Ivanildo Araújo Costa (1946-2002) faleceu neste 05 de abril de 2022.
Sertanejo nascido nos barrancos do Riacho da Várzea, domínios territoriais de Patamuté, sertão de Curaçá, mudou-se para São Paulo, ainda jovem, no início da década de 1970.
Mauá e São Bernardo do Campo, ABC paulista: Ivanildo viveu aqui, lutou aqui, sofreu aqui, morreu aqui.
Arriscou-se a viver noutro estado – Mato Grosso – mas não deu certo, como todo sonho mal sonhado.
Já trôpego, alquebrado pelas vicissitudes da vida, regressou a São Paulo há algumas décadas. Caiu e não conseguiu se levantar, como tantos outros que não aguentam os cruéis e inexplicáveis chutes da vida.
Parafraseando Márcia Freire e Noite Ilustrada, em Volta por cima, Ivanildo chorou, não procurou esconder, todos viram. Ali, onde ele chorou, qualquer um chorava.
A despedia, além de insensata, também é estúpida.
Ivanildo morreu.
Suas últimas palavras, abraçado comigo, a caminho do hospital, olhar triste de dor:
“Só estou esperando o esquife”.
Algumas pessoas de minha família e eu acompanhamos sua agonia até o fim.
Mas chegou a hora do esquife, da ida ao túmulo, da solidão dilacerante, da estupidez da morte, do indizível do adeus.
“A infância, como a ciência, é curiosa” (Machado de Assis, Reflexões de um burro, crônica de 09/09/1894)
Conheci-o num hotel, ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha, centro histórico de Salvador.
Ali ficávamos hospedados de quando em vez. Eu fazia treinamento no Instituto de Identificação Pedro Mello e ele, também jovem irrequieto, filho de Santa Maria da Vitória, lá das bandas do Rio Corrente, oeste baiano. Ia regularmente a Salvador.
Estávamos na primeira metade da década de 1970.
Passaram-se décadas.
Agora, quase 50 anos depois, recebo, desvanecido, um contato seu, milagre da santa aproximação produzida pelas redes sociais.
Inobstante a selvageria ínsita nas redes sociais, elas servem também para bons propósitos, desanuviar as angústias e dificuldades da vida e, sobretudo, mostrar que nem tudo está perdido, mesmo que persista o império das incompreensões.
Imaginoso, como na mocidade, o amigo me questionou sobre minha foto do blog https://www.araujocosta.blog que, segundo ele, não deve espelhar a realidade de hoje.
Espelha, sim. Mas nossos escombros físicos são amparados pelo que ainda nos resta de pureza e bondade. E sempre há, mesmo no ocaso outonal da vida.
É que evito aparecer, mais amiúde, por razões óbvias e, principalmente, porque cheguei a uma conclusão cruel e inafastável: ao atingir a idade septuagenária – e mesmo antes dela – fiquei mais feio e, convenhamos, não fica bem sair, por aí, expondo minha feiura a torto e a direito.
Bastam minhas relações profissionais do dia a dia. Meus clientes já me suportam com meus defeitos, chatices, esquisitices, feiura e tudo.
Agradeço a consideração, a amizade que o tempo não corroeu.
Diz acertadamente José Sarney que “o tempo corrói todas as coisas, mas é o tempo que permite a continuidade da vida”.
Bendito tempo que não corroeu essa lembrança de cinco décadas.
A esta altura da vida e de nossos janeiros que se foram, constato que eu e ele continuamos com a curiosidade da infância.
O jurista e filósofo sergipano Tobias Barreto (1839-1889) escreveu que “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”.
Barra do Tarrachil, simpático distrito do município baiano de Chorrochó, sempre prezou por suas tradições e se conduz abraçada ao Rio São Francisco, que lhe dá vida, banho e encantamento sob as bênçãos de outro Francisco, o excelso padroeiro do lugar.
Em 1988 Barra do Tarrachil se deslocou de lugar e de seu traçado de origem, mas manteve as tradições, a hospitalidade, o cenário político, a inteligência e a grandeza de seus moradores.
