Estamos sendo espancados

Nenhum ato truculento ou ilegal deve ser tolerado, seja ele oriundo do Poder Judiciário, do Executivo ou do Legislativo.

Quem hoje aplaude atos dessa natureza, amanhã poderá ser vítima deles. Inarredavelmente vítima.

Só para lembrar:

Há uma escalada de censura no Brasil, inclusive prévia, espancamento à liberdade de expressão individual e agressão violenta à liberdade de manifestação do pensamento, embora direitos assegurados na Constituição da República.

Os excessos devem ser punidos, evidentemente, de acordo com o devido processo legal. Quem ofende, acusa sem provas, calunia e difama deve ser punido. Isto é elementar.

Tudo isto está acontecendo no Brasil em nome da democracia. Há quem acredite. Há quem concorde. Há quem aplauda.

Por isto, a reflexão oportuna sobre o pensamento de Matin Niemoller (pastor luterano alemão, 1892-1984):  

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…”

Quaisquer ditaduras, sejam armadas ou disfarçadas de toga, devem ser apontadas, repelidas, contestadas, repudiadas, nos termos da lei.

A função precípua do Poder Judiciário é a composição dos conflitos e não a estimulação deles.

A grandeza do magistrado está em sentar-se ao pé da escada e não o elevar-se ao topo da pirâmide.

A arrogância não faz parte da nobre função do magistrado.

Estamos no estado de direito. Ainda e por enquanto.

Inocentemente, acreditamos que temos Justiça no Brasil.

Sejamos vigilantes.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva ganhou. Estaremos todos ricos

Como já esperado, o ex-presidente Lula da Silva venceu as eleições e impôs uma derrota ao presidente Jair Bolsonaro, embora apertada.

A novidade é que a vantagem foi menor do que a projetada nas pesquisas em favor do morubixaba de Caetés.

Cenário que traduz o Brasil dividido: 50,90% dos votos para Lula e 49,10% para Bolsonaro, diferença de 1,80%. Pouca, convenhamos, no universo de 118,6 milhões de votantes na eleição presidencial.

Isto indica que Lula enfrentará renhida oposição bolsonarista durante seu governo a iniciar-se em 01/01/2023.

Quem ganha governa e quem perde vai para a oposição. É esta a regra democrática inarredável.

Um parêntese: o principal culpado pela derrota de Bolsonaro é ele próprio. Em razão da liturgia do cargo, o presidente da República não pode sair por aí, falando asneiras a torto e a direito. E Bolsonaro fez isto quase diuturnamente.  

O presidente da República deve falar por intermédio de seus porta-vozes oficiais ou em ocasiões especiais. Não é isto que o presidente Bolsonaro costuma fazer e pagou caro por seus destemperos: perdeu a eleição.

A notícia boa é que, com a vitória de Lula, todos ficaremos ricos. Lula da Silva e o PT apregoam que vão extirpar a pobreza do Brasil e, em consequência, não haverá mais pobres nesta nossa querida terra de Santa Cruz, coisa que ele não fez nos oito anos de mandato 2003/2010 e mais alguns anos de lambuja de Dona Dilma Rousseff.

No reinado de Lula da Silva não haverá mais submoradia, moradores de barracos, pessoas em situação de rua, precárias residências na periferia dos grandes centros urbanos, esgotos a céu aberto e coisa e tal.

Lula dará residência digna e comida a todos, segundo ele e o PT. Ninguém passará mais fome, todos terão casa para morar. Não haverá desempregados.

No governo Lula, todo e qualquer brasileiro incluirá em seu cardápio, picanha e outras fartas delícias de nossa culinária, tudo regado a cerveja. Todos terão dinheiro.

E já que não haverá mais pobres, também não haverá delinquentes, que Lula e os petistas chamam de “vítimas da sociedade”.

Com cara de freira contemplativa, o vice Geraldo Alckmin, que se parecia de centro-direita, de repente passou para o lado de Lula da Silva e se tornou de esquerda, desde criancinha. Tem como tarefa coadjutora ajudar Lula a transformar pobres em ricos de um dia para o outro.

Lula tornará o Brasil tão aprazível que fará inveja a países como Suiça, Irlanda do Norte, Austrália, Estados Unidos, etc.   

Todavia, o simbolismo demonstrado por Lula da Silva durante seu discurso da vitória num sofisticado hotel dos Jardins, região mais rica de São Paulo, não se adequou muito à nova situação: um dos seus aliados petistas, que ficou todo tempo a seu lado aplaudindo, foi nada mais, nada menos do que o famoso deputado cearense conhecido como “Dólar na Cueca”.  

