Teoria dos juízes corruptos.

Quem quiser confirmar esse caso pergunte ao jornalista Juca Kfouri, lulopetista de alto costado, impoluto homem de esquerda, senhor de grande respeito e que está aí vivíssimo da silva, graças a Deus.

Gosto muito dele.

Em 1969, Carlos Knapp, militante de esquerda, com a ajuda de amigos, inclusive de Juca Kfouri, fugiu da feroz ditadura militar e refugiou-se em Montevidéu, no Uruguai.

Às pressas, perseguido pela polícia da ditadura, que estava em seu encalço, embarcou disfarçado num fusca e deixou seu reluzente Mercedes Benz no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Nunca mais viu o carro.

O delegado Sérgio Paranhos Fleury, ícone da repressão na época da ditadura militar, se apropriou do Mercedes de Carlos Knapp e o usou durante dez anos como se dele fosse, até morrer.

Fleury era o chefe do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo e terror da esquerda militante, que lutava contra a ditadura dos generais.

Ou seja: o delegado Fleury cometeu crime de apropriação, assim como fazem magistrados de norte a sul do Brasil.

Só para lembrar aos mais jovens: Sérgio Fleury foi o delegado comandante da emboscada que matou o guerrilheiro comunista Carlos Marighella em 04 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo.

Quando o leitor se deparar com juiz, desembargador ou ministro de tribunais superiores arrogante e grosseiro, comece a desconfiar. Ele é potencialmente corrupto.

O magistrado corrupto usa a arrogância e a tática do distanciamento para desviar-se do foco, qual seja, sua conduta repreensível e criminosa.

Magistrado decente, que se preza e respeita a nobre função de juiz, não menospreza advogados, réus, investigados, et cetera, por uma razão muito simples: o magistrado é a nobreza em si, a voz e o poder do Estado e, como tal, deve respeitar qualquer um, independentemente de ser ou não acusado. Aí está sua tão exigida imparcialidade. Aí está sua humildade.

É a lei que assim dá o parâmetro, nada mais do que a lei.

Há inúmeros casos de juízes, desembargadores e ministros de tribunais, que saem por aí atropelando a Constituição e decretando prisões atabalhoadamente, como se fosse o suprassumo da honestidade e o pedestal da intocabilidade.

Conheci um juiz em São Bernardo do Campo, em São Paulo, que certa vez me deixou esperando praticamente uma tarde inteira para colher seu despacho num processo cautelar e, portanto, urgente.

Simplesmente com o intuito de me deixar esperando. Não havia outra razão. Estava em seu gabinete, acompanhado de um auxiliar. Soube depois, que Sua Excelência se ocupava naquela tarde de fazer jogo da loteria esportiva durante o expediente.

Portanto, segundo a acanhada inteligência daquele juiz, dane-se o advogado e dane-se quem, naquele momento, dependia da Justiça. A urgência era apenas um detalhe.

Esse juiz foi condenado e preso, por extorsão. Ele extorquiu 177 vezes, no exercício da função de juiz. Cometeu 177 vezes o crime de extorsão. Pedia dinheiro para decidir a favor de quem lhe atulhava os bolsos.

Esse mesmo juiz, depois de preso, por muito tempo, ainda continuou a ganhar R$ 52 mil, a título de aposentadoria, paga pelo contribuinte, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo, diante da aberração e pressão da sociedade, acabou destituindo-o do cargo de juiz.

De outra feita, um juiz de São Caetano do Sul, também em São Paulo, não me atendeu porque, apesar de estar de paletó, eu não usava gravata. O caso era de extrema urgência e não havia tempo de preocupar-me com gravata.  

Quase fui preso por desacato. Protestei e disse que o direito do meu cliente não estava na gravata que eu deveria usar, mas na lei que eu estava invocando.

Não faz muito tempo, no Rio de Janeiro, um juiz que adorava holofotes, foi condenado à prisão, por apropriar-se de um Porsche do empresário Eike Batista.

O juiz havia apreendido o veículo de luxo em processo que deveria julgar, mas passou a usá-lo como se fosse dele.

Ficaria aqui, horas, citando casos de magistrados arrogantes e corruptos. Dá para compor uma triste e constrangedora enciclopédia.

Não vou cansar o leitor.

Qualquer semelhança com magistrados que estão por aí, diariamente diante dos holofotes e pisando na lei, é mera coincidência.

