Referências do jornalismo curaçaense

Empurrado pelo tempo em direção à senectude, pespega-me a impressão de que a luta pelo resistir da cultura e da literatura do sertão sanfranciscano baiano e, por extensão, de Curaçá, deve ficar com os mais jovens, mormente sonhadores e utópicos de todas as matizes: política, filosófica, ideológica, et cetera.

Alinne Suanne/Reprodução perfil facebook

Entrementes, a sede de absoluto dos jovens não deve lançá-los no despenhadeiro dos extremismos, como o mundo de hoje se nos apresenta frequentemente, o que vem dificultando as formas de flexibilizar as fronteiras do pensamento.   

Em idade septuagenária, já não tenho onde buscar novidades no meu restrito universo do conhecimento para levá-las aos leitores, quase sempre ávidos por coisas novas e adequadas a essa conturbada quadra do tempo.

Luciano Lugori/Acervo Curaçaense

O máximo que faço – ou tento fazer – é rememorar fatos, pessoas, ocasiões, cutucar insistentemente a memória.

Embora não me considere memorialista imaginoso, tendo a aproximar-me desse universo e esta é a razão precípua de meus escritos pobres, mas verdadeiros.  

A persistência em seguir adiante falando de histórias e, sobretudo, da História, já se me afigura repetitiva. Por isto, quase sempre enveredo por coisas do cotidiano que, aliás, é a razão de ser do cronista. E, modéstia à parte, sou um deles, inobstante perdido nas intempéries da vida.

Os mais jovens têm uma maneira mais eficiente de aquilatar o conhecimento, quer através de pesquisas, quer mediante o próprio interesse em si que os impulsiona em direção ao nebuloso desconhecido.

Elias Fonseca/Acervo Curaçaense

Sou um escrevinhador insatisfeito com o andar do mundo, às vezes trôpego em razão do meu caminhar, que vem de longe. Contento-me com a experiência adquirida na esteira do equilíbrio do meu andar.

Faço esses prolegômenos para dizer que ando muito contente com a geração de Curaçá que está enriquecendo a cultura local, a exemplo de professores que estão levantando uma nova forma de pensar e de jovens que vêm se destacando nas artes e no interesse em manter as tradições locais.

Maurízio Bim/Reprodução perfil facebook

Entretanto, cinjo-me a quatro destacados profissionais que os admiro em Curaçá, mormente pela atuação na área do jornalismo e incursão na cultura do município: Maurízio Bim, Luciano Lugori, Alinne Suanne Torres e Elias Fonseca.

Hodiernamente, Curaçá deve muito a eles no que concerne a efervescência da História do lugar.

Este pessoal vai longe e está atapetando o caminho para muitos. Torço para que os exemplos perdurem.

Estes profissionais – Maurízio, Lugori, Alinne e Elias – estão construindo um novo tempo cultural para Curaçá.

Em tempo:

Registro meu  reconhecimento e gratidão a Elias Fonseca Martins. Prezo muito este rapaz. Acolheu, por algum tempo, sem me conhecer, minhas pobres crônicas no site que comandava em Curaçá.

araújo-costa@uol.com.br

Ernani de Amaral Menezes e os fragmentos do tempo

“O mundo mudou e mudei eu também. Mudei porque vivi, porque viver é mudar.” (Tristão de Athayde, 1893-1983)

O chorrochoense Ernani de Amaral Menezes manteve respeitável vínculo com o mundo de sua geração.

Ernani de Amaral Menezes/Arquivo Erbene Menezes

Ernani simbolizava a decência, a cordialidade e, sobretudo, o exemplo de caráter irrepreensível herdado da mãe Maria Argentina de Menezes e do pai Eloy Pacheco de Menezes.

Eloy Pacheco de Menezes, filiado histórico ao antigo Partido Social Democrático (PSD), foi o primeiro gestor nomeado para cuidar dos interesses de Chorrochó no período do interregno entre a emancipação e a posse do primeiro prefeito eleito.

