Patamuté: o adeus de Abgail

ABIGAIL
Abgail (arquivo da família)

Esta é uma crônica de saudade.

Abgail Gonçalves dos Reis (1937-2019) se despediu de Patamuté, de São Paulo, dos parentes e dos amigos. Acenou para o mundo, para nós que ainda ficamos e se foi para a eternidade. É um adeus difícil, dilacerante, incompreensível.

Difícil a finitude da vida. Difícil o reencontro que a crueldade da morte não nos permite alcançar.

Abgail deixou Patamuté ainda jovem. Mas lá deixou fincadas suas raízes firmes, seguras, indestrutíveis.

Conheci Abgail em São Paulo. Vi pela última vez, em São Caetano do Sul, em junho do ano passado, de modo casual, num daqueles momentos de tristeza que a vida ou a morte nos permite: o velório de Handerson Mendes Raposo, um rapaz encantador da família de Abgail, filho de Vanízia Maria Mendes, amiga que conservo desde os tempos áureos de nossa juventude em Patamuté.

Conversamos nos limites do que era possível em ambiente de funeral. Disse-lhe que telefonaria, para retomar uma conversa que havíamos começado há anos.

Eu havia pedido a Abgail informações sobre suas raízes familiares, para constar numa quase-biografia que comecei a escrever – e não terminei – sobre Theodomiro Mendes da Silva, outro filho ilustre de Patamuté e prefeito de Curaçá por dois períodos.

Modéstia à parte, Theodomiro era meu amigo. Talvez por isto me tenha sido tão difícil escrever sobre sua vida sem afastar as lembranças da amizade.

Ela se mostrou prestativa, atenciosa e interessada em ajudar-me. Essa nossa conversa foi interrompida por desleixo deste escrevinhador, sempre relapso, embora com a intenção de retomá-la, o que nunca houve. Deixei pra depois, inocentemente alheio às surpresas da vida.

A ingenuidade às vezes nos tolhe o caminho, dificulta os objetivos.

Minha proximidade com Abgail deu-se em razão de outra existência que me serviu de régua e exemplo de vida: a professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes.

Beatriz foi minha professora na antiga Escola Estadual de Patamuté. À professora Beatriz devo-lhe meus sustentáculos para enfrentar as ventanias, os tropeços, as intempéries. Como tem sido difícil o caminhar!

Abgail tinha um quê somente encontrável nas pessoas boas, admiráveis: a civilidade, a lhaneza, o encantamento, a firmeza no falar, a sensatez.

Abgail prezava suas raízes, como convém às pessoas sábias: Júlio Reis, carinhosamente conhecido como Júlio do Brejo e Joaninha, que lhe transmitiram a educação e a retidão de caráter, assim como fizeram relativamente aos demais filhos.

Abgail deixou parentes íntegros, irmãos admiráveis, família exemplar. Deixou lembranças, deixou saudade e, sobretudo, deixou lágrimas.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, indique-lhe o caminho.

Que Deus a ampare.

Deixo meus sentimentos de pesar para Luís Frederico Ferreira Victal e todos da família de Abgail.

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Raízes de Abgail (arquivo da família)

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Mãe, saudade de sempre

Costumo escrever sobre pessoas que me foram caras até aqui, ao longo de minha existência.

Não é lá muito tempo de vida, mas já se vão alguns anos de tropeços e quedas ao longo do caminhar. Deu para registrar algumas lembranças.

No mister de cronista, escrevo sobre amigos, conhecidos, circunstantes, pessoas que estiveram ao meu redor ou comigo conviveram nos lugares por onde passei, que foram diversos, muitos.

Admirei umas e guardo outras tantas no livro da consideração. De quando em vez leio páginas desse livro e fecho com saudoso cuidado. Tenho receio de esquecer os momentos que se não podem apagar.

Contudo, nunca escrevi ostensivamente sobre D. Sátira Araújo Costa, uma senhora nascida em 12.01.1914 e falecida em 22.11.2008. Como se vê, aos 94 anos. Morreu lúcida, atenta ao pequeno mundo – ou ao grande mundo – que ela construiu, durante quase um século, com sabedoria exemplar adquirida na universidade da vida.

