Tá me tirando?

Um estudante universitário me procurou com o intuito de colher alguns subsídios sobre a vida do apóstolo Paulo para, segundo ele, embasar um trabalho escolar sobre história das religiões.

Em princípio, enveredei pelo caminho mais lógico e lhe sugeri que lesse a Bíblia, as clássicas epístolas de Paulo ao povo de Corinto, Tessalônica, Éfeso etc.

Atento, ouviu minha sugestão com ar de espanto e, entre sério e decepcionado, sapecou:

– Ler a Bíblia? Tá me tirando?

Neguei pretender tirar-lhe qualquer coisa.

Contou que um amigo me havia indicado, o que de certa forma fiquei envaidecido. Quem sabe – disse – eu poderia ajudar, não precisava ser um trabalho muito grande, bastava um resumo, coisa lá sem muita profundidade, mas tecnicamente sustentável. 

Tenho conhecidas dificuldades de escrever resumos. Meus escritos são longos, quilométricos, cansativos, enfadonhos, palavrosos.

Amigos um tanto sinceros, já me disseram que quase desistiram de terminar a leitura de alguns de meus textos, lá por volta do quinto ou sexto parágrafo, tamanha a prolixidade e, às vezes, ausência de conteúdo plausível à expectativa do leitor.

Aí eu concordo. Esperar alguma coisa boa de meus textos é querer muito, de modo que amigos que me leem devem ter expectativa de encontrar assuntos mais enriquecedores noutros lugares.

Confesso mesmo que não sou chegado a textos curtos, que entendo restritivos às asas do pensamento. Esta minha mania de escritos longos chega a ser uma gafe nestes tempos preciosos de internet.

Como tenho razoável conhecimento de que o amigo que me indicou ao rapaz sabe dessa minha dificuldade de fazer resumos, foi a minha vez de perguntar:

– Eu, fazer resumo? Tá me tirando?  

O fato é que ninguém tirou nada de ninguém e concordei em ajudar-lhe e fazer algumas ligeiras considerações sobre a vida de Paulo, o Apóstolo das Gentes, porque, ademais, sou admirador daquele ilustríssimo homem de Cristo.

Contudo, ainda sugeri ao diligente estudante, por derradeiro, que talvez fosse mais apropriado ele procurar o padre da paróquia, sujeito dedicado às coisas de Deus e dos santos. Admiro o preparo intelectual dos padres, mormente em se tratando de filosofia e teologia. Antes, o seminário lhes atapetou o caminho do conhecimento.

Mas não obtive êxito. Sobrou mesmo para este abestado escrevinhador.

Passei quase uma noite absorto em papéis e, no dia seguinte apresentei minha humilde contribuição àquele estudante que, graças a Deus, no mundo cruel de hoje, ainda se preocupa com a história das religiões.

Talvez um passo para entender os grandes homens da humanidade e desprezar, por alguns momentos, a selvageria de nosso tempo e a pequenez de nossas ações.

Estávamos em 2015. O estudante nunca mais voltou. Talvez tenha me achado um chato. Não nego que sou.

araujo-costa@uol.com.br

O PT da Bahia não consegue explicar

“Pense num absurdo. Na Bahia há precedente” (Otávio Mangabeira, 1886-1960, governador da Bahia no período de 1947-1951)

O Anuário do Forum Brasileiro de Segurança Pública divulgou a lista dos 50 municípios com população acima de 100 mil habitantes e mais violentos do Brasil.

A lista é encabeçada pelos municípios de Jequié, Santo Antonio de Jesus, Simões Filho e Camaçari. Ou seja, os quatro primeiros estão na Bahia.

No ranking dos municípios mais violentos, Feira de Santana aparece em 9º lugar, Juazeiro em 10º e Teixeira de Freitas em 11º. A capital Salvador aparece em 12º lugar.

O Forum Brasileiro de Segurança Pública cuida, nesse anuário, das mortes violentas intencionais relativamente aos municípios acima de 100 mil habitantes.

Logo, por óbvio, a estatística não abrange os pequenos municípios, muitos deles contíguos aos grandes centros urbanos.   

