Feira Literária de Curaçá e coisas escorubiúdas

Os mineiros de antigamente – não sei se ainda hoje – usavam a palavra escorubiúda para significar coisa confusa e estranha.

Amigos telefonaram da bela e sanfranciscana Curaçá questionando minha suposta falta de atenção e a razão de não ter ido à 1ª Feira Literária de Curaçá (FLIC) que se realizou na cidade entre 21 e 23 de novembro último, evento muito badalado que enriqueceu o município e a região.

Primeiro, porque as boas regras de etiqueta e civilidade dizem que não se deve meter o bedelho onde não foi chamado.

Segundo, porque a 1ª Feira Literária de Curaçá (FLIC) foi coisa de gente grande e eu, diante de minha pequenez, circunscrevo-me a mim mesmo, tão somente este escrevinhador pendurado ao acaso do cotidiano de cronista. Como tal, sou desconhecido dos curaçaenses, embora orgulhoso filho de Patamuté.

Terceiro, porque mesmo se eventualmente tivesse sido convidado, não poderia comparecer, tendo em vista o turbilhão de afazeres que tenho que dar conta todos os dias, em razão de vínculos e amarras profissionais.

Outro amigo fez um sucinto, criterioso, sensato e isento relato do evento literário, que muito me lisonjeou, mas não me fez nenhuma pergunta e obrou ele muito bem.

Na realidade, quando tive conhecimento da FLIC ela já estava acontecendo e isto se deve, unicamente, a um descuido meu com as coisas que se passam em minha terra. Às vezes relapso, outras tantas abelhudo como agora.

Parafraseando Mílton Carlos e Isolda – e por extensão, Roberto Carlos – este é o meu “jeito estúpido” de amar Curaçá.

Entrementes, deixo aqui minha paupérrima e insignificante avaliação do evento.

A FLIC, sem dúvida, foi um evento histórico, seguramente enriquecedor da cultura de Curaçá, necessário para sacudir as estruturas do pensamento de sua intelectualidade e da geração que está se formando em direção ao desconhecido.

Um dos textos da Assessoria de Comunicação da FLIC diz, com propriedade, que o evento cultural tinha o propósito de contar “com a participação de escritores, professores, memorialistas, artistas locais, regionais e nacionais”, além de “lançamentos de livros, performances artísticas, oficias, exposições e sebos”.

Por aí se vê, que a FLIC despontou com segura robustez de propósito, tal como a oportunidade oferecida a “estudantes da rede estadual de ensino que terão oportunidade de apresentar suas criações artísticas”.

O professor doutor Josemar Martins (Pinzoh), honra e glória de São Bento e curador da FLIC, sinalizou que “o evento tem também como objetivo consolidar o município como pólo cultural da Bahia”.

Louvável a iniciativa, admirável a disposição.

O governo do Estado direcionou recursos, por intermédio de alguns órgãos oficiais. A FLIC teve patrocínio e apoio, ademais, de outras instituições, inclusive da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e isto certamente contribuiu eficazmente para assegurar o êxito do evento.

O Acervo Curaçaense, que já se firmou como defensor incontrastável da cultura e da História do município, teve fundamental importância na organização da FLIC.

O Acervo Curaçaense é uma instituição séria, sólida, bem estruturada e bem dirigida e tem à frente abnegados vigilantes e defensores da História e da cultura de Curaçá. Alhures, em artigo, citei os nomes de todos os integrantes do Acervo, que passei a admirá-los.  

A coisa escorubiúda da FLIC ficou por conta de que algumas pessoas que contribuíram ou contribuem para a cultura de Curaçá ficaram de fora, inclusive do povoado de Mundo Novo e, parece, até de Barro Vermelho.

Pedindo venia pela crítica, talvez atabalhoada, acho que faltou um levantamento preliminar de todos quantos contribuíram ou contribuem para a história literária de Curaçá, de modo que todos fossem contemplados pelo evento que, a rigor, é literário.  

