Brasil, independência sempre.

“Potência de amor e paz, este Brasil faz coisas que ninguém imagina que faz”. (Hino do Sesquicentenário da Independência, 1972).

O Brasil é maior do que algumas passageiras e indesejáveis autoridades de nossos Três Poderes, inobstante muitas delas terem sido colocadas lá mediante a soberania do voto popular e outras tantas através das regras democráticas vigentes. E a democracia é o nosso sustentáculo sem o qual todos claudicamos.

O Brasil não é daqueles que se arvoram donos da Nação, tampouco dos que acham que devem mandar atropelando as leis, a Constituição da República e, em consequência, o ordenamento jurídico nacional como um todo.

O Brasil não é daqueles que arranham diuturnamente o esteio jurídico nacional e espezinham nosso direito de contestar, discordar e dizer a verdade, verdade que eles não se dispõem a ouvi-la.

O Brasil não é daqueles que tolhem a liberdade de pensamento, sufocam a voz da sociedade – ou de alguns segmentos dela – e limitam ilegalmente o direito de expressar, de dizer, de gritar, de apontar erros, de pedir socorro diante das atrocidades.

O Brasil não é daqueles que são indiferentes à fome de milhões de brasileiros, ao tempo em que se encastelam em palácios e mansões e se lambuzam em mordomias sustentadas pelos impostos que todos pagamos.

O Brasil não é daqueles que entendem que assalto aos cofres públicos deve ser relativizado e esquecido, mas daqueles que entendem que os recursos públicos não devem ser subtraídos da sociedade.

O Brasil não é daqueles que retiram à força ou restringem os instrumentos que nos levam aos meios de comunicação postos ao nosso alcance e são fundamentais para o exercício da cidadania e evitam ofuscar a transparência que eles não têm interesse que a sociedade conheça.

O Brasil não é daqueles que se escondem atrás do poder para, através dele, elevarem suas mediocridades acima de nossas consciências.

Lembremos Ruy Barbosa (1849-1923), sempre atual, atualíssimo:

“A Pátria não é ninguém, são todos. Os que a servem são os que não emudecem, não se acovardam.

Cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo; é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade.”

O Brasil, não é dos que “furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse”, como disse Padre Vieira no Sermão do bom ladrão.

O Brasil não é dos que dilapidam os cofres públicos.

O Brasil não é daqueles que desmoronam nossas esperanças e das futuras gerações.

O Brasil não é dos arrogantes e dos imbecis.

Os imbecis são sempre arrogantes.

Lembremos, ainda, o pedido de socorro de Ruy Barbosa, em sua conhecida Oração aos Moços: “Brasil de ontem e amanhã! Dai-nos o de hoje que nos falta”.

Brasil, independência sempre.

araujo-costa@uol..com.br

Ditadura de armas, ditadura de toga

Sabem os leitores inteligentes e atentos deste Blog, que são todos, graças a Deus, que não sou lulopetista e não sou bolsonarista.

Emiliano José, escritor e petista baiano de respeito, jornalista sério e, sobretudo, político de caráter irrepreensível, um dos homens honrados da esquerda da Bahia, conta a história, em Lembrança do Mar Cinzento.

O contexto é o início da ditadura de 1964, 02 de abril.

O deputado esquerdista Mário Lima, baiano de Glória, fundador do Sindicato dos Petroleiros, procurou o general Humberto de Mello no quartel-general do Exército, para inteirar-se da situação política.

O então deputado Mário Lima, por óbvio defensor dos trabalhadores, foi recebido aos gritos pelo todo poderoso general Humberto de Mello, chefe da então Região Militar em Salvador, que descontrolado, foi enfático:

– Vocês são uns baderneiros! Fizeram greve em Mataripe, estão querendo subverter a ordem.

– General, sou parlamentar. Vim dialogar e peço respeito.

O general retrucou, arrogante e irredutível:

– O senhor está preso – E mandou trancafiá-lo.

O esclarecimento se faz necessário. Era um deputado que estava sendo preso, sem investigação, sem processo, sem motivo, sem amparo constitucional, sem advogado, sem quaisquer procedimentos processuais.

Parte da esquerda radical do Brasil, que hoje se deleita com os desmandos dos ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral e está sendo beneficiada com as decisões desses ministros e principais cabos eleitorais de Lula da Silva, poderá em breve ouvir a indesejável e ilegal sentença:

– O senhor está preso.  

