O TSE é a memória inconveniente do abismo.

O Tribunal Superior Eleitoral está ali para emoldurar Brasília, a democracia e os gênios de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Mas precisa de ajuste ético, no mínimo.

Pomposo, perdulário, dispensável e afrontoso à pobreza, o TSE é o que de mais claro existe em ostentação de mordomia.   

O prédio do edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral, imponente e desnecessário, custou aproximadamente R$ 500 milhões, pagos com impostos dos combalidos brasileiros.

Combalidos porque a carga tributária recai sobre os menos favorecidos.

Alguém já viu uma execução fiscal contra ricos?

Todavia, os foruns do Brasil estão abarrotados de processos tributários contra pobres que não tiveram condições de honrar com seus compromissos em dia.

Construído sob o desenho do arquiteto Oscar Niemeyer, o TSE é um monumento à inutilidade.

O TSE abriga apenas sete ministros, que é o total da composição do Tribunal, para se reunirem duas vezes por semana, às terças e quintas, geralmente à noite.

Isto mesmo. Eles somente se reúnem durante o dia em casos especialíssimos.

Casos especialíssimos são aqueles que a imprensa noticia todos os dias sobre algum político importante, de destaque no cenário nacional.

Suas Excelências adoram holofotes.

O que é gasto com o TSE, inclusive com mordomias e salários estratosféricos, daria para construir e manter dezenas de hospitais pelo Brasil afora para atenderem pacientes pobres, que vivem nos corredores dos pronto-socorros por falta de vagas, leitos, médicos, enfermeiros, material, remédios, etc.

Todavia, o poder não se preocupa com a dor da pobreza.

Pergunto: alguém já viu algum ministro do TSE dizer que gasta muito e que é preciso diminuir as despesas do Tribunal?

Mas certamente alguém já leu ou ouviu ministros criticarem excesso de gastos públicos de prefeitos e governadores que, bem ou mal, estão cuidando da população em seus estados e municípios no dia-a-dia. 

Segundo recente reportagem do Diário do Poder, “com ou sem eleição, a Justiça Eleitoral custa mais de R$ 9,8 bilhões anuais ou R$ 27 milhões por dia. E 65% vão para o sumidouro de salários altos e penduricalhos idem. Sobram razões para acabar essa sangria, que torrou meio bilhão de reais na sede suntuosa do TSE em Brasília. Ainda não se vê no horizonte da Câmara a extinção da Justiça Eleitoral jabuticaba, que só existe no Brasil” (Diário do Poder, 08/08/2021).

A composição do Tribunal Superior Eleitoral também chega a ser imoral: três ministros são do Supremo Tribunal Federal (STF), que ganham altos salários do STF e do TSE; dois ministros são do Tribunal Superior de Justiça (STJ), que também ganham dos dois tribunais; e 2 ministros são advogados famosos, escolhidos dentre amigos de políticos com o beneplácito de magistrados das cortes superiores.

Suas Excelências se refestelam em gabinetes de 150 metros quadrados, donde se depreende que o negócio é muito bom.

O jornalista Claudio Humberto conta que ouviu de um ex-ministro do TSE que sentia vergonha de usar tanto luxo “num país sem escolas”. Pelo menos esse é sensato.

Claudio Humberto observa: “Países democráticos criam comissões provisórias para realizar eleições, mas no Brasil patrimonialista virou permanente, e com poder judicante”.

O TSE é a memória inconveniente do abismo. Serve para registrar os descalabros eleitorais em seus arquivos, em nome da memória do Brasil.

Neste tempo de valores invertidos, em que o Poder Judiciário quer amordaçar a sociedade, se algum desavisado pedir a extinção do TSE, Suas Excelências, os intocáveis, vão dizer que se trata de manifestação antidemocrática.

O papel do TSE pode ser desempenhado, com vantagem, pelas Justiças Estaduais, com menor custo, sem prejudicar o exercício democrático do voto, nem a democracia como um todo.

Laborando em hipótese, se o monumental TSE for extinto, seus privilegiados ministros deixarão de receber os estratosféricos salários que empanturram seus bolsos, além das vergonhosas mordomias.  

Eles querem isto?

araujo-costa@uol.com.br   

Estamos todos de cócoras

“Não desprezamos os que têm vícios, mas os que não têm virtude” (Duque de La Rochefoucauld, moralista francês, 1613-1680)

Está fadada ao fracasso permanente uma sociedade – ou parte dela –  que reverencia um presidente da República amalucado, ajoelha-se diante de um Poder Judiciário arrogante, injusto e abarrotado de estrelismo e, ainda, admira um Poder Legislativo essencialmente corrupto.