De outro turno, chega a ser estapafúrdio sob qualquer aspecto, a FLIC ter deixado à margem, salvo engano, quaisquer referências à memória de Herval Francisco Félix, um dos esteios da intelectualidade de Curaçá.

A contribuição de Herval por si só é suficiente para sustentar um monumento à decência e à dignidade da história literária de Curaçá.

Quiçá, neste caso, o adágio popular se fez inarredavelmente presente: “Santo de casa não faz milagre”.

Mutatis mutandis, é razoável presumir que o modelo da FLIC se espelhou noutras feiras literárias alheias à realidade de Curaçá e, por óbvio, toda cópia deve ser entendida com reservas.

Não sou filósofo, mas costumo me interessar com a origem das coisas. Neste diapasão, parece razoável entender o seguinte: o que menos foi evidenciado na FLIC foi o LIVRO, sustentáculo de qualquer feira literária.

O LIVRO, qualquer que seja a quadra do seu tempo, merece um pedestal para agigantar-se e espalhar luz em direção à cultura, ao saber, às gerações, ao mundo.        

De qualquer modo, a FLIC merece nossos aplausos e reconhecimento, independentemente de sermos filhos ou não de Curaçá.

araujo-costa@uol.com.br

O sorriso da riqueza e a doce rapadura das mulheres dos ministros

O ministro do Combate à Fome e a esposa conselheira do TCE do Piauí/Reprodução UOL

Cinco ministros de Lula da Silva acabaram imediatamente com a pobreza. Em suas casas.

Esses ministros empregaram suas respectivas esposas em cargos vitalícios com salários de aproximadamente R$ 40 mil por mês, mais mordomias, penduricalhos e um pouco de cara de pau .   

Rui Costa (Casa Civil): empregou a mulher na função de conselheira do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia.

Waldez Góes (Desenvolvimento Regional): empregou a mulher na função de conselheira do Tribunal de Contas do Amapá.

Wellington Dias (Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome): empregou a mulher na função de conselheira do Tribunal de Contas do Piauí.

Renan Filho (Transportes) empregou a mulher na função de conselheira  no Tribunal de Contas de Alagoas.

Camilo Santana (Educação): empregou a mulher na função de conselheira do Tribunal de Contas do Ceará (a Assembleia Legislativa do Ceará estava apreciando a indicação em 12/12/2024).

Suas Excelências e insignes conselheiras ficarão no cargo vitaliciamente, até aposentar ou morrer, apadrinhadas por seus poderosos maridos e sustentadas por estratosféricos salários e mordomias.

A rapadura é doce, mas os impostos que os brasileiros pagam para sustentar Suas Excelências são amargos.

Mas o que isto importa quando se trata da elite?

A coincidência:

Essas senhoras são de estados do Nordeste – uma é da região Norte – que foram governados por seus maridos. Esses estados concentram altos índices de pobreza e miserabilidade.

A piada:

“A Constituição exige que os indicados atendam a determinados requisitos, a exemplo de reputação ilibada, notório saber contábil e jurídico e possuir atuação profissional que comprove a capacidade técnica para o cargo”, como lembra a Carta Capital de 11/12/2024.

Tirante a reputação ilibada, que certamente todas têm, onde estão o saber contábil e jurídico e a capacidade técnica de Suas Excelências?

A crueldade:

O ministro Wellington Dias (Combate à Fome), que empregou sua esposa com salário beirando as nuvens, é o mesmo ministro que está cortando benefícios de necessitados, inclusive de doentes e desamparados.

Um exemplo, que por si só basta: conheço uma senhora solteira e desempregada, mãe de um filho com transtorno do espectro autista, que ainda cuida da mãe de 86 anos, doente e alquebrada.

Esta senhora foi informada recentemente que o ministério do senhor Wellington Dias cortou o benefício do seu filho autista e o deixou desamparado, com dificuldade até de adquirir o básico, compra de alimentos e remédios, por exemplo.   

Orientada a marcar perícia médica no INSS para reavaliar as condições do filho e tentar restabelecer o benefício, foi informada pelo órgão que não há condições de agendamento de perícia, por enquanto.

