Privilégios: Juízes, promotores e as férias de 60 dias

Na proposta de reforma administrativa que tramita na Câmara dos Deputados, a chamada PEC 32, magistrados e membros do Ministério Público travam uma batalha ingente e buliçosa com o intuito de continuarem com seus vergonhosos privilégios, mormente as férias de 60 dias, uma afronta aos demais brasileiros, que a Proposta de Emenda à Constituição ameaça abolir daqui em diante.   

Iniciativa do Poder Executivo, a reforma dificilmente será aprovada na forma como foi apresentada ao Parlamento.

Juízes e promotores não aceitam ser incluídos na reforma administrativa, por uma razão muito simples: é uma elite que se acha intocável e quer se manter separada dos demais brasileiros, social e financeiramente.

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que está se aposentando, defende a manutenção das férias de 60 dias porque, segundo ele, “muitos ministros, desembargadores e outros operadores do direito destinam dias de férias a tarefas para as quais, no dia a dia do trabalho nas cortes, simplesmente não sobra tempo” (Consultor Jurídico, 14/12/2020).

Gozador, noutras palavras o ministro disse que juízes e promotores trabalham durante as férias.  

O caipira paulista diria, do alto de sua sabedoria: “me engana que eu gosto”.

Casos isolados podem acontecer. Isoladíssimos, absolutamente isolados. Não como regra, que magistrados e promotores trabalham durante as férias.

Se eles são tão abnegados assim, em benefício da sociedade, por que, então, não querem abrir mão desse privilégio e igualarem-se aos demais brasileiros?

Por sua vez, a presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), também em defesa das férias de 60 dias, disse que “o Judiciário tem alta produtividade” (Diário do Poder, 07/07/2021).

Outra gozação. Dizer que o Judiciário tem “alta produtividade” é, no mínimo, uma piada fora de contexto.

Sua Excelência alega que há oito processos diários para cada juiz manusear e decidir.

É que Sua Excelência não conhece a rotina de uma trabalhadora pobre, que levanta às 04:00h da manhã, anda um trajeto a pé, vale-se de duas ou três conduções públicas e trabalha de sol a sol.

Nem conhece a rotina de um trabalhador da produção nas indústrias da vida, que fica mais tempo dentro da fábrica e no trajeto que faz diariamente do que em casa.

Compulsar oito processos por dia é um maná diante do sofrimento e da realidade da média dos demais brasileiros.

Os estratosféricos salários que essa elite abocanha todos os meses, além dos demais penduricalhos que engordam seus contracheques mensais são uma afronta à pobreza dos brasileiros e às classes menos favorecidas.

O fato é que o Congresso Nacional não levará essa discussão adiante até porque os congressistas – deputados e senadores – também estão atolados em privilégios.

E aí dá-se o conluio entre esses privilegiados e fica o dito pelo não dito.

Tudo continuará na mesma.

E nós continuamos pagando os privilégios para magistrados e promotores viverem de forma nababesca.

Eles têm a caneta e nós, pobres mortais, temos o dever de sustentá-los.

araujo-costa@uol.com.br

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