Assim somos nós, brasileiros. Inclusive com artigos indefinidos, mesmo que sejam definidos.

Redes sociais imbecilizadas que ofendem gratuitamente as pessoas e se preocupam mais com a quantidade de dedos de um ex-presidente do que com as ideias que devem defender é porque não têm ideias para sustentar. E se as tem, são frágeis, indefensáveis.

Imprensa que, ao invés de noticiar, se ocupa com jornalísticos repetitivos e estritamente opinativos, não pode laborar na boa e escorreita informação, mas se esvai e se descredibiliza a cada dia.     

Membros das Forças Armadas, não importa de que arma, que embora inativos, ocupam cargos em governos para fazer trambiques, não podem merecer a condescendência dos brasileiros, mas o repúdio.

Uma sociedade – ou parte dela – que defende corruptos de esquerda e extremistas de direita descamba para a insensatez e caminha em direção à degenerescência moral.

Uma sociedade – ou parte dela – que não cuida da educação de seus jovens, não pode esperar bons governantes.

Os governantes são o reflexo dos bancos escolares e de professores vocacionados e bem remunerados.

Minha geração fracassou, não obstante os sonhos, a utopia, os horizontes vislumbrados.

Não há mais o que fazer, senão ter esperança.

A tarefa é árdua. O bastão é entregue às novas gerações.

A geração atual, com visíveis sinais de alienação, é fruto da negligência do ensino, do indubitável desleixo relativamente à educação e, sobretudo, do desprezo pelos pilares da Pátria.

A ética deixou de ser um escopo de vida de nossa sociedade cada vez mais deteriorada para se tornar tão-somente uma expectativa para os que ainda sonham.

Desgraçadamente estamos de joelhos. Pior: em cócoras para o que há de mais repugnante nos horizontes do Brasil.

Somos meros espectadores de três instituições fracassadas: o Executivo aos frangalhos; o Legislativo dominado pela corrupção; o Judiciário de costas para o povo e arrogantemente indefensável.  

É comum autoridades dizerem que “as instituições estão funcionando”.  

Estão, sim. Mas em benefício de quem manda, viciadas e sem nenhuma virtude.

O ateniense Sólon conjecturou que as melhores leis são aquelas feitas de acordo com a ocasião de cada povo.

Nossa ocasião exige leis severas. Leis que expurguem os vícios de nossas instituições, todas elas abarrotadas de interesseiros, larápios, espertos, corruptos, embusteiros, vaidosos e figuras desprezíveis.

Entretanto, primeiro precisamos ser conscientes e eleitores preocupados com o Brasil de hoje e de amanhã.

Sonho difícil, mas possível.

É constrangedor constatar que grande parte dos brasileiros está envolvida nessa discussão estéril, Lula da Silva ou Bolsonaro, como se o Brasil se circunscrevesse apenas a esses dois líderes políticos.

Como disse Aldous Huxley, “espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo”.

Estamos longe de sair da lama.

araujo-costa@uol.com.br  

Curaçá, Barro Vermelho e seu filho ilustre

Osmar Ribeiro Fonseca/Foto Diário do Grande ABC

Osmar Ribeiro Fonseca (1928-2015) nasceu em Barro Vermelho, sertão do município de Curaçá, em 04/02/1928.

Mudou-se para São Paulo em 1947, atuou como representante comercial de produtos farmacêuticos e cosméticos e depois entrou para a política, que soube exercer com dignidade e sabedoria.

Fincou base política e eleitoral em São Caetano do Sul, depois de passar por Cubatão, litoral do estado.

Osmar foi vereador por três legislaturas e deputado estadual duas vezes (1975-1983) à Assembleia Legislativa de São Paulo pelo antigo e original MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

Ferrenho opositor à ditadura militar, Osmar presidiu o diretório municipal do MDB de São Caetano do Sul, onde lastreou sua vida política e partidária.

Naquele tempo, o MDB não era a excrescência que é hoje, nem invólucro para abrigar corruptos e hipócritas. Havia uma pureza partidária que se foi derretendo com a entrada de políticos que hoje são sinônimos de corrupção.  

Osmar não aceitava trânsfugas, como costumava dizer, aqueles oportunistas que mudam de partido como mudam de roupa, em busca de interesses quase sempre escusos, valendo-se da couraça partidária para abarrotar seus bolsos de dinheiro público.

O MDB era oposição mesmo, de verdade. Enfrentava tanques da ditadura, prisões, truculentos cassetetes nas ruas, torturas, exílio, censura e todo tipo de restrição à liberdade de expressão e de pensamento.

Osmar enfrentou tudo isto com altivez e impressionante decência.

