SAAE de Curaçá, história e reflexão

“O destino gosta de inventar desenhos e figuras, mas a vida é difícil pela simplicidade” (Rainer Maria Rilke, poeta austríaco, 1875-1926)

Remergulhei na memória, amiúde até, com o intuito de buscar, nos recônditos da distância, a história do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Curaçá.

Inevitável rememorar tempos de Gilberto da Silveira Bahia, administração 1959-1963 e José Félix Filho (Zé Borges), gestão 1963-1967, prefeitos visionários, que pensavam à frente, bem à frente, não obstante a precariedade das receitas de Curaçá.   

Mais do que isto, procurei saber de algumas fontes o que se passa com nossa tão querida e tradicional autarquia curaçaense, que vem sendo alvo de constantes críticas e reclamações, que vão desde a falta de água até frequentes vazamentos, demora na reativação do sistema de abastecimento, quando necessária, e outros transtornos mais.

A agravante é que, em muitos desses eventos desagradáveis, para manter em atividade seus serviços essenciais, o SAAE depende da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (COELBA). Exemplo: surgimento de dificuldades na alimentação da rede elétrica que refletem nos equipamentos do SAAE.

Aliás, a COELBA/Neonergia, que é subsidiária de um grupo espanhol, está se destacando irresponsavelmente como um descalabro no que tange à prestação de serviços às populações de diversos municípios da Bahia, não obstante os reajustes regulares de tarifas, até mesmo indevidos, segundo notícia veiculada na imprensa, mas esta é outra história. Longa história.

Neste 28 de fevereiro de 2022, salvo engano, o SAAE de Curaçá completará 59 anos de existência. Convenhamos, um atestado de que deu certo e vem prestando relevantes serviços aos curaçaenses.

Antes administrado pelo Ministério da Saúde, através de suas fundações ligadas ao setor de esgotos e água potável, no final da década de 1990 o SAAE de Curaçá passou a ser gerido pelo município e, mutatis mutandis, o prefeito de plantão passou a indicar um braço político, geralmente vinculado à sua base parlamentar na Câmara Municipal, para administrar a autarquia.

Isto não significa dizer que a influência política e seus conchavos de ocasião são responsáveis diretos e principais pela deterioração dos serviços do SAAE e origem de tantos transtornos causados à população de Curaçá.

Admitir que os dirigentes do SAAE, enquanto políticos, se políticos, não se acham em condições de sustentar os serviços básicos a que se propõe o órgão é acreditar que eles estão enterrando em profundos buracos os votos que lhes mantêm na vida política local.     

Registro, por oportuno, que o SAAE de Curaçá manteve, em seus quadros, dedicados e abnegados dirigentes, tais como Ponciano Pereira Rêgo (uma das criaturas mais corretas que conheci na vida), Dione Maria Félix de Oliveira, Maurízio Roberto Bim Moreira, Roque José Ferreira Soares, para ficar apenas em alguns exemplos, que se cercaram de equipes de boa qualidade profissional, de modo que a população de Curaçá sempre esteve bem servida, neste particular.

Hoje, diversamente, pelo que se vê, a situação é outra ou, pelo menos, parece ter adquirido contornos de diferença.

Tendo em vista a história de credibilidade do SAAE de Curaçá, quero crer que as dificuldades que a autarquia está passando, talvez não se circunscrevam a uma eventual má gestão, mas o resultado de falta de investimentos, aumento da demanda, dependência de outros órgãos e, possivelmente, ausência de planejamento adstrito à realidade local.   

Entretanto, argumentar-se-á: a autarquia ajusta e cobra regularmente suas tarifas e contas, delineia suas receitas, esteia-se nas estatísticas de suas ligações e nos seus custos operacionais e administrativos e, como tal, deve ter autonomia financeira para gerir-se.  

É razoável pensar assim.

Admitir ao contrário, seria escancarar o fracasso da gestão do SAAE e isto não parece ser a realidade que se vislumbra em Curaçá, sabendo-se, ademais, da respeitabilidade da autarquia ao longo de décadas.

Uma das características da sociedade aqui, ali ou acolá, é esta: cada um se embevece em seus sonhos, preocupações, medos, projetos e devaneios e somente cobra alguma coisa das autoridades quando se defronta com as desgraças, dificuldades, tempestades e angústias.

