Dois gigantes da cultura nordestina: à esquerda, Gilberto Bahia (Curaçá-BA); à direita, padre João Câncio (Petrolina-PE). Créditos no texto.
Iam-se-me brotando lembranças de minha sanfranciscana e querida Curaçá, quando me deparo com uma enriquecedora matéria da lavra do jornalista e escritor curaçaense Maurízio Bim, com o título questionador Curaçá realmente é a capital dos Vaqueiros?
Maurízio faz um apanhado histórico – coisa que sabe fazer muito bem – da Festa dos Vaqueiros da pernambucana Serrita, comparando-a com alguns pontos de nossa septuagenária Festa dos Vaqueiros de Curaçá, criada pelo ínclito Gilberto da Silveira Bahia, à época prefeito do município baiano no período de 1959-1963.
Bem estruturada, não há o que acrescentar à brilhante matéria do jornalista curaçaense, nem tenho propósito e conhecimento para isto e, evidentemente, não é o caso.
O artigo é completo, rico, irretocável e deverá, doravante, fazer parte do acervo da Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá.
Limito-me a borboletear lembranças do padre João Câncio dos Santos (1936-1989), criador e protagonista da Missa dos Vaqueiros de Serrita que, anos mais tarde, foi meu contemporâneo na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, em São Paulo.
A foto dele que faço constar neste artigo é de nosso álbum de formatura em Direito.
Quanto à foto histórica de Gilberto Bahia, surrupiei-a da página (facebook) do conspícuo vereador e seu neto Rogério Bahia, de Curaçá, que muito admiro.
Petrolinense de mente brilhante e orador culto, discípulo de D. Avelar Brandão Vilela, que o ordenou padre, João Câncio era admirável. Guardo memoráveis lições de suas conversas embasadas em Filosofia, que aprendeu no Seminário Central da Bahia e em Teologia, que se abeberou no Seminário Regional de João Pessoa, na Paraíba.
Quando o conheci, padre João Câncio já havia deixado o ministério sacerdotal para casar-se. Se não me falha a memória, a última missa que celebrou foi em Bodocó-PE, em março de 1981. Ele foi pároco de lá.
A Diocese de Petrolina deu-lhe o esteio e a luz para clarear seu caminho de sacerdote.
O padre João Câncio tinha humildade impressionante, mas não abdicava de sua inquietude intelectual, o que não é incompatível.
A vida nos permite alguns encontros, uns insólitos, outros fortuitos e passageiros, outros tantos valiosos, mas todos acrescentam experiência e capacidade de reflexão.
Voltando ao artigo de Maurízio Bim, classifico-o como muito oportuno, tendo em vista hipotética disputa quanto ao título de capital dos Vaqueiros: Curaçá ou Serrita.
O mérito de Curaçá é ter Gilberto Bahia como filho, honra e glória do lugar e idealizador da Festa dos Vaqueiros, ajudado por outros abnegados curaçaenses .
O alargar do círculo dessa cultura cabe a todos nós curaçaenses.
Sandoval Caju (1923-1994), folclórico radialista paraibano de Bonito de Santa Fé, sempre vestido de branco, ao chegar a qualquer lugar, ia logo dizendo:
– Vim de branco para ser claro.
Estou começando este artigo pelo óbvio, para ser claro: nas democracias, os governantes são escolhidos pelos votos da maioria. Quem ganha vai governar. Quem perde vai para outra trincheira, não menos nobre, a oposição.
A população do Brasil ultrapassa 212 milhões de habitantes. Todos sabem.
Inobstante população deste tamanho, o Brasil experimenta um vazio de lideranças políticas em todas as esferas de poder.
Não têm surgido lideranças novas, sérias, capazes e de caráter irrepreensível, de modo que as velhas lideranças estão aí, incólumes, ultrapassadas e capengas, repetindo os mesmos erros de outrora e, pior, com o beneplácito de grande parte dos brasileiros. Talvez, por falta de opção ou mesmo por isto.
É assustadora a expectativa de que a eleição presidencial de 2022 venha a ser decidida entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, que se igualam quanto à ausência de sinceridade política.
Lula é demagogo, narcisista, loroteiro, fanfarrão.
