Chorrochó, tempo e memória: Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes

“De repente, rápida como viera, a tempestade foi para outros mares, naufragar outros navios” (Jorge Amado, 1912-2001, Mar Morto)

Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes/Crédito: arquivo da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes

Situo-me no início de janeiro de 1971.

Expulso pela cruel realidade da caatinga e intempéries da zona rural do meu município de Curaçá, cheguei a Chorrochó, ainda muito jovem, carregando sonhos e um tanto de timidez e inexperiência na pobre e tosca bagagem.

O objetivo primeiro era matricular-me no Colégio Normal São José e, a partir daí, começar a alargar os horizontes em direção ao desconhecido.

Como foi difícil essa caminhada! Continua difícil seguir as curvas do caminho.

Naquele início de 1971 conheci Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes. Ficamos amigos.

A elasticidade do calendário denuncia que já se passaram mais de cinco décadas.

A vida é uma sequência de passos inarredavelmente ligados ao passado e, neste cenário, a amizade não acaba ou, pelo menos, nunca deveria acabar, mesmo in memoriam.  

Já se disse, por aí, que o passado deve ser guardado na alma e não se deve exibi-lo. Há sentido nisto. Deve haver sentido nisto.

Todavia, sempre resta alguma coisa que alinhava o caminhar, impulsiona o viver e cutuca a saudade.

Espaçam-se as amizades que tivemos ao longo do tempo e as que ficaram ou o que resta delas. Muitas páginas dispersas no agendar da vida.

Algumas amizades fracassam, outras perduram. Isto é o que atestam o burburinho e o fervor da juventude. Isto é o que evidencia a frieza cruel do amadurecimento. Isto é o que atesta o caminho do tempo em direção à velhice.

De tudo, uma lição: à semelhança da tempestade, o envelhecer provoca o naufrágio da juventude, empurra-nos em direção às dificuldades do caminho e, sobretudo, carrega entes que nos foram muito caros.

Ficam as boas amizades que perduram, se ainda não se foram em direção à finitude da vida, porque – todos sabemos – o indizível da morte é inevitável.

Ouvi muitas vezes reflexões sobre portas e janelas que se fecham e se abrem, em meio às incertezas e aos sonhos da mocidade.

As amizades também fecham portas e janelas. Por isto, a arte de construir amizades exige equilíbrio, humildade, complacência, ajuste de sentimentos, adequação às diferenças.

Assim como eu, Antonio Euvaldo tentou cavar a vida em São Paulo.

Convivemos por algum tempo em Santo André, o A do ABC paulista, âmago da efervescência política àquela época.

Lá tentamos compatibilizar a saudade da Bahia com o agitado viver de Santo André.    

Em mim sempre estiveram presentes as lembranças da secura da caatinga, do burburinho das águas do Riacho da Várzea, do cantar da seriema, da poeira e dos garranchos das estradas e, sobretudo, de minhas raízes fincadas naqueles confins do sertão.

Antonio Euvaldo carregava a inquietude, a ironia, a polêmica, a rebeldia, a boemia, a atenção em relação aos demais.

Éramos, em Santo André, uma espécie de confraria dos saudosos sustentada nas coisas do Nordeste.   

Ainda em Chorrochó, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó ou Corró, para os amigos), que tinha nome de nobre português e não está mais por aqui, deixou-me algumas reflexões.

Ele se foi antes do combinado, como se diz no interior de São Paulo, mas as frases que ele tanto dizia e repetia sobre o andar da vida continuam cutucando a saudade e dilacerando os momentos quando me recolho à solidão.

Entretanto, como dizia Afonso Arinos (1905-1990), “a pior solidão é a ausência de si mesmo”.

Nalguns momentos da vida, até a saudade é boa companheira.

Post scriptum:

Há algum tempo um leitor atento – e muito sincero – ponderou: “Ninguém está interessado em saber de sua vida, mas de seus textos”.

Ele tem razão. Eventualmente carrego um pouco nas tintas sobre passagens casuais de minha vida.

Entretanto, passou despercebido ao caríssimo leitor que isto faz parte da crônica, do ofício de escrever.

Não sou ficcionista. Escrevo sobre o dia a dia. Fácil compreender.

