Privilégios: Juízes, promotores e as férias de 60 dias

Na proposta de reforma administrativa que tramita na Câmara dos Deputados, a chamada PEC 32, magistrados e membros do Ministério Público travam uma batalha ingente e buliçosa com o intuito de continuarem com seus vergonhosos privilégios, mormente as férias de 60 dias, uma afronta aos demais brasileiros, que a Proposta de Emenda à Constituição ameaça abolir daqui em diante.   

Iniciativa do Poder Executivo, a reforma dificilmente será aprovada na forma como foi apresentada ao Parlamento.

Juízes e promotores não aceitam ser incluídos na reforma administrativa, por uma razão muito simples: é uma elite que se acha intocável e quer se manter separada dos demais brasileiros, social e financeiramente.

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que está se aposentando, defende a manutenção das férias de 60 dias porque, segundo ele, “muitos ministros, desembargadores e outros operadores do direito destinam dias de férias a tarefas para as quais, no dia a dia do trabalho nas cortes, simplesmente não sobra tempo” (Consultor Jurídico, 14/12/2020).

Gozador, noutras palavras o ministro disse que juízes e promotores trabalham durante as férias.  

O caipira paulista diria, do alto de sua sabedoria: “me engana que eu gosto”.

Casos isolados podem acontecer. Isoladíssimos, absolutamente isolados. Não como regra, que magistrados e promotores trabalham durante as férias.

Se eles são tão abnegados assim, em benefício da sociedade, por que, então, não querem abrir mão desse privilégio e igualarem-se aos demais brasileiros?

Por sua vez, a presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), também em defesa das férias de 60 dias, disse que “o Judiciário tem alta produtividade” (Diário do Poder, 07/07/2021).

Outra gozação. Dizer que o Judiciário tem “alta produtividade” é, no mínimo, uma piada fora de contexto.

Sua Excelência alega que há oito processos diários para cada juiz manusear e decidir.

É que Sua Excelência não conhece a rotina de uma trabalhadora pobre, que levanta às 04:00h da manhã, anda um trajeto a pé, vale-se de duas ou três conduções públicas e trabalha de sol a sol.

Nem conhece a rotina de um trabalhador da produção nas indústrias da vida, que fica mais tempo dentro da fábrica e no trajeto que faz diariamente do que em casa.

Compulsar oito processos por dia é um maná diante do sofrimento e da realidade da média dos demais brasileiros.

Os estratosféricos salários que essa elite abocanha todos os meses, além dos demais penduricalhos que engordam seus contracheques mensais são uma afronta à pobreza dos brasileiros e às classes menos favorecidas.

O fato é que o Congresso Nacional não levará essa discussão adiante até porque os congressistas – deputados e senadores – também estão atolados em privilégios.

E aí dá-se o conluio entre esses privilegiados e fica o dito pelo não dito.

Tudo continuará na mesma.

E nós continuamos pagando os privilégios para magistrados e promotores viverem de forma nababesca.

Eles têm a caneta e nós, pobres mortais, temos o dever de sustentá-los.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia tem governo, diz Rui Costa.

“Posso dizer que aqui tem governo e não terá imagens que vi em outros estados, de motos sem placa e coberta. Aqui a lei será respeitada” (Rui Costa, PT, governador da Bahia).

Está na imprensa e, salvo engano, a declaração foi externada no “Papo Correria”, meio de publicidade de Rui Costa.

O governador baiano fez a declaração ao ser informado de uma “motociata” que seria realizada na Bahia, em apoio ao presidente Bolsonaro.

O governador Rui Costa esqueceu de avisar o baiano Rui Costa que a Bahia tem governo.

Não é o que diz o IBGE.

“Um estudo divulgado pelo Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) revela que a Bahia tem o maior número de analfabetos do país. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), em 2019, mais de 1,5 milhão de pessoas de 15 anos ou mais não sabiam ler nem escrever um bilhete simples, o que corresponde a 13% da população do estado.