Curaçá não é diferente. As autoridades reinam absolutas – sempre foi assim – fazem demagogia, prometem, afagam e, sobretudo, têm dificuldade de enxergar as necessidades do povo.

O SAAE talvez seja o reflexo desse desenho, dessa realidade, em que as autoridades nunca foram cobradas quanto ao desempenho correto de seus misteres.

Em quadro assim, parece razoável entender que o resultado dos equívocos passados tende a aparecer mais cedo ou mais tarde.

De qualquer modo, afigura-se deprimente e constrangedor, que a população de Curaçá – ou parte dela – se veja constantemente às voltas com falta de água em suas torneiras olhando para as águas caudalosas do São Francisco.

Há alguma coisa errada em Curaçá e não é o SAAE em si, tampouco suas equipes operacionais destemidas, dedicadas e profissionalmente bem preparadas.

Talvez seja ausência de acuidade e percepção de quem tem o poder de decidir com clareza e respeito à população e não o faz com presteza e na ocasião própria.

Post scriptum:

A foto do SAAE de Curaçá que ilustra esta matéria é antiga e não tem o condão de retratar necessariamente a realidade atual. Deixo de citar o crédito da foto por desconhecer o autor.

araujo-costa@uol.com.br     

Chorrochó, tempo de oração.

Igreja de Chorrochó

A Igreja Católica de Chorrochó deu início aos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

A paróquia está triste, em razão da pandemia do coronavírus que chegou a dizimar vidas em Chorrochó, ainda frequenta as estatísticas de casos da doença e afastou a afluência de fiéis às celebrações, embora eles se mantenham coesos em razão da fé.

Todavia, a Igreja é como um lírio que brota continuamente em meio aos rudes espinhos do tempo e aos escombros das tragédias humanas.

Assim, a Igreja de Chorrochó.

Com o surgimento da pandemia, mudaram-se as formas de celebração. A abertura da festa adquiriu contornos diferentes, o que, de certa forma, espelhou a beleza da devoção dos chorrochoenses católicos ao seu padroeiro.

Em meio a tantas atribulações a que as populações estão envolvidas, inclusive o aumento dos índices de violência, de vez em quando o calendário da Igreja possibilita uma pausa para permitir que todos se envolvam em orações.

Em Chorrochó, portanto, realiza-se a festa do padroeiro Senhor do Bonfim. É uma oportunidade para que os católicos abandonem seus momentos de egoísmo e arrogância e deem lugar às orações, normalmente negligenciadas no dia a dia, inclusive em razão da luta pela sobrevivência cada dia mais difícil.

Todos os dias durante o novenário, época de contrição e louvor, após a bênção do Santíssimo Sacramento, o celebrante desperta os fiéis no sentido de que o nome de Jesus é sempre bendito: “Bendito seja Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar!”.

É o louvor em desagravo às blasfêmias, ao indiferentismo com as coisas que dizem respeito à fé.

O celebrante pede para que Deus derrame bênçãos “sobre o chefe da nação e do estado e sobre todas as pessoas constituídas em dignidade, para que governem com justiça”.

Palavras fortes e necessárias – dignidade e justiça – sem as quais nenhum governante desempenha seu papel fundamental ao bem comum.

A oração é uma velha fórmula adotada pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMC) do Convento da Piedade, em São Salvador da Bahia, que se estende historicamente deste o século XVII: oração pela pátria, pela Igreja e pelo Santo Padre.

Chorrochó, a exemplo de outros lugares, padece das injunções de uma sociedade violenta, desrespeitosa, degradante, alheia às coisas da Igreja e, sobretudo, tendente à vulgaridade.

Contudo, não deixo de reconhecer que grande parte desse fenômeno deriva da instituição familiar, que se esfacelou de tal forma a ponto de tornar incapaz de educar seus filhos para o caminho da Igreja, mormente tendo em vista o surgimento de novidades tecnológicas de toda ordem que ofuscam o caminhar da juventude.

Também é notório, inobstante, que a Igreja persiste em seu caminho sereno em direção à sedimentação de seus valores e de suas tradições.

É tempo de lembrar todos aqueles que sustentaram as colunas da Igreja de Chorrochó, quando tudo era ainda muito rudimentar e difícil: Antonio Conselheiro; monsenhor Elpídio Ferreira Tapiranga, celebrante da primeira missa em Chorrochó, em 1886; padre Manoel Félix de Moura; professora Antonina Gomes; João Alves dos Santos; professora Josefa Alventina de Menezes; padre Ulisses Mônico da Conceição; padre Mariano Pietro Bentran e todos os que vieram subsequentemente, como sacerdotes ou colaboradores.