O cronista escreve sobre o cotidiano, amigos, episódios vividos, política e políticos, fatos, pessoas conhecidas, parentes, aderentes, ruas, esquinas e até sobre borboletas.   

Longe de mim o narcisismo. Sou avesso à exposição de minha vida. Prezo a discrição minha e dos outros.

Faz parte do meu modo e estilo.

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Chorrochó, datas e lembranças

Padre Ulisses Conceição/Crédito: Boletim Paroquial número 8 – Chorrochó, janeiro de 1987

Aproximam-se as comemorações da festa de Senhor do Bonfim, em janeiro.  

Em Chorrochó, algumas datas são importantes no calendário religioso do município.

Em 27.01.1985, o jesuíta paulista D. Aloysio José Leal Penna (1933-2012), à época bispo da diocese de Paulo Afonso, criou a Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó.

Mais tarde, D. Aloysio foi arcebispo de Botucatu (SP).

Em consequência, D. Aloysio nomeou o 1º vigário da Paróquia. A escolha recaiu sobre padre Ulisses Mônaco da Conceição (1914-1986), baiano de Conceição de Almeida e ex-professor do Colégio Padre Vieira, em Salvador.

Padre Conceição já participava informalmente da Igreja de Chorrochó. Tem-se notícia de que esteve em Chorrochó pela primeira vez em 26/06/1956.     

A criação da Paróquia se deu durante as comemorações do centenário da Igreja de Chorrochó, construída em 1885 por Antonio Conselheiro.

A data está no frontispício do majestoso tempo do sertão da Bahia, construção histórica sustentada na fé e deixada pelo beato Conselheiro.

Em 26.01.1986, numa manhã da festa do Senhor do Bonfim, padre Conceição faleceu em Chorrochó.

Já escrevi alhures – e muito – sobre padre Conceição. Dentro de minhas limitações, há um capítulo sobre ele no livro Dorotheu: caminhos, lutas e esperanças. Se nada de valioso acrescentei, penitencio-me diante de minha insignificância como escrevinhador.

Aqui faço apenas esse registro, tendo em vista este Natal de reflexão e a proximidade da festa de Senhor do Bonfim.

Já estamos em oração à espera da festa. Ou, pelo menos, deveríamos estar em oração.

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Patamuté, tempo de lembrar  

Julieta de Souza Menezes Alcântara (1931-1990). Crédito: Álbum da família

Na estrada de todos nós há tropeços, encruzilhadas, equívocos na escolha do caminho e, sobretudo, amizades que encontramos ao longo do caminhar.  

Como consequência de tudo isto vêm as lembranças e o olhar saudoso no retrovisor do tempo.

Em Patamuté, convivi com algumas pessoas que me foram caras, essencialmente amigas. Boas pessoas, inesquecíveis pessoas.

Julieta foi uma delas. Alegre, conversa saudável, companhia admirável.

Julieta de Souza Menezes Alcântara nasceu em 19/01/1931 e faleceu em 29/01/1990.

Julieta vinha de tronco familiar de boa índole, construiu família exemplar com raízes fincadas em Patamuté. Espalhou amizade, sorriso, decência.

Ela e José de Souza Alcântara (Zé Lulu) deixaram exemplos, lembranças, boas lembranças.

Sempre acolhedora, atenciosa, otimista, conversa agradável, ausência de maldade, Julieta alegrava o viver em Patamuté.

Naquele tempo a construção das amizades dava-se em razão da proximidade. Patamuté se limitava a um quadrilátero, mais a Rua dos Ferreiras. Éramos todos muito próximos, de modo que as conversas eram frequentes, necessárias, saudáveis.  

No próximo mês de janeiro que se avizinha, completam-se 34 anos da morte de Julieta.

O vazio que ela deixou persiste, as lembranças cutucam, o inexplicável da morte continua.

Qualquer tempo é tempo de lembrar.

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Patacoadas de fim de ano

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”

(Castro Alves, poeta baiano, 1847-1871)

O presidente Lula e o ministro Barroso em foto de Marcelo Camargo, Agência Brasil

Muitas garrafas de uísque e vinho caros se esvaziaram nesta terça-feira, 19/12/2023, em jantar da alta elite nacional promovido por um dos donos do Brasil, o ministro Luís Roberto Barroso.