É preciso ter muita cautela – mais do que isto, ter inteligência – para atentar como estão agindo ministros do STF/TSE que nunca foram magistrados, não sabem o que é redigir uma sentença, desconhecem a nobreza da função de juiz e desprezam o direito de defesa. Eles têm poder monumental e contam com a ausência covarde de fiscalização da sociedade, manejam o dinheiro público dos impostos que pagamos e, conseguintemente, se acham os donos do Brasil.

Extirpem dos ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral os jatinhos, caviares, lagostas, centenas de assessores, mansões, papel higiênico que pagamos, passeios internacionais, uísques envelhecidos, salários estratosféricos, et cetera e certamente eles se tornarão humildes – ou pelo menos – começarão a respeitar os brasileiros, os direitos dos brasileiros e a Constituição da República.   

Com todo esse poder econômico e toda essa falta de fiscalização é um passo para que eles se transformem em ditadores de toga, o que está acontecendo assustadoramente. Pior: com o olhar complacente de todos nós que nos tornamos covardes, essencialmente covardes.

Repito: não sou bolsonarista, não sou lulopetista, mas é importante observar: a ditadura de toga é tão ruim quanto a ditadura de armas.

Portanto, pelo andar da carruagem, inocentes e deslumbrados lulopetistas de hoje – e não somente lulopetistas – que, eventualmente, um dia venham contrariar os ministros do STF e TSE, poderão ouvir deles uma sonora voz, sem nenhuma chance de defesa:

– O senhor está preso.  

O Brasil precisa acordar e investir na educação. Às pressas, urgentemente.

Os brasileiros precisam estudar, jovens principalmente. Precisamos abrir escolas e desprezar os medíocres, sejam do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Eles são muitos.

Fanatismo de qualquer lado é falta de conhecimento e de educação.

As redes sociais estão infestadas de radicais defensores de Lula da Silva e do presidente Bolsonaro.

A maioria não tem conhecimento do que diz, como diz, porque diz. Xinga e ofende simplesmente.

Uma disparidade, uma temeridade, um perigo.   

araujo-costa@uol.com.br

Deputado Mário Júnior pode ser a esperança do sertão

Jornalista às vezes é bicho inconveniente.
Há alguns anos, escolhi o horário do café da manhã, que o costume do sertão reúne a família – hoje nem tanto como antigamente – e telefonei para velho e experimentado líder político sertanejo, que o ostracismo o jogou nos braços da indiferença eleitoral.
Feitos os salamaleques de praxe, perguntei se ainda tem algum líder político de futuro no sertão. Ou, pelo menos, à moda antiga.
“Rapaz, não tem não. Só aparece por aqui, em tempo de festa, Mário Negromonte Júnior”. Foi a resposta reticente e pessimista, mas esclarecedora e um tanto óbvia.
Parece que agora as visitas do deputado têm sido mais frequente em suas bases eleitorais.
Mário Sílvio Mendes Negromonte Júnior, que tem nome de nobre português, é um jovem deputado federal de 42 anos, eleito pelo Partido Progressista da Bahia (PP).
O deputado Mário Júnior, nascido em Paulo Afonso, tem sólidas raízes no município de Glória, que o progresso hidrelétrico mudou o traçado original, engoliu tradições e suor dos antepassados e o renomeou de Nova Glória, num claro acinte à bonita e rica história de Curral dos Bois e Santo Antonio da Glória.
Terra do lendário Petronilo de Alcântara Reis, conhecido como coronel Petro e de seu ínclito neto Raimundo Reis de Oliveira, escritor, jornalista, político e cronista, Glória mantém intacta sua história de homens públicos respeitáveis.
O lastro biográfico do deputado Mário Júnior vem de longe. O avô Dionízio Pereira foi vereador e prefeito de Glória e seu respeitabilíssimo tio Dr. Adauto Pereira de Souza, honra e glória do sertão, foi prefeito de Paulo Afonso (1963-1966). Mais do que isto: era respeitado em todo o sertão da Bahia.
A mãe e Doutora Ena Vilma Pereira de Souza Negromonte foi prefeita de Glória e o pai Mário Negromonte tem uma trajetória política que vai de deputado estadual a deputado federal por diversos mandatos, passando pelo Ministério das Cidades. Hoje, salvo engano, é conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia.
Advogado com extensão em Harvard (EUA), o deputado Mário Júnior parece despontar como uma esperança para a caatinga.
O sertanejo gosta de abraçar seus líderes, embora os líderes só gostem de abraçá-lo em anos de eleição.
O Dr. Adauto Pereira de Souza nunca abandonou a caatinga, onde tinha amigos leais na amizade e fiéis na política. Assim faziam os políticos daquela geração.
Mário Júnior pelo menos tem cavado algumas emendas parlamentares para a região e, sabe-se, é um parlamentar razoavelmente ativo.
Se se desviar do caminho que seguem os políticos tradicionais, terá futuro.
Vamos ver no que vai dar.
araujo-costa@uol.com.br

