Todas as ditaduras são parecidas e perigosas

A ditadura militar corria solta no Brasil.

O jornalista José Carlos Oliveira (Carlinhos Oliveira), famoso, boêmio e conhecidíssimo na sociedade carioca e fora dela, assíduo frequentador dos bares Degrau e Antonio’s, além de outros de Copacabana, Ipanema, Leblon e et cetera, foi abordado abruptamente por policiais, na Zona Sul do Rio, alta madrugada.

Arrogante o policial ordenou:

– Mãos ao alto, documentos!

Muito calmo e seguro de seu estado etílico, Carlinhos sentenciou:

– Ignoro. Não tenho documentos.

O policial, mais arrogante, sentiu-se grande:

– Então você não existe!

Gozador e ciente da fama, Carlinhos foi didático:

– Existo, sim. Sou público e notório.

Em Santo André, A do ABC paulista (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), governo do general Ernesto Geisel, tempo de ditadura já mais amena, de “distensão lenta, gradual e segura”, final de tarde, fui abordado na Rua General Glicério, miolo da efervescência política naqueles tempos difíceis.

Em meio ao burburinho de estudantes, a caminho da escola, depois de estafante dia de trabalho numa fábrica de Mauá, eu e outros colegas fomos cercados por policiais truculentos, grossos, idiotas, pequenos, imbecis.

Fomos encaminhados para o 1º Distrito Policial para averiguação, deixar de ser besta e aprender a falar com a polícia da ditadura.

O primeiro Distrito Policial de Santo André, ainda está lá, no mesmo prédio, soturno, esquisito, histórico. Já na condição de advogado, no regime democrático, fui lá outras vezes, defender interesses de clientes.

Eu sobraçava um exemplar do jornal Folha de S.Paulo, além de uma marmita vazia, guarda-chuva, o minguado dinheiro da passagem do ônibus  e outros poucos penduricalhos de estudante pobre.

O policial me olhou grosseiramente.

– “O que tem aí, algum livro comunista?”

Besta e inocente, respondi:

– Um jornal, não sabe o que é um jornal?

“Já eu lhe mostro o que é um jornal” – disse o policial ofendido – e me encaminhou para o camburão da polícia política do governador Paulo Egydio Martins, grande prócer da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido de sustentação dos governos militares.

Tempo do temido DOPS (Departamento de Ordem Polícia e Social), DOI-CODI e outras armadilhas de tortura da ditadura. Todo mundo tinha medo de cair lá, inclusive inofensivos estudantes como eu.

Naquele tempo, andar com livros chegava a ser perigoso. Se alguém fosse flagrado com um exemplar de O Capital, de Karl Marx, certamente seria levado para a delegacia.

No distrito policial de Santo André, fomos averiguados, perguntados, apalpados, espiados, humilhados e liberados.

Ditadura é o pior dos governos. Aliás, nem governo é. É barbárie.

No Brasil de hoje a ditadura é outra. Não é de militares e armas. É de canetas.

Na ditadura, ser público e notório não basta. Chega a ser perigoso.

araujo-costa@uol.com.br

João Eloy de Menezes pode ser o nome ideal que Lula precisa

Dr. João Eloy de Menezes/Crédito: Secretaria de Segurança Pública de Sergipe.

A cúpula petista baiana, à frente o senador Jaques Wagner (PT), ex-governador da Bahia e amigo de Lula da Silva há 40 anos, emplacou o advogado Wellington César Lima e Silva para ministro da Justiça e Segurança Pública na vaga deixada pelo experiente e ínclito Ricardo Lewandowiski, que abandonou o pesado barco lulopetista alegando razões pessoais.

O novo ministro da Justiça e da Segurança Pública foi procurador-geral da Justiça da Bahia no governo de Jaques Wagner. É promotor e já exerceu funções em Brasília, nos governos petistas.

Lula da Silva parece que desistiu de estruturar o Ministério da Segurança Pública, por razões mais políticas do que técnicas, de modo que, por enquanto, tudo continua como antes, até em razão de entraves com alguns governadores, além de um polêmico projeto sobre o assunto segurança pública, em trâmite no Congresso Nacional.  