Coube-lhe instalar os serviços municipais e organizá-los para sustentarem a estrutura do novo município que despontava no mapa do sertão da Bahia .

Ernani se casou com a professora Maria Abigail de Menezes – também do mesmo esteio familiar e tradicional de Chorrochó – e tiveram os filhos Fred Hermano de Amaral Menezes e Erbene Maria de Menezes, que trouxeram moldura encantadora à existência do casal.

Penitencio-me se, eventualmente, grafei os nomes com incorreções. A memória tropeça no tempo e pode permitir gafes e distorções e, até, com frequência, cometer deslizes históricos involuntários.

O casal Maria Argentina e Eloy teve os filhos Ernani de Amaral Menezes, Maria Menezes (Pina), José Eudes de Menezes (Iê) e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes.

Ernani e os irmãos foram educados nos moldes das famílias tracionais do lugar e bem preparados para o exercício da profissão e o convívio social.

Ernani alternava seus muitos e variados compromissos na cidade com os afazeres das Fazendas Santa Terezinha, Mulungu e Queimadas, esta última pertencia ao seu núcleo familiar e que ele cuidava com zelo e dedicação.  

A maneira mais alta de realização pessoal daquela geração da qual Ernani fazia parte era a formação moral advinda da ascendência, os estudos e a dedicação à vida profissional .

Quem optava pela boemia, própria da juventude, o fazia nos limites permitidos pelo pequeno núcleo urbano que era Chorrochó à época e sempre estribado no respeito a todos.

Ernani nasceu em 29/04/1942 e faleceu em 13/04/1999.

Esta crônica estilhaçada pelas lembranças nasceu do cutucar da saudade de Ernani e de sua família. Minhas escusas pela pobreza do texto e do retrato dos fragmentos daquele tempo.

araujo-costa@uol.com.br

Em tempo:

Relativamente a algumas informações que eu não lembrava, Erbene Menezes prontamente me socorreu.

Os donos do Brasil e os aviões da FAB

“Ilustrar o espírito é pouco; temperar o caráter é tudo.” (Raul Pompéia, 1863-1895, in O Ateneu)

Aeronave da FAB VC-99 usado em missões oficiais/Reprodução Google

A Folha de S.Paulo publicou e outros órgãos de imprensa repercutiram a notícia, exaustivamente.

O governo de Lula da Silva empresta, generosamente, aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para viagens de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), embora não previsto em normas e/ou regulamentos.

Suas Excelências, os ministros do STF, donos do Brasil, fizeram 154 voos em jatinhos da FAB, somente no período de janeiro de 2023 até fevereiro de 2025.

Pior: os nomes das pessoas que utilizaram os aviões e, por consequência, seus acompanhantes, foram colocados sob sigilo por 5 anos.

Ou seja, a transparência com os gastos públicos subiu ao telhado, o que, aliás, não é nenhuma novidade neste tempo de desigualdade democrática.

Como cantava Cauby Peixoto, em Conceição, “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu.”

Os privilegiados gastadores do dinheiro público deitam e rolam com suas benesses, sem nenhuma fiscalização, à custa dos brasileiros que pagam impostos e muitos passam fome.  

Diz a imprensa – a Folha de S.Paulo, inclusive – que “as normas para uso dos aviões da FAB não incluem os ministros do STF”.

“O decreto que regula as viagens permite o uso das aeronaves pelos presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo, além de ministros do governo e comandantes militares. A lista não inclui explicitamente ministros do STF, mas afirma que o Ministério da Defesa pode liberar os voos de outras autoridades nacionais e estrangeiras” (Folha de S.Paulo, 09/04/2025).

Excetua-se o presidente da República, que tem aeronaves à disposição, de acordo com a lei.

Como se vê, as normas não incluem ministros do STF, apenas seu presidente.

E daí?

Daí que são os donos do Brasil que mandam. E não se fala mais nisto.

E nós, que fazemos parte da plebe social, apenas assistimos estupefatos a esse acinte aos brasilerios: ministros do STF usaram jatinhos da FAB 154 vezes somente entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2025.

