Sonhos da juventude e a arte de não apressar o rio

Thássia Anneyse/Álbum pessoal

“Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens, terapeuta e escritora americana, 1902-1985)

Em idade septuagenária, não me sobra mais tempo de olhar somente para trás, relembrar os tropeços e ajoelhar-me diante das intempéries que me fragilizaram no decorrer da vida até aqui.

Resta-me, creio, agradecer a vida e o que Deus me deu como acréscimo ao longo de minha caminhada, nem sempre em jardins floridos, porque a existência também nos dá espinhos e nem sempre em tempo de folhas caídas.

Na aurora da vida, a mocidade permite os sonhos, abre o caminho à utopia, dá-nos o preparo para enfrentar o entardecer quando ele chegar e emoldura o caráter para ajustá-lo à convivência quase sempre em contato com a maldade e a incompreensão que a sociedade nos oferece todos os dias.

O segredo talvez seja não apressar o rio, deixá-lo correr no vagar dos dias, sem abdicar dos sonhos e das perspectivas de crescer como pessoa e profissional. Isto pressupõe ser humilde e útil a quem precisa de nós.

A juventude permite os sonhos, mas também dá a ferramenta para a construção do caráter.

Neste 10 de julho do inverno de 2022, desejo felicidade plena a Thássia Anneyse, um dos meus tesouros que Deus me deu (há mais dois: Thábata e Thamara).

Com elas a vida me permite participar de nossas agruras comuns, mas com a certeza de um amanhã mais límpido, com horizontes mais alcançáveis e coragem para enfrentar a escuridão quando ela se faz presente.

Thássia, que Deus lhe sedimente seus sonhos, dê-lhe coragem para enfrentar os tropeços da vida e a compreensão de que nunca devemos apressar o rio.

Parabéns. Feliz aniversário.   

araujo-costa@uol.com.br

Macururé e “os Cadernos de Raimundo Reis”

Raimundo Reis/Foto da contracapa do livro Malhada do Sal, de sua autoria, Editora União, Salvador, 1986

O jornalista e escritor Raimundo Reis manteve aos domingos, durante 12 anos, no Jornal da Bahia, uma página inteira sob o título Os Cadernos de Raimundo Reis. Na semana, assinava uma crônica no mesmo jornal.

Jornal da Bahia foi fundado em 1958 por João Falcão, à época militante comunista e filho de rica família de Feira de Santana.

O Jornal da Bahia abrigou, em suas páginas, dentre outros, além do irreverente e espirituoso Raimundo Reis: Glauber Rocha, que ainda não era cineasta, mas repórter; João Ubaldo Ribeiro, anos depois escritor e membro da Academia Brasileira de Letras e João Carlos Teixeira Gomes, mais tarde também escritor e membro da Academia de Letras da Bahia.

O jornal foi implacavelmente perseguido por Antônio Carlos Magalhães, então todo poderoso governador dos militares oriundos da safra de 1964.

Em 1983 o Jornal da Bahia passou a ser dirigido pelo ex-prefeito de Salvador Mário Kértesz.

Mário Kertész anos mais tarde passou a ser o manda chuva das rádios Metrópole e Itaparica FM, nascidas da estrutura do Jornal da Bahia.

Raimundo Reis era neto do lendário e polêmico Petronilo de Alcântara Reis (coronel Petro), chefe político e poderoso dono de extensas propriedades rurais no sertão, dentre elas as fazendas Perdidos, Tronqueira, Cachoeirinha, Formosa e Paus Pretos, esta última uma espécie de referência de seu poder e glória até hoje.

Em 27/07/2018, escrevi neste mesmo espaço, artigo com o título Macururé e Raimundo Reis. Ei-lo novamente:

Raimundo Reis de Oliveira (1930-2002), baiano de Santo Antonio da Glória, antiga Curral dos Bois, hoje simplesmente Glória, sertanejo de espírito irreverente, advogado, político, jornalista, cronista, escritor e radialista.

