Fumaça: Comarca de Chorrochó em risco de desativação

Vista parcial do Forum Dr. Olinto Lopes Galvão Filho, de Chorrochó-BA/Reprodução Google

“A justiça é como uma serpente, só morde os pés descalços.” (Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, 1940-2015).

O Tribunal de Justiça da Bahia não é o que se pode chamar de bom exemplo no que tange ao exercício de amparo aos mais desvalidos.

À semelhança de um maestro, o Tribunal de Justiça baiano rege a orquestra de costas para o público.

Em data não muito distante, o TJ-BA frequentou noticiário vergonhoso ao ser atingido por lamentáveis escândalos protagonizados por alguns de seus excelentíssimos magistrados, o que é sobejamente conhecido e dispensa repetições.

Em data mais distante – 2019 – o noticiário dava conta de compra desnecessária de aparelhos de ar condicionado, altos salários de servidos e penduricalhos tais incompatíveis com a realidade da Bahia e de seu povo.  

A Bahia é um Estado pobre que não ampara vaidades de membros do Judiciário.

O Blog Chorrochó em Foco, iniciativa louvável e pioneira da batuta do chorrochoense Eloy Neto, publicou que o Forum de Chorrochó corre risco de ser desativado, notícia, aliás, um tanto recorrente na história da comarca.

O Tribunal de Justiça, em mais uma investida contra a sociedade, parece pretender prosseguir no desmonte de comarcas do interior, de sorte que nos últimos anos já determinou a desativação ou agregação de, pelo menos, 74 comarcas de entrância inicial ou próximo disto.

Na ocasião, Chorrochó escapou dessa insensatez, mas absorveu os serviços de outras jurisdições.

Noutras palavras: o Tribunal de Justiça da Bahia vem espezinhando as populações dessas e de outras jurisdições que ele as elegeu como deficitárias e, por conseguinte, desnecessárias na visão míope do tribunal.

A Bahia está em crise.

Aliás, a Bahia sempre esteve em crise, porque tradicionalmente, seus homens públicos foram e continuam sendo figuras decorativas, avessos ao clamor do povo.

Inobstante as exceções, há um vazio de sabedoria e gestão na terra de Ruy Barbosa.

Um Estado que faz pouco caso de suas instituições estruturais, Justiça inclusive, definitivamente não é sério, não pode ser sério, nunca será sério.

Há algum tempo, o Tribunal de Justiça da Bahia iniciou um movimento de espezinhamento de sua estrutura no interior, de modo que diversas comarcas foram desativadas e os serviços absorvidos por comarcas maiores ou mais antigas, em flagrante prejuízo às populações locais.

Enquanto ministros dos tribunais superiores, mormente do Supremo Tribunal Federal, insistem em dizer que a Justiça deve aproximar-se mais da sociedade, o Poder Judiciário da Bahia trafega na contramão e vai cada vez mais se distanciando da população.

Melhor diria, vai dificultando o acesso da população aos serviços judiciais constitucionalmente assegurados.

Em quadro assim, é razoável pensar pelo lado mais simples: a cúpula do Poder Judiciário baiano, que decide essas questões, ganha muito bem e, conseguintemente, parece desconhecer o dia a dia da população carente, seus sofrimentos, suas lutas, seu desamparo.

O Tribunal de Justiça da Bahia desconhece o que significa para as pessoas pobres do interior, mormente do meio rural, que dependem de transporte e dinheiro, a dificuldade que enfrentam para o deslocamento de suas moradias, a fim de procurar o amparo da justiça nas cidades maiores.

O TJ-BA vive no mundo da lua.

Pessoas pobres que dependem da Justiça geralmente não têm sequer condições de comprar alimentos em viagens longas e cansativas.

O que o Tribunal de Justiça da Bahia precisa é moralizar os vencimentos de muitos de seus servidores e restringir suas fantásticas mordomias. Alguns servidores ganham até mais do que um Juiz de Direito.

Não estou lhes negando o mérito, mas questionando as injustificáveis distorções, que não são privilégios somente do tribunal baiano, mas de outros espalhados por este combalido Brasil, que vive à mercê da vaidade de poderosos, inclusive de intocáveis membros do Judiciário.

Assim, talvez reste dinheiro para manter as comarcas funcionando, em benefício das populações e não ter que desativá-las, agregá-las a outras e, conseguintemente, piorar a qualidade dos serviços que a população exige e merece.

O objetivo do poder público não é obter lucro, mas servir equitativa e eficientemente à população. Este é um princípio elementar de direito público, que os dirigentes do Poder Judiciário baiano conhecem ad nauseam.