Por exemplo, o município de Curaçá, no submédio São Francisco, com aproximados 35 mil habitantes, já enfrenta sérios problemas de violência, inclusive assassinatos.    

O PT governa a Bahia há mais de 16 anos: Jaques Wagner (2007 a 2015), Rui Costa (2015 a 2023) e agora Jerônimo Rodrigues que certamente será reeleito e cuidará dos escombros do feudo petista na terra de Senhor do Bonfim.

“Das 50 cidades mais violentas do Brasil, 34 estão concentradas em Estados governados por aliados do presidente Lula. Nos Estados sob gestão direta do PT estão 17 das cidades mais violentas. Aqueles controlados pelo PSB do ministro Flávio Dino (Justiça e Segurança) a 2ª pior no ranking, somam 8 das 50 mais violentas. Estados sob controle do MDB totalizam 7 cidades de maior criminalidade” (Diário do Poder, 27/07/2023).

Como a segurança pública é atribuição dos estados federados e alguns esquerdistas lulopetistas consideram os delinquentes como sendo “vítimas da sociedade”, parece razoável entender que, em quadro assim, os governos baianos petistas pouco ou nada fizeram para diminuir essa cruel tendência, inobstante alardear-se como defensor dos pobres e oprimidos.

Aliás, existe uma contradição na Bahia. A população, ou pelo menos parte dela, sempre reclamou do abandono das estradas, ineficiência da segurança pública e descaso na educação.

Entretanto, essa mesma população, que vem se mostrando insatisfeita, tem votado maciçamente nos candidatos do PT, o que pressupõe, no mínimo, que os baianos são politicamente contraditórios e idiossincráticos.

Segundo Bruno Wendel (Correio, 24/07/2023), “dos 417 municípios, só 291 têm atualmente uma dupla de PMs para garantir a segurança, como Iaçu e Jandaíra, segundo a Associação de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado da Bahia (Aspra). Então, não adianta propaganda com novas viaturas, se não há efetivo suficiente e nem dinheiro para o combustível”.

A Bahia, que o PT diz que vai muito bem, não tem dinheiro para comprar combustível para abastecer as viaturas policiais, além de efetivo insuficiente.

Como se vê, o quadro na Bahia é assustador, mas a propaganda petista é eficientíssima: consegue arrebanhar para as urnas uma média de 75% de eleitores que votam nos candidatos do PT.

De qualquer forma, quanto à segurança pública na Bahia, o PT não consegue explicar o descalabro.

araujo-costa@uol.com.br     

A “clareza” obscura do Grupo Globo

“Dinheiro é como azeite. Por onde passa, amolece” (José Cavalcanti, São José de Piranhas-PB)

Presidente Lula/Crédito TV Globo

Está mais do que explicado porque o jornalismo e os comentaristas do Grupo Globo, GloboNews inclusive, passaram da condição de críticos severos de Lula da Silva para seus bajuladores de plantão.

Em pouco mais de seis meses, o Governo Lula despejou 54,4 milhões de publicidade em todos os veículos de mídia da Globo, segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

A Record vem em segundo lugar: R$ 13 milhões. O SBT em terceiro, com R$ 12 milhões.

No governo Bolsonaro, a “Globo havia recebido valores similares aos principais  concorrentes”, segundo a Folha de S.Paulo, de 25.07.2023. E com isto ganhou a ira da Globo, que queria mais, muito mais. E quer muito mais.

Presume-se, então: Se Lula da Silva diminuir ou restringir a quantidade de dinheiro despejado nas propagandas oficiais veiculadas no Grupo Globo, jornalismo e comentaristas do grupo passarão a falar mal de Lula ou, no mínimo, deixarão de elogiá-lo.

Mas Lula da Silva é esperto, sabe disto e não quer isto. Não vai diminuir a publicidade oficial nos veículos globais.

Nessa fase atual, de janeiro de 2023 pra cá, comentaristas da GloboNews já chamaram Lula de “gênio”, “grande estadista”, “hábil”, “democrata” et cetera.

Não estou dizendo que Lula não é isto. Até acho que ele é mais do que isto.