Conversa de botequim e de saudade

Confesso que nunca fui boêmio, propriamente.

Minhas incursões nas noites deveram-se aos arroubos da idade e, em muitas vezes, para acompanhar amigos que gostavam da noite e participar de suas conversas agradáveis, intermináveis, inesquecíveis.

Contudo, também confesso, muitas vezes apreciei a chegada da alvorada e “peguei o sol com a mão”, como dizia Luiz Gonzaga em seu Forró no escuro, ainda no tempo do candeeiro.

Quando não se sabia o que era brega – ou pelo menos – a gente não se preocupava com essas baboseiras, frequentemente amigos passavam a noite, ouvindo Quem mandou você errar e A vida é mesmo assim, com Claudia Barroso; Devolvi, Lama e Fracasso, de Núbia Lafayette; Doce amargura e Suave é a noite com Moacyr Franco; Tortura de amor, de Waldik Soriano e outras músicas da época que marcaram minha geração.

Nesse tempo surgiram as amizades – bons amigos, graças a Deus – e muitas dessas amizades perduram até hoje.

Todavia, muitos desses amigos já se foram, uns ainda jovens, outros já no entardecer da vida foram surpreendidos pela morte, essa inevitável visitante.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um dos meus defeitos: sou relapso e desatencioso com os amigos, embora eles me entendam, exatamente por serem amigos.

Na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por uma avenida enorme, seca, barulhenta, entre passantes indiferentes.

Eu às voltas com a exiguidade do tempo e compromissos de agenda e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo, talvez pela aspereza da cidade grande.

Fiz-lhe algumas perguntas como é praxe nesses encontros casuais.

Humilde e reticente disse, sem completar o raciocínio: “Rapaz, me perdi, tem uma rua ali, aquela onde moro, você sabe, diabo, pareço velho…”. E apontava para um lado e para outro, braços levantados, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada.

Fiquei preocupado. Minha emoção desabou.

O relógio me atrapalhando, confrontando-me com a necessidade de ser-lhe útil, solidário, a lembrança do passado e de nossa amizade a me cutucar.

Deixei-o nas imediações de sua casa e despedi-me mais frágil que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da certeza e das armadilhas da velhice.

Chorar nesses momentos é muito fácil.

Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram naquele momento.

Depois, angustiado, fui relembrando nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate papo desinteressado, as músicas que ouvíamos em tempo de serestas.

Meu amigo está fragilizado, diminuído, carente diante da vida.

Confessou-me lhe terem escapado as esperanças.

Observei seu olhar vazio, semblante maltratado pelo tempo e pelo sofrimento.

Mas ele já sorriu muito. Sou testemunha. E o sorriso também deixa cicatrizes boas, inolvidáveis cicatrizes.

araujo-costa@uol.com.br      

Fragmentos dispersos de Chorrochó: Estefânia Rios e Vivaldo Cardoso de Menezes

Escrevinhador abestalhado, mas nunca presunçoso, de quando em vez costumo bisbilhotar os emaranhados difíceis da história.

Limito-me mais – e quase sempre –  às coisas e circunstâncias do sertão, porque lá estão minhas raízes, minhas saudades, a formação de meu viver e, sobretudo, minha gratidão à terra e aos amigos.   

Isto não deixa de ser um  costume e errância de jornalista, que xereta a vida alheia para contar aos outros à sua maneira, sem a pretensão de arranhar a história ou os fatos.