Na expectativa de um novo governo Lula, esta página da corrupção não deveria ter sido virada? Ao menos simbolicamente?

Como moro em São Bernardo do Campo há décadas e Lula da Silva nunca me tirou da pobreza, estou pensando em mudar para a Bahia, onde Lula teve 72% dos votos. Certamente lá não há mais pobres e, se houver, são poucos, talvez estejam naquela margem dos 28% que não votaram em Lula da Silva.

Com Lula no governo da República e Jerônimo Rodrigues no governo da Bahia, não haverá mais pobres por lá.

Quem sabe, ele venha me tirar da pobreza.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá e alguns fragmentos de minha memória

“Em Campinas, um professor me saudou dizendo: – Desta cidade saíram muitos homens de talento. Aparteei: – Saíram todos. Ficaram furiosos comigo” (Agripino Griecco, crítico literário, 1888-1973).

Atingi uma quadra do tempo em que a idade me permite dizer o que penso ou quase tudo que penso.

Um amigo me perguntou se pretendo voltar a morar em meu município sanfranciscano de Curaçá, que ele conhece através de meus escritos, para “envelhecer lá”.

Digo que não, mas absorvo sua ironia. Se a premissa é “envelhecer lá”, não será mais possível. Já estou velho e, logo, falta-me essa razão preciosa de voltar ao meu torrão natal para envelhecer.

A turma do politicamente correto diz que não sou velho, sou idoso e estou na fase da “melhor idade”. Melhor idade? Deixa pra lá.  À semelhança de formigas, imbecis tem em todo lugar.

Outro fato impeditivo: o que faria um ancião na fase outonal da vida, beirando a senilidade, a decrepitude, o ocaso, num município com tantos talentos, intelectuais, escritores, jornalistas e até filósofos?  

Aliás, um parêntese: Curaçá parece que se transformou numa gigantesca universidade de filosofia e ciência política. As redes sociais estão infestadas de “filósofos e cientistas”, uns lulopetistas, outros tantos bolsonaristas, disputando entre eles níveis assustadores de agressividade.

Em minha mocidade – já vai longe no tempo – os jovens gostavam de ser humildes, respeitosos e atenciosos, não obstante a rebeldia própria da juventude. Dava certo a convivência sadia entre todos e afastavam-se a prepotência, a aspereza, a insolência.

Noticiam-me de Curaçá, que os becos por onde eu andava e as ruas e esquinas onde conversava com os amigos estão perigosos. As drogas já chegaram por lá ou passam por lá, de modo que é melhor ficar em casa e evitar o perigo das ruas à noite.

Essa incompatibilidade no viver social me alcança em cheio: sou notívago, não necessariamente boêmio. À noite as preocupações se recolhem e surge a expectativa de um amanhã melhor.

Outro dia perguntei a um amigo de Juazeiro, como anda a juventude de lá, a de Curaçá, de Petrolina, etc.

A resposta foi desalentadora: “Antes a juventude era a esperança, mas hoje….”. Acabou tropeçando nas reticências.

Todavia, ao contrário do relato de Agripino Griecco, em Curaçá ficaram os homens de talento e surgiram muitos. Outros de pouco talento saíram, dentre eles me incluo, com a vã esperança de que o encontraria noutro lugar. Debalde.

Voltar agora, carregando imbecilidades, alhos, bugalhos e idiotices na bagagem não é bom, não deve ser bom, não pode ser bom.

Melhor remoer por aqui a saudade e os fragmentos de minha memória esburacada.

araujo-costa@uol.com.br

Coveiro da EBDA, Jerônimo pode ser eleito governador

Ano do decreto de extinção da EBDA, 2016 foi muito difícil para 1.189 empregados efetivos e 797 aposentados, ainda na ativa, além de dezenas de escritórios locais, estações experimentais e centro de formação de pequenos produtores rurais vinculados à agricultura familiar.

Em 2015, quando foi selado o destino da EBDA, em razão da reforma da estrutura organizacional do Estado posta em prática por Rui Costa (PT), a empresa chegou a ter 1.249 empregados, sendo que 825 atuavam no interior, dados do Sindicato dos Trabalhadores Públicos na Área Agrícola do Estado da Bahia (SINTAGRI).   

