Sertão de Chorrochó, becos e cabras

Há algum tempo, leitor de origem nordestina me cobrou um artigo que leu nalgum lugar em que falo de becos e cabras.

Confesso não me recordar.

Minha memória esburacada tropeça aqui e acolá, de modo que nem sempre encontro o que procuro em meio à bagunça de meus alfarrábios, papéis desatualizados e arquivos desorganizados.

Todavia, presumo que o leitor se referia ao artigo versando sobre o povoado de São José, município de Chorrochó, sertão da Bahia.

Já se vão mais de onze anos da publicação que se deu em 23/04/2013. Por aí se vê, que o tempo desalinhou o andar da memória, de modo que até a realidade do lugar pode ser outra e não aquela lembrada em 2013. 

O texto fala da realidade da época, que hoje deve ser diferente e, portanto, desconforme aquela quadra do tempo.

Ou seja, o desenvolvimento pode ter chegado por lá, desfigurando o que eu havia contado em 2013, porque, afinal, presumo que o prefeito de Chorrochó deve primar pelo quesito trabalho e respeito às tradições de sua gente.  

O povoado de São José cresceu – ou tentou crescer – com a ajuda possível de seus próprios recursos, advindos, unicamente, do trabalho suado do homem do campo.

Evento (sem data) do Colégio Estadual Maria Dias Sobrinho/Crédito professora Necy Gomes de Sá

Pequenos agricultores que viviam, como ainda hoje, da cultura de subsistência, plantando feijão, milho, abóbora, melancia e batata doce, para criar seus filhos, desesperançados, mas firmes, em razão da pobreza do lugar.

A labuta era complementada com a criação de pequenos rebanhos de caprinos e ovinos, quase sempre dizimados pelas constantes secas.

Hoje São José tem poucas centenas de habitantes, causticados pelo sol escaldante, porque o clima lá é cruel, quente, semiárido, extremamente difícil de enfrentar.

Evento (sem data) do Colégio Estadual Maria Dias Sobrinho/Crédito professora Necy Gomes de Sá

Comum entre seus becos empoeirados, mais do que pessoas, eram o caminhar das cabras e o tilintar de seus chocalhos, assim como porcos e galinhas.

O povoado tinha um líder político que sempre lutou por sua gente: Boaventura Manoel dos Santos.

Boaventura foi vereador por diversos mandatos, com altivez e extrema dedicação, contou sempre com o apoio incondicional de seu povo, que o mantinha na Câmara Municipal de Chorrochó para ser sua voz, seu refúgio, sua retaguarda. E ele, no que pôde, cuidou de São José, diuturnamente.

Para isto, Boaventura teve a ajuda e solidariedade de outro líder político de Chorrochó, Dorotheu Pacheco de Menezes. Ambos viabilizaram para lá a professora “formada”, como se dizia à época, Maria Dias Sobrinho, dando-lhe oportunidade para morar no povoado, ensinar, abrir o caminho para as crianças seguirem em direção ao futuro em busca de novos horizontes.

Maria Dias era uma criatura humilde, reflexiva, responsável. Deixou a semente para a juventude de hoje e o exemplo de luta.

Em 2016 o Colégio Estadual Maria Dias Sobrinho perdeu sua caracterização como instituição. Hoje é um anexo do Colégio de Tempo Integral São José, da sede, mas a semente germinou e ficou a esperança dos jovens de São José, estímulo para o prosseguimento da caminhada e, sobretudo, o fundamento para a construção do caráter, espinha que deve nortear a vida de todos nós.

Nenhum horizonte será possível se faltarem a persistência e a vontade de seguir avante.

Só a escola é o caminho certo. Só a educação formal e familiar é a luz para clarear o caminho em direção ao futuro.

Conheci Maria Dias Sobrinho, nascida na caatinga, como eu, ainda na juventude, início da labuta com vistas ao exercício de sua profissão de mestra, enfrentando dificuldades de toda ordem, até mesmo para receber o salário.

Ainda assim, lutou, sofreu, ensinou, enfrentou a solidão do lugar e adquiriu o respeito da população de São José.

Salvo engano, o Colégio foi fundado em 1981 e, após trancos e barrancos, autorizado a funcionar somente em 2005.

