Chorrochó, conversa de domingo e outras conversas

Em política, como no jornalismo, nenhum pormenor é supérfluo.

Em abril de 2018 este Blog solicitou uma entrevista ao ínclito e combativo vereador Luiz Alberto de Menezes (PT), de Chorrochó, mais conhecido como Beto de Arnóbio, líder querido e admirado por todos.

O contato foi feito por intermédio do brilhante advogado Luiz Alberto de Menezes Filho (Betinho), filho do vereador e também conspícuo chorrochoense, que muito prezo.

O vereador não negou formalmente a entrevista, mas não demonstrou nenhum interesse, o que dá no mesmo. E aqui entra o pormenor – que não é supérfluo – mas isto não vem ao caso, agora e por enquanto.

Dizia o jornalista, escritor, radialista e político Raimundo Reis, admirável baiano de Santo Antonio da Glória, que “a história não se escreve pela vontade dos homens. É uma conspiração das circunstâncias”.

Daí, até entendo a insignificância deste escrevinhador como advogado e jornalista, mas o excelentíssimo vereador, um dos pilares do Partido dos Trabalhadores (PT) na região, poderia pelo menos ter considerado minha modesta condição de conterrâneo e admirador do município de Chorrochó, o que não é nenhuma novidade, embora isto não me retire a insignificância.  

Na mesma ocasião, outro político de Chorrochó a negar tacitamente entrevista a este Blog foi o vice-prefeito Dilan Oliveira (PCdoB), ilustre chorrochoense filho de Antonio Bosco de Oliveira. Feito o contato, silenciou, não deu reposta, o que basta para bom entendedor.

Bosco faleceu em abril de 2020, um dos homens mais corretos que conheci em minhas trôpegas andanças.

Bosco era um senhor circunspecto, de bom caráter, cordial, observador, atento às coisas de Chorrochó, de modo que o vice-prefeito Dilan herdou boas qualidades do pai e é uma das agradáveis revelações que Chorrochó produziu politicamente. Tem lastro político e futuro previsível.

O antigo e getulista Partido Social Democrático (PSD), fundado em 1945 por ex-interventores do Estado Novo, cultivou por décadas, uma doutrina curiosa, mas verdadeira: em política, há sempre os que estão por baixo e querem subir e os que estão por cima e não querem descer.   

O PSD foi extinto em outubro de 1965 pelo Ato Institucional número 2 (AI-2), editado pelo presidente Castelo Branco e o resto da história dos partidos políticos todos conhecem.

Hoje temos um amontoado de excrescências partidárias que abrigam políticos de toda ordem, inclusive mentecaptos, hipócritas, loroteiros, enganadores, rapinantes do dinheiro público, et cetera.  Mas esta é outra história.

Presumo que esses políticos de Chorrochó que se negam ou não gostam de conversar com algum jornalista devem continuar no páreo nas próximas eleições municipais, afinal quem está embaixo quer subir e quem está em cima não quer descer.

Entretanto, precisam vislumbrar que a imprensa é um dos sustentáculos da democracia, mesmo que não gostem de eventual entrevistador ou jornalista ou não lhe deem importância.

Para o jornalista que não obteve entrevista isto não faz qualquer diferença, não tem nenhuma importância, mas para o político faz, com ou sem mandato. O político precisa explicar suas propostas, convencer a população que é a melhor opção, tornar-se cada dia mais visível diante dos munícipes.

Em Chorrochó, o político e ex-prefeito José Juvenal de Araújo deixou exemplos de notabilidade, humildade e sabedoria quanto à maneira de fazer política sem nunca se elevar em direção ao pedestal da arrogância. Esteve sempre no pé da escada.

Outro exemplo monumental de humildade e decência foi o político e ex-prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes, honra, glória e baluarte da história de Chorrochó. Seu poder e liderança se sustentavam mais na humildade do que na sabedoria política.

“Humildade e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, diz o ditado. Tampouco arrogância é passaporte para atingir as melhores posições no cenário político, mas talvez seja a maneira mais eficiente de provocar quedas estrondosas.

Empáfia não se coaduna com política. Aliás, não se coaduna com nada.

Confesso que as perguntas cuidadosamente elaboradas para o vereador e o vice-prefeito laboravam no campo da decência jornalística, desprovidas de quaisquer maledicências ou viés que pudessem arranhar a alta importância daqueles senhores, até porque o Blog não tem essa pretensão, nem deseja alcançá-la.  

A “conspiração das circunstâncias” de que falava Raimundo Reis pode colocar esses políticos na próxima cena eleitoral de Chorrochó.