As palavras escorregam, cutucam a memória e trazem a lembrança de lideranças de Barra do Tarrachil, a exemplo da professora Ivanilde Gomes de Souza Ramos, formada em 1964, assim como de Lucas Alventino, proprietário da primeira loja de tecidos do lugar e Ercília Fonseca de Souza, que se dedicou com afinco à igreja local.
Todavia, hoje desloco a lembrança para outro nome de destaque em Barra do Tarrachil: Orlando Tolentino Ramos (1946-2002).
Este senhor, de ascendência tradicional, constituiu família nobre e a educou nos moldes também tradicionais, com a professora Ivanilde, que lhe deu sustentação e companheirismo durante décadas.
Orlando Tolentino Ramos faleceu em 15/05/2022 e certamente deixou grande vazio aos parentes e amigos, dentre esses Ivanilde, Orlando Tolentino, Rafael Ramos, Waltércio Ramos e Humberto Gomes Ramos, este último prefeito do município de Chorrochó.
Esse vazio, que só a morte explica – ou não consegue explicar – estende-se ao território do distrito de Barra do Tarrachil e ao município de Chorrochó como um todo.
Mantenho, com modéstia, alguns eventuais contatos com Waltércio Ramos, embora espaçados e irregulares. Agradeço pela atenção com que o ilustre tarrachilense sempre me tratou.
A Prefeitura de Chorrochó decretou luto oficial de três dias e ponto facultativo em um deles (Decreto número 015, de 16/05/2022). O fato justifica o ato oficial.
Registro o fato e deixo pêsames à família de Orlando Tolentino Ramos, ao tempo em que peço escusas, em razão de colocar sua foto nesta matéria sem autorização da família..
Post Scriptum:
Registro também o falecimento, em Chorrochó, de Dinorah Monteiro Costa e da estudante do Colégio Estadual São José, Darlane Lopes dos Santos Paiva.
Rosângela Silva e Lula/Foto de Ricardo Stuckert, da equipe de Lula
Lula vai se casar. Ninguém tem nada a ver com isto.
Assunto pessoal, particularíssimo. Não se deve meter o bedelho.
Entretanto, como Lula é político e famoso, inevitáveis algumas observações, sem descambar para a deselegância, tampouco imiscuir-se em sua vida pessoal.
O casamento acontecerá na próxima quarta-feira, 18 de maio, às 19h, no Bisutti, um dos mais sofisticados espaços da elitista Vila Olímpia, capital de São Paulo, se não for falsa a indicação do local.
O local do enlace foi mantido em segredo e debaixo de algumas chaves, até para os convidados, que seriam avisados do endereço somente algumas horas antes, para evitar que pessoas inconvenientes causem eventuais constrangimentos como vaias e apupos aos noivos ou nas imediações do espaço.
O local é para contos de mil e uma noites, quase uma das sete maravilhas do mundo. Palco suspenso, jardim vertical, 1.000 metros quadrados de espaço, lustres de valor inatingível para a média da sociedade e coisa e tal.
Embora o casamento seja “secreto”, sabe-se que há 200 convidados, somente da elite nacional. Jaques Wagner, senador e ex-governador da Bahia e amigo pessoal de Lula estará lá, assim como aqueles artistas amigos de Lula, a exemplo de Chico Buarque, o imortal e conspícuo Gilberto Gil e outros mais.
O casamento é do pré-candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência da República, mas sabe-se que não há trabalhadores na lista de convidados.
Lula da Silva bem que poderia ter incluído alguns desempregados em sua lista de convidados. Ele e o PT defendem tanto essas desafortunadas criaturas!
Lula – ou quem pagou por ele – gastou aproximados R$ 100 mil em bebidas, só coisa fina: espumantes, vinhos e outros et ceteras, todos de inquestionável qualidade, segundo o colunista Leo Dias.
Quanto à comida, melhor deixar para lá. Nesse tempo de dificuldade e fome é até afronta aos brasileiros publicar o que esse pessoal lulopetista, que vive nas nuvens, vai comer na festa de casamento de Lula da Silva e da socióloga Rosângela Silva (Janja).
