Política de Chorrochó: Dorotheu Pacheco de Menezes e seu tempo

“Ser homem público é ser curioso com a vida, catucar a história e conspirar para mudar o tempo” (Armando Falcão, político cearense, ministro da Justiça dos presidentes Juscelino Kubitscheck e Ernesto Geisel, 1919-2010).

Aqui me tenho, novamente, a falar de fatos, impressões e ideias sobre Chorrochó.

Em setembro comemora-se o aniversário de emancipação político-administrativa do município.

Trata-se de um septuagenário trôpego e corroído pelo descaso de seus governantes.

Impressiona negativamente as imagens dos equipamentos públicos e das estradas, dentre outras. É gritante a não preservação da história do município. A mesmice política campeia, abunda, ultrapassa a razoabilidade da dinâmica democrática.

Dorotheu Pacheco de Menezes/Arquivo Maria do Socorro Menezes Ribeiro

Em 12/09/1954, deu-se a instalação dos serviços públicos municipais e Eloy Pacheco de Menezes, uma das vozes do movimento de emancipação, foi investido nas funções de gestor provisório. Em outubro realizaram-se eleições.

Estávamos no governo de Luís Régis Pacheco Pereira, que tinha como um de seus secretários de Estado um jovem de 24 anos: Francisco Waldir Pires de Souza. Ambos foram fundadores do Partido Social Democrático (PSD) da Bahia.

A primeira composição da Câmara Municipal de Chorrochó ficou assim constituída, salvo engano, erros e omissões: Maria Joselita de Menezes, Ercilina Soares de Almeida, Walter Augusto Jones, Onofre José Possidônio, Eliseu Bispo Damasceno, Emiliano Soares Fonseca, Antonio Pires de Menezes e José Campos de Menezes.  

Meu plantão de lembranças remete-me ao maior responsável por esta conquista: Dorotheu Pacheco de Menezes, que sustentou a ideia do pai Francisco Pacheco de Menezes e a levou adiante.

Grande líder do seu tempo, incansável batalhador, Dorotheu não se prendeu somente à luta pela emancipação. Dedicou-se, diuturnamente, ao seu povo e à causa de Chorrochó, antes e depois da emancipação.

Dorotheu costumava dizer: “Chorrochó não é meu, é do povo”. Quem hoje, com o poder na mão, tem a humildade de dizer isto?

Dorotheu Pacheco de Menezes foi prefeito de Chorrochó em duas ocasiões (1959-1963/1966-1971).

Difícil para este escrevinhador falar sobre a vida de Dorotheu, porque sempre fui seu admirador, o que não respinga em generosidade ao retratar sua atuação política.

Quiçá seja mais fácil fazê-lo somente relativamente ao líder político de qualidades inumeráveis: humilde, honesto, dedicado, vigilante, convicto de suas posições e contemporizador, dentre muitas. E, sobretudo, essencialmente defensor de sua gente. 

Transigente e altivo, Dorotheu enquanto podia, nunca deixou Chorrochó cair no abismo. Era capaz de direcionar os caminhos, antever o que o povo queria e, mais do que isto, entendia de povo.

Para o político e administrador público o fundamental é entender de povo e não de si próprio. Dorotheu fazia isto com maestria.

Hoje vejo Chorrochó equilibrando-se, politicamente, para não frequentar o noticiário como um município mal administrado, envolto em deslizes, injustificadamente paupérrimo e, mais do que isto, negligente quanto ao seu futuro.

Faltou altruísmo aos seus administradores mais recentes, falta vontade política de colocá-lo nos trilhos do desenvolvimento, vontade essa sustentada nos recursos disponíveis que, convenhamos, em Chorrochó não são poucos.

Há uma frase do presidente Juscelino Kubitscheck, essencial e exemplar: “O bom administrador não deve buscar recursos nos cofres públicos, mas em sua própria cabeça”.

É a definição de prioridades, a adequação do dinheiro público às necessidades mais prementes da população, a vigilância diuturna no que tange aos gritos sociais e dos desamparados.