Contudo, esses elogios do Grupo Globo são diferentes daqueles dos tempos da Lava Jato, quando os adjetivos que a Globo endereçava a Lula eram outros, bem diversos e compatíveis com as leis penais.

Só agora os elogios se explicaram: o Palácio do Planalto entregou ao Grupo Globo 57% dos 15 maiores contratos de publicidade.

Isto não é novidade. A grande imprensa sempre viveu pendurada nas tetas dos governos, quaisquer governos, qualquer imprensa.  

Governo Lula ou outro qualquer. Basta abrir os cofres e distribuir publicidade. Com os cofres escancarados, todo governo é bom.  

araujo-costa@uol.com.br

Arquivo implacável de Patamuté

Antonio Ferreira Dantas Paixão

De vez em quando costumo consultar meus arquivos empoeirados e amarelados pelo tempo – e sempre implacáveis – que os chamo de alfarrábios.

Faço-o para dizer à velhice, essa minha simpática companheira de todos os dias, que insisto em não me dar por vencido na luta em busca das lembranças que me fizeram bem até hoje.

Há outras lembranças que me trucidam e impõem às vezes o silêncio. Essas, embora inarredáveis, devem ser flexibilizadas pela memória para não tornarem os dias mais crudelíssimos.

Remexendo papéis antigos, encontrei esta foto de Antonio Ferreira Dantas Paixão (1899-1976), político e comerciante de Patamuté.

Naquele tempo os políticos tinham vergonha e prezavam pela moralidade pública.

Antonio Paixão foi um deles. Deixou exemplo de vida e de caráter irrepreensível.

Em 2019, publiquei neste mesmo espaço – e hoje reproduzo – foto de Raquel do Carmo Paixão, esposa de Antonio Paixão, ao lado de Joaninha, sua amiga. Ambas residiam juntas em Patamuté, em aprazível residência que o tempo modificou, mas ficou inscrita nas páginas das lembranças.

À esquerda, Raquel do Carmo Paixão. À direita, Joaninha

A foto de Raquel e Joaninha foi garimpada da página de Josias Paixão, no facebook. Josias, a quem atribuo o crédito da foto, é sobrinho de Antonio Paixão.

Coisas que o tempo deixa. Coisas da saudade.  

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Riacho Seco, Curaçá: Lembrança e entardecer

“Há tempo de amar e tempo de amar o que se amou” (Marques Rebelo, cronista e romancista fluminense, 1907-1973)

Claudemira Maria Teles do Nascimento

Guardo, com carinho, uma carta escrita de Petrolina (PE) em 21/12/1979. Como se vê, há aproximados 44 anos. Mantenho-a intacta, porque faz parte de minha história de vida, uma página das somas acrescentadas ao meu caminhar.

A carta – naquele tempo ainda se escreviam cartas – é de Claudemira Maria Teles do Nascimento, educadora de tradicional família de Riacho Seco, município de Curaçá.

Conhecemo-nos no simpático distrito de Riacho Seco, numa agradável tarde de 1975. Estávamos reunidos na única escola estadual do distrito naquele tempo, que certamente hoje adquiriu contornos físicos e culturais mais adiantados, em razão do progresso e dos presumíveis esforços de nossas autoridades.     

“Descobri que pequeno e inútil é aquele que não sabe amar”, dizia a missivista em certo momento da carta longa, inteligente e saudosa. Eu já morava em São Paulo para onde os sonhos me tinham empurrado em busca de horizontes mais claros.  

Certa vez, em passagem por São Paulo, no aeroporto de Congonhas, Dadá me presentou com o livro O Pilão, de Adolpho Bloch, talvez um estímulo para que eu continuasse perseguindo meus objetivos. Nunca deixei de pensar nisto.   

Claudemira faleceu precocemente no auge de sua agitada e irrequieta atividade intelectual. O sepultamento se deu em 21/03/1982 no cemitério de Petrolina e coube-me dizer algumas palavras, entrecortado pela emoção e espezinhado pela crueldade da morte inesperada.

Dilacerado eu dizia: Você sempre liderava os grandes passos, as decisões difíceis. E quando os obstáculos cruzavam seu caminho, você se servia deles transformando-os em estímulo para o prosseguimento da caminhada.