Vivaldo e Estefânia/Arquivo da família

Hoje cuido do músico, político e servidor público Vivaldo Cardoso de Menezes, chorrochoense de boa cepa, filho de Anna Mattos de Menezes (Quininha) e João da Matta Cardoso Varjão (João Mattos).

Vivaldo se casou com Estefânia Mascarenhas Rios Menezes com raízes fincadas em Riachão do Jacuípe, salvo engano. Com ela teve onze filhos: Maria da Paz Rios Menezes, Ana Judite Rios Menezes Santos, Margarida Maria Rios Menezes, Neuza Maria Rios Menezes de Menezes, Tereza Maria Rios Menezes, Lúcia Maria Menezes Silva, Marta Maria Rios Menezes, Vivaldo Cardoso de Menezes Filho, Maria do Carmo Rios Menezes, Márcia Maria Rios Menezes e Maria Madalena Rios Menezes.

Nesta quadra da vida, a família de Estefânia e Vivaldo diminuiu um pouco no que tange aos filhos. A passagem do tempo ajustou-se à vontade de Deus, mas a descendência ainda é numerosa.  

Refiro-me aos nomes, citando-os tais como os conheci há décadas. Entretanto, a memória esburacada pode colocar-me em esparrela e me empurrar em direção a armadilhas monumentais.

Entretanto, o cerne é tão somente o mesmo: a memória de Estefânia e Vivaldo e de sua descendência, tendo em vista que eles enriqueceram as tradições e a história de Chorrochó.

Essa descendência formou, em Chorrochó, uma juventude bonita, educada, essencialmente voltada à boa convivência que, aliás, num certo tempo coincidiu com o período da administração do prefeito José Calazans Bezerra (Josiel),cunhado de Vivaldo.

Portanto, é de todo recomendável uma observação relativamente aos nomes, que podem ter sofrido eventuais alterações, em razão de casamento, por exemplo.

De qualquer modo, Vivaldo Cardoso de Menezes se destacou em Chorrochó, na condição de político e vereador. Foi presidente da Câmara Municipal à época em que Dorotheu Pacheco de Menezes exerceu o mandado de prefeito do município em seu primeiro mandato (1959-1963).

Vivaldo era irmão de Francisco Arnóbio de Menezes, Ademar Cardoso de Menezes, Maria Menezes Mattos Bezerra e Emanuel Cardoso de Menezes, que constituíam um esteio respeitável das estruturas familiares de Chorrochó.

Maria Mattos, elegante e decente senhora da sociedade chorrochoense, casou-se com José Calazans Bezerra (Josiel), filho de Quijingue, à época município de Tucano. Terceiro prefeito de Chorrochó (1963-1966), respeitoso e decente, Josiel construiu um ambiente saudável social e politicamente no município.

O retrovisor da história de Chorrochó ainda atesta sólidos vínculos de Estefânia e Vivaldo com o município.

araujo-costa@uol.com.br

Observação: A foto de Estefânia e Vivaldo que encima esse artigo é do perfil da filha Ana Judite Rios Menezes no facebook.

Política de Chorrochó: Dorotheu Pacheco de Menezes e seu tempo

“Ser homem público é ser curioso com a vida, catucar a história e conspirar para mudar o tempo” (Armando Falcão, político cearense, ministro da Justiça dos presidentes Juscelino Kubitscheck e Ernesto Geisel, 1919-2010).

Aqui me tenho, novamente, a falar de fatos, impressões e ideias sobre Chorrochó.

Em setembro comemora-se o aniversário de emancipação político-administrativa do município.

Trata-se de um septuagenário trôpego e corroído pelo descaso de seus governantes.

Impressiona negativamente as imagens dos equipamentos públicos e das estradas, dentre outras. É gritante a não preservação da história do município. A mesmice política campeia, abunda, ultrapassa a razoabilidade da dinâmica democrática.

Dorotheu Pacheco de Menezes/Arquivo Maria do Socorro Menezes Ribeiro

Em 12/09/1954, deu-se a instalação dos serviços públicos municipais e Eloy Pacheco de Menezes, uma das vozes do movimento de emancipação, foi investido nas funções de gestor provisório. Em outubro realizaram-se eleições.

Estávamos no governo de Luís Régis Pacheco Pereira, que tinha como um de seus secretários de Estado um jovem de 24 anos: Francisco Waldir Pires de Souza. Ambos foram fundadores do Partido Social Democrático (PSD) da Bahia.