Exemplificando: dados de 2017, em valores aproximados, dão conta de que havia servidor de setor do Judiciário ganhando a bagatela de R$ 51 mil; administradores de foruns que ganhavam R$ 42 mil; arquivista do Tribunal ganhando R$ 36 mil; e até bibliotecária com salário de R$ 55 mil.

Isto afronta a lógica e o bom senso. É um acinte aos pobres, aos carentes, aos necessitados.

À época referida, os desembargadores embolsavam uma média de R$ 40 mil por mês, salvo engano. A média de vencimento de um juiz de direito era R$ 28 mil, mais os penduricalhos previstos. É a intocabilidade vergonhosa dos juízes.

Tudo legal, sem nenhum arranhão à lei. Mas a imoralidade disto é flagrante, assustadora, inacreditável. Afronta a lógica e o bom senso.

Pior: essas distorções estão acima do teto constitucional, que o Tribunal de Justiça certamente nega.

É razoável supor que esses vencimentos estratosféricos são compostos também de indenizações eventuais, gratificações, abonos, prêmios, verbas de representação, auxílio moradia e outros penduricalhos mais, que engordam os vencimentos dos servidores e afrontam a razoabilidade e a vergonha.

Não duvido que esses vencimentos sejam legais. Entrementes, não há porque esconder que beiram à imoralidade.

Houve casos em que o Estado da Bahia teve que buscar recursos no Tribunal de Contas dos Municípios e no Tribunal de Contas do Estado para, com essas disponibilidades, poder atender à folha de pagamento do Judiciário. Mesmo sendo cabides de empregos, esses tribunais de contas tinham dinheiro sobrando.

Para se ter uma ideia, em 2015, a folha de pagamento do Tribunal de Justiça da Bahia girou em torno de R$ 126 milhões de reais por mês.

Por aí se vê, sem dúvida, que não é extinguindo comarcas, para teoricamente diminuir despesas, que a situação da Bahia e do seu Tribunal de Justiça vai melhorar. O que precisa melhorar é a mentalidade dos dirigentes.

Só para lembrar: em 2017, quando o Tribunal de Justiça da Bahia extinguia comarcas sob o argumento de redução de despesas, uma equipe formada de desembargadores gastou R$ 55,5 mil com despesas de viagem para a Itália, em apenas 10 dias, tudo pago pelo Tribunal. Média das diárias para cada desembargador, R$ 10 mil.

Até um digitador acompanhou Suas Excelências e recebeu R$ 11.736,00, a título de diárias.

Perdulário assim, é este o tribunal que quer diminuir gastos?

A comarca de Chorrochó, que abrangia, de início, quatro municípios, incluída a sede da comarca, está permanentemente ameaçada de extinção ou, no mínimo, de ser agregada a outra comarca.

À época, Humberto Gomes Ramos, então prefeito de Chorrochó, em defesa da comarca, tocou no ponto fundamental: “A Bahia precisa é de investimento e não de fechamento de órgãos que ajudam no processo de crescimento das cidades interioranas”.

Este escrevinhador acrescenta que o resto virá por consequência e certamente não será a necessidade de extinção de comarcas.

O interior precisa acordar, exigir, contestar, protestar, cobrar de seus líderes políticos para que impeçam essa ideia arrevesada de desativação de comarcas e/ou restrição de serviços postos à disposição da população.

O Tribunal de Justiça da Bahia há tempo vinha amadurecendo numa tal Comissão de Reforma Judiciária, Administrativa e Regimento Interno, ou seja lá que nome lhe foi atribuído, a intenção de continuar com o desmonte das comarcas do interior e suprimir os direitos de suas populações carentes.  Um erro, uma crueldade.

A comarca de Chorrochó foi instalada em outubro de 1967. Já se vão, por aí, aproximadas seis décadas. Cogitar de sua extinção é um retrocesso que somente depõe contra os defensores dessa ideia esdrúxula e desamparada de quaisquer esteios de sustentação lógica.

Enquanto a sociedade evolui, a Bahia retrocede. A população aumenta e a Bahia diminui seus serviços públicos postos à disposição da população.

Convenhamos, a Bahia está precisando de pessoas que pensem em sintonia com os interesses da população. Por enquanto, não há pessoas com esse propósito. Isto é escancaradamente evidente.

A comarca de Chorrochó é uma conquista de seu povo.

