Chorrochó, 69 anos

Aos trancos e barrancos o município de Chorrochó alcança 69 anos de emancipação política neste 12 de setembro.

Entretanto, em todo caminhar há tropeços. Bem por isto, a história de Chorrochó registra poucos avanços. Sucessivas gestões titubeantes ofuscaram as prioridades do município.

O aniversário do município comporta outro registro, desta vez relativamente ao Legislativo.

A Câmara Municipal de Chorrochó tem um histórico de apatia e ociosidade quanto à construção do futuro do município, não obstante a atuação de alguns presidentes que dirigiram a Edilidade, a exemplo de Pascoal Almeida Lima Tercius (Tércio de Fafá), senhor dinâmico, abalizado e inteligente, embora a Câmara de Vereadores, por óbvio, não se resuma ao presidente, mas à Edilidade como um todo.

Tirantes alguns interregnos louváveis, a Câmara de Chorrochó mais se destacou como simples anuente de decisões e de atos do Poder Executivo Municipal e isto dificultou, em anos, o desenvolvimento do município. Faltou inquietude, vigilância, dinamismo e olhar atento às necessidades da população.

Historicamente, a Câmara tem sido generosa em dizer amém ao Poder Executivo Municipal e não avançou em direção aos interesses mais prementes da sociedade.

Todavia – e apesar de tudo isto – continuo esperançoso quando ao futuro de Chorrochó.

Esperança é como água no leite. Sempre há.

Bandeira de Chorrochó

De qualquer modo, como já escrevi muito sobre o município de Chorrochó, hoje quedo-me mais aos seus encantos, até para contribuir com aqueles leitores que acham meus textos jurássicos e outros tantos que os entendem inconvenientes e abelhudos.

O escritor e jornalista francês Georges Bernanos (1888-1948) escreveu que “a única diferença entre um otimista e um pessimista é que o primeiro é um imbecil feliz e o segundo é um imbecil triste”.

Insisto em ser otimista, neste particular: que nos próximos aniversários, os munícipes chorrochoenses tenham o que comemorar.

A data é propícia para citar nomes daqueles que, dentre muitos, contribuíram ou contribuem para que Chorrochó ainda permaneça em pé, embora cambaleando:

Francisco Pacheco de Menezes, Eloy Pacheco de Menezes, Aureliano da Costa Andrade, Dorotheu Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra (Josiel), Antonio Pires de Menezes (Dodô), Pascoal de Almeida Lima, Sebastião Pereira da Silva (Baião), José Juvenal de Araújo, João Bosco Francisco do Nascimento, Paulo de Tarço Barbosa da Silva (Paulo de Baião), Rita de Cássia Campos Souza e, por último, Humberto Gomes Ramos.

Que Deus ilumine o atual prefeito e lhe dê muita disposição para o trabalho. E que os vereadores enxerguem, além da alvorada que eles nunca veem, novos horizontes, independentemente de corrente ideológica, viés político e coloração partidária.

Ressalvados eventuais suplentes que assumiram em razão do afastamento de titulares, a Câmara Municipal compõe-se de vereadores distribuídos por três partidos políticos, segundo a vontade das urnas de 2020, tais sejam: Walber Alves dos Santos, Samuel Fonseca de Souza Gomes, Marcos Vinícius Pereira Jericó, Joelson Alves Moreira, Jane Edla Fonseca de Souza, Pascoal Almeida Lima Tercius, Luiz Alberto de Menezes, Sheila Jacqueline Miranda Araujo e Tereza Maria Pires Alcântara Oliveira, todos moralmente respeitáveis.

A data requer outra observação. Apresentada ao público pela primeira vez no desfile cívico de 12/09/1984, a Bandeira de Chorrochó, ainda não foi oficializada pelo município, por razões difíceis de entender. Foi idealizada por uma equipe constituída de Dr. Francisco Afonso de Menezes, Maria do Socorro Menezes Ribeiro, Maria Therezinha de Menezes, José Juvenal de Araújo, Maria Creuza Miranda dos Santos Araújo e Marina Maria de Araújo Menezes.

Que o prefeito tenha êxito em sua administração e os vereadores tenham sucesso em suas atuações em prol do município e de seu povo.