Sátira nasceu e viveu na caatinga do município baiano de Curaçá. Contemporânea da fase barulhenta do cangaço, contava muitos fatos que presenciou ou deles teve conhecimento.

Tinha uma memória prodigiosa e impressionante interesse pelas coisas do conhecimento. Sabia fazer amigos, sabia conservá-los, sabia elevá-los ao indizível dos meandros da amizade.

Viveu as agruras de um tempo difícil. Sem nenhum conforto, trabalhava de sol a sol para cuidar da família. Criou seis filhos com dificuldade, enfrentando o cabo da enxada para plantar o sustento, carregando feixes espinhentos de lenha na cabeça e água em potes de barro, equilibrando-os sobre a cabeça, em rodilhas acomodadas para amenizar o incômodo do peso.

Seu maior companheiro foi o sofrimento. Sua maior tarefa foi driblar o turbilhonar das dificuldades.

Sátira cavou cacimbas com suas mãos calejadas. A água difícil de encontrar no solo estorricado amenizava o seu sofrimento, dos filhos e dos animais.

Os animais fazem parte do lidar do caatingueiro. Ele se desespera ao vê-los sofrer por falta de comida e água pra beber. É doído ver uma vida definhar, desamparada, por lhe faltar comida e água.

Sátira enfrentou e resistiu bravamente muitas secas. Anos seguidos sem chuva, como é comum no Nordeste. Conviveu com árvores ressequidas e desfolhadas, terra quente, pedras disformes difíceis de pisar.

Enfrentou os espinhos e a poeira quente das entradas da caatinga, muitas vezes com os pés descalços, porque lhe faltava condições de comprar uma alpercata para amenizar a dor da vida.

O fardo da pobreza é muito grande, pesado demais para carregar. Somente quem conviveu com ela tem condições de explicar ou tentar explicar.  “A pobreza tem cara de herege”, diziam os antigos. E tem.

Sátira nasceu e viveu em casa de taipa, erguida toscamente entre cactos, no sertão da Bahia. Lá edificou seu viver estribado mais na certeza das constantes dificuldades do que na esperança de dias melhores que nunca vieram.

Lá cuidou dos filhos e não teve tempo de cuidar de si própria.

Sátira derramou muitas lágrimas diante do sofrimento, desesperançada por não antever uma luz que lhe iluminasse a vida e lhe desse claridade para desanuviar a estrada do tempo.

Muitas lágrimas que ela não se permitiu derramar as levou para o túmulo. Certamente foram muitas.

Ela tinha muita fé. Talvez a fé lhe tenha sustentado durante toda a vida, dando-lhe condições de enfrentar os percalços.

Sátira merece um monumento de amor. Não consegui erguê-lo para que ela mesma o inaugurasse.

Hoje meu coração apertou. Saudade de D. Sátira. Ela era minha mãe.

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Chorrochó, Bar Potiguar, pedaços de lembranças

“Mas a saudade é isto mesmo: é o passar e repassar das memórias antigas” (Machado de Assis, Dom Casmurro)

Há alguns anos veio-me a notícia de Chorrochó dando conta do falecimento de José Osório de Menezes. Notícia triste, cruel, surpreendente, como é toda notícia que trata das vicissitudes da morte.

Filho de família tradicional de lá, Osório era admiravelmente humilde. Não adquiriu a fama que tinham ou têm os demais irmãos, todos letrados e de elevada tarimba profissional e social.

Família de políticos, promotores de Justiça, advogados, professores, diretores de escola, nutricionista e servidores públicos respeitáveis.

Mas Osório tinha outro mister, também digno, muito digno, essencialmente digno: ocupava-se da pecuária da família. Dedicou-se a isto por muito tempo, todo o tempo.

Dizem alguns entendidos em vida alheia que sou saudosista, piegas e me preocupo demais com coisas reles, desprezíveis, sem importância.

Não vejo nenhum defeito em ser assim, se é que sou assim. E por isto, quase sempre falo de amigos, de lugares, de lembranças. É uma característica de cronista, espectador do tempo e da vida. Não faz mal a ninguém.