Ainda de acordo com o IBGE, esse número é 2,8% maior que o verificado em 2018, e 3% superior ao de 2016” (G1 Bahia, 15/07/2020).

Interessante é que os números aumentaram durante os governos do PT (Jaques Wagner e Rui Costa), o que significa que a Bahia não tem governo tão eficiente assim, como diz nosso admirado governador.

“Quando falamos em esgotamento sanitário, a situação é preocupante. Estima-se que no estado apenas 39,5% da população recebe atendimento de coleta de esgoto, e 52,4% do volume dos esgotos baianos são tratados. Esses índices revelam que há ainda desafios a serem enfrentados, sendo necessário maior atenção por meio do governo” (Saneamento Básico ainda é um problema na Bahia, site Trata Brasil, 02/07/2020).

Poderia desfiar um rosário de falhas do governo da Bahia, como a precariedade de estradas, falta de médicos em pequenos municípios, prédios escolares deteriorados, programas sociais claudicantes ou inexistentes, et cetera.

Nessa referida declaração, Rui Costa foi além e menosprezou os demais governadores, ao dizer: “aqui não terá imagens que vi em outros estados, de motos sem placa e coberta. Aqui a lei será respeitada”.

Em todos os estados há leis, governador. E para serem cumpridas.

Nem o governador de São Paulo, nem o do Rio de Janeiro e nem o da Bahia têm condições de evitar que alguns motoqueiros, em passeatas, cubram placas de suas motos para não serem multados.

São fatos isolados, que fogem ao controle e à responsabilidade dos governadores, quaisquer que sejam os estados.

Mesmo que o mandatário de plantão pretenda ser um supergovernador como quer parecer Rui Costa.

Constatadas as irregularidades, resta ao governo punir os infratores, se meios houver de identificá-los. E certamente há.

É claro que a ocasião não é propícia para “motociatas” e manifestações políticas nas ruas, nesse tempo de pandemia, sejam convocadas por apoiadores do presidente Bolsonaro ou por partidos, movimentos e instituições de esquerda contrários ao governo.

Sejam de esquerda, de direita, de centro ou de qualquer lado, as manifestações fazem aglomerações, que as leis de combate à pandemia coíbem.

Menos política e mais sinceridade, governador.

A Bahia merece.

araujio-costa@uol.com.br

Curaçaense ou não?

Escrevinhador desavisado, fui repreendido por uma insigne e atenta leitora, porque num texto que escrevi recentemente sobre o ínclito Dr. Hélio Coelho Oliveira, honra e glória de Barro Vermelho, lá o qualifiquei como “advogado e professor curaçaense”.

A leitora ensinou, didaticamente: “quem é de Barro Vermelho é barro-vermelhense, não é curaçaense”. “Há uma certa distinção”.

Do alto de minha ignorância, um tanto envergonhado e apoucado por não saber disto, engoli o ensinamento, que agradeço à leitora, mas confesso que consultei algumas publicações de gentílicos com o intuito de amparar minha pretensa sabedoria, que vai se escafedendo aos poucos e esvoaçando-se como cinzas ao vento.

Tenho curiosidade enciclopédica.

Em nenhuma dessas publicações consegui captar a distinção da naturalidade que há – ou deve haver – entre quem nasce no bairro, vila, povoado, sítios, arruamentos ou fazendas e quem nasce na sede do município ao qual pertencem.

Santa ignorância esta minha!

Beirando idade septuagenária ainda cometo gafes deste tamanho. Bem feito. Quem manda escrever sobre assunto que não conheço?

Cada dia me convenço de minha insignificância como jornalista e cronista.

Conseguintemente, entendo que quem nasce no território do município é natural do município.

Para este escrevinhador, até parece óbvio, embora não deva ser óbvio tanto assim.

Na mesma linha, por exemplo, entendo que é juazeirense quem nasce em Juremal, Salitre ou Piranga, em Juazeiro.

Mutatis mutandis, como dizem os latinistas, quem nasce em Patamuté, não obstante ter nascido lá, é curaçaense, como é o caso deste escrevinhador.