O jantar aconteceu em Brasília, a pedido de Lula, na casa do ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Por óbvio, Lula da Silva estava lá. Ressobram razões para que ele estivesse lá.

Participaram do jantar, dentre outros integrantes da elite intocável, oito ministros do STF e também o próximo a ser empossado Flávio Dino que, salvo engano, ficará ministro da Justiça e Segurança Pública até 08/01/2024.

Antes de sair do ministério da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino ainda dirá umas fanfarronadas, o que Lula da Silva já sinalizou.  

A imprensa também vê a possibilidade de, após 08/01/2024, Flávio Dino assumir sua cadeira de senador pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) do Maranhão e nela ficar até 22/02/2024, quando deverá tomar posse no STF.

Nesta hipótese, Flávio Dino ainda embolsará salário e mordomias do Senado Federal, que não é de ferro.

Não tem nenhuma importância. Os brasileiros pagam.

Os donos do Brasil comeram, beberam, sorriram, confidenciaram e saíram de lá felizes para sempre.

Todavia – e apesar disto – a pobreza abunda nos rincões e periferias do Brasil, inobstante o “pai dos pobres” Lula da Silva, que gosta mesmo é de riqueza. Lula ainda diz, por aí, que está dizimando a pobreza. Há quem acredite.

Homofobia petista

Em 20/12/2023, o plenário da Câmara dos Deputados presenciou a falta de compostura moral do deputado Washington Quaquá, vice presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT).

O deputado lulopetista deu um tapa na cara do colega deputado Messias Donato (Republicanos-ES).

Minutos antes, o destrambelhado petista havia chamado de “viadinho” outro colega de Câmara, Nikolas Ferreira (PL-MG).

O PT, que condena a homofobia – e está certo ao condenar – demonstra praticá-la através de um de seus mais abalizados dirigentes.

O partido está em silêncio, por enquanto.

A esquisita decisão do ministro Dias Toffoli

Neste apagar das luzes de 2023, início do recesso do Poder Judiciário, o ministro Dias Toffoli suspendeu a multa bilionária que tinha sido imposta ao grupo J&F.

Detalhe: a advogada do grupo J&F é a mulher de Dias Toffoli.

“O ministro do Supremo Tribunal Federal José Antonio Dias Toffoli suspendeu a multa de 10,3 bilhões de reais do acordo de leniência do grupo J&F – para o qual sua esposa, Roberta Rangel, advoga. A decisão foi concedida na manhã desta quarta-feira, dia 20, o primeiro dia do recesso dos ministros do STF, que vai até 31 de janeiro, e não passará pela revisão no plantão da presidência, que ficará a cargo de Edson Fachin e só começa em 1º de janeiro” (Revista Piauí, 20/12/2023).

Se estivéssemos noutra quadra do tempo e num Brasil sério, o ministro Dias Toffoli teria se declarado impedido neste caso.

Não estamos. Mas tenhamos esperança.

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Imagens retratam fé e seca no sertão         

“A fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hebreus, 11-1)

Portal da Gruta de Patamuté

O Apostolado da Oração de Chorrochó, centenária instituição religiosa da Igreja Católica, reuniu parte de seus membros em recente visita ao Santuário Sagrado Coração de Jesus – Gruta de Patamuté.

Louvável gesto que, à semelhança de outros, sustenta nossas frágeis estruturas e, sobretudo, têm o condão de mostrar à infância e à juventude de hoje que a fé ainda é o melhor caminho a seguir para aparar as arestas de nossas atribulações.

Vegetação da região da Gruta de Patamuté

Guardo lembranças das dificuldades para se chegar à Gruta de Patamuté em tempo de seca: estradas difíceis, poeira, sol escaldante, pedras disformes e arbustos retorcidos ao longo do caminho.  

De todo modo, é salutar que o Apostolado da Oração de Chorrochó, tendo à frente Izabel Ramos dos Santos, mantenha-se firme ao segurar o cultivo da fé católica.  

Fundamental para o caminhar da Igreja de Chorrochó e parte perene de sua história, o Apostolado da Oração compõe-se de pessoas dedicadas que sustentam a fé e as tradições locais.   

