Curaçá, 1974: Colégio Municipal Professor Ivo Braga

Casarão de Curaçá/Foto Gardênia Torres (perfil facebook)

Os professores:

Dr. Pompílio Possídio Coelho, Dr. Jaime Alves de Carvalho, Terezinha Conduru de Almeida, Excelda Nascimento Santos, Noêmia de Almeida Lima, Maria Auxiliadora Lima Belfort, Dionária Bim, Lenir da Silva Possídio, Herval Francisco Félix.

Os alunos:

Arivan Evangelista Alves, Elias Pereira Jordão, Eliene Monteiro, Elzi Monteiro Barbosa, Elzeneide Monteiro Barbosa, Suely Maciel de Souza, Tereza Cristina Gomes Miranda, Wilson José Soares Ferreira, David José Ferreira Só, Ivonete Alves Costa, Izabel Cristina, Eliomar Monteiro Costa, Maria de Fátima Araújo, Maridalva Nunes Guimarães, Eloísio Gomes de Miranda, João Pereira Rego, Alice Pereira Rego, Regina Lúcia Xavier, Walter Araújo Costa.

Antes de instalar-se na atual sede, o Colégio Municipal Professor Ivo Braga funcionou provisoriamente em outros imóveis. Lá, enquanto alunos, deixamos fincadas uma parte de nossas raízes.

O resto é saudade.

araujo-costa@uol.com.br

Política, mentiras, maldades e invenções

Sempre fui intransigente no que diz respeito à intromissão em assuntos pessoais.

Quero dizer, a privacidade do indivíduo é um bem inviolável e protegido por disposição constitucional. Ninguém tem o direito de escarafunchá-la. Isto vale pra todos, sem exceção.

Todavia, de quando em vez aparecem supostos pesquisadores, curiosos, bisbilhoteiros, fofoqueiros e outras figuras mais, todos ávidos para saber detalhes da vida dos outros.

O passado nada mais é do que a soma de muitos e constantes agoras e, neste contexto, há pessoas que se interessam em saber como éramos no passado, como somos hoje e até o que pretendemos ser no futuro. Sempre com uma pitada de maldade.

Tirante a maldade, nada há de estranho nisto. O diabo é acrescentar o sórdido, o asqueroso, a torpeza.

Levanto cedo, porque comumente passo todas as madrugadas acordado, conversando com a insônia. Chego cedo ao meu local de trabalho, chova ou faça sol.

O repórter também chegou cedo, conforme combinado. Queria saber o significado de uma frase que eu teria dito: “noventa por cento do que escrevo é mentira. Só dez por cento é invenção”.

Deixei-o desapontado de pronto. Disse-lhe que a frase não é minha, nunca foi minha e jamais será minha.

A frase é do poeta matogrossense Manoel de Barros e, conhecidíssima, consta em todas as publicações que falam da vida do escritor.

Devo tê-la citada nalgum lugar, embora contextualizada, sem nenhuma intenção de arranhar a autoria.

O repórter insistiu, questionou, titubeou: “mas você disse esta frase há pouco tempo, que eu sei, li, achei interessante”.

E daí? Ponderei que, se disse, foi tão-somente a título de citação, com o cuidado de declinar o nome do autor e se escrevi, o que também não lembro, tive igual cuidado de colocá-la entre aspas.

As citações são naturais, comuns, permitidas, desde que creditadas aos seus autores.  É a técnica, é a regra, é a ética.

O repórter pretendia colocar uma cilada em meu caminho, espalhando-a no ventilador da irresponsabilidade.

Ele sabia que a frase não é minha, mas, talvez por falta do que fazer, mente vazia, talvez, queria publicar alguma matéria confusa, sabe-se lá onde, no mínimo polêmica, problemática, altamente discutível, fora do contexto necessário.

Não foi desta vez, entretanto. Nem será noutra.

O escritor Jorge Amado contava que quando Sônia Braga foi escolhida para viver a personagem Gabriela na televisão, foi-lhe apresentada na casa do Rio Vermelho, em Salvador. Ele não a conhecia, nunca tinha visto e, portanto, a escolha não tinha sido dele, mas dos responsáveis pela novela.

Reunidos todos, antes de Sonia Braga chegar, um repórter de São Paulo presente à reunião, maliciosamente portando uma revista na qual a atriz tinha posado, perguntou, maldoso: “por que você escolheu Sônia Braga?”.

