De vez em quando costumo consultar meus arquivos empoeirados e amarelados pelo tempo – e sempre implacáveis – que os chamo de alfarrábios.
Faço-o para dizer à velhice, essa minha simpática companheira de todos os dias, que insisto em não me dar por vencido na luta em busca das lembranças que me fizeram bem até hoje.
Há outras lembranças que me trucidam e impõem às vezes o silêncio. Essas, embora inarredáveis, devem ser flexibilizadas pela memória para não tornarem os dias mais crudelíssimos.
Remexendo papéis antigos, encontrei esta foto de Antonio Ferreira Dantas Paixão (1899-1976), político e comerciante de Patamuté.
Naquele tempo os políticos tinham vergonha e prezavam pela moralidade pública.
Antonio Paixão foi um deles. Deixou exemplo de vida e de caráter irrepreensível.
Em 2019, publiquei neste mesmo espaço – e hoje reproduzo – foto de Raquel do Carmo Paixão, esposa de Antonio Paixão, ao lado de Joaninha, sua amiga. Ambas residiam juntas em Patamuté, em aprazível residência que o tempo modificou, mas ficou inscrita nas páginas das lembranças.
À esquerda, Raquel do Carmo Paixão. À direita, Joaninha
A foto de Raquel e Joaninha foi garimpada da página de Josias Paixão, no facebook. Josias, a quem atribuo o crédito da foto, é sobrinho de Antonio Paixão.
“Há tempo de amar e tempo de amar o que se amou” (Marques Rebelo, cronista e romancista fluminense, 1907-1973)
Claudemira Maria Teles do Nascimento
Guardo, com carinho, uma carta escrita de Petrolina (PE) em 21/12/1979. Como se vê, há aproximados 44 anos. Mantenho-a intacta, porque faz parte de minha história de vida, uma página das somas acrescentadas ao meu caminhar.
A carta – naquele tempo ainda se escreviam cartas – é de Claudemira Maria Teles do Nascimento, educadora de tradicional família de Riacho Seco, município de Curaçá.
Conhecemo-nos no simpático distrito de Riacho Seco, numa agradável tarde de 1975. Estávamos reunidos na única escola estadual do distrito naquele tempo, que certamente hoje adquiriu contornos físicos e culturais mais adiantados, em razão do progresso e dos presumíveis esforços de nossas autoridades.
“Descobri que pequeno e inútil é aquele que não sabe amar”, dizia a missivista em certo momento da carta longa, inteligente e saudosa. Eu já morava em São Paulo para onde os sonhos me tinham empurrado em busca de horizontes mais claros.
Certa vez, em passagem por São Paulo, no aeroporto de Congonhas, Dadá me presentou com o livro O Pilão, de Adolpho Bloch, talvez um estímulo para que eu continuasse perseguindo meus objetivos. Nunca deixei de pensar nisto.
Claudemira faleceu precocemente no auge de sua agitada e irrequieta atividade intelectual. O sepultamento se deu em 21/03/1982 no cemitério de Petrolina e coube-me dizer algumas palavras, entrecortado pela emoção e espezinhado pela crueldade da morte inesperada.
Dilacerado eu dizia: Você sempre liderava os grandes passos, as decisões difíceis. E quando os obstáculos cruzavam seu caminho, você se servia deles transformando-os em estímulo para o prosseguimento da caminhada.
Dizia também que amar é estar presente, “fisicamente quando possível, espiritualmente sempre”. Acho que garimpei essa frase de algum texto de Vinicius de Moraes.
A íntegra desse titubeante e despedaçado discurso está em meu livro Fragmentos do Cotidiano (São Paulo, 1987).
Claudemira era carinhosamente conhecida pelo apelido Dadá.
Outro dia, ajuntando pedaços de saudade, fiz um esforço de memória, de resto já esburacada pela passagem do tempo e me lembrei do núcleo familiar de Dadá, além da mãe e do pai: Creuza, Socorro, Maria Áurea, Risalva, Ivan, Bedeu, Cisinho, todos Teles, todos Nascimento, todos de índole irrepreensível. E ainda as queridas tias Glorinha e Lili, exemplos de vida e decência familiar.
Turma alegre, espirituosa, sincera, hospitaleira.