Prefeito Humberto e secretários/Crédito: Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal

Parabéns Chorrochó.

Post scriptum:

Registro também o aniversário da professora Maria do Socorro Menezes Ribeiro, filha de Izabel Argentina de Menezes (D. Biluca) e de Dorotheu Pacheco de Menezes, esteio e baluarte da luta pela emancipação de Chorrochó.

Socorro Menezes, que é esposa de Virgílio Ribeiro de Andrade, vive permanentemente no altar de minha admiração – e viverá sempre. Aprendi a admirá-la nesses muitos anos de tropeços, quedas e trôpego caminhar. A admiração é extensiva a ambos.

Parabéns à aniversariante.

araujo-costa@uol.com.br

Luciano Lugori e os loucos de Curaçá

“Às vezes é preciso ser louco para dizer o óbvio. A pior das loucuras é pretender ser sensato num mundo de doidos” (Erasmo de Rotterdam, teólogo e filósofo humanista, 1446-1536).

Capa de Enquanto Enlouqueço/Crédito Yuri Kauan Lugori/Luciano Lugori

Luciano Lugori, jovem professor, pesquisador e jornalista curaçaense nascido na primeira metade da década de 1980, há algum tempo escreveu um livro monumental sobre os loucos de Curaçá.

Ilustres loucos, admiráveis loucos, sapientes loucos!

Ao ler os originais de Enquanto Enlouqueço tive a impressão de que estava diante de um minucioso e alentado ensaio sobre a loucura. O assunto fascina pela incursão no recôndito da fragilidade humana e, mais do que isto, dá a bitola da complexa dificuldade que a sociedade tem de compreender o mundo e organizar o caos através de idéias e conceitos. 

Contudo, o que mais fascina na obra é o empenho do autor sobre o assunto, que escapa à vulgaridade do cotidiano e se agiganta diante do interesse de especialistas.

Bergson, filósofo independente, falava de uma “loucura normal”. Neste ponto, o autor parece aproximar-se da intuição de que, toda vez que a razão se distancia da realidade, o conhecimento se empobrece. Ele mergulhou na realidade, sem abdicar do conhecimento discursivo e necessário. 

O livro começa por um oportuno esquadrinhamento sobre a loucura, fundamentando-a na opinião de estudiosos universalmente respeitáveis, examina o âmago das dúvidas e, por último, faz um apanhado empírico sobre o mundo dos loucos de Curaçá.

O cerne do livro parece ser mais a perquirição do que seja a loucura do que, propriamente, a história dos loucos curaçaenses, o que em nada arranha o objetivo colimado pelo autor. Ao contrário, enriquece-o. Reside aí sua grande importância, porque é abrangente, filosófico, investigativo, questionador.

A loucura não deixa de ser uma avassaladora forma de viver em solidão. Intenso observador, o autor procurou construir este monumento aos loucos. O estar-só dos loucos, o isolamento que eles experimentam é o prelúdio da solidão. E aí reside a violência que a sociedade dita normal pratica sobre esses loucos, nem sempre loucos, relegando-os, repelindo-os, marginalizando-os.

Embora apoucado, tendo em vista a importância da obra, não devo ir além dos limites estruturais do epílogo que o autor me concedeu a honra de fazer. Epilogar significa recapitular, resumir. Todavia, confesso que diante de um livro tão monumental, tive dificuldade de fazê-lo.

O autor vai longe, ao abeberar-se nos conceitos de Foucault e Erasmo de Rotterdam, dentre outros, razoavelmente aceitos até hoje. Em todas as referências, fica claro o papel da sociedade relativamente à loucura: uma sepulcral indiferença.

O livro faz um paralelismo entre “loucos” e “doidos”, palavras fundamentais para a compreensão do texto. Parece inquestionável a diferença entre eles. Os exemplos contemplados pelo autor são claros porque, ademais, a loucura está impregnada na sociedade, clandestinamente. A doideira é visível. 

Município conhecido como terra de pessoas espirituosas, habitantes hospitaleiros, intelectuais respeitáveis, escritores desenvoltos e, sobretudo, bom lugar para laborar com a reflexão, Curaçá esteia-se na cultura, na beleza e nas tradições encantadoras do rio São Francisco.