Membros do Apostolado da Oração de Chorrochó

O padre João Batista, pároco da Paróquia de Chorrochó, participou do evento.

O responsável pelo Santuário Sagrado Coração de Jesus é o frei Valdevan Correia, que também responde pela Paróquia Bom Jesus da Boa Morte e São Benedito, de Curaçá, e recebeu os visitantes do Apostolado da Oração.   

As imagens estão sendo creditadas ao Apostolado da Oração de Chorrochó.

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São Bernardo do Campo se despede de Walter Demarchi

Walter Demarchi/Reprodução Diário do Grande ABC

Walter José Demarchi (1939-2023) faleceu em 15/12/2023 em São Bernardo do Campo. Em setembro último – nasceu dia 04 – completou 84 anos.

Vereador, presidente da Câmara Municipal, deputado estadual e prefeito (1993-1996).

Político sério e de boa índole, Walter Demarchi foi o incentivador de minha curta caminhada na política e fracassada candidatura a vereador.

Isto se deu quando eu ainda acreditava em políticos. Faz muito tempo.

Walter Demarchi tinha bons propósitos, caráter irrepreensível e humildade impressionante.

Perdi a eleição, porque a lógica assim decidiu: tive votos insuficientes.

A amizade continuou. Continuará in memoriam.

“Por onde você anda?”, me perguntou na última vez que nos vimos.

Na administração de São Bernardo do Campo, Walter Demarchi se cercou de grandes nomes. Seu secretariado tinha peso de ministério. Cito alguns, dentre outros:

O jurista Tito Costa, que foi prefeito, era seu vice; o médico William Dib, mais tarde prefeito, deputado federal e Diretor-presidente da Anvisa, secretário da Saúde; o secretário de Assuntos Jurídicos era o advogado Ricardo Lewandowski, depois juiz do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, desembargador em São Paulo e ministro do Supremo Tribunal Federal.

Este é apenas um registro saudoso.

Vá com Deus, Walter. Você foi muito bom por aqui.

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Flavio Dino pode surpreender no STF

Flávio Dino/Crédito Edilson Rodrigues/Agência Senado

Mais antigo da estrutura da República, o ministério da Justiça foi fundado no Primeiro Reinado, em 1822.

Por lá passaram figuras de alta moralidade pública e caráter irrepreensível, a exemplo de Rui Barbosa, padre Diogo Antonio Feijó, Prado Kelly, João Mangabeira, Luís Viana Filho, Paulo Brossard, Tancredo Neves, Nelson Jobim, dentre outros grandes brasileiros.

Entretanto, também passaram por lá figuras menores, arrogantes, pretensiosas, pernósticas, a exemplo de Renan Calheiros, Sérgio Moro, Anderson Torres e o próprio Flávio Dino, pedante, vingativo, espalhafatosamente debochado.

Com a indicação do atual ministro da Justiça Flávio Dino para o Supremo Tribunal Federal, o ministério da Justiça ganha robustez e pode restabelecer sua estatura e credibilidade como ministério sério à altura do Brasil e de sua história.

O ministério da Justiça não pode se transformar em laboratório para forjar restrições à liberdade de pensamento, ao direito de expressão e estabelecer censura a qualquer título.

É indubitável que os últimos ministros da Justiça apequenaram o ministério da Justiça.

Todavia – e contraditoriamente – o Supremo Tribunal Federal ganha um ministro que entende de Direito, sabe argumentar, sabe estribar-se nas leis, sabe conversar.

Flávio Dino tem conhecida formação jurídica e experiência de magistrado, porquanto já foi juiz federal, diferentemente do ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, cuja arrogância e decisões atabalhoadas ofuscam quaisquer conhecimentos jurídicos que porventura os tenha.

A maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal não provém da magistratura. Alguns deles nunca haviam redigido uma sentença. Esteiam-se nos juízes auxiliares.

Estão lá porque são amigos dos poderosos de plantão à época da indicação e nomeação, tais como: Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer.

Estão lá porque têm a conivência cabisbaixa do Senado Federal que os sabatina e aprova.