Mais tarde, a Rua Maurício Vanderley, no centro de Petrolina, era a referência da família, o aconchego, porta aberta às amizades. Lá se davam os encontros dos amigos, parentes e aderentes daquela ilustre família curaçaense de Riacho Seco.
Dadá fazia parte dessa família expansiva e feliz.
Hoje, faço este vazio resumo de lembranças no entardecer inarredável da vida, em razão do adiantado da idade de todos nós daquele tempo e daquela geração.
O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, aprontou mais uma: acrescentou outra asneira em seu curriculum já desgastado e que se somou ao rosário de outras tantas ao imiscuir-se em assuntos políticos.
Barroso escancarou de vez que é militante político e, por tabela, em discurso para estudantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), levou a reboque outros ministros do STF, que deles discordaram.
Em discurso escancaradamente político, vergonhoso e incompatível com a liturgia do cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso admitiu ser militante político como, aliás, já deixou claro noutras ocasiões. Inegavelmente. Indubitavelmente.
Ministro do Supremo Tribunal Federal é ministro do Supremo Tribunal Federal e só. Deve respeitar o cargo, deve respeitar a ética, deve respeitar a Constituição da República, dever ser magistrado e não militante político.
Deve curvar-se à nobreza da toga.
Mais: o magistrado, até por decência, deve respeitar os brasileiros que pagam seus estratosféricos salários e sustentam suas vergonhosas mordomias.
Ao menosprezar aproximados 58 milhões de brasileiros que não votaram no candidato de sua preferência, o ministro demonstrou despreparo para conviver com antagonismos e, por extensão, com a democracia, que ele diz defender.
O discurso é assustador partindo de um ministro do Supremo Tribunal Federal que, de resto, não deve se intrometer em assuntos político-partidários, mas cuidar de seu mister de magistrado.
Discurso político é para político e não para magistrado.
Magistrado julga, faz justiça, não pende para nenhuma das partes em litígio, não torce para nenhum de seus ídolos, mesmo que em contenda judicial que deva julgar.
Aliás, o presidente Lula da Silva, que Luís Roberto Barroso parece admirá-lo, defende que quem quiser fazer política renuncie ao cargo que ocupa, filie-se a um partido político e passe enfrentar as ruas e as urnas, como manda a democracia.
Lula tem razão.
Situação vergonhosa esta do ministro Luís Roberto Barroso.
“Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce” (Lya Luft, 1938-2021).
Maria de Lourdes Lopes (28/10/1919-18/01/1998), mestra em arquitetar generosas façanhas, incorporou uma delas em seu viver admirável.
Maria se fez conhecida, simultaneamente, através de dois nomes: Maria de Fortunato e Maria de Expedito. Fortunato Lopes, o pai; Expedito José de Bim, o esposo.
Todavia, quando instada a declinar seu nome, em ocasiões que a burocracia exigia, notava-se uma altivez exemplar ao dizer, com dignidade: “Maria de Lourdes Lopes, sua criada”.
Quando perguntados, os mais velhos costumavam dizer o nome próprio seguido da expressão “seu criado”, oralidade que ainda se usa em alguns rincões do interior do Brasil, para significar reverência e respeito ao interlocutor. É uma expressão respeitosa, educada, início de uma boa conversa.
Convivi muito próximo com Maria de Fortunato. Morei em sua casa em Curaçá que, numa quadra do tempo, ela a transformou num misto de pensão e residência. Seus hóspedes eram tratados como amigos e, de fato, acabavam caindo em seus encantos, tamanha a maneira cordial e maternal com que cuidava de todos.
Contudo, o que mais admirava em Maria de Expedito era uma de suas façanhas: demarcava, com sabedoria lapidar, tanto o território de sua liberdade quanto o de seus deveres. Sabia exercê-los com impressionante inquietude.
A liberdade retratava-se na maneira desenvolta com que traçava seu viver, com absoluta independência e externava com firmeza seus pontos de vista. E não negligenciava no cumprimento de seus deveres, que eram muitos, incessantes, necessários.
Outra façanha de Maria de Fortunato era o cuidado com a família. Educou as filhas, até arrostando dificuldades, mas deu-lhes os esteios para sustentarem vida honesta, correta, exemplar. Soube direcioná-las todas no caminho do bem e dos estudos, vendo-as graduadas e, na sequência, profissionais de destaque.