O quiproquó da criação do Ministério da Segurança Pública ficou para destrinchar depois, até que Lula apare as arestas que o incomodam e encontre uma pessoa de perfil compatível com a pasta.

Nesta circunstância e cenário, talvez as composições partidárias e as questões políticas devam ser afastadas e deem lugar às qualidades técnicas do ocupante do cargo.

Os aliados e assessores próximos de Lula da Silva não conseguem vislumbrar o conhecido e experiente profissional nessa área: Dr. João Eloy de Menezes, secretário de Segurança Pública de Sergipe pela 3ª vez.

O Dr. João Eloy é formado em Direito, graduado pela Universidade Tiradentes (Unit), conhece sobejamente o assunto, exerceu todas as funções de importância e destaque na área de segurança no estado e cuida da segurança pública de Sergipe, com reconhecido êxito, desde os tempos do governador petista Marcelo Deda (1960-2013), considerado breve interregno.

Aliás, Marcelo Deda era “grande amigo, compadre e irmão” de Lula da Silva, segundo ele próprio (UOL/Agência Brasil, 02/12/2013).

Dr. João Eloy tem experiência, vocação e estilo próprios e leva a sério a questão da segurança pública. É estudioso do assunto e ostenta know-hou para lidar com intrincados assuntos adstritos à segurança.

Baiano do sertão, nascido no município de Chorrochó em 1963 e conhecido nacionalmente em sua área de atuação, o Dr. João Eloy de Menezes pode ser o nome que Lula da Silva precisa encontrar para ocupar o Ministério da Segurança Pública, ainda em gestação, que decorrerá de provável cisão do Ministério da Justiça.  

araujo-costa@uol.com.br

O encanto da curaçaense Iracema Medrado

“A felicidade é o devotamente a um sonho ou a um dever.” (Ernest Renan, filósofo e teólogo francês, 1823-1892)

Iracema Medrado/Reprodução perfil facebook

Já beirando à decrepitude – caminho em direção aos 74 anos – consequência natural da passagem do tempo e do ocaso da vida, atrevo-me a cutucar lembranças, reviver fatos e, sobretudo, reconhecer minha gratidão às amizades que conheci ao longo do tempo e, por óbvio, me foram sobremaneira significativas e acrescentaram alguma coisa em meu conturbado viver.

Assim, a curaçaense Iracema Medrado.

Iracema descende do tronco familiar de Pedro Medrado da Silva e Silvina Maria Vieira.

É uma jovem aposentada do serviço público de saúde, salvo engano.

Conheci Iracema Medrado, em Curaçá, na primeira metade da década de 1970. Já se vão, por aí, algumas décadas, tempo suficiente para considerar a vitalidade das lembranças.

Eu morava na Rua Coronel Pombinho, centro de Curaçá, no Curaçá Hotel, mesmo imóvel que abrigava a residência de Maria Roselita Xavier e Adelson Xavier, proprietários do estabelecimento.

O imóvel, debruçado à margem direita do São Francisco, um velho e simpático casarão, com grandes janelas, traduzia o estilo das primeiras construções curaçaenses.

O Curaçá Hotel ficava na mesma rua da agência dos Correios, vizinho à Sociedade Curaçaense Artística e Beneficente (SCAB). Lá construí inesquecível amizade com Astério Xavier, sujeito decente, educado e respeitador, agente da antiga Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT).  

Iracema Medrado também morava no Hotel, amiga e parente da família Xavier.

Regina Lúcia Xavier, filha do casal Maria Roselita e Adelson, era minha colega no Colégio Municipal Professor Ivo Braga.

Altiva, sorridente, irrequieta, Regina se mudou de Curaçá, cresceu profissionalmente e nos deixou algumas lições de coragem, tenacidade e capacidade de luta.

Tempos à frente, Iracema Medrado passou a ser protagonista da Serenata da Recordação, evento que acontece anualmente no simpático município pernambucano de Santa Maria da Boa Vista e já faz parte do calendário da cidade.