Se somar o valor dos ternos finíssimos, gravatas e sapatos importados dos convidados de elite e vestidos das madames – Gleisi Hoffmann e Daniela Mercury vão estar lá – que circularão nos sofisticados salões da Vila Olímpia, nem se Lula vender o sítio de Atibaia e juntar com o dinheiro das “palestras” pagas pelo Odebrecht vai ser suficiente para pagar o luxo.
Alguém sabe o valor de um terno, de uma gravata e de um par de sapatos usados pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, por exemplo?
No dia do casamento, Lula vai precisar de um protetor. Vai ser tanto artista e admiradores lulopetisas puxando, que ele corre o risco de ficar sem alguma parte preciosa.
O primeiro casamento de Lula, quando ele ainda não era famoso, foi em 1969, com D. Maria de Lourdes. Lula ficou viúvo e se casou pela segunda vez em 1974, com D. Marisa Letícia, também viúva.
Sempre admirei D. Marisa, exemplo de esposa e companheira, que enfrentou sérias dificuldades e muito lutou, inclusive nas madrugadas frias, em portas de fábricas, para o sucesso de Lula.
D. Marisa conheceu Lula, que ainda era somente Luiz Inácio, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
D. Marisa começou a trabalhar aos 9 anos, vinha de uma família de 15 irmãos. Os pais plantavam batata, milho e criavam galinhas em São Bernardo do Campo.
Este é o terceiro casamento de Lula.
Curiosidade: a primeira bandeira do PT foi costurada por D. Marisa Letícia.
Felicidade para os noivos de hoje. E para o casal, sempre.
Celina fez parte de uma geração bem estruturada e de caráter moldado no respeito às tradições das famílias de Patamuté, a exemplo de sua ascendência: José Henrique de Souza e Eliziária Moreira.
Sempre elegante, educada e atenciosa, Celina compunha, em sua mocidade, uma turma muita querida em Patamuté. Dessa turma faziam parte, dentre outras, Ivone Alves de Souza, Adalzira de Souza Alcântara, Euza de Júlia, Regina Reis, Delza, Maria Mendes (Nazinha), Edelzuíta Prado.
O mês de maio, mês de Maria, festivo e alegre, é uma espécie de preparativo para a trezena de Santo Antonio, que se realiza anualmente de 01 a 13 de junho e se traduz na festa centenária do padroeiro de Patamuté.
Celina era um dos esteios dos festejos do mês de Maria. Assídua participante das orações na Igreja de Patamuté durante todo o mês de maio e continuava com a trezena de Santo Antonio até o final da festa do padroeiro.
Ela se fazia presente em todos os eventos religiosos de Patamuté.
Celina se casou com Demerval de Souza Alcântara (Taxú) e com ele constituiu família exemplar.
Deixou os filhos Márcia, Marcondes e Marcos que sustentam as lembranças e a memória de tão ilustre filha de Patamuté.
No Jornal das 10 da GloboNews de 12/05/2022, a apresentadora do noticiário fez patéticos e constrangedores elogios ao ministro Edson Fachin, em razão de o presidente do Tribunal Superior Eleitoral ter espinafrado as Forças Armadas e o presidente da República.
Tietagem mais apropriada para plateia assistente de shows de artistas e não para ser protagonizada por uma jornalista apresentadora de jornal de âmbito nacional com alcance em diversos países e que se pretende sério no mister de informar.
Tendenciosa, a GloboNews mais parece um comitê eleitoral, ora da direita em 2018, ora da esquerda em 2022.
De fato, foi de corar os brasileiros de vergonha que assistiram ao cenário idiota da apresentadora do Jornal das 10. Deprimente, abominável, constrangedor.
No auge da pandemia da covid-19, se excluísse a palavra “negacionista” do vocabulário, apresentadores e comentaristas da GloboNews ficariam mudos, porque não conheciam ou não conhecem o sinônimo daquela palavra, o que evitariam de repeti-la tão enfadonha e de forma insistentemente ridícula.