Rejane Ribeiro Sousa Dias, esposa do ministro de Combate à Fome e conselheira do Tribunal de Contas do Piauí tomou posse como conselheira em janeiro de 2023.  Já recebeu dos cofres públicos, além dos salários, penduricalhos e venda de folgas no total de R$ 210 mil (UOL, 13/12/2024).  

Este é o governo do PT que está acabando com a pobreza.

araujo-costa@uol.com.br

Ontem, ditadura militar; hoje, arremedo de democracia.

General Lyra Tavares, Almirante Augusto Rademaker, Marechal-do-ar Márcio de Souza e Melo/Folhapress

Em 31 de agosto de 1969, o marechal-presidente Arthur da Costa e Silva sofreu uma trombose cerebral (AVC) e precisou se afastar do governo imediatamente.

Em 01/09/1969, o jurista civil e vice-presidente Pedro Aleixo foi impedido de assumir o governo.

Pedro Aleixo, vice-presidente de Costa e Silva/Folhapress

O Alto Comando das Forças Armadas editou o Ato Institucional número 12 e instituiu uma junta governativa para assumir os destinos da nação e exercer as funções de governo.

O general Aurélio de Lyra Tavares (Exército), o almirante Augusto Hamaan Rademaker Grunewald (Marinha) e o Marechal-do-ar Márcio de Souza e Melo (Aeronáutica) compuseram a Junta militar e governaram o Brasil até a posse do general Emílio Garrastazu Médici.

Em 10/12/2024, o presidente Lula da Silva se submeteu, às pressas, a um procedimento cirúrgico de emergência para corrigir hemorragia no cérebro.

Lula está na UTI, em São Paulo, com dreno e incapacitado de tomar quaisquer decisões e, menos ainda, de exercer a presidência da República, mesmo precariamente.

O PT, que não gosta de Alckmin, mas o engole por decisão de Lula, apressou-se e fez circular informação de que o presidente Lula não irá se afastar do cargo, o que foi secundado por auxiliares próximos do presidente com assento no Palácio do Planalto.

O vice-presidente Alckmin está em Brasília, com cara de paisagem e contemplando a expectativa de assumir, mas o poder ainda não lhe caiu às mãos, nem vai lhe cair tão cedo.

Vice-presidente Geraldo Alckmin/Wikipedia

Sabe-se que Lula da Silva precisa continuar internado alguns dias, porque suas condições de saúde não lhe permitem alta médica.

É o que a Constituição da República preceitua como impedimento (artigo 79), requisito legal para o vice-presidente assumir.

Em quadro assim, natural que o presidente se afaste de suas funções por alguns dias e o vice-presidente assuma, constitucionalmente, até a total recuperação do titular.

Chega a ser incompreensão e crueldade exigir de Lula da Silva que continue na função em quadro delicado e fragilizado como este.  O que o PT deve oferecer é solidariedade e não egoísmo.

Em 1969 os militares não deixaram o vice-presidente Pedro Aleixo assumir sua função constitucional.

Em 2024, o PT não quer deixar o vice-presidente Alckmin assumir sua função constitucional.

Ontem, ditadura militar; hoje, arremedo de democracia.  

araujo-costa@uol.com.br

Presidente Lula da Silva: cirurgia às pressas.

Presidente Lula/Agência Brasil

O presidente Lula da Silva se submeteu a uma cirurgia no crânio (craniotomia) nesta madrugada de 10/12, para corrigir uma hemorragia intracraniana, segundo o Hospital Sírio-Libanês, unidade de São Paulo.

Lula foi atendido em Brasília, mas transferido para São Paulo, em razão da situação de emergência.

O presidente está na UTI, o que é comum em quadro como este.

Por volta de 4h da manhã, saiu o primeiro boletim médico.

Segundo os médicos, o presidente “encontra-se bem”.

araujo-costa@uol.com.br

Anete Lustosa: a fé sustentou o turbilhão da vida

D. Anete Lustosa em momento de fé, ao lado do Padre Honildo Carvalho/Arquivo Professora Margareth Gomes Pires

D. Anete Lustosa faleceu a 30/11/2024, em Chorrochó.

Espirituosa, alegre, afável e atenciosa, D. Anete era presença forte em Chorrochó.