Estão lá porque alguns dos senadores que os aprovam são réus em processos no STF que serão julgados por esses mesmos ministros que se submetem à aprovação do Senado Federal.

Esses ministros alcançaram o Supremo Tribunal Federal através de apadrinhamento, interesse político, conchavos, retribuição de favores, engendramentos nem sempre transparentes.  

Edson Fachin fez campanha para Dilma Rousseff, elevando-a às alturas. Eleita presidente, ela o indicou e nomeou ministro do Supremo Tribunal Federal.

A razão do vergonhoso descrédito do Supremo Tribunal Federal perante parte da sociedade é exatamente essa deformidade e seu ativismo político.

Segundo pesquisa Datafolha de 09/12/2023, 38% dos brasileiros reprovam o Supremo Tribunal Federal. Somente 27% o aprovam.

Muito triste uma Suprema Corte que não conta com a simpatia e respaldo dos cidadãos que sustentam suas mordomias.

O STF devia ser exemplo de sensatez, distanciado de questiúnculas político-partidárias e sustentáculo de amparo a quem precisa de Justiça. Não é, não está sendo.

De qualquer modo, Flávio Dino deve firmar-se como um dos mais qualificados ministros do Supremo Tribunal Federal. É o que parece.

Se Flávio Dino abandonar as imperfeições morais adotadas na vida política pode enriquecer o STF com sua atuação.

O Supremo Tribunal Federal está precisando de magistrados e não de militantes e ativistas políticos.

O Brasil tem jeito.

Tenhamos esperança.

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A Igreja de Chorrochó e a sustentação dos esteios da fé

Em 08 de dezembro deste 2023 completaram-se 30 anos da bênção da Capela de Nossa Senhora da Conceição, em Chorrochó.

Capela de Nossa Senhora da Conceição – I/Crédito da foto: Adélio Ribeiro

Contígua ao cemitério da cidade, a construção foi uma iniciativa do padre Mariano Pietro Brentan e, além de erigir sustentáculo de devoção, abriga os restos mortais de padre Ulisses Mônaco Conceição, primeiro vigário da Paróquia, que foram trasladados do Cemitério Antonio Conselheiro onde estavam em jardim construído para esse fim por Jucileide Ramos dos Santos.     

Capela de Nossa Senhora da Conceição – II/Crédito da foto: Adélio Ribeiro

Salvo melhor juízo – e se minha esburacada memória não estiver sucumbindo ao abismo do tempo – padre Mariano Pietro Brentan conheceu Chorrochó em 27.01.1985.

Portanto, trinta e nove anos se completam nesse próximo mês de janeiro de 2024, quando se realiza a tradicional festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Sua destinação como pároco da Freguesia de Senhor do Bonfim de Chorrochó deu-se em 06 de abril de 1986.

Padre Mariano incumbiu-se da grandiosa tarefa de suceder ao padre e primeiro vigário da paróquia, Ulisses Mônaco da Conceição, ícone admirável da Igreja de Chorrochó e isto por si só se basta: tarefa ingente, honrosa, difícil, grandiosa.

Grande empreendedor, competente zeloso das coisas da Igreja, padre Mariano conciliou, com eficiência, enquanto à frente da paróquia, seu mister de sacerdote, pescador de homens, com um trabalho simultâneo e incessante em benefício de Chorrochó.

Angariou condições para construções voltadas à Igreja e, mais ainda, empreendeu uma admirável obra social direcionada aos paroquianos. São exemplos, além de outros: a capela Nossa Senhora da Conceição, a construção do Centro Paroquial de Chorrochó, a reforma e ampliação da Casa Paroquial e a instituição do Lar José e Maria.

Com a atuação do padre Mariano, a paróquia deixou de ser um núcleo essencialmente urbano para se transformar num edificante exemplo de amparo às comunidades rurais de Chorrochó.

Conheci padre Mariano Pietro Brentan em circunstância casual. Fui-lhe apresentado na residência de Maria do Socorro Menezes Ribeiro e Virgílio Ribeiro de Andrade, em Chorrochó.

Socorro e Virgílio são exemplos edificantes de hospitalidade, amizade e cordialidade. Data inesquecível, memorável, agradavelmente interessante.