O Tribunal de Justiça da Bahia precisa respeitá-la. Espera-se a desistência desse possível desatino com vistas à desativação do Forum de Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br

Memória, acasos e amigos de Chorrochó

Um momento na vida de Julinha e Eufrázio/Arquivo da família

“A vida, como os livros, é feita de acasos.” (Lygia Fagundes Telles, escritora paulista, 1918-2022)

Ainda muito jovem – vai longe no tempo – este escrevinhador ouvia nas caatingas e barrancos do Riacho da Várzea, José Januário da Silva, político da Fazenda Estreito, município de Chorrochó, tecer boas e elogiosas referências à família Pires de Menezes que, fiquei sabendo depois, vem a ser do mesmo tronco da distinta família Monte Santo ou, melhor, trata-se da mesma família. 

Aliado de Dorotheu Pacheco de Menezes, José Januário foi vereador em Chorrochó por diversos mandatos, contemporâneo de Antonio Pires de Menezes (Dodô), de Várzea da Ema. Nascido em 1901, José Januário conhecia muito bem as raízes do pessoal de lá.

Anos mais tarde, quando morei em Chorrochó, tive a honra de conhecer membros dessa família, a exemplo de Luiz Pires Monte Santo (1938-2021), Carlos Pires Monte Santo e Antonio Pires de Menezes (Dodô), quando este último era prefeito de Chorrochó no período de 31/01/1971 a 31/01/1973.

À época, o perímetro urbano de Chorrochó restringia-se a poucas ruas. Era pequeno, menor do que hoje, evidentemente, de modo que as pessoas se tornavam próximas, encontravam-se no dia a dia, construíam amizades, teciam o viver da cidade.

Tempo das conversas nas calçadas, hoje ultrapassadas e até arriscadas, da sadia e alegre convivência da vida estudantil, espécie de costura do tempo.  

É o passado permeado por impressões e alegres episódios do tempo da mocidade que vai avivando as recordações e atestando que a lembrança é o que ficou do que passou ou o não desvencilhar-se das certezas ou incertezas vividas.

Houve tempo em Chorrochó – e isto ainda acontece em toda sociedade interiorana – que o viver de cada um estribava-se nos alicerces familiares e nas amizades. A família era o esteio; as amizades, os enfeites da vida e o atapetar do caminho em direção aos sonhos.

Em Chorrochó, havia a Associação Recreativa Amigos dos Menezes (ARAM), conhecida como Clube de Virgílio, porque fundada pelo dinâmico Virgílio Ribeiro de Andrade, que promovia bailes periódicos, mormente de formaturas, que animavam a cidade.   

Não tenho percebido, nos poucos e escassos fragmentos da história de Chorrochó, nenhuma referência a essa instituição particular que, embora extinta, marcou época na vida de estudantes e da sociedade local em geral. Assunto, pois, para o departamento de cultura de Chorrochó ou instituição equivalente.

Naquela época, conheci a professora Júlia Pires Monte Santo Batista (Julinha), descendente dessa família e seu marido Francisco Eufrázio Batista, policial militar que servia em Chorrochó na ocasião.

Decente e respeitador, Eufrázio era exemplo de policial educado e habilmente preparado para lidar com as situações que a pacata Chorrochó exigia. Mais do que policial, era amigo de todos.

Mas o que importa aqui, em resumo, é que Julinha e Eufrázio faziam parte das pessoas de grande envergadura moral que conheci em Chorrochó.

Outro momento de Julinha e Eufrázio/Arquivo da família

Décadas depois e longe de Chorrochó, Julinha me disse que tem as filhas Mônica, Gislene e Ana Carla. A descendência completa-se com uma neta e quatro netos.  

Post scriptum

Um testemunho necessário e oportuno: Fiquei impressionado com a cultura e o conhecimento demonstrado pela professora Graciella Reis de Carvalho no que tange à História de nossa região. Graciella é bisneta do lendário Petronilo de Alcântara Reis, coronel Petro, filha de Marly  Reis Monte Santo.

Em data recente, entrei em contato com a professora Graciella que, muito prestativa, passou valiosas informações sobre as raízes familiares da região, pelo que agradeço.  

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Chorrochó e fragmentos de meus alfarrábios

De quando em vez consulto meus amarelados alfarrábios. Encontrei este cartão, consideração que a família de D. Iaiá me mandou. Eu já morava em São Paulo.

A distância da época vai-se estendendo, o tempo dá o tamanho da saudade, a história atesta a crueldade do vazio.

Maria Alventina de Menezes (D.Iaiá) era viúva de Joviniano Cordeiro de Menezes.

Já se foram também os filhos Maria Rita da Luz Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, José Jazon de Menezes e Maria Daparecida Mazarelo de Menezes.

Ficaram a memória imorredoura, as lembranças e a saudade.