Sou patamuteense orgulhoso de ser de lá, mas não abdico de minha condição de curaçaense e até a ostento por onde ando.

Sinto-me lisonjeado quando aqui, no Sudeste, alguém pede minha cédula de identidade e lá está pomposamente delineada minha naturalidade: Curaçá-Bahia.

Dá uma vontade danada de dizer bem alto, para os circunstantes ouvirem: tá vendo aí? Sou de Curaçá.

Por exemplo, parece lógico – ou imperativo – que é soteropolitano quem nasce nos bairros da Pituba, Brotas, Cabula, Rio Vermelho ou Capelinha de São Caetano, em Salvador.

Atarantado, recorri aos meus alfarrábios, que são muitos e desorganizados, tropecei pelos Caminhos de Curaçá, do conspícuo sociólogo Esmeraldo Lopes e nada encontrei sobre a diferença entre ser barro-vermelhense e curaçaense.

Só não consultei a secular Descripção História e Geographica do Município de Curaçá, de meu conterrâneo João Mattos, de Patamuté, nem a Relação de uma missão no Rio São Francisco, do frei Martinho de Nantes.

Ainda folheei as anotações de Enquanto Enlouqueço, do professor e jornalista Lugori, outro curaçaense de respeito.

Debalde. Minha dúvida persiste.

Prometo que ainda vou descobrir. E aprender, para não sair por aí cometendo essas gafes monumentais.

araujo-costa@uol.com.br

Barro Vermelho arrasta a história para mais perto

Dr. Hélio Coelho Oliveira / álbum de família.

Em 24.06.2021, o advogado e professor curaçaense Hélio Coelho Oliveira lançou o livro Barro Vermelho da minha vida, Juazeiro da minha gratidão.

O evento aconteceu na residência do autor, em Barro Vermelho, distrito de Curaçá.

Transcrevo a seguir texto enviado por Maria Betânia, filha do autor que, por si só, é uma apresentação abalizada do livro:

“Ao intitular a obra, o autor traz consigo um leque de informações adquiridas ao longo do tempo com os seus antepassados.

É um livro diferente, pautado em sua maior parte, nas vivências pela terra natal. Dentre as particularidades, está a preservação dos apelidos e nomes informais. Será de grande valia para essa geração, beneficiando seu enriquecimento cultural na busca e descoberta pelos fatos passados que ainda se fazem presentes através do contexto cultural, das raízes que crescem e perduram.

O evento foi animado pela Bandinha 15 de Março, na responsabilidade do maestro Rodrigo Oliveira, que tão bem conduziu os seus discípulos neste momento de emoção.

Barro Vermelho ganha mais uma fonte de pesquisa e a cultura local só tem a engrandecer”.

O livro físico já está disponível e à venda.

Contatos pelo WhatsApp 74 9 8829-0271 e através das redes sociais do autor https://www.facebook.com/heliominhaterraminhavida/ https://www.instagram.com/helioliveira376/?hI=pt-br

O Dr. Hélio Coelho Oliveira fará live, terça-feira, 29/06/2021, às 20:00h, quando será lançado o e-book e passará detalhes sobre a venda através da internet.

Decorridas 24 horas após a live, o livro estará disponível através dos endereços acima referenciados na modalidade e-book.

Este blog havia noticiado o lançamento do livro através de matéria publicada em 14/06/2021 com o título Curaçá: lançamento de livro em Barro Vermelho.

araujo-costa@uol.com.br

A inocência de Bolsonaro e a esperteza de Lula da Silva

“Em política, sempre é preciso deixar um osso para a oposição roer” (Joseph Joubert, ensaísta francês, 1754-1824)

O erro grosseiro e rudimentar do presidente Bolsonaro é este: não deixar o osso para a oposição roer. Recolheu e agarrou o osso para si e seus aliados.