Conheci Osmar Ribeiro Fonseca, em São Caetano do Sul, no auge da luta contra a ditadura. Discurso firme, quase espalhafatoso, mas de posições honestas e ideias defensáveis, absolutamente seguras.

Eu trabalhava na Matriz Publicidade, empresa que ficava na esquina das ruas Manoel Coelho com Rua Baraldi, centro de São Caetano do Sul.  

Já familiarizados com o vínculo telúrico, ambos curaçaenses, conversamos muito sobre a situação política da ocasião, as dificuldades do sertanejo e seu êxodo forçado para São Paulo à procura de dias melhores, nem sempre alcançados, mas sempre sonhados.

Osmar foi um deles. Eu sou um deles.

Naquele tempo, as notícias de Curaçá chegavam pelo correio, através de cartas de amigos ou parentes. Por óbvio, não havia os modernos meios de comunicação de hoje, nem redes sociais e notícias em tempo real.

As ligações telefônicas davam-se por intermédio das telefonistas das operadoras, que completavam as ligações, quando possível e nem sempre era possível.

Ficávamos horas nos chamados postos telefônicos à espera de uma conexão com o Nordeste.

São Paulo deve alguns feitos a esse curaçaense de Barro Vermelho. Osmar exerceu a Terceira Secretaria da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de São Paulo.

É dele a lei que instituiu o Dia do Deficiente Físico e o embrião para criação e instalação de um hospital de clínicas na região do Grande ABC, hoje realidade, através do gigante Hospital Mário Covas, em Santo André.

Osmar Ribeiro Fonseca era filho de Júlio Ferreira Fonseca e D. Belarmina Cruz Ribeiro e casado com D. Maria Umbelina Conceição Ribeiro.

Faleceu em 22/12/2015. Está enterrado no Cemitério da Saudade, Bairro Cerâmica, São Caetano do Sul.

Osmar era um conterrâneo que valeu a pena conhecer. Aprendi muito com ele.

araujo-costa@uol.com.br

Voto impresso, cemitérios e ministros infalíveis

O presidente Bolsonaro e milhares de seguidores estão perdendo tempo com esse estapafúrdio movimento fora de hora, com vistas à implantação do voto impresso e “auditável”.

Não terão êxito.

O Brasil chegou até aqui, implantou a urna eletrônica há mais de duas décadas e, acho, seria um retrocesso falar de voto impresso hoje.   

O Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal juram de pés juntos que as urnas eletrônicas não são suscetíveis de fraudes. 

A segurança das urnas é inquestionável, segundo nossas subidas e intocáveis autoridades.

Consoante alguns ministros do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral, as urnas eletrônicas são à prova de fraude e não se fala mais nisto.

Sequer admitem o debate sobre o assunto.  

Para alguns membros do Poder Judiciário, que vivem nas nuvens, a democracia é ditada por eles e não pela vontade popular e soberana.   

Por que não debater?

A democracia pressupõe antagonismo e o enfrentamento civilizado às ideias contrárias.

Entretanto, não é bem assim como apregoam as superiores autoridades eleitorais.

Em 2016, 24 anos após a adoção das urnas eletrônicas – que a Justiça Eleitoral diz que são extremamente seguras – somente numa zona eleitoral da Bahia, em Simões Filho, um levantamento constatou que havia 30 mortos “aptos” a votarem nas eleições de 2016, segundo o cadastro da Justiça Eleitoral.

Políticos daquele município provaram, com atestado de óbito, que 30 “eleitores” não estavam tão “aptos” assim a votar, como dizia a Justiça Eleitoral. Simplesmente estavam mortos (A Tarde, 16/11/2015).

Por isto, afigura-se estranha a crença absoluta de nossas autoridades do TSE e STF no sistema eleitoral eletrônico, vez que até o sistema financeiro nacional está sujeito a ataques externos, situação até comum na rede bancária.

Se a Justiça Eleitoral não tem condições de identificar seus mortos no cadastro de eleitores, como ter tanta certeza quanto à inviolabilidade das urnas eletrônicas? 

A fraude eleitoral existe desde a República Velha que encerrou a monarquia em 15 de novembro de 1889. A mais tradicional era a “bico de pena” efetivada com a adulteração das atas elaboradas pelas mesas eleitorais, responsáveis pela apuração dos votos. Nesse cenário, os mortos e ausentes já “votavam”.

O processo era todo controlado no interior pelos “coronéis” que através do “voto de cabresto” indicava em quem o eleitor deveria votar.

“Havia ainda a fraude que consistia em dividir entre candidatos em conluio os votos em branco e nulo, evidentemente com mesários cúmplices” (A Tarde, 16/11/2015).

Outra questão que a Justiça Eleitoral ainda não conseguiu resolver é a discrepância entre a quantidade de eleitores e o número de habitantes de alguns municípios.