Em data recente a Igreja de Chorrochó contou com o dinâmico padre Honildo Carvalho, que ostenta apenas dez anos de sacerdócio, mas se revelou bastante dedicado e atencioso com os paroquianos.

Embora respondendo por outra paróquia, padre Honildo sempre se faz presente em Chorrochó. Nesta quadra do tempo em que se realiza a festa do Senhor do Bonfim, a coordenação pastoral da Igreja de Chorrochó está a cargo do pároco Jorge Mário. 

É tempo também de lembrar os bispos da diocese de Paulo Afonso, que delinearam o caminho da fé na Igreja de Chorrochó: D. Jackson Berenguer Prado; D. Aloysio José Leal Penna; D. Mário Zanetta; D. Esmeraldo Barreto de Farias e o atual D. Guido Zendron, que adota o lema episcopal Cristo Redentor dos Homens e tem sido muito presente na vida da Igreja local.

D. Guido tem robustas raízes fincadas na arquidiocese italiana de Trento, uma das mais antigas e tradicionais da Igreja Católica Apostólica Romana.

Por fim, é tempo de reconhecer o papel das instituições Pia União das Filhas de Maria e Apostolado da Oração que dignificaram a história da Igreja de Chorrochó e se tornaram esteios das tradições locais.

Chorrochó está em tempo de oração.

Somos todos carentes das bênçãos de Senhor do Bonfim.

araujo-costa@uol.com.br

Quando Deus é questionado

“Sufocar a voz dos cidadãos é violar a ordem do mundo” (Papa Pio XII).

O livro Torre das Guerreiras e Outras Memórias, de Ana Maria Ramos Estêvão, é o retrato cruel de uma época de terror no Brasil.

Tempo da ditadura militar, a autora esteve presa em São Paulo, em companhia de Dilma Rousseff, décadas mais tarde presidente da República.

O relato é assustador. Fala de tortura, perseguições e outros momentos vividos nos porões da ditadura militar.

Hoje aos 73 anos, a autora foi companheira de Dilma Rousseff no presídio Tiradentes, centro de São Paulo. Mais do que colega de presídio, Ana Maria Ramos Estêvão foi companheira de cela de Dilma.

Amargaram juntas a maldade e incompreensão humanas.

A autora ficou presa durante sete meses. Dilma ficou mais tempo, aproximadamente três anos.

A autora fazia parte da ALN (Ação Libertadora Nacional), comandada pelo terrorista baiano Carlos Marighella, ícone da luta armada contra a ditadura militar.

Quem quiser e puder, deve ler.

“Uma dor permanece doendo”, diz a autora. Compreensível, muito compreensível.

Hoje quem fala asneiras de Bolsonaro, de Lula da Silva, de esquerda, direita, de terceira via, não sabe o que é sofrimento político, tampouco tortura, ausência de liberdade.

É bom ler para refletir. E crescer culturalmente.

“Deus não existe na tortura. Ficamos sós” (Ana Maria Ramos Estêvão)  

Sempre é bom lembrar as palavras do Papa Pio XII:

“Sufocar a voz dos cidadãos é violar a ordem do mundo”.

Um lembrete oportuno para alguns “intocáveis” ministros (não todos) do Supremo Tribunal Federal (STF).  

araujo-costa@uol.com.br

Alexandre Frota e o lixo

“Por que sua janela é tão alta?” (Rubem Braga, 1913-1990)

Já se disse alhures – e os entendidos repetiram exaustivamente – que a crônica não tem estilo.

A crônica se faz sobre andaimes que o cronista prepara para uma construção que nunca se acaba. Indefinidamente, não se acaba.

Assim, a crônica política.

Alexandre Frota é ator e modelo que se fez nas novelas da TV Globo e, mais tarde, se enveredou pela seara dos filmes pornográficos. Fez sucesso, em razão de seu talento, que não é talento político.  

Alexandre Frota ingressou na carreira política. É deputado federal eleito na esteira do bolsonarismo, do qual se beneficiou, defendeu e abraçou e hoje está no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), para onde se mudou de mala e cuia depois de espezinhar o presidente Bolsonaro e seus filhos, que tanto os paparicava.