Pergunto, então: é este o município de Chorrochó que Dorotheu Pacheco de Menezes, Eloy Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra, Antonio Pires de Menezes, Pascoal de Almeida Lima e tantos outros queriam para seus munícipes?

Não, evidentemente.

Também não é este o Chorrochó que seu povo deseja, presumo. E muito menos, o alicerce que os jovens de hoje querem para a construção do seu futuro.

A crítica não é restrita à administração atual, que bem ou mal está aí por vontade das urnas, mas soma-se a todas as outras que a antecederam, mesmo que sustentadas pelos mesmos líderes.

Há algum tempo um chorrochoense me mandou e-mail chamando-me de saudosista.

Democraticamente, aceitei seu ponto de vista, porque quem escreve tem de aceitar as críticas, penitenciar-se diante delas. Ele estava certo, está certo, mas laborou num equívoco: falar de história e de nossos antepassados não significa tão somente saudosismo, mas tentativa de sedimentar valores.

Tenho saudade das coisas boas, dos sonhos, da esperança.

Aliás, isto até me honra, porque significa o reconhecimento de que não abdiquei de minhas raízes caatingueiras. Todavia, prefiro ser saudosista a aceitar Chorrochó definhando pacientemente.  

Minha geração fracassou. Mais do que isto, acomodou-se. Confesso que vejo a forma de fazer política hoje diferente daqueloutra que sonhava na juventude.

Considerando tudo que a União Federal e Estado asseguram aos municípios nos dias de hoje, não me omito em dizer que Chorrochó está aquém da posição que merece.

Pelo andar da carruagem, nas eleições de outubro de 2024 ter-se-á, a rigor, candidato único na disputa pela chefia do Executivo Municipal. Longe de representar unanimidade política, isto beira à subserviência aos atuais líderes ou, por outra, o retrato da falta de novas lideranças, o que é ruim para um município de 70 anos.  

Entretanto, isto significa também – e principalmente – a capacidade de cerzidura estratégica do prefeito Humberto Gomes Ramos e a fragilidade da pálida Oposição no município.

Trata-se de um desabafo de quem deseja um município melhor para as novas gerações. Minha geração não logrou êxito. Fracassou. Mais do que isto: frustrou-se.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, Arnóbio comandava a decência e a civilidade

Francisco Arnóbio de Menezes/Foto do perfil de sua filha Rosângela Maria de Menezes (facebook)

Francisco Arnóbio de Menezes, filho de Bernardina de Menezes Mattos e João da Matta Cardoso Varjão (João Mattos), comandava, em Chorrochó, uma espécie de escola da amizade e da decência.

Socialmente querido e respeitado, Arnóbio compatibilizava, com eficiência, o exercício da respeitável profissão, o cuidado e zelo com a família, a boemia e também as amizades, que eram muitas, incontáveis.

Músico e admirador de Vicente Celestino, Arnóbio participava ativamente da vida social de Chorrochó. Muito inteligente e espirituoso, tinha uma capacidade impressionante de conviver em sociedade.   

Dono de uma apreensão fulminante, carregava com facilidade a capacidade de ouvir e entender todos, com absoluta compreensão e respeito, de modo que transitava soberanamente em meio às correntes políticas e sociais de Chorrochó. Uma de suas grandes qualidades era a humildade.

Sempre elegante, cabelos cuidadosamente penteados, postura de decência e respeitabilidade.

Arnóbio se casou com Maria Menezes (Pina), filha de D. Maria Argentina de Menezes e do conspícuo Eloy Pacheco de Menezes, ícone da honradez, da história e da luta política de Chorrochó.

Arnóbio constituiu família exemplar e numerosa. Atrevo-me a citar os nomes dos seus dez filhos: Geraldo José de Menezes, Antonio Wilson de Menezes, Tarcísio Roberto de Menezes, Rita Maria de Menezes Maia, Francisco Arnóbio de Menezes Filho, Luiz Alberto de Menezes, João Eloy de Menezes, Paulo Ernani de Menezes, Cícero Leonardo de Menezes e Rosângela Maria de Menezes.