O Portal G1 Bahia, de 14/06/2018, publicou matéria sobre o assunto, como se vê a seguir:    

“Maetinga, na região sudoeste do estado, é o município baiano com a maior discrepância entre eleitorado e população. A cidade possui 6.736 pessoas aptas a votar, enquanto a população não passa de 4.456 – diferença de 2.280 pessoas”.

O município aparece na quarta posição nacional e na terceira do Nordeste entre as cidades com maior diferença entre o número de eleitores e o de habitantes.

Serra Preta, a cerca de 150 quilômetros de Salvador, aparece em segundo lugar na Bahia. Possui eleitorado formado por 16.941 pessoas, enquanto a população é de 16.036. A cidade ocupa a 14ª posição nacional e na 7ª posição no nordeste.

Outra cidade com mais eleitores do que habitantes é Lajedão, no sul da Bahia, que tem eleitorado de 4.805 pessoas, enquanto a população não passa de 4.068. Completam a lista Potiraguá (com 8.747 eleitores e 8.438 habitantes) e Ribeirão do Largo (7.502 eleitores e 7.437 habitantes)”.

O G1 Bahia, acrescentou:

“A explicação do TSE para as discrepâncias consiste na distinção entre domicílio eleitoral e domicílio civil.

Enquanto o chamado domicílio civil é mais restrito por limitar-se à residência na qual se anseia permanência definitiva, o domicílio eleitoral é aplicado de forma mais flexível, abarcando a localidade na qual o eleitor comprova residência acrescida de envolvimentos afetivos, familiares e sociais.

Dessa forma, é possível o cidadão morar em uma cidade e votar em outra”.

Então, tá.

Como se vê, para a Justiça Eleitoral, nem sempre dois mais dois dá quatro. É assim na Bahia, assim é noutras partes do Brasil.

Por conseguinte, as eleições com voto impresso ou com voto eletrônico não parecem tão invioláveis assim.

Mas a Justiça Eleitoral diz que nosso processo eleitoral é seguro e, portanto, inviolável.

Não podemos discordar de nossas inalcançáveis autoridades eleitorais.

Suas Excelências são infalíveis. Mais que a infalibilidade do Papa.

araujo-costa@uol.com.br

Os respiradores de Rui Costa

Quando presidente do Consórcio Nordeste, Rui Costa (PT), governador da Bahia, comprou, pagou adiantado – e não recebeu – 300 respiradores da empresa Hempcare Pharma que, segundo ela própria anunciou, entende  de confecção de roupas femininas íntimas e importação de medicamentos à base de maconha.

Números de funcionários da empresa à época do contrato: dois, apenas dois.

Qualquer aprendiz ou estagiário de departamento de compras não faria a aquisição sequer de um copo plástico de uma empresa dessas. Está na cara que a empresa é inidônea relativamente ao quesito respirador.

Mas Rui Costa não vislumbrou nenhum problema. Fez o negócio milionário.

Esses respiradores seriam distribuídos aos nove estados do Nordeste. Suas Excelências os governadores da região formaram um complô político e o denominaram Consórcio Nordeste, a pretexto de promoverem o crescimento sustentável e o desenvolvimento social.

Os governadores nordestinos se fecharam iguais a tatu-bola e silenciaram quanto à maracutaia que engoliu R$ 48 milhões de dinheiro público e não receberam um respirador sequer. Nem vão receber.

Como se vê, a empresa contratada entende tanto de respiradores quanto alguns membros da CPI da Pandemia do Senado entendem de honestidade.

A grande imprensa noticiou o fato timidamente. Não pode fazer estardalhaço. Os governadores nordestinos fazem oposição ao governo federal e, como tais, a imprensa os trata muito bem. Isto os habilita a serem os queridinhos da imprensa.

A CPI da Pandemia do Senado deu de ombros quanto ao assunto.

O que se pode esperar de uma CPI presidida por um ex-governador acusado e investigado de desviar R$ 260 milhões da saúde em seu estado?

O que se pode esperar de uma CPI cujo relator coleciona inquéritos no Supremo Tribunal Federal, versando sobre corrupção e lavagem de dinheiro, dentre outros crimes?

Em data recente, o governador Rui Costa prestou depoimento à Polícia Federal sobre o caso. Discípulo aplicado de Lula da Silva foi logo dizendo: “Não sei de nada”. E não disse mais nada e, suponho, nem lhe foi perguntado.

Como o inquérito envolve o governador Rui Costa na condição de investigado, a suposta “capivara”  deve ser enviada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), órgão competente para conhecer, processar e julgar governadores de estado, que vai dizer qual o próximo passo.