A sociedade precisa deixar de se apequenar e vigiar nossas autoridades, inclusive magistrados, que se acham intocáveis.

A lei vale para todos, inclusive para os magistrados.

araujo-costa@uol.com.br

Política: só a educação pode nos salvar

Um país que vê o ex-juiz Sérgio Moro como salvador da Pátria carece urgentemente de educação para ajustar os parafusos do discernimento político.

Urge que o Brasil construa escolas, forme e habilite professores para abrirem as mentes das gerações que estão chegando e clareie a escuridão que nos assusta e pode nos levar ao precipício, ao abismo, ao despenhadeiro.

O Brasil precisa estruturar as mentalidades, estimular a inteligência, extirpar a cegueira política e desanuviar nossa capacidade na hora do comparecimento soberano às urnas.

As gerações passadas e as atuais sucumbiram à ignorância política e à bajulação aos políticos poderosos.

O Brasil aumentou a pobreza e seus miseráveis, dizimou a esperança dos mais necessitados.

O Brasil criou uma casta de privilegiados e enalteceu os imbecis, os pusilânimes, os idiotas, os larápios.

Um sujeito que conspurcou o Poder Judiciário e enxovalhou a nobilíssima função de juiz não pode sequer ser idealizado como possível candidato a presidente da República.

Contudo, num País que tem Bolsonaro como presidente e eleva ao pedestal ex-mandatários corruptos, tudo é possível, inclusive achar Sérgio Moro um sujeito intelectualmente honesto, capaz e decente.

Estamos numa quadra do tempo em que, na descida, as pedras rolam para cima, em sentido contrário.

Mas viva a democracia!

Ela ainda é o melhor caminho possível.

araujo-costa@uol.com.br

Sérgio Moro e a trajetória dos covardes

Penitenciária de Salvador, março de 1944.

O jornalista sergipano Joel Silveira, dos Diários Associados, conhecido como a “víbora da reportagem”, foi até lá e entrevistou alguns “cabras” de Lampião, que estavam presos, dentre eles Ângelo Roque, Saracura, Cacheado e Volta Seca.

Volta Seca, o mais petulante, que chegou a enfrentar o chefe Lampião, segundo registro da história, preparou-se para a entrevista.

Joel Silveira perguntou:

– Lampião era valente?

Volta Seca respondeu:

– Homem, não sei. Rodeado de amigos bem armados e dispostos, todo mundo é valente. Nunca vi ele brigar sozinho. Lampião só andava rodeado e assim qualquer trabalho é fácil.

Há 36 anos, Joel Silveira relatou a entrevista em Tempo de Contar, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1985.

O ex-juiz federal Sérgio Moro vivia rodeado de uma gigantesca estrutura pessoal e jurídica, dentre dezenas de serventuários, seguranças, informantes, jornalistas e poder, muito poder.

Ostentava a judicatura, a arrogância e a caneta e, nesta condição, Sérgio Moro fez miséria e levou o terror até muitos, sem critérios plausíveis de julgador pago pelos contribuintes para fazer justiça.

Perseguiu réus, investigados, advogados, empresários, decretou a prisão de mais de uma centena de criminosos ou supostos criminosos, mandou executar conduções coercitivas ilegais e mais um amontoado de disparates.

Sérgio Moro fez conluio com algumas conhecidas figuras do Ministério Público, de modo que meteu os pés pelas mãos e acabou cometendo muitas e reiteradas injustiças. Pior: presume-se que fez tudo isto de propósito, ciente de que estava proferindo decisões processuais contrárias à lei e de olho em seu futuro.

Agora Sérgio Moro está do outro lado, do lado das pessoas comuns, do lado dos mortais, espectador da realidade, como todos nós.

Para piorar, Sérgio Moro caiu em desgraça no Supremo Tribunal Federal (STF), que o declarou incompetente e suspeito para conhecer e julgar alguns processos. Levou bordoadas doídas até de ministros que antes lhe apoiavam.

Sérgio Moro não dispõe mais do poder da jurisdição, que não soube usar, não tem mais caneta, não é mais rodeado de toda a estrutura do Poder Judiciário Federal para, através dela, cometer insanidades em nome da Justiça.

Mais: Sérgio Moro caiu em desgraça de deputados, senadores, bolsonaristas, lulopetistas, de grande parte da esquerda que endeusa Lula da Silva e de outra parte considerável da direita que enaltece Bolsonaro.