Conheci Osório no desaparecido Bar Potiguar, em Chorrochó. Nossa convivência começou ali. A propósito, transcrevo uma crônica que já foi publicada mais de uma vez neste mesmo blog. Ei-la:

Toda cidade, seja metrópole ou do interior, tem o seu ponto de encontro. São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.

Chorrochó, minúscula cidade do sertão baiano, também tinha o seu mais famoso ponto de encontro: o bar Potiguar. Central, arejado, convidativo.

Na segunda metade da década de 1960 lá despontou – e durou por muito tempo – uma espécie de sociedade irrequieta, formada de jovens, geralmente estudantes do então Colégio Normal São José, que fazia uma cidade alegre e hospitaleira. Esses jovens, a maioria proveniente da zona rural, construíram, dentro de seus limites interioranos possíveis, um mundo entrelaçado de fantasia e realidade.

O bar Potiguar, hoje desaparecido, era o ponto de encontro desses jovens, ávidos por atingir seus sonhos e propensos, todos eles, a trilharem o caminho do futuro em busca dos seus ideais.

A boemia se tornou uma sadia forma de agregação de amizades que perduraram. Muitas dessas pessoas hoje são profissionais, preocupadas com tempo e objetivo, mas inarredavelmente ligadas àquele passado de ternura e convivência responsável.

Sobressaíam-se, naquele tempo, nesse ambiente de amizade e cordialidade, uns mais jovens, outros mais experientes, como assíduos frequentadores do bar Potiguar: Juracy Santana, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, José Osório de Menezes, João Bosco de Menezes, Neusa Maria Rios Menezes, José Juvenal de Araújo, Antonio Wilson de Menezes, Geraldo José de Menezes, Maria Lenisse Oliveira Alves de Santana, Almira Marques Ribeiro, Eremita Marques Ribeiro, Antonia Marques Ribeiro, Marinalva Araujo, Raimunda Ribeiro Coelho, Ângela Maria Silva, Carlos Bispo Damasceno, Fabrício Félix dos Santos, Ernani do Amaral Menezes, José Eudes de Menezes, José Claudionor Menezes, José Evaldo de Menezes, Francisco Afonso de Menezes, José Jazon de Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes e tantos outros, alguns já falecidos.

A lista é extensa, mas limito-me a alguns nomes para evitar um massacre maior da saudade. E havia, de quando em vez, a frequência dos mais velhos, que nos deixavam mais seguros e nos amparavam em nossas fragilidades de jovens inexperientes: Eloy Pacheco de Menezes, Horácio Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra, Luiz Pacheco de Menezes, Francisco Arnóbio de Menezes, José Pires Filho, Joviniano Cordeiro de Menezes, etc. 

Surgiam presenças fortuitas e rápidas, a exemplo de Dorotheu Pacheco de Menezes. Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião.         

Qual a importância dessas lembranças? A resposta talvez esteja na certeza de que foram essas pessoas que sustentaram, naquele tempo, em Chorrochó, a melhor escola que se possa ter na vida: a amizade.

araujo-costa@uol.com.br

 

                  

 

                  

Em Macururé, Silma Eliane continua na trincheira

As elites sertanejas tendem a transferir para seus descendentes o cabedal político que construíram e ostentaram ao longo do tempo.

Desse modo se formaram as oligarquias e o coronelismo nordestino. E dessa forma se sustentaram décadas a fio.

Em Macururé, não foi necessariamente assim, mas o município guarda estrita semelhança com os mesmos valores que sedimentaram a cultura política nordestina como um todo.

Na legislatura de 1959-1963, a Assembleia Legislativa da Bahia contou com dois atuantes deputados voltados para o sertão: o pessedista Raimundo Reis de Oliveira (1930-2002), com raízes no antigo município de Santo Antonio da Glória e o soteropolitano e udenista João Carlos Tourinho Dantas (1922-2016).

Amigos irreverentes, esses deputados formavam uma dupla buliçosa e atenta aos interesses do povo sertanejo e deixaram marcas louváveis na historia da política baiana, mormente no sertão.