Dizia também que amar é estar presente, “fisicamente quando possível, espiritualmente sempre”. Acho que garimpei essa frase de algum texto de Vinicius de Moraes.

A íntegra desse titubeante e despedaçado discurso está em meu livro Fragmentos do Cotidiano (São Paulo, 1987).

Claudemira era carinhosamente conhecida pelo apelido Dadá.

Outro dia, ajuntando pedaços de saudade, fiz um esforço de memória, de resto já esburacada pela passagem do tempo e me lembrei do núcleo familiar de Dadá, além da mãe e do pai: Creuza, Socorro, Maria Áurea, Risalva, Ivan, Bedeu, Cisinho, todos Teles, todos Nascimento, todos de índole irrepreensível. E ainda as queridas tias Glorinha e Lili, exemplos de vida e decência familiar.  

Turma alegre, espirituosa, sincera, hospitaleira.

Mais tarde, a Rua Maurício Vanderley, no centro de Petrolina, era a referência da família, o aconchego, porta aberta às amizades. Lá se davam os encontros dos amigos, parentes e aderentes daquela ilustre família curaçaense de Riacho Seco.  

Dadá fazia parte dessa família expansiva e feliz.

Hoje, faço este vazio resumo de lembranças no entardecer inarredável da vida, em razão do adiantado da idade de todos nós daquele tempo e daquela geração.  

araujo-costa@uol.com.br

Ministro “Perdeu Mané” apronta mais uma

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, aprontou mais uma: acrescentou outra asneira em seu curriculum já desgastado e que se somou ao rosário de outras tantas ao imiscuir-se em assuntos políticos.

Barroso escancarou de vez que é militante político e, por tabela, em discurso para estudantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), levou a reboque outros ministros do STF, que deles discordaram.

Em discurso escancaradamente político, vergonhoso e incompatível com a liturgia do cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso admitiu ser militante político como, aliás, já deixou claro noutras ocasiões. Inegavelmente. Indubitavelmente.

Ministro do Supremo Tribunal Federal é ministro do Supremo Tribunal Federal e só. Deve respeitar o cargo, deve respeitar a ética, deve respeitar a Constituição da República, dever ser magistrado e não militante político.

Deve curvar-se à nobreza da toga.

Mais: o magistrado, até por decência, deve respeitar os brasileiros que pagam seus estratosféricos salários e sustentam suas vergonhosas mordomias. 

Ao menosprezar aproximados 58 milhões de brasileiros que não votaram no candidato de sua preferência, o ministro demonstrou despreparo para conviver com antagonismos e, por extensão, com a democracia, que ele diz defender.

O discurso é assustador partindo de um ministro do Supremo Tribunal Federal que, de resto, não deve se intrometer em assuntos político-partidários, mas cuidar de seu mister de magistrado.

Discurso político é para político e não para magistrado.

Magistrado julga, faz justiça, não pende para nenhuma das partes em litígio, não torce para nenhum de seus ídolos, mesmo que em contenda judicial que deva julgar.

Aliás, o presidente Lula da Silva, que Luís Roberto Barroso parece admirá-lo, defende que quem quiser fazer política renuncie ao cargo que ocupa, filie-se a um partido político e passe enfrentar as ruas e as urnas, como manda a democracia.

Lula tem razão.

Situação vergonhosa esta do ministro Luís Roberto Barroso.

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Em Curaçá, Maria de Fortunato agendava a vida.

“Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce” (Lya Luft, 1938-2021).

Maria de Lourdes Lopes (28/10/1919-18/01/1998), mestra em arquitetar generosas façanhas, incorporou uma delas em seu viver admirável.

Maria se fez conhecida, simultaneamente, através de dois nomes: Maria de Fortunato e Maria de Expedito. Fortunato Lopes, o pai; Expedito José de Bim, o esposo.

Todavia, quando instada a declinar seu nome, em ocasiões que a burocracia exigia, notava-se uma altivez exemplar ao dizer, com dignidade: “Maria de Lourdes Lopes, sua criada”.

