furtivamente, por quase todos os habitantes”.

Os conselheiristas voltaram às cinco da manhã do dia 21 e, de surpresa, atacaram as tropas do tenente Pires Ferreira.

A partir daquele episódio, a guerra começou de fato. Outras expedições sangrentas e truculentas foram mandadas para Canudos.

Sucederam-se mortes, barbaridades, crueldades, crimes de toda ordem e uma mancha que a República carrega desde seu nascedouro.

Como se vê, a maldade de um juiz despreparado, vaidoso e vingativo pode mudar o curso da história de um povo.

araujo-costa@uol.com.br  

Brasil, aborto e escombros da primavera

Nesta primavera de 2023, Rosa Weber, ministra do Supremo Tribunal Federal, que está se aposentando – já vai tarde – deixou uma marca em sua paupérrima biografia: votou a favor do aborto e, por consequência, contra a vida e a favor da morte.

Rosa Weber é uma obscura magistrada trabalhista do Rio Grande do Sul que o lulopetismo a elevou à condição de ministra do Supremo Tribunal Federal.

Dona Dilma Rousseff (PT) no exercício de sua legítima função de presidente da República, a indicou ministra do STF. Vai daí que Rosa Weber ficou lá, ganhando estratosféricos salários e mordomias do cargo e nada ou pouco contribuiu para o Brasil.

Agora no adeus como ministra, que já vai tarde, em seu voto de 129 tristes páginas, Sua Excelência a ministra Rosa Weber votou contra a vida e, portanto, a favor da morte, permitindo o aborto em até 12 semanas de gestação.

O leitor sabe a extensão disto. Em três meses de gestação, de acordo com imagens de ultrassonografia e outros recursos da Medicina, vê-se a criança formada, coração batendo, fisicamente em formação.

Logo, tem vida. Interromper a vida é crime, previsto no Código Penal, porque a vida se torna vida desde a concepção.

Mas a ministra Rosa Weber entendeu que o Código Penal de 1940, que criminalizou o aborto, não foi recepcionado pela Constituição de 1988. Ou seja, ela entende que a lei está acima da vida. Dane-se a vida, vale a lei, segundo a obscura ministra.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal já havia decidido sobre as condições que permitem o aborto e dentre elas não se inclui o delírio da confusa ministra Rosa Weber.  

Diz o voto de Sua Excelência, que a discussão sobre o aborto suscita “convicções de ordem moral, ética, religiosa e jurídica”. 

É verdade. Nisto, ela tem razão.

Entretanto, pelo que se vê, Sua Excelência não leu nenhum livro de Filosofia e tampouco de Teologia Moral, que cuida da vida. Ou faltou às aulas de Direito quando estudante.

Onde está a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), conhecido abrigo de religiosos lulopetistas, que não se manifesta sobre o voto da ministra?

À exceção do bispo de Santo André (ABC Paulista), pouco se sabe sobre a posição da entidade.

A esquerda diurética está em delírio com o voto da ministra Rosa Weber, inclusive o Grupo Globo, que Lula da Silva abarrotou os cofres de publicidade governamental.   

Pior – e lamentavelmente – depois disto: a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) será exercida nos próximos 02 (dois) anos pelo ministro Luís Roberto Barroso, conhecido militante político que, em discurso em evento da União Nacional dos Estudante (UNE) escancarou sua condição de militante: “derrotamos o bolsonarismo”, disse ele.

Trata-se daquele mesmo ministro conhecido como “perdeu mané, não amola”. E mais do que isto: “eleição não se ganha, se toma”, que ele nega ter dito.

Triste Brasil. Tristes escombros da primavera de 2023.

Post scriptum:

Este escrevinhador não é bolsonarista, nem lulopetista. É independente.

araujo-costa-costa@uol.com.br         

Chorrochó tropeça entre homenagem e tradição

Em Chorrochó, a expectativa de uma possível homenagem à memória do líder político Dorotheu Pacheco de Menezes parece convergir para um estuário de incompreensões.