A primeira composição da Câmara Municipal de Chorrochó ficou assim constituída, salvo engano, erros e omissões: Maria Joselita de Menezes, Ercilina Soares de Almeida, Walter Augusto Jones, Onofre José Possidônio, Eliseu Bispo Damasceno, Emiliano Soares Fonseca, Antonio Pires de Menezes e José Campos de Menezes.  

Meu plantão de lembranças remete-me ao maior responsável por esta conquista: Dorotheu Pacheco de Menezes, que sustentou a ideia do pai Francisco Pacheco de Menezes e a levou adiante.

Grande líder do seu tempo, incansável batalhador, Dorotheu não se prendeu somente à luta pela emancipação. Dedicou-se, diuturnamente, ao seu povo e à causa de Chorrochó, antes e depois da emancipação.

Dorotheu costumava dizer: “Chorrochó não é meu, é do povo”. Quem hoje, com o poder na mão, tem a humildade de dizer isto?

Dorotheu Pacheco de Menezes foi prefeito de Chorrochó em duas ocasiões (1959-1963/1966-1971).

Difícil para este escrevinhador falar sobre a vida de Dorotheu, porque sempre fui seu admirador, o que não respinga em generosidade ao retratar sua atuação política.

Quiçá seja mais fácil fazê-lo somente relativamente ao líder político de qualidades inumeráveis: humilde, honesto, dedicado, vigilante, convicto de suas posições e contemporizador, dentre muitas. E, sobretudo, essencialmente defensor de sua gente. 

Transigente e altivo, Dorotheu enquanto podia, nunca deixou Chorrochó cair no abismo. Era capaz de direcionar os caminhos, antever o que o povo queria e, mais do que isto, entendia de povo.

Para o político e administrador público o fundamental é entender de povo e não de si próprio. Dorotheu fazia isto com maestria.

Hoje vejo Chorrochó equilibrando-se, politicamente, para não frequentar o noticiário como um município mal administrado, envolto em deslizes, injustificadamente paupérrimo e, mais do que isto, negligente quanto ao seu futuro.

Faltou altruísmo aos seus administradores mais recentes, falta vontade política de colocá-lo nos trilhos do desenvolvimento, vontade essa sustentada nos recursos disponíveis que, convenhamos, em Chorrochó não são poucos.

Há uma frase do presidente Juscelino Kubitscheck, essencial e exemplar: “O bom administrador não deve buscar recursos nos cofres públicos, mas em sua própria cabeça”.

É a definição de prioridades, a adequação do dinheiro público às necessidades mais prementes da população, a vigilância diuturna no que tange aos gritos sociais e dos desamparados.

Pergunto, então: é este o município de Chorrochó que Dorotheu Pacheco de Menezes, Eloy Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra, Antonio Pires de Menezes, Pascoal de Almeida Lima e tantos outros queriam para seus munícipes?

Não, evidentemente.

Também não é este o Chorrochó que seu povo deseja, presumo. E muito menos, o alicerce que os jovens de hoje querem para a construção do seu futuro.

A crítica não é restrita à administração atual, que bem ou mal está aí por vontade das urnas, mas soma-se a todas as outras que a antecederam, mesmo que sustentadas pelos mesmos líderes.

Há algum tempo um chorrochoense me mandou e-mail chamando-me de saudosista.

Democraticamente, aceitei seu ponto de vista, porque quem escreve tem de aceitar as críticas, penitenciar-se diante delas. Ele estava certo, está certo, mas laborou num equívoco: falar de história e de nossos antepassados não significa tão somente saudosismo, mas tentativa de sedimentar valores.

Tenho saudade das coisas boas, dos sonhos, da esperança.

Aliás, isto até me honra, porque significa o reconhecimento de que não abdiquei de minhas raízes caatingueiras. Todavia, prefiro ser saudosista a aceitar Chorrochó definhando pacientemente.  

Minha geração fracassou. Mais do que isto, acomodou-se. Confesso que vejo a forma de fazer política hoje diferente daqueloutra que sonhava na juventude.

Considerando tudo que a União Federal e Estado asseguram aos municípios nos dias de hoje, não me omito em dizer que Chorrochó está aquém da posição que merece.