Quando perguntados, os mais velhos costumavam dizer o nome próprio seguido da expressão “seu criado”, oralidade que ainda se usa em alguns rincões do interior do Brasil, para significar reverência e respeito ao interlocutor. É uma expressão respeitosa, educada, início de uma boa conversa.

Convivi muito próximo com Maria de Fortunato. Morei em sua casa em Curaçá que, numa quadra do tempo, ela a transformou num misto de pensão e residência. Seus hóspedes eram tratados como amigos e, de fato, acabavam caindo em seus encantos, tamanha a maneira cordial e maternal com que cuidava de todos.

Contudo, o que mais admirava em Maria de Expedito era uma de suas façanhas: demarcava, com sabedoria lapidar, tanto o território de sua liberdade quanto o de seus deveres. Sabia exercê-los com impressionante inquietude.

A liberdade retratava-se na maneira desenvolta com que traçava seu viver, com absoluta independência e externava com firmeza seus pontos de vista. E não negligenciava no cumprimento de seus deveres, que eram muitos, incessantes, necessários.

Outra façanha de Maria de Fortunato era o cuidado com a família. Educou as filhas, até arrostando dificuldades, mas deu-lhes os esteios para sustentarem vida honesta, correta, exemplar. Soube direcioná-las todas no caminho do bem e dos estudos, vendo-as graduadas e, na sequência, profissionais de destaque.

Maria agendava a vida, sabia agendar a vida. Mesmo subindo a escada rolante pelo lado que desce, Maria de Fortunato não permitiu que os degraus a empurrassem para baixo.

Não baixava a cabeça diante dos percalços rotineiros e inevitáveis da vida. Soube seguir em frente. E seguiu obstinadamente, humildemente, honrosamente.

Às vezes filosófica, outras tantas pensativa, mas sempre espirituosa. Maria era assim e mais do que isto: decidida e alegre, sempre alegre, muito alegre. Sabia agendar a vida, sabia driblar as ciladas do dia a dia com decência e desenvoltura.

Há aproximadas cinco décadas convivi com Maria de Expedito. Carrego em minha pequena e apoucada experiência, não obstante a passagem do tempo, uma lição que aprendi com ela: ser livre é não definir fronteiras para nossas palavras, mas é também entender a liberdade como limite para saber conviver com os demais que nos cercam.

Parece pouco, mas não é. A vida seria mesquinha e desditosa se, ao precisar conviver com os poderosos, tivéssemos o condão de tolher os espaços dos mais humildes. A humildade é o bálsamo do saber viver, a ciência para enxergar o caminho.

Os tropeços, quaisquer que sejam eles, nos dão lições de vida.

Nunca esqueci um de seus incentivos, quando meus sonhos turbilhonavam nas incertezas, como de resto, ainda hoje: “Meu filho, vá em frente”. Fui. Mas não sei se tenho conseguido enfrentar os tropeços da vida como ela conseguiu enfrentar com tanta dignidade.

Maria de Lourdes Lopes, Maria de Fortunato, Maria de Expedito. Aprendi muito com ela nesta vida de tropeços e quedas. Sinto falta de seu amparo, de seu abraço afável, de suas palavras, de sua impetuosidade de viver.

Expedido Bim e netos /Álbum de família

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

As fotos de Maria de Fortunato e de Expedido Bim são de álbum da família Bim. Embora isto não venha macular a essência do texto, parece que me foi dito uma vez que o nome correto é Espedito e não Expedito.

Lula da Silva e Sérgio Moro

“Tancredo Neves era promotor em São João Del Rey, um homem chamado Jesus matou uma mulher chamada Maria.

Tancredo pediu 22 anos de cadeia para Jesus, o júri deu dezoito, Jesus foi parar na cadeia.

Nove anos depois, Tancredo Neves, advogado, vai a Andrelândia, pequena cidade próxima a São João Del Rey.

De barba por fazer, entra numa modesta barbearia de canto de rua, senta-se, está cansado, fecha os olhos, o barbeiro pega a navalha, afia, começa a tirar-lhe a barba, puxa conversa:

– O senhor é o Dr. Tancredo, né?