Ambos foram fundamentais para a aprovação da lei que, em 1962, elevou Macururé à categoria de município, emancipando-o de Glória, mérito estribado no esforço de outro batalhador em prol da emancipação, Diógenes Lemos de Moraes, dentre muitos que lutaram com o mesmo objetivo.

Município relativamente novo, com pouco mais de cinco décadas de emancipação político-administrativa e à semelhança de outros pequenos municípios do sertão, Macururé vem se sustentando mais na grandeza de seu povo do que, propriamente, no amparo que deve receber do Estado e da União Federal.

Ainda assim, parece um município com boas perspectivas, apesar de já ter balançado negativamente em algumas conquistas, como a supressão de sua condição de sede de comarca, em razão do alegado desequilíbrio orçamentário do Poder Judiciário da Bahia.

Como os demais municípios circunvizinhos, Macururé enfrenta problemas diversos, tais como falta de recursos, violência, ausência de estrutura, insuficiência de equipamentos públicos, o descaso das autoridades estaduais no que tange à segurança pública e até, frequentemente, falta de água.

A ex-prefeita Silma Eliane Adriano do Nascimento Carvalho enfrentou, como pôde e a seu modo, as turbulências do município, valendo-se de sua liderança política, de tal sorte que pavimentou o caminho para as administrações subsequentes.

Filha de político, seu pai Silvino Alves do Nascimento também foi prefeito em quatro oportunidades, numa época bem mais difícil, tendo em vista a escassez de recursos de que precisava para tocar os serviços essenciais de Macururé.

Ainda muito jovem, por força do ambiente em que vivia, até por uma inevitabilidade circunstancial, Silma Eliane entrou para a vida pública e, nesta condição, salvo melhor juízo, a população lhe confiou dois mandatos.

Graduada em Administração de Empresas pela Universidade Católica de Salvador, Silma Eliane se destacou em alguns feitos, a exemplo da luta por adutoras, poços artesianos e até pela viabilidade de uma empresa de exploração de minério, mas nem sempre exitosa em sua empreitada.

Contudo, não se pode negar o esforço desempenhado por Silma Eliane em prol de sua gente, embora tenha enfrentado, em alguma quadra, uma oposição vigilante, o que é saudável para toda e qualquer administração pública estribada na observância dos princípios democráticos.

A oposição é necessária, faz parte do jogo democrático e aperfeiçoa as ideias do adversário. O papel precípuo da oposição é este: achar defeitos. Deve achar defeitos, precisa achar defeitos, mostrar defeitos.

Todavia, Silma Eliane vem conseguido, estrategicamente, transitar entre aliados e opositores tradicionais, com louvável desenvoltura. Parece que deu certo, tem dado certo.

A ex-prefeita Silma Eliane tem demonstrado o desejo de unir as correntes políticas do município e esse desejo está substituindo, com vantagem,  eventuais entraves na política local.

Silma Eliane é desenvolta e irrequieta com as coisas do município de Macururé.

Continua na trincheira.

araujo-costa@uol.com.br

 

      

A Justiça da Bahia está com calor

Que crise? Isto é para pobres mortais.

A Bahia está enfrentando conhecidas dificuldades em suas finanças públicas. O governador diz. O povo sente e vê.

Todavia, o Tribunal de Justiça da Bahia não vê bem assim ou simplesmente não vê e homologou, em data recente, uma licitação para aquisição de 3,3 mil aparelhos de ar condicionado no total de R$ 10 milhões.

Mais do que isto. Em quatro anos, a partir de 2015, o Tribunal de Justiça da Bahia licitou 6 mil aparelhos de ar condicionado no total de R$ 23,6 milhões.

Fica difícil entender o desperdício. A Bahia, salvo engano, tem 203 comarcas e aproximadamente 800 unidades jurisdicionais, considerando que comumente uma comarca atende diversos municípios.

Contudo, difícil de entender mesmo, além do desperdício, é a justificativa do Tribunal de Justiça para a aquisição de tantos aparelhos de ar condicionado. Diz o Tribunal que a aquisição é para “o bom andamento da máquina pública”.

