“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é idiota do que falar e acabar com a dúvida” (Frase atribuída a Maurice Switzer)
Em minha infância na caatinga esturricada da Bahia, os mais velhos diziam que “para encontrar o satanás não é preciso sair de casa”.
Hoje entendo que isto não acontece somente quando se trata de satanás, mas também de idiotas. Há muitos por aí. Eles pululam até em Câmaras de Vereadores.
Vamos aos fatos.
O vereador Sandro Fantinel (Patriota), de Caxias do Sul (RS), em patético e repugnante discurso, espezinhou os baianos, expeliu preconceito pelas ventas e, sobretudo, igualou-se ao esgoto, às valas fétidas, às sarjetas.
Mais do que isto. O vereador transgrediu preceitos ínsitos na Constituição Federal, dentre esses o respeito à dignidade humana que, na condição de parlamentar, tem o dever precípuo de obedecê-los.
Disse Sua Excelência idiota, que os baianos não são limpos, vivem tocando tambor e vomitou outros tantos impropérios, como se vê, em resumo:
“Todos que têm argentinos trabalhando hoje só batem palmas. São limpos, trabalhadores, corretos, cumprem o horário, mantém a casa limpa e no dia de ir embora ainda agradecem o patrão. Agora com os baianos, que a única cultura que eles têm é viver na praia tocando tambor, era normal que fosse ter esse tipo de problema”.
“Deixem de lado. Que isso sirva de lição, deixem de lado aquele povo, que é acostumado com carnaval e festa, pra vocês não se incomodarem novamente”.
“A única cultura que os baianos têm é viver na praia tocando tambor”.
“Não contratem mais aquela gente lá de cima”, aconselhando empresários e referindo-se aos baianos.
Em 27/02/2023, o destemperado vereador usou a tribuna da Câmara de Caxias do Sul e, em virulento discurso, tratou os cidadãos baianos de forma preconceituosa e desrespeitosa.
Tudo isto em defesa de empresários de Bento Gonçalves (RS) que recrutavam trabalhadores na Bahia, através de uma empresa de índole duvidosa e os mantinham em suas produções, em situação análoga à escravidão.
Denunciadas, um total de 208 trabalhadores foram resgatados pela Polícia Federal e mandados de volta para a Bahia.
Segundo a imprensa, “o resgate dos trabalhadores que eram mantidos em alojamento apertado e sem higiene, tratados sob ameaças e até agredidos com choques e spray de pimenta está causando enorme repercussão desde a semana passada, pois eles eram explorados em grandes vinícolas da região” (Metrópoles, 02/03/2023).
Como se vê, ao defender a degradante situação por que passavam os trabalhadores baianos, o vereador demonstrou concordar com o trabalho escravo ou análogo, tanto que aconselhou os produtores de uva a buscarem mão de obra de argentinos, que “são limpos” e ainda agradecem aos patrões pelo salário que recebem.
A situação é esdrúxula. Não se sabe se o vereador nasceu idiota, adquiriu a idiotice ao longo da vida ou se trata de um caso isolado e pontual de idiotice, um súbito qualquer que o empurrou ao esgoto da sociedade de onde será difícil sair.
Nada impede que Sua Excelência contrate – ou aconselhe contratar – mão de obra da Argentina. Os argentinos são cidadãos respeitáveis, de boa índole e cultura gigante, et cetera e tal.
Entretanto, isto não lhe autoriza espezinhar nós baianos, que vivemos quietinhos em nosso lugar, sem ofender cidadãos de outros Estados. Ao contrário, os recebemos com ímpar hospitalidade e decência. E até, em alguns casos, ficamos amigos deles.
“Tocar tambor” é uma expressão cultural, sim, Excelência. Isto não diminui nossa capacidade de trabalhar, lutar, progredir, ser honesto, criar nossos filhos e viver decentemente em sociedade.
Não sabemos se Sua Excelência tem essas qualidades que nós, baianos, preservamos. É uma questão de berço, de cultura, de civilidade, de educação.
Está aí a pujança de São Paulo, como exemplo. A robustez econômica paulista deve muito aos nordestinos, baianos inclusive, que ofereceram sua mão de obra na construção de São Paulo, o que se dá até hoje.
Excelência:
Não cheguei a arriscar-me em andaimes, prédios, construções, nem a trabalhar na colheita de uvas. Mas há muitas formas de contribuir para o engrandecimento do Brasil. E certamente não será menosprezando brasileiros.
De qualquer modo, o vereador escancarou sua pequenez de conduta, tendência à delinquência, incivilidade, falta de educação e monumental idiotice.
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