Em Curaçá assentam-se histórias, ideias, pedaços de caminhar. Veem-se horizontes sedutores.

Os sonhos em Curaçá parecem mais atingíveis.     

A loucura vista por Lugori não se circunscreve somente ao município de Curaçá, não obstante os loucos de lá. Distende-se no tempo, na história, no viver, em qualquer lugar.  

A capa do livro Enquanto enlouqueço por si só é uma reflexão.                              

Quanto aos perfis jornalísticos sobre a loucura do universo de Curaçá, o trabalho do autor é completo. As pesquisas se debruçaram com afinco sobre nossos loucos e doidos e ainda se enriqueceram com abalizadas entrevistas acostadas ao texto. 

No capítulo “O enlouquecimento” está, em resumo, a grandeza da obra. O autor se despe de toda e qualquer vaidade e mortifica-se diante da realidade, para tentar entender a loucura. O ponto alto deste Enquanto Enlouqueço é exatamente a humildade do autor.

Livro altamente recomendável. Vale a pena ler, conhecer, refletir.

araujo-costa@uol.com.br

Os “Bichos Escrotos” de Curaçá

“Deixe a prova de filosofia para amanhã.” (Bichos Escrotos, in Carpe Diem”)

Adequando-se filosoficamente ao momento de antanho, surgiu em Curaçá, já se vão alguns anos, a Banda Bichos Escrotos. Salvo engano, dissolveu-se em 2016, ou por volta dessa quadra do tempo, depois de, pelo menos, uma década de existência.

Pressuponho que o caminho em direção aos objetivos de cada integrante da banda tenha determinado a procura por outras encruzilhadas da vida, certamente hoje exitosas.

A banda formava-se de jovens sonhadores, educados, espirituosos, irrequietos, inteligentes, ideologicamente preparados.

Na década de 1980 Caetano Veloso e os Titãs já diziam que “aqui, na face da terra, só bicho escroto é o que vai ter”.

Convenhamos, não erraram. Basta olhar para Brasília. Por lá se misturam escrotos, deslumbrados e outros bichos mais, muitos dos tais afrontam a fauna nacional. Mas esta é outra história que não deve ser tratada aqui para não deslustrar a referência aos Bichos Escrotos, de Curaçá.

Os Bichos Escrotos de Curaçá tinham outra matriz, outro princípio: a decência, o lastro cultural, a pureza do objetivo, o olhar social.

Limito-me aqui, estritamente, à palavra escroto tal como consta nos dicionários e no sentido aplicável ao nome da banda. A variante biológica não vem ao caso.

Não ultrapasso essa barreira filológica. Esmero em filologia, nalgumas ocasiões, pode significar pedantismo para quem dela não entende, como é meu caso. Convém não me atrever.

O fato é que os Bichos Escrotos de Curaçá, mais do que um grupo, uma banda, era um movimento cultural que estimulava a pensar e a curtir o momento (carpe diem), um estado de espírito que de certa forma enriqueceu Curaçá do ponto de vista da arte. Transitava do rock a músicas regionais.

“Deixe a prova de filosofia para amanhã e vem comer dessa maçã” vai na mesma linha de “o segredo da vida é desfrutar a passagem do tempo” de que fala James Taylor, o que não deixa de ser uma maneira de estimular o bem viver, a boa convivência, o não levar as coisas muito a sério, porque tudo passa, sem pender para a alienação das mentes e para o comodismo ideológico.

Ainda, segundo James Taylor: “Ninguém sabe como chegamos ao topo da colina, mas já que estamos a caminho, também podemos desfrutar do passeio”.

The Fevers perguntavam na década de 1970: “Para que viver assim tão triste, se você perdeu a ilusão?”.

Perder a ilusão e a esperança não significa ter que lamentar, esquecer de que tudo passa, porque virão outros horizontes, outra alvorada, outro amanhecer, outra luz para clarear o caminho.

“Aceitar o que for, colher o dia”, diria Horácio, poeta romano.

Nessas últimas décadas, encontramos muitas maneiras de perder a esperança, mas resistimos às intempéries.

Voltando aos Bichos Escrotos, de Curaçá.

Não estava lá, não estive lá pra ver, curtir, fazer parte na condição de espectador daquela efervescência cultural curaçaense.    