Oposição adora um osso, que se traduz em cargos para amigos e parentes, mordomias, benesses e outras vantagens mais à custa do dinheiro público. E depois vai à imprensa dizer que é honesta. E há quem acredite que toda oposição é honesta.

Há um senador de passado nebuloso na CPI da Pandemia do Senado Federal, que bolsonaristas mais exaltados o apelidaram de “gazela saltitante”, que aparece escandalosamente diante dos holofotes, mais que todos os membros da comissão, dizendo-se o suprassumo da honestidade.  

Como não entendo de gazela – e muito menos saltitante – acho que aquele senador exagera somente com o intuito de aparecer. Supera Renan Calheiros no quesito cara de pau.

Todos os brasileiros conhecem a conduta escabrosa do senador Renan Calheiros. Mas esta é outra história.

Renan Calheiros está lá no Senado Federal, “honestíssimo”, “combatendo a corrupção”, segundo ele.

O presidente Bolsonaro é politicamente inocente, não obstante quase três décadas na Câmara dos Deputados. Nada aprendeu lá, antro dos conchavos nem sempre transparentes.

Bolsonaro pensa que pode tudo. Não pode.

Ninguém pode. Lula da Silva precisou recorrer ao mensalão, para comprar parlamentares corruptos, surrupiar dinheiro de estatais, imiscuir-se nos cofres da Petrobrás e outras reprováveis condutas mais.

Malandro forjado nas madrugadas frias regadas a cachaça, portarias de fábricas do ABC paulista e Sindicato dos Metalúrgicos, Lula sabia e sabe que o dinheiro amolece. Seguiu o caminho natural. Comprou corruptos, governou oito anos e ainda elegeu a sucessora, Dona Dilma Rousseff.   

Muitos desses parlamentares comprados ainda estão lá, posando de honestos.  

Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua experiência de sociólogo e judiado pelos tropeços do exílio imposto pela ditadura militar, também amaciou a aposição e governou, sem problemas.

Todos os presidentes valeram-se de negociação às escuras com o Congresso Nacional para poder governar.

As exceções foram Jânio Quadros (UDN) e Fernando Collor (PRN), que caíram exatamente porque achavam que os parlamentares eram sérios. Deu no que deu. E continuaram achando, mas fracassados.

Jânio incorruptível e Collor arrogante não governaram. Muitos dos corruptos que os impediram, ainda continuam comandando a política em seus estados e redutos eleitorais e no Congresso Nacional.

O presidente Bolsonaro fala demais e quem “fala muito dá bom dia a cavalo” e há muitos cavalos no Brasil.

Bolsonaro está fragilizado diante da maioria dos brasileiros, popularidade em baixa e pressão por todos os lados, principalmente de corruptos que perderam a mamata com sua ascensão ao poder.  

Bolsonaro não se portou corretamente diante da pandemia do coronavírus, como a população esperava.

O ex-presidente Lula da Silva, embora cauteloso, está aí posando de honesto, com o aval do Supremo Tribunal Federal. É tudo. 

“Malandro moderno” – diria Bezerra da Silva – Lula da Silva sabe conversar com corruptos.

Bolsonaro não sabe. É grosseiramente inocente.

araujo-costa@uol.com.br       

Juazeirense Luiz Galvão lança livro sobre João Gilberto

Luiz Galvão, baiano de Juazeiro, amigo de João Gilberto e integrante dos Novos Baianos, lançou o livro João Gilberto, A Bossa.

Conhecedor abalizado de João Gilberto, de quem era amigo desde a juventude em Juazeiro, Luiz Galvão mostra outro lado do criador da Bossa Nova: “boêmio, divertido, generoso, simpático, brincalhão”, segundo relato do jornalista Thales de Menezes que classificou o livro como “obra íntima” (Ilustrada, Folha de S.Paulo, 25/06/2021).

O mistério faz parte da construção dos mitos ou, no mínimo, dá-lhes razões para crescerem à sombra das idiossincrasias nem sempre explicáveis.

Assim, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (1931-2019), ou simplesmente João Gilberto, um desses mitos construídos a partir de Juazeiro, sua cidade natal.