Bolsonaro é grotesco, esquisito, sem filtro, ideias amalucadas.
Um e outro estão na política há pelo menos três décadas. Onde está o novo? Onde estão as novas ideias?
A sociedade não encontrou outros nomes para que se interpusessem entre um e outro e fossem capazes de afastar o entulho fedorento da política, que vem ocupando espaços do território brasileiro, em todos os seus rincões.
Em Curaçá, no Submédio São Francisco, parece que o bicho chamado democracia não anda passando por lá.
Democracia pressupõe, basicamente, convivência sadia e civilizada com os contrários e livre manifestação do pensamento em sua plenitude.
Nas democracias, as pessoas são livres para externar o que pensam, sem impedimento ou censura de qualquer natureza.
A fronteira para nossas palavras é o direito do outro. Devemos dizer o que pensamos desde que não resvalemos para a ofensa à esfera indevassável das outras pessoas que, como nós, convivem ou pretendem conviver no mesmo espaço supostamente democrático.
Se esse limite for ultrapassado, a democracia oferece meios de reparação de eventuais danos materiais e/ou morais exigida por quem sofreu a ofensa. É uma forma de proteção ao direito de cada um.
A Constituição da República assegura esse direito a todos nós. Ao Poder Judiciário cabe aplicá-lo às situações concretas e, neste particular, o Judiciário tem feito muito bem.
Embora não conste na agenda do presidente da República, por enquanto, o prefeito de Curaçá já anunciou a visita de Bolsonaro a Curaçá em julho vindouro, por ocasião da Festa dos Vaqueiros.
A manifestação do prefeito autoriza a entender que a visita está confirmada com o Palácio do Planalto.
Foi só o prefeito anunciar a visita do presidente da República ao município para surgirem, nas redes sociais, comentários desairosos e desnecessários contra o presidente da República.
São comentários que extrapolam a decência do debate político e descambam para as ofensas pessoais, pré-julgamentos e xingamentos.
Assim fizeram com Lula da Silva, nos difíceis dias que ele atravessou inclusive no cárcere, massacre este comandado pela imprensa e pelos adversários do lulopetismo.
Independentemente de a visita ser de Bolsonaro ou de Lula da Silva, ambos devem ser respeitados, bem recebidos e, mais do que isto, a visita deve ser entendida como um marco político para Curaçá, mesmo que não seja inauguração de obras, assinaturas de intenções, promessas de liberação de verbas, expectativa de investimentos e outros que tais.
O governante, Bolsonaro ou outro qualquer, precisa conhecer a realidade de cada lugar. E isto é feito in loco, em contatos com as lideranças ou através de seus assessores, mesmo que aconteça em ano eleitoral.
Houve tempo em que sequer o governador do Estado visitava municípios do interior. Presidente da República, então, era impensável.
Entretanto, parece que algumas pessoas têm dificuldade de entender o que é democracia e que a civilidade faz parte da convivência com os contrários e não uma hipótese distante de nossa realidade.
Os antagonismos aperfeiçoam as ideias. Os xingamentos as afastam.
Não adianta as pessoas saírem por aí reivindicando e exigindo democracia se não sabem exercê-la.
O anfitrião deve receber bem o visitante, mesmo que dele não goste. Faz parte da etiqueta e das regras sociais.
O inconformismo deve se manifestar nas urnas, secretamente, na cabine indevassável. É aí e nesse momento que se dá o troco.
Se acontecer a visita do presidente Bolsonaro ao município, Curaçá não pode apresentar-se como uma casa de mal educados.
Raiz de afeto, carinhosamente chamada Janoca, ela completa 100 anos de vida.
Matriarca de numerosa família, vive rodeada de gente que não acaba mais, graças a Deus.
Ela soube escrever o roteiro para o palco do seu tempo. Neste roteiro, incluiu bondade, muita bondade.
Hoje, no caminhar outonal da vida, colhe as flores, resultado das árvores de carinho que soube plantar ao longo do tempo.
Deixo minhas felicitações à aniversariante e familiares e agradeço a foto que, a meu pedido, me foi gentilmente enviada por Ednara Batista Alcântara e a atenção de Maria de Lourdes Bezerra Mendes.