Maria agendava a vida, sabia agendar a vida. Mesmo subindo a escada rolante pelo lado que desce, Maria de Fortunato não permitiu que os degraus a empurrassem para baixo.
Não baixava a cabeça diante dos percalços rotineiros e inevitáveis da vida. Soube seguir em frente. E seguiu obstinadamente, humildemente, honrosamente.
Às vezes filosófica, outras tantas pensativa, mas sempre espirituosa. Maria era assim e mais do que isto: decidida e alegre, sempre alegre, muito alegre. Sabia agendar a vida, sabia driblar as ciladas do dia a dia com decência e desenvoltura.
Há aproximadas cinco décadas convivi com Maria de Expedito. Carrego em minha pequena e apoucada experiência, não obstante a passagem do tempo, uma lição que aprendi com ela: ser livre é não definir fronteiras para nossas palavras, mas é também entender a liberdade como limite para saber conviver com os demais que nos cercam.
Parece pouco, mas não é. A vida seria mesquinha e desditosa se, ao precisar conviver com os poderosos, tivéssemos o condão de tolher os espaços dos mais humildes. A humildade é o bálsamo do saber viver, a ciência para enxergar o caminho.
Os tropeços, quaisquer que sejam eles, nos dão lições de vida.
Nunca esqueci um de seus incentivos, quando meus sonhos turbilhonavam nas incertezas, como de resto, ainda hoje: “Meu filho, vá em frente”. Fui. Mas não sei se tenho conseguido enfrentar os tropeços da vida como ela conseguiu enfrentar com tanta dignidade.
Maria de Lourdes Lopes, Maria de Fortunato, Maria de Expedito. Aprendi muito com ela nesta vida de tropeços e quedas. Sinto falta de seu amparo, de seu abraço afável, de suas palavras, de sua impetuosidade de viver.
Expedido Bim e netos /Álbum de família
araujo-costa@uol.com.br
Post scriptum:
As fotos de Maria de Fortunato e de Expedido Bim são de álbum da família Bim. Embora isto não venha macular a essência do texto, parece que me foi dito uma vez que o nome correto é Espedito e não Expedito.
“Tancredo Neves era promotor em São João Del Rey, um homem chamado Jesus matou uma mulher chamada Maria.
Tancredo pediu 22 anos de cadeia para Jesus, o júri deu dezoito, Jesus foi parar na cadeia.
Nove anos depois, Tancredo Neves, advogado, vai a Andrelândia, pequena cidade próxima a São João Del Rey.
De barba por fazer, entra numa modesta barbearia de canto de rua, senta-se, está cansado, fecha os olhos, o barbeiro pega a navalha, afia, começa a tirar-lhe a barba, puxa conversa:
– O senhor é o Dr. Tancredo, né?
Tancredo abre os olhos, reconhece Jesus, o assassino de São João Del Rey. Espia pelo canto do olho, a barbearia vazia, a rua vazia, não chegava ninguém, o suor minava aflito na testa molhada e Jesus com a navalha enorme na mão pesada correndo garganta abaixo, sobe-desce, sobe-desce, abrindo caminho na espuma. Jesus não diz mais nada, Tancredo só teve voz para dizer:
– Sou, sim.
-Pois é, Dr. Tancredo, a vida.
– Pois é, Jesus, a vida
– Pois é mesmo, Dr. Tancredo. Cumpri nove anos dos dezoito, estou aqui, o senhor está aí, o senhor com sua barba, eu como minha navalha. Eu só queria contar uma coisa ao senhor, uma coisa só: que coisa bonita é um júri, Dr. Tancredo!” (Sebastião Nery, in Ninguém me contou, eu vi, Geração Editorial, São Paulo, 2014).
Vingativo, Lula da Silva disse que só estará bem quando ferrar o Sérgio Moro. A palavra que ele disse não foi ferrar, mas também começa com f.
O PT entrou com ação na Justiça Eleitoral para cassar o mandato de senador de Sérgio Moro (União Brasil-PR) e Lula já trabalha para o PT cavar a vaga dele no Senado Federal ou o apoio de quem eventualmente assumir.
Lula já se extasiou com a cassação do mandato de deputado federal do ex-procurador Deltan Dallagnol, agora é a vez de Sérgio Moro.
Há um ditado nos sertões do Nordeste que diz o seguinte: “Mais vale amigo na praça do que dinheiro na caixa”.