Admiradora dos curaçaense Zé Raul, Zito Torres e Mirandinha, Iracema compatibiliza, admiravelmente, a boemia com a atividade cultural, de modo que enriquece a história de Curaçá e de Santa Maria da Boa Vista.  

Cordata, encantadora e impressionantemente educada, Iracema Medrado é uma daquelas pessoas que vale a pena conhecer, conversar, sorrir, agradecer a convivência.

Iracema Medrado faz a diferença na vida social. Devota-se ao dever de ser gentil, viver bem em sociedade

É orgulho de nossa geração curaçaense, modéstia à parte.

araujo-costa@uol.com.br.    

Judiciário e política: Coincidências, indecências e imoralidades

Em tempo de democracia (ainda temos esse bicho no Brasil?), lembro que a imprensa vem publicando, exaustivamente, um emaranhado de coincidências, indecências e imoralidades que envergonham os brasileiros que pensam, sabem pensar ou pretendem pensar nalgum dia.

Neste particular, refiro-me aos brasileiros que ainda não foram cooptados pelo abominável fanatismo. Esses estão perdidos, porque não enxergam nada além do nariz e vivem submersos na escuridão das paixões políticas.

Vamos às coincidências. Somente algumas.

O escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes (STF), firmou um contrato com o investigado Banco Master, no valor de R$ 129 milhões (36 parcelas mensais de R$ 3,6 milhões), segundo a imprensa, quantia estratosférica e nunca vista na área da advocacia.

Em tese, o escritório da mulher do ministro, também é do ministro, que vai julgar os processos do mesmo banco que eventualmente vierem a cair no STF, se o ministro não tiver a grandeza de declarar-se impedido.

Ato contínuo, outro ministro, desta vez o lulopetista Dias Toffoli (STF), que tem – ou teve – o irmão e parentes próximos na condição de sócios de fundos do Banco Master, de repente deu-lhe um estalo salvador e chamou para si o inquérito que investiga os magnatas do banco e seus amigos e colocou tal inquérito em sigilo absoluto.

Não se sabe porque o inquérito do Banco Master foi parar nas mãos do ministro Dias Toffoli, nem a razão do sigilo inexplicável que ele impôs. Sabe-se apenas que foi por determinação de Sua Excelência.

Dias Toffoli é o mesmo ministro que foi passear noutro país, em jatinho do pessoal do Banco Master.

Como é bonita a “imparcialidade” de Suas Excelências!  

Presume-se que durante essas viagens e seus consequentes regabofes, sua Excelência conversou somente sobre evangelhos, versículos bíblicos, terços e rosários e nunca sobre assuntos do Banco Master.

A ministra Verônica Abdalla, do Superior Tribunal Militar (STM), indicada por Lula da Silva para a honrosa função, recebeu de uma empresa do famoso “careca do INSS”, a bagatela de R$ 700 mil (Diário do Poder, 12/01/2026). Consta que o pagamento foi feito antes de Sua Excelência assumir a função no STM, razão maior para não ter sido indicada.

De outro turno, a Polícia Federal parece estar investigando as informações de que o filho de Lula da Silva, o Lulinha, recebeu a bagatela de R$ 25 milhões, segundo a imprensa, mais uma pensão mensal de R$ 300 mil, do famoso “careca do INSS”, conforme sobejamente noticiado.

Não se sabe o que o milionário filho de Lula da Silva fez para receber tão vultoso valor desse suspeito e investigado senhor, que manteve nebulosas relações com o INSS.

Por outro lado, o PT e a base de sustentação do governo Lula no Congresso Nacional foram contra a formação e instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga o assalto aos aposentados e pensionista do INSS, embora digam, até hoje, que a maracutaia foi engendrada no governo passado, o que fica mais difícil explicarem a posição contrária à investigação.

Nada disto surpreende em tempo de consórcio Lula-STF.