Certamente estarão mais amadurecidos e talvez enxerguem com mais sabedoria o papel democrático da imprensa, mesmo que em alguns casos para eles seja desnecessária e o jornalista não tenha lá tanta ou qualquer importância.

araujo-costa@uol.com.br

Cadê a decência, ministro?

“Perdeu, mané. Não amola.” (Luiz Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal)

Sou do tempo em que magistrado se expressava em linguagem escorreita, respeitosa, decente, compatível com a nobreza da magistratura.

A expressão “perdeu, mané” comumente usada nos semáforos e ruas das grandes cidades é a senha dita por assaltantes ocasionais, que indica a subtração imediata de bens de vítimas indefesas ou relatada em inquéritos nos distritos policiais.

É uma espécie de código da delinquência.

É constrangedor ouvi-la de um magistrado em resposta a brasileiro, fora do Brasil, num país civilizado – os Estados Unidos da América – onde seus nacionais e pessoas que moram lá têm livre direito à liberdade de expressão do pensamento e podem questionar autoridades quaisquer que sejam.

Constrangedor, mais ainda, a frase partir de ministro do Supremo Tribunal Federal e reveladora da degenerescência a que chegou parte da magistratura brasileira.   

A imprensa sinalizou que a frase “perdeu, mané” correu o mundo, beirou o topo das mais lidas e certamente escancarou a muitos países a debilitada imagem do nosso Poder Judiciário que há tempo vem em apressado despenhadeiro e visível desgaste.

Houve tempo em que o magistrado ao chegar discretamente em festas, sem estardalhaço, holofote ou dezenas de seguranças, era reverenciado, cumprimentado e respeitado pelos presentes.

A figura digna do magistrado por si só imprimia segurança e respeito ao local.

Houve tempo em que magistrado era respeitosamente acolhido ao chegar a restaurante ou qualquer outro lugar e não precisava socorrer-se de escolta policial para sair do estabelecimento, circular pela calçada ou adentrar em seu veículo.

Houve tempo em que a Justiça era a esperança dos injustiçados e o Poder Judiciário o amparo, a retaguarda, a segurança.

Houve tempo em que o magistrado não cavava hostilidades ao proferir decisões esdrúxulas e ilegais, mas se impunha com o peso admirável de sua função respeitável.

Corajosos e combatentes advogados recorriam à Justiça e impetravam Habeas Corpus para fazer valer os direitos dos cidadãos, o afastamento da censura, da ameaça, da prisão indevida, da truculência da ditadura militar ou, a qualquer tempo, coibir o abuso de poder de autoridades.

Hoje a censura parte do Poder Judiciário, vergonhosa e injustificadamente e transforma-se em espada para tolher o direito de cidadãos que ousam expressar-se amparados pelos ditames da Constituição Federal.   

Houve tempo em que a figura do magistrado trazia paz e segurança e não medo, repulsa, desprezo. O juiz era o exemplo, o espelho para a juventude, o caminho em direção à respeitabilidade.

Houve tempo em que magistrado não se transformava em militante político, nem demonstrava tendência para este ou aquele candidato, qualquer que fosse a esfera (municipal, estadual, federal).

A preferência eleitoral do magistrado dava-se no esconderijo de sua consciência sob a esteira do princípio de que o voto é secreto.

O magistrado se dava o respeito e pairava sobre todos com o manto da decência, hombridade, imparcialidade e aptidão para dizer o direito, fazer a Justiça, independentemente da fama ou classe social de quem lhe batia à porta.

Houve tempo em que ministros do Supremo Tribunal Federal não viajavam em bando, em avião pago por empresários, hotéis e mordomias custeados por magnatas da política e da economia para participarem de regabofes e, em consequência, espancar a nobreza da magistratura.  

Houve tempo em que magistrado não se reunia com parlamentares para sugerir feitura de leis e seus contornos, com o intuito não transparente e presumível de beneficiar apaniguados.

Entrementes, o que acalenta é que a magistratura nacional não está totalmente contaminada com esses senões e vícios. Sua maioria é formada de juízes sérios, decentes, impolutos, de reputação realmente ilibada.

Houve tempo em que magistrado tinha consciência de que seus estratosféricos salários e mordomias são pagos pela sociedade para servi-la e não para espezinhá-la.

Houve tempo em que magistrado recolhia-se à sua grandeza e ao significado de sua nobre função de dizer o direito.

Houve tempo em que magistrado tinha vergonha de cometer eventuais deslizes no exercício da judicatura.

Quedê a decência, ministro?