O portal UOL de 10/11/2021 diz que Sérgio Moro, por ser “muito cru”, vai frequentar aulas de oratória e fonoaudiologia com o intuito de enfrentar os debates com os demais candidatos.

É compreensível. Sérgio Moro não sabe falar.

Sérgio Moro sonhava em ser ministro do Supremo Tribunal Federal. Como não deu certo com o presidente Bolsonaro, acertou-lhe um coice traidor e saiu do governo.

Agora, Sérgio Moro quer ser presidente da República ou, na pior hipótese, pretende apoiar um candidato que, ganhando a presidência, prometa indicá-lo para o Supremo Tribunal Federal.

O ex-procurador Deltan Dallagnol, cúmplice de Sérgio Moro, em data recente deixou o Ministério Público para, à semelhança do ex-juiz, entrar na política e, possivelmente, manter a nebulosa parceria entre ambos.

A atuação atabalhoada de Deltan Dallagnol na Lava Jato, ao lado de Sérgio Moro, rendeu-lhe alguns processos disciplinares e acentuado desprestígio diante da instituição Ministério Público.

Sérgio Moro seguiu a trajetória dos covardes. Quer realizar seu sonho pisando no ombro de centenas de pessoas que perseguiu enquanto juiz federal, em nome da Justiça.

A teoria do cangaceiro Volta Seca se encaixa como uma luva no caráter duvidoso de Sérgio Moro.

araujo-costa@uol.com.br  

Curaçá de lembranças e boemias

Prefeitura de Curaçá/Foto retirada do Google.

Curaçá é um município encravado no sertão da Bahia.

A sede, constituída de casas baixas, debruça-se à margem direita do São Francisco e ostenta uma beleza encantadora, por conta das paisagens e tradições nascidas em torno do rio, sua história e sua gente. Terra de marujos e ribeirinhos espirituosos.

Cidade antiga e admirada por seus filhos, aos quais me incluo, Curaçá traduz um clima cultural que seus antepassados foram sedimentando e perenizando ao longo dos anos.

Curaçá inspira, traduz paz, ternura, alegria.

O crepúsculo em Curaçá é encantador.

Como toda cidade que se preza, Curaçá também teve seus boêmios, como os tem até hoje. Um deles, José Amâncio Filho (“Meu Mano”), nascido ao apagar das luzes do século XIX, suas músicas ainda frequentam a boemia curaçaense.

Outro boêmio mais contemporâneo e sedutor era Zito Torres, inteligente e incorrigível.

Já escrevi noutra ocasião, em algum lugar, que Zito merece um monumento à cordialidade. Era gentil, humilde, atencioso, amigo, cordial.  Zito fazia da vida um turbilhão de bondade e decência.

Havia um imóvel no chamado centro histórico de Curaçá, onde se lia no frontispício, talhadas com esmero, as palavras Luar do Sertão. Não sei se ainda estão lá o imóvel e as letras. Se não continuam lá, é porque extirparam um pouco da história do município, coisa comum nos dias de hoje, em qualquer lugar.

O nome deve ter sido inspirado no clássico Luar do Sertão, do maranhense Catulo da Paixão Cearense, que um colega meu dos tempos da faculdade insistia em dizer que era cearense. Nunca consegui convencê-lo de que Catulo era natural do Maranhão. Hoje acho que era gozação dele.

Composta em 1914, a música alcançou e já ultrapassou cem anos e ainda hoje continua sendo cantada por jovens e velhos.

Catulo sustentava ser o autor de Luar do Sertão, mas a história registra uma controvérsia: o autor seria João Pernambuco, contemporâneo de Catulo.

Em Curaçá vivi parte de minha fase de jovem irrequieto, às vezes afoito com as coisas da vida, outras tantas dedicadas à reflexão e à boêmia, nas horas vagas.

Agora vêm as lembranças que invadem os dias e me trazem a saudade do romantismo daquele tempo, diverso das vicissitudes de hoje. Coisas da idade.

O mundo daquela juventude era a própria juventude. A única droga possível era a bebida alcoólica vigiada pelos pais que nos repreendiam.

O parâmetro que balizava a nossa mocidade era o respeito aos mais velhos e o desejo de ser correto perante a sociedade. Os professores eram nossos melhores exemplos.

Os sonhos eram claros, claríssimos: crescer intelectualmente para a vida, ser irrepreensível em sociedade.