O pressuposto, então, é que as repartições públicas do estado que não têm ar condicionado não andam lá muito bem. Noutras palavras, trabalham e produzem pouco ou mal.

Pelo que se vê, a Justiça da Bahia está com muito calor, a julgar pela quantidade expressiva de aparelhos de ar condicionado que vem adquirindo ao longo dos últimos anos.

Os dirigentes do Tribunal de Justiça baiano precisam visitar o interior do Brasil. Nem precisam ir muito longe. Basta visitarem o sertão da Bahia. Eles verão que lá os mortais baianos enfrentam sol escaldante e, nem por isto, deixam de produzir, até mesmo a comida que chega nas fartas mesas de Suas Excelências.

Entretanto, para consolo dos brasileiros, não é só o Tribunal de Justiça da Bahia que joga fora o suado dinheiro do contribuinte.

É tradição gritante o divórcio entre o Poder Judiciário do Brasil e a realidade da população. Há casos indubitáveis que atestam que a Justiça vive de costas para o povo.

Agora mesmo, o Supremo Tribunal Federal, que deveria dar exemplo, vai comprar 14 veículos blindados para seus intocáveis ministros, por R$ 2,8 milhões.

Mais: o STF vai torrar R$ 2,3 milhões com aparelhos telefônicos. Pode?

Só na reforma do gabinete do ministro e presidente Dias Toffoli, o STF vai gastar R$ 443,9 mil. É um luxo só. Afinal, o contribuinte paga.

Enquanto as subidas Excelências do Judiciário esbanjam o dinheiro do contribuinte, grande parcela da população do Brasil está passando fome, inclusive na Bahia.

araujo-costa@uol.com.br

Em Patamuté, a imagem do descaso

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* Imagem colhida do grupo de WhatsApp “Patamute City”.

O antigo prédio da Escola Estadual de Patamuté está em ruínas.

Ou porque as autoridades que cuidam da Secretaria da Educação estadual o consideram obsoleto e desnecessário diante da atual realidade ou porque se trata mesmo de irresponsabilidade do poder público.

O prédio que sustentou, durante décadas, a educação primária de diversas gerações, hoje está abandonado. Situação degradante, aviltante, injustificável.

O município de Curaçá está silente diante da situação de descalabro, talvez por lhe faltar o amparo de algum convênio ou mesmo canais de comunicação com o governo do Estado.

A imagem do prédio deteriorado chega a ofender a dignidade dos filhos de Patamuté, estejam eles morando na localidade ou distantes.

Por lá passaram professoras que fizeram ou fazem parte da história de Patamuté e engrandeceram o lugar, a exemplo de Maria Vilani Brandão Leite, Ana Mendes Vital Matos, Adalzira de Souza Alcântara, Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes, Maria Auxiliadora de Menezes Kawabe, Maria Mendes Callo (Nazinha), Cremilda Gomes de Sá, etc., para me cingir apenas a esses nomes em evidência a partir da década de 1960.

A Escola Estadual de Patamuté é símbolo da educação local e esteio do conhecimento de muitos que frequentaram o que chamávamos de “prédio escolar”. Na estrutura da Secretaria de Educação da Bahia, a escola de Patamuté pertencia ao Departamento de Educação Primária.

O declínio vem de muito tempo. O descaso também.

Deterioraram-se as mentalidades dos governantes, o que não chega a ser nenhuma novidade, caíram por terra suas responsabilidades e o dever de zelar pelo bem público.

As mudanças subsequentes no modelo de ensino público estadual não substitui o dever do Estado de cuidar do patrimônio histórico e das tradições do lugar.

Em 2011, o governo da Bahia regulamentou o Ensino Médio com Intermediação Tecnológica (EMITec), como alternativa pedagógica para atender a jovens e adultos em lugares onde, precipuamente, não havia oferta de Ensino Médio.

Em princípio, o mérito do programa foi abranger localidades de difícil acesso e distantes de centros urbanos onde se fazem presentes dificuldades de toda ordem, inclusive de transportes.

Além disto, objetivou abranger três vertentes: a observância da extensão territorial do estado, a carência de professores habilitados em localidades muito distantes dos centros urbanos e, por último, a diminuição das desigualdades socioculturais das populações. Como se vê, um programa louvável.