Contribuíram tenazmente para a realidade do Colégio Maria Dias Sobrinho, dentre outros: Júlia Marques (diretora), professores Manoel Belfort, Edleide Conceição, Cilene Cristianne, Clécia Cristiane de Carvalho, Maria do Socorro Ribeiro, Luciana Dias e, ainda, cada uma em sua respectiva função, Adelina Marques Batista, Brasilina, Maria de Lourdes Arnaldo, Odete Marques, Júlia Dantas, Joelma Dantas, Meire, Maria de Lourdes dos Santos e Rose Cleide.

A professora Necy Gomes de Sá exerceu seu mister no Colégio por dez anos, inclusive na condição de diretora.       

São José é um povoado de pessoas humildes, dignas, resistentes ao tempo e às intempéries.

Lá tive algumas amigas que não moram mais lá e o tempo afastou, Almira Marques Ribeiro, Eremita Marques Ribeiro e Antonia Marques Ribeiro.

Demais, são fragmentos da juventude que, mesmo sendo fragmentos, continuam enfeitando a saudade do tempo e do lugar.  

São José ainda é um conjunto de casas simples e rodeado pela vegetação da caatinga.

Contudo, São José tem a semente para germinar o idealismo dos jovens que se deslocam todos os dias até a sede do município para estudar, enfrentando riscos da estrada difícil e, sobretudo, o descaso das autoridades.

Post scriptum:

A professora Necy Gomes de Sá contribuiu com esta matéria no que tange ao crédito das fotos, à citação dos nomes de colaboradores e atualização de algumas informações do então Colégio Estadual Maria Dias Sobrinho que me faltavam.

Eventuais erros e omissões, inclusive quanto aos nomes, são exclusivamente deste escrevinhador.  

araujo-costa@uol.com.br

O palavreado impróprio da primeira- dama do Brasil

Em evento transmitido para todo o mundo durante o chamado G20 Social, neste sábado, 16/11/2024, a deslumbrada primeira-dama do Brasil externou, sem nenhum motivo, palavras impróprias e vergonhosas, incompatíveis com a posição que ocupa.

Janja da Silva/Crédito Fernando Frazão, Agência Brasil

Mais do que isto, Janja da Silva foi deselegante com o senhor Elon Musk, escolhido por Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos, para ocupar função de relevo no próximo governo americano.   

A diplomacia brasileira não gostou do destempero de Janja da Silva e avalia que o palavreado que ela usou dificulta o entendimento com o novo governo americano.

A declaração de Janja “irritou diplomatas de alto escalão da chancelaria brasileira e coloca em risco a tentativa deliberada do Palácio do Planalto e do Itamaraty de não abrir uma frente de tensão com o novo governo americano”, segundo Jamil Chade, correspondente do UOL na Europa há duas décadas, mantém escritório na sede da ONU em Genebra (UOL, 17/11/2024).

“Sem quê e sem pra quê”, durante um discurso vazio que pronunciava, a primeira-dama disse, referindo-se a Elon Musk: “fuck you”. Em tradução livre, a expressão é impublicável.

Inconveniente, a primeira-dama Janja confunde linguagem de botequim com a liturgia da presidência da República, de Estado e de Governo.

Convenhamos, no mínimo trata-se de despreparo e falta de respeito. Este é o discurso do ódio que o PT e o lulopetismo tanto criticam, com razão, mas atribuem somente à direita. Está aí Janja da Silva provando que o discurso do ódio também está impregnado nas estranhas do PT.

Aliás, a primeira-dama já aprontou outros destrambelhos noutras ocasiões.

A primeira-dama procurou “alcançar alguma relevância política durante o governo do marido, tentou cavar um cargo sem sucesso e representou o governo Lula em evento da ONU sobre mulheres, quando chamou mais atenção pelos sapatos que usava do que pelo que disse.” (O Antagonista, 16/11/2024).

O quiproquó criado pela primeira-dama respingou no Itamaraty que vai precisar desfazê-lo de imediato.

O presidente Lula da Silva, em discurso posterior ao da primeira-dama, tentou corrigir o deslumbramento da mulher, mas o estrago diplomático já estava feito. “A gente não tem que ofender ninguém. Nós não temos que xingar ninguém”, disse Lula.

Janja da Silva passa longe da humildade de D. Marisa Letícia da Silva, primeira-dama nos primeiros governos do petista Lula, de D. Ruth Cardoso, elegante primeira-dama de Fernando Henrique Cardoso e de D. Eloá Quadros, digníssima esposa do presidente Jânio Quadros.