Mais: nunca perder de vista que “a felicidade é o devotamento a um sonho ou a um dever”, nas lições do pensador francês Ernest Renan (1823-1892). 

Guardo nas páginas da lembrança alguns amigos daquele tempo. São tantos! Foram tantos!

Um deles, Wilson José Soares Ferreira. Muito jovem, lembro-o cantando “Último desejo”, de Noel Rosa e “Como vai você”, de Antonio Marcos, gravada por Roberto Carlos. Eu o admirava pela obediência que devotava aos seus pais, José Ferreira Só (Zé de Roque) e D. Elita Soares.

Zé de Roque e D. Elita constituíram uma das famílias mais admiráveis de Curaçá. Zé de Roque era simpático, solícito, carismático, compreensivo. D. Elisa era a sapiência, o exemplo de humildade.

O tempo passou. Passaram-se décadas.

Há algum tempo estive em Curaçá, em viagem de urgência, um tanto incógnito, porque a situação exigia e vi, intacta, a boemia em suas calçadas, nos bares por onde andei e, sobretudo, na firmeza de sua cultura. 

Detive-me, por algum tempo, em frente à antiga SCAB (Sociedade Curaçaense, Artística e Beneficente) e Rua Coronel Pombinho. Lembranças caudalosas me impulsionaram de volta à mocidade. Revisitei, em memória, Astério Xavier, Adelson Xavier, Maria Roselita e o Curaçá Hotel. 

Dei um abraço de saudade na memória de Edvaldo Araújo (amigo de constantes e contínuas farras) e Maria Almeida Araújo (D.Nenzinha), acumpliciei-me com Maria de Lourdes Lopes (Maria de Fortunato), recordei as intermináveis conversas com Herval Francisco Félix e deixei outros amigos para a próxima visita.

Do alto de minha insignificância, que não é coisa pouca, ninguém me viu transitando pelas ruas de Curaçá, ninguém me reconheceu.

Retirei-me de volta e trouxe comigo a saudade do tempo, dos amigos, do lugar.
 

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Omar “Babá” Torres e as Raízes do Cangaço

Omar Dias Torres/foto Brasil de Fato, Petrolina.

Raízes do Cangaço é um alentado livro de 360 páginas lançado por ocasião dos 83 anos do episódio de julho de 1938, em Angicos, Sergipe, que dizimou Lampião e alguns dos seus leais cangaceiros.

O autor é o jornalista e escritor Humberto Mesquita, abalizado conhecedor do assunto e cauteloso pesquisador.

O prefácio honra-nos a todos nós, filhos de Curaçá. É da lavra de Omar “Babá” Torres, que contribuiu decisivamente com as pesquisas e tem, por isto, valiosa participação no conteúdo da obra.

O cerne do livro tem como fundo as desigualdades sociais no sertão nordestino e o protagonismo e domínio dos poderosos coronéis de então. Aí – parece – estão as raízes do cangaço, tal como entendem o autor e o prefaciador.

Omar Torres diz que “o sertão nordestino é um mundo profundamente complexo e intenso, talvez por isso, fascinante e sedutor”.

O prefácio acrescenta que “as sofridas relações do homem com a natureza, a aridez das caatingas, a tristeza das secas, as alegrias das chuvas, a sólida estrutura de um poder perverso e opressor, a passividade de alguns e a violenta reação de outros, são exemplos das intensas contradições” por que vem passando o Nordeste, mais ainda, à época do cangaço.

Omar Torres estende-se para acentuar que “o autor atravessou caatingas fechadas, trilhou veredas e caminhos de uma história e de um tempo que ainda não acabou”.

O prefácio é enriquecedor e, mais do que isto, sintetiza o retrato de uma época de violência que, de resto, faz-se presente em nossos rincões nordestinos, embora em circunstâncias outras.

Na larga visão de Omar Torres, “Raízes do Cangaço nos traz o conhecimento e a compreensão de como se formou e se estruturou um poder que parece arcaico, distante e ultrapassado, porque assentado ao longo de séculos sobre a violência, a opressão e a concentração, mas também, e esse é um dos seus grandes méritos, não nos permite esquecer que essa estrutura se transforma, moderniza e sobrevive”.

Forças policiais, também chamadas volantes, cangaceiros, coronéis e coiteiros povoam sobremaneira a obra.  Esses elementos sustentaram o cangaço e com ele o medo e a violência nos sertões.