Com isto, os colégios estaduais de localidades com estrutura disponível para oferecerem educação básica e ensino médio passaram a ter extensões nesses lugares distantes e de difícil acesso.

Assim, aconteceu em Patamuté. Salvo engano, o ensino de responsabilidade do estado passou a ter, de início, uma extensão do Colégio Estadual Manoel Novaes, o que beneficiou sobremaneira a localidade.

Entretanto, o que não se justifica é o descaso, o abandono, o desrespeito com a história do lugar.

Patamuté pede socorro.

araujo-costa@uol.com.br

O guerrilheiro e o propinoduto petista

A história é longa, mas o espaço é curto. Então, um breve resumo.

O Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8) foi um grupo guerrilheiro fundado na década de 1960, por militantes de esquerda, para combater o regime militar dos generais-presidentes.

A esquerda do Brasil combatia a ditadura, não porque quisesse um regime democrático em seu lugar, mas porque pretendia instalar, em substituição, outra ditadura, a chamada ditadura do proletariado, inspirada no modelo da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e Cuba, regimes tresloucados em evidência na época.

O insuspeito jornalista Fernando Gabeira e o médico sanitarista Eduardo Jorge, que chegou a ser candidato a vice na fracassada chapa presidencial de Marina Silva e ambos participaram ativamente de grupos de esquerda, são unânimes em afirmar que os esquerdistas não queriam democracia no Brasil, mas outra ditadura, desde que protagonizada por eles.

Pois bem. Um desses guerrilheiros do MR8– William Ali Chaim – passou pelo histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB) e filiou-se ao Partido dos Trabalhadores.

No PT ele encontrou guarida, companheiros e lama pra chafurdar.

Aliado de José Dirceu e Rui Falcão, que presidiram o partido, o ex-guerrilheiro foi peça muito influente nas administrações petistas paulistanas de Luiza Erundina (1989-1992) e Marta Suplicy (2001-2004).

Investigado pela Lava Jato, o dito ex-guerilheiro apareceu como operador de propinas ofertadas ao PT pelas construtoras OAS e Odebrecht. Por suas mãos passaram, segundo as investigações, pelo menos R$ 22 milhões de propinas endereçadas ao PT.

Por esse propinoduto transitaram os marqueteiros e publicitários petistas João Santana e Valdemir Garreta e abrange a famosa Torre Pituba, um sofisticado prédio que os petistas inventaram em Salvador, financiado com dinheiro da Petros, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, segundo consta nas investigações.

Considerando-se o histórico do PT, até aí nenhuma novidade.

Estranho é um sujeito que lutou em grupo de guerrilha para implantar um regime de proletários no Brasil ter-se transformado num magnata de milhões de reais.

Pelo que se vê, trata-se de um hipócrita, que enganou seus companheiros de luta política na juventude.

Só da OAS – dizem as investigações – ele recebeu pelo menos R$ 2,9 milhões na condição de operador de propinas.

O homem entende mesmo de baixas classes sociais. Tanto que não quis fazer parte delas.

araujo-costa@uol.com.br

O sorriso também deixa cicatrizes

Comumente as cicatrizes são vistas através do lado mais cruel, o sofrimento. Contudo, elas são marcas deixadas ao longo do tempo e, como tais, também podem resultar de alguma face do caminhar que não seja somente sinais de tristeza.

As nódoas que se agarram ao nosso viver quase sempre decorrem de tropeços, perturbações que a vida nos permitiu experimentar, mas o passado também teve alegrias, sorrisos, flores no jardim.

A preparação para o envelhecimento pressupõe que caminhemos devagar com as tristezas, sem esquecer as alegrias do passado e, sobretudo, com a altivez do presente.

Somos possíveis hoje e isto nos basta.

As escolhas irreversíveis, o amoldar da consciência, as amizades, as dores e as descobertas fizeram parte da construção de nossos mistérios.

Lágrimas e risos emolduraram o viver até aqui.   

Passamos o tempo conjecturando formas de viver. Isto faz parte dos sonhos, da ambição de enxergar mais longe.