Hoje Alexandre Frota deleita-se nos braços de João Dória, o governador-pavão de São Paulo, criatura desprezível que enxovalhou a história do Palácio dos Bandeirantes e conspurcou a cadeira onde se sentaram Jânio Quadros, Carvalho Pinto, Lucas Nogueira Garcêz, Franco Montoro (que sabia fazer oposição) e tantos outros honrados que governaram os paulistas.   

Não se sabe se o deputado Frota é “traíra” ou se foi contrariado em algum de seus interesses, o que é mais provável.

Agora, o deputado Alexandre Frota diz que a Câmara dos Deputados “é um lixo” e vai disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo e não quer mais voltar à Câmara, em Brasília.

Argumento pornográfico do deputado Alexandre Frota: “Não faço parte daquele lixo que se tornou a Câmara dos Deputados” (Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, 20/01/2022)

Alexandre Frota fala de cátedra.  

O que esperar de uma Câmara de Deputados que tem Alexandre Frota como um de seus deputados mais votados?

Não sei. Alexandre Frota diz que é lixo. Ele deve saber. Está lá.

A Câmara dos Deputados é o retrato e o espelho da sociedade, sinal de que nossa sociedade vai mal, esteve sempre mal, continuará sempre mal.

Como perguntaria o “professor Raimundo”, gênio de Chico Anysio: cite um projeto, “unzinho”, apresentado por Alexandre Frota, que beneficiou o Brasil e os brasileiros.

Não tem, não deve ter.

Mas a crônica política se faz de assuntos como esse, até com Alexandre Frota dando lições de moral.

Alexandre Frota não consegue alcançar a janela e enxergar a realidade.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá, Luizinho Lopes e o desmantelo do mundo

O vaqueiro Luizinho Lopes e Salvador Lopes, em evento em Curaçá/Crédito: Grupo Curaçá City

Luizinho Lopes chegou aos 103 anos.

Curaçá está em festa, festa de abraços dos amigos de Luizinho, festa em comemoração à vida de Luizinho.

Nesta quadra do tempo – e do passar do tempo de Luizinho – a festa boa não é necessariamente o adjunto, a reunião de pessoas, mas a constatação de que Curaçá está feliz com a presença do aniversariante ilustre.

Retirei d’algum lugar, fragmento do texto de Esmeraldo Lopes, nosso sabido e sempre admirado sociólogo de Curaçá:

“Luizinho é um desses sujeitos que gosta de palestrar, mas às vezes se põe na posição de escutador. E quando está assim, fica ali no silêncio, enrosca as mãos no corpo, cochila, acorda, cochila… Entre todos os assuntos, o que mais lhe atrai são as mudanças do mundo. Ele sempre afirma que o mundo não tem mais jeito, que nada mais lhe surpreende, que está tudo desmantelado.

Mas outro dia ele estava como escutador e chegou um seu camarada e veio contando: “Rapaz, não sei se vocês já ouviram dizer, mas a mulher do finado… tá de homem”. Luizinho, que estava cochilando, levantou a cabeça na rapidez de um piscar e bradou: “Já vi que passou o planeta. Só escapa quem voa!”

Esmeraldo Lopes é abalizado e insuspeito para falar sobre Luizinho Lopes. É catedrático na arte de decifrar o entender dos curaçaenses.

Esteio de sabedoria e decência, Luizinho Lopes é um sustentáculo da história de Curaçá.  

araujo-costa@uol.com.br

Geraldo Alckmin, o “engolível”.

“Lula quer tanto enfrentar o Bolsonaro no segundo turno que é capaz de votar nele no primeiro” (Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, Painel, Folha de São Paulo, 16/01/2022)

Só para refrescar a memória.

O que Alckmin disse de Lula em 2018: “Não existe a menor chance de aliança com o PT. Jamais terão meu apoio para voltar à cena do crime. Seus apoiadores são aqueles que acampam em frente a uma penitenciária”.

O que Lula da Silva disse de Alckmin em 2006: “A única coisa que ele sabe fazer é vender coisas. O PSDB devia ser candidato a dirigir uma empresa de vender estatais”. Mais tarde, ainda em 2006: “O governador nas suas bravatas, fala de uma moralidade que parece que ele está numa sacristia”.

Como se vê, moralidade não é o forte de Lula da Silva. O negócio dele é outro.