As raízes do cangaço repousam, segundo o autor, na “ação nefasta dos colonizadores que quiseram escravizar silvícolas e negros africanos”.

As desigualdades sociais teriam nascido dessa ganância, mormente para lastrear os latifúndios e viriam desembocar, mais tarde, no cangaço.

Voltando ao prefácio, Omar “Babá” Torres encerra-o dizendo: “E nós, os velhos catingueiros, continuamos aprendendo e nos conscientizando de que é importante sabermos ser enganados pela vida, convencidos de que mais vale uma esperança tarde do que um desengano cedo”.

Crédito Lampião Acesso

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Dias Toffoli, o empresário

Dias Toffoli aqui não é o ministro. É o irmão do ministro.

O Antagonista noticiou – e outros órgãos de imprensa repercutiram – que o cônego José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, ambos irmãos do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, compraram 33,33% de um luxuoso resort em Ribeirão Claro, Paraná.

A diocese paulista de Marília informou que vai afastar o cônego José Carlos de suas funções religiosas, depois do noticiário um tanto inexplicável, embora não seja proibido ser rico.

A imprensa diz que o cônego Dias Toffoli mora numa modesta casa, compatível com sua condição e humildade de religioso e incompatível com tão luxuoso empreendimento do qual ele passou a fazer parte do quadro societário.

O cônego “estará em tempo para descanso, fortalecimento espiritual, apostólico e também de estudo”, segundo nota da diocese.

É possível que o cônego esteja precisando disto tudo. E de reflexão.

É para esse famoso e luxuoso resort, frequentado por gente da elite, que o ministro Dias Toffoli (STF) costuma levar amigos para encontros de lazer.

Leia-se também:

Precisamos de um Brasil decente, onde todos sejam iguais perante a lei e não somente nas páginas da Constituição Federal.

Se o ministro Dias Toffoli (STF) se comporta segundo os artigos acima delineados, não significa dizer que esteja cometendo ilegalidade, mas amparado na legislação que assim lhe permite.

Então, a legislação carece de mudança para, no mínimo, igualar-se à decência.

Precisamos de um Brasil sem fanatismo de direita, de esquerda ou de quaisquer segmentos, mas um Brasil de todos.

É preciso que as novas gerações construam um novo Brasil.

Minha geração fracassou.

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Chorrochó, conversa de botequim

Há algum tempo vi numa rede social citação ao Bar de Nonon, em Chorrochó. A referência dizia que é “um dos melhores lugares de Chorrochó”, segundo registrava o jovem e conspícuo advogado Luiz Alberto de Menezes Filho (Betinho).

A última vez que estive em Chorrochó, passados quinze anos, o Bar de Nonon ocupava o mesmo espaço do histórico Bar Potiguar. Não sei se ainda está lá ou se mudou de lugar.

O advogado Betinho vem a ser neto de Francisco Arnóbio de Menezes, honra e glória de Chorrochó, um dos mais assíduos frequentadores do desaparecido Bar Potiguar.

Nonon, que é um senhor de respeito, deve ter mantido a urbanidade, a tradição e o bom atendimento que os clientes do Bar Potiguar recebiam.

Modéstia à parte, fui garçom do Potiguar. Garçom não é bem a palavra certa. Eu era um faz-de-conta que exercia o papel de garçom e me dou à jactância e ao vaidoso esmero de dizer que não era um garçom tão ruim assim e até metido a besta.

Neste meu caso, a modéstia dá lugar à vaidade. Guardo um pouco de orgulho de ter sido garçom do Bar Potiguar e de ter construído muitas amizades nascidas ao entorno de seu balcão.

Hoje, acabrunhado pelas dores e atribulações da vida, a memória me leva à juventude, aos melhores anos, à usança do tempo, às conversas de botequim em Chorrochó.

Toda cidade, seja metrópole ou do interior, tem o seu ponto de encontro.

São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, advogados, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.

Chorrochó, minúscula cidade do sertão baiano, também tinha o seu mais famoso ponto de encontro: o Bar Potiguar. Central, arejado, convidativo, respeitado.

Na segunda metade da década de 1960 lá despontou – e durou por muito tempo – uma espécie de sociedade irrequieta, formada de jovens, geralmente estudantes do então Colégio Normal São José, que fazia uma cidade alegre e hospitaleira.