Esperto, Jorge Amado percebeu a malandragem: “escolhi porque ela é minha amante”.

Instantes depois, a atriz chegava e Jorge foi logo dizendo: “muito prazer Sônia, somos amantes. Sabia?”  

As maldades andam por aí, em tudo quanto é lugar. O que dá audiência em televisão, redes sociais, mídia em geral e permite venda de jornais é a vida privada dos outros, suas fraquezas, inclusive.

Então, a privacidade das pessoas muitas vezes é invadida, acintosa e desnecessariamente, extraindo dela o combustível para o sensacionalismo.

Até hoje não sei como alguém pode deliciar-se da miséria dos outros.

Chega a ser sádico valer-se de falhas, deslizes e até de fatos casuais, involuntários ou não, na vida de uma pessoa, para escancará-la diante de todos.

Em política e campanhas eleitorais, o negócio é escabroso. As redes sociais estão inundadas de comentários baseados em notícias truncadas, inventadas e distorcidas, de modo que apoiadores de um candidato querem sempre denegrir a imagem do adversário, encontrar picuinhas, jogar poeira no caminhar do outro.

O inverso é absolutamente verdadeiro.

O trilho por onde passa a condução da ética está avariado. Precisa de cuidados, de consertos.

Voltando ao repórter, educadamente convidei a raspar-se.

E ele educadamente raspou-se.

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Em Curaçá, uma autobiografia de 103 anos

“É agradável quando eu chego em um lugar e as pessoas percebem minha presença. Do mesmo modo, é bom quando eu saio e percebem que eu saí”. (Luizinho, Autobiografia)

Recebo, com a alegria e subida honra, o convite para o lançamento do livro Autobiografia – Luiz Lopes Filho, que acontecerá em Curaçá, em 23/07/2022.

A honrosa deferência me foi feita pelo conspícuo filho do autor, Salvador Lopes Gonsalves, ex-prefeito de Curaçá.

Salvador Lopes informa, nas redes sociais, que o lançamento do livro dar-se-á “ao vivo e online, às 15h, do dia 23/07/2022” e dá instruções de como participar do histórico evento.

O autor – todos sabemos – é esteio e glória de Curaçá, por inúmeras razões. Ficaria aqui enumerando-as por muito tempo, tantas essas razões e tantos os caminhos por ele percorridos. Entretanto, a nobreza do ilustre curaçaense por si só dispensa salamaleques desnecessários e, ademais, não tenho preparo para tanto.

Trata-se de um século de história e isto já diz tudo. O homem tem história, sabe o que diz e como diz e sabe lutar com as palavras.

O prefácio é da lavra de Aruanda Naiá Suzuki Lopes da Cunha Teixeira – neta do autor – e o lançamento dá-se pela Editora Autografia.

A autobiografia de Luizinho enriquece, sobremaneira, a história de Curaçá.

A propósito, cito o texto a seguir – “desmantelo do mundo” –  do sociólogo Esmeraldo Lopes, filho de Luizinho:

‘Luizinho é um desses sujeitos que gosta de palestrar, mas às vezes se põe na posição de escutador. E quando está assim, fica ali no silêncio, enrosca as mãos no corpo, cochila, acorda, cochila… Entre todos os assuntos, o que mais lhe atrai são as mudanças do mundo. Ele sempre afirma que o mundo não tem mais jeito, que nada mais lhe surpreende, que está tudo desmantelado. Mas outro dia ele estava como escutador e chegou um seu camarada e veio contando: “Rapaz, não sei se vocês já ouviram dizer, mas a mulher do finado… tá de homem”. Luizinho, que estava cochilando, levantou a cabeça na rapidez de um piscar e bradou: “Já vi que passou o planeta. Só escapa quem voa!”

O fato é que, na condição de curaçaense, estou contente e até sugiro a fundação de um instituto de letras em Curaçá e nele se coloque o nome de Luiz Lopes Filho, de modo que se possa perpetuar a sapiência, os conhecimentos e a história de Luizinho.

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Chorrochó: José Juvenal e a saudade que não pode esperar

José Juvenal de Araujo/Arquivo da família

Nesse 16/07/2022 completaram-se sete anos do falecimento de José Juvenal de Araújo (1954-2015), que foi prefeito do município de Chorrochó em três ocasiões.

Nascido em 10/05/1954, José Juvenal faleceu com pouco mais de 61 anos, idade quase toda dedicada ao exercício da atividade política.