Murilo Melo Filho, referência do jornalismo político nacional, membro da Academia Brasileira de Letras e amigo de Jorge Amado, conta a história no livro Tempos Diferentes, Editora Topbooks, 2005:
“O romancista Jorge Amado foi à cidade paraibana de Campina Grande receber a homenagem de um grupo de intelectuais da Paraíba.
Quando todos já se haviam sentado para o jantar, entra no salão a senhora Jurema Batista, uma famosa prostituta daquela região e proprietária do seu melhor rendez-vous.
O locutor e mestre de cerimônias, querendo ser espirituoso e engraçado, dirige-se a ela, travando-se, então, o seguinte e curto diálogo:
– Como é o nome da nobre senhora?
– Jurema Batista, ao seu dispor.
– Qual é a sua profissão?
– Prostituta, com muita honra.
– E como é a sua vida?
– Minha vida, meu senhor, é um rumanço.
Jorge Amado retira do bolso um pequeno pedaço de papel e anota o nome. Naquele exato momento nascia o rumanço: Tereza Batista Cansada de Guerra”, um dos mais lidos de Jorge Amado e traduzido em dezesseis idiomas.
A vida de Lula da Silva é um rumanço.
A vida do presidente Bolsonaro é um rumanço.
Ambos se prostituíram.
Lula da Silva se prostituiu com dinheiro, muito dinheiro: sítio, palestras, apartamentos, instituto Lula, mensalão, petrolão, jatinhos, mansões, et cetera.
Lula talvez seja o único aposentado do INSS que ficou milionário.
Jair Bolsonaro se prostituiu com dinheiro, muito dinheiro, assim dizem: rachadinhas, empregados fantasmas, et cetera.
Lula da Silva é a Tereza Batista de São Bernardo do Campo.
Jair Bolsonaro é a Tereza Batista do paulista Vale do Ribeira.
Entretanto, Lula e Bolsonaro se acham moralmente habilitados para governar o Brasil.
Incautos, inocentes e hipócritas acreditam em ambos e até brigam por eles. Uns porque são ou serão beneficiados em seus governos, outros por ignorância e outros tantos por fanatismo.
Assim, segue nossa idiotice política, ideológica e eleitoral.
Assim caminham, iludidos, os que acreditam em Lula e Bolsonaro.
O Brasil ainda vai desabar sobre a cabeça de todos nós.
“Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro” (Jorge Luís Borges, escritor argentino, 1899-1986, A Casa de Asterion)
A história de Patamuté não pode ser contada, por quem dela entende – ou lembrada, por quem gosta de lembrar – sem que, em seu contexto, seja inserida a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, a antiga EBCT, muito útil na vida do lugar.
Não entendo da história de Patamuté, mas gosto de lembrá-la. A juventude de hoje precisa ter conhecimento da contribuição dos antepassados na construção moral do lugar.
Patamuté teve o privilégio de contar com uma agência dos correios e telégrafos durante décadas. Foi extinta nos anos 1990, por força de uma política governamental equivocada do presidente Fernando Collor de Melo.
Depois disto a EBCT esfacelou-se, passou a ser antro e cenário de corrupção, descambou para o desmoronamento e perdeu o título que detinha à época de empresa pública mais eficiente do Brasil. Mas esta é outra história.
A agência teve à frente Maria Matos Lopes, casada com Otávio Lopes Martins. Na condição de agente, ela foi responsável pelos correios de Patamuté durante anos, na primeira metade do século XX.
Mário Matos Lopes, filho de Maria Matos, substituiu-a também na condição de agente, mediante concurso público. É dele que hoje me ocupo nesta pequena e modesta lembrança de Patamuté.
É difícil, em certas circunstâncias, falar de amigos. Difícil, porque pode parecer uma variante de narcisismo ou mesmo um amontoado de palavras frágeis e inconsequentes.
Neste caso não é, não precisa ser. Tenho respeito pela memória de minha terra e dos amigos que me aturaram lá.
Mário Matos Lopes foi meu amigo pessoal. Com ele e sua família tive a honra de conviver durante anos. A esposa Ambrosina, hospitaleira, espirituosa, alegre e sempre atenciosa. E os filhos: Antonio Nilo Ferreira Lopes, Odete Matos e Solange Matos.