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva, o cachimbo e o uso do cachimbo

Lulopetistas decentes – existem muitos – criticaram o fato de o presidente eleito Lula da Silva (PT) ter viajado ao Egito em jatinho particular emprestado.

É uma recaída precoce do morubixaba de Caetés. Não esperou a posse em 01/01/2023 para voltar a mostrar as unhas. Chega parecer contumácia, teimosia na prática dos mesmos erros.

A crítica dos lulopetistas sérios é oportuna, sensata, necessária.

Com cara de paisagem, o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin, que agora virou esquerdista de primeira hora, apressou-se em dizer que Lula apenas pegou uma carona, o dono do avião foi junto e coisa e tal. Não colou. O próprio PT admitiu o empréstimo da aeronave alegando falta de recursos do partido para custear a viagem.

A aeronave pertence ao empresário José Saripieri Filho, processado por corrupção, lavagem de dinheiro e caixa 2. E amigo de Lula.

O avião, com capacidade para 12 pessoas e autonomia para voar direto de São Paulo ao Egito, foi emprestado pelo referido empresário amigo de Lula, dono da operadora QSaúde e fundador do plano de saúde Qualicorp, que chegou a ser preso pela Operação Lava Jato.

Saripieri confessou os crimes, fez colaboração premiada e se comprometeu a devolver R$ 200 milhões aos cofres públicos, a título de ressarcimento, delação esta feita à Procuradoria-Geral da República e homologada pelo ministro Luiz Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal.

Amigo de Lula da Silva, o empresário costuma fazer jantares em sua casa com a participação de Lula e seus amigos. Ou seja, é da mesma corriola de Lula e doador da campanha do presidente eleito. Na última campanha eleitoral, doou R$ 660 mil ao PT.

Lula viajou com a esposa e alguns amigos, inclusive Fernando Haddad, para participar da COP27, conferência climática da ONU, que se realiza num balneário do Mar Vermelho.

Ou seja, Lula da Silva nada aprendeu com seus tropeços e continua se alinhando a pessoas de reputação um tanto duvidosa.  

Aliás, a foto de Lula da Silva na COP27 é um primor. Ao seu lado só celebridades acima de qualquer suspeita. Renan Calheiros (MDB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), por exemplo.

O avião, segundo a imprensa, é avaliado em aproximados R$ 270 milhões e a viagem ao Egito, ida e volta, custa por volta de R$ 3,5 milhões.

Um favor e tanto que o empresário-amigo presta a Lula da Silva. Presumo, que seja apenas por generosidade.

Há anos Lula só viaja em jatinho particular. Com mandato ou sem mandato. Tem quem acredite que ele é pobre e defensor dos pobres.

Lula da Silva gosta de coisas encrencadas. Depois do resultado do segundo turno das eleições, ele foi descansar na paradisíaca Praia Ponta do Camarão, em Porto Seguro (BA) na mansão da família do deputado federal Ronaldo Carletto (PP-BA).

Ronaldo Carletto é aquele mesmo senhor que, em delação na Operação Faroeste, a desembargadora Sandra Inês Rusciolelli, do Tribunal de Justiça da Bahia, que foi presa por corrupção, disse que ele pagou propina para comprar sentença favorável.

O empresário Paulo César, irmão do deputado, também esteve envolvido em escabrosa investigação da Polícia Civil, acusado de envolvimento em fraudes na concessão de linhas intermunicipais na Bahia. Chegou a ser preso.

Comecei falando dos lulopetistas decentes, que ainda são muitos. Mas há também os lulopetistas “cara de pau”, os “sem noção”. Por exemplo, o deputado federal Paulo Teixeira (SP), secretário-geral do PT, culpou “a incivilidade do presidente Jair Bolsonaro” por Lula ter viajado em jatinho do amigo. Pode?

A recaída de Lula é lamentável. É o cachimbo e o uso do cachimbo. Deixa a boca torta, segundo o ditado.

araujo-costa@uol.com.br

Bahia: Trânsfugas, adesistas e bigorrilhas.

O temor de qualquer candidato em disputa eleitoral é o movimento dos trânsfugas, oportunistas que costumam abandonar as candidaturas quando vislumbram qualquer possibilidade de derrota. São os covardes, os desertores.

Por outro lado, a alegria do candidato é a enxurrada de adesistas, que ao primeiro sinal de vitória se aproximam com o intuito de abocanhar cargos, sinecuras ou qualquer boquinha no previsível novo governo.

Por fim, aparecem os bigorrilhas, desprezíveis criaturas que gravitam em torno do poder, independentemente de quem seja o eleito ou de que partido político, sem nenhuma convicção e abocanham o que lhes oferecem, geralmente as sobras das maracutaias.