Entretanto, devo pedir vênia por eventuais omissões e incorreções, o que, de certa forma, faz parte da memória esburacada, em razão da passagem do tempo. Não se pode esperar coisa melhor de um septuagenário fragilizado pelo tempo e metido a arquivar lembranças, inobstante a idade.

Com família bem estruturada e sustentada no respeito e na educação, Arnóbio deixou um legado de caráter irrepreensível e exemplo de profissional voltado à decência e ao mais sólido esteio familiar.

Já escrevi alhures e noutras ocasiões sobre Arnóbio. Em todas elas, as lembranças cutucam, estremecem as estruturas das emoções, mas me dão a certeza de que valeu a pena tê-lo conhecido.   

Neste particular, carrego a honra de ter convivido com Arnóbio por algum tempo. Guardo dele boas lembranças que me acompanham ao longo do meu caminho de luta e tropeços.

Este é um registro de saudade que me faz bem e me dá a medida certa do significado de conviver com pessoas boas, corretas, irrepreensíveis.

araujo-costa@uol.com.br          

Crítica: fatos, jornalismo e contorcionismo ideológico.

Há uma regra básica no jornalismo, segundo a qual, quando se reporta a um fato, não se deve interferir nele.

Outra regra, essa mais flexível, diz que uma foto pode confirmar ou desmentir o repórter.

No vespertino Estúdio i e nos noturnos Em Pauta e Jornal das 10, a GloboNews vem quebrando sistematicamente essas regras.

Por óbvio, uma coisa é comentar um fato. Outra é distorcê-lo de tal forma a ajustá-lo à vontade e ao pensamento da emissora que emprega apresentadores e comentaristas. São situações completamente diferentes.

Quem pretende inteirar-se sobre fatos do Brasil real, ao assistir esses noticiários citados, deve-se prevenir com remédio contra enjoo, aguçar a capacidade de discernimento e filtrar os contornos de ficção que esses programas tentam transformar os fatos e, ao seu modo, enfiá-los goela abaixo do telespectador.

É constrangedor ver apresentadores e comentaristas engasgando-se com as palavras, fazendo contorcionismo ideológico e verbal para mostrar os fatos consoante o pensamento do Grupo Globo e não fielmente de acordo com o ocorrido no mundo real.

O teleprompter (teleponto) é como papel, aceita tudo. Os editores daqueles noticiários inserem neles notícias tendenciosas que os apresentadores pateticamente leem e os comentaristas pateticamente comentam.

Isto mutila o bom jornalismo, apequena a credibilidade do órgão de imprensa, arranha o exercício profissional e, sobretudo, desmerece e afronta a inteligência de quem assiste.

É ilógico admitir que o Brasil não tenha uma notícia boa, sequer um fato positivo, econômico, social ou político, que a GloboNews vislumbre e seja capaz de afastá-la da pequenez político-partidária do período eleitoral.

É triste ver reconhecidos jornalistas, antes respeitáveis, abdicando da seriedade profissional certamente para agarrar-se ao emprego. Desnudam-se da robustez da verdade em nome de um objetivo menor, o interesse econômico da emissora.

Os leitores deste Blog, que são inteligentes, não são ingênuos a ponto de acreditar que nalgum tempo o jornalismo foi diferente. Não foi, nunca foi. Mas daí a descambar para a panfletagem política é demais.   

O Brasil não é o governo, nem se resume a governo algum. Tampouco será este ou aquele governo. Não é o presidente Bolsonaro, não é o ex-presidente Lula da Silva, não será outro.

O presidente Bolsonaro não é bicho de sete cabeças e está atravessando a fase final desse período de quatro anos de turbulento governo. O Brasil não acabou.

O ex-presidente Lula da Silva não é bicho de sete cabeças e foi presidente da República por dois mandatos. O Brasil não acabou.

O Brasil é a nação em si e os princípios democráticos que o norteiam. É o Estado federado que é maior do que qualquer órgão de imprensa tendencioso e adstrito a interesses econômicos.