Persiste a certeza da imortalidade da alma, dom de Deus, que nos dá a resignação.

araujo-costa@uol.com.br

Um entardecer qualquer

Interior da Igreja Matriz de São Bernardo do Campo – SP

Final de tarde num dia qualquer, não muito distante, em São Bernardo do Campo.

A caminho de casa, depois de um dia estafante, passo para refletir um pouco na Basílica Menor de São Bernardo.

Tento entender o turbilhão de dúvidas, de exigências que o tempo me faz todos os dias, a todo instante.

Resolvo fotografar a nave central, o vazio, o silêncio, a solidão.

Ali, na reflexão e na oração, pode estar a indicação do caminho para seguir adiante, superar os escombros do caminhar, enfrentar as encruzilhadas, talvez. Elas são muitas.

Sigo em frente à procura de mim mesmo, de minhas explicações.

Como dizia Hegel, filósofo alemão, “a coruja levanta voo ao cair do crepúsculo”.

Às vezes é na escuridão que aprendemos a clarear o caminho e a desviar dos tropeços.

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Chorrochó, amizades e conversa de domingo

Notícias mais recentes davam conta de que Antonio Wilson de Menezes, nobre filho de Chorrochó, estava internado num hospital de Juazeiro.

Antonio Wilson de Menezes em foto de 2014/Álbum de família

Quarta-feira, 15/10, Rosângela Menezes, que prezo muito, irmã de Wilson, deu-me a notícia, um tanto angustiante. Sou grato pela atenção e deferência.

Hospital é um deserto. Qualquer hospital é um deserto, embora apinhado de pessoas, profissionais e circunstantes.

Apropriadas as palavras do escritor Antonio Carlos Vilaça:“Mas o deserto é necessário, qualquer que seja o caminho. Sem deserto não há vida humana que se mantenha de pé.”

Antonio Wilson de Menezes é um bom amigo de, pelo menos, 54 anos. Não é qualquer um que sustenta uma amizade tanto tempo, mormente nos dias conturbados de hoje. Wilson sustentou, sustenta.

Neste particular, considero-me, ademais, que sou amigo relapso e desatencioso.

Conhecemo-nos em janeiro de 1971, em Chorrochó, o que significa dizer que nossa idade já beira o despenhadeiro da fragilidade e do desmoronamento das condições do viver.

Bom caráter, gozador, espirituoso e mais do que isto, amigo de verdade. Este sujeito Wilson tem história!

Wilson é um dos meus primeiros amigos de Chorrochó e, mais tarde, sofremos juntos em Santo André (SP). Esperto e inteligente, retornou para a Bahia e cresceu. Passou a viver, “na boa”, lá para as bandas do simpático município de Campo Alegre de Lourdes, salvo engano.

Eu continuo por aqui em São Paulo, atabalhoado com as dificuldades, lutando, tropeçando, sofrendo, curtindo minha insônia, companheira de décadas, que me faz remoer as saudades e os poucos amigos que me restam.

Este caminhar faz lembrar a música de Noite Ilustrada: “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava.”

Wilson deu a volta por cima, voltou para a Bahia e seguiu além, muito além daquilo que sonhávamos em São Paulo.

Eu não consegui dar a volta por cima. Ainda estou tentando.

Prezo a família de Maria Menezes (Pina) e Francisco Arnóbio de Menezes – mãe e pai de Wilson – família referência e honra de Chorrochó.

Adriana Menezes, outra pessoa querida de Chorrochó, também está passando por problemas de saúde num hospital de Petrolina, mas se recuperando bem, segundo informações da família.

Adriana Menezes/Álbum da família

Vida decente e politicamente preocupada com a situação do município de Chorrochó, Adriana se robustece na estrutura familiar de Marina Maria de Araújo Menezes (Marinalva) e José Eudes de Menezes (Iê) e vem recebendo o carinho de parentes e amigos e a torcida de todos nós pelo seu pronto restabelecimento.

As raízes de Adriana Menezes sustentam-se em esteios valorosos: Oscar Araújo Costa e Eloy Pacheco de Menezes.  

Deixo abraço para Adriana e todos do seu afetivo redor, Marinalva, Taciana, Eloy Neto e a todos parentes e amigos.

Deixo abraço para Wilson e todos de sua distinta família.

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Ministro Barroso: A despedida não deixa saudade

Ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso

“Não se constrói uma sociedade justa sobre a injustiça, nem se constrói uma sociedade humana destruindo a liberdade humana.” (João Paulo, II).

O ministro Luís Roberto Barroso está deixando o Supremo Tribunal Federal, de livre e espontânea vontade, anos antes da idade limite prevista na Constituição da República.