O segundo lugar no uso de aeronaves ficou com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE): 10 voos. A diferença é abismal.

araujo-costa@uol.com.br

Belinho de Curaçá, tempo e lembrança

Belinho (1943-2024). Reprodução Rede GN

Nascido Belarmino Rodrigues Nunes em 1943, faleceu em 2024, no mês em que completaria 81 anos.

Se não me falha a memória – e a memória, já esburacada, sempre falha nesta altura da vida – ele tinha Guimarães no nome. Entretanto, minha dúvida soma-se ao pedido de desculpa, se grafei o nome incorretamente.

Belinho nasceu na caatinga do simpático distrito curaçaense de Barro Vermelho. Como se vê, de origem caatingueira e estribado no ambiente garranchento e esturricado que todos nós do sertão tanto gostamos.

Belinho, como era conhecido em Curaçá e região, foi servidor público atuante, respeitado por colegas e curaçaenses de modo geral. Sociável, bate-papo agradável, prezava as amizades, sabia fazer amigos.

Conheci Belinho em 1974 e convivemos por algum tempo. Ele e eu trabalhávamos na Prefeitura de Curaçá na primeira administração do prefeito Theodomiro Mendes da Silva, ínclito filho de Patamuté.

Belinho vinha de outras administrações, o novato ali era eu.

Diálogo agradável, inevitável não gostar de sua conversa atenciosa, o respeito com todos e, sobretudo, sua dedicação à profissão que exercia.

Anos mais tarde, foi presidente da tradicional Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá, respeitada instituição sertaneja que faz parte da cultura do município e da Bahia.

Curvo-me, sempre, diante da consideração, hoje um tanta escassa, neste mundo tão conturbado pelas incompreensões.

Em 2022, não me recordo o mês, mais de 47 anos depois que saí de Curaçá, Belinho me telefonou para dizer que havia conhecido um de meus irmãos, morador na caatinga de Patamuté, nos limites com o município de Chorrochó.

Salvo engano, Belinho cuidava de um caminhão-pipa ou coisa parecida. O fato é que andava por lá, às voltas com esse mister de distribuição de água em sítios e fazendas atribuladas pela seca.

Conversamos, lembramos de nosso tempo na administração de Theodomiro e, por óbvio, revivemos saudades e lembranças.

A amizade nunca se faz distante, nunca é abstrata, nunca se desprende da consideração e flexibiliza os tropeços do nosso caminhar.

Post scriptum:

Quem se interessar em conhecer a Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá, sua história e tradição, recomendo a Dissertação de Alinne Suanne Araújo da Silva Torres apresentada em 2016 no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Mílton Santos, da Universidade Federal da Bahia, com o título Curaçá: O Vaqueiro, sua Festa e a Representação da Cultura.

araujo-costa@uol.com.br  

Curaçá e os acasos que o tempo registrou

O contexto político era outro, mais civilizado.

Não havia polarização, não havia exacerbação ideológica, não havia fanatismo imbecilizado a exemplo de agora.

A juventude queria mudança de mentalidades e não bajulação de líderes políticos.

Saíamos de uma exaustiva campanha pela Assembleia Nacional Constituinte que aprovou a vigente Constituição de 1988, que alguns ministros do Supremo Tribunal Federal de hoje apequenam-se diante da História e vão rasgando, paulatinamente, suas páginas a cada dia.

Hoje a Constituição Cidadã que nossa geração sonhou e que o paulista Ulysses Guimarães lutou para torná-la realidade está mutilada, espezinhada, humilhada.   

Lutamos para que a mancha da cruel ditatura militar de 1964-1985 não permanecesse intacta. Conseguimos, em parte.

Em Salvador, Gilberto Gil se posicionou na condição de candidato a prefeito do município. Foi defenestrado de sua intenção, em razão de conchavos outros engendrados na alcova dos mandantes políticos da ocasião.

Em Curaçá, também eu havia acreditado, ingenuamente, mas fui alijado de minha indicação, embora me tenha sido prometida. Foi nessa quadra do tempo que aprendi a não levar a sério palavras de políticos e, nesse particular, continuo cético.  Continuarei cético.