Esses são piolhos de botecos e lá defendem o governo, qualquer que seja ele, contanto que tenham recebido algum eventual tapinha nas costas e estejam sendo minimamente beneficiados.

Essas três classes são vazias, pulhas, interesseiras. Passam toda a vida correndo atrás de ideias para levar aos palanques, mas nunca as alcançam, porque simplesmente não as têm.

Em 2022, o que mais se viu na eleição para o governo da Bahia foi a movimentação de trânsfugas e adesistas. No universo de 417 municípios, pelo menos 300 prefeitos aderiram ao candidato Jerônimo Rodrigues (PT), eleito governador.

A debandada de apoiadores de ACM Neto (União Brasil) entre o primeiro e segundo turno, em direção ao petista, foi muito grande, veloz e acintosa.

Com tantos trânsfugas e adesistas transitando entre as duas candidaturas não havia como o carlista ganhar a eleição, embora líder nas pesquisas durante grande parte da campanha.

A notícia boa é que, com a vitória de Lula, todos ficaremos ricos.

Lula da Silva e o PT apregoam que vão extirpar a pobreza do Brasil e, em consequência, não haverá mais pobres nesta nossa querida terra de Santa Cruz, coisa que ele não fez nos oito anos de mandato 2003/2010 e mais alguns anos de lambuja de Dona Dilma Rousseff. Mas Lula diz que vai fazer nos próximos quatro anos.

Força! Vamos acreditar.

Lula da Silva foi afagado por 72,12% dos votos dos baianos (a Bahia só perdeu para o Piauí, onde Lula teve 76,86% dos votos) e o governador eleito Jerônimo Rodrigues abocanhou 52,79% dos votos, o que significa que a Bahia vai muito bem, obrigado.

A expressiva votação de Lula e Jerônimo Rodrigues na Bahia faz pressupor que os governos petistas foram aprovados e ratificados, inquestionavelmente e, mais do que isto, na Bahia não há problemas. Então, por que mudar?    

Sendo assim, no reinado de Lula da Silva não haverá mais submoradia, moradores de barracos, pessoas em situação de rua, nem precárias residências na periferia dos grandes centros urbanos, todos em idade escolar terão escola e não haverá esgotos a céu aberto nas cidades e coisa e tal.

Lula dará residência digna e comida a todos, segundo ele e o PT. Ninguém passará mais fome, todos terão casa para morar. Não haverá desempregados e subempregados em qualquer setor da economia, tampouco desalentados, esmorecidos, fracos, oprimidos, etc.

No Nordeste, todos os moradores terão água farta e potável, sejam da caatinga, do semiárido ou de quaisquer dos pequenos municípios da região.

No governo Lula, todo e qualquer brasileiro, exceto vegano e vegetariano, incluirá em seu cardápio, picanha e outras fartas delícias de nossa culinária, tudo regado a cerveja, muita cerveja. Todos terão dinheiro para viajar a qualquer tempo.

Lula costuma dizer que nos governos do PT “todo mundo passou a viajar de avião”. Confesso que não vejo assim, nem sei o que ele tem contra empresas de ônibus. Mas quem sou eu para duvidar de tamanha sumidade?

Vou até reivindicar aeroportos para minhas esquecidas cidades de Curaçá e Chorrochó, ambas no sertão da Bahia. Basta um telefonema para Gleisi Hoffmann ou para o deputado conhecido como “Dólar na Cueca”, que voltou com tudo e muita força e terá papel preponderante no novo governo Lula da Silva.

No governo Lula, a Bahia e o Piauí passarão a ser estados ricos, sem os problemas que vêm arrostando há séculos, até o surgimento do morubixaba de Caetés.

Não haverá mais pobres, também não teremos mais delinquentes, que Lula e os petistas chamam de “vítimas da sociedade”. Conseguintemente, prisões passarão a ser construções obsoletas, vazias, desnecessárias, passíveis de extinção.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, que tem cara de freira contemplativa, que se parecia de centro-direita, de repente passou para o lado de Lula da Silva e se tornou esquerdista convicto, desde criancinha.

Alckmin não resolveu os problemas de São Paulo como governador do poderoso PSDB, em décadas, mas resolverá os problemas do Brasil. Mudança é isto.

Alckmin tem como tarefa coadjutora ajudar Lula a transformar pobres em ricos de um dia para o outro.

Lula tornará o Brasil tão aprazível que fará inveja a países como Suiça, Suécia, Irlanda do Norte, Austrália e Estados Unidos, dentre outros.

E isto é bom para todos nós.