Pelo andar da carruagem, nas eleições de outubro de 2024 ter-se-á, a rigor, candidato único na disputa pela chefia do Executivo Municipal. Longe de representar unanimidade política, isto beira à subserviência aos atuais líderes ou, por outra, o retrato da falta de novas lideranças, o que é ruim para um município de 70 anos.  

Entretanto, isto significa também – e principalmente – a capacidade de cerzidura estratégica do prefeito Humberto Gomes Ramos e a fragilidade da pálida Oposição no município.

Trata-se de um desabafo de quem deseja um município melhor para as novas gerações. Minha geração não logrou êxito. Fracassou. Mais do que isto: frustrou-se.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, Arnóbio comandava a decência e a civilidade

Francisco Arnóbio de Menezes/Foto do perfil de sua filha Rosângela Maria de Menezes (facebook)

Francisco Arnóbio de Menezes, filho de Bernardina de Menezes Mattos e João da Matta Cardoso Varjão (João Mattos), comandava, em Chorrochó, uma espécie de escola da amizade e da decência.

Socialmente querido e respeitado, Arnóbio compatibilizava, com eficiência, o exercício da respeitável profissão, o cuidado e zelo com a família, a boemia e também as amizades, que eram muitas, incontáveis.

Músico e admirador de Vicente Celestino, Arnóbio participava ativamente da vida social de Chorrochó. Muito inteligente e espirituoso, tinha uma capacidade impressionante de conviver em sociedade.   

Dono de uma apreensão fulminante, carregava com facilidade a capacidade de ouvir e entender todos, com absoluta compreensão e respeito, de modo que transitava soberanamente em meio às correntes políticas e sociais de Chorrochó. Uma de suas grandes qualidades era a humildade.

Sempre elegante, cabelos cuidadosamente penteados, postura de decência e respeitabilidade.

Arnóbio se casou com Maria Menezes (Pina), filha de D. Maria Argentina de Menezes e do conspícuo Eloy Pacheco de Menezes, ícone da honradez, da história e da luta política de Chorrochó.

Arnóbio constituiu família exemplar e numerosa. Atrevo-me a citar os nomes dos seus dez filhos: Geraldo José de Menezes, Antonio Wilson de Menezes, Tarcísio Roberto de Menezes, Rita Maria de Menezes Maia, Francisco Arnóbio de Menezes Filho, Luiz Alberto de Menezes, João Eloy de Menezes, Paulo Ernani de Menezes, Cícero Leonardo de Menezes e Rosângela Maria de Menezes.

Entretanto, devo pedir vênia por eventuais omissões e incorreções, o que, de certa forma, faz parte da memória esburacada, em razão da passagem do tempo. Não se pode esperar coisa melhor de um septuagenário fragilizado pelo tempo e metido a arquivar lembranças, inobstante a idade.

Com família bem estruturada e sustentada no respeito e na educação, Arnóbio deixou um legado de caráter irrepreensível e exemplo de profissional voltado à decência e ao mais sólido esteio familiar.

Já escrevi alhures e noutras ocasiões sobre Arnóbio. Em todas elas, as lembranças cutucam, estremecem as estruturas das emoções, mas me dão a certeza de que valeu a pena tê-lo conhecido.   

Neste particular, carrego a honra de ter convivido com Arnóbio por algum tempo. Guardo dele boas lembranças que me acompanham ao longo do meu caminho de luta e tropeços.

Este é um registro de saudade que me faz bem e me dá a medida certa do significado de conviver com pessoas boas, corretas, irrepreensíveis.

araujo-costa@uol.com.br          

Crítica: fatos, jornalismo e contorcionismo ideológico.

Há uma regra básica no jornalismo, segundo a qual, quando se reporta a um fato, não se deve interferir nele.

Outra regra, essa mais flexível, diz que uma foto pode confirmar ou desmentir o repórter.

No vespertino Estúdio i e nos noturnos Em Pauta e Jornal das 10, a GloboNews vem quebrando sistematicamente essas regras.

Por óbvio, uma coisa é comentar um fato. Outra é distorcê-lo de tal forma a ajustá-lo à vontade e ao pensamento da emissora que emprega apresentadores e comentaristas. São situações completamente diferentes.