Luiz Marinho, ex-prefeito do município paulista de São Bernardo do Campo e ex-ministro de Lula da Silva, presidente estadual do PT de São Paulo é contra a aliança de Lula-Alckmin.

Alguns ex-guerrilheiros que se abrigam no PT também são contra: Rui Falcão (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) e José Genoíno (Guerrilha do Araguaia), ambos ex-presidentes do partido.

Dona Dilma Rousseff, ex-guerrilheira do Colina e da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, também é contra. Mas Dona Dilma não apita muito no PT. Nunca apitou.

Outro ex-guerrilheiro, Franklin Martins (Movimento Revolucionário 8 de Outubro e Ação Libertadora Nacional-ALN), ex-ministro de Comunicação Social de Lula da Silva não diz que é contra, mas é contra, todos sabem que ele é contra.   

Acontece que quem manda mesmo no PT é Lula da Silva. Lula quer que o vice dele seja Geraldo Alckmin. Lula até foi deselegante com os petistas que são contra: “o problema é deles”.

Haverá algum racha no PT, se Alckmin for o vice de Lula?

Nunca, jamais.

Os petistas – contra ou a favor da aliança – querem mesmo é a vitória de Lula e a volta ao poder para retomarem à dilapidação dos cofres públicos, continuidade ao petrolão,  mensalão e outras conhecidas maracutaias mais.

Nesse último grupo inclui-se José Dirceu, outro participante da ação armada contra a ditadura, exilado e treinado em Cuba. Ele é defensor da aliança Lula-Alckmin e, como todos sabem, uma espécie de sombra discreta de Lula da Silva: o que um faz o outro sabe. E nenhum dos dois confessa.   

Parte da militância arraigada petista também é contra.

Algumas citações dissonantes da aliança Lula-Alckmin:

Luiz Marinho: “Alckmin tem de ser engolível”.

Rui Falcão: “Alckmin é a contradição a tudo que o PT fez”.

José Genoíno: “O que está em jogo é se a esquerda socialista será protagonista do enfrentamento do neoliberalismo ou se a esquerda será domesticada, domada para um projeto de melhorismo por dentro de um neoliberalismo com feição progressista”.

Dilma Rousseff, que não foi convidada para o jantar de Lula com Alckmin em São Paulo, dias mais tarde questionou o ex-presidente sobre a aliança pretendida, mas os petistas favoráveis à aliança dizem que “ela não tem mais relevância eleitoral” e pouco importa a opinião da ex-presidente contrária ao conluio Lula-Alckmin.

Em resumo, Alckmin só não será vice de Lula por questões alheias à vontade de ambos.

Difícil para os petistas engolirem o nariz de Alckmin, o mesmo nariz que torceu, muitas vezes, contra o PT, o petismo e o lulopetismo. E depois ainda enfrentarem um picolé de chuchu, sabe-se lá por quanto tempo.

Mas o morubixaba de Caetés quer assim.

Coisas da política.     

araujo-costa@uol.com.br  

Eleição presidencial: juízo, equilíbrio e diálogo

“Nem sempre fui velho como sou hoje e nem sempre fui jovem como sou hoje. Começa-se incendiário e acaba-se bombeiro. Eu inverti: comecei bombeiro, mas não quero acabar incendiário” (Tristão de Atayde, pensador católico tradicionalista, 1893-1983).

A reflexão pode nos levar à maturidade ou à certeza de que tivemos chance de trilhar caminho melhor até aqui, mas não enxergamos a indicação na encruzilhada.

Neste ano de eleições presidenciais, será necessário não só reflexão, mas cuidado para não cairmos no despenhadeiro do radicalismo, do fanatismo e da ofensa gratuita.

O que devemos colocar na urna é o voto e não a honra.

“Ao rei tudo, menos a honra” (Calderón de la Barca).

Quem está do lado contrário não é necessariamente ruim ou inimigo, apenas pensa de modo diferente.

Quem anda na contramão não significa que venha nos agredir, apenas caminha noutra direção.

Se Lula da Silva ganhar a eleição, já o conhecemos. O Brasil não vai acabar.

Aliás, se depender das sondagens dos tendenciosos institutos de pesquisas financiados pela esquerda, Lula terá 100% dos votos. Os demais postulantes não serão votados.

Se o presidente Bolsonaro for reeleito, também já o conhecemos. O Brasil não vai acabar.

A chamada “terceira via” está capengando e certamente não será realidade, a julgar pelo quadro atual, em razão da vaidade dos pretendentes. Ninguém quer ceder nada.