A revista Veja apurou: “O negócio, fechado a toque de caixa através do WhatsApp  e com pagamento adiantado, previa a compra e a distribuição dos equipamentos aos nove estados da região”. A revista vai além: “O negócio, desde o início, foi planejado para dar errado” (Veja, 23/07/2021). 

Mais, segundo a Veja: “A microempresa, como se sabe, na verdade aplicou um monumental golpe: sumiu com o dinheiro e nunca entregou as máquinas”. 

Esta história vai longe. E vai dar em nada.

Interessante é que os governadores do Nordeste cobram eficiência do governo federal quanto ao combate à pandemia. Enquanto isto, enterram R$ 48 milhões que deveriam ser usados no combate à doença.

O governo federal foi negligente, o que não se pode negar. O presidente da República deve ser cobrado por isto.

Mas daí a dizer que os governadores nordestinos são eficientes no combate à pandemia vai uma longa distância.

Sempre entendi que o governador Rui Costa é o nome mais abalizado do PT para disputar a presidência da República em 2022. Melhor do que Lula e melhor do que Haddad.

Mas, diante de tudo isto, pergunto:

Até tu, Rui Costa?

Post scriptum:

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) tem feito equilibradas intervenções na CPI da Pandemia no Senado Federal.

Ex-Delegado Geral da Polícia Civil de Sergipe, o senador Alessandro Vieira deve ter aprendido muito sobre o andar de investigações com o ínclito Dr. João Eloy de Menezes, que vem construindo rica e ilibada história na Secretaria de Segurança Pública de Sergipe.

O Dr. João Eloy de Menezes é filho de Chorrochó e provém de família exemplar do município. Conduta irrepreensível, tem e dá bons exemplos.

araujo-costa@uol.com.br

A arte de amparar paredes

O assunto é recorrente e até faz parte da cultura nacional: a preguiça de baianos e cariocas.

O jornalista mineiro Ivan Ângelo diz, em brilhante crônica: “No caso dos baianos, é mais estilo do que preguiça. É ritmo. Enquanto outros praianos descansam a metade da semana e trabalham a outra metade, os baianos vão trabalhando e descansando ao mesmo tempo”. 

Como se vê, um mérito. Os baianos também sabem inventar. Somos inventores de coisas difíceis de serem imaginadas como, por exemplo, conviver com governantes ruins. E assim vamos levando, enquanto os políticos não acabam com a Bahia. Bem que eles vêm tentando há séculos.

Cronista e romancista, Ivan Ângelo foi buscar lá, no começo do século XX, um amparo para sustentar essa suposta preguiça nossa.

Conta que o poeta Olavo Bilac escreveu que, em 1903, diante da grande quantidade de pessoas desocupadas no Rio de Janeiro, ouviu a seguinte pergunta de um jornalista argentino: “Que faz toda essa gente, que ampara as paredes das casas com as costas?”

Parece que o argentino confundiu não ter o que fazer com preguiça.

Hoje é pior. Temos milhões de brasileiros desempregados, subempregados, desalentados, desamparados, desesperançados.

Na condição de baiano, ergo-me em defesa de todos nós de minha encantadora província. Não somos preguiçosos. Damos um duro danado. Talvez tenhamos uma malemolência elegante, filosófica, uma sábia forma de viver.

Grande entendedor de hábitos e costumes baianos, o cantor Dorival Caymmi vivia em constante malemolência, mesmo morando no Rio de Janeiro.

Honra e glória da Bahia, Caymmi ria-se desse seu estado de graça e enfeitava essa sua maneira de viver e de muitos baianos.

Até Toquinho e o poeta Vinícius de Moraes – Vinícius morou em Salvador – entenderam esse espírito baiano e cantaram Tarde em Itapoã:

“Depois, na Praça Caymmi

Sentir preguiça no corpo

E numa esteira de vime

Beber uma água de côco”.

Baiano não é preguiçoso. Sente preguiça no corpo, o que é diferente. Não cuida dessa arte de amparar paredes.

Pala lembrar:

No próximo ano serão comemorados 200 anos da Independência do Brasil. Em 1972, a ditadura militar – governo Emílio Garrastazu Médici – lançou o Hino do Sesquicentenário que fez sucesso até em clubes de carnaval.

Lá para tantas, o Hino diz: “O Brasil faz coisas que ninguém imagina que faz”.

O Brasil está precisando fazer algumas coisas em benefício dos brasileiros, dentre elas possibilitar emprego e comida para todos e não somente para os ricos.

Isto é possível imaginar.

Não podemos nos transformar em miseráveis e famintos, como se estivéssemos nos escombros de uma guerra.