Sinônimo de decência e hombridade, D. Anete fez parte de uma geração respeitosa e exemplo para muitos de seu tempo. 

Atenciosa com todos, sorriso meio lá, meio cá, quase irônico, encantador.

Anete Cabral Lustosa era descendente de família pernambucana de Parnamirim e se casou com Horácio Pires de Menezes de quem era viúva.

Parêntese: Tenho dúvida se o nome correto é Horácio Pires de Menezes ou Horácio Pacheco de Menezes.

Para não me permitirem arranhar a História, recorro ao conspícuo Dr. Francisco Afonso de Menezes e à professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, que entendem do esteio familiar e da história de Chorrochó quanto ao nome correto de Horácio.

Para nós, que ainda ficamos por aqui, o espaço que damos às lembranças talvez seja  uma forma singela de homenageá-la e agradecer sua presença amiga na sociedade de Chorrochó.

É o esmiuçar da saudade e a certeza de que valeu a pena percorrer o tempo que ficou para trás, o convívio com as boas pessoas. 

A fé lhe sustentou o turbilhão da vida bem vivida. Terminou a carreira e guardou a fé (“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”, 2 Timóteo, 4:7).

Chorrochó, décadas atrás.

Minha memória já esburacada reteve o encontro na casa de Socorro e Virgílio. D. Anete chegou, cumprimentou a todos, brincou com o sobrinho e Dr. Evaldo Menezes, que a provocou (ambos tinham uma maneira sadia de brincar, de cutucar o outro), conversou com todos, encheu a casa de alegria e se retirou.

Nunca mais a vi.

Faço o registro de seu falecimento e deixo pêsames à família e abraço fraterno a Cássio Lustosa.

Cássio é profissional respeitado e graduado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e cria da Escola Tercina Roriz, de Belém do São Francisco.

Bom rapaz, Cássio está entre os que me são caros e admiro.  

Em tempo:

Chegou ao conhecimento deste Blog que por ocasião do velório de D. Anete Lustosa, acontecia no CRC CLUBE uma festa organizada por formandos do Colégio Estadual de Tempo Integral São José. Festa barulhenta e desrespeitosa à memória da falecida.

Pessoas que estavam no velório sentiram-se incomodadas e, mais do que isto, indignadas.

É razoável supor que festas de formandos, em Chorrochó ou qualquer lugar, tenham uma comissão organizadora e, em consequência, um responsável que delineia as decisões.

Neste caso, o responsável não agiu para instaurar o bom senso, a sobriedade e, sobretudo, o respeito à memória da falecida. Faltou respeito às tradições do lugar.

Em quadro assim, caberia à comissão organizadora adotar providências para minorar o barulho e, na falta de comissão, isto caberia aos dirigentes do Clube e, por último, à diretoria do Colégio. Ou a todos, simultaneamente.

Entretanto, parece que todos ficaram silentes e acomodados.

Faltou solidariedade, sobrou egoísmo.

É a juventude de hoje, constituída de formandos ou não, que constrói uma sociedade melhor, respeitosa e educada, inclusive para sua descendência e gerações futuras.

Também faz parte dos horizontes e dos sonhos da juventude a construção de uma sociedade sadia e de boa convivência entre todos.  

O direito que exigimos respeito vai até o limite do direito dos outros.

Observação:

Tendo em vista minha dúvida quanto ao nome de Horácio, o Dr. Francisco Afonso de Menezes esclareceu que o nome correto é Horácio Pacheco de Menezes.

Agradeço a presteza e a colaboração.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva não é ingrato com os amigos

Ministro Fernando Haddad/Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ministro da Fazenda Fernando Haddad prometeu, em reunião, ao ministro da Defesa e aos comandantes das três forças, Exército, Marinha e Aeronáutica, que incluiria no pacote fiscal, além dos militares, juízes, procuradores, defensores públicos e demais membros do Poder Judiciário, ou seja, incluiria todas as categorias e nenhuma ficaria de fora.