O ex-juiz Sérgio Moro é amador, aventureiro, inexperiente, atrapalhado, caráter duvidoso, politicamente inocente. Está à procura de foro privilegiado com receio de cair nas armadilhas do Partido dos Trabalhadores.

Mais cedo ou mais tarde vai cair nas garras dos radicais do PT e já está procurando guarida na imunidade. Vai acabar membro do Congresso Nacional, abrigo de corruptos impunes, espertos e carrapatos do dinheiro público, excetuado alguns poucos honestos que ainda gravitam por lá.

O ex-governador cearense Ciro Gomes aponta sua metralhadora giratória para todos os lados e não sai do lugar. É o que sabe fazer. É ingrato com seu guru Lula da Silva e ingratidão é um defeito terrível.

O governador paulista João Dória é pernóstico, pedante, vaidoso, moralmente indecente e politicamente inconveniente. Traiu os próprios companheiros de partido. Difícil ganhar eleição presidencial, essa ou outra. Nem os paulistas gostam dele.

No que menos João Dória pensa é no bem do Brasil. Pensa que o Brasil se resume em suas mansões, seus negócios milionários e seus jatinhos.

Os demais nomes que despontam no horizonte político são risíveis, por enquanto.

É preciso ser jovem para ter esperança no amanhã e velho para saber distinguir a diferença quanto à escolha do caminho.

O Brasil não precisa de incendiários.

Não é tempo de convocar bombeiros.

Neste 2022 o Brasil precisa de juízo, equilíbrio e diálogo.

araujo-costa@uol.com.br

O senador-holofote e outras idiotices

O presidente Bolsonaro, em mais um de seus destemperos verbais, chamou o governador do Maranhão de “gordo”, o que desagradou à turma do politicamente correto, que costuma saudar “a todos e a todas” e acha que está falando vernáculo castiço.

Há algum tempo, não muito longe, fui à missa. Costumo ir à missa. O padre, que certamente trocou os livros de gramática pelos compêndios de ideologia política, começou assim: “bom dia a todos e a todas”.

Retirei-me imediatamente. Não havia mais o que ouvir ali daquele padre. Ele deve ter faltado às melhores aulas do seminário e desprezado as preleções dos professores de português.

Se um sacerdote não entende as mínimas regras da Língua Portuguesa, como interpretar a Bíblia e os princípios teológicos?  

Flávio Dino, que é um sujeito espirituoso, levou a provocação de Bolsonaro na esportiva e o mandou ir “trabalhar”, depois de chamá-lo de “fracassado e bisonho” (O Globo, 12/01/2022).

Resta saber se o espevitado e desocupado senador-holofote Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vai entrar com uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo para Bolsonaro explicar-se judicialmente.

Neste recesso parlamentar, Randolfe Rodrigues deve estar entre a cruz e a espada: não sabe se pendura melancia no pescoço para aparecer ou se continua correndo atrás dos holofotes da imprensa lulopetista, o que dá no mesmo.

Sempre entendi que presidente da República não deve sair por aí, falando o que pensa, mormente se o que fala é besteira e geralmente é, principalmente se ao presidente falta-lhe um parafuso.

Vivi na ditadura militar.

Todos os generais-presidentes, mormente os mais “linha-dura”, Arthur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici tinham seus porta-vozes, que falavam em nome do governo.

Assim, os demais, até a redemocratização.  

Os presidentes só falavam em rede nacional de rádio e televisão em ocasiões especiais.

Bolsonaro não segue a liturgia do cargo, não sabe o que é liturgia do cargo.

Bolsonaro confunde democracia com deturpação de regras elementares.

Presidente da República não deve falar o que pensa, se pensa. No fundo, o presidente deve curvar-se à hipocrisia, àquilo que o povo quer ouvir. E o povo gosta de ser enganado.

O presidente Bolsonaro sai, por aí, falando a torto e a direito e acaba dando munição para a oposição e a imprensa, que no fundo é a mesma coisa, nesta quadra do tempo.

Os grandes órgãos de imprensa passaram a ser redutos de oposição ao governo e extensão de partidos políticos de esquerda.

Na campanha eleitoral de 2022, morreremos de tédio ou nossos tímpanos serão estourados.