Completar-se-á mais um ano que não veremos José Juvenal de Araújo na festa dos vaqueiros de Chorrochó que – parece – já se transformou em tradição no calendário do município.

Completar talvez não seja a expressão apropriada, porque a saudade não se completa nunca. Ela deixa sempre um vazio cruel, inominável, inarredável, que não há como preencher.

Preenche-se o vazio com outro vazio mais profundo, mais dilacerante, nunca a saudade, que se faz persistente e cutuca diuturnamente nossas frágeis emoções.

Não falo de José Juvenal de Araújo político, articulador, tampouco do prefeito, do homem do povo. Este, todos conhecem e dele já falei muitas vezes em artigos, crônicas, opiniões, textos longos e até, em certas vezes, incompreensíveis.

Falo de Zé Juvenal amigo, sorriso franco, alegre, encantador, brincalhão, respeitador, prestativo e presente na vida de cada um de nós, que com ele convivemos.

Refiro-me a Zé Juvenal da adolescência, das saudosas manhãs ginasianas do Colégio Normal São José (hoje Colégio Estadual São José), dos encontros no Bar Potiguar, do alegre cair da noite nas ruas de Chorrochó.

Falo dos encontros boêmios, das conversas ingênuas e inofensivas. Situo-me numa quadra do tempo em que Chorrochó ainda apreciava o luar das serenatas, luar que hoje ignoramos porque, quase sempre, estamos ocupados com a pequenez de nossas ações.

Falo de Zé Juvenal da simpática Caraíbas, admiravelmente atencioso com a mãe Umbelina Miranda Araújo (D. Bela) e o pai Oscar Araújo Costa, sempre acolhedor e presente na vida de todos da família e do lugar.

Portanto, falo de José Juvenal acolhedor dos irmãos, da família como um todo.

Falo de Zé Juvenal construtor de amizades e amigos perenes, especialista neste particular. Falo de Zé Juvenal amigo, de presença sempre desejável. Cadê você, Zé?

Deste Zé Juvenal, a saudade não tem tempo de esperar para dizer. Diz a todo o momento, no entrelaçar das recordações e no inevitável das lágrimas.

Este Zé Juvenal não cabia em sua própria bondade, extrapolava-se em si mesmo para acolher amigos, parentes, conhecidos. Como Zé gostava de gostar dos amigos, dos tabaréus, dos humildes!

O Zé Juvenal que ainda amamos – e amaremos sempre – era assim: demais. Demais até demais. Tinha o coração generoso, a ternura visível, a essência da sinceridade, a solidez do acolhimento, a espontaneidade do abraço.

Mas este Zé Juvenal se foi. Podia ter ficado mais, podia ter enrolado um pouco para tomar o rumo da distância, a distância infinita da eternidade. Podia ter sentado no começo do caminho e combinado outra data para a partida.

Gostaríamos de continuar ouvindo suas piadas, seus “causos” engraçados e sua conversa mansa, cordata, agradabilíssima.

Zé Juvenal deixou família, amigos, parentes, admiradores, conhecidos. E deixou a marca de sua passagem por aqui, deixou a lembrança da convivência, deixou o indizível da saudade.

Os anos passam, mas é difícil passar a saudade de Zé Juvenal. Nunca passará.

Deste Zé Juvenal, dentre todas as lembranças que não esqueço, lembrarei sempre de uma pergunta generosa, altiva, sincera, que ele sempre me fazia: “Como vai, primo?”.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

Este texto foi publicado pela primeira vez em julho/2018. Reproduzo-o agora, porque a saudade de José Juvenal sempre se faz presente e para reavivar e repetir a história de Chorrochó.

Como dizia o escritor e jornalista Nelson Rodrigues (1912-1980), “eu não existiria sem as minhas repetições”.

 

Os sete de Sampa

Recebi hoje – 19.07.2022 – de Nelson Mattos Cano, com intraduzível satisfação, um exemplar do livro Os sete de Sampa.
Como o título revela, trata-se de uma obra de sete autores: Aristeu de Campos Filho, Cristóvão José Zygmunt Wieliczka, Edison Roberto Morais, Mara Beatriz Menegotto de Vasconcelos, Maurício Moura, Walkíria Godoy e Nelson Cano.
Livro bem escrito e bem apresentado, lançado pela Editora in House e com honrosa dedicatória de Nelson que, não obstante paulistano, é estudioso da história e coisas da Bahia.