Esse tipo de jornalismo capenga não é privilégio do Grupo Globo. Outros grandes órgãos de imprensa também o praticam acintosamente, sem nenhum pudor e sem respeito à inteligência de quem lê e assiste.

Mas a GloboNews conseguiu atingir o ridículo.

O Brasil já teve melhor jornalismo. Felizmente.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, tempo de contar: Maria Ita de Menezes

Maria Ita de Menezes/Foto de seu perfil no facebook

“Há tempo de amar e tempo de amar o que se amou.” (Marques Rebelo, escritor e jornalista fluminense, 1907-1973).

Começo pela descendência: Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James George Cordeiro de Menezes.

A descendência é a continuidade da vida, o bálsamo para perfumar o caminho, às vezes árduo, às vezes espinhoso e a doçura que facilita o enfrentamento dos tropeços ao longo do caminhar.

Assim é o escrever da vida. Assim são as surpresas e assim é o imponderável da construção familiar.

Essa descendência de Maria Ita de Menezes e de José Jazon de Menezes está aí para contar a história mais à frente, anos adiante, porque nos dias de hoje contamos nós, os mais antigos, os que chegamos primeiro no tecer da vida. E certamente contarão competentemente, eficientemente.

Incluo a descendência neste andar, porque são os filhos que, em princípio, sustentarão a robustez das raízes de Ita e Jazon. São raízes fortes, seguras, firmes. Os alicerces foram bem estruturados, a construção moral segura e perene.

Meu primeiro contato com Maria Ita de Menezes deu-se em consequência de minha matrícula no então Colégio Normal São José, de Chorrochó.

Estávamos lá nos idos de 1971. Ela era professora de Geografia. Cabe um salvo engano aqui, por conta de um detalhe: em razão da ausência de estrutura do colégio, alguns professores ministravam mais de uma disciplina, o que de certa forma aproximava alunos e professores.

Contraditoriamente, a precariedade das condições de ensino à época e, neste caso, foi saudável para agigantar a qualidade dos mestres que tivemos no Colégio São José. Maria Ita de Menezes incluiu-se dignamente na história da educação de Chorrochó.

A instituição familiar representada pelos Menezes de Chorrochó é, até hoje, uma universidade de bons exemplos e de contribuição para o engrandecimento do lugar.

Convivi com essa família, numa quadra do tempo. Daí e dessa convivência, guardaram-se a amizade e algumas lembranças que me alegram até hoje, nos momentos de solidão. São muitos e frequentes esses momentos, porque a passagem do tempo nos fragiliza e a saudade faz constantes e inesperadas visitas.

Maria Ita de Menezes vem de uma família exemplar de Chorrochó. Exemplar, em razão do caráter e em razão da história de vida que ostenta, na sociedade local: o pai, Antonio Pacheco de Menezes; a mãe, Maria Argentina de Menezes; e os irmãos Maria de Lourdes Menezes Araujo, Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Joselita de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Antonio Pacheco de Menezes Filho, Maria Agripina de Menezes, José Osório de Menezes e Maria Eugênica de Menezes.

Penitencio-me se, por conta de minha esburacada memória, omiti ou grafei alguns nomes com incorreção, tanto dos filhos quanto dos pais e irmãos de Maria Ita de Menezes.

Contudo, o que importa aqui, neste tempo de contar, é o registro que faço sobre a importância que Maria Ita de Menezes representa na vida de grande parte da sociedade local, enquanto professora e, até em certos momentos, orientadora paciente e atenciosa.

Ao caminhar, o cronista quase sempre se perde e se acha. No seguir da vida e na passagem do tempo aparecem-lhe as lembranças, a saudade, as marcas dos tropeços, a reverência às amizades que lhe são caras.  Surge “o tempo de amar o que se amou”. É difícil não continuar amando Chorrochó daquele tempo e de hoje.

Quando jovem precisamos de orientação, de conselhos, de amparo. A opinião dos mais experientes nos dá o prumo, o rumo, o norte. Eu precisei muito disto.