Curaçá ganhou com a existência da banda. A arte e a cultura de Curaçá ficaram mais robustas. Redundância necessária.

Essa a formação dos Bichos Escrotos de Curaçá, salvo engano, erros e omissões: Maurízio Bim (guitarra e voz); Lula Pereira (guitarra), Jefferson Luís (baixo) e Fabinho (bateria).

Caminhemos. A prova de filosofia pode ficar para amanhã.

 araujo-costa@uol.com.br

Saudosos e atrasados registros

Registro, com saudade, o falecimento de Elizete Barbosa Torres ocorrido em Curaçá em junho/2023.

Elizete Barbosa Torres/perfil facebook

Elizete era preciosa amiga de longas e animadas conversas, humor espetacular e risadas inesquecíveis.

Elizete, eu e muitos que ainda estão por aí, fizemos partes de uma Curaçá que ainda permitia sentar nas calçadas para falar amenidades, aproximar a convivência e robustecer as amizades.      

Deixou uma lacuna no reino das amizades.

Registro também, com saudade, o falecimento de Ivone Alves de Souza, ocorrido em abril de 2022, em Campana, na província de Buenos Aires, Argentina.

Ivone Alves de Souza/perfil facebook

Ivone era curaçaense de Patamuté e, em razão de casamento, mudou-se para a Argentina, ainda na década de 1960.

Deixa saudade.

Há alguns anos, fui informado por uma amiga em comum, que a última vez que ela esteve em Patamuté, perguntou por mim. Depois, já em tempo de facebook, fizemos alguns contatos.

Somente em data recente, fiquei sabendo do falecimento de Ivone, por intermédio de Dorinha Souza, também amiga valiosa filha de Patamuté.  

araujo-costa@uol.com.br

A autoridade na mão do imbecil

A ditadura corria solta. Período difícil. Tempo de repressão.

O general-presidente Emílio Garrastazu Médici, jeito de bonachão, mas essencialmente linha dura, já havia passado o comando da República para o também general Ernesto Geisel, mais ameno e menos linha dura. 

A situação política nacional, entretanto, ainda era a mesma do antecessor. 

A polícia paulista do governador indireto Paulo Egydio Martins (1928-2021), eleito pela Assembleia Legislativa, obedecia às ordens dos governos chamados revolucionários e vivia se engalfinhando com os estudantes, sempre rebeldes.

Polícia e estudantes viviam às turras, à semelhança de gato e cachorro.

São Paulo daqueles dias era um caldeirão político. Época das torturas, prisões arbitrárias, desaparecimento de políticos e militantes contrários ao regime e outras atrocidades mais.

Centro de Santo André, Rua General Glicério, bem no miolo da cidade, começo de noite quente e agitada. A polícia cercou um grupo de estudantes inofensivos que se dirigiam para suas escolas, depois de um dia de trabalho.

Eu estava lá, entre eles. Sobraçava um livro didático e um exemplar da Folha de S.Paulo.

Naquele tempo quem carregava um livro era suspeito. Quando a polícia abordava o sujeito, tomava o livro, revirava, folheava e fazia seguidas perguntas idiotas, como se livro fosse uma arma perigosíssima.

Era a paranoia da subversão.

Quem fosse flagrado com alguma publicação que fizesse qualquer referência a Karl Marx seria preso e interrogado, acusado de comunista e inimigo do Brasil.

O policial aproximou-se, arrogante:

– O que é isto debaixo do braço?

– Um livro, sabe o que é um livro?

Ele entendeu o deboche, virou uma fera.

– Está com gracinha? Quero saber o que tem dentro?

– Folhas, páginas, letras – respondi.

 A situação piorou.

-Está preso.

Instalou-se um tumulto ao redor e fomos todos para a delegacia. Não éramos meliantes, tampouco subversivos, nem agitadores. Éramos estudantes pobres, cavando um futuro melhor. Saíamos do trabalho direto para a escola, sem comer.

Ficamos todos numa sala, sem móveis, confinados, sentados no chão, conversando, aguardando. Só de pirraça, nos deixaram mofando por algumas horas.