Que Deus nos proteja das lorotas de Lula da Silva, das imbecilidades de Bolsonaro, do amadorismo de Sérgio Moro, das sandices de Ciro Gomes e das idiotices do governador-pavão João Dória, dentre outras temeridades.

São muitas.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté, registro de uma saudade

Em primeiro plano, da esquerda para a direita, Paulo Souto, Theodomiro Mendes, Etelvir Dantas e Adonai Matos Torres (álbum de família de Adonai)

Presumo – e é apenas presunção, nada mais do que isto – que a foto acima tenha sido tirada em campanha eleitoral no distrito de Patamuté, município de Curaçá.

Retirei dos registros dos familiares de Adonai Matos Torres no facebook e a reproduzo sem autorização da família.

Sem jactância, guardo a modéstia de ser amigo da família, com demasiado orgulho e também de ter sido amigo de Adonai e de sua dileta esposa Cleonice Pedroza Torres, honra e glória de Patamuté.

Cometi essa imprudência, em nome da história. Há outro meu amigo na foto: Theodomiro Mendes da Silva sobre o qual já escrevi muito em crônicas e artigos.

Veem-se, salvo engano: Paulo Souto, que foi governador da Bahia e senador da República (e ainda tinha cabelos); Theodomiro Mendes da Silva, que foi prefeito de Curaçá em duas oportunidades, 1973/1977 e 1983/1988; Etelvir Dantas, respeitado empresário de Juazeiro, à época dono da rede de supermercados Pinguim e aliado de Theodomiro e também deputado federal pelo Partido Democrático Social (PDS); Adonai Matos Torres, líder político de Patamuté, que foi vereador de Curaçá e figura respeitável até a morte.

A memória de Adonai, na condição de homem público, continua intacta, exemplo de correção de caráter e honestidade.

Confesso que vi, muitas vezes, Adonai brigar em defesa de sua honra. Ele não admitia arranhões à sua honra e tampouco de sua família.

Não tive condições de identificar as demais pessoas que constam na foto, pelo que peço escusas e aceito ajuda para corrigir o texto, em nome da história de Patamuté e de Curaçá.

É um registro despretensioso de saudade. Só isto.

araujo-costa@uol.com.br

Observação:

Theodomiro Mendes Filho esclarece que o evento não se trata de campanha política, mas “a chegada da energia elétrica ao distrito de Patamuté, até então era gerador movido a óleo diesel. Dr. Paulo Souto à época secretário de minas e energia do Estado e ao fundo a professora Terezinha Conduru”.

Wagner Reis esclarece que a professora Terezinha Conduru também aparece na foto e que, ao fundo, vê-se a casa dos seus avós José Gomes Reis e Donana. Detalhe: Wagner também identificou a Belina marrom de seu pai José Gomes Reis Filho.

Maria Gorete esclarece que o senhor que se encontra entre Adonai e a professora Terezinha é seu pai João Mendes de Souza (João Maroto).

Agradeço a todos pelos esclarecimentos.  

Registro de uma saudade

Da esquerda para direita: Francisco Ribeiro, Afonso Menezes, Neusa Rios, Juracy Santana e José Osório de Menezes.

Esta foto é histórica e me foi enviada pelo amigo Dr. Francisco Afonso de Menezes, que hoje se divide entre as belezas sanfranciscanas de Juazeiro e o encanto indizível de Salvador.

Aliás, em Juazeiro, Dr. Francisco Afonso foi um dos pioneiros da Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), marco do ensino agronômico da região.

Trata-se do registro de uma saudade, sem mais salamaleques, tampouco texto prolixo e extenso.

A foto registra, em Chorrochó, sertão da Bahia, ainda na juventude: Francisco Ribeiro da Silva, professor; Francisco Afonso de Menezes, engenheiro agrônomo e historiador; Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, professora e historiadora; Juracy Santana, mecânico renomado; José Osório de Menezes, pecuarista.

É possível que nesse tempo eles ainda não ostentassem os títulos com os quais exerceram suas profissões com zelo e dedicação. Eram ainda muito jovens, embevecidos com as peripécias da juventude.

É apenas um registro, uma saudade. Coisas do tempo. Ou da memória.

araujo-costa@araujocosta

Observação:

Na primeira versão deste texto, este idiota escrevinhador havia registrado que a última foto da direita é de João Bosco (Joãozito).

Embora tenha convivido com ambos, errei grosseiramente a identificação.

Entretanto, Neusa Menezes corrigiu imediatamente, pelo que agradeço.