A guerra que o Brasil vive é outra: falta de vergonha do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, em todas as esferas de governo.

araujo-costa@uol.com.br

Bem-te-vis e sabiás também são boêmios

“Ser boêmio é o mais lúcido ato de protesto de um homem” (Jehová de Carvalho, jornalista e advogado baiano, 1930-2004)

Nascido em Santa Maria da Vitória, Jehová de Carvalho foi um dos mais famosos jornalistas e boêmios da Bahia.

Jehová de Carvalho assinou, durante anos, na condição de cronista, a seção A cidade que não dorme, no jornal A Tarde, de Salvador.

A frase que encima esta crônica foi dita ao também jornalista Guido Guerra, baiano de Santaluz, o “papagaio devasso”. Assim o chamava o escritor e amigo Jorge Amado.

Mas a boemia é somente um quê para o assunto desta crônica.

Ao romper da madrugada, alvorada à vista, ilustres companheiros de insônia despontam em meu quintal à espera da primeira refeição: são bem-te-vis, sabiás, periquitos e outras tantas espécies que se acostumaram há anos com a minha companhia ou com a minha generosidade. Ou com ambas.

Alguns já os conheço de longa data, outros desapareceram, muitos mais vão surgindo de repente e me fazem companhia. São tantos!

Costumo dizer que os melhores amigos são os bichos, cachorros inclusive. Eles não me aporrinham, não têm maldade, não me repreendem.

Não se servem de meu ombro como escada para angariar poder, dinheiro, fama. Tampouco me traem, nem agem com falsidade. São puros, admiravelmente puros. Essencialmente puros.

Os animais são, de fato, amigos de verdade. E não têm interesse em saber a que classe social pertenço, se rico, se pobre, se miserável ou sei lá o que mais dizem sociólogos, antropólogos e críticos de qualquer governo.

Se, eventualmente, não tenho comida para lhes dá, voltam depois, humildemente alegres e não perguntam porquê, nada querem saber.

Imagino como seria minha vida sem esses amigos diários, meigos, alegres, importantes. Nunca os vi tristes. Sempre alegres, cantando, fazendo algazarra.  

Alguns chegam gritando, como se anunciando: cheguei, bom dia, quero comer.

Nós humanos, intercalamos momentos de tristeza, alegria, indiferença, idiotices. Os animais, nunca.

Passarinhos e cachorros são melhores, infinitamente melhores que pessoas.

Gosto de meus amigos boêmios. Sempre gostei da boemia alegre, sem hora de acabar, sem maldade, assim como a boemia dos passarinhos.

Na noite ou na madrugada também é tempo de protestar. É no silêncio que adquirimos forças para a continuidade da luta, seja política, seja profissional, seja para discordar, simplesmente.

Para não esquecer, lembro: é tempo de protestar, principalmente contra a indiferença.

Milhões de brasileiros estão passando fome.

araujo-costa@uol.com.br    

Atividade de pecador e dissidência demagógica

“Política é uma atividade para pecador” (Hermes Lima, político, jurista e jornalista baiano, 1902-1978)

Atividade de pecador, a política se sustenta em conchavos e, mais do que isto, costuma fincar tentáculos efêmeros na lama, tentáculos esses nem sempre revelados ou reveláveis.

Lula da Silva estava negociando com o chamado Centrão, bloco de partidos políticos formado de parlamentares fisiologistas, com assento na Câmara dos Deputados e ramificação no Senado Federal.

Lula manobra para que o bloco de partidos abandone o governo Bolsonaro e alie-se à candidatura petista em 2022.

O senador Renan Calheiros do MDB-AL, partido integrante do Centrão, está cavando a chance de ser candidato a vice-presidente na chapa de Lula da Silva em 2022 ou colocar seu filho e governador de Alagoas como companheiro de chapa do ex-presidente.  

Por isto, os ataques de estrelismo de Renan Calheiros na CPI da pandemia, onde os holofotes são mais importantes do que a investigação.

Se o senador Renan Calheiros emplacar seu nome na vice de Lula da Silva, juntar-se-á a fome com a vontade de comer: os inúmeros inquéritos de Renan em andamento com o histórico nebuloso de alguns petistas e, por extensão, do PT.

Mas o Centrão gosta de dinheiro. Muito dinheiro. Não pode esperar essa definição.

Entre a promessa de um cheque em branco de Lula da Silva, para somente ser preenchido em janeiro de 2023 – condicionado à vitória do ex-presidente – e a imediata abertura do cofre de Bolsonaro, o Centrão preferiu não esperar. E sinaliza cair de vez nos braços de Bolsonaro, sem nenhum pudor.