Tivemos uma conversa longa sobre a Igreja, suas tradições e, sobretudo, as dificuldades por que passava um vigário do interior. Em nenhum momento reclamou do exercício de seu mister religioso.

Impressionou-me sua grandeza intelectual e conhecimento universal, mormente dos assuntos da humanidade e das coisas da Igreja.

Conversa marcadamente auspiciosa, padre Mariano falou de ritos e de história e até me fez ver a importância do Hino Queremos Deus, um dos mais tradicionais da Igreja Católica.

Falou do papel da Igreja no sentido de aplainar a insensatez e ingratidão dos homens que se “erguem em vão contra o Senhor”, em todo o tempo e em todo lugar.

Impressionei-me com a decência, cultura e espírito de solidariedade demonstrada pelo padre Mariano, ilustre representante da Igreja Católica em Chorrochó, à época.

Educado, sonhador, inquieto, responsável ao extremo pelo ofício religioso que lhe foi confiadopadre Mariano é defensor intransigente da fé católica, que a exalta admiravelmente.

Padre Mariano, último da esquerda para a direita /Igreja Senhor do Bonfim, de Chorrochó

O que sei – e sei pouco de sua vida – é que é italiano nascido em 06.06.1938, ordenado em 08 de dezembro de 1985 em Euclides da Cunha e, em razão dessas costumeiras decisões que a Igreja determina aos membros de seu clero, veio parar em Chorrochó.

É o que o Direito Canônico denomina de residente não incardinado, ou seja, uma liberação do religioso pela Igreja, para algum lugar, por determinado tempo.

Ele ficou em nosso meio, para alegria e benefício dos paroquianos de Chorrochó, por alguns anos. Sua presença era admirável, porquanto terna e essencialmente voltada para os assuntos da Igreja.

Dedicado, obediente às normas da Santa Sé universalmente aceitas, padre Mariano veio robustecer a história de Igreja de Chorrochó. Um fato louvável, espiritualmente valioso.

Atualmente fragilizado pela idade e enfrentando problemas de saúde, padre Mariano talvez esteja também refletindo sobre o caminho percorrido, sua luta e seu passado de feitos e glórias.  

Os esteios da contribuição de padre Mariano para Chorrochó são valiosos, perenes, indestrutíveis. E se sustentam na fé e em sua dedicação à causa da Igreja.

araujo-costa@uol.com.br

Livros, reflexões e esquisitices

“Livro é como banana na feira. Se o feirante não anuncia, o freguês não compra”. (Sebastião Nery)

Em 1987, quando lancei Fragmentos do Cotidiano que, modéstia à parte, foi bem recebido, escusei-me a publicar qualquer notícia sobre o lançamento, de modo que até amigos próximos somente tiveram conhecimento meses depois, o que, convenhamos, faz parte de minhas esquisitices.

Já se vão, por aí, 36 anos.

Há muito no forno da memória, uma espécie de prelo mutável, pretendo publicar em ano ainda não definido, se vivo for, Diálogo dos Sinos – artigos, crônicas, observações.

Demorei fazê-lo. Hoje, mais maduro (ou seria mais velho?), um tanto capaz de discernir as coisas, acho que será o momento de deixar algum registro mais completo, um cenário de minhas andanças, de meus tropeços e de minhas maluquices.

O jornalista Sebastião Nery, que entende tudo do que é possível entender de livros, cunhou a frase segunda a qual “livro é como banana na feira. Se o feirante não anuncia, o freguês não compra”.

Então, na ocasião própria, deverei anunciar o lançamento, não com o intuito de vender alguns e poucos exemplares, propriamente, mas para que amigos leitores e leitores amigos tenham conhecimento e, se quiserem, leiam.

Pode ser que alguns raros abdiquem de um pouco de tempo, lendo-o e criticando.

Não recomendo meus escritos. Nunca o fiz. Acho-os às vezes confusos, outras vezes ácidos e outras tantas ingênuos.

Ainda assim, alegro-me em saber que muitos gostam de ler o que escrevo. Alguns já disseram que me falta estilo. Sei disto.

Sou um caso perdido. Talvez o único escrevinhador que não recomenda a leitura do que escreve.