Em 31/01/2013 escrevi uma crônica sobre José Jazon de Menezes sob o título A lâmina do tempo. Lá eu dizia que Jazon constituiu família nobre em Chorrochó o que, de resto, todos sabem.

Hoje acrescento tão-somente que esta nobreza familiar tem um significado inegável para a história local: a robusta participação de Maria Ita de Menezes, educadora e ícone da sociedade chorrochoense.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum

Este texto foi publicado pela primeira vez em 26/07/2018.

Em 2025, na festa de Senhor do Bonfim de Chorrochó, D. Ita está sendo homenageada, por iniciativa do setor de Cultura do Município.

Em Patamuté, um retrato da humildade

As grandes e nobres amizades são desprovidas de interesse. Qualquer interesse.

O verdadeiro caminho que nos leva aos muitos sentidos da vida não passa pela indiferença, tampouco pela arrogância. Desvia-se das incompreensões.

“A gente pode ter orgulho de ser humilde”, dizia D. Hélder Câmara. Talvez a forma mais nobre de descer do pedestal e entender o outro que está no chão seja a humildade.

Aníbal Ferreira Barros viveu em Patamuté e lá se transformou numa espécie de símbolo da humildade e da decência.

Aníbal se dedicava ao seu trabalho humilde e à sua decência. Presumo que falta em seu túmulo um epitáfio que reconheça a essencialidade de sua contribuição a Patamuté.

Este é um pequeno registro e exemplo de como a riqueza não pode ser razão e fundamento de tudo, como pensam alguns. Os humildes também são importantes, necessários uns, indispensáveis outros, essenciais outros tantos.

Aníbal prezava todos, era amigo de todos e incapaz de pronunciar uma palavra de desagrado. Gostava dos adultos, gostava dos jovens, gostava das crianças, gostava de Patamuté.

E de vez em quando Aníbal tomava umas canjebrinas para desanuviar as dificuldades, que eram muitas, incontornáveis.

Aníbal tinha duas pessoas em Patamuté em alta consideração. Incontáveis vezes ia chorar diante delas: Raquel do Carmo Paixão e seu esposo Antonio Ferreira Dantas Paixão. Aníbal os obedecia. Em sinal de respeito, pedia-lhes a bênção.

Aníbal chorava para aliviar seu sofrimento. O choro era o bálsamo para amenizar as dores da humildade, o sândalo que perfumava seu viver difícil.

Tenho saudade dele.  

araujo-costa@uol.com.br

Thamara Annelise: aniversário e saudade

Algumas datas me têm sido e continuarão muito importantes.

São aquelas que somaram, acrescentaram algo em meu ser, trouxeram complemento à minha vida, nelas incluídas as datas de nascimento de minhas três filhas.

Neste inverno de 2022, dia 02 de agosto, deu-se o aniversário de Thamara Annelise Faria de Araújo Costa, uma das queridas dádivas que Deus me deu.

Thamara tem feito algumas agradáveis façanhas na vida. Uma delas foi estruturar-se profissionalmente e, agora, me traz mais uma razão de alegria: seu filho Vicente, que está a caminho deste mundo de incertezas e brevemente virá completar meus momentos de contentamento e êxtase.

Já estou sonhando, conjecturando momentos, preparando-me para as emoções da chegada. Mais do que isto: da convivência.

Vicente é meu primeiro neto que, nesses 70 anos, presumo que já estou merecendo.   

Oscar Wilde cunhou uma frase que se mantém verdadeira desde o século XIX: “Sonhador é aquele que percebe a aurora antes dos outros”.

Thamara é assim. Percebeu, muito cedo, o caminho, a aurora, a necessidade de realizar seus sonhos. Orgulho-me disto e dela.

Não se trata de deleite de pai amoroso, mas de orgulho mesmo, que descamba para a honra de tê-la como filha.

Thamara cresceu sozinha com sua inteligência, seu charme e sua conduta de seriedade e luta. Tem caráter impressionantemente admirável, convivência meiga e sorriso encantador.  