Lula tem muitos amigos no Poder Judiciário. Não será difícil cassar Sérgio Moro.
Desde jovem – vai longe no tempo – aprendi a respeitar as instituições, qualquer que seja a natureza delas e o papel que ocupam na sociedade, de modo que não importa se civil, militar, religiosa etc.
Se o contrário fosse, as autoridades e instituições democraticamente constituídas não sustentariam os andaimes da construção social.
Alguns membros da chamada CPI de 08 de janeiro, mormente a esquerda diurética de um modo geral e mamadores dos cofres públicos estrilaram porque o tenente-coronel Mauro Cid compareceu fardado à CPI.
O Exército explicou o óbvio às confusas e pequeníssimas mentes parlamentares, desanuviando-as: o tenente-coronel Mauro Cid está sendo acusado e investigado pela prática de supostos crimes cometidos no exercício de função militar, qual seja ajudante-de-ordens do então presidente da República.
Mais: salvo melhor juízo, a função é privativa de militar da ativa, de modo que o uso da farda não caracteriza nenhuma afronta ao Exército e tampouco à CPI.
Diz a imprensa que o presidente Lula da Silva, que é o comandante-em-chefe das Forças Armadas, também se irritou porque o tenente-coronel compareceu fardado ao depoimento, embora esse seja um assunto do Poder Legislativo e não do presidente da República.
Quanto a Lula da Silva, deixa pra lá. Ele não anda muito bem.
A desnecessária manifestação de Lula certamente arranhou os pilares da relação de confiança com seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, mesmo de forma involuntária e mesmo que se negue isto.
O ministro é sabidamente moderado, responsável, contemporizador e tem juízo.
Ora, se o ministro da Defesa amparou moralmente o uso da farda pelo tenente-coronel Mauro Cid, a irritação de Lula da Silva não tem razão de ser. Este é um assunto adstrito ao Exército e ao ministro da Defesa, segundo suas atribuições. Em última análise, assunto para ser discutido no âmbito da CPI e não do Poder Executivo.
Entretanto, essa CPI do 08 de janeiro, assim como todas, tem em suas fileiras, mais caçadores de holofotes do que parlamentares que se disponham a fazer um trabalho sério.
Mas esse assunto ainda vai longe.
O fato é que nossos parlamentares são despreparados quando se tratam de assuntos sérios, mas preparadíssimos, quando discutem a aprovação de projetos em benefício próprio.
Vide o caso do recente projeto aprovado pela Câmara dos Deputados que beneficia vergonhosamente parlamentares, parentes, assessores e uma casta de autoridades e servidores públicos, todos pagos com dinheiro do contribuinte.
Hipocrisia. Embora vivam se engalfinhando no dia a dia, quando se trata de votar leis em benefício próprio, esquerda e direita se unem, o que significa dizer que se igualam.
Qualquer primeiranista de direito sabe que o tenente-coronel Mauro Cid se crime cometeu – e parece que sim – o fez no exercício de função militar. Logo, a farda é uniforme de trabalho e não uma afronta a Suas Excelências membros da CPI.
O ministro lulista Flávio Dino (Justiça e Segurança Pública) é o protótipo da indecência institucional.
Diz-se comunista, católico e fala de Deus a todo momento, situações absolutamente incompatíveis com o comunismo. Ele é o avesso do comunista clássico sustentado na ideologia.
Hilária e constrangedora a entrevista que ele concedeu em 2019 a Lilian Witte Fibe, Mariliz Pereira, Carlos Andreazza e Mara Luquet, ainda como governador do Maranhão. Está no Youtube para quem quiser consultar, pensar, rir.
Naquela entrevista, Flávio Dino tentou justificar, pateticamente – e sem conseguir – sua condição de suposto defensor da justiça social, da liberdade e da igualdade entre todos, ao mesmo tempo em que se declara admirador de regimes ditatoriais como Cuba, onde o que menos existe por lá é justiça social e igualdade.
Parêntese: em data recente, já no governo Lula, o Brasil mandou para Cuba, em caráter humanitário – o que é louvável – remédios básicos, dentre outros, para cura da Aids e leptospirose, porque o regime cubano não tem condições de combater enfermidades tais em seu território, sem depender de ajuda humanitária de outros países. Todavia, Cuba exporta médicos com o intuito de angariar dinheiro para o caixa do regime castrista.