No tempo em que os partidos políticos ainda não eram esse amontoado de excrescência de hoje, foi deputado estadual pelo antigo PSD da Bahia, a maior escola política, filosófica e partidária do período 1946-1964.

Inteligente e espirituoso, apaixonado pelo sertão e por Macururé, que ajudou a tornar município, escreveu muita coisa ao longo de sua existência de intelectual.

Raimundo Reis e João Carlos Tourinho Dantas, colegas na legislatura de 1959-1963, foram os responsáveis pela aprovação da lei que, em 1962, elevou Macururé à categoria de município, emancipando-o de Glória.

O biógrafo de Raimundo Reis, se um dia existir, terá que estudar muito sobre Macururé. Certamente sua tarefa será facilitada se priorizar, com afinco, o papel que o Partido Social Democrático (PSD) teve no sertão baiano.

Dentre os muitos textos que escreveu sobre Macururé, no final da década de 1950 Raimundo Reis fez uma crônica bem-humorada, depois publicada em seu livro Geografia do Amor, da qual extraio a seguinte parte:

“Era observador do município de Macururé junto à Conferência Internacional da OEA. Em lá chegando, logo no primeiro dia, criou-se com minha presença um caso que quase toma ares de conflito. Ao apresentar meus documentos, o presidente da Comissão de Credenciais levantou a dúvida, afirmando sem base geográfica:

 – Macururé não existe.

Observei, modesto, o seu engano, esclarecendo que lá era o berço natal de Corisco* e Pente Fino, famosos cabras de Lampião. Que o maior tocador de sanfona do Nordeste morava naquela cidade.

Ele, por acaso, não tinha ouvido falar em Divina, a morena mais bonita de todo o sertão, que já tinha virado mais de dez caminhões, pois motoristas apaixonados tinham imprimido velocidade demais aos veículos para chegarem mais cedo aos seus braços de amada?

O presidente era um desinformado. Não sabia nada. Como a maioria dos diplomatas, pertencia a outro mundo.

Quem salvou a situação foi o chanceler Luís Viana Filho que, no momento, entrava no recinto. Deu a sentença final:

 – Macururé existe, sim. Tive lá 50 votos para deputado federal nas últimas eleições, que me foram dados por uns parentes da minha correligionária Ana Oliveira”.

Raimundo Reis escreveu alguns livros, dentre esses Zé do Brejo, lançado por uma editora que tinha o sugestivo nome de Várzea da Ema. Tirei de lá e transcrevo o texto abaixo:

“Antes de mais nada, continuar a viver. Sem levar a sério as coisas e a nós mesmos. Não cultivar ou alimentar ódios. Fazer do amor uma oração de todas as horas.

Desprezar os maus e conviver com os bons. Respeitar a eloquência da mediocridade e exaltar o silêncio dos sábios. Achar graça da empáfia dos poderosos, esperando o dia de confortá-los nos instantes da queda próxima. Buscar a beleza em todas as suas manifestações.

Trabalhar sem fanatismo. Usar o dinheiro antes que ele nos use. Ajudar aos outros sem esperar gratidão. Ter em casa um cachorro, uma biblioteca e, pelo menos, duas garrafas de uísque.

Depender o mínimo dos outros. Saber uma oração ou uma música. Ser simples. Para ser feliz, basta um pouco de filosofia, não a dos livros, mas a que descobrimos num por de sol ou num adeus sem volta”.

E terminou o texto, assim: “Descobri que não sou. E não sendo, o resto tem pouco ou nenhuma valia”.

Raimundo Reis era encantador. Um dia me chamou de “ínclito filho de Patamuté”. Senti-me lisonjeado. Sou até hoje.

Faleceu em dia de festa, 24 de dezembro de 2002.

Raimundo foi festivo até na morte.

Noutros tempos, frequentei muito Macururé e tomava cachaça Aquino no bar de Silvino ouvindo músicas de Nelson Gonçalves. Lembro muito os lugares por onde andei.

A memória, embora esburacada pela passagem dos anos, trouxe-me hoje Macururé e essa crônica de Raimundo Reis neste mês de julho, mês de emancipação daquele simpático município do sertão.