O tempo parecia interminável. Finalmente, chegou o delegado, cara de bravo, jeito de imbecil e pinta de idiota, carregando autoridade pelas ventas.

– Estão dispensados. Retirem-se antes que me arrependa.

Ainda muito jovem, foi o primeiro caso de abuso de autoridade que vi. A partir daquele dia resolvi estudar Direito.

Hoje, calejado pelas lides forenses, ainda me deparo com situações semelhantes. E quem vira uma fera sou eu, quando vejo injustiças, leis mal aplicadas, policiais imbecis, juízes arrogantes e menosprezo a pessoas humildes.

O humilde pela sua própria condição já vive humilhado. Por que espezinhá-lo? 

Nesse tempo de luta, aprendi muito e construí uma teoria inquestionável, modéstia à parte: todo agente público arrogante é imbecil.

E a autoridade em mãos de imbecis é sempre um perigo.          

araujo-costa@uol.com.br

As guloseimas de Flávio Dino e a violência policial na Bahia e São Paulo

Diz-se democrata o ministro Flávio Dino, da Justiça e Segurança Pública.

Tanto é “democrata” que processou o então senador Roberto Rocha (PTB-MA) porque o parlamentar divulgou que Sua Excelência, quando governador do paupérrimo estado do Maranhão, comprou, com dinheiro público, “trufas, bacalhau e canapés” para sua residência oficial, no total de R$ 1 milhão (Diário do Poder, 28/07/2022).

Pior: a façanha do então governador Flávio Dino (PSB), ex-PCdoB, aconteceu durante a pandemia, quando a população do Maranhão passava por sérias dificuldades.

Uma estocada nos maranhenses; um acinte à humildade dos brasileiros que não têm o que comer.

O Maranhão é considerado o estado mais pobre, mas o então governador Flávio Dino devia estar com muita fome naquele tempo de poder estadual e mordomia palaciana.

O Supremo Tribunal Federal mandou arquivar o processo. Presume-se, então, que o senador estava amparado na verdade, o que Flávio Dino não gostou.

Mas essa é outra história que a imprensa publicou e, portanto, não carrega nenhuma novidade.

Talvez com o intuito de agradar o presidente Lula da Silva e com olho na próxima vaga do Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino mostra-se contraditório e, neste particular, se assemelha a Sérgio Moro, senador e ex-ministro da Justiça.

Sérgio Moro sonhava ser ministro do Supremo Tribunal Federal. Flávio Dino também, segundo a imprensa que o entrona no pedestal do prestígio da República.

Sérgio Moro paparicava o presidente Bolsonaro; Flávio Dino paparica Lula da Silva. Sérgio Moro caiu em desgraça. Flavio Dino ainda não, por enquanto, porque parte do PT gosta dele e outra parte o tolera.

Para agradar o patrão Lula da Silva, o ministro Flávio Dino apressou-se em criticar a polícia paulista no episódio das mortes do Guarujá cuja violência policial deixou 16 mortos (G1, 31/07/2023), fato de todo lamentável.

O governador de São Paulo não faz parte, ainda, dos aliados de Lula da Silva e, portanto, está sujeito a críticas do PT e de seus aliados e puxadinhos.

Entretanto, o mesmo “democrata” ministro Flávio Dino não teve a mesma desenvoltura para criticar a violência policial na Bahia, governada há mais de 16 anos pelo Partido dos Trabalhadores (PT) que, na mesma ocasião dos fatos do Guarujá, deixou saldo de pelo menos 30 mortos entre 28 de julho e 04 de agosto, mormente nos municípios de Itatim, Camaçari, Jaguarari e Salvador (UOL, 14/08/2023).

Em mais de 16 anos do PT na Bahia, o estado entrou para a lista dos mais violentos. Continua frequentando essa triste e macabra lista.

Em 2022 as estatísticas apontavam 1.464 mortos pela polícia no estado.

Tanto em São Paulo quanto na Bahia parece haver carência de preparo da polícia, mas esta também é outra história que os governos estaduais precisam resolver com urgência urgentíssima.

O certo é que ambos os episódios – São Paulo e Bahia – são lamentáveis e não devem ser politizados, porque envolvem vidas ceifadas.