Entrementes, é próprio dos jovens acreditar, mesmo não sendo muito jovens. Faz parte da utopia e dos sonhos.

Em solidariedade a Gilberto Gil, fiz-lhe saber que não era somente o caso dele, em Salvador, mas de muitos outros, inclusive em Curaçá, naquele efervescer de ideias e da redemocratização do Brasil.

Em 31/08/1988, em carta, ele concordou e se disse disposto a continuar a luta.

Carta de Gilberto Gil/Arquivo do autor do Blog

A história política subsequente de Gilberto Gil todos conhecem, inclusive culminou como ministro da Cultura (2003-2008) de Lula da Silva e hoje é membro da Academia Brasileira de Letras.

Guardo a carta histórica que recebi de Gilberto Gil para integrá-la ao Acervo Curaçaense, que considero embrião da futura Academia de Letras de Curaçá, quando Maurízio Bim e Luciano Lugori e outros intelectuais de lá a viabilizarem.

Acredito muito nos intelectuais de Curaçá, que têm demonstrado persistência ao cuidar das estruturas da História do município, inobstante as naturais dificuldades de percurso.    

araujo-costa@uol.com.br

Modesta conversa com o leitor

Quase um ano, vai por aí.

Recebi um e-mail de conspícuo leitor que, embora paulista e, por óbvia consequência, morador em São Paulo, conhece, como a palma da mão, considerável parte do território de minha admirada e querida Bahia, mormente a região da Chapada Diamantina.

Conta Antonio Molinari – este o nome do ilustre leitor a que me refiro – que fazia “uma excursão no noroeste baiano” e conheceu a região, pessoas, costumes, prosa, encantos e os mistérios de lá.

“Passara dez dias visitando a região; conhecendo grutas profundas, escuras como breu, com estalactites; tomado banhos de cachoeira; suportado um sol de arrasar; mergulhado em lagoas de águas cristalinas; comido muito requeijão, carne de sol, comidinhas saborosas e tomado cachaça feita pelos próprios consumidores”. 

Isto se deu, devo presumir, em idade relativamente jovem.

Em quadro assim, razoável entender que, à época, era peregrino das estradas e desbravador de sonhos.  

O atestado que a juventude carrega é o tempo, as coisas do tempo, o passar do tempo. Esse atestado, impregnado de experiência, permanece intacto durante toda a caminhada em direção à velhice.

Conta, ainda, Antonio Molinari, que aos 25 anos se casou com uma baiana de Rio de Contas, o que não deixa de ser uma façanha para quem conheceu a região nesse passar do acaso.

Dito leitor mandou-me texto alentado e bonito, escorreito, bem escrito, relatando os costumes e a gente simples da Chapada Diamantina.

Inobstante baiano, não conheço a região onde reinou absoluto Horácio de Matos, lendário coronel da Guarda Nacional.

Diz Antonio Molinari que procura “divulgar fatos e observações do cotidiano das pessoas que vivem ao nosso derredor”. Convenhamos, uma qualidade de observador atento aos detalhes e às coisas da vida.

Confesso que gostei do texto do leitor. Interessante, agradável, culto, essencialmente despretensioso, como deve acontecer com as pessoas humildes, internamente grandes, intrinsicamente nobres.

O leitor diz que encontrou este blog, casualmente, “navegando nesse mar imenso que é a internet”. E cita alguns trechos publicados neste espaço ao longo do tempo.

Penhoradamente agradeço. 

araujo-costa@uol.com.br

Estas Palavras Rimadas de Laudney Mioli

Laudney Mioli e sua obra/Editora Lux

Já se vão, por aí, algumas décadas.

Os anos empurraram o tempo em direção à distância, mas trouxeram a saudade para mais perto.

Em 03 de janeiro de 1983 conheci Laudney Ribeiro Mioli, em São Caetano do Sul, pujante e bonita cidade do ABC Paulista.