Portanto, êxito para o presidente eleito.

Viva Lula da Silva!

araujo-costa@uol.com.br

Lewandowiski é cotado para ministro de Lula da Silva

Ricardo Lewandowski, ministro do Supremo Tribunal Federal/reprodução Wikipédia

Tenho admiração pelo carioca Enrique Ricardo Lewandowiski, ministro do Supremo Tribunal Federal.

A admiração é um tanto justificável. Conheci-o na última metade da década de 1970. Lewandowiski, assim como eu, se formou na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Lá, depois, foi vice-diretor e professor.

A contemporaneidade me permitiu grata satisfação. Fui seu aluno e posso atestar três de suas inquestionáveis qualidades: cultura, humildade e decência.

Em São Bernardo do Campo, Lewandowiski exerceu os cargos de secretário de Governo e de Assuntos Jurídicos do município.

Em São Paulo foi juiz do Tribunal de Alçada Criminal, indicado pela OAB no quinto constitucional e Desembargador do Tribunal de Justiça.

Bacharel em ciências políticas e sociais e em ciências jurídicas e sociais, também é mestre e doutor em Direito e mestre em relações internacionais, de modo que não lhe faltam títulos e credenciais respeitáveis.

Lewandowiski deve se aposentar em maio de 2023, ou antes, razão por que se especula que pode vir a ser ministro da Justiça ou da Defesa ou até mesmo embaixador em Portugal.

Lewandowiski é amigo de Lula da Silva muito antes do morubixaba de Caetés ser famoso. Foi Lula que o indicou ministro do STF em 2006, uma espécie de prêmio ao amigo de convivência familiar.      

Como o Brasil está sob censura, valho-me de um parêntese, para citar uma frase de Ricardo Kotscho, amigo de Lula da Silva, honra e glória de nosso jornalismo: “Nos tempos mais bravos da ditadura, em que os repórteres mais falavam do que publicavam – escrever, até que escreviam, mas a censura cortava tudo – meia dúzia de três ou quatro sonhadores viajava pelo Brasil procurando o que inventar para romper o silêncio” (A Prática da Reportagem, Editora Ática, São Paulo, 1989).

Continuando:

Diante da robustez de sua cultura, o que menos conta na biografia de Ricardo Lewandowiski é sua passagem pelo Supremo Tribunal Federal.

Exerce a função de ministro da Suprema Corte numa quadra do tempo em que, desgraçadamente, o STF passa por um desgaste monumental e, mais do que isto, perde diuturnamente a credibilidade junto aos brasileiros.

Para alguns setores da sociedade, o STF deixou de ser a esperança na Justiça e no Poder Judiciário, mas uma casa de compadrio, onde o que menos importa é a aplicação do texto constitucional e o respeito à lei.

Entretanto, no entender deste escrevinhador, Lewandowiski é maior do que a pequenez de alguns ministros do STF, maior que o desprezo à Constituição da República e maior que o ativismo político em que alguns dos membros do STF jogaram o Tribunal ao descrédito.

Nenhum ministro do STF pode se transformar em ajudante de ordens de quem o indicou, mas deve erigir-se nobremente em defesa da lei e em benefício dos brasileiros, independentemente da condição social de cada um.

Não é o que se vê, infelizmente.

O magistrado não pode decidir escorado na gratidão, mas com a imparcialidade e obediência à lei.

O magistrado não pode se adequar à pauta que os grandes órgãos de imprensa desejam, mas às próprias convicções.

Se vier a ser ministro da Justiça ou de qualquer outra pasta, Lewandowiski enriquecerá o governo Lula da Silva, embora a tendência dele seja rejeitar o convite e voltar à advocacia, que exerceu com brilhantismo e decência.

araujo-costa@uol.com.br  

Estamos sendo espancados

Nenhum ato truculento ou ilegal deve ser tolerado, seja ele oriundo do Poder Judiciário, do Executivo ou do Legislativo.

Quem hoje aplaude atos dessa natureza, amanhã poderá ser vítima deles. Inarredavelmente vítima.

Só para lembrar:

Há uma escalada de censura no Brasil, inclusive prévia, espancamento à liberdade de expressão individual e agressão violenta à liberdade de manifestação do pensamento, embora direitos assegurados na Constituição da República.

Os excessos devem ser punidos, evidentemente, de acordo com o devido processo legal. Quem ofende, acusa sem provas, calunia e difama deve ser punido. Isto é elementar.

Tudo isto está acontecendo no Brasil em nome da democracia. Há quem acredite. Há quem concorde. Há quem aplauda.