Leitura agradável, imensamente agradável.
O conspícuo Nelson Mattos Cano é filho de Delanídia Matos (D.Didi), de Patamuté, município baiano de Curaçá. D. Didi se mudou para São Paulo ainda jovem e aqui constituiu família nobre e exemplar.
Farei, dentro de minhas limitações, alguns modestos comentários sobre o livro. Depois.

araujo-costa@uol.com.br.

Em Patamuté, o difícil adeus de Maria Batista

Maria Batista e suas filhas Núbia e Maria de Lourdes/perfis de ambas no facebook

“O essencial é invisível para os olhos e só se ver bem com o coração”(Antoine de Saint-Exupéry)

A notícia cruel e dilacerante do falecimento de Maria Batista trouxe-me algumas reflexões sobre a efemeridade da vida, o indizível da morte e os desígnios de Deus.

A professora Maria Batista Rodrigues de Souza (1945-2022) agora é saudade e lembrança.

Havia algum tempo que tínhamos conversado. Sou relapso, negligente quanto ao contato com os amigos, mas é meu jeito de ser e isto não ofusca minha forma de gostar, de amar, de considerar.    

No último dia 24 de junho, semana do aniversário de 100 anos de sua mãe Joana Maria da Conceição (Janoca), Maria Batista me surpreendeu com um telefonema já à noite. Alcançou-me no escritório, findo o expediente e longe da balbúrdia estonteante e selvagem do dia.

Conversamos muito, rimos bastante. Conversa boa, saudosa, amena, sem tempo de acabar. Como fiquei feliz com aquele contato!

Maria falou de nossos amigos comuns que se foram (citou Evaldo e Joãozito, de Chorrochó) e de sua saúde que, segundo disse, estava boa e compatível com o que a idade nos dá como razoável.

Falou de um enfarte que havia sofrido há alguns anos – e que eu não sabia – disse que faria uma cirurgia em breve em Salvador, decorrente de problemas do coração, estava aguardando, procedimento comum, mas nada grave.

Reclamou de minha demora em aparecer pelas bandas de Patamuté, interessou-se em saber de minha família, falamos de saudade, amigos de Chorrochó, Patamuté, Curaçá, lembranças da caatinga, uma espécie de visita ao tempo passado.  

Já escrevi algumas vezes sobre a professora Maria Batista e de sua dedicação às causas que abraçou. Foram muitas, que ela sempre desempenhou com responsabilidade e afinco.

Hoje falo somente da amiga, tão somente da amiga, estritamente da amiga, da saudade, do seu difícil adeus. Por que agora, Maria? 

Lembro sua generosidade, o sorriso encantador, a humildade, o estar sempre disposta a ajudar.

Neste 17.07.2022 acontece o sepultamento de Maria Batista, em Patamuté. Cenário difícil, realidade cruel, estúpida, insensata.

Nunca estamos preparados para dizer esse adeus.

Maria Batista era essencial e olhava a essencialidade das coisas com o coração. Assim ela via os amigos, os alunos, a comunidade, as pessoas com as quais convivia.

Além do vazio, Maria deixa também a saudade, muita saudade. Patamuté perde um de seus sustentáculos morais e exemplo de vida decente.

Deixou amigos, alunos e admiradores aos quais orgulhosamente me incluo.   

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, indique-lhe o caminho. E Deus a ampare.

Pêsames à família.

araujo-costa @uol.com.br  

O PT e seus grupos

Lula com a bandeira do PT/Reprodução Google

Todo lulopetista de verdade conhece ou sabe quem é o jornalista Ricardo Kotscho.

Ricardo Kotscho está beirando os 46 anos de profissão. Dentre outros veículos de comunicação, passou pela Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e O Estado de S.Paulo.

Ético, sabe tudo de jornalismo e de decência jornalística. É repórter por excelência.

Ricardo Kotscho é um dos amigos de Lula da Silva e foi seu assessor de imprensa em três campanhas presidenciais do petista. Quando Lula era pobre, acompanhou-o em todas as caravanas de Lula pelo Brasil de ponta a ponta e foi secretário de Imprensa e Divulgação do Palácio do Planalto no governo do petista.

Em suas memórias, Ricardo Kotscho conta um fato interessante que explica bem o PT (Uma vida de repórter – Do golpe ao Planalto, Companhia das Letras, 2006).