Admitindo-se, por hipótese, que essas pessoas ao redor de Lula, venham a ser condenadas por envolvimento nesses escândalos, a bancada de Lula no STF certamente anulará as provas e absolverá tais pessoas envolvidas.

E não se falará mais nisto.  

A Justiça continuará sendo tão somente uma expectativa e esperança dos brasileiros.

Num país sério – e este não é o caso do Brasil – esses excelentíssimos ministros dar-se-iam por impedidos de atuarem no STF até, pelo menos, que os fatos estejam esclarecidos, já que eles próprios não se dispuseram a esclarecê-los.

A reputação de ministros do STF deve ser ilibada. Assim diz a Constituição Federal. Não deve pairar dúvida sobre a envergadura moral dos ministros.

Como diz o provérbio, “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

araujo-costa@uol.com.br

Em Abaré, Delísio mantém trincheira política segura

Político sem mandato é como chocalho sem badalo: balança, mas não toca.” (José Cavalcanti, paraibano de São José de Piranhas, 1918-1994).

Abaré, simpático município do submédio São Francisco, se destaca em razão de sua efervescência política e, sobretudo, por sua pujança cultural.

Terra de José Amâncio Filho (Meu Mano) e do padroeiro Santo Antonio, Abaré vem produzindo líderes ao longo do tempo, de modo que surgiram fortes lideranças em todas as áreas, mormente na seara política.

Lá se destaca, dentre outros, Delísio Oliveira da Silva, sertanejo de ideias firmes, corajoso e incapaz de recuar quando precisa revidar quaisquer contrariedades de adversários políticos, imprensa, formadores de opinião, eleitores e palpiteiros em geral.

Delísio Oliveira da Silva/Reprodução perfil facebook

Há momentos em que Delísio chega a ser rústico, sem tornar-se deselegante.

Delísio atravessa um interregno sem mandato. Em consequência, deixou de balançar o chocalho do noticiário do município e incomodar circunstantes e adversários políticos.

Experiente e bem articulado, comporta-se de acordo com o vento dos acontecimentos. É estratégico, vive na trincheira das expectativas, inobstante alguns tropeços no caminho político.

Em 2018, este blog pediu uma entrevista a Delísio Oliveira da Silva. Sem êxito.

O telefone o alcançou cedo, muito cedo, em Abaré. Do outro lado da linha, a voz inconfundível, o atendimento prestativo, a pergunta ríspida, áspera, sem salamaleques: “Não conheço o blog. Quem vai fazer a entrevista? ”.

Feita a apresentação e aparadas as arestas de praxe, prontificou-se a conversar.

Não conversou.

Político experiente, escorregou educadamente e não concedeu a entrevista. Matreiro, avaliou o momento desfavorável por que passava na ocasião e dispensou este escrevinhador, fato comum no meio jornalístico.

O blog não insistiu, tampouco Delísio demonstrou interesse na entrevista. A coisa parou por aí e o blogueiro raspou-se, saiu sorrateiramente do caminho do potencial entrevistado.

Delísio Oliveira da Silva faz parte da geração de 1951. É seguro de suas convicções e, mais do que isto, preparado para eventuais botes maliciosos de entrevistadores.

Parece conhecer bem as armadilhas da imprensa, talvez por estar acostumado a ser cutucado pelos meios de comunicação. Houve um tempo em que  ele frequentou o noticiário político e de assuntos judiciais, quase simultaneamente, com a mesma desenvoltura com que transita pelas estradas empoeiradas do município de Abaré.

O fato é que a liderança de Delísio continua inconteste no município. Seu prestígio político ainda se afigura sólido e, por isto, parece que sua estratégia é prevenir uma cilada de seu destino político.

Exemplificando, em 2016 abocanhou nas urnas, salvo engano, 48,92% dos votos válidos, em favor do filho e candidato a prefeito, Delísio Oliveira da Silva Filho (Del de Delísio), lançado pelo então PMDB.

O adversário Fernando José Tolentino Teixeira (PT) ganhou a Prefeitura com uma diferença de 231 votos. Obteve 51,08% dos votos válidos. Decerto, uma disputa difícil, tensa, buliçosa.