Como se vê, o ministro Flávio Dino não está conseguindo despolitizar os fatos. Seus discursos parecem ainda atrelados ao movimento estudantil e ao Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Maranhão.

O ministro ainda não se deu conta de que os princípios que sustentam o regime de Cuba e sustentavam a extinta União Soviética (URSS) estão ultrapassados.

Gastar fortuna de dinheiro público na compra de comidas caras, enquanto grande parte dos brasileiros passa fome, está longe de ser exemplo de democrata.

O ministro Flávio Dino diz que é.

Acreditemos.

araujo-costa@uol.com.  

Chorrochó, saudade e repetições

“Eu não existiria sem minhas repetições” (Nelson Rodrigues, jornalista e escritor, 1912-1980).

Leitor atento reclamou – melhor dizendo, ponderou – que sou muito repetitivo em minhas crônicas.

Tem razão. Até as caraibeiras são repetitivas. Elas florescem todos os anos e nem por isso deixam de ser belas, assim como todas as árvores que florescem periodicamente.

É que a vida é uma sequência de passos, mas sempre inarredavelmente ligados ao passado e, por isso, repetitivos.  

Exemplifico. Há alguns anos, escrevi sobre um amigo de juventude, em Chorrochó, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes. Já repeti aquela crônica outras vezes. Entendo que amizade não acaba ou, pelo menos, nunca deveria acabar, mesmo in memoriam.

Todavia, espaçam-se as certezas entre amizades que tivemos ao longo do tempo e as que ficaram ou o que resta delas. Mas sempre resta alguma coisa que alinhava o caminhar, impulsiona o viver e cutuca a saudade.

Mas amizades também fracassam. Isto é o que atestam o burburinho e o fervor da juventude somados à frieza cruel do amadurecimento e ao caminho do tempo em direção à velhice.

Ficaram as boas amizades que perduram, se ainda não se foram em direção à finitude da vida, porque – todos sabemos – o indizível da morte é inevitável.

Ouvi muitas vezes reflexões sobre portas e janelas que se fecham, em meio às incertezas e aos sonhos da mocidade. As amizades também fecham portas e janelas.

Em Chorrochó, o amigo Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó, para os amigos e Corró para o irmão Ernani do Amaral Menezes), que tinha nome de nobre português e não está mais por aqui, deixou-me algumas reflexões.

Antonio Euvaldo foi-se antes do combinado, como se diz no interior de São Paulo, mas as frases que ele tanto dizia e repetia sobre o andar da vida continuam cutucando a saudade e dilacerando os momentos quando me recolho à solidão.

Nunca esqueci suas reflexões nas ocasiões de tropeços, que foram muitas, são muitas, continuam sendo muitas.

Além dele, lembro alguns outros amigos. Muitos deles conhecidos nas esquinas da vida e no ziguezaguear do tempo.

O que é a saudade senão uma constante repetição?

Caraibeira no Riacho Fechado, Macururé-Ba/Crédito Mapio.net/reprodução google

araujo-costa@uol.com.br

Baboseiras e sinal da velhice

“Macaxeira, manteiga de garrafa, feijão de corda. Ai, minha Nossa Senhora!” (João Ubaldo Ribeiro, 1941-2014, escritor baiano da Ilha de Itaparica).  

O jornalista Joel Silveira, considerado a víbora da reportagem no Brasil, contava que tinha um primo em Sergipe, lá para as bandas de Lagarto, já beirando os oitenta anos, que lhe disse o seguinte: “a gente sente que está envelhecendo quanto começa a gostar mais de carne de sol do que de mulher”.

Contei isto para um amigo de São Paulo e ele teve uma crise de riso.

Certa vez – disse ele – a esposa viajou para a Europa e, numa sexta-feira, ele recebeu dois convites simultâneos: de um amigo, para jantarem num restaurante nordestino, onde não faltaria a carne de sol, que ele tanto gosta; e outro, de uma amiga de longa data, para passarem a noite juntos, colocar o papo em dia, falar de livros, literatura e coisa e tal.

Desculpou-se com a amiga, deu uma justificativa qualquer e preferiu sair com o amigo. “Naqueles dias eu já estava ficando velho e não me dava conta”, constatou ele em nova crise de riso.