Talvez seja o caso de tirar o microfone de D. Janja da Silva. Ela adora holofotes.

araujo-costa@uol.com.br

O guarda e o advogado

Deixei meu carro velho, que chamo carinhosamente de mustang, no local de trabalho.

Peguei um ônibus em direção ao centro da cidade, que fica “logo ali”, como dizem os mineiros.

Um amigo me disse que sou mais conhecido na região por ter um carro velho e não por ser advogado. Confesso que não sabia disto.

Fui resolver algumas coisas que, a rigor, o carro não seria necessário.

No ônibus, já de volta, sentei-me ao lado de um senhor velho como eu, cabelos brancos como eu, feio como eu.

Conversador, puxou assunto e quis saber onde eu trabalhava.

– Num escritório ali à frente, alguns pontos adiante, devo descer logo. 

Vendo-me de paletó e gravata, deduziu à sua maneira, mais afirmando que perguntando.

– Você é guarda da empresa, né?

Para não desapontá-lo, confirmei. Disse-lhe que sim, trabalhava há muitos anos, desde que o patrão se instalou no local.

O patrão é muito sovina, mão de vaca e ruim, não permitia nem que eu fosse de carro ao centro da cidade resolver minhas coisas.

Ficamos alguns minutos falando cobras e lagartos do meu patrão, que sou eu.

Na verdade, mereço.

Quem mandou deixar minha bela caatinga do sertão da Bahia e vir para São Paulo lutar, sofrer e chegar à velhice ainda com disposição de falar essas coisas do patrão?

Quando desci do ônibus, deu-me uma crise de riso. As pessoas que passavam por mim certamente me achavam com cara de besta. Ou de idiota, o que dá no mesmo.

Acho que sou.

Advogado septuagenário, com mais de quarenta anos no exercício da profissão, que não ficou rico e nem famoso, tem mesmo é que ficar por aí, dando explicações a curiosos dentro de ônibus.

Como sempre me preocupo com o significado das coisas, fiquei matutando. Acho que a lógica daquele senhor é esta: o sujeito velho, de terno e andando de ônibus é guarda ou porteiro de prédio.

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O salão de beleza e a farra do Tribunal de Contas da União (TCU)

“Se tens lágrimas, chora. Se só tens riso, ri-te. É a mesma coisa.” (Machado de Assis, in Quincas Borba)

Os ministros do Tribunal de Contas da União (TCU), que fiscalizam as contas públicas – ou deveriam fiscalizar – têm 60 dias de férias e ganharam mais 10 dias por mês.

Tribunal de Contas da União/Reprodução Google

Na prática, os ministros do TCU podem ficar 180 dias de férias remuneradas no ano: 120 dias por ano (10 x 12 meses) + 60 dias que já têm direito.

Salário?

Pouco: Média de R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais) por mês, mais as mordomias.

Esses senhores fiscalizam o uso de dinheiro público.

Todavia, há o teto constitucional, ou seja, nenhum servidor público pode ganhar mais de R$ 44 mil por mês, em valores de agora. Noutras palavras, não pode ganhar mais do que um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Conversa para boi dormir.

O pior veremos adiante.

A imprensa noticiou, exaustivamente, que este mesmo Tribunal de Contas da União (TCU) permitiu a abertura de um salão de beleza dentro do Tribunal, isto mesmo, em suas dependências, para atender a fina flor da elite que fiscaliza as contas públicas.

Dentre os serviços prestados pelo salão estavam massagem e depilação íntima para servidores e suas Excelências os fiscais do dinheiro público.

O escândalo, com detalhes, veio à tona por intermédio do jornalista Claudio Humberto, que entende tudo dos meandros de Brasília.

Segundo o jornalista, depois que a imprensa publicou o escândalo, o ministro Bruno Dantas, presidente do Tribunal, “revogou a contratação de serviços de salão de beleza em sua sede, previsto até 2034, incluindo “depilação íntima de contorno” e massagens relaxantes, tudo em pleno horário de trabalho.

A notícia preocupante foi Dantas admitir que não sabe o que acontece no tribunal que preside, afirmando em seu despacho haver tomando conhecimento da bizarrice “pela imprensa” (Diário do Poder, 09/11/2024).

Então, tá.

Interessante é que Suas Excelências se preocupam com “depilação de contorno”, o que é por demais esquisito, quando deveriam estar preocupados com outro contorno, a fiscalização do emprego do dinheiro público que se propõem a fazer.