Esses jovens, a maioria proveniente da zona rural, construíram, dentro de seus limites interioranos possíveis, um mundo entrelaçado de fantasia e realidade.

O Bar Potiguar, hoje desaparecido, era o ponto de encontro desses jovens, ávidos por atingir seus sonhos e propensos, todos eles, a trilharem o caminho do futuro em busca dos seus ideais.

O Bar Potiguar também era uma espécie de universidade de costumes. Foi lá que conheci os três homens mais valentes e inflexíveis de caráter, até hoje: Eloy Pacheco de Menezes, José Pires Filho (Ioiô) e José Eudes de Menezes (Iê).

De lá saía o conhaque para o Dr. Olinto Lopes Galvão Filho, primeiro juiz da comarca de Chorrochó e lá frequentou, mais tarde, outro juiz da comarca, Dr. Benedito José Carvalhal de Souza.

A boemia se tornou uma sadia forma de agregação de amizades que perduraram.

Muitas dessas pessoas hoje são profissionais, preocupadas com tempo e objetivo, mas inarredavelmente ligadas àquele passado de ternura e convivência responsável.

Sobressaíam-se, naquele tempo, nesse ambiente de amizade e cordialidade, uns mais jovens, outros mais experientes, como assíduos frequentadores do bar Potiguar: Juracy Santana, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, José Osório de Menezes, João Bosco de Menezes, Neusa Maria Rios Menezes, José Juvenal de Araújo, Antonio Wilson de Menezes, Geraldo José de Menezes, Maria Lenisse Oliveira Alves de Santana, Almira Marques Ribeiro, Eremita Marques Ribeiro, Antonia Marques Ribeiro, Marinalva Araujo, Raimunda Ribeiro Coelho, Ângela Maria Silva, Carlos Bispo Damasceno, Fabrício Félix dos Santos, Ernani do Amaral Menezes, José Eudes de Menezes, José Claudionor Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, José Evaldo de Menezes, Francisco Afonso de Menezes, José Jazon de Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes (Tutu), Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes, José Claudio de Menezes (Dedé de Juca) e tantos outros, alguns já falecidos, mas inesquecíveis.

A lista é extensa, mas limito-me a alguns nomes para evitar um massacre maior da saudade, pedindo vênia pela omissão dos demais.

E havia, de quando em vez, a frequência dos mais velhos, que nos deixavam mais seguros e nos amparavam em nossas fragilidades de jovens inexperientes: Eloy Pacheco de Menezes, Horácio Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra, Luiz Pacheco de Menezes, Francisco Arnóbio de Menezes, José Pires Filho, Joviniano Cordeiro de Menezes e etc. 

Surgiam presenças fortuitas e rápidas, a exemplo de Dorotheu Pacheco de Menezes.

Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião e de amigo.         

Qual a importância dessas lembranças?

A resposta talvez esteja na certeza de que foram essas pessoas que sustentaram, naquele tempo, em Chorrochó, a melhor escola que se possa ter na vida: a amizade.

Embora às vezes angustiantes, conversas de botequim também enriquecem a convivência, independentemente de jovens, velhos, trôpegos e bêbados.

A embriaguez etílica é mais filosófica do que cômica.

araujo-costa@uol.com.br

Salários atrasados em Chorrochó

De Juazeiro, bonita cidade baiana debruçada à margem do São Francisco, liga-me conhecido e querido leitor que – parece – vive perdendo tempo em ler meus textos.

Sinto-me lisonjeado por isto, embora deva entender que seria mais proveitoso ao digníssimo leitor se ocupasse seu precioso tempo com outra coisa mais importante.

Meus textos são enfadonhos, prolixos, extensos, assim dizia outro dia um amigo de minha querida Curaçá. Não exatamente com essas palavras, mas foi o que ele quis dizer. “Em tempo de internet, ninguém tem tempo para ler textos longos”, advertiu ele.

Tem razão.

Pergunta o leitor de Juazeiro se este escrevinhador sabia que a Prefeitura de Chorrochó está atrasando salários de parte dos servidores.

Não. Não sabia.

Recuso-me a acreditar que a Prefeitura de Chorrochó esteja atrasando pagamento de salários, inobstante a informação partir de fonte fidedigna, que acredito e prezo muito.

Pode ser engano. Deve ser engano.  