Em 2024, as urnas também não foram generosas com Delísio, que lançou, mais uma vez, o filho Del Oliveira (União Brasil) para disputar a eleição de prefeito.

O atual prefeito Emanoel da Farmácia (PT) foi eleito com 82,38% dos votos, uma liderança capaz de reestruturar o mapa político de Abaré.

Vitorioso em diversas eleições majoritárias e prefeito por dois mandatos, salvo engano, Delísio Oliveira também exerceu funções de destaque fora do município de Abaré, o que ampliou sobremaneira o lastro de sua atuação política.

Os ventos da política de Abaré parecem acomodar a atuação de Delísio Oliveira, por enquanto.

Todavia, pelo que parece, ele continua em sua trincheira política.

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Dedé de Juca, esse ilustre filho de Chorrochó.

De vez em quando cedo às exigências do cotidiano e faço uma espécie de inventário do tempo, com o intuito de evidenciar fatos e lembranças de boas pessoas que conheci e até, irresponsavelmente, cutucar a saudade.

Exemplifico citando José Claudio de Menezes (Dedé de Juca), sujeito decente, espirituoso e respeitador, filho de Chorrochó e pioneiro serventuário da Justiça da comarca instalada em outubro de 1967.

Exerceu, com dedicação e primor, a função de Avaliador Judicial sob a jurisdição do primeiro juiz de Direito de Chorrochó, Dr. Olinto Lopes Galvão Filho.

Foram seus colegas no mesmo mister – e igualmente dedicados – José Claudionor de Menezes (Nonô) e Osvaldo Alves de Carvalho.

O pai José Cordeiro de Menezes (Juca) integrou as forças policiais comandadas pelo Major Manoel Campos de Menezes nos tempos de Lampião. A mãe, Antonia Rodrigues Lima, salvo engano, era de Rodelas.

Dedé de Juca se casou com Maria Lourdes de Menezes e constituíram família nobre e respeitável. Tiveram os filhos José Cordeiro de Menezes Neto, Geovani Marc Cordeiro de Menezes, Jean Claudio Cordeiro de Menezes, Jairo Henrique Cordeiro de Menezes e Jeorge Esteves Cordeiro de Menezes.

Em 2023, tive notícia de que Dedé de Juca, à época já acima dos 82 anos, estava um tanto fragilizado em razão de doença que lhe acometeu e morava em Aracaju sob cuidados da família.

De fato, fiquei entristecido.

Mas aqui, ocupo-me, en passant, de um dos filhos de Dedé de Juca, porque sobre o pai Dedé, conspícuo e honrado filho de Chorrochó, já escrevi alhures noutras ocasiões.

À época de sua formatura – vai longe no tempo – Jairo Henrique Cordeiro de Menezes mandou-me uma fotografia, com dedicatória, que a guardo até hoje, para sedimentar a lembrança, a consideração e, sobretudo, o registro da escolha e graduação abraçadas por ele.

Jairo Henrique Cordeiro de Menezes

Quando jovens, cheios de ideais, sonhos e esperança, costumamos lembrar dos amigos, parentes e aderentes, em ocasiões especiais e, certamente, a formatura é uma dessas ocasiões que elevam nossa estima às alturas do degrau alcançado.

Jairo Henrique Cordeiro de Menezes se lembrou deste insignificante escrevinhador e por isso registro minha gratidão.

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Chorrochó, gente de Caraíbas: Clécia Miranda

O convite dista de dezembro de 1989.

Já se vão, por aí, mais de 36 anos. Todavia, o significado se mantém e também a honra de tê-lo recebido.

Vinha da elegante Avenida Hermes Fontes, em Aracaju, Sergipe.

A remetente, bacharelanda em Direito que me convidava para a solenidade de formatura, Maria Clécia Miranda dos Santos, se formava pelas Faculdades Integradas Tiradentes e abria o caminho em direção a uma alvissareira alvorada de sucesso.

A colação de grau deu-se às 20h de 23/12/1989 no Theatro Tiradentes, precedida de culto, encerramento de placa e aula da saudade no dia anterior.