Agora, a palavra que eles mais pronunciam pateticamente é “recado”. Recado que o Supremo Tribunal Federal mandou para fulano, recado que o Tribunal Superior Eleitoral mandou para sicrano, recado que o ministro tal mandou para o presidente da República e por aí vai.
O ministro Edson Fachin está certo em defender o tribunal que preside e para isto ele prescinde de torcida de apresentadores e comentaristas da GloboNews.
Quem, institucionalmente, tem o dever de defender o Tribunal Superior Eleitoral é o seu presidente, seja Edson Fachin ou outro qualquer.
Neste particular, o ministro Edson Fachin está correto. Está cumprindo seu papel institucional. Não há reparo a fazer quanto a essa sua condição.
Se ele exagerou é outra história. E isto vem ao caso.
Aqui não se discute se o ministro Edson Fachin é cabo eleitoral de Lula da Silva – o que todos sabemos que é – nem se é militante de esquerda, como sempre foi e nunca negou, o que é um mérito seu não negar.
Edson Fachin não conseguiu separar a toga da militância política. Não cresceu como magistrado, mas agigantou-se como militante político.
Discute-se – isto sim – que não é papel do presidente do Tribunal Superior Eleitoral fazer política para este ou aquele candidato, seja de esquerda ou de direita, tampouco agitar o ambiente político-eleitoral que já está tão carregado.
Os brasileiros não pagam os estratosféricos salários e mordomias do ministro Edson Fachin para Sua Excelência fazer política, mas para exercer a judicatura com dignidade.
Desafiar outras autoridades, outras instituições nacionais e, mais do que isto, atacar e ofendê-las, não se afigura recomendável. É lamentável, mormente tratando-se de um ministro do Poder Judiciário.
Até as eleições de outubro e depois delas virão coisas piores por aí.
Nossas autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário precisam tomar juízo.
“Uma grande tarefa não se realiza com homens pequenos” (John Stuart Mill, filósofo britânico, 1806-1873)
Transcrevo a seguir o artigo da Constituição da República e seu parágrafo 2º, que o ministro Alexandre de Moraes rasgou e os demais ministros do Supremo Tribunal Federal incineraram os pedaços que restaram na fogueira da vaidade e da arrogância:
“A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição” (artigo 220).
“É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (parágrafo 2º, do artigo 220).
Entretanto, nossos subidos e inalcançáveis ministros do Supremo Tribunal Federal dizem que são democratas e que defendem a livre manifestação do pensamento, a liberdade de expressão, o direito de divergir e, mais do que isto, dizem que são contra e vedam a censura.
Há quem acredite em Suas Excelências. É democrático acreditar. É salutar divergir. “São as ideias que devem brigar, não os homens”, dizia o mineiro Tancredo Neves.
Nossas ideias estão encarceradas, espezinhadas, espancadas, humilhadas. Nossa liberdade está sendo vigiada.
Devemos ter muita cautela ao escrever, ao falar, ao cumprimentar qualquer pessoa, quaisquer amigos. Devemos conter até gestos inofensivos e corriqueiros. Eles podem ser usados contra nós próprios por autoridades que se arvoram na condição de eternos vigilantes da sociedade.
O Supremo Tribunal Federal se colocou em posição de espreita e pode sufocar nossa voz, mandar calar a boca, prender, arrebentar qualquer centelha de liberdade.
Nosso egrégio Supremo Tribunal Federal abdicou de seu nobre papel de Corte Constitucional e passou a ser o supremo vigia, o guarda da esquina. Igualou-se às coisas pequenas.
Um juiz de primeira instância desempenha melhor o papel de dizer a Justiça.
Os ministros do STF de hoje são incompatíveis com muitos outros que por lá passaram, respeitáveis juristas e defensores inconteste da liberdade. Há exemplos, apenas alguns: Hermes Lima (BA), Paulo Brossard (RS), Bilac Pinto (MG), Adauto Cardoso (MG), Ayres Britto (SE), Prado Kelly (RS), Victor Nunes Leal (MG), Evandro Lins e Silva (PI).