Coisas da saudade.

* Salvo engano, a história registra que o cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco) nasceu em Água Branca, Alagoas, em 1907. Raimundo Reis, profundo conhecedor do cangaço, sabia disto, mas enfeitou a crônica para torná-la mais interessante.

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Sinal da velhice

“O essencial não tem nome nem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um”. (Lya Lufty, 1938-2021, Perdas & Ganhos)

O jornalista Joel Silveira (1918-2007), considerado a víbora da reportagem no Brasil, contava que tinha um primo em Sergipe, lá para as bandas de Lagarto, já beirando os oitenta anos, que lhe disse o seguinte: “a gente sente que está envelhecendo quanto começa a gostar mais de carne de sol do que de mulher”.

Comentei isto com um amigo em São Paulo. Ele teve uma crise de riso e tosse, ficou vermelho de tanto rir e não parava mais de tossir.

Já preocupado, preparava-me para chamar socorro médico, quando ele se recompôs e explicou.

Certa vez, a esposa viajou para a Europa e, numa sexta-feira, ele recebeu dois convites simultâneos: de um amigo de longa data, para jantarem num restaurante nordestino, onde não faltaria a carne de sol, que ele tanto gosta; e outro convite, de uma amiga, também de longa data, para saírem à noite, despretensiosamente, colocar o papo em dia, lembrar a mocidade, tempos idos e vividos e coisa e tal.

Não teve dúvida. Sem titubear, dispensou a amiga e preferiu sair com o amigo. Arrematou, um tanto sério: “naqueles dias eu já estava ficando velho e não me dava conta”.

O escritor e jornalista  Raimundo Reis, baiano de Santo Antonio da Glória e neto do lendário e insigne Petronilo de Alcântara Reis (coronel Petro), tinha outra teoria mais lógica: “quando falamos muito do passado, é sinal que estamos ficando velho”.

Prefiro a teoria de Raimundo Reis, embora a do sergipano seja inédita, cômica, diferente.

Contudo, a verdade é que a teoria do sergipano não deixa de ser curiosa.

Vai longe no tempo. Havia um bucólico restaurante na Rua Maria Antonia, nas proximidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que servia comidas típicas do Nordeste.

Um dia passei vexame lá. Para toda mesa que olhava via senhores circunspectos, cabelos grisalhos, geralmente desacompanhados, comendo carne de sol.

Lembrei da teoria do  sergipano e, a partir daí, não consegui mais ficar sério naquele ambiente. Passei a ser notado, não propriamente em razão de minha presença em si, mas em razão de meu jeito inconveniente.

Assim é. Algumas baboseiras que a gente ouve às vezes se firmam mais na memória do que as coisas importantes. Mas o bom da vida também é não levar tudo muito a sério.

Ou, como dizia Lya Lufty: “O essencial não tem nome nem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um”.

Tem sentido.

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São Paulo se despede de D. Claudio Hummes

São Paulo se despede do Cardeal Claudio Hummes (1934-2022), seu arcebispo emérito.

Gaúcho de Salvador do Sul e Franciscano da Ordem dos Frades Menores, D. Cláudio foi bispo diocesano de Santo André, região do ABC paulista, arcebispo de Fortaleza, arcebispo de São Paulo e também prefeito da Sagrada Congregação para o Clero, em Roma, dentre outras funções que exerceu na Igreja Católica Apostólica Romana.

O sepultamento deu-se na cripta da Catedral da Sé em 06/07/2022.

O crédito da foto é da Arquidiocese de Fortaleza, Ceará.

Dizer nada, dizer demais

Odilon Soares de Toledo. À esquerda, o filho Sandro (álbum de família)

“Muitas vezes não dizer nada é dizer demais” (Joel Silveira, jornalista e escritor sergipano, 1918-2007)

Aniversário de Odilon Soares de Toledo.

Odilon mora em Mauá, São Paulo, região do ABC.