Muitos filhos de Chorrochó entenderam Aracaju como sinônimo de acolhimento e, outros tantos, adotaram-no como município de residência.

Já morando em São Paulo, não fui à festa de formatura. Por óbvio, a pobreza, a distância e a dificuldade de deslocamento impediram-me.

Ela sabia que eu não podia ir, mas o convite, que muito me envaideceu, foi uma deferência à amizade que sempre mantive com a família da então bacharelanda baseada no simpático distrito de Caraíbas, município de Chorrochó.

Aliás, por lá, as famílias Miranda e Araújo se entrelaçam firmemente, de modo que dão vida, alegria e constroem a história do lugar.

A citação do político Oscar Araújo Costa, honra e glória de Caraíbas, acabou sendo uma referência ao nome do povoado: Caraíbas de Oscar.

Líder em Caraíbas e circunvizinhança, Oscar Araújo Costa era casado com a elegante e altiva Umbelina Miranda de Araújo (D. Bela) e com ela construiu base familiar e política sólida e respeitável.

A Doutora Maria Clécia veio de família exemplar, estruturada com base na seriedade e respeito: a mãe Matilde Miranda e o pai Elizeu Cícero dos Santos que tiveram oito filhos, todos educados à maneira e nos moldes dos ditames sertanejos sustentados na Fazenda Riacho dos Bois, circunvizinhança de Caraíbas.   

A Doutora Maria Clécia Miranda dos Santos cresceu profissionalmente, progrediu e sempre exerceu função de destaque e prestígio em diversos municípios da região.

O jornalista e escritor Raimundo Reis, baiano de Santo Antonio da Glória, dizia, irônico: “Quando falamos muito do passado é sinal que estamos ficando velhos”.

De repente, cabe mais um aliás, aqui. Faz tempo que a velhice se abancou no meu terreiro, trazendo-me fragilidade e até incômodas dores, mas aguçando a saudade e gratidão.

Deixo o registro do convite e da lembrança.

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Chorrochó, último telefonema

Já morando em São Paulo, em visita a Chorrochó – 07/08/1995 – comadre Socorro Menezes me ofereceu um CD de Agnaldo Timóteo, mineiro de Caratinga.

Dentre as músicas, Último telefonema, lançada em 1966, versão de L’última telefonata, de Pino Donaggio.  

Socorro Menezes/Álbum de família

Havia um costume, quiçá um código. Não sei se bem um código, mas um estilo, uma circunstância da vida, da amizade, do tempo vivido.

Toda vez que comadre Socorro Menezes telefonava (além de amiga, ela era madrinha de minha primeira filha Thábata Aline), o telefone comumente era passado, em seguida, para meu compadre Virgílio Ribeiro de Andrade, ilustrísismo filho de família tradicional do simpático município de Uauá.

Falávamos de tudo, até dos políticos e da política de Chorrochó.  

Discreto, compadre Virgílio sempre ouviu, mais do que falou. Muito experiente, sua opinião sempre se circunscreveu ao básico, às amenidades. Nunca acusou, nunca menosprezou, nunca ofendeu nenhum político de Chorrochó. Educado, contemporizador, essencialmente ético.

Mais do que isto, Virgílio Ribeiro de Andrade é, até hoje, exemplo de servidor público de caráter irrepreensível.

Nascida em lar cheio de amigos e enfeitado com família decente e alegre, Socorro Menezes manteve a tradição acolhedora.

Atenciosa, generosa com todos e, sobretudo, dona de uma humildade impressionante.  

Sua árvore mais dileta foi-se desfolhando, mas ela pode contar, até o fim, com a grandeza e dignidade do marido Virgílio Ribeiro de Andrade, que sofreu ao seu lado todas as perdas e a amparou na solidão e nos momentos mais difíceis de dor e sofrimento.

No decorrer do tempo, Socorro perdeu a mãe Izabel Argentina de Menezes (D. Biluca), o pai Dorotheu Pacheco de Menezes, o filho Rogério Luiz e os irmãos José Evaldo de Menezes e João Bosco de Menezes (Joãozito).