Em 1994, numa das caravanas de Lula da Silva aos rincões do estado do Pará, foi abordado por um rapaz que lhe disse o seguinte: “o senhor precisa dizer para Lula que eu quero entrar no partido, mas o pessoal do PT aqui não deixa porque diz que eu sou burguês”.

– Como assim? – quis saber Ricardo Kotscho.

– Sabe o que é? É que eu tenho carro próprio – explicou o rapaz.

Ricardo Kotscho perguntou, investigou, descobriu. O rapaz era carteiro na cidade e tinha um veículo. Para o PT, em razão de ter um carro, ele era burguês e não permitia sua filiação ao partido exatamente por ser burguês e o partido é dos trabalhadores.

Ou seja, para o PT míope, que continua míope, ter um carro significa ser burguês. A propósito, Lula da Silva disse recentemente que nossa classe média ostenta demais e quer mais de um televisor em sua residência, quando um só é suficiente. “Pra que mais de uma televisão?” – perguntou Lula.

A assessoria de Lula da Silva precisa mostrar, para amparar as declarações do morubixaba, quantos televisores ele tem em suas residências em São Bernardo do Campo e na mansão do aristocrático bairro de Pinheiros, capital de São Paulo.

Repórter experiente, Kotscho foi além, descobriu mais: “na eleição anterior, o número de votos recebidos pelo PT naquele município do Pará fora menor que o de seus filiados. Estava tudo explicado”. 

O Partido dos Trabalhadores (PT), como toda organização humana, padece de miséria e fraqueza e, neste particular, não é privilégio da agremiação petista. Contudo, o PT é formado de grupos.

Primeiro grupo: os elitistas

Há 42 anos, em 10/02/1980, o PT nasceu oscilando entre o erro e o sonho.

Com grande apoteose, o partido foi fundado nas dependências do tradicionalíssimo e centenário Colégio Nossa Senhora de Sion, frequentado pela elite quatrocentona paulistana.

Naquele dia, ali tinha de tudo: intelectuais exaltados, esquerdistas frustrados, sonhadores, líderes bem intencionados, ex-presos políticos e opositores ferrenhos da ditadura militar, ingênuos de toda ordem, et cetera. Menos trabalhadores.

O simbolismo não podia ter sido maior. Lula diz até hoje, com todas as letras e até com uma ponta de orgulho, que nunca os banqueiros e a elite empresarial ganharam tanto dinheiro como nos dois mandatos dele na presidência da República.

Neste grupo elitista incluem-se o próprio Lula da Silva – o único aposentado do INSS que ficou rico – dirigentes petistas, intelectuais, empresários, hipócritas de toda ordem e por aí vai.

É a turma das mansões, jatinhos, hotéis cinco estrelas, champanhes e uísques caros, regabofes monumentais, estratosféricas contas bancárias e que adora dinheiro público.

Segundo grupo: os fanáticos

Neste grupo incluem-se os petistas exaltados, que veem Lula da Silva como um “Antonio Conselheiro” ressuscitado e aceitam de olhos fechados tudo que o morubixaba petista diz. Deleitam-se com as lorotas, devaneios e demagogia de Lula.

Para esses, Lula da Silva é o suprassumo da honestidade, da seriedade e da decência, o presidente que expeliu a pobreza dos pobres, mesmo estando claríssimo que esses mesmos pobres continuem pobres, gritantemente pobres. Mas eles acreditam, mesmo que também sejam pobres.

A generosidade de Lula da Silva ainda não chegou a este pobre escrevinhador. Tenho esperança que chegue e me tire da pobreza.

Terceiro grupo: a massa de manobra. 

Nesse grupo incluem-se aqueles que não têm a menor ideia do que seja política e administração pública, mas ocupam as redes sociais para falar asneiras, acompanham os líderes locais e se deixam levar pelos discursos dos experientes impostores petistas.

Para esses, Lula da Silva é o máximo, o PT é o máximo, só os petistas falam a verdade.

Para entender bem esse grupo, um exemplo: a Bahia amarga um dos piores índices educacionais, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, mas o PT escolheu o professor Jerônimo Rodrigues, ex-secretário estadual de educação (que ironia!), para ser o candidato do partido ao governo do Estado em 2022.