O engenheiro agrônomo e professor Jerônimo Rodrigues, baiano de Aiquara, então Secretário de Desenvolvimento Rural da Bahia, decidiu pela extinção da tradicional Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), pioneira em pesquisa agropecuária, assistência técnica e extensão rural com atuação ramificada nos 417 municípios do Estado durante algumas décadas.

A Secretaria de Desenvolvimento Rural justificou a extinção da EBDA sustentando-se na alegação dos altos custos suportados pela empresa, inviabilizando-a.

Inegável é que o custo político do desastre da liquidação da EBDA foi bancado pelo professor Jerônimo Rodrigues. Como responsável pelo decreto de liquidação, ele é o coveiro da EBDA.

Jerônimo Rodrigues integrou a Comissão de Apoio à Liquidação da EBDA e, portanto, também tem responsabilidade por sua extinção.

Ora, se os custos ditaram a necessidade de extinção da empresa, é difícil entender porque a nova estrutura criada com a BAHIATER (que sucedeu a EBDA), a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) e a Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), todas penduricalhos da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), não ampararam custos semelhantes aos da EBDA.

Em 1995 o BNDES criou o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) com o intuito de financiar a atividade de pequenos agricultores e, neste particular, contribuiu com o estados.

Entretanto, dados do SINTAGRI sustentam que em 2018, por exemplo, a Bahia amargava o 7º lugar quanto “ao número proporcional de agricultores familiares com acesso ao crédito rural”, dentre os demais estados do Nordeste, donde se depreende que a extinção da EBDA não produziu os efeitos que Rui Costa e Jerônimo Rodrigues esperavam.

Naquele ano de 2018, somente 40% dos agricultores familiares tiveram acesso ao crédito e pelo menos 360 mil não conseguiram, segundo, ainda, dados do SINTAGRI.

É estranho um estado governado pelo PT, cuja espinha dorsal de sua política econômica sempre foi o dinheiro público como manto protetor da pobreza, deixar tantos pequenos agricultores desamparados.

Feudo do Partido dos Trabalhadores (PT), a Bahia pode eleger o petista Jerônimo Rodrigues para o governo do Estado. Ele começou a campanha em agosto com 16% das intenções de voto, ao passo que o adversário ACM Neto (União Brasil) surfava com 54%.

Salvo engano, Jerônimo Rodrigues teve no primeiro turno 49,45% dos votos válidos e ACM escorregou para baixo e ficou com 40,80%. Isto sustenta a tradição de que, quem tem maioria no primeiro turno ganha a eleição no segundo.

Em quadro assim, a chance de Jerônimo ganhar a eleição em 30 de outubro é real, embora ele diga que os institutos de pesquisas “não têm boa-fé” (Folha de S Paulo, 26.10/2022).

O crédito da foto é do Jornal Correio, de Salvador.

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TSE descarta Constituição e impõe censura

Almirante Rademaker, General Lira Tavares e Brigadeiro Márcio de Souza Melo/Junta Militar de 1969/Reprodução Wikipédia

Tempo de ditadura, assim como hoje.

Em agosto de 1969 o marechal Arthur da Costa e Silva, presidente da República, foi acometido de uma trombose cerebral.

O vice-presidente era o jurista mineiro Pedro Aleixo que foi impedido pelos militares de assumir a presidência da República, mesmo tendo em vista a enfermidade do titular.

O presidente foi substituído por um triunvirato militar que assumiu o governo até a definição do sucessor, general Emílio Garrastuzu Médici.   

Essa Junta Militar governativa era formada pelo almirante Augusto Hamann Rademaker Grunewald, ministro da Marinha; general Aurélio de Lira Tavares, ministro do Exército; e brigadeiro Márcio de Souza Melo, ministro da Aeronáutica.

O resto da história todos conhecem.

Sucederam-se os anos de chumbo, censura à imprensa, aos livros, às peças teatrais, às manifestações culturais como um todo. Vieram as torturas, presos políticos, exílio, escuridão geral, prisões de toda ordem, restrições às liberdades públicas.

A história está se repetindo, nem sempre adequando-se à versão conhecida mas, como dantes, espezinhando o direito de expressão e a liberdade de pensamento.

O Tribunal Superior Eleitoral vem espancando nossos direitos, nesta sua fase assustadora e ditatorial.

O TSE descartou o texto constitucional, incinerando-o. Impôs censura à imprensa, inclusive prévia, tirou redes sociais do ar, ameaçou políticos e pessoas do povo, multou, ameaçou multar, proibiu a divulgação de fatos reais e verdadeiros e outras coisas mais.