Confesso que, nalguma quadra do tempo, fui admirador de Sua Excelência o ministro Barroso, quando ele ainda se adequava à condição estrita e respeitável de magistrado.

Inobstante o desvio de rota que ele escolheu no exercício da magistratura, continua merecendo o respeito de todos os brasileiros. Bem ou mal serviu o Brasil.

Entretanto, a presidência do ministro Luís Roberto Barroso à frente do STF deixou um rastro de registros e lembranças ruins que enxovalham a história do maior símbolo da Justiça do Brasil.

O ministro abdicou, por vezes, da nobreza da toga, transformando-se em desnecessário ativista político. Permitiu flexibilizar o entendimento do ordenamento jurídico nacional e, sobretudo, imiscuir-se nos demais Poderes da República.

Mais do que isto, levou o STF a reboque de suas vaidades e de seus colegas, alguns deles igualmente divorciados dos fundamentos que amparam a digna função de juiz.

Foi o período na história do Supremo Tribunal Federal que mais arranhou a Constituição Federal, espezinhou as leis e, sobretudo, desprezou as liberdades públicas.

O devido processo legal virou ficção e o tribunal passou a decidir de acordo com a ânsia de vingança e atabalhoamento de seus subidos ministros que se arvoram únicos e principais defensores da democracia no Brasil.

O conceito de democracia de Suas Excelências permite prender sem provas, espezinhar o direito de defesa, censurar perfis em redes sociais, censurar imprensa (caso da Revista Crusoé, por exemplo), manter ilegalmente inquérito em andamento por mais de seis anos (inquérito das Fake News, por exemplo), suprimir o direito do cidadão comum de ser julgado em instâncias inferiores ao STF e outros arranhões às leis substantivas e processuais.

A máxima “o STF pode errar por último”, atribuída ao jurista Ruy Barbosa, não significa relativizar o erro, normalizar as incongruências, desprezar a segurança jurídica e tampouco elevar-se acima dos ombros dos brasileiros, mormente de quem não tem voz.

À semelhança de despreparados ativistas de palanques, o senhor Barroso passou a usar linguagem avessa à liturgia do cargo, vergonhosamente avessa.

Os exemplos abundam: “Derrotamos o bolsonarismo”, “perdeu Mané, não amola”, “eleição não se ganha, se toma”, dentre muitas que estão por aí, registradas na imprensa.

É bem verdade que sua Excelência procurou se justificar, o que é um mérito louvável, dizendo-se arrependido. Nalguns casos, até negou o destrambelhamento verbal, mas está gravado, não há como negar.

Entrementes, o arrependimento não exclui o arranhão sem volta à nobreza do Poder Judiciário.

Deu-se, nesse período da presidência do ministro Barroso, tudo que não é comum e afigura-se desaconselhável no âmbito do Poder Judiciário.

Ministros se manifestando fora dos autos, dando opinião sobre processos que ainda serão por eles julgados; ministros antecipando entendimento sobre possíveis leis que sequer foram aprovadas no Congresso Nacional e que certamente serão apreciadas e julgadas no STF; ministros afoitos a holofotes, concedendo frequentes e atabalhoadas entrevistas a jornalistas de grandes órgãos de imprensa que lhes lambem as botas diariamente.

Dir-se-á: o juiz, como todos nós, tem falhas, está sujeito a deslizes. Correto. Mas, convenhamos, não fica bem aos olhos da sociedade, por exemplo, ministros do STF, piolhos de festas e shows, microfone em punho, cantando e dançando, como se o Brasil estivesse às mil maravilhas, não houvesse brasileiros passando fome e problemas graves que os preocupem.

Essa conduta foge à liturgia do cargo de magistrado.     

Contudo, espera-se que o STF retome sua dignidade como Corte Suprema, ajuste-se ao seu mister constitucional e reabilite o respeito aos brasileiros tão vilipendiados, independentemente da ideologia que professam.

Só assim o STF pode recuperar sua credibilidade seriamente abalada em parte da sociedade e apagar o rastro de sua atuação estapafúrdia e incompatível com o dever precípuo e elementar da Corte.

Não interessa à sociedade se o magistrado é de direita ou de esquerda. Isto, ele e sua consciência resolvem nas urnas. O juiz deve se comportar como magistrado. É o bastante. É o necessário.

A saída do ministro Luís Roberto Barrosa não deixa saudade.

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Padre Toninho: Quando o vazio do adeus faz lembrar o valor da amizade

Homenagem ao Padre Toninho, em Mauá-SP/ Diocese de Santo André

Antônio Borges de Mesquita, da Ordem Religiosa Oblatos de Maria Imaculada (OMI) faleceu em São Paulo em 01/09/2025.