Se nada mudar, o presidente nacional do Partido Progressista (PP), âmago do Centrão, vai ser mesmo ministro da Casa Civil do governo, o ministério mais importante, espécie de coordenação geral de toda a máquina política e administrativa do governo federal.

Portanto, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) poderá assumir a Casa Civil. Sua mãe Eliane Nogueira, que é primeira suplente, assumirá uma cadeira no Senado Federal, o Centrão toma conta dos cofres da República e tudo continua como dantes, sem nenhuma novidade.

Essencialmente clientelistas e ávidos por cargos e benesses, sem nenhuma firmeza ideológica, os parlamentares do Centrão têm como objetivo primeiro a aproximação com o governo, qualquer governo, seja de direita, de esquerda ou saia das catacumbas.

Quando o governo de plantão não cede aos interesses do Centrão, seus parlamentares engendram uma dissidência fajuta e passam a votar contra todas as matérias de interesse do governo.

O presidente Jânio Quadros dizia, com muita propriedade e do alto de sua experiência: “O Congresso Nacional é um clube de ociosos em permanente dissidência demagógica”.

Todavia, como no Brasil “até o passado é incerto”, o futuro próximo do governo Bolsonaro pode mudar de rumo a qualquer momento e direcionar-se por outro caminho.

Mas é o que está delineado, por enquanto.

araujo-costa@uol.com.br

Catolicismo: alicerces da Igreja de Chorrochó

Fachada e interior da Igreja de Senhor do Bonfim de Chorrochó

Data de 15 de agosto de 1915 a ata de fundação do Apostolado da Oração de Chorrochó.

A então capela de Senhor do Bonfim de Chorrochó pertencia à Freguesia de Santo Antonio de Abaré, da Paróquia do Senhor Bom Jesus da Boa Morte, de Curaçá. 

A Paróquia Bom Jesus da Boa Morte é uma das mais antigas da região sanfranciscana e indissociável historicamente de Santo Antonio do Pambu.

O nome se associa também à fundadora de Curaçá, Feliciana Maria de Santa Thereza de Jesus.

A ata referida, vertida em vernáculo de uso atual e fielmente adstrita ao texto original, consta de valioso acervo do Dr. Francisco Afonso de Menezes, nobre e conspícuo chorrochoense, sobre parte da história do município.

A ata original e histórica faz parte do retro aludido acervo do Dr. Francisco Afonso de Menezes que este blog teve acesso por permissão generosa do ilustre e referido chorrochoense.

O documento é importante em razão do conteúdo e do situar do Apostolado da Oração no tempo e, mais ainda, tendo em vista tratar-se de sustentáculo desta secular instituição religiosa local.

A reunião de fundação foi presidida pelo Cônego Paschoal dos Santos Valle, que delineou os princípios, finalidade e frutos do Apostolado da Oração.

Fizeram parte da fundação e “foram admitidos”: João Alves dos Santos, Agripina Argentina de Menezes, Antonia Alves de Carvalho Menezes, Antonia Cecília Alventina Fonseca, Antonia Rosa Pacheco de Menezes, Djanira Pires de Avelins Belfort, Josefa Pires de Carvalho, Maria da Glória Cordeiro de Menezes e Maria Umbelina de Avelins.

João Alves dos Santos foi escolhido presidente, porque, segundo a ata, “já estava devidamente empenhado nos trabalhos organizacionais da capela do Senhor do Bonfim”.

Naquela data – 15/08/1915 – foi instituída a festa do Sagrado Coração de Jesus em Chorrochó, precedida do Tríduo “com muita devoção” e coadjuvada pelo uso de trajes pretos, quando dos atos litúrgicos em honra e louvor ao Sagrado Coração de Jesus.

Dentre as atribuições do Apostolado da Oração, vislumbram-se no documento, “o esforço para promover a glória divina para salvação das almas e o culto ao Santíssimo Coração de Jesus”.

A transcrição do texto original registra “as indulgências que cada um lucra com a participação nas reuniões mensais” e faz referência à prática da comunhão reparadora, o dever de pedir perdão a Deus “pelos pecados da humanidade”, a reza diária do terço mariano, a busca da paz e união entre pessoas e nações e o dever de evangelizar.

Como se vê, sucintamente, o papel do Apostolado da Oração é abrangente e fundamental para a sustentação dos alicerces tradicionais da Igreja de Chorrochó.

Post scriptum:              

Este blog deseja pronto restabelecimento a Dom Guido Zendron, bispo da diocese baiana de Paulo Afonso e responsável pela Igreja de Chorrochó.

Dom Guido fez parte do clero da arquidiocese italiana de Trento, uma das mais tradicionais do mundo católico e hoje responde pela diocese de Paulo Afonso, na Bahia. Submeteu-se a uma cirurgia na Paraíba e está se recuperando.