Tudo, totalmente desconforme a Constituição Federal que diz em seu artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição“.

O texto constitucional vai além e, claramente, diz em seu artigo Quinto, inciso IX:

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” .

Ainda não se tem notícia se, assim como na ditadura militar, além de ameaçar prender, o TSE vai mandar arrebentar brasileiros em porões carcerários, mesmo que estejam exercendo o direito constitucional de criticar, contestar, sugerir, discordar.

Estamos novamente em tempo de ditadura. Não importa se de armas, de caneta ou de toga. Todas são desprezíveis, repugnáveis, afrontam contra a liberdade individual.

O que assusta é o silêncio do Poder Legislativo – Câmara dos Deputados e Senado Federal – além da sociedade civil organizada.

Todos estão de cócoras, acovardados, diria Lula da Silva, se outros fossem os tempos e essa ditadura de toga não estivesse lhe beneficiando.

Todos estão tímidos, amedrontados, idiotamente calados.

E a ditadura do Judiciário atuando diuturnamente, vergonhosamente.

A democracia também nos assegura o direito de gritar.

Cadê os gritos?

araujo-costa@uol.com.br

As curvas de Oscar Niemeyer, o TSE e a inutilidade da arrogância

Oscar Niemeyer/Reprodução Google

“Sinto que sou duas pessoas distintas. Uma voltada para o lado bom da vida, dessa vida divertida que sempre me atraiu. Outra, pessimista, diante dela e dos homens, revoltada contra este mundo injusto em que vivemos”. (Oscar Niemeyer, 1907-2012, As curvas do tempo – Memórias, Editora Revan, Rio de Janeiro, 1999).  

Os amigos comunistas do admirável Oscar Niemeyer, dentre eles o humorista Francisco Milani, gostavam de contar, em tom de pilhéria, que Niemeyer era o único comunista que acreditava no comunismo, mesmo após a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da queda do muro de Berlim e do retumbante fracasso econômico e social de Cuba.

Gênio estimado e arquiteto construtor de Brasília, Oscar Niemeyer era defensor intransigente do diálogo, da boa convivência entre os contrários e, sobretudo, da humildade.

A arraigada convicção ideológica de Oscar Niemeyer, comunista desde 1945, não o impediu de ser um dos melhores e confidentes amigos do presidente Juscelino Kubitscheck, democrata de ímpar vastidão moral da história de nossa República, donde se vê que a grandeza dos homens é incompatível com a pequenez e inutilidade da arrogância.

Avesso a ditaduras e a regimes autoritários, o comunismo que Oscar Niemeyer sonhou não era o mesmo posto em prática por algumas nações no mundo.

Sede do Partido Comunista Francês em Paris/Obra de Oscar Niemeyer/reprodução Google

Imagino a beleza das curvas arquitetônicas de Brasília, por ele idealizadas, em contradição com a arrogância de algumas autoridades que se abrigam nos palácios que construiu, a exemplo do edifício do Tribunal Superior Eleitoral.

Edifício sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

O que devia ser um monumento à democracia, o edifício do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi transformado por alguns de seus ministros atuais em monumento à arrogância.

Alguns pequeníssimos ministros que trabalham no TSE, de baixa estatura democrática, mas que se arvoram donos do Brasil, são incompatíveis com a grandeza de Oscar Niemeyer.

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A fronteira entre o respeito e o direito de divergir

“Uma grande tarefa não se realiza com homens pequenos” (John Stuart Mill, filósofo britânico, 1806-1873)

Há um ditado antigo segundo o qual “quem foi rei sempre será majestade”.

Não estou aqui a pretender que a sociedade de hoje, por óbvio incluída a juventude, pense da mesma forma que este humílimo escrevinhador, o que seria despropositado.

Penitencio-me diante de minha insignificância, mas não abdico do dever de cidadão com vistas a contribuir para que o Brasil seja melhor no que concerne à convivência sadia entre todos.

Fui professor e, como tal, ainda carrego resquícios e manias das salas de aula. Ensinavam-se, além das disciplinas, formas de comportamento, de respeito e de convivência em sociedade.

Todavia, estarreço-me ao ver o nível de desrespeito com que pessoas, fanáticos inclusive, tratam o presidente da República e o ex-presidente Lula da Silva.

São apelidos escabrosos, acusações quase sempre vazias e outras disparidades mais, de modo que não há o mínimo de respeito tanto com o ex-presidente Lula da Silva quanto com o presidente Bolsonaro.