Tancredo abre os olhos, reconhece Jesus, o assassino de São João Del Rey. Espia pelo canto do olho, a barbearia vazia, a rua vazia, não chegava ninguém, o suor minava aflito na testa molhada e Jesus com a navalha enorme na mão pesada correndo garganta abaixo, sobe-desce, sobe-desce, abrindo caminho na espuma. Jesus não diz mais nada, Tancredo só teve voz para dizer:

– Sou, sim.

-Pois é, Dr. Tancredo, a vida.

– Pois é, Jesus, a vida

– Pois é mesmo, Dr. Tancredo. Cumpri nove anos dos dezoito, estou aqui, o senhor está aí, o senhor com sua barba, eu como minha navalha. Eu só queria contar uma coisa ao senhor, uma coisa só: que coisa bonita é um júri, Dr. Tancredo!” (Sebastião Nery, in Ninguém me contou, eu vi, Geração Editorial, São Paulo, 2014).

Vingativo, Lula da Silva disse que só estará bem quando ferrar o Sérgio Moro. A palavra que ele disse não foi ferrar, mas também começa com f.

O PT entrou com ação na Justiça Eleitoral para cassar o mandato de senador de Sérgio Moro (União Brasil-PR) e Lula já trabalha para o PT cavar a vaga dele no Senado Federal ou o apoio de quem eventualmente assumir.  

Lula já se extasiou com a cassação do mandato de deputado federal do ex-procurador Deltan Dallagnol, agora é a vez de Sérgio Moro.

Há um ditado nos sertões do Nordeste que diz o seguinte: “Mais vale amigo na praça do que dinheiro na caixa”.

Lula tem muitos amigos no Poder Judiciário. Não será difícil cassar Sérgio Moro.  

Hoje Lula é o Jesus, de São João Del Rey.

Sérgio Moro é o Tancredo, de São João Del Rey.

araujo-costa@uol.com.br

A farda da discórdia

Tenente-coronel Mauro Cid/Pedro Ladeira/Folhapress

Desde jovem – vai longe no tempo – aprendi a respeitar as instituições, qualquer que seja a natureza delas e o papel que ocupam na sociedade, de modo que não importa se civil, militar, religiosa etc.

Se o contrário fosse, as autoridades e instituições democraticamente constituídas não sustentariam os andaimes da construção social.

Alguns membros da chamada CPI de 08 de janeiro, mormente a esquerda diurética de um modo geral e mamadores dos cofres públicos estrilaram porque o tenente-coronel Mauro Cid compareceu fardado à CPI.

O Exército explicou o óbvio às confusas e pequeníssimas mentes parlamentares, desanuviando-as: o tenente-coronel Mauro Cid está sendo acusado e investigado pela prática de supostos crimes cometidos no exercício de função militar, qual seja ajudante-de-ordens do então presidente da República.

Mais: salvo melhor juízo, a função é privativa de militar da ativa, de modo que o uso da farda não caracteriza nenhuma afronta ao Exército e tampouco à CPI.  

Diz a imprensa que o presidente Lula da Silva, que é o comandante-em-chefe das Forças Armadas, também se irritou porque o tenente-coronel compareceu fardado ao depoimento, embora esse seja um assunto do Poder Legislativo e não do presidente da República.

Quanto a Lula da Silva, deixa pra lá. Ele não anda muito bem.

A desnecessária manifestação de Lula certamente arranhou os pilares da relação de confiança com seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, mesmo de forma involuntária e mesmo que se negue isto. 

O ministro é sabidamente moderado, responsável, contemporizador e tem juízo.  

Ora, se o ministro da Defesa amparou moralmente o uso da farda pelo tenente-coronel Mauro Cid, a irritação de Lula da Silva não tem razão de ser. Este é um assunto adstrito ao Exército e ao ministro da Defesa, segundo suas atribuições.  Em última análise, assunto para ser discutido no âmbito da CPI e não do Poder Executivo.

Entretanto, essa CPI do 08 de janeiro, assim como todas, tem em suas fileiras, mais caçadores de holofotes do que parlamentares que se disponham a fazer um trabalho sério.

Mas esse assunto ainda vai longe.

O fato é que nossos parlamentares são despreparados quando se tratam de assuntos sérios, mas preparadíssimos, quando discutem a aprovação de projetos em benefício próprio.