O Poder Judiciário ficou.

Haddad não cumpriu a promessa e os militares  desconfiam que se tratava de uma lorota, que de fato é.

Estão no Judiciário os grandes e super salários.

Os exemplos são gritantes. Cito apenas dois:

Em dezembro de 2023 os salários e os penduricalhos dos desembargadores do Estado do Pará “ultrapassaram a marca  de R$ 800 mil.” (O Antagonista/Crusoé, 17/01/2024).

Em novembro de 2023, uma juíza do Rio de Janeiro recebeu naquele mês acima de R$ 1 milhão de salários e penduricalhos (O Estadão/Conteúdo, 05/01/2024) .

Esta é a elite intocável que trucida a humildade dos pobres e desamparados e vai para as salas de audiências dar lição de moral nos humildes que procuram a Justiça.

Contudo, como nossa democracia foi para o beleléu, mas o Supremo Tribunal Federal diz que ela existe, essa elite continua gozando de suas benesses, porque ninguém pode reclamar e, se reclamar, nada vai adiantar e, se adiantar, corre o risco de ser preso.   

À semelhança de sanguessuga, essa elite continuará sugando os brasileiros, enquanto grande parte deles passa fome, embora Lula da Silva e o PT digam que tiraram todos da pobreza.

A característica admirável do PT, desde sua fundação em 1980, é a imutabilidade de sua cara de pau.

Em 22/03/2018, a professora e deputada estadual Fátima Nunes, de Paripiranga, que presidia a 9ª sessão especial da Assembléia Legislativa da Bahia disse, em discurso, que Jaques Wagner “tirou a lata d’água da cabeça das mulheres”. A deputada certamente já deve ter conhecido melhor o sertão da Bahia.   

Fernando Haddad é um bom moço, ninguém duvida disto, mas nada faz sem o aval do chefe e não poderia ser de outra forma, porque é subordinado ao morubixaba de Caetés, além de dever a Lula seu status e sua projeção política.

Lula da Silva não é ingrato com os amigos. Nunca foi. Quem o conhece sabe que não é.

Lula não permitiria incluir a elite intocável do Poder Judiciário no ajuste fiscal, por uma razão muito simples: Lula tem uma dívida impagável com a categoria, per omnia saecula saeculorum, para todo o sempre.

O Judiciário anulou todas as condenações de Lula da Silva e anularia outras tantas, se mais tivesse.

Lula da Silva, além de rico, ainda se diz, honrosamente, o homem mais honesto do Brasil, atributo que ostenta com o beneplácito do Poder Judiciário que, como se diz no meio jurídico, erra por último.

É uma maldade Fernando Haddad ter ensaboado José Múcio, nosso digníssimo ministro da Defesa, senhor culto, equilibrado, sensato e elegante, tudo que o PT não é.  

Políticos costumam misturar alhos com bugalhos.

“A percepção do meio militar é que o governo se aproveitou da fragilidade provocada na opinião pública por causa das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado na gestão Jair Bolsonaro.” (Jornalista Raquel Landim, UOL, 29/11/2024).

Ou seja, o pretexto serviu para o governo abocanhar o direito dos militares e deixar o Judiciário de fora do ajuste fiscal.

Como em toda corporação, há bons e ruins.

Há pessoas impolutas e delinquentes.

Esse episódio do suposto golpe de Estado não pode contaminar as Forças Armadas por inteiro, nem deve servir de muleta para o PT se firmar e justificar seus erros históricos.

araujo-costa@uol.com.br

O convite, a lembrança

Guardo o convite recebido em dezembro de 1989.

Já se vão, por aí, 35 anos.

Vinha lá das bandas de Sergipe. O bacharelando em Direito que me convidava era Paulo José de Menezes, que se formava pelas Faculdades Integradas Tiradentes, hoje universidade, salvo engano.

A colação de grau deu-se em 23/12/1989  no Theatro Tiradentes.