Padre Toninho, para uns, padre Mesquita, para outros, destacou-se pela forma peculiar de aproximar as pessoas, consubstanciar a amizade, espalhar a boa convivência e, sobretudo, sustentar dedicação precípua ao sacerdócio.

Natural de Alfenas (MG) padre Toninho exerceu o ministério por dez anos na Paróquia São Luiz Gonzaga, no Bairro Paranavaí, em Mauá, pertencente à diocese de Santo André, no ABC paulista, que lhe prestou dignamente as últimas homenagens.

Padre Toninho (1956-2025). Crédito: diocese de Santo André-SP

O bispo de Santo André, Dom Pedro Carlos Cipollini (lema in nomine Iesu) fez-se presente à cerimônia.

O bispo lembrou que padre Toninho usava sempre a expressão “tamo junto”, sua marca “que traduzia a proximidade e amizade fraterna que cultivava, especialmente por compreender as dificuldades enfrentadas no exercício do ministério episcopal”.

Padre Toninho iniciou sua missão presbiteral na diocese paulista de Campo Limpo, mas exerceu seu mister noutros lugares, inclusive na Paróquia Bom Jesus da Boa Morte e São Benedito, em Curaçá, diocese de Juazeiro, na Bahia. Sempre alegre e de bom humor, o que lhe garantiu espalhar amizades em muitos lugares por onde passou e serviu.

Padre Toninho fazia parte de família tradicional mineira. Era filho de Terezinha Mesquita Figueiredo e de João Borges Figueiredo. Há registro de que tinha nove irmãos: Ionice, Renato, Glória, Márcio, Laudacir, Dagmar, Marli, Maria Helena e Roberto.     

Ao falecer, era vigário paroquial no Parque Santo Antonio, diocese de Campo Limpo, em São Paulo.

O enterro deu-se no cemitério municipal de Alfenas (MG), sua terra natal, em 03/09/2025.

Observação:

Este blog está aberto a críticas e correções   

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O IBGE é uma instituição séria

Maria Léa Santos Souza/Reprodução do facebook

Maria Léa Santos Souza, honra e glória do município baiano de Curaçá, nasceu nos domínios das fazendas Tamburi e Bom Jardim, no distrito de Patamuté.

Maria Léa deu certo na vida. Lutou e se firmou na condição de competente e exemplar profissional. Morou na Bahia e São Paulo e hoje vive na Região Sul do Brasil.

Em data recente, Maria Léa discordou de minha crônica intitulada A demagogia de Lula da Silva e de seu ministro loroteiro, quando este escrevinhador disse, referindo-me a Lula da Silva e seus arraigados admiradores: “Eles se sustentam em estatísticas frias, irreais, distorcidas e em demagogias eleitoreiras, essencialmente eleitoreiras”.

Diz Maria Léa Santos Souza: “Olha sinto te dizer que o IBGE é um Instituto sério e não faz estatísticas frias. E eles falam o que os números do IBGE divulgam”.

Léa tem razão.

Contudo, em nenhum momento este insignificante cronista pôs em dúvida a seriedade do IBGE, instituição merecedora do respeito de todos os brasileiros e, se me não engano, fundada em 1936.

Nenhuma instituição se sustenta durante todo este tempo se não se assentar em princípios de seriedade e competência.

O que este cronista quis dizer é que a expressão “estatísticas frias” está no campo das incertezas, o que não quer significar, em nenhum momento, o deslustre da respeitável instituição IBGE.

Nenhuma instituição, se séria não fosse, resistiria tanto tempo em atividade, de modo que as interpretações devem ficar no âmbito da razoabilidade, excluídas as paixões políticas, as fraquezas ideológicas e a defesa dos governantes que admiramos, nem sempre consentâneos com aquilo que sonhamos.

Em quadro assim, falando de razoabilidade, faço um desvio de rota interpretativa, sem deslustrar o profícuo trabalho do IBGE, sempre admirável.

Há mais de quatro décadas moro em São Bernardo do Campo, simpático município paulista da região do ABC.

Nesses mais de quarenta anos – e aqui não vai nenhum menosprezo aos critérios científicos que lastreiam as pesquisas do IBGE – nunca fui abordado por qualquer agente do censo demográfico capitaneado pelo IBGE.

Todavia, o IBGE diz que faço parte dos 810.729 habitantes do município de São Bernardo do Campo, consoante o Censo de 2022.  