Homem de opinião e caráter irrepreensível, Mário Lopes era cuidadoso no exercício da profissão, pontualíssimo relativamente aos compromissos e dedicado aos amigos. Uma referência quando, em Patamuté, falava-se em honestidade, decência e sensatez.
A vida de Mário Lopes confunde-se com exemplo de honradez e seriedade. Também violonista, às vezes boêmio, outras vezes comedido ao extremo, era admirador de José Amâncio Filho, Meu Mano.
Conhecia todas as músicas de Meu Mano e tinha predileção por “Lágrimas de Mãe”, que cantava com esmero admirável.
Os homens de opinião às vezes criam lendas, porque o mistério faz parte da construção dos mitos. Mário Lopes não abdicava de seus valores morais e sociais e, em razão disto, deixou exemplos.
Já morando em São Paulo, fui a Patamuté. Visitei-o, como de costume. Tempo em que era comum sentar-se em cadeiras nas calçadas durante a noite sem receio de ser assaltado ou molestado por intrusos.
Mário Lopes contou-me que teve um desentendimento com um amigo de boemia. “Em Patamuté não bebo mais. Só coloco um copo na boca depois de ultrapassar o Paredão”.
Cumpriu a palavra até a morrer.
Paredão, para quem não conhece, é um riacho que existe em Patamuté, como todas as coisas boas que existem por lá.
Mário Lopes fez essa façanha em criar uma linha divisória entre o Paredão e o cumprimento de sua palavra.
Patamuté, como todo lugar, tem seus filhos e sua história de vida, que não pode perecer.
Anos depois, já muito além daquele tempo, deparo-me, nalgum lugar, com uma foto de Ambrosina (acima), esposa dedicada de Mário Lopes e minha amiga, já alquebrada pela idade, mas altiva.
Ela, Julieta Alcântara (esposa de Zé Lulú) e eu sabíamos de tudo em Patamuté. Coisas do tempo, do lugar e da vida.
“Os idiotas vão acabar dominando o mundo. Não pela qualidade, mas pela quantidade. Eles são muitos” (Nelson Rodrigues, escritor, jornalista e teatrólogo, 1912-1980)
Militantes políticos que de vez em quando exercem as funções de ministros do Supremo Tribunal Federal e, nalguns casos, do Tribunal Superior Eleitoral, exumaram Lula da Silva das catacumbas do cárcere de Curitiba e, com ajuda de outros esforçados companheiros lulopetisas, estão fazendo das tripas coração para elegê-lo presidente da República.
Não se sabe se, à semelhança do ingênuo Sérgio Moro, alguns deles deixarão a toga e vão se transformar em ajudantes de ordem de Lula da Silva no Palácio do Planalto, caso eleito, ou se continuarão no Supremo Tribunal Federal fingindo que entendem de Direito.
Lula da Silva faz o caminho inverso de João Dória, que traiu companheiros de política e de partido, falou mal de Deus e de todo mundo, inclusive de Lula da Silva e se arvorou em dono da vacina contra a covid-19.
Pretensiosamente, a assessoria de João Dória já havia idealizado um nome eleitoral para a campanha dele: “João Vacina”. Simplesmente ridículo.
João Dória despencou do cargo de governador de São Paulo, o mais poderoso e importante estado da Federação e agora retorna à sua insignificância pessoal e política.
João Dória vai terminar na cidade baiana de Rio de Contas onde, em visita, ficou praticamente só numa praça ouvindo uma banda de música tocar, porque não havia quem o recebesse na cidade.
Imagens mostram pessoas tirando foto da banda e de costas para o insignificante e patético João Dória. Ou seja, o importante ali não era ele, mas os músicos da banda, estrategicamente posicionados para cuidarem de sua arte, muito mais relevante.
O curioso é que Rio de Contas é a terra do pai de João Dória. Nem lá ele foi bem recebido em sua fracassada pré-campanha.
Lula da Silva faz o caminho inverso de João Dória, que tanto espinafrou o morubixaba petista chamando-o de nomes impublicáveis.