A efemeridade da vida encurta o tempo, corrói as forças e torna mais distante o ápice que pretendemos alcançar. Entanto, seguimos. E a razão maior do caminhar é a esperança.  

Até o amor que sentimos às vezes parece fraquejar. “Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor”, dizia o padre Vieira. Mas é preciso força, disposição para a luta, mesmo que ela nos pareça inglória.

Caminhar, sempre.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um dos meus defeitos: sou relapso e desatencioso com os amigos, embora eles me entendam assim, exatamente por serem amigos.

Na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por uma avenida enorme, seca, barulhenta, entre passantes indiferentes.

Eu às voltas com a exiguidade do tempo e compromissos de agenda e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo, talvez pela aspereza da cidade grande, os tropeços da vida, a poeira que não conseguiu sacudir.

Fiz-lhe algumas perguntas como é praxe nesses encontros casuais.

Humilde e reticente, disse: “Rapaz, me perdi, tem uma rua ali, aquela onde moro, você sabe, diabo, pareço velho”. E apontava para um lado e para outro, braços levantados, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada.

Fiquei preocupado.

O relógio me atrapalhando, confrontando-me com a necessidade de ser-lhe útil, solidário, a lembrança do passado e de nossa amizade a me cutucar.

Deixei-o nas imediações de sua casa e despedi-me mais frágil que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da certeza da velhice. Chorar nesses momentos é muito fácil. Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram naquele momento.

Depois, angustiado, fui relembrando nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate-papo desinteressado, as músicas que ouvíamos em tempo de serestas.

Meu amigo está fragilizado, diminuído, carente diante da vida. Confessou-me lhe terem escapado as esperanças.

Observei seu olhar vazio, semblante maltratado pelo tempo e pelo sofrimento.

Mas ele já sorriu muito. Sou testemunha. E o sorriso também deixa cicatrizes boas, inolvidáveis cicatrizes.

São Bernardo do Campo, outono de 2019.                                             

araujo-costa@uol.com.br      

                                

                           

                             

                                   

O desperdício no Supremo Tribunal Federal

“Quem atira com pólvora alheia não mede distância” (Ditado popular)

Há milhões de pessoas passando fome no Brasil.

Por isto, chega a ser um acinte à população que o Supremo Tribunal Federal, que tem o dever de cumprir as leis, tenha licitado a aquisição de sofisticados itens de bebida e alimentação, para deleite de sua elite inatingível aos pobres mortais: seus ministros, servidores e convidados famosos do tribunal.

A sofisticada lista vai de “medalhões de lagosta servidos com molho de manteiga queimada, pato assado com molho de azeitona ou laranja, vinho branco com, no mínimo, quatro premiações internacionais, cachaça de alta qualidade envelhecida em barris de madeira nobre, por um ou três anos, uísque 18 anos, carré de cordeiro, bobó de camarão, camarão à baiana, et cetera e tal.

Detalhe: o vinho precisa ter premiação internacional em, no mínimo, quatro vezes. Qual a importância disto?  Vaidade, sem dúvida. O dinheiro é alheio, o tribunal pode gastar às escâncaras.

Total do desperdício: R$ 1,13 milhão.

Quem paga a conta da patuscada, da pândega, da farra? Os contribuintes, evidentemente, inclusive os miseráveis que recolhem impostos.

O acinte que o STF impôs à sociedade é tão grande, que foi proposta uma ação popular para suspender esse desperdício no Supremo Tribunal Federal. Até o Ministério Público entrou no assunto junto ao Tribunal de Contas da União.

Em Brasília, uma juíza federal de primeira instância, que ainda pensa que o Brasil é um país sério, suspendeu liminarmente a licitação, mas, ato contínuo, a instância superior a restabeleceu. Fica tudo como antes, o dito pelo não dito. Nada muda.

Dir-se-á: esta e outras barbaridades sempre existiram no Supremo Tribunal Federal. Certamente. Mas nunca houve questionamento, o que somente ocorre agora, porque a sociedade evoluiu, os mecanismos de transparência com os gastos públicos estão aí à disposição da população.