Por isto, a reflexão oportuna sobre o pensamento de Matin Niemoller (pastor luterano alemão, 1892-1984):  

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…”

Quaisquer ditaduras, sejam armadas ou disfarçadas de toga, devem ser apontadas, repelidas, contestadas, repudiadas, nos termos da lei.

A função precípua do Poder Judiciário é a composição dos conflitos e não a estimulação deles.

A grandeza do magistrado está em sentar-se ao pé da escada e não o elevar-se ao topo da pirâmide.

A arrogância não faz parte da nobre função do magistrado.

Estamos no estado de direito. Ainda e por enquanto.

Inocentemente, acreditamos que temos Justiça no Brasil.

Sejamos vigilantes.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva ganhou. Estaremos todos ricos

Como já esperado, o ex-presidente Lula da Silva venceu as eleições e impôs uma derrota ao presidente Jair Bolsonaro, embora apertada.

A novidade é que a vantagem foi menor do que a projetada nas pesquisas em favor do morubixaba de Caetés.

Cenário que traduz o Brasil dividido: 50,90% dos votos para Lula e 49,10% para Bolsonaro, diferença de 1,80%. Pouca, convenhamos, no universo de 118,6 milhões de votantes na eleição presidencial.

Isto indica que Lula enfrentará renhida oposição bolsonarista durante seu governo a iniciar-se em 01/01/2023.

Quem ganha governa e quem perde vai para a oposição. É esta a regra democrática inarredável.

Um parêntese: o principal culpado pela derrota de Bolsonaro é ele próprio. Em razão da liturgia do cargo, o presidente da República não pode sair por aí, falando asneiras a torto e a direito. E Bolsonaro fez isto quase diuturnamente.  

O presidente da República deve falar por intermédio de seus porta-vozes oficiais ou em ocasiões especiais. Não é isto que o presidente Bolsonaro costuma fazer e pagou caro por seus destemperos: perdeu a eleição.

A notícia boa é que, com a vitória de Lula, todos ficaremos ricos. Lula da Silva e o PT apregoam que vão extirpar a pobreza do Brasil e, em consequência, não haverá mais pobres nesta nossa querida terra de Santa Cruz, coisa que ele não fez nos oito anos de mandato 2003/2010 e mais alguns anos de lambuja de Dona Dilma Rousseff.

No reinado de Lula da Silva não haverá mais submoradia, moradores de barracos, pessoas em situação de rua, precárias residências na periferia dos grandes centros urbanos, esgotos a céu aberto e coisa e tal.

Lula dará residência digna e comida a todos, segundo ele e o PT. Ninguém passará mais fome, todos terão casa para morar. Não haverá desempregados.

No governo Lula, todo e qualquer brasileiro incluirá em seu cardápio, picanha e outras fartas delícias de nossa culinária, tudo regado a cerveja. Todos terão dinheiro.

E já que não haverá mais pobres, também não haverá delinquentes, que Lula e os petistas chamam de “vítimas da sociedade”.

Com cara de freira contemplativa, o vice Geraldo Alckmin, que se parecia de centro-direita, de repente passou para o lado de Lula da Silva e se tornou de esquerda, desde criancinha. Tem como tarefa coadjutora ajudar Lula a transformar pobres em ricos de um dia para o outro.

Lula tornará o Brasil tão aprazível que fará inveja a países como Suiça, Irlanda do Norte, Austrália, Estados Unidos, etc.   

Todavia, o simbolismo demonstrado por Lula da Silva durante seu discurso da vitória num sofisticado hotel dos Jardins, região mais rica de São Paulo, não se adequou muito à nova situação: um dos seus aliados petistas, que ficou todo tempo a seu lado aplaudindo, foi nada mais, nada menos do que o famoso deputado cearense conhecido como “Dólar na Cueca”.  

Na expectativa de um novo governo Lula, esta página da corrupção não deveria ter sido virada? Ao menos simbolicamente?

Como moro em São Bernardo do Campo há décadas e Lula da Silva nunca me tirou da pobreza, estou pensando em mudar para a Bahia, onde Lula teve 72% dos votos. Certamente lá não há mais pobres e, se houver, são poucos, talvez estejam naquela margem dos 28% que não votaram em Lula da Silva.

Com Lula no governo da República e Jerônimo Rodrigues no governo da Bahia, não haverá mais pobres por lá.

Quem sabe, ele venha me tirar da pobreza.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá e alguns fragmentos de minha memória

“Em Campinas, um professor me saudou dizendo: – Desta cidade saíram muitos homens de talento. Aparteei: – Saíram todos. Ficaram furiosos comigo” (Agripino Griecco, crítico literário, 1888-1973).