Lula está subindo as escadas em direção ao poder. Se não tropeçar em algum degrau chegará lá. Se tropeçar, será levantado pelas valiosas mãos da turma do STF e do TSE.
João Dória está descendo as escadas rumo ao fracasso político.
Mas como em política nada é definitivo, João Dória ainda poderá morrer de amores nos braços de Lula, assim como Geraldo Alckmin mudou de ideia e de caráter.
“A verdadeira juventude é uma qualidade que só se adquire com a idade” (Jean Cocteau, poeta e romancista francês, 1889-1963)
Deixo de lado a modéstia – se é que a tive nalgum tempo – e cuido aqui de um amigo precioso: Francisco Afonso de Menezes.
Alguns amigos que tenho, outros tantos que não são meus amigos e outros mais que detestariam ser meus amigos já me disseram, por vezes, que sou mais arrogante do que modesto. Eles devem ter razão.
Todavia, vivo também meus momentos de humildade. Lembro os amigos, os caminhos percorridos, os tropeços, as pessoas boas com as quais convivi e, sobretudo, sou grato a todas, mormente aquelas que me suportaram. Foram tantas! São tantas!
Francisco Afonso de Menezes é chorrochoense da gema. Mantém-se ligado ao município por simultâneos vínculos de família e tradição.
Defensor intransigente da cultura de Chorrochó, Afonso tem sido vigilante no sentido de preservar as tradições da Paróquia de Senhor do Bonfim, embora tenha sido cauteloso no trato com o entendimento às vezes exaltado de pessoas que pensam de modo diverso. Quase sempre é contemporizador em benefício das tradições locais.
Afonso é uma espécie de personal consultant de muitos. Confesso que aprendi muito com ele em momentos em que era preciso saber lidar com os impulsos que me empurravam para o despenhadeiro da inconsequência e do imponderável.
Afonso é cria da pioneira Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), que lhe concedeu a graduação e o tecnicismo profissional que soube exercer com afinco e responsabilidade.
É estudioso dos assuntos de sua formação e profissional respeitado em seu meio de atuação. Ostenta considerável folha de serviços prestados ao desenvolvimento da agricultura moderna da região como grande conhecedor das ciências agrárias.
Começou sua vida profissional na então conceituada EMATER-BA, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Bahia, instituição que prestou, em sua área, valiosa e eficiente contribuição para a população do semiárido baiano.
Contudo, não trato aqui do profissional. Não tenho preparo para tanto. Quero dizer mesmo é que me fiz amigo de Afonso, coisa lá de algumas décadas. Também, não quero falar aqui de sua conspícua família, esteio de pessoas de bem de Chorrochó, tampouco de seu pai Joviniano Cordeiro de Menezes (Jovino) e de sua mãe Maria Alventina de Menezes (Iaiá).
Limito-me ao jovem Afonso que conheci em Chorrochó: afável, estudioso, inteligente, cortês, encantador. Tantos anos!
Na juventude, em Chorrochó, ele fazia parte de um vistoso quarteto: José Osório de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, Juracy Santana e ele próprio. A eles se somavam outros tantos, a exemplo de Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes. Eu não fazia parte dessa saudável confraria.
Quase todos já se foram. Continuamos alguns poucos, saudosos e circunstantes, cônscios da efemeridade da vida, meditando, remoendo, ruminando as vicissitudes do existir.
Admiro algumas qualidades de Afonso, dentre essas o apego às tradições da terra natal, o arraigado interesse pela história do município e, sobretudo, a lealdade aos seus princípios.
Outra qualidade de Afonso é a aptidão para preservar amizades, dentro as quais me incluo, honrosamente, não obstante tropeços ao longo do caminho, que ele sempre soube entender e contornar. Mantenho-o amigo. Mantemo-nos amigos. É um amigo generoso, sábio, compreensivo, prudente.
Confesso que quase sempre lhe peço socorro, quando me encontro atabalhoado e às voltas com dúvidas sobre a história de nossa região. Ele tem sido prestativo.