Mas o ministro Flávio Dino entende que Cuba é um modelo de sociedade e de regime político, assim como outros países que estão sob o guarda-chuva do comunismo.
Truculento e pernóstico, Flávio Dino disse em entrevista que foi ao Quartel General do Exército e determinou ao General Comandante que prendesse os manifestantes naquele domingo, 08/01/2023, em Brasília.
Pretensioso, Flávio Dino desconsiderou que, segundo os regimentos militares, o comandante do Exército não obedece ordens do ministro da Justiça, que não tem atribuições constitucionais para fazê-las, mas do comandante-em-chefe das Forças Armadas, que é o presidente da República e do ministro da Defesa.
Disse Flávio Dino: “O general questionou e disse que a prisão não seria feita lá. Outro general interveio e disse que nunca a polícia tinha ido ao quartel prender pessoas” (Veja, 08/07/2023). As prisões aconteceram no dia seguinte, mas por ordem da autoridade competente.
Evidente que os manifestantes que cometeram crimes – não todos que estavam lá, evidentemente – deviam ser presos, mas dentro das normas legais e não por pretensão de um ministro da Justiça atabalhoado com ânsia de aparecer diante dos holofotes.
Como se vê, o ministro Flávio Dino instalou no Brasil o escangalhamento da decência institucional. Quer mandar, quer determinar, quer aparecer, quer punir, quer perseguir.
Coisa de comunista frustrado.
Ideais comunistas não se coadunam com oportunistas. Embora se declarando comunista, segundo ele, “graças a Deus”, Flávio Dino migrou para o PSB, o que dá no mesmo.
Com este proceder hipócrita, Flávio Dino afronta a memória de comunistas sérios e históricos como Luís Carlos Prestes, João Amazonas, Oscar Niemeyer, Gorender, Carlos Marighella e tantos outros.
Comunismo é idealismo e não oportunismo.
Quiçá Flávio Dino queira desfazer a escuridão de seu péssimo governo no Maranhão (pior que a dinastia Sarney) e ser o indicado de Lula da Silva para sua sucessão.
Ademilton Alves. À esquerda Heloísa Ferrari/Crédito perfil facebook Heloisa
Década de 1960. Idos que se firmaram na memória e nas recordações.
Surgimento do The Beatles, Roberto Carlos, Jerry Adriani, Vanderléia, Ronnie Von, movimento Jovem Guarda.
Em Patamuté, vivíamos uma juventude alegre, dentro do possível que o lugar permitia e de acordo com as oportunidades, que eram poucas, escassas, difíceis.
Formávamos uma turma heterogênea, de modo que, tendo em vista as limitações do lugar, os espaços que frequentávamos eram os mesmos, embora as idades diferentes.
Respeitávamos os mais velhos, porque eram pais de nossos amigos: Egídio Felizardo de Santana (Zinho), José Manoel de Santana (Zé de Né), José de Souza Alcântara (Zé Lulu), Lídio Manoel dos Santos, Waldomiro Mendes (Vivi), Macário Alves, Nicolau Cordeiro, Hildebrando Mendes e outros tantos.
E respeitávamos também – e muito – as mães de nossos amigos: Alice Santana, Julieta Alcântara, Laura Prado (D. Lalu), Judite Menezes, Antonia de Macário (Toinha), Maria Angélica, D.Inês e todas aqueloutras que aqui não são citadas, mas muito diletas e respeitadas por todos nós.
Na juventude, construímos nossas primeiras amizades, muitas delas perduram até hoje e outras não mais, porque a morte as levou, as vicissitudes da vida nos distanciaram ou, ainda, porque não conseguimos nos suportar, em razão das peculiaridades, mudança de vida e defeitos de cada um.
Naquela quadra do tempo, conheci Ademílton Alves. Ambos – eu e ele – trabalhávamos com o comerciante Antonio Ferreira Dantas Paixão que já escrevi sobre ele neste espaço.
Ademílton, muito responsável, já naquele tempo era motorista de confiança de Antonio Paixão. Ao contrário de todos nós, mais afoitos, não bebia e não fumava. Dedicava-se ao trabalho.