Sob o título, “Bahia é reprovada em ranking que avalia ensino médio desde 2013”, o Correio publicou em 09/05/2022: “Se a Bahia fosse um estudante, o estado teria sido reprovado no ensino médio seis vezes seguidas”.

Mesmo assim, a Bahia assegura a Lula da Silva pelo menos 60% dos votos, segundo recente sondagem, o que pressupõe que a população do estado apoia maciçamente o PT e está satisfeita com os governos petistas.  

O PT consegue essa façanha e mérito: ser visto sem ser notado.

araujo-costa@uol.com.br   

Margareth Gomes Pires

Margareth Gomes Pires/reprodução de seu perfil no facebook

Juracy Magalhães, que foi governador da Bahia, dizia que “os melhores amigos do mundo são os baianos”.

Não discordo, mas não alcanço esse exagero. Sou baiano e não me considero um bom amigo de quem sou amigo. Contudo, até que tenho tentado.

Penso que amigos não se definem pela região geográfica, mas pelo lugar que ocupam em nosso coração, terra difícil que ninguém nunca andou, às vezes espinhosa, às vezes macia, outras tantas perigosa. Mas sempre envolta em mistérios. Assim acreditamos.

Vai longe no tempo. Conheci Margareth Gomes Pires, em Chorrochó. Cada um curtiu o seu tempo, as amizades e o glamour de Chorrochó a seu modo, de acordo com as peculiaridades da época. O fato é que a conheci lá.

Em data recente, a professora Margareth esclareceu que é descendente da ilustre família Menezes que, nalguns casos, há uma variante também conhecida como Pires Monte Santo.

O avô de Margareth era João Pires Monte Santo, irmão de Antonio Pires de Menezes (Dodô), que foi prefeito de Chorrochó no período de 1971-1973 e também carregava  a decência do tronco familiar Monte Santo. Dodô era casado com D. Francisca Abreu. O casal teve os filhos Rita de Cássia Abreu Pires e Walter Balduino de Abreu Pires, salvo engano. Minha memória esburacada pelo tempo não me permite ir além.

Dodô tinha lastro eleitoral no simpático povoado de Várzea da Ema. Conheci-o em Chorrochó, elegantemente vestido, educado e atencioso.

Na segunda metade da década de 1970, Margareth frequentou o Colégio Estadual Wilson Gonçalves, do Crato, no chamado cariri cearense, depois a Universidade de Brasília, o Instituto Anísio Teixeira, em Salvador e o Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco (CESVASF).

Não sei exatamente a razão, Margareth abancou-se no querido Colégio Estadual São José, de Chorrochó, que ainda não era estadual, mas acabou sendo e por lá ficou na condição de professora, que todos passaram a gostar e admirar.

A professora Margareth laborou na metodologia do ensino e na educação ambiental, dentre outras áreas, sempre com destacada dedicação.

Fez escola e fez amigos em Chorrochó e enriqueceu o lugar com sua amizade. Não cabe, aqui, dizer por quanto tempo, para não arranhar as regras de etiqueta, até porque Margareth já cumpriu sua missão de docente e hoje se dá o direito de viver onde quiser.

Há algum tempo, fui agraciado com o Troféu Destaque de 2017 instituído pelo site Chorrochoonline, valiosa iniciativa do dinâmico comunicador Edimar Carvalho. Fiquei lisonjeado, mas não pude ir receber o troféu.

Consultados meus botões, entendi que uma amiga me representaria muito bem no evento de entrega do troféu, em Chorrochó, que se deu na manhã de 16/12/2017 na Câmara Municipal. Dito e feito.

Escolhi a professora Margareth Gomes Pires para a tarefa. Ela foi com muita elegância e presteza e fez o papel muito bem, melhor do que eu.

Já se vão por aí alguns anos. Ainda não fui buscar o troféu, que Margareth guarda zelosamente, o que muito me honra, agradeço desvanecido e peço escusas pelo trabalho que lhe dei.

Laudimiro Batista Veras, exemplo de decência e honradez, que foi meu colega no curso ginasial do Colégio Normal São José (hoje CESJ), exímio orador, brincalhão e gozador, certa vez me aconselhou: “Se você for convidado para uma solenidade e tiver vergonha ou timidez, não souber ou não se achar preparado para falar, se faça representar. O representante fará melhor que você”.

Nunca esqueci a lição.