Quem pretende inteirar-se sobre fatos do Brasil real, ao assistir esses noticiários citados, deve-se prevenir com remédio contra enjoo, aguçar a capacidade de discernimento e filtrar os contornos de ficção que esses programas tentam transformar os fatos e, ao seu modo, enfiá-los goela abaixo do telespectador.

É constrangedor ver apresentadores e comentaristas engasgando-se com as palavras, fazendo contorcionismo ideológico e verbal para mostrar os fatos consoante o pensamento do Grupo Globo e não fielmente de acordo com o ocorrido no mundo real.

O teleprompter (teleponto) é como papel, aceita tudo. Os editores daqueles noticiários inserem neles notícias tendenciosas que os apresentadores pateticamente leem e os comentaristas pateticamente comentam.

Isto mutila o bom jornalismo, apequena a credibilidade do órgão de imprensa, arranha o exercício profissional e, sobretudo, desmerece e afronta a inteligência de quem assiste.

É ilógico admitir que o Brasil não tenha uma notícia boa, sequer um fato positivo, econômico, social ou político, que a GloboNews vislumbre e seja capaz de afastá-la da pequenez político-partidária do período eleitoral.

É triste ver reconhecidos jornalistas, antes respeitáveis, abdicando da seriedade profissional certamente para agarrar-se ao emprego. Desnudam-se da robustez da verdade em nome de um objetivo menor, o interesse econômico da emissora.

Os leitores deste Blog, que são inteligentes, não são ingênuos a ponto de acreditar que nalgum tempo o jornalismo foi diferente. Não foi, nunca foi. Mas daí a descambar para a panfletagem política é demais.   

O Brasil não é o governo, nem se resume a governo algum. Tampouco será este ou aquele governo. Não é o presidente Bolsonaro, não é o ex-presidente Lula da Silva, não será outro.

O presidente Bolsonaro não é bicho de sete cabeças e está atravessando a fase final desse período de quatro anos de turbulento governo. O Brasil não acabou.

O ex-presidente Lula da Silva não é bicho de sete cabeças e foi presidente da República por dois mandatos. O Brasil não acabou.

O Brasil é a nação em si e os princípios democráticos que o norteiam. É o Estado federado que é maior do que qualquer órgão de imprensa tendencioso e adstrito a interesses econômicos.

Esse tipo de jornalismo capenga não é privilégio do Grupo Globo. Outros grandes órgãos de imprensa também o praticam acintosamente, sem nenhum pudor e sem respeito à inteligência de quem lê e assiste.

Mas a GloboNews conseguiu atingir o ridículo.

O Brasil já teve melhor jornalismo. Felizmente.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, tempo de contar: Maria Ita de Menezes

Maria Ita de Menezes/Foto de seu perfil no facebook

“Há tempo de amar e tempo de amar o que se amou.” (Marques Rebelo, escritor e jornalista fluminense, 1907-1973).

Começo pela descendência: Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James George Cordeiro de Menezes.

A descendência é a continuidade da vida, o bálsamo para perfumar o caminho, às vezes árduo, às vezes espinhoso e a doçura que facilita o enfrentamento dos tropeços ao longo do caminhar.

Assim é o escrever da vida. Assim são as surpresas e assim é o imponderável da construção familiar.

Essa descendência de Maria Ita de Menezes e de José Jazon de Menezes está aí para contar a história mais à frente, anos adiante, porque nos dias de hoje contamos nós, os mais antigos, os que chegamos primeiro no tecer da vida. E certamente contarão competentemente, eficientemente.

Incluo a descendência neste andar, porque são os filhos que, em princípio, sustentarão a robustez das raízes de Ita e Jazon. São raízes fortes, seguras, firmes. Os alicerces foram bem estruturados, a construção moral segura e perene.

Meu primeiro contato com Maria Ita de Menezes deu-se em consequência de minha matrícula no então Colégio Normal São José, de Chorrochó.

Estávamos lá nos idos de 1971. Ela era professora de Geografia. Cabe um salvo engano aqui, por conta de um detalhe: em razão da ausência de estrutura do colégio, alguns professores ministravam mais de uma disciplina, o que de certa forma aproximava alunos e professores.

Contraditoriamente, a precariedade das condições de ensino à época e, neste caso, foi saudável para agigantar a qualidade dos mestres que tivemos no Colégio São José. Maria Ita de Menezes incluiu-se dignamente na história da educação de Chorrochó.