Quem lida com a História, embora não historiador, mas curioso, assim como eu, vive permanentemente cheio de dúvidas, porque os fatos devem ser retratados de acordo com a verdade e não adstrito à opinião de quem relata
Afonso já se debruçou em tarefas ingentes com vistas ao enriquecimento da história de Chorrochó. Sobressaem-se dois livros: Memorial Cordeiro de Menezese História de Chorrochó,este em coautoria com a insigne professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes de quem sou renitente admirador.
Afonso é autor do Hino de Chorrochó e da Bandeira do município, relevantíssimos feitos que, por si sós, enriquecem e emolduram sua biografia de forma perene e contribuem valiosamente para a grandeza de Chorrochó.
Afonso é também administrador de empresas. Extraí estas suas palavras do discurso de formatura: “A capacidade sonhadora é bem maior que as realidades existenciais e a força de identificar sonhos com a vida faz com que acreditemos que o amanhã será melhor”.
Trata-se de pensamento otimista, eloquente, estribado na esperança e na crença de horizontes promissores. É um bálsamo para a juventude, mesmo aquela que se tornou jovem com o envelhecimento, com o passar dos anos.
Deixei para o final, adredemente, a inclusão do título Doutor que omiti no texto e que Afonso dignamente ostenta: Dr. Francisco Afonso de Menezes.
A caminho da fase octogenária, que ainda demora algum tempo, Dr. Afonso e eu diremos, à semelhança de Tristão de Atayde: “Chegando aqui, que surpresa! Olhando para trás, que deserto!
E como iniciei este texto citando a frase de Jean Cocteau sobre a juventude e, presumindo que Afonso algum dia venha a se deparar com esta crônica, faço-lhe a pergunta, usando o linguajar de nosso tempo: continua jovem, bicho?
Post scriptum:
Explicação sobre a imagem que ilustra este texto: Não é fácil encontrar uma foto do Dr. Francisco Afonso de Menezes. O homem não sai por aí, facilmente encontrável e – parece – anda meio avesso a badalações e cliques fotográficos. Entretanto, tomei a liberdade de socorrer-me de um álbum do seu sobrinho e também brilhante Doutor, Roberto Carvalho. Da esquerda para a direita, vê-se Dr. Francisco Afonso, sua esposa Perpétua e o sobrinho dele Dr. Roberto.
Iam-se escapulindo as lembranças em direção aos buracos da memória, mas ao remexer em meus alfarrábios, deparei-me com algumas anotações esparsas que fiz há décadas sobre Patamuté.
São fragmentos dispersos que não traduzem a robustez da história do lugar, mas dizem e retratam alguma coisa que, para nós de lá, é muito importante.
Em 13 de junho de 1968 foi fundada a Sociedade 13 de Junho de Patamuté.
Conforme o artigo 1º, dos Estatutos Sociais, a sociedade tinha como objetivo “promover o desenvolvimento cultural e artístico da terra, na média do possível para o seu engrandecimento moral e intelectual, bem como auxiliando a todas as organizações locais, como o mesmo fim”.
Conforme o artigo 2º, dos Estatutos Sociais, a sociedade também tinha como objetivo “promover reuniões culturais e artísticas, manter uma biblioteca e pugnar pelo progresso e pelos interesses sociais e culturais do distrito de Patamuté”.
A primeira Diretoria foi constituída da seguinte forma:
Presidente: Adonai Matos Torres
Vice-Presidente: Manoel Brandão Leite
1º Secretário: Mario Mattos Lopes
2º Secretário: José Mendes Fonseca
Tesoureiro: José Gomes Reis Filho
Não havia prédio para abrigar a sociedade. As festas se davam no prédio escolar, único existente à época e hoje se desmoronando. Mas os fundadores construíram um arcabouço jurídico, base para a existência da sociedade.
Portanto, há 54 anos, alguns homens de Patamuté sonhavam com o desenvolvimento do lugar.
Hoje esse papel cabe aos jovens, já que as gerações passadas, inclusive a minha, não conseguiram robustecer o desenvolvimento de Patamuté, em razão das dificuldades que muitas delas encontraram ao longo do caminho, dificuldades que hoje são mais flexíveis e contornáveis.
Acredito na juventude de Patamuté e nos seus abnegados professores, baluartes de nossa terra e sustentáculos de sonhos e esperança.