Aracaju, para muitos filhos de Chorrochó, passou a ser sinônimo de acolhimento e, para outros, segunda residência.

Já morando em São Paulo, não fui à festa de formatura. Ele sabia que eu não podia ir, mas o convite, que muito me envaideceu, foi uma deferência à amizade que eu mantinha com a família do formando.

Paulo José de Menezes é filho da professora Maria Rita da Luz Menezes (1922-2024) e do também professor Francisco Lamartine de Menezes (1931-1997), de família tradicional de Chorrochó.

Convivi com ambos e os admirava. Ainda os admiro, in memoriam.

Paulo José de Menezes – agora Doutor – cresceu profissionalmente, progrediu e exerce função de destaque e prestígio no município de Chorrochó.

Dr. Paulo José de Menezes, em foto de 2019/Arquivo da família

O jornalista e escritor Raimundo Reis, baiano de Santo Antonio da Glória, dizia, irônico: “Quando falamos muito do passado é sinal que estamos ficando velhos”.

É o meu caso. Aliás, faz tempo que a velhice se abancou no meu terreiro.

Deixo o registro do convite e da lembrança.

araujo-costa@uol.com.br

Padres estrelas e tradições da Igreja

Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, há uma história interessante. A estranheza da sociedade da época, em razão de um certo padre Cabral que, por decreto pontifício, havia sido nomeado protonotário apostólico.

Todos sabiam da existência de cônegos, monsenhores, bispos, núncios e internúncios. Mas protonotário apostólico, não. O que seria?

O padre Cabral, que recebeu o título, acabou explicando aos surpresos curiosos que “não era propriamente cargo da cúria, mas as honras dele”.

Naquele tempo – e naquele século – as pessoas estranhavam os meandros e a linguagem da Santa Sé a ponto de desconhecer o que viria a ser um protonotário apostólico.

Ainda hoje. Confesso minha dificuldade de entender.

Sou católico. E me basto. Gosto de ser. Já trôpego pelo peso da vida, na idade septuagenária em que me encontro, tenho mesmo é que ficar bem com Deus e com todos os Santos para evitar problemas futuros com eles, mesmo sabendo que não tenho mais tanto futuro assim.

Mas há uns modernismos de hoje que não me adéquo a eles. Por exemplo: padres estrelas, aqueles que andam por aí dançando forró, calças coladas ao corpo, fazendo shows, misturando profano com religioso e, até em certas ocasiões, demonstrando postura incompatível com as tradições da Igreja.

E daí? – poderiam me perguntar os admiradores dos padres estrelas. Os bispos aceitam, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aceita, as regionais da CNBB aceita, o Vaticano aceita, o Papa aceita.

Daí, não concordo. E só. Nem é minha intenção polemizar.

Sou do tempo que padre usava batina, não circulava com copos na mão em festas barulhentas e estranhas à Igreja e, sobretudo, era figura respeitabilíssima na sociedade.  

As honras do cargo do padre Cabral ainda existem. O título ainda faz parte da estrutura da Igreja Católica Apostólica Romana. Pouco conhecido, por óbvio. E pouco usado ou não mais usado.    

A propósito, conto um caso.

Há alguns anos, eu estava de passagem por um município, dia de festa, alguns amigos me convidaram para um evento que se estava realizando no clube mais famoso da cidade.

Lá para tantas, todos já um tanto “chapados”, mas etilicamente equilibrados, junta-se ao grupo um rapaz bonito, muito educado, sorridente, copo na mão, dançando em volta de uma mesa.

Um amigo me apresentou e fiz meus salamaleques de praxe nessas ocasiões. Era o padre da Paróquia.

Não consigo me imaginar ajoelhado num genuflexório, confessando-me diante de um sacerdote que, horas antes, estava bebendo e dançando como se padre não fosse.

Minha opinião humilde, sempre humilde, é esta: esses padres devem ser mais contidos, discretos, compatíveis com as tradições da Igreja, o que não significa abdicar da condição humana de viver consoante o andar da sociedade.