Não importa que eu não diga nada. Ou diga pouco. Talvez já esteja dizendo muito ou o suficiente.   

Odilon é meu amigo. Conheci-o em 1975, há aproximados 47 anos.

Angariamos poucos amigos na vida. Ficam os que nos suportam e absorvem a compreensão de nossos defeitos. E esses são pouquíssimos.

Odilon me amparou nas dificuldades, tenebrosas dificuldades.

Faz anos que não o vejo. Décadas, talvez.

A última vez que nos vimos, os cabelos dele ainda não eram tingidos de branco pelo tempo. Nem os meus.

O tempo sedimentou a amizade, que se fez distante, mas se manteve sincera, forjada em meio aos meus tropeços da idade imatura e fragilizada pelas dificuldades.

Quando a “envelhescência” chega, o retrovisor do tempo nos mostra a realidade, que não tínhamos condições de enxergar.

Deixo abraço de aniversário – e de todos os dias – para Odilon.

E para a família de Odilon. Ter um Odilon na família é um perolado privilégio.

Odilon e a esposa Conceição (álbum de família)

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Curaçá e a Festa dos Vaqueiros

Dois gigantes da cultura nordestina: à esquerda, Gilberto Bahia (Curaçá-BA); à direita, padre João Câncio (Petrolina-PE). Créditos no texto.

Iam-se-me brotando lembranças de minha sanfranciscana e querida Curaçá, quando me deparo com uma enriquecedora matéria da lavra do jornalista e escritor curaçaense Maurízio Bim, com o título questionador Curaçá realmente é a capital dos Vaqueiros?

Maurízio faz um apanhado histórico – coisa que sabe fazer muito bem – da Festa dos Vaqueiros da pernambucana Serrita, comparando-a com alguns pontos de nossa quase septuagenária Festa dos Vaqueiros de Curaçá, criada pelo ínclito Gilberto da Silveira Bahia, à época prefeito do município baiano no período de 1959-1963.

Bem estruturada, não há o que acrescentar à brilhante matéria do jornalista curaçaense, nem tenho propósito e conhecimento para isto e, evidentemente, não é o caso.

O artigo é completo, rico, irretocável e deverá, doravante, fazer parte do acervo da Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá.

Limito-me a borboletear lembranças do padre João Câncio dos Santos (1936-1989), criador e protagonista da Missa dos Vaqueiros de Serrita que, anos mais tarde, foi meu contemporâneo na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, em São Paulo.

A foto dele que faço constar neste artigo é de nosso álbum de formatura em Direito.  

Quanto à foto histórica de Gilberto Bahia, surrupiei-a da página (facebook) do conspícuo vereador e seu neto Rogério Bahia, de Curaçá, que muito admiro.   

Petrolinense de mente brilhante e orador culto, discípulo de D. Avelar Brandão Vilela, que o ordenou padre, João Câncio era admirável. Guardo memoráveis lições de suas conversas embasadas em Filosofia, que aprendeu no Seminário Central da Bahia e em Teologia, que se abeberou no Seminário Regional de João Pessoa, na Paraíba.    

Quando o conheci, padre João Câncio já havia deixado o ministério sacerdotal para casar-se. Se não me falha a memória, a última missa que celebrou foi em Bodocó-PE, em março de 1981. Ele foi pároco de lá.

A Diocese de Petrolina deu-lhe o esteio e a luz para clarear seu caminho de sacerdote.

O padre João Câncio tinha humildade impressionante, mas não abdicava de sua inquietude intelectual, o que não é incompatível.

A vida nos permite alguns encontros, uns insólitos, outros fortuitos e passageiros, outros tantos valiosos, mas todos acrescentam experiência e capacidade de reflexão.

Voltando ao artigo de Maurízio Bim, classifico-o como muito oportuno, tendo em vista hipotética disputa quanto ao título de capital dos Vaqueiros: Curaçá ou Serrita.

O mérito de Curaçá é ter Gilberto Bahia como filho, honra e glória do lugar e idealizador da Festa dos Vaqueiros, ajudado por outros abnegados curaçaenses .