Chorrochó é “cidade do progresso e do desenvolvimento”, diz a publicidade oficial do município, ou pelo menos dizia, há pouco tempo, de modo que não conheço nenhum caso em que o progresso e o desenvolvimento se compatibilizem com salários e vencimentos atrasados.  

Ao contrário, qualquer instituição pública ou privada que atrasa pagamento de salários não pode ser desenvolvida, nem pode estar progredindo.

Salários atrasam por duas razões óbvias: má gestão ou dificuldade financeira. Não há outra hipótese por mais plausível que possa parecer.

Modestamente, acho que Chorrochó não passa por nenhuma dessas situações.

Todavia, não devo me alongar com esse assunto. Acho o prefeito de Chorrochó um caso sem jeito.

O homem é sábio em absorver críticas. Deixa-as todas pra lá, não dá bola para adversário e tampouco para jornalistas mentecaptos como eu, que vivem metendo o bedelho em coisas assim.

O prefeito é frio como asa de avião.

E sabe-se que vive muito bem assim, indiferente às reclamações de seus munícipes ou parte deles.  

araujo-costa@uol.com.br

Na Bahia, Ângelo Coronel aguarda o palanque

Um Estado que tem Ângelo Coronel e Otto Alencar como representantes no Senado da República só pode estar politicamente de joelhos.  

O consolo é que devemos respeitar e reverenciar a vontade soberana das urnas. Sempre.

Assim como os demais estados, a Bahia é representada por três senadores. O outro é o petista Jaques Wagner, que sabe tudo de esperteza política.

Sindicalista, Jaques Wagner deve ter aprendido tudo de velhacaria nas greves dos petroquímicos de Camaçari e nos efervescentes gabinetes sindicais, que também foram eficientes escolas de Lula da Silva.

Os sindicatos sempre foram bons negociadores. Por isto, Lula soube negociar tão bem as maracutaias que implantou nos governos petistas. Assim como Lula, Jaques Wagner é exímio negociador.

Em ano eleitoral – 2022 – outra comissão parlamentar de inquérito vai frequentar as páginas da imprensa. Desta vez é a CPMI (mista, deputados e senadores) das Fake News.

O presidente da próxima CPMI-Palanque, que já está instalada há algum tempo, é o senador Ângelo Coronel (PSD-BA).

Ângelo Coronel é aquele mesmo senador acusado de ter sido agraciado com polpudo valor proveniente do tão criticado orçamento secreto de R$ 40 milhões em emendas, que o governo Bolsonaro instituiu – ou manteve o que já tinha sido instituído – para adoçar a boca de parlamentares vendáveis e dar sustentação à base governista no Congresso Nacional.

Ângelo Coronel é aquele mesmo senador que, em delação premiada homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), a desembargadora Sandra Inês, afastada do Tribunal de Justiça da Bahia, em razão da prática de supostos crimes no exercício da função pública, cravou a seguinte informação: Ângelo Coronel, enquanto era deputado estadual pela Bahia, teria coagido produtores rurais, e que na época “comentou-se abertamente no TJ-BA que ele tinha recebido uma aeronave como pagamento pela sua atuação”. (TV Bahia e G1 Bahia, 14/10/2021).

Ângelo Coronel já negou que tenha recebido um avião de presente e disse que vai processar a desembargadora. Então, vamos acreditar em Sua Excelência. É o bastante.

Ângelo Coronel quadruplicou seu patrimônio entre 2014 e 2018. Passou de R$ 1,5 milhão para 5,6 milhões. Em 2018 sua mansão no bairro de Stela Mares, em Salvador, estava avaliada em valor superior a R$ 4 milhões.

A aeronave não consta da lista dos bens do senador, mas sabe-se que ele tem uma empresa área de nome Jet Gold Serviços Aéreos e que se desloca em um avião particular abastecido com dinheiro público da quota parlamentar.

Como se vê, o senador baiano de Coração de Maria adora uma rapadura doce.

Imagino como se comportará a hipocrisia na CPMI das Fake News. Ângelo Coronel certamente será pressionado a pedir o indiciamento do presidente da República, ao mesmo tempo em que se beneficia de emenda parlamentar proveniente do chamado orçamento secreto.

O orçamento secreto teria sido estimulado por Bolsonaro para amaciar a opinião e o voto de parlamentares em matérias de interesse do governo federal.

Lula da Silva e o PT instituíram o mensalão. A oposição diz que Bolsonaro criou o Tratoraço.