Atingi uma quadra do tempo em que a idade me permite dizer o que penso ou quase tudo que penso.

Um amigo me perguntou se pretendo voltar a morar em meu município sanfranciscano de Curaçá, que ele conhece através de meus escritos, para “envelhecer lá”.

Digo que não, mas absorvo sua ironia. Se a premissa é “envelhecer lá”, não será mais possível. Já estou velho e, logo, falta-me essa razão preciosa de voltar ao meu torrão natal para envelhecer.

A turma do politicamente correto diz que não sou velho, sou idoso e estou na fase da “melhor idade”. Melhor idade? Deixa pra lá.  À semelhança de formigas, imbecis tem em todo lugar.

Outro fato impeditivo: o que faria um ancião na fase outonal da vida, beirando a senilidade, a decrepitude, o ocaso, num município com tantos talentos, intelectuais, escritores, jornalistas e até filósofos?  

Aliás, um parêntese: Curaçá parece que se transformou numa gigantesca universidade de filosofia e ciência política. As redes sociais estão infestadas de “filósofos e cientistas”, uns lulopetistas, outros tantos bolsonaristas, disputando entre eles níveis assustadores de agressividade.

Em minha mocidade – já vai longe no tempo – os jovens gostavam de ser humildes, respeitosos e atenciosos, não obstante a rebeldia própria da juventude. Dava certo a convivência sadia entre todos e afastavam-se a prepotência, a aspereza, a insolência.

Noticiam-me de Curaçá, que os becos por onde eu andava e as ruas e esquinas onde conversava com os amigos estão perigosos. As drogas já chegaram por lá ou passam por lá, de modo que é melhor ficar em casa e evitar o perigo das ruas à noite.

Essa incompatibilidade no viver social me alcança em cheio: sou notívago, não necessariamente boêmio. À noite as preocupações se recolhem e surge a expectativa de um amanhã melhor.

Outro dia perguntei a um amigo de Juazeiro, como anda a juventude de lá, a de Curaçá, de Petrolina, etc.

A resposta foi desalentadora: “Antes a juventude era a esperança, mas hoje….”. Acabou tropeçando nas reticências.

Todavia, ao contrário do relato de Agripino Griecco, em Curaçá ficaram os homens de talento e surgiram muitos. Outros de pouco talento saíram, dentre eles me incluo, com a vã esperança de que o encontraria noutro lugar. Debalde.

Voltar agora, carregando imbecilidades, alhos, bugalhos e idiotices na bagagem não é bom, não deve ser bom, não pode ser bom.

Melhor remoer por aqui a saudade e os fragmentos de minha memória esburacada.

araujo-costa@uol.com.br

Coveiro da EBDA, Jerônimo pode ser eleito governador

Ano do decreto de extinção da EBDA, 2016 foi muito difícil para 1.189 empregados efetivos e 797 aposentados, ainda na ativa, além de dezenas de escritórios locais, estações experimentais e centro de formação de pequenos produtores rurais vinculados à agricultura familiar.

Em 2015, quando foi selado o destino da EBDA, em razão da reforma da estrutura organizacional do Estado posta em prática por Rui Costa (PT), a empresa chegou a ter 1.249 empregados, sendo que 825 atuavam no interior, dados do Sindicato dos Trabalhadores Públicos na Área Agrícola do Estado da Bahia (SINTAGRI).   

O engenheiro agrônomo e professor Jerônimo Rodrigues, baiano de Aiquara, então Secretário de Desenvolvimento Rural da Bahia, decidiu pela extinção da tradicional Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), pioneira em pesquisa agropecuária, assistência técnica e extensão rural com atuação ramificada nos 417 municípios do Estado durante algumas décadas.

A Secretaria de Desenvolvimento Rural justificou a extinção da EBDA sustentando-se na alegação dos altos custos suportados pela empresa, inviabilizando-a.

Inegável é que o custo político do desastre da liquidação da EBDA foi bancado pelo professor Jerônimo Rodrigues. Como responsável pelo decreto de liquidação, ele é o coveiro da EBDA.

Jerônimo Rodrigues integrou a Comissão de Apoio à Liquidação da EBDA e, portanto, também tem responsabilidade por sua extinção.

Ora, se os custos ditaram a necessidade de extinção da empresa, é difícil entender porque a nova estrutura criada com a BAHIATER (que sucedeu a EBDA), a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) e a Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), todas penduricalhos da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), não ampararam custos semelhantes aos da EBDA.