O alargar do círculo dessa cultura cabe a todos nós curaçaenses.

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Curaçá não pode ser uma casa de mal educados

Sandoval Caju (1923-1994), folclórico radialista paraibano de Bonito de Santa Fé, sempre vestido de branco, ao chegar a qualquer lugar, ia logo dizendo:

– Vim de branco para ser claro.

Estou começando este artigo pelo óbvio, para ser claro: nas democracias, os governantes são escolhidos pelos votos da maioria. Quem ganha vai governar. Quem perde vai para outra trincheira, não menos nobre, a oposição.

A população do Brasil ultrapassa 212 milhões de habitantes. Todos sabem.

Inobstante população deste tamanho, o Brasil experimenta um vazio de lideranças políticas em todas as esferas de poder.

Não têm surgido lideranças novas, sérias, capazes e de caráter irrepreensível, de modo que as velhas lideranças estão aí, incólumes, ultrapassadas e capengas, repetindo os mesmos erros de outrora e, pior, com o beneplácito de grande parte dos brasileiros. Talvez, por falta de opção ou mesmo por isto.

É assustadora a expectativa de que a eleição presidencial de 2022 venha a ser decidida entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, que se igualam quanto à ausência de sinceridade política.

Lula é demagogo, narcisista, loroteiro, fanfarrão.

Bolsonaro é grotesco, esquisito, sem filtro, ideias amalucadas.

Um e outro estão na política há pelo menos três décadas. Onde está o novo? Onde estão as novas ideias?

A sociedade não encontrou outros nomes para que se interpusessem entre um e outro e fossem capazes de afastar o entulho fedorento da política, que vem ocupando espaços do território brasileiro, em todos os seus rincões.   

Em Curaçá, no Submédio São Francisco, parece que o bicho chamado democracia não anda passando por lá.

Democracia pressupõe, basicamente, convivência sadia e civilizada com os contrários e livre manifestação do pensamento em sua plenitude.

Nas democracias, as pessoas são livres para externar o que pensam, sem impedimento ou censura de qualquer natureza.

A fronteira para nossas palavras é o direito do outro. Devemos dizer o que pensamos desde que não resvalemos para a ofensa à esfera indevassável das outras pessoas que, como nós, convivem ou pretendem conviver no mesmo espaço supostamente democrático.

Se esse limite for ultrapassado, a democracia oferece meios de reparação de eventuais danos materiais e/ou morais exigida por quem sofreu a ofensa. É uma forma de proteção ao direito de cada um.

A Constituição da República assegura esse direito a todos nós. Ao Poder Judiciário cabe aplicá-lo às situações concretas e, neste particular, o Judiciário tem feito muito bem.  

Embora não conste na agenda do presidente da República, por enquanto, o prefeito de Curaçá já anunciou a visita de Bolsonaro a Curaçá em julho vindouro, por ocasião da Festa dos Vaqueiros.

A manifestação do prefeito autoriza a entender que a visita está confirmada com o Palácio do Planalto.

Foi só o prefeito anunciar a visita do presidente da República ao município para surgirem, nas redes sociais, comentários desairosos e desnecessários contra o presidente da República.    

São comentários que extrapolam a decência do debate político e descambam para as ofensas pessoais, pré-julgamentos e xingamentos.

Assim fizeram com Lula da Silva, nos difíceis dias que ele atravessou inclusive no cárcere, massacre este comandado pela imprensa e pelos adversários do lulopetismo.  

Independentemente de a visita ser de Bolsonaro ou de Lula da Silva, ambos devem ser respeitados, bem recebidos e, mais do que isto, a visita deve ser entendida como um marco político para Curaçá, mesmo que não seja inauguração de obras, assinaturas de intenções, promessas de liberação de verbas, expectativa de investimentos e outros que tais.

O governante, Bolsonaro ou outro qualquer, precisa conhecer a realidade de cada lugar. E isto é feito in loco, em contatos com as lideranças ou através de seus assessores, mesmo que aconteça em ano eleitoral.