Anos mais tarde, Ademílton foi morar e lutar em Juazeiro. Manteve por lá, durante muito tempo, uma banca comercial nas imediações da antiga Sorveteria Primavera e Cine São Francisco. A Rua da Apolo era seu campo de atuação. Lá ele fez mais amigos, cavou a vida, recebia os amigos de Patamuté, direcionou seu caminho.
Em data recente, pedi a Agamenon Fonseca dos Santos, tio de Ademílton, o contato dele. Fui prontamente atendido, mas não telefonei. Coisa de amigo relapso.
Hoje fiz esta crônica incompleta, falha, insuficiente para dizer a grandeza de Ademílton.
O fato é que nunca mais o vi. A saudade me permite mandar-lhe um abraço.
Imagem antiga do prédio histórico da Prefeitura de Chorrochó/Crédito Google/IBGE
Fenômeno comum na vastidão dos esturricados sertões do Nordeste, o poder político em Chorrochó se concentrou, durante anos, numa mesma família: Pacheco de Menezes.
Isto não significava uma oligarquia, propriamente, nos moldes definidos pela ciência política, mas estreita semelhança com o que acontecia mormente na Primeira República.
Pelo menos politicamente, Chorrochó começou a se estruturar lá pelos idos de 1919, estribado na participação do comerciante Francisco Pacheco de Menezes que trabalhou no sentido de vê-lo emancipado de Curaçá e foi seu primeiro intendente. Era casado com Luciana Alventina Fonseca de Menezes.
O núcleo familiar de Francisco Pacheco de Menezes se compunha dos seguintes filhos: Josepha Pacheco de Menezes (Neném), Bernardina de Menezes Mattos (Nanzinha), Anna Mattos de Menezes (Quininha), Josepha Alventina de Menezes (Nilinha), Antonio Pacheco de Menezes (Tonho), José Pacheco de Menezes (Deca), Dorotheu Pacheco de Menezes (Derote) e Maria Alventina de Menezes (Iaiá).
Essa estrutura familiar foi-se aumentando, de modo que Chorrochó se edificou sobre o esteio Pacheco de Menezes. Hoje enfrenta as lacunas dos que já se foram, mas a descendência ainda se faz presente e tem o condão de sustentar a história familiar, consideradas as naturais transformações por que passaram os costumes e a cultura do lugar no decorrer do tempo.
Contudo, é seguro delinear alguns registros:
Josepha Pacheco de Menezes (Neném) não se casou.
Bernardina de Menezes Mattos (Nanzinha) casou com João Mattos Cardoso. Filho do casal: Francisco Arnóbio de Menezes.
Anna Mattos de Menezes (Quininha) casou com João Mattos Cardoso. Filhos do casal: Ademar Cardoso de Menezes, Vivaldo Cardoso de Menezes, Maria Menezes Mattos Bezerra e Emanuel Cardoso de Menezes.
Josepha Alventina de Menezes (Nilinha) não se casou.
Antonio Pacheco de Menezes (Tonho) casou com Maria Argentina de Menezes. Filhos: Maria de Lourdes Menezes Araujo, Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Joselita de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Antonio Pacheco de Menezes Filho, Maria Ita de Menezes, Maria Agripina de Menezes, José Ozório de Menezes e Maria Eugênia de Menezes.
José Pacheco de Menezes (Deca) casou com Alventina Soares de Menezes. Filhos do casal: José Alventino de Menezes, Francisco Pacheco de Menezes Neto, Antonio Valter de Menezes, Maria Salésia de Menezes Rodrigues, João Pacheco de Menezes e Elza Maria de Menezes.
Dototheu Pacheco de Menezes casou com Izabel Argentina de Menezes. Filhos: Maria do Socorro Menezes Ribeiro, José Evaldo de Menezes e João Bosco de Menezes.
Maria Alventina de Menezes (Iaiá) casou com Joviniano Cordeiro de Menezes. Filhos: Maria Rita da Luz Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, José Jazon de Menezes, Maria D´Aparecida Mazarelo de Menezes e Francisco Afonso de Menezes.
A história de Chorrochó atesta que a família Pacheco de Menezes se vinculou a todas as atividades do município: comércio, pecuária, religião, política, educação, cultura e serviços públicos.
Dorotheu Pacheco de Menezes liderou, durante anos, parte da estrutura político-partidária do município e sustentou a tradição familiar de sua ascendência.