A composição do Supremo Tribunal Federal de agora não alcança o agigantamento do emedebista gaúcho Paulo Brossard, em defesa das liberdades públicas, tampouco a humildade do petista sergipano Carlos Ayres Britto, em defesa de um Judiciário técnico, justo e adstrito à lei.
Há ditaduras que empunham armas e há ditaduras que empunham canetas, ostentam togas. Todas são perigosas, todas são temerárias, todas são abomináveis, todas são desprezíveis.
O Brasil está precisando de homens de elevada estatura moral para ajudarem na construção da grande tarefa democrática de que precisamos.
E que Deus tenha piedade de todos nós brasileiros, que ainda pensamos que somos livres.
Numa declaração profunda, reflexiva, espécie de estocada em nossas arrogâncias, Marcos Goes disse, não faz muito tempo, do alto de sua humildade: “A vida poderia ter me dado mais do que a dor”.
Um dos mais claros e inequívocos exemplos de superação – para falar a linguagem de hoje – o curaçaense Marcos Goes deixa lições de como conseguir viver, com sabedoria, diante de dificuldades tão assustadoras, inexplicáveis e presumivelmente insuperáveis.
Ele enfrentou percalços, que talvez nenhum de nós tenhamos forças suficientes para enfrentá-los.
Confesso, eu seria incapaz.
As dificuldades que Marcos Goes enfrentou sabemos difíceis, quiçá incontornáveis.
Mas ele as encarou durante décadas, altivo, impressionantemente admirável, um gigante diante do mundo.
Passei a ser seu admirador quando comecei a ter contato com seus textos, suas posições diante do mundo, seu otimismo, seu poder de convencimento e, sobretudo, o ajoelhar-se diante do impossível, mas que ele o transformou em possível.
Meu último contato com Marcos Goes foi um tanto sucinto, mas profundo. Guardo-o como alento para o prosseguir da caminhada.
Como ele sabia interpretar as dificuldades!
O relato que ele fazia de sua infância, de sua juventude e o chegar à fase adulta é impressionante: “a falta de um amigo, lágrimas em profusão”, a solidão, a dificuldade para enfrentar a escola, a sociedade, o preconceito.
Mas a vida lhe deu mais do que a dor: deu-lhe inteligência e coragem, capacidade de resistência, amigos, muitos amigos, incontáveis amigos. Deu-lhe a família que lhe amparou, deu-lhe a razão do bem viver.
Que Deus o ampare na eternidade.
Vá em paz, Marcos Goes.
Curaçá fica com a saudade.
Nós ficamos com a saudade.
Post scriptum:
A foto que encima esta matéria foi tirada da página de Marcos Goes do Facebook.
“Meu horóscopo aconselha: não banque o otário. Conselho tardio” (Joel Silveira, jornalista sergipano, 1918-2007)
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que são membros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os mais abalizados cabos eleitorais de Lula da Silva, devem estar perdendo o sono, por algumas razões, dentre essas, as seguintes:
a) as pesquisas de intenção de voto apontam a queda de Lula ou, no mínimo, estagnação, enquanto o presidente Bolsonaro acrescenta alguns pontos a mais;
b) o fiasco no dia do trabalho em São Paulo – ausência de público exaustivamente convocado pelas centrais sindicais – obrigou Lula a atrasar por algumas horas à espera do povo, que não apareceu.
Lula acabou fazendo um discurso eleitoral para uma praça vazia. Mas os cabos eleitorais do TSE vão dizer que Lula não fez discurso eleitoral, apesar de gritantemente inegável.
Em São Paulo, levantamento do Paraná Pesquisas publicado em 30/04/2022 deu empate técnico, embora Bolsonaro esteja numericamente à frente de Lula: Bolsonaro 35,8%; Lula 34,9%.
Até aí, tudo bem. E o show?
Fazer show é normal. Mas a cantora baiana Daniela Mercury, além de cantar, pediu votos para Lula, levantou a bandeira do PT no palco, tudo em desacordo com a lei, que proíbe campanha eleitoral antes da legislação autorizar.
Daniela Mercury se excedeu e pediu votos para Lula, que foi prejudicado com o gesto tresloucado da cantora baiana, espécie de lambe-botas do PT.