À época este escrevinhador trabalhava na Matriz Publicidade, na Rua Manoel Coelho, empresa do Grupo 3 Irmãos e dirigida pelo publicitário Adilson Luiz, profissional responsável, meticuloso e, sobretudo, educado.

Laudney Mioli era superintendente comercial do Grupo 3 Irmãos. Confesso carregar a honra de ter passado algum tempo sob a experiência deste ilustre poeta do simpático município paulista de Adolfo e que enriquece a história paulista.

Em meado de 2023, Laudney Mioli lançou o livro Memórias em Versos & Rimas, muito bem acolhido por amigos, admiradores e público em geral. Já se vislumbrava na ocasião a boa avaliação da crítica que, de fato, o colocou em posição de merecido destaque.

Agora, no deslizar deste 2025, Laudney lançou estas Palavras Rimadas, agradáveis palavras de agradável autor.

Uma das muitas qualidades de Laudney é a humildade. Ele é impressionantemente humilde. Modesto, diz que não é poeta, inobstante a respeitável obra já lançada.

Pode não ser poeta um sujeito que compôs cerca de 3.000 estrofes em versos e rimas de tão boa qualidade, a exemplo do que ele se referiu à época de Memórias em Versos & Rimas?

Os livros – um e outro – são resultados desse caminhar pelo mundo da poesia. Segundo o autor, ele garimpou parte dessa monumental produção literária e a transformou no livro Memórias em Versos & Rimas. Agora prossegue com Palavras Rimadas.

A poesia suaviza nossos tropeços, torna os fardos da vida mais leve, flexibiliza o caminhar, aponta horizontes mais amenos.

Então, o homem é poeta, sim. E de respeitável e admirável gabarito. Mais do que isto: entrou para o universo dos bons e abalizados escritores.

Laudney estudou Administração e Marketing na Escola Superior de Administração de Negócios-ESAN, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

É grande conhecedor de marketing, área que atuou durante muitos anos. Nota-se que agora ele se utilizou dessa frondosa experiência para publicizar, com bom humor, os louváveis lançamentos tanto de Memórias em Versos & Rimas quanto de Palavras Rimadas.

De minha parte, embora apoucado com essas minhas pobres palavras, congratulo-me com o momento de alegria e realização pessoal que Laudney está vivendo e lhe desejo retumbante êxito.

Sempre.

araujo-costa@uol.com.br

Trechos adormecidos de Chorrochó

Costumo manter em meus alfarrábios – e isto vem de longe – as cartas que recebi ao longo do tempo, quando ainda se escreviam cartas e quando as amizades significavam muito na vida de todos.

Não somente cartas. Escreviam-se bilhetes, cartões, anotações, recados e uma série de demonstrações de afeto aos amigos.

Há correspondências divertidas de amigos e parentes retratando saudade e outras tantas confidenciais que, por serem confidenciais, obviamente dispensam referências.

Osvaldo Peralva (1918-1992), ícone do bom jornalismo (hoje a seriedade jornalística está escassa), disse em 1989, que “as cartas não mentem”. Guardei a observação.

Já se vão, por aí, trinta e seis anos. Nunca esqueci esse detalhe verdadeiro.

Quando a curiosidade me cutuca, remexo arquivos – aliás desorganizados,  que é um dos meus muitos defeitos – e chamo à memória lembranças e saudade de tempos idos e vividos.

Registro, hoje, uma saudosa correspondência sem data (não guardei o envelope com o carimbo dos Correios) recebida de Chorrochó.

A signatária era D. Regina Luíza de Menezes, à época Oficial do Registro Civil da comarca de Chorrochó, constando a lista dos nomes e respectivas funções dos serventuários da Justiça daquela comarca.

Na ocasião, o Juiz de Direito da comarca era Dr. Antonio Oliveira Martins e a promotora de Justiça a chorrochoense Drª Maria Joselita de Menezes.

A serventia era a mesma e pioneira da instalação da comarca em outubro de 1967, feito do prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes e do governador Luís Regis Pacheco Pereira.