Outra façanha de Thamara foi sair de São Paulo e ir buscar um gaúcho de Marau, lá das bandas de Passo Fundo, para ser seu esposo.

A distância me assustou, de início – e hoje a saudade me massacra – mas honra-me ter constatado que seu esposo Otávio é decente, correto, amigo, atencioso e, sobretudo, está formando um lar de aconchego e ternura.

Em resumo: quero lembrar o aniversário de Thamara em 02.08.2022 e deixar registrado que lhe desejo um mundo de felicidade e disposição para a luta em busca de novos horizontes.   

Além de Otávio, Thamara terá Vicente como companheiro do dia a dia, que lhe trará muita alegria e sentido mais robusto para sua vida, se Deus quiser.

James Taylor diz que “o sentido da vida é desfrutar a passagem do tempo”. Thamara tem sabido fazer isto muito bem.

Passagem difícil, não é Thamara?

Que Deus dê a Thamara tudo aquilo que eu sonhei para ela desde sua fragilidade de criança, mas não tive condições de lhe dar. Ela conseguiu, ou pelo menos, está conseguindo.

Parabéns, Thamara.

Que as luzes do mundo iluminem seu caminho em direção à felicidade e que tenha força para superar os tropeços naturais do caminhar e lhe dê sustentáculos para enfrentar a escuridão dos possíveis e eventuais dias difíceis.

araujo-costa@uol.com.br

Livros

“Livro é como banana na feira. Se o feirante não anuncia, o freguês não compra”. (Sebastião Nery)

Em 1987, quando lancei Fragmentos do Cotidiano que, modéstia à parte, foi bem recebido, escusei-me a publicar qualquer notícia sobre o lançamento, de modo que até amigos próximos somente tiveram conhecimento meses depois, o que, convenhamos, faz parte de minhas esquisitices.
Já se vão, por aí, 35 anos.
Há muito no forno da memória, uma espécie de prelo mutável, pretendo publicar ano que vem, se vivo for, Diálogo dos Sinos – artigos, crônicas, observações.
Demorei fazê-lo. Hoje, mais maduro (ou seria mais velho?), um tanto capaz de discernir as coisas, acho que será o momento de deixar algum registro mais completo, um cenário de minhas andanças, de meus tropeços e de minhas maluquices.
O jornalista Sebastião Nery, que entende tudo que é possível entender de livros, cunhou a frase segunda a qual “livro é como banana na feira. Se o feirante não anuncia, o freguês não compra”.
Então, na ocasião própria, deverei anunciar o lançamento, não com o intuito de vender alguns e poucos exemplares, propriamente, mas para que amigos leitores e leitores amigos tenham conhecimento e, se quiserem, leiam. Pode ser que alguns raros abdiquem de um pouco de tempo, lendo-o e criticando.
Não recomendo meus escritos. Nunca o fiz. Acho-os às vezes confusos, outras, incompletos. Embora assim, alegro-me em saber que muitos gostam de ler o que escrevo. Alguns já disseram que me falta estilo. Sei disto.

Sou um caso perdido. Talvez o único escrevinhador que não recomenda a leitura do que escreve. Escrevo para dialogar com a minha alma e não por diletantismo ou vaidade. E isto me tem feito bem.
Há muito venho torcendo que algum dia apareça um prefeito em meu município baiano de Curaçá, que goste de valorizar a cultura e se dê à grandeza de construir uma biblioteca pública em Patamuté e também nos outros distritos, se ainda não tiverem.
Em Patamuté e em particular, tenho interesse nisto. Depois explico porquê.
Até sugiro o nome: Biblioteca Professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes.
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Curaçá, 1974: Colégio Municipal Professor Ivo Braga

Casarão de Curaçá/Foto Gardênia Torres (perfil facebook)

Os professores:

Dr. Pompílio Possídio Coelho, Dr. Jaime Alves de Carvalho, Terezinha Conduru de Almeida, Excelda Nascimento Santos, Noêmia de Almeida Lima, Maria Auxiliadora Lima Belfort, Dionária Bim, Lenir da Silva Possídio, Herval Francisco Félix.