Vide o caso do recente projeto aprovado pela Câmara dos Deputados que beneficia vergonhosamente parlamentares, parentes, assessores e uma casta de autoridades e servidores públicos, todos pagos com dinheiro do contribuinte.

Hipocrisia. Embora vivam se engalfinhando no dia a dia, quando se trata de votar leis em benefício próprio, esquerda e direita se unem, o que significa dizer que se igualam.  

Qualquer primeiranista de direito sabe que o tenente-coronel Mauro Cid se crime cometeu – e parece que sim – o fez no exercício de função militar. Logo, a farda é uniforme de trabalho e não uma afronta a Suas Excelências membros da CPI.

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O ministro Flávio Dino e o escangalhamento da decência

O ministro lulista Flávio Dino (Justiça e Segurança Pública) é o protótipo da indecência institucional.

Diz-se comunista, católico e fala de Deus a todo momento, situações absolutamente incompatíveis com o comunismo. Ele é o avesso do comunista clássico sustentado na ideologia.

Hilária e constrangedora a entrevista que ele concedeu em 2019 a Lilian Witte Fibe, Mariliz Pereira, Carlos Andreazza e Mara Luquet, ainda como governador do Maranhão. Está no Youtube para quem quiser consultar, pensar, rir.

Naquela entrevista, Flávio Dino tentou justificar, pateticamente – e sem conseguir – sua condição de suposto defensor da justiça social, da liberdade e da igualdade entre todos, ao mesmo tempo em que se declara admirador de regimes ditatoriais como Cuba, onde o que menos existe por lá é justiça social e igualdade.

Parêntese: em data recente, já no governo Lula, o Brasil mandou para Cuba, em caráter humanitário – o que é louvável – remédios básicos, dentre outros, para cura da Aids e leptospirose, porque o regime cubano não tem condições de combater enfermidades tais em seu território, sem depender de ajuda humanitária de outros países. Todavia, Cuba exporta médicos com o intuito de angariar dinheiro para o caixa do regime castrista.

Mas o ministro Flávio Dino entende que Cuba é um modelo de sociedade e de regime político, assim como outros países que estão sob o guarda-chuva do comunismo.

Truculento e pernóstico, Flávio Dino disse em entrevista que foi ao Quartel General do Exército e determinou ao General Comandante que prendesse os manifestantes naquele domingo, 08/01/2023, em Brasília.

Pretensioso, Flávio Dino desconsiderou que, segundo os regimentos militares, o comandante do Exército não obedece ordens do ministro da Justiça, que não tem atribuições constitucionais para fazê-las, mas do comandante-em-chefe das Forças Armadas, que é o presidente da República e do ministro da Defesa.  

Disse Flávio Dino: “O general questionou e disse que a prisão não seria feita lá. Outro general interveio e disse que nunca a polícia tinha ido ao quartel prender pessoas” (Veja, 08/07/2023). As prisões aconteceram no dia seguinte, mas por ordem da autoridade competente.

Evidente que os manifestantes que cometeram crimes – não todos que estavam lá, evidentemente – deviam ser presos, mas dentro das normas legais e não por pretensão de um ministro da Justiça atabalhoado com ânsia de aparecer diante dos holofotes.

Como se vê, o ministro Flávio Dino instalou no Brasil o escangalhamento da decência institucional. Quer mandar, quer determinar, quer aparecer, quer punir, quer perseguir.

Coisa de comunista frustrado.

Ideais comunistas não se coadunam com oportunistas. Embora se declarando comunista, segundo ele, “graças a Deus”, Flávio Dino migrou para o PSB, o que dá no mesmo.

Com este proceder hipócrita, Flávio Dino afronta a memória de comunistas sérios e históricos como Luís Carlos Prestes, João Amazonas, Oscar Niemeyer, Gorender, Carlos Marighella e tantos outros.

Comunismo é idealismo e não oportunismo.

Quiçá Flávio Dino queira desfazer a escuridão de seu péssimo governo no Maranhão (pior que a dinastia Sarney) e ser o indicado de Lula da Silva para sua sucessão.

Lula não quer. O PT não quer.

araujo-costa@uol.com.br