A hipocrisia abunda no serviço público, o que não chega a ser nenhuma novidade.

Mas depilação íntima e massagem dentro do TCU é demais. 

Fontes:

Matéria de Júlia Affonso (UOL de 04/11/2024)

Diário do Poder, 09/11/2024.

araujo-costa@uol.com.br

A cultura de Marlindo Pires Leite

Marlindo Pires Leite/Crédito: Blog de Joselia Maria

Guardo o envelope de 31/10/1995, amarelado pelo tempo, com o selo do correio, a antiga ACT.

Já se vão, por aí, 29 anos. A passagem dos anos não olvidou a lembrança.

O rico conteúdo vinha da Avenida Coronel Jerônimo Pires na bela cidade de Belém do São Francisco, em Pernambuco.

O remetente ilustre, Marlindo Pires Leite. O envelope continha um exemplar do livro Fazenda Panela D’Água, de sua autoria, lançado em 1994 e resultado de alentada pesquisa sobre a genealogia dos séculos XVII-XX.

Marlindo Pires Leite anda por volta dos 70 anos, completados em 03 de outubro. Além de Fazenda Panela D’Água, publicou, dentre outros, Belém, Uma Cidade no Vale do São Francisco, A Arte Belemita – 160 anos e Igrejas, Capelas, Santos e Santas.

Gigante da cultura e das artes, mormente da arte pernambucana, Marlindo Pires Leite se especializou em fotografia, desenho, escultura, pintura e, sobretudo, destaca-se como abalizado historiador, referência quando se trata de conhecimento da história dos ancestrais.

É historiador e pesquisador com Licenciatura em História, dentre outros títulos.

Viajado, na contracapa de Fazenda Panela D’Agua há uma foto do autor, de 1986, no Principado de Mônaco.

Em razão de sua contribuição à cultura belemita, Marlindo Pires Leite recebeu do Legislativo Municipal a Medalha do Mérito do Centenário. É autor, salvo engano, do Brasão do Município de Belém do São Francisco.

Fazenda Panela D’Água foi dedicado ao professor Alípio Lustosa de Carvalho, ícone da cultura e da educação de Pernambuco, que escreveu a orelha do livro.

Em 1971, o professor Alípio Lustosa idealizou a fundação da Faculdade de Formação de Professores de Belém do São Francisco. A Faculdade foi instituída em 1975 no prédio da histórica Escola Normal Nossa Senhora do Patrocínio.

A Faculdade de Formação de Professores foi o embrião do CESVASF (Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco), respeitável estabelecimento de ensino sanfranciscano.  

Marlindo é filho de Hermelinda Pires Leite e Mário Horácio Leite e, acrescenta ao meu pífio conhecimento uma informação valiosa: descende, longinquamente, pelo lado materno, dos fundadores de Curaçá, Bahia, meu torrão e minha referência.  

Nome por todos reverenciados, Marlindo Pires Leite enriquece a cultura da região.

Posto scriptum:

Li, por aí, e confrontei com registros de Marlindo Pires Leite que “Panela D’Agua era uma antiga fazenda de gado situada ao leste da Serra do Arapuá no Sertão do Pajeú, arrendada em 1756 ao morgado da Casa da Torre na Bahia, e pertencente a Francisco Garcia D’Avila Pereira e Aragão proprietário destas terras na Província de Pernambuco, pelo português Manoel Lopes Diniz e posteriormente comprada pelo seu filho Manuel Lopes Diniz”.

Aí – ou lá – nasceram as pesquisas de Marlindo Pires Leite que resultaram no livro Fazenda Panela D’Agua, indubitável referência da cultura regional.

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Conversa de parabenizar

De começo, lembro a data, 30 de outubro, aniversário de Jorge Jazon.

Jorge Jazon e Deniz Menezes/Álbum da família

Esta minha referência ao aniversário de Jorge Jazon, que já passou, daria para encher (e talvez dê) meu mundo de admiração por ele.

O desleixo pelo atraso faz parte de meus atributos de relapso, que beiram à gafe e os amigos mais próximos suportam, de modo que não sou chegado a formalidades, mas a considerações.

É por todos sabido que Jorge Jazon Cordeiro de Menezes dispensa apresentações. É muito conhecido, amado e reverenciado por amigos, familiares e conterrâneos aos quais me incluo.