Estou falando de saudade, de tempo, de consideração.  

Como parte desta crônica de saudade, neste final de 2025, registro momentos e indizível saudade de Maria do Socorro Menezes Ribeiro.

Seu último telefonema deu-se dia 15 de abril, um dia depois de meu aniversário, ano de seu adeus em direção à eternidade.

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Supremo Tribunal Federal: constrangimento e descalabro

“Brasil de ontem e de amanhã! Dai-nos o de hoje que nos falta” (Rui Barbosa)

As traças da arrogância estão esgarçando o tecido da hipocrisia e da vaidade em que se sustentam alguns ministros do Supremo Tribunal Federal.

O ex-ministro Luís Roberto Barroso, ex-presidente da Corte, que bradava frases estapafúrdias tais como “nós derrotamos o bolsonarismo” e “perdeu, Mané, não amola” e outras tantas inapropriadas a um ministro do STF, talvez tenha vislumbrado sinais de derrocada da credibilidade do Tribunal – que ele ajudou a desmoronar – e decidiu sair cabisbaixo, aposentar-se, escafeder-se. Não deixou saudade.

A imprensa vem noticiando casos constrangedores.

Ministros em indubitável contubérnio com executivos do Banco Master, em comportamento constrangedor, fazendo reiterados contatos com altos dirigentes do banco envolvido em fraudes bilionárias.

Esses ministros fizeram despencar a credibilidade do STF tanto que, em recente pesquisa, 44% dos pesquisados empurram a atuação dos ministros para muito abaixo do que se espera do Poder Judiciário, outrora uma instituição altamente respeitada.  

O dono desse mesmo banco Master patrocinou nababesco jantar, em Nova York, para alguns ministros do STF que vão julgar os processos do banco, o que é escandaloso e, no mínimo, arranha a ética.

A promiscuidade vai além.

Surge no horizonte da insensatez (e agride a lógica), um estratosférico, incomum e inexplicável contrato de supostos honorários de R$ 129 milhões (36 parcelas mensais de R$ 3,6 milhões) entre o próprio Banco Master e o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes – que, a rigor, também é dele – exatamente o magistrado que mais exige ética dos brasileiros e se arvora o suprassumo da “democracia”. Assim mesmo, entre aspas.

A bilionária fraude do Banco Master adquiriu outro componente vergonhoso: o ministro Dias Toffoli, do STF, que viajou a passeio num jatinho particular do advogado do banco e foi assistir a um jogo de futebol noutro país, avocou para si o inquérito envolvendo o banqueiro e, ato contínuo, decretou sigilo absoluto, o que é difícil de explicar.

Mas quando o assunto diz respeito a membros do STF a lógica não permite explicação.

A democracia dos ministros do Supremo não é a mesma estribada na vontade popular como definiram os gregos (poder do povo).

A democracia deles é a “democracia” das prisões atabalhoadas e ilegais, da arrogância, da perseguição política, do desrespeito à Constituição e às leis.  É a democracia do “quem manda sou eu”. 

O STF fez a façanha de restabelecer os presos políticos que só a ditadura militar os manteve e que, pensávamos, era uma vergonha já extinta de nossa combalida República.

O STF mandou trancafiar pobres, idosos, vendedor de água em semáforos de Brasília, morador de rua, portadores de doenças (havia um autista entre os presos), sob o argumento de que esses miseráveis são perigosos o suficiente para perpetrarem um golpe de estado no Brasil.

Beira o ridículo.

Nos últimos anos o STF arranhou a Constituição, seguidamente. Censurou, prendeu à revelia da lei, criou inquéritos gritantemente desconforme as leis processuais, espezinhou a figura do juiz natural, interferiu nas atribuições do Congresso Nacional, bloqueou contas até mesmo de parentes de investigados, o que é ilegal e por aí vai o constante e desenfreado desmoronamento do STF.