O desrespeito parece generalizado. As redes sociais são terrenos férteis para agressões, disseminação de imbecilidades e espancamento às boas regras de civilidade.

Um ex-presidente da República, qualquer que seja ele, independentemente de sua conduta reprovável e eventuais erros que tenha cometido, deve merecer o respeito de todos, em razão de ter exercido a chefia de Estado e de governo, colocado no poder de maneira democrática.

O presidente da República, no exercício de sua função, seja ele de esquerda, de direita ou de qualquer espectro político, é a autoridade superior da República e deve ser tratado com a urbanidade necessária.

Imagino o que nossa sociedade de hoje deixará como legado para seus descendentes, já que, como se vê, certamente não será educação e respeito.

Durante anos convivi em São Paulo com o ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992).

Ninguém me contou. Vi a forma respeitosa como todos o tratavam. Quando a ele nos dirigíamos, mesmo informalmente, sempre tínhamos o cuidado de chamá-lo Presidente. É a majestade e liturgia do cargo que exigem a deferência, o respeito, a urbanidade.

Deve haver uma fronteira entre o respeito e o direito de divergir.

Divergir, sim. Faltar com o respeito, nunca.

Nossas palavras também são limitadas por fronteiras que as colocam na adequação certa às elementares formas de educação.

Uma grande tarefa para nossos nobres professores, desde os mais tenros bancos escolares em todos os rincões até as universidades.

Estamos diante de uma sociedade desrespeitosa, alienada nalguns segmentos e totalmente despreparada para conviver com os antagonismos.

araujo-costa@uol.com.br

O juiz eleitoral e o outro nome da censura

Bahia, 1962. Eleições de outubro.

O fato é contado pelo jornalista Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara e uma espécie de “testemunha ocular da história” (A Nuvem – O que ficou do que passou, Geração Editorial, São Paulo, 2009).

O general Juracy Magalhães era governador e exercia poderosa influência sobre líderes municipais. Famoso tenente na década de 1930, integrante do movimento tenentista que derrubou o presidente Washington Luiz, habituado a mandar nos quartéis, Juracy também passou a mandar na Bahia. Era anticomunista roxo.

Na marcha das apurações em Santo Antonio de Jesus, recôncavo baiano, as urnas asseguravam expressiva votação ao jornalista Sebastião Nery, candidato a deputado estadual pelo Movimento Trabalhista Renovador (MTR), socialista convicto e inquieto ativista de esquerda.

O juiz eleitoral, subserviente ao governador, na hora de preencher o mapa da apuração, espantou-se com o resultado do candidato e perguntou ao membro da junta apuradora:

– Quantos votos para Sebastião Nery?

– 160, Doutor.

– Corta o zero. Bota no mapa só 16. O que o governador vai pensar de mim se este comunista ganhar em minha comarca?

E sumiu com 144 votos de Sebastião Nery.

Como se vê, havia juízes e juízes. Ainda hoje.

Em data recentíssima, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou excluir do Twitter um vídeo da produtora Brasil Paralelo com críticas ao ex-presidente Lula da Silva (PT), “por atribuírem ao candidato casos de corrupção que ocorreram durante seu mandato, como o do mensalão” (Folha de S.Paulo, 14/10/2022).

Os ministros do TSE fizeram uma interpretação contorcionista da realidade fática, coisa nunca vista e, mais do que isto, incompatível com a hermenêutica.

O exercício do Direito autoriza a concluir que a interpretação da lei exclui quaisquer elucubrações fora da lei. É outro o campo das conjecturas.

Entretanto, os ministros do TSE criaram uma figura de interpretação e deram o nome de “desordem informacional” que, segundo eles, significa o seguinte:

“Você junta várias informações verdadeiras, que ocorreram e aí traz uma conclusão falsa”, disse, com todas as letras Sua Excelência o presidente do TSE.

Pergunto: Se a informação é verdadeira como a conclusão baseada nela é falsa?

Ou seja: O TSE diz que a informação é verdadeira, mas não pode ser publicada para não prejudicar Lula da Silva.

Isto tem outro nome: censura. Só existiu nos piores anos de chumbo da ditadura militar e vale para Lula da Silva, Bolsonaro ou qualquer outro.

araujo-costa@uol.com.br

Maurízio Bim e esta desalinhada conversa.

Maurízio Bim e Dionária Bim/Perfil facebook de Maurízio

Felicitar amigos, parentes e aderentes em datas natalícias é uma demonstração de consideração e, mais do que isto, sinal de que os aniversariantes significam valiosa importância para quem os felicita.