Seu caráter é referência, modelo e luz para os jovens de hoje que pretendem ocupar lugar de decência e grandeza em qualquer tipo de sociedade e primar pela robustez da conduta.

Jorge Jazon vem de família tradicional de Chorrochó.

Professora Maria Ita de Menezes, a mãe/Álbum da família

As raízes seguras de Jorge Jazon ficam-se na estrutura familiar Menezes, Pacheco e Cordeiro, honra e glória do lugar e espécie de modelo cultural da sociedade local.

A mãe Maria Ita de Menezes, dentre outras qualificações, é professora, mestra na arte de ensinar, esteio da educação de Chorrochó, exemplo de algumas gerações.

O pai José Jazon de Menezes, também de família tradicional, foi serventuário da Justiça estadual da Bahia e um dos pilares da honradez da sociedade chorrochoense.

José Jazon de Menezes, o pai/Álbum da família

O ilustre aniversariante Jorge Jazon é casado com Deniz Reis dos Santos Menezes. Constituiu família bem estruturada e exemplar, educada nos moldes do bom proceder advindo dos berços materno e paterno.   

Declino de mencionar os títulos que Jorge Jazon ostenta, que são muitos e respeitáveis, mas incluo nestes parabéns minhas homenagens à professora Maria Ita de Menezes e a José Jazon de Menezes, in memoriam, referências exemplares que o aniversariante carrega.

Deixo afetuoso abraço e parabéns a Jorge Jazon.

araujo-costa@uol.com.br      

Corrupção desafia credibilidade do Judiciário

Os escândalos de venda de sentença no Judiciário deixaram de ser pontuais e passaram a ser  recorrentes.

É desanimador  o momento por que passa o Poder Judiciário.

Desanimador, mais ainda, é a sociedade submeter-se a essa degenerescência de setores do Judiciário que têm o dever de assegurar o Direito e a Justiça a todos.

A sociedade paga caro para o Poder Judiciário funcionar conforme mandam a lei e a moral e não para sustentar desvios morais de alguns de seus membros.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) afastou cinco desembargadores do Mato Grosso do Sul, inclusive o presidente do Tribunal de Justiça, acusados de lavagem de dinheiro, organização criminosa, extorsão e falsificação de escrituras públicas.

A Polícia Federal apreendeu R$ 2,7 milhões em dinheiro vivo na casa de um desembargador que havia se aposentado no último mês de junho do corrente ano. A imagem que a imprensa publicou é deprimente.

Como se não bastasse esse escândalo de Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal investiga a venda de sentença no próprio Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Superior Tribunal de Justiça (STJ)

Conhecido nos meios jurídicos como o “tribunal da cidadania”, o Superior Tribunal de Justiça foi criado pela Constituição de 1988.

A cidadania precisa ficar mais atenta como andam as tarefas do Tribunal.  

No STJ gabinetes de pelo menos cinco ministros estão sendo investigados  pelo envolvimento no comércio de sentenças. As investigações ainda estão em andamento.

Há um caso escabroso. A minuta de uma sentença foi entregue ao interessado na compra, meses antes de ser proferida a decisão judicial exatamente igual à minuta.

“Até a vírgula é igual”, disse o acusado de intermediar a compra da sentença, segundo as investigações (Veja, 04/10/2024, Edição 2913).

É inadmissível pensar, mesmo por hipótese, que ministros do STJ estejam envolvidos na venda de sentenças.

Entretanto, isto comporta uma conjectura plausível. Das duas, uma: ou as sentenças são redigidas pelos auxiliares e os magistrados somente assinam ou tais sentenças são proferidas atabalhoadamente, sem nenhum controle com a verdade dos autos.

Não pode haver outra explicação que justifique que gabinetes de ministros vendam decisões judiciais ao sabor da vontade do comprador, ajustando-as aos seus interesses.

A Bahia é um dos estados onde o Tribunal de Justiça passou por casos humilhantes há alguns anos. Desembargadores acusados de venda de decisões judiciais foram afastados de suas funções judicantes.

Tribunal de Justiça da Bahia/Divulgação CNJ

Em data recente, duas desembargadoras do Tribunal de Justiça da Bahia se tornaram rés e juízes de comarcas do sul do Estado foram afastados por suspeitas de envolvimento em irregularidades fundiárias.  