João Gilberto abeberou-se na cultura de Barro Vermelho, sertão de Curaçá, onde o pai Juveniano Domingos mantinha raízes culturais e nos encantos ribeirinhos do Rio São Francisco. De lá saiu para o mundo.

Esculpiu um temperamento difícil, solitário, avesso a badalações.

A fama o protegeu das vulgaridades e não lhe permitiu o apego aos holofotes. Fez o caminho inverso daquele seguido pelas celebridades ligadas à música. 

Muito já se escreveu sobre suas manias e esquisitices. São muitas, inumeráveis, algumas delas fazem parte do mito, viraram lendas.

O experiente jornalista Ricardo Noblat conta uma. Entrevista previamente marcada, o repórter ligou o gravador, para começar a conversa. João Gilberto pergunta: “Vai ligar o gravador? Olhe, não ligue, não. Eu mudo muito de ideia. As coisas mudam muito, a música, os lugares…”.

A cantora Joyce, conta outra no livro Aquelas Coisas Todas.

Joyce chegou ao apartamento de João Gilberto, em Nova York e o anfitrião pediu sanduíches. Ao abrir as embalagens, Joyce notou que faltava um garfo. João resolveu a situação: “Pode pegar na lata de lixo, meu lixo só tem coisa boa”.  

Rua Góes Calmon. Há alguns anos, eu conversava amenidades na calçada da Sociedade Apolo Juazeirense, uma das instituições tradicionais de Juazeiro, que não sei se ainda existe e se o endereço continua o mesmo.

O assunto resvalou para João Gilberto.

Lá para as tantas, meu interlocutor ponderou que João Gilberto não visitava Juazeiro porque tinha vergonha dos alagadiços e esgotos da cidade. Maldade. João Gilberto adorava Juazeiro e dizem que até visitava a cidade humildemente, sem estardalhaço.

Já naquele tempo – década de 1970 – os prefeitos Joca de Souza Oliveira e Américo Tanuri prometiam resolver o problema dos pântanos e esgotos a céu aberto existentes em Juazeiro e João Gilberto nunca teve nada com isto. Os administradores subsequentes devem ter resolvido o problema. Certamente resolveram.

Talvez os esgotos nem fizessem mais parte de suas lembranças da infância vivida por lá na década de 1940. Mas Juazeiro gosta muito dele. É uma honra para o lugar. O Centro de Cultura João Gilberto está aí para atestar o amor de seu povo pelo filho ilustre.   

João Gilberto mantinha uma vida misteriosa. Vivia em reclusão voluntária.

Vizinhos de seu apartamento carioca no Leblon sempre disseram que nunca o viram e que não atendia a porta.

Sabe-se que trabalhava à noite e dormia durante o dia, normalmente até às 17:00h. Pedia as refeições por telefone e os entregadores nunca ultrapassaram a soleira da porta. Não recebia visitas, exceto familiares e um restrito número de profissionais ligados ao seu trabalho.

Perfeccionista, misterioso, detalhista, dedicava-se solitariamente à música.

Como todo mito, ninguém o via, ninguém o tocava, ninguém o conhecia de perto.

Deixou a vida e seus mistérios em 2019.

Agora o livro de Luiz Galvão espalha luz sobre os mistérios de João Gilberto que, ainda segundo Thales de Menezes, “é o retrato mais abrangente do gênio”.

araujo-costa@uol.com.br

O que Otto Alencar não diz

Aficionado por protozoários, embora médico ortopedista, o senador Otto Alencar (PSD-BA) tem feito tudo para aparecer na CPI do Senado Federal, de olho na candidatura ao governo da Bahia em 2022.

Os holofotes estão fazendo bem ao admirador de protozoários.

Inquisidor espalhafatoso, todo depoente que vai à CPI do Senado é questionado pelo senador baiano como se fosse delinquente. Ele não pergunta, acusa.

É a inversão do dever de inquirir. Acusar, não perguntar.