O escritor Raimundo Reis, baiano de Santo Antonio da Glória, tinha outra teoria mais lógica: “quando falamos muito do passado, é sinal que estamos ficando velho”.

Prefiro a teoria de Raimundo Reis, embora a do sergipano seja inédita, cômica, diferente. Mas a verdade é que não deixa de ser curiosa.

Havia um restaurante na Rua Maria Antonia, nas proximidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie, que servia comidas típicas do Nordeste.

Um dia quase cometi um vexame lá. Para toda mesa que olhava via senhores circunspectos, cabelos grisalhos, desacompanhados, comendo carne de sol.

Lembrei da teoria do sergipano e, a partir daí, não conseguia mais ficar sério naquele ambiente.

É assim, algumas baboseiras que a gente ouve às vezes se firmam mais na memória do que as coisas importantes.

Mas o bom da vida também é não levar tudo muito a sério.

araujo-costa@uol.com.br

Jucélio dá o tom em Formosa.

Jucélio Rodrigues

Nascido em Uauá, Jucélio Rodrigues da Silva é ainda jovem e estruturou família e vida profissional em Formosa, povoado de Macururé, simpático município do semiárido baiano, que pertenceu aos domínios de Santo Antonio da Glória.

Em Formosa, Jucélio exerce algumas atividades. É agente administrativo concursado e lotado no Colégio Municipal Ruy Barbosa desde 2008, músico tecladista há aproximados quinze anos e comerciante no ramo de informática e variedades.

Fez parte da banda do cantor Marcelo Silva durante seis anos e integra a banda de Guilherme do Acordeon há cinco anos.

Mais do que isto. Jucélio cursou o ensino médio no Colégio Estadual de Macururé. É graduado pelo Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco (CESVASF) de Belém do São Francisco. Tem Licenciatura Plena em Geografia.

Filho de família humilde – a mãe Maria Lusinete Rodrigues dos Santos Silva, hoje aposentada e o pai Manoel José da Silva, ainda em atividade – ambos servidores da Prefeitura Municipal de Macururé, Jucélio Rodrigues também trabalhou duro até atingir o respeitável degrau de agora: vendeu pão de porta a porta, foi pintor de letreiros e cobrador de ônibus na linha Formosa-sede de Macururé e ainda professor durante alguns anos.

Pai de duas filhas. É casado com Elis Regina Barbosa dos Santos, Orientadora Pedagógica da rede municipal de ensino de Macururé.

Jucélio compatibiliza o exercício da atividade pública e o comércio durante a semana e se dedica aos shows com Guilherme do Acordeon em finais de semana. Como se vê, uma façanha, batalha um tanto ingente.

Já se vai, por aí, algum tempo. Alguns anos. Meu primeiro contato com Jucélio Rodrigues me deixou um tanto impressionado com sua presteza e educação. Guardei a lembrança. Tenho o hábito de guardar lembranças agradáveis, de reverenciar as boas pessoas.

Na ocasião, notei sua dedicação às coisas que se dispõe a fazer. Assim, relativamente ao site portalformosa.com.br, que mantém desde 2013 com o propósito inicial de divulgar o povoado de Formosa, sua “cultura, comércio e curiosidades”.

“Músico por paixão”, segundo pontuou. Interessante esta frase de Jucélio, que me parece a síntese de sua atuação como blogueiro: “Procuro sempre ser imparcial, não publico matérias polêmicas que possam atingir alguém ou me prejudicar de forma direta ou indireta”.

Em Formosa, Jucélio Rodrigues dá o tom da alegria ao simpático povoado e ao sertão da Bahia.

araujo-costa@uol.com.br

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Curaçá e o Colégio Ivo Braga

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” (Raul Pompéia, 1863-1895, O Ateneu)

O aniversariante curaçaense – Colégio Municipal Professor Ivo Braga – chega aos 61 anos. Revigorado, passou por um plano de reestruturação física, ficou bonito, admirável, reuniu corpo docente respeitável, acolheu bons profissionais.  

Quem luta com palavras sempre vive consultando alfarrábios e observando o dizer da vida.

O cronista às vezes se basta na condição de curioso com as artimanhas do tempo. O cotidiano e o tempo são os andaimes da construção do cronista, que quase sempre vive se perdendo e se achando.