Em julho último, a Corregedoria do Conselho Nacional e Justiça (CNJ) determinou nova investigação no Tribunal de Justiça da Bahia, porque, segundo o corregedor, há “gravíssimos achados”.      

Como se vê, o Poder Judiciário precisa ficar mais atento ao que acontece em suas entranhas.

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José Dirceu está livre

“Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos” (Stanislaw Ponte Preta, jornalista e escritor carioca, 1923-1968)

O Supremo Tribunal Federal anulou todas as condenações de José Dirceu de Oliveira e Silva, ex-ministro da Casa Civil de Lula da Silva e um dos esteios mais firmes do Partido dos Trabalhadores (PT).

Não há novidade nisto. Já era esperado.

Ex-Ministro petista José Dirceu/Crédito Rádio Tupi

O STF já havia anulado os processos de Lula da Silva e de outros mandachuvas da elite, políticos, grandes empresários, inclusive das antigas Odebrecht e OAS, que lastrearam as condenações de Lula, depois anuladas pelo Poder Judiciário.

Difícil a sociedade ou parte dela entender essas decisões judiciais, considerando que não se vê a Justiça anular processos instaurados contra pobres, desamparados, famintos e pessoas sem voz e sem dinheiro para pagar advogados.  

Numa dessas condenações anuladas, José Dirceu havia sido condenado a 23 anos e três meses de prisão por ter recebido R$ 15 milhões em propinas pagas pela Construtora Engevix, tendo como origem cinco contratos firmados com a Petrobras.

O político petista foi acusado pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

José Dirceu estava inelegível. Agora, livre das condenações, adquiriu a condição de ficha limpa e certamente sairá candidato do PT nas eleições de 2026 e será um dos representantes dos paulistas na Câmara dos Deputados.

Atualíssima a frase de Stanislaw Ponte Preta.

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São Paulo derrota Boulos e confirma sensatez do eleitor paulistano

O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), candidato de Lula da Silva, foi severamente defenestrado do sonho de ser prefeito de São Paulo, por enquanto.

Com mais de um milhão de votos de diferença, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) foi reeleito com 59,35% dos votos válidos.

O radicalismo de Boulos esbarrou na sensatez do eleitor paulistano.

Em 2020, Boulos teve 40,65% dos votos válidos e perdeu para Bruno Covas; em 2024, teve 40,62% dos votos válidos. Igual. Isto é o que cientistas políticos e entendidos em pesquisas chamam de teto, ou seja, Boulos não consegue atingir votação maior, mesmo despejando muito dinheiro em campanha.   

O orçamento da campanha de Boulos em 2020 era R$ 7,6 milhões. Nesta de 2024, R$ 81,2 milhões.

Como se vê, o problema de Guilherme Boulos não é falta de dinheiro. É falta de votos.

A campanha de Boulos fez algumas patacoadas. Talvez a mais patética tenha sido a alteração da letra do Hino Nacional para linguagem neutra, uma idiotice sem noção agasalhada pela assessoria do candidato.

O Hino Nacional foi cantado, em linguagem neutra, durante evento com o presidente Lula da Silva. Lula certamente não notou e, se notou, não deve ter concordado com a imbecilidade da alteração da letra.   

Convenhamos, alterar a letra do Hino Nacional, símbolo imutável da Pátria, chega a ser um escárnio sem tamanho, despreparo, falta de grandeza quanto à observância dos valores da Pátria.

No domingo, 27/10, difícil foi suportar, após o resultado das urnas, os comentaristas da GloboNews tentando justificar o vexame eleitoral de Guilherme Boulos e minimizar a derrota de Lula da Silva em São Paulo.

Há um tempo em que o jornalista precisa escolher entre a militância política e o jornalismo sério. Esse tempo ainda não chegou no Grupo Globo.

Exemplos de derrotas mais expressivas do PT nestas eleições de 2024:

Em Diadema, reduto histórico do PT, o atual prefeito Filippi Júnior, fragorosamente derrotado, governou o município por três mandatos e exerceu a respeitável função de tesoureiro nacional das campanhas presidenciais de Lula da Silva e de Dona Dilma Rousseff.

Em São Bernardo do Campo, berço político e sentimental de Lula da Silva, o deputado estadual Luiz Fernando, candidato petista, sequer alcançou o segundo turno. Amargou um distante terceiro lugar.