Por aí se vê que esse cenário familiar teve fundamental importância para o município que durante décadas foi Chorrochó de Pacheco e de Menezes.
Post scriptum:
É enriquecedora a leitura do livro História de Chorrochó, lançado em 2015, de autoria da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e de Dr. Francisco Afonso de Menezes.
Consta em meus alfarrábios duas filhas de Francisco Pacheco com o nome Josepha (Neném e Nilinha). É possível que minhas anotações estejam erradas pelo que peço escusas. Por outro lado, segundo o livro História de Chorrochó, o nome da esposa era Luciana Cecília Alventina Fonseca.
De qualquer modo, não tenho intenção de mutilar a história de Chorrochó. Sou apenas curioso no que tange aos fatos, o que não me exime de registrá-los corretamente.
Nesta idade, quando me faltam os arroubos da juventude e os equívocos da vaidade, apenas rememoro ocasiões, lembranças, fatos, saudade, fragmentos da história que vivi ou tive notícia.
Tem-se notícia de que o embrião da festa dos Vaqueiros de Curaçá aconteceu em 1953, por ocasião das comemorações do centenário do município. Há, portanto, 70 anos.
Fragmentos da história curaçaense registram que como parte dos festejos do centenário, algumas categorias sociais foram homenageadas na sede do município, dentre elas os vaqueiros. Aproximadamente quarenta deles participaram do evento, todos uniformizados segundo a tradição da caatinga e das fazendas
De outro turno, a história registra que em 14/08/1959 foi fundada a Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá, por iniciativa de Gilberto da Silveira Bahia, que foi prefeito no período de 1959-1963.
Gilberto Bahia contou com o apoio de Abílio Gomes da Silva, Aristóteles de Oliveira Loureiro, Sindolfo Curcino Rosa, Deoclecio Paulino da Silva, José Alvino da Costa, Guilherme Bernardes do Nascimento, Albertino Nunes da Silva, Edgard D´Araujo e José Ferreira Só.
A reunião de fundação aconteceu na Sociedade Curaçaense Artística e Beneficente (SCAB), espécie de símbolo da sociedade curaçaense da época.
Entretanto, no decorrer do tempo, precisamente na década de 1960, a então novel Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá contou com a firme colaboração de Manoel Pereira Filho, conhecido como Nequinha Pereira, que teve papel fundamental na construção da sede da instituição.
Como se vê, é razoável afirmar que Nequinha Pereira adquiriu a condição de vaqueiro emérito de Curaçá, pelo menos informalmente, tendo em vista sua valiosa contribuição em defesa dos vaqueiros e de sua cultura. Por óbvio, pioneiro na estrutura da Sociedade dos Vaqueiros.
O início de qualquer instituição não se dá tão somente através de seus alicerces físicos. Sustentam-lhe também as ideias e a vontade que alguns membros ou defensores dessa instituição têm para construir o futuro da sociedade em que vivem.
Nequinha Pereira faleceu em 2007 aos 96 anos. Deixou uma descendência respeitável que se esteia em filhos e, por consequência, dezenas de netos, bisnetos e até tataranetos.
Está enterrado no cemitério do povoado de São Bento. Lá estão suas raízes e o começo de sua história de luta e honradez.
É razoável supor que a reconstrução da memória de um lugar se dá também através da gratidão aos seus filhos e também do reconhecimento à disposição que eles tiveram de contribuir em benefício de seus concidadãos.
Não é possível fazer quaisquer referências à festa dos Vaqueiros de Curaçá sem que o nome de Manoel Pereira Filho seja resgatado do subterrâneo do esquecimento e passe a ocupar destaque merecido na história e na cultura do lugar.
Vaqueiros em dia de festa/Blog Josélia Maria, 07/07/2015
Observação necessária:
Para construir esta matéria, além da consulta aos meus alfarrábios e com o intuito de aparar as arestas de minhas imperfeições, contei com valiosas informações de Theodomiro Mendes Filho, defensor intransigente da Festa dos Vaqueiros e das tradições de Curaçá e de quem sou admirador; Luciano Lugori, professor, jornalista e escritor curaçaense; Maycon Roberson Pereira da Silva Belli, filho de Domingas Pereira da Silva e neto de Nequinha Pereira.
Todavia, possíveis erros e eventuais deficiências no texto são de minha inteira responsabilidade.