A cultura e a educação de um povo não dependem necessariamente da vontade ou da forma que cada um, em particular, interpreta a realidade estribado somente no seu ponto de vista.

Educação e cultura se impõem por si sós, de modo que a tradição se encarrega de perenizá-las.

Em 12/09/2023, o deputado Marcelinho Veiga (União Brasil) apresentou projeto de lei na Assembleia Legislativa da Bahia de interesse do município de Chorrochó.

O projeto cuida de denominar Colégio de Tempo Integral Prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes a uma nova escola ora em construção em Chorrochó.  Como o novo prédio, a princípio, vai abrigar o Colégio Estadual São José, na prática dar-se-á a mudança de nome do São José, embora o projeto não fale em mudança de nome.

Seguem-se o projeto e a justificativa já de conhecimento da sociedade chorrochoense:

E daí?

Daí é que o Colégio Estadual São José estrilou, disse que não foi consultado, manifestou-se contra a iniciativa e reivindicou, para si, a prerrogativa de eventual iniciativa neste sentido.

Diz a comunidade escolar do Colégio Estadual São José: “Projetos dessa natureza devem partir da comunidade escolar através do colegiado escolar e não de terceiros que não mantêm nenhuma relação com o Colégio”.

Do alto de minha ignorância e insignificância não consigo vislumbrar que a iniciativa da homenagem tenha de passar, necessariamente, por quaisquer relações com a instituição.

Procurei saber quais os nomes que integram o colegiado. Constatei que são profissionais respeitáveis, admiráveis e de alto gabarito, elevado preparo intelectual e conhecida história de dedicação ao Colégio Estadual São José, circunstância que os habilita a opinar, discordar, sugerir, vetar.

O fato é que outras pessoas vêm se manifestando sobre o assunto, mas a discussão parece tropeçar entre a tradição (manter o nome do São José) e a homenagem a Dorotheu.

A insigne professora e historiadora chorrochoense Neusa Maria Rios Menezes de Menezes disse que “já esperava por toda essa polêmica”, circunstanciou mui competentemente as bases do Colégio Estadual São José e até se reportou à portaria de estadualização do Colégio assinada pelo então secretário estadual de Educação Eraldo Tinoco.

Prestimosa a interferência, mais que louvável, das ex-alunas da instituição, Margarida Maria Rios Menezes e Lúcia Maria Rios Menezes, que foram fundamentais para evitar que a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), mantenedora do São José, o extinguisse.

A professora Neusa diz, sabiamente: “o nome em uma parede nunca significou nada para mim”. E dá vivas ao Colégio Estadual São José. Eu também dou vivas ao São José.

Não tenho cacife para meter o bedelho nessa conversa de gente grande.

Sou cria do Colégio São José – e me orgulho disto – admirador de seu corpo docente e desejoso de que a instituição continue educando, estruturando mentalidades e desenferrujando as mentes de nossos jovens, preparando-os em direção ao caminho do bem e da nobreza pessoal e profissional.

De outro turno, sou defensor intransigente das tradições e cultura de Chorrochó e, neste particular, até tenho sido severo algumas vezes ao criticar o descaso das autoridades no que concerne aos alicerces culturais do lugar.

Há algum tempo fiz um movimento no sentido de mudar o nome da Rua Coronel João Sá, na sede, para Rua Dorotheu Pacheco de Menezes. Estávamos na gestão da prefeita Rita de Cássia Campos Souza.

Até hoje não entendo, a história não registra e ninguém me explicou qual a importância do coronel João Sá, lá das bandas de Jeremoabo, para Chorrochó.

Até pessoas da família Pacheco e Menezes foram contra e quem não foi contra ficou em silêncio, o que dá no mesmo.

Não tive êxito. Fiquei falando sozinho para deixar de ser besta.