No município de Araraquara, o atual prefeito Edinho Silva, que já exerceu quatro mandatos, também derrotado, é das relações pessoais de Lula da Silva e foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social  de Dona Dilma Rousseff.

Em Porto Alegre, a deputada federal Maria do Rosário perdeu a eleição para o atual prefeito que se reelegeu com estrondosa diferença.

O PT também perdeu a eleição em Natal. O estado potiguar é governado pela pedagoga petista Fátima Bezerra.

Todavia, o PT ganhou nalguns centros respeitáveis: Camaçari (BA), base sindical dos ex-governadores Jaques Wagner e Rui Costa e em Fortaleza (CE), reduto tradicional petista.

A derrota de Lula da Silva e do PT nessas eleições municipais de 2024 não significa vitória do ex-presidente Bolsonaro, que também foi derrotado nalguns centros urbanos a exemplo de João Pessoa e Goiânia.

Mas significa que a chamada direita avançou, inclusive no Nordeste e fragilizou o protagonismo lulopetista em capitais da Região, a exemplo de Aracaju. Isto retrata o cansaço de parte da sociedade com os métodos e mesmices adotados pelos governos do PT.

Em tempo:

Neste segundo turno, Lula da Silva não votou em São Bernardo do Campo, por recomendação médica. Lula vota no Colégio Dr. João Firmino Correia de Araújo, vizinho à casa em que ele morava quando era pobre e de lá saiu preso pelo DOPS no tempo da ditadura.

Manhã de 19 de abril de 1980, pouco antes das 6 horas, duas Veraneios C14 com 8 agentes armados com metralhadores levaram Lula preso para a cela do temível Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Já se vão mais de 44 anos.

Tempo de atrocidade, o amigo frei Betto estava na casa de Lula. Dormiu lá e acordou Lula para atender os policiais.

– Vai tranquilo que eu cuido da tua casa.

Frei Betto continua amigo de Lula. Grande lição de amizade.   

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O  defeito mais grave do PT é ser PT

É possível que qualquer estudante primeiranista de ensino fundamental tenha conhecimento de que cabe aos Estados federados e, por óbvio, aos governadores, cuidarem da segurança pública e não aos prefeitos.

É atribuição prevista em lei.

O deputado Jorge Solla (PT-BA), lulopetista radical, conhecido por suas falas e discursos virulentos e sem noção, numa discussão estéril com ACM Neto (União Brasil), através da imprensa, disse o seguinte sobre a violência na Bahia:  

“O ex-prefeito bolsonarista esqueceu de mencionar que as cidades mais violentas da Bahia e que enfrentam sérios problemas com o tráfico de drogas são justamente aquelas governadas pelo União Brasil ou por seus aliados”.

O deputado Jorge Solla foi além em seu delírio ideológico:

“Além de Salvador, que figura entre as capitais mais violentas do país e onde ACM Neto foi prefeito, elegendo seu sucessor, Bruno Reis, outras cidades baianas sob gestão do União Brasil ou de aliados também estão entre as mais perigosas. Entre elas estão Eunápolis, Feira de Santana, Simões Filho, Luís Eduardo Magalhães e Santo Antônio de Jesus”.

Está no site do PT-Bahia, ninguém me contou.

Ou seja, segundo Sua Excelência, o problema da violência na Bahia é da oposição e não do PT que governa o Estado desde 01/01/2007 ininterruptamente por 17 anos e tem atribuição legal de cuidar da segurança pública.  

O cerne do comentário é a disputa pela Prefeitura de Camaçari. O candidato do PT deve ganhar lá.

O deputado Jorge Solla sabe que está misturando alhos com bugalhos e sabe que a segurança pública não é assunto de competência dos prefeitos.

Mas, como disse Dona Dilma Rousseff, para ganhar eleição, o PT faz “aliança até com o diabo”.

Então, diante disto, uma acusação qualquer sem sentido, como essa do deputado, não faz mal, exceto aos ouvidos de quem sabe que a verdade é outra.      

É assim que o PT faz política, sendo PT em sua essência: procurando culpado para seus erros.

O erro mais grave do PT é ser PT.

Post scriptum:

O União Brasil faz parte do governo de Lula da Silva. Salvo engano, tem três ministros lá: Celso Sabino (Turismo), Juscelino Filho (Comunicações) e Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional), este último indicado pelo senador Davi Alcolumbre.

O deputado Jorge Solla silenciou quanto a isto.

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