Os alunos:

Arivan Evangelista Alves, Elias Pereira Jordão, Eliene Monteiro, Elzi Monteiro Barbosa, Elzeneide Monteiro Barbosa, Suely Maciel de Souza, Tereza Cristina Gomes Miranda, Wilson José Soares Ferreira, David José Ferreira Só, Ivonete Alves Costa, Izabel Cristina, Eliomar Monteiro Costa, Maria de Fátima Araújo, Maridalva Nunes Guimarães, Eloísio Gomes de Miranda, João Pereira Rego, Alice Pereira Rego, Regina Lúcia Xavier, Walter Araújo Costa.

Antes de instalar-se na atual sede, o Colégio Municipal Professor Ivo Braga funcionou provisoriamente em outros imóveis. Lá, enquanto alunos, deixamos fincadas uma parte de nossas raízes.

O resto é saudade.

araujo-costa@uol.com.br

Política, mentiras, maldades e invenções

Sempre fui intransigente no que diz respeito à intromissão em assuntos pessoais.

Quero dizer, a privacidade do indivíduo é um bem inviolável e protegido por disposição constitucional. Ninguém tem o direito de escarafunchá-la. Isto vale pra todos, sem exceção.

Todavia, de quando em vez aparecem supostos pesquisadores, curiosos, bisbilhoteiros, fofoqueiros e outras figuras mais, todos ávidos para saber detalhes da vida dos outros.

O passado nada mais é do que a soma de muitos e constantes agoras e, neste contexto, há pessoas que se interessam em saber como éramos no passado, como somos hoje e até o que pretendemos ser no futuro. Sempre com uma pitada de maldade.

Tirante a maldade, nada há de estranho nisto. O diabo é acrescentar o sórdido, o asqueroso, a torpeza.

Levanto cedo, porque comumente passo todas as madrugadas acordado, conversando com a insônia. Chego cedo ao meu local de trabalho, chova ou faça sol.

O repórter também chegou cedo, conforme combinado. Queria saber o significado de uma frase que eu teria dito: “noventa por cento do que escrevo é mentira. Só dez por cento é invenção”.

Deixei-o desapontado de pronto. Disse-lhe que a frase não é minha, nunca foi minha e jamais será minha.

A frase é do poeta matogrossense Manoel de Barros e, conhecidíssima, consta em todas as publicações que falam da vida do escritor.

Devo tê-la citada nalgum lugar, embora contextualizada, sem nenhuma intenção de arranhar a autoria.

O repórter insistiu, questionou, titubeou: “mas você disse esta frase há pouco tempo, que eu sei, li, achei interessante”.

E daí? Ponderei que, se disse, foi tão-somente a título de citação, com o cuidado de declinar o nome do autor e se escrevi, o que também não lembro, tive igual cuidado de colocá-la entre aspas.

As citações são naturais, comuns, permitidas, desde que creditadas aos seus autores.  É a técnica, é a regra, é a ética.

O repórter pretendia colocar uma cilada em meu caminho, espalhando-a no ventilador da irresponsabilidade.

Ele sabia que a frase não é minha, mas, talvez por falta do que fazer, mente vazia, talvez, queria publicar alguma matéria confusa, sabe-se lá onde, no mínimo polêmica, problemática, altamente discutível, fora do contexto necessário.

Não foi desta vez, entretanto. Nem será noutra.

O escritor Jorge Amado contava que quando Sônia Braga foi escolhida para viver a personagem Gabriela na televisão, foi-lhe apresentada na casa do Rio Vermelho, em Salvador. Ele não a conhecia, nunca tinha visto e, portanto, a escolha não tinha sido dele, mas dos responsáveis pela novela.

Reunidos todos, antes de Sonia Braga chegar, um repórter de São Paulo presente à reunião, maliciosamente portando uma revista na qual a atriz tinha posado, perguntou, maldoso: “por que você escolheu Sônia Braga?”.