O prefeito de São Paulo, diante do escândalo, autorizou o cancelamento do pagamento de R$ 100 mil a Daniela Mercury (dinheiro público), por enquanto, até que os fatos sejam esclarecidos.
Aqueles ministros do TSE, que estão engendrando a volta de Lula da Silva ao Palácio do Planalto e certamente concordam com o showmício de Daniela Mercury, alardeiam por aí, diuturnamente, que são defensores da democracia e, por consequência, da liberdade de expressão e do estado de direito.
Há quem acredite neles.
Colocando tudo no mesmo balaio, esses são os cupins da República: artistas hipócritas, ministros do Judiciário, etc.
Todos vivendo à custa dos impostos que os brasileiros pagam.
Rogério, ao centro, ladeado pelo tio Joãozito e o pai Virgílio (Arquivo Izabel Ramos, filha de Fabrício Félix)
No remoer da saudade, do pensar e do refletir, a lembrança de Rogério.
Rogério Luiz de Menezes Ribeiro nasceu em 24/07/1966 e faleceu em 09/05/2009.
Graduado em Enfermagem pela Universidade Católica da Bahia, Rogério faleceu um tanto jovem, ainda no despontar do caminho em direção aos horizontes da vida. Vai, por aí, mais de uma década.
Mas, como só Deus nos dá a vida e somente ele permite a morte, resta-nos entender os seus desígnios.
Quando uma pessoa próxima ou conhecida se vai para a eternidade, quase sempre refletimos sobre a morte: o inesperado dela, sua irreversibilidade, o inalcançável de sua explicação e a dificuldade de entendê-la.
Vivo em meio à selvageria da cidade grande, preocupado com tempo e objetivos, envolto às incertezas de uma metrópole cruel e violenta, cada vez mais necessitada da presença de amizades, que se escasseiam com a morte de alguns amigos e a dificuldade de construir novas.
As frias e agitadas multidões nos envolvem, sufocam, barbarizam a convivência. E nos distanciam de amigos, pessoas caras, mesmo que tenham sido fundamentais em nossa vida.
Essa realidade cruel e inominável me leva sempre a refletir sofre a efemeridade da vida.
Aguça as lembranças de outro tempo, não muito longe e, não obstante, não muito perto.
Permite que me lembre de pessoas com quem convivi em quadras memoráveis do tempo.
São imagens que ficaram, tocam, cutucam a vida, dilaceram em razão da saudade.
Não obstante jovem, Rogério já estava bem encaminhado na vida. Deixou pai, mãe, esposa, filhos e parentes dilacerados pela ausência. Descendente de família limpa, honrada, honesta, tradicional, essencialmente cristã.
Rogério foi-se silenciosamente num mês de Maria, das mães, das flores. Cruel a partida, difícil o momento.
Contudo, o que me ficou de Rogério, com quem convivi, além da saudade, foi a imagem que guardei de sua época de criança, o andar pelas calçadas de Chorrochó, os olhos claros de sua inocência de garoto bem comportado.
Essas lembranças ficaram, não se apagaram diante do correr apressado do tempo. Guardo dele esse retrato de menino puro e atencioso.
Por que, às vezes, o cronista se perde nessas abstrações?
É para tornar mais leve o caminhar, suavizar os tropeços da vida e a incerteza do caminho a ser percorrido, se ainda há caminho a percorrer – e sempre há, para nós, que ainda ficamos por aqui.
Essas boas recordações nos fazem mais humildes, mais conscientes e menos arrogantes diante da passagem da vida em direção à morte inevitável.
É a memória salvando-nos do imponderável.
Nada existe mais seguro diante de nossas fragilidades do que lembrar que no passado, às vezes distante, convivemos com pessoas boas, indiferentes às maldades, que construíram a vida sem escalar o ombro do semelhante para sobressair-se.
Guardo a imagem de Rogério jovem, alegre, encantador. Conheci-o em 1971, ainda não tinha cinco anos de idade.
Rogério deixou a bondade como referência. E a saudade imorredoura, perdurável, presente.