Andei remexendo nalguns cartapácios e me deparei com anotações já amareladas pelo tempo que noticiavam o aniversário do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de Curaçá.

Já se vão, por aí, sessenta e um anos de existência do Colégio. O Ginásio Municipal de Curaçá foi fundado em 06 de agosto de 1962. Mais tarde evoluiu para Colégio Municipal Professor Ivo Braga.

Em 2012 realizaram-se as comemorações do cinquentenário da escola. O ponto mais alto, sem dúvida, foi a merecida homenagem prestada na ocasião ao seu fundador, Dr. José Gonçalves, ícone da história de Curaçá. 

À época li o pronunciamento de Omar “Babá” Torres, aluno da primeira turma daquela instituição.

Discurso inteligente, essencialmente histórico e, sobretudo, fiel aos fatos. Babá fez um apanhado desde o nascedouro do Ivo Braga, citou o teólogo francês Jacques Bossuet (“no universo, poucas coisas são maiores que os grandes homens modestos”), o poeta português Fernando Pessoa (“eu sou do tamanho do que vejo”), o dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre os homens que lutam por toda a vida (“estes são imprescindíveis”) e por aí discorreu, competentemente, erguendo sabedoria, conduta, aliás, absolutamente compatível com o proceder de um filho de Durval Torres.

Sabem todos os que admiram Babá – aos quais me incluo – que ele tem o dom de expressar-se humildemente. E nunca é demais lembrar que a humildade é uma característica dos sábios.

A peça oratória de Babá nas comemorações do cinquentenário do Ivo Braga é mais que um discurso. É um templo da história de Curaçá. Deve figurar nas bibliotecas e arquivos do Ivo Braga, para servir de parâmetro tanto para seus alunos e jovens de hoje quanto para as gerações futuras.

É um exemplo de como a persistência dos sonhos pode transformar uma sociedade e como “a abnegação, firmeza de ideal e capacidade de doação”, qualidades tão escassas no mundo de hoje, podem dignificar a história de um povo.

Imaginemos as condições adversas, políticas e práticas, enfrentadas pelo fundador do Ivo Braga como, em minúcias, Babá as enumerou em seu pronunciamento. Isto, numa época, quando tudo era difícil, inegavelmente mais difícil.

Somente um caráter de espinha inflexível como o de Dr. José Gonçalves sustentaria o esteio para segurar a firmeza do ideal que abraçou.

Curaçá seria outro, certamente com cultura mais tênue, se não houvesse o Colégio Ivo Braga. Nesses sessenta e um anos ele plantou sementes que germinaram abundantemente.

Muitos dos curaçaenses começaram ali sua história de vida. Embora ainda tropeçando nas pedras do meu caminho e empoeirado em razão das constantes quedas, também comecei no Ivo Braga a vislumbrar outros horizontes que me foram indicados por insignes mestres, a exemplo de Dr. Pompílio Possídio Coelho, Dr. Jaime Alves de Carvalho, Terezinha Conduru de Almeida, Lenir da Silva Possídio, Excelda Nascimento Santos, Noêmia de Almeida Lima, Maria Auxiliadora Lima Belfort, Dionária Ana Bim, Herval Francisco Félix e tantos outros.

Naquele tempo os alunos viam os professores como bons exemplos de vida a seguir e o colégio era o orgulho de todos que o frequentavam. Éramos assim, jovens, sonhadores, utópicos.

Hoje, muitos de nós continuamos sonhadores, porque os sonhos balizam o prosseguimento da caminhada. Num dia encontramos uma montanha à frente, noutro uma encruzilhada. É preciso coragem para seguir em frente, é preciso caminhar.

Quanto à juventude, ela nos serviu de sustentáculo para que fosse edificada a construção de nossa vida de hoje.

O Colégio Ivo Braga se permitiu, tenazmente, continuar perseguindo os sonhos do Dr. José Gonçalves e continua sendo o esteio que sustenta a cultura de Curaçá.

O melhor de Curaçá também pode ser visto à distância. Parabéns ao Ivo Braga, seus professores, alunos e servidores que continuam construindo sua história.

Post scriptum:

O distintivo do Ivo Braga foi reproduzido do perfil do colégio no facebook.

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