Escrevo para dialogar com a minha alma e não por diletantismo ou vaidade.

E isto me tem feito bem.

No ofício de escrever, lembro sempre de algumas frases conhecidíssimas de escritores famosos.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar”;

Ernest Hemingway (1899-1961): “Procure lembrar-se dos ruídos e do que eles lhe dizem. Então, escreva sobre eles da maneira mais clara possível para que o leitor tenha o mesmo sentimento que você”;

William Faulkner (1897-1962): “Se a gente perde muito tempo se preocupando com o estilo, acaba não sobrando nada, além do estilo”;

Rachel de Queiroz (1910-2003): “Não gosto de escrever. Escrever é um sacrifício”;

Dionísio Jacob: “Eu acredito que o que leva alguém a escrever é uma necessidade profunda de dar expressão a uma voz interna. Seu foco é sempre o teatro da alma. Tudo aquilo que fala à alma pode inspirar ou motivar um texto”.

E por último, a frase que li muitas vezes em minha mocidade, mas não me recordo o nome do autor. Fernando Sabino também nunca o citou, ou porque não sabia ou porque, de tanto conversar consigo e com os outros, acabou esquecendo:

“O escritor é um homem que passa a vida conversando consigo mesmo. Só há uma verdadeira vantagem em envelhecer: é que, com o correr do tempo, a conversa vai ficando cada vez mais interessante”.

Quem escreve fica esgueirando-se entre cristais para não dizer besteiras, cometer ofensas, produzir polêmicas desnecessárias e aguçar incompreensões.

Hoje, tempo de tanta idiotice, inclusive do “politicamente correto”, qualquer deslize pode ultrapassar o âmbito da gafe e enveredar-se para a esfera da ofensa. É muito tênue o fio entre o que é certo e o que os outros acham que é o certo.

Todavia, o que mais gratifica no espinhoso ofício de escrever é o interesse demonstrado por algumas pessoas sobre o que escrevemos.

Mesmo que o escritor não seja famoso – e este é o meu caso – mas seja um sonhador incorrigível, um utópico que rema contra a maré do impossível, uma palavra sua pode servir de despertar.

E neste caminhar, é imperioso contribuir para que os jovens não descambem para o abismo da alienação e da mediocridade. É preciso mantê-los acordado para o mundo, mostrar-lhes a beleza da vida sem drogas, sem violência, sem agressão à sociedade.

Há muito venho torcendo que algum dia apareça um prefeito em meu município baiano de Curaçá, que goste de valorizar a cultura e se dê à grandeza de construir uma biblioteca pública em Patamuté e também nos outros distritos, se ainda não tiverem.

Em Patamuté e em particular, tenho interesse nisto.

Até sugiro o nome: Biblioteca Professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes.

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Rabiscos e rascunhos do tempo

“Não foram os anos longos e lentos que me envelheceram. Foram alguns minutos” (Cassiano Ricardo, poeta e ensaísta, 1895-1974).

Primeiro prédio da Prefeitura de Chorrochó – I

Chorrochó não mudou muito em 69 anos de emancipação.

Há um liame incompreensível entre a instalação dos serviços municipais em 1954 e o tempo de agora: o não evoluir, não crescer, não desvencilhar-se da precariedade de antes.

Primeiro prédio da Prefeitura de Chorrochó – II

É razoável presumir que o tempo, que corrói todas as coisas, vem corroendo subsequentemente as mentes dos responsáveis pela sustentação da história do município.

O descaso e a indiferença arranham os limites do dever de zelar pelo bem público.

Argumentar-se-á, com razão, que a administração municipal não precisa desse prédio para funcionar, tanto que vem funcionando – e bem – segundo alguns e nem tanto, segundo outros.

Mas isto não lhe autoriza o descaso.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

Está circulando nas redes sociais um vídeo de Roberto Carlos ao som de Velhinhos, composição de José Messias e lançada em 1965.

Em minha juventude – e depois dela – ouvi muito essa música sem me dar conta de que um dia a velhice chegaria.

Ao interpretá-la, no auge de sua juventude irrequieta, Roberto Carlos certamente também não se dava conta dos tropeços da velhice.  

É emocionante vê-lo trôpego carregando sua história.