Inobstante a dança ser uma arte – e não sei se beber também é – não acredito que padres frequentaram os seminários Menor e Maior, estudaram Filosofia e Teologia para aprenderem a dançar.

Menos, ainda, para aprenderem a fazer shows – calças coladas ao corpo – e coreografar danças sensuais.

Presumo que aprenderam a proferir a palavra de Deus, mostrar o caminho certo às criaturas, cuidar de almas.

Há uma diferença, acho. Ou então, abandonem o celibato.

araujo-costa@uol.com.br

Política de Chorrochó e Curaçá, tempo de ouvir conselhos

“Agora estou ouvindo tudo, até conselhos.” (Heitor Dias, 1912-2000, prefeito de Salvador no período de 1959-1963).

Os prefeitos de Curaçá e Chorrochó eleitos em 2024, se quiserem ser bem- sucedidos (e é possível que queiram) precisam ouvir conselhos, muitos conselhos.

Não conselhos de amigos chegados, apoiadores próximos e assessores bem remunerados, mas conselhos de quem mais entende de abandono: o povo.

“Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam e bajulam, porque me corrompem”, provérbio atribuído a Santo Agostinho.

Mas os políticos costumam ouvir os bajuladores e não os críticos.

É o povo que sofre e deve ser ouvido. Não tem estradas, não tem transporte escolar decente, não tem serviço de saúde digno, não tem ambulâncias suficientes e seguras, para ficar nestes poucos exemplos.

Desvalido e incompreendido, o povo desses municípios carece de prefeitos com tirocínio aguçado para vislumbrarem e resolver as prioridades exigidas pela população.

É razoável presumir que, se houve prefeitos com tirocínio apurado, eles devem ter mandado as prioridades às favas e, por extensão, também a população.

As últimas administrações municipais de Chorrochó e Curaçá foram capengas, ineficientes, opacas, cochilantes.

Os prefeitos estão ancorados no passado, atuam como se vivessem no tempo do mandonismo político e apresentam os feitos à população como se fossem favores das Prefeituras e não direito dos munícipes e dever dos prefeitos.

Por exemplo, prefeitos que têm visão de gestão pública devem instituir zeladorias eficientes para cuidarem, diuturnamente, da limpeza das ruas, recolher o lixo, primar pela higidez do serviço público.

Isto é tão elementar quanto mínimo e óbvio. E faz parte do dever do alcaide.

A propósito, são comuns nas atuais administrações, imagens deprimentes de lixo acumulado ou espalhado nas ruas, mormente nas sedes e até, em algumas ocasiões, esgoto a céu aberto.

No mundo de hoje, com tantos recursos à disposição das Prefeituras, isto chega a ser uma agressão à população e um risco à saúde de todos.  

A população destes dois municípios – Chorrochó e Curaçá – se vê às voltas com prefeitos  politicamente ultrapassados, que ainda fazem política na base de promessas mirabolantes, tapinha nas costas, abraços, festas, muita hipocrisia e nenhuma empenho de dedicação à causa pública.

Esses prefeitos instituíram uma espécie de ópio – festas e adjuntos inúteis – para suavizarem as omissões e deficiências de suas gestões.

Por aí se vê, claramente, que não há planejamento direcionado ao caminhar destes municípios, de modo que imperam a mesmice, o comodismo e o indiferentismo relativamente às necessidades da população.

Dá a impressão que os prefeitos governam para si próprios e para seus apaniguados.

De todo modo, os novos  prefeitos precisam olhar no retrovisor do tempo para saber o que precisa mudar e o que não se deve repetir.

O prefeito eleito Dilã Oliveira (Chorrochó) se elegeu na esteira da liderança do atual Humberto Gomes Ramos, condutor das condições sociais e políticas do município durante longo período.

A vitória de Murilo Bonfim (Curaçá), ao contrário, decorreu da esgarçadura do modo de governar do atual prefeito Pedro Oliveira e de seu grupo político por ele capitaneado.   

Daí surgiu a esperança de um novo olhar manifestado nas urnas.