Foto recente mostra a Sociedade 13 de Junho um tanto deteriorada pelo tempo e talvez em razão do descaso que não sei a quem atribuir. Trata-se de uma constatação eivada de saudade e não de uma crítica, propriamente.
Resta-nos buscar esperança e sonhar com um novo horizonte para Patamuté.
A perspectiva se sustenta nos jovens e, sobretudo, na educação dos jovens. O idealismo dos jovens de hoje abre o caminho em direção ao amanhã.
E também no surgimento de novos líderes que se preocupem com o lugar, sem desprezar a experiência dos líderes que os antecederam.
Observação:
O crédito da imagem é de Anselmo Vital, ilustre filho de Patamuté. Entretanto, peço desculpas por não ter conseguido manter a qualidade da imagem tal como postada por Anselmo.
“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D. Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo de Olinda e Recife
Quando éramos jovens, tínhamos sonhos. Quando mais velhos, refletimos sobre eles, uns realizados, outros não e outros, ainda, permanecem no âmago das ilusões.
É bom acreditar nas convicções. Elas balizam o caminho, quase sempre espinhoso e incerto. É bom ter um ideal para sustentar as fragilidades. Ele ameniza as dificuldades e ilumina os horizontes.
A compreensão de nosso mundo depende, basicamente, da forma como vemos os outros, com seus defeitos, qualidades e fraquezas. É uma tarefa difícil que nos obriga a descer do pedestal.
É bom atapetar o caminho com a humildade. Ela nos dá o prumo e o equilíbrio do caminhar, o parâmetro entre a reflexão e as agruras da vida, permite aquilatar a diferença do outro em relação a nós mesmos e entender a inutilidade da arrogância.
Em minha juventude, sonhos, convicções e ideais andavam juntos, como de resto, é a veleidade de todo jovem.
Contudo, por vezes, a arrogância se fez presente, talvez por ser um atributo daquela fase da vida, utópica, volúvel, imperfeita, às vezes amarga. Ainda assim, construí amizades que suportavam meus defeitos e compreendiam meu modo de ser.
Como sou grato a todas elas!
Quando morei em Chorrochó, ainda jovem, tive a honra de conviver com Maria Batista Rodrigues, que ainda não tinha Souza no nome. Naquele tempo, já professora e enfermeira, ela trabalhava no único posto de saúde que existia lá, o Posto Médico Francisco Pacheco.
Ficamos amigos e o tempo permitiu a continuidade da amizade até hoje.
Maria diluiu muitas de minhas fragilidades. Ensinou-me, com sua sabedoria, a aparar as arestas de minha arrogância, compreendeu meus sonhos e convicções e me fez ver a importância e seriedade dos estudos.
Aprendi com ela a definir o caminho em direção ao desconhecido. Caminho difícil, mas necessário. Era preciso seguir adiante. Era preciso caminhar. Era preciso lutar.
Há uma fase da vida que, ao caminhar, surge uma encruzilhada. É nesse momento que, diante da indecisão, a opinião amiga se faz necessária. Em Chorrochó, comigo foi assim.
Anos mais tarde, Maria Batista esteve morando em São Paulo. Visitei-a duas vezes, se tanto. Ambos deslocados do habitat natural, o sertão, parece que a cidade grande nos empurrava de volta às nossas raízes.
Eu fiquei. Maria voltou. Decisão acertada. Foi acomodar suas emoções e sabedoria em Patamuté. Casou, constituiu família bonita e exemplar e por lá está enriquecendo o lugar com sua presença.
A presença de Maria é um privilégio de Patamuté, que às vezes o divide com Juazeiro e Curaçá.
Maria atravessou momentos difíceis, mas os superou corajosamente, uma de suas admiráveis façanhas.
Maria Batista é generosa, sábia, correta, humilde. Sensata ao extremo, atenciosa com todos e prestativa demais com as pessoas que gosta.
Tenho saudade do seu sorriso, como se um amparo às minhas fraquezas.
O convívio que tive com ela me dá saudade, uma saudade persistente, itinerante, inominável, cruel.
Todavia, como diz o cantor Peninha, “ter saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio”.
Hoje é o aniversário de Maria Batista. Parabéns, Maria. Saúde sempre.