Otto Alencar não conhece o benefício da dúvida, ou seja, a inexistência da certeza de culpabilidade. Para o senador baiano, qualquer depoente que senta na cadeira da CPI do Senado é presumivelmente criminoso.

Mas o passado do senador baiano não é lá muito puro, nem inquestionável.

Hoje, uma filha de Otto Alencar trabalha no Tribunal de Contas do Estado da Bahia, apadrinhada por Gildásio Penedo Cavalcanti de Albuquerque Filho, ex-deputado estadual pelo PFL e DEM e presidente do Tribunal, que foi filiado ao PSD, partido de Otto Alencar.

Gildásio Penedo é casado com Roberta Alencar de Santana Penedo, sobrinha de Otto Alencar.

Se não for nepotismo – e não deve ser, tratando-se de um Tribunal de Contas sério – é, no mínimo imoral, este apadrinhamento esdrúxulo.

No exíguo período em que foi governador da Bahia, Otto Alencar enfrentou dois episódios que lhe deixaram algumas marcas em sua vida política que ele parece ter esquecido ou finge esquecer.

Otto Alencar foi acusado de patrocinar e/ou acobertar escutas ilegais de adversários políticos, o chamado “escândalo dos grampos”, supostamente a mando do poderoso Antonio Carlos Magalhães (ACM), a maior liderança política que a Bahia já teve.

A Assembleia Legislativa criou uma CPI para investigar o caso, mas Otto Alencar safou-se dela, em razão de maioria que contava a seu favor no Legislativo baiano, lastreada no poder e influência de Antonio Carlos Magalhães a quem Otto Alencar estava pendurado à semelhança de um carrapato.

Ato contínuo, sobreveio o rumoroso caso da EBAL-Empresa Baiana de Alimentos, responsável por uma rede de supermercados públicos. Novamente criou-se uma CPI para investigar suposto rombo apontado no orçamento da empresa estatal.

Mais uma vez, a rede de apoio político de Otto Alencar impediu que ele comparecesse à CPI para depor.

Em 2018, salvo engano, a EBAL foi privatizada, vendida para um grupo espanhol com base em São Paulo e com ela foram-se as Cestas do Povo tão fundamentais para os baianos.

Em 2014, Otto Alencar foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, com base em propaganda antecipada feita em Ruy Barbosa, sua cidade natal, por ter distribuído adesivos e pintado muro noticiando sua candidatura, sem amparo na legislação eleitoral.

Pelo que se vê, tirante o serviço voluntário que Otto Alencar prestou às Obras Sociais Irmã Dulce – e neste ponto ele merece ser elogiado – seu passado não parece tão irrepreensível assim, a ponto de habilitá-lo como feroz acusador de depoentes da CPI do Senado Federal.

Todavia, diz a lenda que Otto Alencar tem uma rede de amigos prefeitos, ex-prefeitos e membros de Câmaras Municipais nos 417 municípios baianos, em razão de ter sido conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios durante seis anos. Mas esta é outra história que não vem ao caso.

Arrogante e inconveniente, Otto Alencar se acha a última bolacha do pacote na CPI do Senado. O diabo é se os eleitores baianos descobrirem que a bolacha pode estar estragada e não faz bem.

Como diz o ditado, “humildade e caldo de galinha não faz mal a ninguém”.

O retrovisor do senador Otto Alencar deve estar quebrado. Ele não consegue ver seu passado nebuloso.

araujo-costa@uol.com.br

Lamartine e uma página dispersa de Chorrochó

Lamartine/Álbum de família

“Para onde foi o tempo?” (Nietzsche, filósofo prussiano, 1844-1900)

Recolho do tempo e da saudade a lembrança de Francisco Lamartine de Menezes.

Guardo o envelope amarelado pelo tempo e a tristeza do conteúdo.

Naquele tempo – 1997 – ainda se escreviam cartas aos amigos, parentes, aderentes e conhecidos. Hoje, não mais. O progresso e as coisas modernas tolheram as formas de sustentar as amizades, cultivar as lembranças.