O fato é que o imponente nome do coronel João Sá está lá, impecável, rivalizando com a humildade de Dorotheu Pacheco de Menezes.

Todavia, parece razoável entender que, no presente caso, em se tratando de homenagem ao fundador do Colégio São José, todos podem contribuir para desanuviar interpretações enviesadas, não misturar alhos com bugalhos e tampouco inserir política partidária nessa discussão, o que apequena o debate.

José Nilson Rodrigues, conhecida liderança polícia de Chorrochó participou do engendramento dessa ideia. Quero crer que sua intenção foi contribuir para engrandecer a história de Chorrochó, sustentar a memória do município.  

Entretanto, se Chorrochó continuar nessa toada e nesse nível de descaso com a memória, as próximas gerações sequer ouvirão falar no nome de Dorotheu Pacheco de Menezes e de tantos outros que lutaram para a existência do município.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia, Curaçá e o governador

Teatro Raul Coelho, um dos símbolos da cultura de Curaçá

O governador da Bahia Jerônimo Rodrigues (PT) vem alternando momentos de insensatez e sabedoria política.

A insensatez

No que tange à violência que toma conta da Bahia, o governador tem insistido no sentido de que o ex-presidente Bolsonaro é o responsável pelo caos, mormente em Salvador, onde o crime organizado parece querer se instalar definitivamente ou já se instalou.   

Em agosto de 2022, ainda em campanha eleitoral, Jerônimo Rodrigues “citou o discurso do presidente da República, Jair Bolsonaro, a favor do livre armamento por parte da população como principal motivo para os índices de violência na Bahia estarem tão altos” (TV Band Bahia/Rádio Band News, 07/08/2022).

Recentemente, em entrevista ao Jornal da Manhã (TV Bahia) por ocasião da morte de um policial federal e alguns meliantes em Valéria, subúrbio de Salvador, o governador responsabilizou Bolsonaro pela situação que, segundo ele, decorre da política armamentista do ex-presidente.

Ora, o governador da Bahia deve saber – e se não souber é uma questão grave – que os traficantes não compram fuzis e outras armas modernas em lojas, tampouco providenciam porte de armas e legalização de posse junto a autoridades de acordo com as exigências de quaisquer políticas de armamento.

As sofisticadas armas do crime organizado entram no Brasil através de voos internacionais, portos fluviais e marítimos, pequenas aeronaves e também através das chamadas fronteiras secas.

É de supor que o governador baiano saiba disto.

Se as autoridades alfandegárias, de fiscalização e de fronteiras não inibem esse tipo de ilegalidade, presume-se que é por negligência, ineficiência, falta de estrutura ou incompetência de seus agentes.

Em consequência, isto não tem nada a ver com política de livre armamento da população, mesmo que discordemos dela e mesmo que discordemos frontal e politicamente das asneiras, delírios, conduta e posição ideológica do ex-presidente Bolsonaro.

Os fuzis que os traficantes empunham nas periferias dos grandes centros urbanos certamente não foram adquiridos legalmente em lojas do ramo comercial específico e de acordo com as normas da política de desarmamento.

Talvez fosse o caso de o governador da Bahia penitenciar-se diante da humildade e reconhecer que os mais de 16 anos de governos petistas de Jaques Wagner, Rui Costa e dele próprio não conseguiram reduzir ou não tentaram reduzir a violência no estado o que, aliás, governadores de outros estados também não conseguiram.

Como se sabe, cuidar da segurança pública é atribuição dos governos estaduais. Cavar outras circunstâncias para justificar falhas do estado no combate ao crime é, no mínimo, laborar em equívoco.

O governador está apequenando sua atuação, ofuscando sua emergente biografia, enveredando pelo lado da mesquinhez ideológica e pavimentando o caminho em direção à mesmice política.

A sabedoria política

Em Curaçá, município do Submédio São Francisco, o governador Jerônimo Rodrigues inaugurou em 16/09/2023 a escola de tempo integral Maria de Almeida Araújo e a Delegacia de Polícia.