Post scriptum:
A foto de Maria, em primeiro plano, foi colhida de sua página no Facebook.
ACM e o neto, candidato ao governo da Bahia em 2022/Foto Google
Em entrevista ao Jornal do Brasil em 07 de setembro de 1986, o poderoso líder político Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), ex-tudo da Bahia e quase ex-tudo do Brasil, delineou, com extrema agudez e sagacidade, o que é coronelismo nordestino.
O jornalista Ricardo Noblat, à época no JB, quis saber de ACM, como ele tinha conseguido eleger João Durval governador da Bahia, em tão pouco tempo de campanha, embora politicamente inexpressivo e desconhecido da maioria dos baianos.
– “Com o chicote numa mão e o dinheiro na outra”, respondeu Antonio Carlos Magalhães.
Ricardo Noblat conta a história e também está no livro Memórias das Trevas, do jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes (1936-2020), honra e glória do Jornal da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia.
ACM era tão poderoso que em 13 de outubro de 1982 disse ao repórter Armando Rollemberg, da IstoÉ: “Se eu quisesse, faria você governador da Bahia”.
João Durval Carneiro, obscuro ex-vereador e ex-prefeito de Feira de Santana se elegeu governador para o período de 1983-1987 sob as bênçãos de Antonio Carlos Magalhães.
O candidato de ACM era Clériston Andrade (1925-1982), pastor da Igreja Batista que, em campanha eleitoral, faleceu pouco mais de um mês antes das eleições de 1982, em acidente de helicóptero lá para as bandas de Caatiba.
Às pressas, ACM foi buscar João Durval Carneiro e o elegeu governador com 53,3% dos votos.
Nada mudou na Bahia e no Nordeste por inteiro.
O voto ainda é de cabresto, embora os cientistas políticos neguem e nós nordestinos não admitimos.
O eleitor ainda se apega e vota nos candidatos indicados pelos chefes políticos locais, os “coronéis” donos de muito dinheiro e prestígio político, com exceção de pouquíssimas lideranças que foram surgindo ao longo do tempo, mas são efêmeras e logo se dissiparão como cinzas ao vento.
O que menos conta na hora de votar é a convicção ideológica, o discernimento político.
Há exemplos claros, inegáveis e indubitáveis desses “coronéis”, para ficar somente em alguns nomes: os Calheiros, em Alagoas; os Ferreira Gomes, no Ceará; os Coelho, em Petrolina.
Essas famílias poderosas comandam e direcionam o voto há décadas e indicam o caminho para o eleitor desinformado e pouco interessado com os meandros da política.
Lula da Silva, “malandro moderno” e experiente, forjado nos sindicatos e nas greves do ABC Paulista e negociador hábil, aliou-se aos “coronéis” do Nordeste e com eles ganhará os votos da maioria dos nordestinos na eleição presidencial de 2022.
Os indicadores apontam para isto. Lula escorrega para o lado mais favorável, mais propriamente, para o lado que tem dinheiro. E o dinheiro está com os “coronéis” inescrupulosos e corruptos.
Eleitores nordestinos têm medo de represálias e perseguição dos chefes políticos locais e, alguns poucos, se manifestam timidamente sobre a atuação desses políticos, mais por fanatismo do que por convicção. É o que se vê nas redes sociais. O fanatismo está atrelado aos favores que recebem.
Tristemente, no Nordeste, as pessoas ainda elogiam prefeitos, vereadores e governadores, como se fossem seus protetores e a eles devessem favor.
A limpeza de uma barragem ali, a viabilidade de máquina para consertar uma estrada vicinal acolá, um emprego para um parente ou amigo, o transporte de um doente, uma banda de música de gosto duvidoso para a festa local e por aí vai.
Tudo é visto pelo eleitor como se fosse favor do governante e não obrigação realizada com dinheiro público.
Pior: os políticos inescrupulosos cobram isto do eleitor através do voto.
Como no tempo de ACM, “o chicote numa mão e o dinheiro na outra” ainda decidem as eleições. Continuarão decidindo.
No Nordeste, Lula da Silva está feliz como pinto no lixo. E vai levar, além dos votos, muitos xingamentos dos adversários.