A douta professora Maria Rita da Luz Menezes dava-me a notícia do falecimento do esposo Francisco Lamartine de Menezes.

A saudade e a lembrança cutucam, fragilizam os momentos, tingem as páginas do tempo e nos dão a medida de nossa pequenez diante da vida e da morte.

Ilustre professor de Chorrochó, Lamartine nasceu em 12/08/1931 e faleceu em 30/03/1997.

Já se vão, por aí, mais de 26 anos de sua morte. Mais apropriado, diria, 26 anos de seu adeus. A morte é vida, para São Francisco de Assis: “é morrendo que se vive para a vida eterna”.   

Lamartine deixou Maria Rita da Luz Menezes com quem constituiu família exemplar, que sustenta suas raízes, como convém às proles bem estruturadas na educação e na firmeza de caráter.

Filhos de Da Luz e Lamartine: Paulo José de Menezes, Geraldo Robério de Menezes, Humberto Antonio Pacheco de Menezes, Thereza Helena Cordeiro de Menezes e Ivana Lúcia Menezes de Menezes.   

Faço o registro – e antes já havia feito – com o intuito de contribuir para a perpetuação de sua memória, porque “as peças que faltam à memória deixam buracos nos céus, hiatos nas águas e rombos nos sorrisos”, como disse o escritor mineiro Pedro Nava.

Lamartine tinha um fascínio que se compunha num quê de seriedade diante de todos nós que o admirávamos.

Passos largos, como se em direção aos desafios da vida, às vezes introspectivo, sorriso contido e presença marcante, sempre.

Respeitoso e respeitador, demonstrava impressionante segurança no que dizia e acreditava. Contundente na defesa de suas ideias, firme em suas opiniões.

Guardo boas lembranças de Lamartine.

“Para onde foi o tempo?” – perguntava o filósofo.

Não sabemos. Lamartine certamente não sabia.

Sabíamos – nós e ele – sobre a efemeridade da vida. E só.

Post scriptum:

Publicada em 22/06/2021, esta crônica foi atualizada.

araujo-costa@uol.com.br

Polícia Federal, eficiente e respeitada

Nova sede da Polícia Federal em Brasília/foto O Estado de S.Paulo

A Polícia Federal do Brasil, uma das mais bem preparadas do mundo, mudará de endereço.

A sede, em Brasília, ocupará três torres na Avenida W3 Norte, com oito elevadores, 518 vagas privativas de garagem, auditório e restaurante, dentre outras mordomias como, por exemplo, academia de ginástica e gabinetes espaçosos e confortáveis.

Custo da luxuosa sede: R$ 1,2 milhão de aluguel mensal, mais R$ 243 mil de condomínio. Área total, 15,6 mil metros quadrados.

Só em fornos de micro-ondas, a Política Federal vai gastar R$ 10,4 mil e R$ 31,2 mil em novos eletrodomésticos.

Pelo menos 1,5 mil servidores se mudarão da antiga sede para o novo e luxuoso conjunto arquitetônico.

A estrutura da Polícia Federal é fantástica. Fantásticos também são seus servidores, preparados nas melhores academias policiais e que enfrentam o arcabouço criminal instalado pela corrupção do Brasil, dentre outras atribuições, tais como combate ao tráfico internacional de drogas, crimes correlatos e vigilância das fonteiras.

Partindo desse pressuposto, essa estrutura não é cara ao País, tendo em vista, ainda, o papel primordial que a Polícia Federal desempenha em benefício dos brasileiros.

Cara é a estrutura do Poder Judiciário para, muitas vezes e quase sempre, desfazer juridicamente o esforço de valorosos policiais federais que investigam a corrupção já antevendo a impunidade dos corruptos.

Não é preciso ir muito longe. As constantes absolvições de políticos corruptos com foro privilegiado, pelo Poder Judiciário, estão aí claras e vergonhosas, assim como o agigantamento do corporativismo judicial que envergonha o Brasil.