A homenagem à educadora Maria de Almeida Araújo, honra e glória de Curaçá, é irretocável, merecida, oportuna e, sobretudo, enriquecedora da educação e cultura locais.

Houve de tudo na festa de inauguração, inclusive um show de deselegância contra o prefeito Pedro Oliveira, eleito pelo PSC, salvo engano, anfitrião que recebeu civilizadamente o governador e seu séquito e que, até por uma questão de educação, deveria ter sido preservado de alguns destemperos verbais, o que somente diminui a lhaneza de quem os disse.

Tirante os correligionários mais exaltados de ambos os lados, ninguém gosta de palavras ríspidas e desvios dos caminhos naturais da civilidade e da convivência sadia.  

O evento mais pareceu comício político fora de época e de contexto. Deslustrou a ocasião. Os súditos do govenador fizeram a festa e esqueceram que Curaçá é de todos, independentemente da cor partidária.

Entretanto, neste particular, o governador Jerônimo Rodrigues portou-se com decência e sabedoria política exemplar. Não espinafrou o adversário e prefeito Pedro Oliveira até porque o momento não comportava desavenças.

Por óbvio, não se trata de campanha eleitoral, mas de entrega de obras de fundamental importância para o município. E só. O governo do estado não está fazendo nenhum favor aos curaçaenses.   

A atitude, desta vez sensata do governador, merece ser reconhecida.   

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e uma página do tempo: José Jazon de Menezes

“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D.Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, 1909-1999)

Não se trata aqui de retórica sentimental do passado. Contudo, as pessoas boas e os bons caráteres merecem ser lembrados, reverenciados, encimados no trono de nossa admiração, enquanto estamos por aqui à espera da finitude da vida.

José Jazon de Menezes/Crédito: Dr. James Jeorge Cordeiro de Menezes

Espirituoso e respeitador, às vezes irônico, outras circunspecto, Jazon era, ao mesmo tempo, amigo e protetor.

Vi-o, muitas vezes, sair em defesa de pessoas humildes de Chorrochó, defendendo-as, enaltecendo-as, amparando-as. Como se todos, para ele, fossem imaculados. E eram. Para Jazon não interessava ser rico ou pobre, ser humilde ou célebre. Todos mereciam sua atenção, porque todos são iguais e ele se entendia igual a todos.

José Jazon de Menezes faz parte da história de Chorrochó. Um dos pioneiros dos serviços judiciários da comarca a partir da instalação em outubro de 1967, foi nomeado o primeiro escrivão dos feitos cíveis, cargo que exerceu com dignidade e brilhantismo. Serventuário exemplar da Justiça estadual, respondeu também pelo cartório eleitoral.

Respeitado por todos de sua geração, Jazon era cordial e, acima de tudo, muito atencioso com todos. Constituiu família nobre, em Chorrochó. Casado com a Dra. Maria Ita de Menezes, também de estirpe tradicional, professora do então Colégio Cenecista São José, com quem teve os filhos Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James Jeorge Cordeiro de Menezes.

Como se vê, família de boa cepa, bem educada e bem estruturada em sólidos sustentáculos moralmente indestrutíveis.

Jazon era filho de D. Maria Alventina de Menezes (Iaiá) e de Joviniano Cordeiro de Menezes. O casal teve, além de Jazon, Maria Rita da Luz Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, Maria D´Aparecida Mazarelo de Menezes e Francisco Afonso e Menezes.

Jazon foi, sem dúvida, um dos esteios da família Menezes de Chorrochó.    

Deixou saudade, deixou inominável vazio, deixou a certeza de que ainda existem pessoas boas, não obstante a aridez deste mundo.

Guardo essas impressões de Jazon que se me firmaram e a memória reteve. Já se vão, por aí, cinco décadas. Conheci-o em 1971.

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