Houve tempo em que sequer o governador do Estado visitava municípios do interior. Presidente da República, então, era impensável.

Entretanto, parece que algumas pessoas têm dificuldade de entender o que é democracia e que a civilidade faz parte da convivência com os contrários e não uma hipótese distante de nossa realidade.

Os antagonismos aperfeiçoam as ideias. Os xingamentos as afastam.

Não adianta as pessoas saírem por aí reivindicando e exigindo democracia se não sabem exercê-la.

O anfitrião deve receber bem o visitante, mesmo que dele não goste. Faz parte da etiqueta e das regras sociais.

O inconformismo deve se manifestar nas urnas, secretamente, na cabine indevassável. É aí e nesse momento que se dá o troco.

Se acontecer a visita do presidente Bolsonaro ao município, Curaçá não pode apresentar-se como uma casa de mal educados.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, uma ilustre e centenária aniversariante.

Raiz de afeto, carinhosamente chamada Janoca, ela completa 100 anos de vida.

Matriarca de numerosa família, vive rodeada de gente que não acaba mais, graças a Deus.

Ela soube escrever o roteiro para o palco do seu tempo. Neste roteiro, incluiu bondade, muita bondade.

Hoje, no caminhar outonal da vida, colhe as flores, resultado das árvores de carinho que soube plantar ao longo do tempo.

Deixo minhas felicitações à aniversariante e familiares e agradeço a foto que, a meu pedido, me foi gentilmente enviada por Ednara Batista Alcântara e a atenção de Maria de Lourdes Bezerra Mendes.

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O romance, Lula da Silva e Bolsonaro

Murilo Melo Filho, referência do jornalismo político nacional, membro da Academia Brasileira de Letras e amigo de Jorge Amado, conta a história no livro Tempos Diferentes, Editora Topbooks, 2005:

“O romancista Jorge Amado foi à cidade paraibana de Campina Grande receber a homenagem de um grupo de intelectuais da Paraíba.

Quando todos já se haviam sentado para o jantar, entra no salão a senhora Jurema Batista, uma famosa prostituta daquela região e proprietária do seu melhor rendez-vous.

O locutor e mestre de cerimônias, querendo ser espirituoso e engraçado, dirige-se a ela, travando-se, então, o seguinte e curto diálogo:

– Como é o nome da nobre senhora?

– Jurema Batista, ao seu dispor.

– Qual é a sua profissão?

– Prostituta, com muita honra.

– E como é a sua vida?

– Minha vida, meu senhor, é um rumanço.

Jorge Amado retira do bolso um pequeno pedaço de papel e anota o nome. Naquele exato momento nascia o rumanço: Tereza Batista Cansada de Guerra”, um dos mais lidos de Jorge Amado e traduzido em dezesseis idiomas.

A vida de Lula da Silva é um rumanço.

A vida do presidente Bolsonaro é um rumanço.

Ambos se prostituíram.

Lula da Silva se prostituiu com dinheiro, muito dinheiro: sítio, palestras, apartamentos, instituto Lula, mensalão, petrolão, jatinhos, mansões, et cetera.

Lula talvez seja o único aposentado do INSS que ficou milionário.

Jair Bolsonaro se prostituiu com dinheiro, muito dinheiro, assim dizem: rachadinhas, empregados fantasmas, et cetera.

Lula da Silva é a Tereza Batista de São Bernardo do Campo.

Jair Bolsonaro é a Tereza Batista do paulista Vale do Ribeira.

Entretanto, Lula e Bolsonaro se acham moralmente habilitados para governar o Brasil.

Incautos, inocentes e hipócritas acreditam em ambos e até brigam por eles. Uns porque são ou serão beneficiados em seus governos, outros por ignorância e outros tantos por fanatismo.

Assim, segue nossa idiotice política, ideológica e eleitoral.

Assim caminham, iludidos, os que acreditam em Lula e Bolsonaro.

O Brasil ainda vai desabar sobre a cabeça de todos nós.