Em 1995 o BNDES criou o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) com o intuito de financiar a atividade de pequenos agricultores e, neste particular, contribuiu com o estados.

Entretanto, dados do SINTAGRI sustentam que em 2018, por exemplo, a Bahia amargava o 7º lugar quanto “ao número proporcional de agricultores familiares com acesso ao crédito rural”, dentre os demais estados do Nordeste, donde se depreende que a extinção da EBDA não produziu os efeitos que Rui Costa e Jerônimo Rodrigues esperavam.

Naquele ano de 2018, somente 40% dos agricultores familiares tiveram acesso ao crédito e pelo menos 360 mil não conseguiram, segundo, ainda, dados do SINTAGRI.

É estranho um estado governado pelo PT, cuja espinha dorsal de sua política econômica sempre foi o dinheiro público como manto protetor da pobreza, deixar tantos pequenos agricultores desamparados.

Feudo do Partido dos Trabalhadores (PT), a Bahia pode eleger o petista Jerônimo Rodrigues para o governo do Estado. Ele começou a campanha em agosto com 16% das intenções de voto, ao passo que o adversário ACM Neto (União Brasil) surfava com 54%.

Salvo engano, Jerônimo Rodrigues teve no primeiro turno 49,45% dos votos válidos e ACM escorregou para baixo e ficou com 40,80%. Isto sustenta a tradição de que, quem tem maioria no primeiro turno ganha a eleição no segundo.

Em quadro assim, a chance de Jerônimo ganhar a eleição em 30 de outubro é real, embora ele diga que os institutos de pesquisas “não têm boa-fé” (Folha de S Paulo, 26.10/2022).

O crédito da foto é do Jornal Correio, de Salvador.

araujo-costa@uol.com.br

TSE descarta Constituição e impõe censura

Almirante Rademaker, General Lira Tavares e Brigadeiro Márcio de Souza Melo/Junta Militar de 1969/Reprodução Wikipédia

Tempo de ditadura, assim como hoje.

Em agosto de 1969 o marechal Arthur da Costa e Silva, presidente da República, foi acometido de uma trombose cerebral.

O vice-presidente era o jurista mineiro Pedro Aleixo que foi impedido pelos militares de assumir a presidência da República, mesmo tendo em vista a enfermidade do titular.

O presidente foi substituído por um triunvirato militar que assumiu o governo até a definição do sucessor, general Emílio Garrastuzu Médici.   

Essa Junta Militar governativa era formada pelo almirante Augusto Hamann Rademaker Grunewald, ministro da Marinha; general Aurélio de Lira Tavares, ministro do Exército; e brigadeiro Márcio de Souza Melo, ministro da Aeronáutica.

O resto da história todos conhecem.

Sucederam-se os anos de chumbo, censura à imprensa, aos livros, às peças teatrais, às manifestações culturais como um todo. Vieram as torturas, presos políticos, exílio, escuridão geral, prisões de toda ordem, restrições às liberdades públicas.

A história está se repetindo, nem sempre adequando-se à versão conhecida mas, como dantes, espezinhando o direito de expressão e a liberdade de pensamento.

O Tribunal Superior Eleitoral vem espancando nossos direitos, nesta sua fase assustadora e ditatorial.

O TSE descartou o texto constitucional, incinerando-o. Impôs censura à imprensa, inclusive prévia, tirou redes sociais do ar, ameaçou políticos e pessoas do povo, multou, ameaçou multar, proibiu a divulgação de fatos reais e verdadeiros e outras coisas mais.

Tudo, totalmente desconforme a Constituição Federal que diz em seu artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição“.

O texto constitucional vai além e, claramente, diz em seu artigo Quinto, inciso IX:

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” .

Ainda não se tem notícia se, assim como na ditadura militar, além de ameaçar prender, o TSE vai mandar arrebentar brasileiros em porões carcerários, mesmo que estejam exercendo o direito constitucional de criticar, contestar, sugerir, discordar.

Estamos novamente em tempo de ditadura. Não importa se de armas, de caneta ou de toga. Todas são desprezíveis, repugnáveis, afrontam contra a liberdade individual.

O que assusta é o silêncio do Poder Legislativo – Câmara dos Deputados e Senado Federal – além da sociedade civil organizada.

Todos estão de cócoras, acovardados, diria Lula da Silva, se outros fossem os tempos e essa ditadura de toga não estivesse lhe beneficiando.

Todos estão tímidos, amedrontados, idiotamente calados.

E a ditadura do Judiciário atuando diuturnamente, vergonhosamente.

A democracia também nos assegura o direito de gritar.

Cadê os gritos?

araujo-costa@uol.com.br