Angustia-me, quase sempre, porque essas datas me passam despercebidas e isto não quer dizer falta de consideração, mas displicência e desorganização, embora as redes sociais hoje acabem socorrendo pessoas desatentas como eu.

Não costumo agendar datas de aniversários como fazem alguns amigos que tenho – o que é muito louvável – e que me pespegam a pecha de desleixado, com o que concordo e os aplaudo por me conhecerem bem.

Não chego a me adequar às conveniências das etiquetas sociais, embora faça um grande esforço para não arranhá-las, mormente nestes tempos hodiernos, quando qualquer palavra descontextualizada pode me deixar em maus lençóis.

Delongas à parte, quero deixar registrado minhas felicitações para Maurízio Bim que completou mais um ano de vida, graças a Deus e alegrou familiares e amigos.

Parabéns tardios, mas sérios, oportunos e eivados de muita consideração.

Já escrevi alhures – e até com certa frequência – algumas coisas sobre Maurízio Bim, curaçaense de boa cepa, jornalista, escritor, profissional de respeito em sua área, além de outras qualidades mais que ele as imprime em qualquer espaço que ocupa.

Numa dessas coisas que escrevi, cometi uma gafe monumental, que as regras de etiqueta não perdoam: errei o nome de Maurízio. Dislate que atribuo à falta de atenção ou de conhecimento mesmo, nada mais do que isto.

Cometo a imprudência de dizer-me seu amigo, embora ele seja um tanto jovem e eu septuagenário e vítima de minha memória esburacada e dos defeitos que o tropeçar da vida me permite carregar, mas considero de somenos.

Entretanto, no dia em que as amizades se restringirem ao redor da faixa etária de cada um, certamente o mundo estará perdido e elas serão mais raras. Já se escasseiam amizades duradouras, permanentes, sólidas.

De qualquer modo, deixo perolados parabéns ao aniversariante Maurízio Bim e lhe desejo saúde plena e muita disposição para seguir adiante em direção à robustez de seu sucesso, que já é grande.

E aproveito o balançar dessa conversa desalinhada para mandar, através do aniversariante, afetuoso abraço para minha dileta professora Dionária Ana Bim, mãe de Maurízio.

Sou admirador de ambos.

araujo-costa@uol.com.br

Amigo de bom caráter e respeito

Dircis de Souza Bom (Adilson) e o autor, 11/10/2022

Já se vão, por aí, mais de uma década. Este o interregno aproximado de nosso último encontro, não obstante ambos moradores de São Bernardo do Campo e vivermos aqui e acolá quase tropeçando no outro.

Manhã desta primavera atípica de 2022, recebo em meu escritório, com prazer que não consigo definir, a visita do amigo Dircis de Souza Bom, Adilson para os amigos e conhecidos, petista respeitado, natural de Medina, seco município do médio Jequitinhonha, nordeste das Minas Gerais, mas radicado em São Bernardo do Campo.

Adilson é um daqueles amigos de verdade, um dos poucos que tenho e consegui manter em São Paulo.

É irmão de Djalma de Souza Bom, também mineiro de Medina, idealista e petista de respeito, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT).

Djalma Bom foi tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (hoje Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), ninho e aconchego do petista-mor Lula da Silva, ativo e irrequieto participante das greves de 1978 e 1980 no ABC Paulista, em plena ditadura militar oriunda de 1964.

Djalma Bom foi deputado estadual por dois mandatos (1995-1999/1999-2003), deputado federal (1983-1987) e vice-prefeito da pujante São Bernardo do Campo (1989-1992).

Djalma de Souza Bom/Reprodução Wikipédia

Mas o assunto que me traz hoje aqui é Dircis de Souza Bom, sujeito de boas qualidades, correto, honesto e amigo de verdade. Ele já fez a façanha de, sem me conhecer – ainda não éramos amigos – socorrer-me em muitas dificuldades quando eu titubeava na cidade grande, quando os amigos ainda eram escassos.

Sou grato até hoje. Continuarei grato. Serei sempre grato.

Hoje, já na casa dos 77 anos, Adilson parece um jovem adolescente, inquieto, otimista, conversa fácil, estado de espírito acolhedor, sorriso sempre presente, olhar de esperança.

Visita surpreendente e inesquecível. Cutuca a certeza de que amigos são preciosidades.

araujo-costa@uol.com.br