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Memórias saudosas de Patamuté: Ambrosina e Mário Matos Lopes     

“Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro” (Jorge Luís Borges, escritor argentino, 1899-1986, A Casa de Asterion)

A história de Patamuté não pode ser contada, por quem dela entende – ou lembrada, por quem gosta de lembrar – sem que, em seu contexto, seja inserida a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, a antiga EBCT, muito útil na vida do lugar.

Não entendo da história de Patamuté, mas gosto de lembrá-la. A juventude de hoje precisa ter conhecimento da contribuição dos antepassados na construção moral do lugar.

Patamuté teve o privilégio de contar com uma agência dos correios e telégrafos durante décadas. Foi extinta nos anos 1990, por força de uma política governamental equivocada do presidente Fernando Collor de Melo.

Depois disto a EBCT esfacelou-se, passou a ser antro e cenário de corrupção, descambou para o desmoronamento e perdeu o título que detinha à época de empresa pública mais eficiente do Brasil. Mas esta é outra história.

A agência teve à frente Maria Matos Lopes, casada com Otávio Lopes Martins. Na condição de agente, ela foi responsável pelos correios de Patamuté durante anos, na primeira metade do século XX.

Mário Matos Lopes, filho de Maria Matos, substituiu-a também na condição de agente, mediante concurso público. É dele que hoje me ocupo nesta pequena e modesta lembrança de Patamuté.

É difícil, em certas circunstâncias, falar de amigos. Difícil, porque pode parecer uma variante de narcisismo ou mesmo um amontoado de palavras frágeis e inconsequentes.

Neste caso não é, não precisa ser. Tenho respeito pela memória de minha terra e dos amigos que me aturaram lá.

Mário Matos Lopes foi meu amigo pessoal. Com ele e sua família tive a honra de conviver durante anos. A esposa Ambrosina, hospitaleira, espirituosa, alegre e sempre atenciosa. E os filhos: Antonio Nilo Ferreira Lopes, Odete Matos e Solange Matos.

Homem de opinião e caráter irrepreensível, Mário Lopes era cuidadoso no exercício da profissão, pontualíssimo relativamente aos compromissos e dedicado aos amigos. Uma referência quando, em Patamuté, falava-se em honestidade, decência e sensatez.

A vida de Mário Lopes confunde-se com exemplo de honradez e seriedade. Também violonista, às vezes boêmio, outras vezes comedido ao extremo, era admirador de José Amâncio Filho, Meu Mano.

Conhecia todas as músicas de Meu Mano e tinha predileção por “Lágrimas de Mãe”, que cantava com esmero admirável.

Os homens de opinião às vezes criam lendas, porque o mistério faz parte da construção dos mitos. Mário Lopes não abdicava de seus valores morais e sociais e, em razão disto, deixou exemplos.

Já morando em São Paulo, fui a Patamuté. Visitei-o, como de costume. Tempo em que era comum sentar-se em cadeiras nas calçadas durante a noite sem receio de ser assaltado ou molestado por intrusos.   

Mário Lopes contou-me que teve um desentendimento com um amigo de boemia. “Em Patamuté não bebo mais. Só coloco um copo na boca depois de ultrapassar  o Paredão”.

Cumpriu a palavra até a morrer.

Paredão, para quem não conhece, é um riacho que existe em Patamuté, como todas as coisas boas que existem por lá.

Mário Lopes fez essa façanha em criar uma linha divisória entre o Paredão e o cumprimento de sua palavra.

Patamuté, como todo lugar, tem seus filhos e sua história de vida, que não pode perecer.

Anos depois, já muito além daquele tempo, deparo-me, nalgum lugar, com uma foto de Ambrosina (acima), esposa dedicada de Mário Lopes e minha amiga, já alquebrada pela idade, mas altiva.

Ela, Julieta Alcântara (esposa de Zé Lulú) e eu sabíamos de tudo em Patamuté. Coisas do tempo, do lugar e da vida.

Saudade. Muita saudade.

araujo-costa@uol.com.br