Laudimiro, que já se foi, Lenisse Oliveira Alves de Santana, Antonio Wilson de Menezes e Acioli Silva, que estão por aí, dentre outros, foram meus colegas de classe no antigo prédio do São José, que a insensatez das autoridades locais transformaram em escombros e poeira.

O fato é que demorei algum tempo para agradecer à professora Margareth Gomes Pires por ter me representado naquela ocasião. Mas o fiz publicamente, como forma de reconhecer sua elevada condição de insigne professora e amiga.

araujo-costa@uol.com.br

Sonhos da juventude e a arte de não apressar o rio

Thássia Anneyse/Álbum pessoal

“Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens, terapeuta e escritora americana, 1902-1985)

Em idade septuagenária, não me sobra mais tempo de olhar somente para trás, relembrar os tropeços e ajoelhar-me diante das intempéries que me fragilizaram no decorrer da vida até aqui.

Resta-me, creio, agradecer a vida e o que Deus me deu como acréscimo ao longo de minha caminhada, nem sempre em jardins floridos, porque a existência também nos dá espinhos e nem sempre em tempo de folhas caídas.

Na aurora da vida, a mocidade permite os sonhos, abre o caminho à utopia, dá-nos o preparo para enfrentar o entardecer quando ele chegar e emoldura o caráter para ajustá-lo à convivência quase sempre em contato com a maldade e a incompreensão que a sociedade nos oferece todos os dias.

O segredo talvez seja não apressar o rio, deixá-lo correr no vagar dos dias, sem abdicar dos sonhos e das perspectivas de crescer como pessoa e profissional. Isto pressupõe ser humilde e útil a quem precisa de nós.

A juventude permite os sonhos, mas também dá a ferramenta para a construção do caráter.

Neste 10 de julho do inverno de 2022, desejo felicidade plena a Thássia Anneyse, um dos meus tesouros que Deus me deu (há mais dois: Thábata e Thamara).

Com elas a vida me permite participar de nossas agruras comuns, mas com a certeza de um amanhã mais límpido, com horizontes mais alcançáveis e coragem para enfrentar a escuridão quando ela se faz presente.

Thássia, que Deus lhe sedimente seus sonhos, dê-lhe coragem para enfrentar os tropeços da vida e a compreensão de que nunca devemos apressar o rio.

Parabéns. Feliz aniversário.   

araujo-costa@uol.com.br

Macururé e “os Cadernos de Raimundo Reis”

Raimundo Reis/Foto da contracapa do livro Malhada do Sal, de sua autoria, Editora União, Salvador, 1986

O jornalista e escritor Raimundo Reis manteve aos domingos, durante 12 anos, no Jornal da Bahia, uma página inteira sob o título Os Cadernos de Raimundo Reis. Na semana, assinava uma crônica no mesmo jornal.

Jornal da Bahia foi fundado em 1958 por João Falcão, à época militante comunista e filho de rica família de Feira de Santana.

O Jornal da Bahia abrigou, em suas páginas, dentre outros, além do irreverente e espirituoso Raimundo Reis: Glauber Rocha, que ainda não era cineasta, mas repórter; João Ubaldo Ribeiro, anos depois escritor e membro da Academia Brasileira de Letras e João Carlos Teixeira Gomes, mais tarde também escritor e membro da Academia de Letras da Bahia.

O jornal foi implacavelmente perseguido por Antônio Carlos Magalhães, então todo poderoso governador dos militares oriundos da safra de 1964.

Em 1983 o Jornal da Bahia passou a ser dirigido pelo ex-prefeito de Salvador Mário Kértesz.

Mário Kertész anos mais tarde passou a ser o manda chuva das rádios Metrópole e Itaparica FM, nascidas da estrutura do Jornal da Bahia.

Raimundo Reis era neto do lendário e polêmico Petronilo de Alcântara Reis (coronel Petro), chefe político e poderoso dono de extensas propriedades rurais no sertão, dentre elas as fazendas Perdidos, Tronqueira, Cachoeirinha, Formosa e Paus Pretos, esta última uma espécie de referência de seu poder e glória até hoje.

Em 27/07/2018, escrevi neste mesmo espaço, artigo com o título Macururé e Raimundo Reis. Ei-lo novamente:

Raimundo Reis de Oliveira (1930-2002), baiano de Santo Antonio da Glória, antiga Curral dos Bois, hoje simplesmente Glória, sertanejo de espírito irreverente, advogado, político, jornalista, cronista, escritor e radialista.