As estatísticas frias a que me refiro lastreiam-se no entendimento de que os números de excluídos da pobreza alegados pelo governo de Lula da Silva ou outro governante qualquer, independentemente de nosso pendor ideológico, são passíveis de distorções ou, no mínimo, de ajustes.

Assim se dá relativamente aos índices de desemprego baseados no CAGED ou critério que o substitua. A realidade situa-se muito distante dos frios números normalmente divulgados.

Parâmetro estatístico não retrata, necessariamente, o espelho de quaisquer realidades.

Daí a dizer que o IBGE não é uma instituição séria vai uma grande distância. E esta não é – e nunca foi – a intenção deste insignificante escrevinhador.  

No mais, Maria Léa Santos Souza – que a admiro desde a juventude – e eu, temos uma circunstância em comum, orgulho que carregamos e ostentamos com vaidade: fomos alunos da professora Graziela Ferreira  da Silva.

Maria Léa vai além, muito distante deste cronista: é filha do insigne professor Theófilo Ferreira da Silva.  

araujo-costa@uol.com.br   

A demagogia de Lula da Silva e de seu ministro loroteiro  

Presidente Lula da Silva e ministro Wellington Dias/Ricardo Stuckert

Wellington Dias (PT), ex-governador do Piauí e hoje ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, à semelhança de seu chefe Lula, é demagogo e contador de lorotas.

Wellington Dias é aquele mesmo ministro sorridente e feliz que apadrinhou a esposa num cargo vitalício no Tribunal de Contas do Estado do Piauí, com salário aproximado de R$ 40 mil por mês, em valores de hoje, mais as incontáveis e gordas mordomias, enquanto as pessoas que ele diz cuidar – os necessitados que passam fome – continuam passando fome, muita fome.

Entretanto, o PT, Lula da Silva e seu ministro de Combate à Fome dizem que excluíram a pobreza, de modo que, segundo eles, ninguém mais passa fome no Brasil.

Lorota. Embora assim, há quem acredite no que eles dizem.

Eles se sustentam em estatísticas frias, irreais, distorcidas e em demagogias eleitoreiras, essencialmente eleitoreiras.

Loroteiro, o ex-governador e rico ministro Wellington Dias disse recentemente, em entrevista, que “o Brasil vive um dos melhores momentos de sua história no combate à fome.” (Canal Gov – EBC).

Em São Bernardo do Campo, berço político de Lula da Silva, tem gente passando fome.

Ninguém me contou, ninguém me conta. Eu vejo. Diuturnamente.

Dou exemplo claro, indubitável e incontrastável de que a verdade é outra, bem diversa do delírio proposital do PT, de Lula da Silva e de seu ministro loroteiro.

Wellington Dias, o ministro demagogo de Lula da Silva, suspendeu há meses o benefício de um adolescente com transtorno do espectro autista, único meio de subsistência do menor. Há muitos na mesma situação.

A mãe solteira, sem emprego e sem renda, vive de “bico” e cuida do filho.

Em 02/10/2025, previamente agendado, o adolescente foi encaminhado para submeter-se a perícia medida na agência do INSS de São Bernardo do Campo. A médica que atendeu sequer olhou o laudo que atestava a situação e o grau de autismo do menor.

Não se sabe se, de fato, a criatura é médica ou faz parte dessas maracutaias que os corruptos do INSS engendraram, dentre muitas, a exemplo das que culminaram no roubo aos aposentados e pensionistas.

Despreparada, a “médica” (merece aspas), de forma acintosa e inconveniente, perguntou à mãe do autista, que se sentiu humilhada, evidentemente:

– Por que ele não trabalha? Põe pra trabalhar.

Em seguida, alegou que o “sistema” caiu e, indiferente com a situação, dispensou a mãe do menor autista sem atendimento e sem nenhuma solução ou orientação para o caso grave.

Ora, todos sabemos da dificuldade para agendar perícias no INSS, inclusive quanto ao tempo de espera. Imaginemos a sensação de desamparo para quem está passando fome, precisa do benefício para comer.

Em resumo: o benefício do autista continua suspenso por ordem do governo Lula (que cuida dos pobres) e a situação de miserabilidade do adolescente e de sua mãe persiste, sem nenhuma esperança de solução.

E o rico ministro petista Wellington Dias (que cuida dos pobres) certamente não está preocupado com pobres, mas com sua vida nababesca.

Revoltante. Muito revoltante.

Tratando-se do governo petista de Lula da Silva que alardeia cuidar dos pobres e miseráveis é, no mínimo abominável, sua atuação nesse particular, que envolve pessoas doentes e necessitadas.

Enquanto isto, o INSS continua esse antro de corrupção.