A capacidade de absorver as críticas e disposição de ouvir conselhos pode ser o caminho para aperfeiçoamento das administrações nestes municípios.

Em Curaçá, quem acredita em Papai Noel diz que haverá mudança com o novo prefeito, expectativa compreensível, em razão do alcaide ser aliado e do mesmo partido do governador do Estado.

Em Chorrochó, mesmo quem acredita em Papai Noel diz que não haverá mudança. O prefeito eleito é do mesmo grupo político do prefeito que sai em 31 de dezembro e, neste caso, é razoável presumir que, se não concordou, pelo menos ficou silente diante dos vícios da gestão que se expira.         

Entretanto, se estes prefeitos que tomarão posse em 2025 não tiverem vigilância diuturna das respectivas Câmaras Municipais – o que é difícil ter – provável que tudo deva continuar como antes.

Nesta quadra do tempo, em Curaçá, Chorrochó ou em qualquer outro município, não há mais espaço para vereadores acomodados e  subservientes à vontade dos prefeitos.

Hoje – parece – parte da sociedade está mais vigilante, inclusive sobre a atuação dos vereadores.

araujo-costa@uol.com.br

Senador Ângelo Coronel, a raposa e o galinheiro

Senador Ângelo Coronel (PSD-BA). Crédito Senado Federal

Na Bahia, aconteceu o que se pode chamar de enrosco.

O senador Ângelo Coronel (PSD-BA), baiano de Coração de Maria, é o relator do Orçamento da União de 2025.

Coube a Sua Excelência, em consequência, apresentar o projeto de lei complementar que discutiu a regulamentação dos pagamentos das emendas parlamentares que haviam sido suspensas pelo Supremo Tribunal Federal.

O STF quer rastreabilidade e transparência do dinheiro das emendas parlamentares, mormente as destinadas via PIX, ou seja, o caminho do dinheiro até o destino e em que está sendo empregado. Neste particular, o STF está correto.

Ângelo Coronel mandou, em emenda PIX, R$ 3,2 milhões para seu município de Coração de Maria e o dinheiro foi repassado para uma ONG com o sugestivo nome de Instituto de Saúde e Educação do Nordeste (ISEN).

Se é do Nordeste não é de Coração de Maria, propriamente, tanto que a dita ONG tem sede no Caminho das Árvores, em Salvador, mesmo bairro do escritório político do senador.

Essa ONG desenvolve parceria com outras prefeituras, inclusive de Alagoas e do Maranhão. É o que diz a imprensa.

Como foi parar em Coração de Maria e qual o labirinto que percorreu até chegar lá é difícil saber.

A impressão é que o município não sabe cuidar de sua educação e precisa valer-se de uma ONG para desenvolver seus projetos. A principal atividade dessa ONG é educação infantil.

Consta que a ONG tem um termo de colaboração com a Prefeitura do município com o intuito de trabalhar num projeto de nome Educaê e que o dinheiro se destinava a gastos com “material de consumo, bens e serviços, combustíveis e eventos culturais no município de Coração de Maria”.

O senador Ângelo Coronel disse à imprensa que não transferiu dinheiro à ONG, “nem para nenhuma outra no estado da Bahia” (UOL, 25/11/2024), mas a Controladoria Geral da União (CGU), através de auditoria, constatou faturas mensais de R$ 1,4 milhão, previstas em contrato, entre a ONG e a Prefeitura, por conta da emenda parlamentar indicada pelo senador.

“Chamou a atenção dos auditores o fato de as faturas mensais cobradas pela ONG da Prefeitura não terem relação com o plano de trabalho previsto na parceria e serem maiores do que o valor previsto inicialmente.”(UOL, 25/11/2024).

O senador Ângelo Coronel cuida do Orçamento da União de 2025 e cuidou da regulamentação das emendas parlamentares que ele mesmo se beneficia. Aliás, tais emendas beneficiam todos os parlamentares e não somente ele.

Parece caso de raposa cuidando do galinheiro.  

araujo-costa@uol.com.br