Já escrevi, alhures, não faz muito tempo, sobre D. Regina Luíza de Menezes e sua brilhante família.

Aliás, conheci todos aqueles serventuários, à exceção do Juiz de Direito titular, à época da carta a que me refiro.

Ei-los:

Registro Civil: Regina Luíza de Menezes;

Tabelionato: João Pacheco de Menezes;

Feitos criminais: José Eudes de Menezes;

Feitos cíveis: José Jazon de Menezes;

Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Protesto de Títulos: Virgílio Ribeiro de Andrade;

Avaliadores: José Claudionor de Menezes, José Claudio de Menezes e Osvaldo Alves de Carvalho;

Oficiais de Justiça: Carlos Bispo Damasceno, Manoel Dias dos Santos e Fabrício Félix dos Santos.

Como se trata de documento histórico, mantenho, isoladamente, a bonita assinatura de D. Regina que, aliás, consta em inúmeros documentos públicos expedidos pela comarca de Chorrochó no tempo em que ela foi titular do Cartório de Registro Civil.   

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté, uma saudade

Demerval de Souza Alcântara /Taxú

Talvez apenas um registro, mas certamente uma grande saudade.

Demerval de Souza Alcântara (Taxú), amigo de todas as horas, que me socorreu em muitas de minhas dificuldades, que foram muitas em Patamuté.

Nunca me disse um não.

Até para vender fiado o conhaque Castelo quando nossa juventude boêmia lhe pedia socorro, em noites de serenata, na pacata Patamuté da década de 1960.

Esta foto é histórica. Guardo-a com carinho, porque significa muito em minha vida: amizade que nem a morte destruiu.  

Já escrevi outras vezes sobre Taxú e Celina Moreira, sua esposa, amiga que a passagem do tempo não apagou da memória.

Hoje é somente o registro da saudade e da lembrança do tempo que se foi.

araujo-costa@uol.com.br

Só a sepultura é perpétua

“O homem é um ser entre o nada e o túmulo.” (Frase do padre português Pedro Gomes de Carmargo nos funerais do também padre Diogo Antonio Feijó)

Em idade septuagenária, não sei se chegarei muito adiante neste caminhar em direção às incertezas do desconhecido.

O caminho já se apresenta espinhoso, pedregoso, cheio de obstáculos. O caminhante um tanto trôpego, embora sustentado na fé e consciente das dificuldades para o prosseguimento da caminhada.

Uma de minhas filhas, em conversa sobre assuntos profissionais, me fez a seguinte pergunta, de supetão, em cima da bucha, exigente, quase pedindo explicação:

– Pai, e se o senhor morrer?…

Excluídas as reticências, por óbvio, enumerou uma série de consequências de minha morte, mudando  do  “se” para o “quando” – o que é mais certo – porque não se trata de uma questão condicional e evitável, mas inarredável de tempo e espaço.

Ciente da efemeridade da vida, aí me “caiu a ficha”.

É sinal que a família está preocupada com minha senilidade, o que faz muito bem. Ou já está me achando com um pé na beira da cova, prestes a escorregar túmulo abaixo.

Quiçá seja o desabrochar do etarismo, que conhecíamos na juventude como idadismo e  a geração de hoje seriamente detesta e se incompatibiliza.

Diz o escritor amazonense Mílton Hatoum que “a velhice pode ser um naufrágio”.

Se for assim – e se é assim – há tempo estou naufragando nas correntes caudalosas e perigosas das águas da vida, em direção ao estuário da finitude.

Então, deve ser tempo de alinhavar e engendrar as linhas do funeral, que não sei se está perto ou longe, mas será razoável que ninguém chore no dia da partida, embora todos tenhamos a liberdade de chorar (ou não).

Não compensará a tristeza, não valerá a pena o desalinho desse passar tão desimportante, porque “o homem é um ser entre o nada e o túmulo”.  

Sou efêmero e só a sepultura é perpétua.

Acho que é hora de acordar para refletir, já que todo esse tempo passado não fiz outra coisa senão sonhar.

araujo-costa@uol.com.br