Os ministros rebaixaram a função constitucional do Supremo. Hoje o STF é um misto de delegacia de polícia, juízo criminal, ativismo judicial e comitê político, dentre outras aberrações. Faz-se tudo lá, menos Justiça.

Para ficar apenas nalguns exemplos, acrescente-se que os ministros se elevaram à condição de intocabilidade, sentem-se acima da lei, acima das regras da República. A República é eles, porque sabem que a impunidade protege seus atos e suas cabeças.

A ministra Carmen Lúcia chegou ao ponto estrambólico de colocar todos os brasileiros no mesmo balaio e chamá-los de “tiranos”. Segundo Sua Excelência, é preciso “impedir que 213 milhões de pequenos tiranos soberanos” usem a internet.

É o tolhimento acintoso e inegável do direito de expressão e de manifestação do pensamento que a Constituição Federal assegura a todos.

Como se vê, não há filtro, não há respeito aos brasileiros, não há democracia para suas subidas Excelências.

Decisões de ministros – muitos delas monocráticas – escancaram que o STF protege os poderosos e espezinha os miseráveis, os que não têm voz.

Os exemplos abundam, gritam, envergonham.

O STF se imiscuiu na política partidária. Ministros telefonam para parlamentares sugerindo e até exigindo textos legais, que é função estrita do Parlamento, violam o princípio de separação dos poderes e, sobretudo, espalham dúvidas quanto à credibilidade do Tribunal, outrora o último refúgio de quem pede e espera Justiça.

Talvez o Brasil precise convocar uma Assembleia Nacional Constituinte para, através de amplo pacto social, redefinir as regras de nossas instituições, inclusive do Supremo Tribunal Federal, que não respeita, ele próprio, a Constituição e as leis.

O conceito salutar da divergência e do colegiado foi deixado de lado por suas Excelências. Cada ministro do STF se acha o máximo e toma decisões a seu bel prazer, independentemente do que dizem a Constituições e as leis.

O STF enveredou para o caminho do descalabro e caiu no despenhadeiro do constrangimento.

araujo-costa@uol.com.br

Quando a saudade diz mais do que o tempo

A morte do cantor Lindomar Castilho aos 85 anos me trouxe à lembrança uma amiga de meu tempo de Patamuté, também falecida.

Em 1966 Lindomar Castilho lançou a canção Ébrio de Amor que fez estrondoso sucesso e o acompanhou durante toda a vida.

Heloina Assis gostava da música e até idealizava uma imagem da frase “e assim eu vou seguindo o meu destino”, mudando-se de um lugar ao outro do ambiente. Ríamos muito.

Heloina e eu trabalhávamos no Armazém de Antonio Paixão, em Patamuté. Heloina somente aos sábados. Chegava cedo da Fazenda Candeias e retornava no final da tarde, geralmente com o marido Beato.

Heloina Assis, em foto de 2018/arquivo de Auxiliadora Pires

Minha função era espichar peles de caprinos e ovinos nos fundos do armazém de Antonio Paixão.

Muitos jovens de hoje não sabem o que é espichar peles, nem têm obrigação de saber, porque o tempo é outro, as coisas mudaram, mas isto faz parte dos costumes e da cultura nordestina.

Espichar peles foi meu primeiro trabalho fora de casa. O serviço era coordenado por Israel Henrique de Souza, um dos grandes amigos que tive em Patamuté.

Naquele tempo – década de 1960 – não havia televisão e nem telefone em Patamuté.

Ouvíamos a Emissora Rural – A Voz do São Francisco, de Petrolina. Era através do rádio que ficávamos sabendo das coisas que aconteciam no mundo, inclusive sobre cantores e músicas que faziam sucesso na época. Lindomar Castilho era um deles.

A família de Heloina é numerosa, bem estruturada, de boa índole.

Heloina viveu algum tempo em São Paulo, mas não tive oportunidade de encontrá-la.

Guardo de Heloina o sorriso, a atenção, a generosidade, a amizade.

A saudade e as lembranças cutucam.

Coisas do tempo, da passagem do tempo, do caminhar do tempo.

araujo-costa@uol.com.br