Que Deus lhe dê muita saúde para continuar orando por todos nós, seus admiradores e pelas bênçãos de D. Jackson Berenguer Prado, primeiro bispo da diocese de Paulo Afonso siga em defesa de nossas fraquezas.

araujo-costa@uol.com.br

Os trambiqueiros do Ministério da Saúde

“Não há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que acontece” (Hannah Arendt, filósofa judia, 1906-1975)

Constrangedor. Muito constrangedor.

É provável que nem Janete Clair, com sua inteligência criativa, teria construído esse enredo novelesco tão ilógico, absurdo e surreal do Ministério da Saúde. Nem seu marido Dias Gomes, autor de O Bem Amado.

Servidores do Ministério da Saúde se reuniram com um cabo da Polícia Militar de Minas Gerais, que se dizia representante de uma empresa americana atravessadora para, segundo eles, negociarem a aquisição de 20 milhões de doses da vacina Covaxin, produzida na Índia, ao preço unitário inicial de 3,50 dólares americanos.

Esse preço aumentou misteriosamente, durante a negociação, para 15,50 dólares americanos.  

A suspeita negociação estendeu-se para 400 milhões de doses de vacina, desta vez da AstraZenica e, em consequência, os pilantras aumentaram o valor e outras coisas mais.

Custo total da tramoia: R$ 1,6 bilhão. O empenho da verba foi feito, o que significa dizer que o Ministério da Saúde reservou o crédito orçamentário para pagamento das vacinas.

O militar mineiro disse que, embora tivesse negociado a venda de vacinas, não dispunha sequer de uma dose para entregar ao Brasil, o que é compreensível, tendo em vista a natureza do trambique.

Experiência do cabo da PM de Minas, intermediário na negociação da venda de vacinas: vendedor de salsichas.

Porte da empresa americana que o militar dizia representar: 3 empregados.   

O que o cabo da polícia de Minas entende de vacina: nada, absolutamente nada.

De salsichas, talvez entenda alguma coisa.

O trapaceiro diretor do Ministério da Saúde, que negociou o inegociável, já demitido, cobrou 1 dólar americano de propina por dose da vacina, segundo o próprio atravessador referido, o que representaria R$ 200 milhões de propina.

Os vigaristas caíram na malha da CPI da pandemia no Senado Federal. Ouvidos, mudaram o nome de propina para comissionamento. Coisa de malandro, trambiqueiro, enganador.

O negócio acabou não acontecendo. Por sorte do Brasil ou por azar dos trambiqueiros.

Na sequência, servidores graduados do Ministério da Saúde se reuniram também com intermediadores de uma empresa de Santa Catarina, com o intuito de negociar a aquisição de 30 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac ao preço de 28 dólares americanos por unidade.

A contradição mais clara é que o governo já havia anunciado tratativas com a China, sem intermediários, para aquisição de 100 milhões de doses, ao custo de 10 dólares americanos, por unidade.

Mais: a China havia informado o governo do Brasil que não tem intermediário e que a vacina é vendida diretamente ao governo e somente o Instituto Butantan, de São Paulo, tem credencial para tratar diretamente do imunizante.

Mais: o chefe da volumosa negociação das vacinas com o Ministério da Saúde vive financeiramente na penúria.  

Cadastrou-se no auxílio emergencial do governo e recebeu todas as parcelas.

Ser pobre não é pecado, não é defeito, nem crime, nem razão de crítica.

Todavia, uma pessoa assim, nessas condições – valendo-se de auxílio emergencial para sobreviver – tem envergadura financeira para viajar aos Estados Unidos, Brasília, Índia e tantos outros lugares, para viabilizar o sonhado negócio bilionário?

Nada disto soou estranho ao Ministério da Saúde?

Onde estão os órgãos de inteligência do governo?

Aliás, o Ministério da Saúde está cheio de criaturas estranhas, muito estranhas.

Eduardo Pazuello, experiente e roliço general de três estrelas, que ocupa o ápice da carreira de intendente, à época ministro da Saúde, não conseguiu captar o trambique que seus subordinados estavam tramando contra os brasileiros?

O general Pazuello é o primeiro general barrigudo que vi, embora já tenha visto muitos generais na vida.

Ou a história está mal contada – e parece estar mesmo – ou o general Pazuello não tinha a mínima condição de, sequer, ser office boy do Ministério da Saúde.

Aliás, office boy é uma profissão respeitável, que exige competência.

Neste caso –  parece – mais respeitável que de ministro da Saúde em tempos de governo Bolsonaro.

Com um Ministério da Saúde assim, além dos milhares que já se foram, todos nós começamos a morrer.

araujo-costa@uol.com.br