No tempo em que os partidos políticos ainda não eram esse amontoado de excrescência de hoje, foi deputado estadual pelo antigo PSD da Bahia, a maior escola política, filosófica e partidária do período 1946-1964.

Inteligente e espirituoso, apaixonado pelo sertão e por Macururé, que ajudou a tornar município, escreveu muita coisa ao longo de sua existência de intelectual.

Raimundo Reis e João Carlos Tourinho Dantas, colegas na legislatura de 1959-1963, foram os responsáveis pela aprovação da lei que, em 1962, elevou Macururé à categoria de município, emancipando-o de Glória.

O biógrafo de Raimundo Reis, se um dia existir, terá que estudar muito sobre Macururé. Certamente sua tarefa será facilitada se priorizar, com afinco, o papel que o Partido Social Democrático (PSD) teve no sertão baiano.

Dentre os muitos textos que escreveu sobre Macururé, no final da década de 1950 Raimundo Reis fez uma crônica bem-humorada, depois publicada em seu livro Geografia do Amor, da qual extraio a seguinte parte:

“Era observador do município de Macururé junto à Conferência Internacional da OEA. Em lá chegando, logo no primeiro dia, criou-se com minha presença um caso que quase toma ares de conflito. Ao apresentar meus documentos, o presidente da Comissão de Credenciais levantou a dúvida, afirmando sem base geográfica:

 – Macururé não existe.

Observei, modesto, o seu engano, esclarecendo que lá era o berço natal de Corisco* e Pente Fino, famosos cabras de Lampião. Que o maior tocador de sanfona do Nordeste morava naquela cidade.

Ele, por acaso, não tinha ouvido falar em Divina, a morena mais bonita de todo o sertão, que já tinha virado mais de dez caminhões, pois motoristas apaixonados tinham imprimido velocidade demais aos veículos para chegarem mais cedo aos seus braços de amada?

O presidente era um desinformado. Não sabia nada. Como a maioria dos diplomatas, pertencia a outro mundo.

Quem salvou a situação foi o chanceler Luís Viana Filho que, no momento, entrava no recinto. Deu a sentença final:

 – Macururé existe, sim. Tive lá 50 votos para deputado federal nas últimas eleições, que me foram dados por uns parentes da minha correligionária Ana Oliveira”.

Raimundo Reis escreveu alguns livros, dentre esses Zé do Brejo, lançado por uma editora que tinha o sugestivo nome de Várzea da Ema. Tirei de lá e transcrevo o texto abaixo:

“Antes de mais nada, continuar a viver. Sem levar a sério as coisas e a nós mesmos. Não cultivar ou alimentar ódios. Fazer do amor uma oração de todas as horas.

Desprezar os maus e conviver com os bons. Respeitar a eloquência da mediocridade e exaltar o silêncio dos sábios. Achar graça da empáfia dos poderosos, esperando o dia de confortá-los nos instantes da queda próxima. Buscar a beleza em todas as suas manifestações.

Trabalhar sem fanatismo. Usar o dinheiro antes que ele nos use. Ajudar aos outros sem esperar gratidão. Ter em casa um cachorro, uma biblioteca e, pelo menos, duas garrafas de uísque.

Depender o mínimo dos outros. Saber uma oração ou uma música. Ser simples. Para ser feliz, basta um pouco de filosofia, não a dos livros, mas a que descobrimos num por de sol ou num adeus sem volta”.

E terminou o texto, assim: “Descobri que não sou. E não sendo, o resto tem pouco ou nenhuma valia”.

Raimundo Reis era encantador. Um dia me chamou de “ínclito filho de Patamuté”. Senti-me lisonjeado. Sou até hoje.

Faleceu em dia de festa, 24 de dezembro de 2002.

Raimundo foi festivo até na morte.

Noutros tempos, frequentei muito Macururé e tomava cachaça Aquino no bar de Silvino ouvindo músicas de Nelson Gonçalves. Lembro muito os lugares por onde andei.

A memória, embora esburacada pela passagem dos anos, trouxe-me hoje Macururé e essa crônica de Raimundo Reis neste mês de julho, mês de emancipação daquele simpático município do sertão.

Coisas da saudade.

* Salvo engano, a história registra que o cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco) nasceu em Água Branca, Alagoas, em 1907. Raimundo Reis, profundo conhecedor do cangaço, sabia disto, mas enfeitou a crônica para torná-la mais interessante.

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