A instituição familiar representada pelos Menezes de Chorrochó é, até hoje, uma universidade de bons exemplos e de contribuição para o engrandecimento do lugar.

Convivi com essa família, numa quadra do tempo. Daí e dessa convivência, guardaram-se a amizade e algumas lembranças que me alegram até hoje, nos momentos de solidão. São muitos e frequentes esses momentos, porque a passagem do tempo nos fragiliza e a saudade faz constantes e inesperadas visitas.

Maria Ita de Menezes vem de uma família exemplar de Chorrochó. Exemplar, em razão do caráter e em razão da história de vida que ostenta, na sociedade local: o pai, Antonio Pacheco de Menezes; a mãe, Maria Argentina de Menezes; e os irmãos Maria de Lourdes Menezes Araujo, Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Joselita de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Antonio Pacheco de Menezes Filho, Maria Agripina de Menezes, José Osório de Menezes e Maria Eugênica de Menezes.

Penitencio-me se, por conta de minha esburacada memória, omiti ou grafei alguns nomes com incorreção, tanto dos filhos quanto dos pais e irmãos de Maria Ita de Menezes.

Contudo, o que importa aqui, neste tempo de contar, é o registro que faço sobre a importância que Maria Ita de Menezes representa na vida de grande parte da sociedade local, enquanto professora e, até em certos momentos, orientadora paciente e atenciosa.

Ao caminhar, o cronista quase sempre se perde e se acha. No seguir da vida e na passagem do tempo aparecem-lhe as lembranças, a saudade, as marcas dos tropeços, a reverência às amizades que lhe são caras.  Surge “o tempo de amar o que se amou”. É difícil não continuar amando Chorrochó daquele tempo e de hoje.

Quando jovem precisamos de orientação, de conselhos, de amparo. A opinião dos mais experientes nos dá o prumo, o rumo, o norte. Eu precisei muito disto.

Em 31/01/2013 escrevi uma crônica sobre José Jazon de Menezes sob o título A lâmina do tempo. Lá eu dizia que Jazon constituiu família nobre em Chorrochó o que, de resto, todos sabem.

Hoje acrescento tão-somente que esta nobreza familiar tem um significado inegável para a história local: a robusta participação de Maria Ita de Menezes, educadora e ícone da sociedade chorrochoense.

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Este texto foi publicado pela primeira vez em 26/07/2018.

Em 2025, na festa de Senhor do Bonfim de Chorrochó, D. Ita está sendo homenageada, por iniciativa do setor de Cultura do Município.

Em Patamuté, um retrato da humildade

As grandes e nobres amizades são desprovidas de interesse. Qualquer interesse.

O verdadeiro caminho que nos leva aos muitos sentidos da vida não passa pela indiferença, tampouco pela arrogância. Desvia-se das incompreensões.

“A gente pode ter orgulho de ser humilde”, dizia D. Hélder Câmara. Talvez a forma mais nobre de descer do pedestal e entender o outro que está no chão seja a humildade.

Aníbal Ferreira Barros viveu em Patamuté e lá se transformou numa espécie de símbolo da humildade e da decência.

Aníbal se dedicava ao seu trabalho humilde e à sua decência. Presumo que falta em seu túmulo um epitáfio que reconheça a essencialidade de sua contribuição a Patamuté.

Este é um pequeno registro e exemplo de como a riqueza não pode ser razão e fundamento de tudo, como pensam alguns. Os humildes também são importantes, necessários uns, indispensáveis outros, essenciais outros tantos.

Aníbal prezava todos, era amigo de todos e incapaz de pronunciar uma palavra de desagrado. Gostava dos adultos, gostava dos jovens, gostava das crianças, gostava de Patamuté.

E de vez em quando Aníbal tomava umas canjebrinas para desanuviar as dificuldades, que eram muitas, incontornáveis.

Aníbal tinha duas pessoas em Patamuté em alta consideração. Incontáveis vezes ia chorar diante delas: Raquel do Carmo Paixão e seu esposo Antonio Ferreira Dantas Paixão. Aníbal os obedecia. Em sinal de respeito, pedia-lhes a bênção.

Aníbal chorava para aliviar seu sofrimento. O choro era o bálsamo para amenizar as dores da humildade, o sândalo que perfumava seu viver difícil.

Tenho saudade dele.  

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