A diferença entre um e outro é que Lula pagava os parlamentares por mês (mensalão) e Bolsonaro paga de uma só vez (emenda-tratoraço). Ou Lula é cauteloso com seus “credores” ou Bolsonaro é bom pagador.

Entretanto, com dinheiro público, não faz nenhuma diferença. Ambos escorregaram na lama.

Como se diz lá nas montanhas de Minas, “bancam o Tiradentes com o pescoço dos outros”.

A relatora da CPMI é a outrora combativa deputada Lídice da Mata, também do PSD da Bahia, que já sinalizou o caminho que a comissão vai seguir: o palanque político-eleitoral.

Como se vê, a Bahia está desmilinguindo seu caráter político.

Terminada a CPI da Pandemia, sai o opaco senador Otto Alencar, mas permanece outro na CPMI das Fake News, o não menos opaco senador Ângelo Coronel.

Jaques Wagner, político esperto, ficou de fora de ambas comissões, para ter tempo de comandar a degenerescência política e eleitoral na Bahia. Fará com êxito. 75% dos baianos apoiam o PT.

Com um peso desses (75%), dificilmente a Bahia não será afundada. Basta ver os índices educacionais e da pobreza na Bahia.

Como é de se supor, o fim da CPMI das Fake News será igual ao da CPI da Pandemia: rotos falando de esfarrapados.

E milhões de brasileiros acreditando na seriedade dos membros da CPI.

Democracia é assim. Vamos em frente. Sempre com a democracia.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: Elzeneide e a crônica difícil

Em 25/04/2015, publiquei a crônica abaixo transcrita.

Em momento muito difícil e um tanto despedaçado, falava sobre Elzeneide Monteiro Barbosa, minha amiga dos tempos do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de Curaçá.

Há algum tempo, um leitor de Curaçá me pediu que lhe mandasse cópia, razão por que peço desculpa pela demora. Invés de mandar-lhe cópia, reproduzo-a na íntegra.

Ei-la:

Desculpe-me, Elzeneide, não entendi. É muito difícil.

Você, que tanto amou sua família, os amigos, seus colegas de profissão. Amou excelentemente a vida e toda a gente de Curaçá.

Você que tanto ouviu Dave Maclean cantar “We said goodbye”, não como adeus, mas como presença de vida e tantas vezes se emocionou com Benito Di Paula cantando “Além de tudo”.

Você que tinha no coração a razão da amizade, o porquê do gostar e a essência da felicidade.

Você que tanto sorria e brilhava em seu caminhar decidido, firme, indubitável.

Logo você, Elzeneide?

Por que agora? Cadê Elzi, Elita, Edelita? Cadê seus irmãos? Cadê a saudade de seu pai Otoni e de sua mãe que você tanto amava?

Cadê seu pessoal de casa, sua descendência? Você os deixou e também a todos nós, seus amigos. Prematuramente, inexplicavelmente. Saudosamente.

Cadê seu sorriso largo, espontâneo, sincero?

Acho que você quis dizer: “felicidade foi-se embora”.

Não era assim que dizia Lupicínio Rodrigues, que tanto gostávamos de cantar, em nossa juventude, nos tempos de estudantes no curaçaense Colégio Municipal Professor Ivo Braga?    

As notícias às vezes são tristes, dilaceram, cutucam, diminuem nosso ser, alquebram a existência.

Começo e termino esta crônica assim: triste, dilacerado, diminuído. Perdi uma amiga, uma confidente, uma parte de minha história de vida: Elzeneide Monteiro Barbosa.

A vida é um emaranhado de circunstâncias. Há de tudo: tropeços, alegrias, vicissitudes, acasos, saudade, angústias e até, raramente, felicidade. Mas quando chega o fim, só resta a resignação para quem ainda continua à espera do ocaso.  

E esta crônica não pode continuar, porque é triste, fala de um momento duro, cruel, difícil de entender. E ninguém gosta de tristeza.

Mas guardo o registro da amizade de Elzeneide: pura, sadia, inquebrantável, inesquecível.

Guardo a lembrança da sinceridade, do desvelo, da prestatividade, da ausência de maldade no viver da amiga sincera e presente em todas as horas.

A distância nunca encolheu nosso contato. Guardo o carinho, o sorriso inesquecível e também a dor do adeus.

Hoje “meu sorriso sem graça chorou” (“Ah! como eu amei”, Benito Di Paula). 

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