O desperdício no Supremo Tribunal Federal não é nenhuma novidade. Basta ver a lista de mordomias publicada na imprensa, que sustentam 11 ministros. Dados de 2016:

 – 25 bombeiros civis;
– 85 secretárias;
– 293 vigilantes;
– 194 recepcionistas;
– 19 jornalistas;
– 29 funcionários cuidando da encadernação;
– 116 serventes de limpeza;
– 24 copeiros;
– 27 garçons;
– 8 auxiliares de saúde bucal;
– 12 auxiliares de desenvolvimento infantil;
– 58 motoristas;
– 7 jardineiros;
– 6 marceneiros;
– 10 carregadores de bens;
– 5 publicitários.

Gastos aproximados que o Supremo Tribunal Federal torra com o dinheiro público:

– R$ 15,78 milhões com assistência médica e odontológica;
– R$ 1,5 milhão com auxílio-moradia;
– R$ 2,162 milhões com educação pré-escolar;
– R$ 12 milhões com alimentação;
– R$ 204 mil com auxílio-funeral e auxílio-natalidade;
– R$ 10,5 milhões com informática.

O Tribunal tem gastos, ainda, com 87 veículos, sendo 3 caminhões.

Tem até cursos de yoga, massagem laboral e oficina de respiração para os funcionários.

Resumo: são, em média, 2450 servidores que tropeçam entre si no Supremo Tribunal Federal. Isto corresponde a 222 funcionários para cada um dos 11 ministros.

Então, precisam comer. E comer bem, lagostas, inclusive.

Então, precisam beber. E beber bem, vinho com premiação internacional, inclusive.

araujo-costa@uol.com.br

 

Em tese, Lula da Silva já pode ser solto

Lula resolveu pedir progressão de pena para o regime semiaberto.

Os advogados do ex-presidente aguardam a publicação do acórdão (decisão) do Superior Tribunal de Justiça, que reduziu a pena imposta pelo Tribunal Regional Federal da Quarta Região, para ingressarem com o pedido de abatimento da pena, ajustando-a ao regime prisional mais benéfico.

O raciocínio é simples: condenado a 12 anos e 1 mês de prisão, o Superior Tribunal de Justiça reduziu a pena para 8 anos e dez meses. Lula já cumpriu mais de 1 ano no cárcere. Deduzido esse período, a pena se reduz para menos de 8 anos.

Em consequência, como a pena se situa em patamar abaixo de 8 anos, segundo a legislação penal, Lula terá direito, em tese, ao regime semiaberto. Mas isto não é automático. A defesa do ex-presidente terá de provocar o Judiciário.

Ocorre que o regime semiaberto pressupõe que o sentenciado trabalhe durante o dia e à noite se recolha ao estabelecimento prisional.

Mas, como diz o ditado, “agora é que a porca torce o rabo”.

Lula não gosta de trabalhar, nunca gostou. Será um sacrifício enorme para ele.

A bem da verdade, a única coisa que Lula sabe fazer bem, com maestria, consideradas as embromações de praxe, é conversar, discursar, jogar conversa fora. Deem-lhe um microfone e ele passará séculos discursando. E não pode esquecer os holofotes. Lula adora holofotes.

Lula vinha dizendo, para inglês ver e também para a militância petista e admiradores, que não trocaria a “dignidade pela liberdade”. Lorota.

Só um maluco prefere ficar preso, tendo o amparo da lei, para ficar solto. E Lula está longe de ser maluco.

Lula diz que vai provar que é inocente. Para provar inocência, não é necessário estar preso. Os processos tramitam, impulsionados pelos defensores, Ministério Público e Poder Judiciário. A inocência, se provada, acontecerá em fase recursal, na ocasião própria.

Também é possível que Lula lute junto aos tribunais pela prisão domiciliar, enquanto não venham outras possíveis condenações, o que, pelo andar da carruagem, parece inevitável.

Na hipótese de prisão domiciliar – impostas algumas condições, a critério do juiz – Lula se livraria do trabalho, fardo muito pesado para quem não está habituado com isto.

Todavia, a luta pelo direito é direito de Lula.

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