E há uma profusão de incautos e fanáticos que acreditam nesses impostores, enquanto milhares passam fome.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá e o balançar da saudade

Eloísio Gomes de Miranda e Elzi Monteiro Barbosa Gomes/Arquivo Eloísio Filho

Quando a memória cutuca os recônditos e revira o passado, costumo lembrar amigos, tempo, saudade, circunstâncias. 

São pedaços adormecidos do caminhar que provocam às vezes risadas e, outras vezes, angústia, ao constatar o correr apressado do tempo. É um olhar no retrovisor e o alcançar da distância.

Nomes surgem e desponta o balançar inevitável da saudade. Assim, me veem as lembranças do curso ginasial em Curaçá e com elas se somam nomes de colegas, alguns dos quais se transformaram em amigos, em razão da convivência diuturna no Colégio Municipal Professor Ivo Braga.

Ei-los, dentre outros igualmente inesquecíveis: Arivan Evangelista Alves, Elias Pereira Jordão, Eliene Monteiro, Elzi Monteiro Barbosa, Elzeneide Monteiro Barbosa, Suely Maciel de Souza, Tereza Cristina Gomes Miranda, Wilson José Soares Ferreira, David José Ferreira Só, Ivonete Alves Costa, Izabel Cristina, Eliomar Monteiro Costa, Maria de Fátima Araújo, Maridalva Nunes Guimarães, Eloísio Gomes de Miranda, João Pereira Rego, Alice Pereira Rego, Adelaide Monteiro e Regina Lúcia Xavier.

Éramos estudantes do Colégio Municipal Professor Ivo Braga e formávamos uma espécie de confraria da amizade.

Houve um tempo em que Curaçá era sinônimo de alegria e constante bem-estar. Hoje mudou um pouco. A violência cruel já chegou por lá e frequenta o noticiário, mas essa é outra história triste que não deve se intrometer nesta crônica já um tanto confusa e pontilhada de recordações.

Dentre os professores do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, destacavam-se: Dr. Pompílio Possídio Coelho, Dr. Jaime Alves de Carvalho, Terezinha Conduru de Almeida, Excelda Nascimento Santos, Noêmia de Almeida Lima, Maria Auxiliadora Lima Belfort, Dionária Bim, Lenir da Silva Possídio, Herval Francisco Félix.

Prolegômenos à parte, hoje ocupo-me de dois amigos, sem olvidar os demais, que nessa quadra do tempo, ainda me são muito caros. Quando ainda jovem, fui trabalhar e estudar em Curaçá. Eles me acolheram, deram-me aconchego, amizade, atenção: Elzi Monteiro Barbosa Gomes e Eloísio Gomes de Miranda (Meu Lú).

Esse simpático casal – Elzi e Meu Lú – se esteia nos patriarcas Otoni Barbosa e Abílio Gomes que lhes deram educação, formação de caráter irrepreensível e sabedoria para enfrentar o turbilhonar da vida.

A família Monteiro, de Curaçá, confunde-se com a história do lugar, desde muito tempo. Como se diz, no dia a dia, tudo gente boa, de valor, de consideração.

Em brilhante crônica publicada no portal Curaçá Oficial de 20/12/2022, o ínclito Omar “Babá” Torres escreveu que Abílio Gomes  tinha “permanente bom humor, a contagiante serenidade e a interminável paciência e simpatia.” 

A casa da família Monteiro, incluídas as irmãs Elita, Edelita, Elzeneide e Elzi era um lugar aconchegante que frequentei em Curaçá. Família decente e espirituosa, nos recebia a todos com muito carinho e generosidade.

Nossa juventude se foi apressadamente, mas a amizade persistiu, ficou, sedimentou. Os trancos e barrancos da distância não abalaram a construção daquela convivência sadia e alegre.

Por falar em alegria, naquela quadra do tempo, estudantes barulhentos, mas comportados, cantávamos Felicidade (Lupicínio Rodrigues), Medo da Chuva (Raul Seixas), Não chore mais (Gilberto Gil), We said Goodbye, (Dave Maclean), She made me cry (Grupo Folhas), Além de tudo (Benito di Paula), Porque brigamos (Diana), Sangue latino (Secos e Molhados) e tantas outras que povoavam o ambiente da juventude da época.

Quanto ao Ivo Braga continua lá, impecável, mais moderno e a cada dia mais brilhante. Já ultrapassou seis décadas – foi fundado em 06/08/1962 – educando gerações e indicando novos caminhos à juventude.

Ex-aluno, carrego a lembrança dos colegas, amigos, professores e, sobretudo, do viver daquele tempo.   

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