No Brasil, o crime ainda compensa, sempre compensou, mormente se cometido por poderosos de alto costado.

Advogados de políticos ricos, por exemplo, têm acesso aos gabinetes de magistrados a qualquer dia e hora, sem agendamento e participam de regabofes com Suas Excelências, regados a bebidas caras, que a fama abastece suas adegas.

Advogados de pobres amargam esperas crudelíssimas em salas contíguas aos gabinetes de magistrados arrogantes. Nem sempre são atendidos por Suas Excelências, intocáveis e inatingíveis.

O tratamento é desigual. O defensor é visto consoante a conta bancária de seu cliente.

Contudo – ou, mesmo por isso – a Polícia Federal é fundamental e é uma instituição ainda respeitada pela sociedade.

araujo-costa@uol.com.br  

A corcunda do senador

Antes que o sol de outono me surpreendesse, ainda madrugada, alcancei o amigo por telefone, sonolento, mas receptivo.

Quase não durmo à noite. Insônia que carrego como companheira desde a juventude.  

Como se vê, não é só petista que tem “companheiro e companheira”, eu também tenho, a insônia.

Dado o horário inconveniente, o amigo me ouviu mais receptivo do que eu esperava e foi logo dizendo: “eu ia ligar mesmo pra você, mas esta é hora?”.

À noite anterior, ao assistir ao noticiário, ele descobriu que o senador Renan Calheiros (MDB-AL) é honesto.

Dizia ele que não há dúvida quanto à honestidade do senador, tamanhos os elogios que a GloboNews e seus comentaristas fazem ao excelentíssimo político alagoano, relator da CPI dos imorais que, vira e mexe, ameaça de prisão atônitos depoentes da comissão.

Confortavelmente acomodado na poltrona da CPI, Renan Calheiros se acha o suprassumo da intocabilidade e promete prender testemunhas como se fosse o cidadão mais correto do Brasil.

Também não duvido da honestidade de Sua Excelência, mas a impressão que tenho é que a corcunda dele já se enverga com o peso dos inquéritos cabeludos e investigações, todos envolvendo rapina de dinheiro público.

E dai? O homem pode ser honesto.

Para atestar a honestidade do senador alagoano é muito simples. Basta que o Supremo Tribunal Federal anule os inquéritos contra Renan Calheiros, que tramitam na Corte, assim como anulou a delação premiada do ex-governador fluminense Sérgio Cabral, que noticiou que o ministro petista Dias Tóffoli recebeu propina de R$ 4 milhões numa complicada e suposta venda de sentença para beneficiar prefeitos fluminenses.

O Supremo Tribunal Federal tem mais o que fazer do que se preocupar com inquéritos de Renan Calheiros. Ocupa-se em absolver corruptos de bolsos abarrotados e a condenar pobres miseráveis de bolsos vazios.

Voltando às madrugadas, um conterrâneo, militar da Força Aérea Brasileira, que morava no Rio de Janeiro, membro da distinta família de Macário Alves, de Patamuté, telefonou-me alta madrugada num dia qualquer da década de 1980 e foi logo dizendo: “eu gosto de misturar alhos com bugalhos” e deitou falação sobre nossa cultura e costumes nordestinos, de maneira que, de fato, conversamos muito sobre alhos e bugalhos e nada sobre coisas importantes, como aliás, acontece em toda conversa entre amigos.

Hoje recorri ao amigo Agamenon Fonseca dos Santos, em Patamuté, irmão do dito conterrâneo, para lembrar-me o nome do notívago militar João Batista.

Minha memória esburacada e a passagem do tempo me permitiram que eu cometesse a gafe de não lembrar o nome de uma pessoa que me telefonou algumas vezes para falarmos de nossa terra.

Quanto ao senador Renan Calheiros e outros “honestos” da CPI dos imorais, Suas Excelências precisam cuidar bem de suas corcundas.

Elas podem não aguentar o peso das maracutaias que aprontam.

araujo-costa@uol.com.br