Esperto, Jorge Amado percebeu a malandragem: “escolhi porque ela é minha amante”.

Instantes depois, a atriz chegava e Jorge foi logo dizendo: “muito prazer Sônia, somos amantes. Sabia?”  

As maldades andam por aí, em tudo quanto é lugar. O que dá audiência em televisão, redes sociais, mídia em geral e permite venda de jornais é a vida privada dos outros, suas fraquezas, inclusive.

Então, a privacidade das pessoas muitas vezes é invadida, acintosa e desnecessariamente, extraindo dela o combustível para o sensacionalismo.

Até hoje não sei como alguém pode deliciar-se da miséria dos outros.

Chega a ser sádico valer-se de falhas, deslizes e até de fatos casuais, involuntários ou não, na vida de uma pessoa, para escancará-la diante de todos.

Em política e campanhas eleitorais, o negócio é escabroso. As redes sociais estão inundadas de comentários baseados em notícias truncadas, inventadas e distorcidas, de modo que apoiadores de um candidato querem sempre denegrir a imagem do adversário, encontrar picuinhas, jogar poeira no caminhar do outro.

O inverso é absolutamente verdadeiro.

O trilho por onde passa a condução da ética está avariado. Precisa de cuidados, de consertos.

Voltando ao repórter, educadamente convidei a raspar-se.

E ele educadamente raspou-se.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, uma autobiografia de 103 anos

“É agradável quando eu chego em um lugar e as pessoas percebem minha presença. Do mesmo modo, é bom quando eu saio e percebem que eu saí”. (Luizinho, Autobiografia)

Recebo, com a alegria e subida honra, o convite para o lançamento do livro Autobiografia – Luiz Lopes Filho, que acontecerá em Curaçá, em 23/07/2022.

A honrosa deferência me foi feita pelo conspícuo filho do autor, Salvador Lopes Gonsalves, ex-prefeito de Curaçá.

Salvador Lopes informa, nas redes sociais, que o lançamento do livro dar-se-á “ao vivo e online, às 15h, do dia 23/07/2022” e dá instruções de como participar do histórico evento.

O autor – todos sabemos – é esteio e glória de Curaçá, por inúmeras razões. Ficaria aqui enumerando-as por muito tempo, tantas essas razões e tantos os caminhos por ele percorridos. Entretanto, a nobreza do ilustre curaçaense por si só dispensa salamaleques desnecessários e, ademais, não tenho preparo para tanto.

Trata-se de um século de história e isto já diz tudo. O homem tem história, sabe o que diz e como diz e sabe lutar com as palavras.

O prefácio é da lavra de Aruanda Naiá Suzuki Lopes da Cunha Teixeira – neta do autor – e o lançamento dá-se pela Editora Autografia.

A autobiografia de Luizinho enriquece, sobremaneira, a história de Curaçá.

A propósito, cito o texto a seguir – “desmantelo do mundo” –  do sociólogo Esmeraldo Lopes, filho de Luizinho:

‘Luizinho é um desses sujeitos que gosta de palestrar, mas às vezes se põe na posição de escutador. E quando está assim, fica ali no silêncio, enrosca as mãos no corpo, cochila, acorda, cochila… Entre todos os assuntos, o que mais lhe atrai são as mudanças do mundo. Ele sempre afirma que o mundo não tem mais jeito, que nada mais lhe surpreende, que está tudo desmantelado. Mas outro dia ele estava como escutador e chegou um seu camarada e veio contando: “Rapaz, não sei se vocês já ouviram dizer, mas a mulher do finado… tá de homem”. Luizinho, que estava cochilando, levantou a cabeça na rapidez de um piscar e bradou: “Já vi que passou o planeta. Só escapa quem voa!”

O fato é que, na condição de curaçaense, estou contente e até sugiro a fundação de um instituto de letras em Curaçá e nele se coloque o nome de Luiz Lopes Filho, de modo que se possa perpetuar a sapiência, os conhecimentos e a história de Luizinho.

araujo-costa@uol.com.br