Curaçá de lembranças e boemias

Prefeitura de Curaçá/Foto retirada do Google.

Curaçá é um município encravado no sertão da Bahia.

A sede, constituída de casas baixas, debruça-se à margem direita do São Francisco e ostenta uma beleza encantadora, por conta das paisagens e tradições nascidas em torno do rio, sua história e sua gente. Terra de marujos e ribeirinhos espirituosos.

Cidade antiga e admirada por seus filhos, aos quais me incluo, Curaçá traduz um clima cultural que seus antepassados foram sedimentando e perenizando ao longo dos anos.

Curaçá inspira, traduz paz, ternura, alegria.

O crepúsculo em Curaçá é encantador.

Como toda cidade que se preza, Curaçá também teve seus boêmios, como os tem até hoje. Um deles, José Amâncio Filho (“Meu Mano”), nascido ao apagar das luzes do século XIX, suas músicas ainda frequentam a boemia curaçaense.

Outro boêmio mais contemporâneo e sedutor era Zito Torres, inteligente e incorrigível.

Já escrevi noutra ocasião, em algum lugar, que Zito merece um monumento à cordialidade. Era gentil, humilde, atencioso, amigo, cordial.  Zito fazia da vida um turbilhão de bondade e decência.

Havia um imóvel no chamado centro histórico de Curaçá, onde se lia no frontispício, talhadas com esmero, as palavras Luar do Sertão. Não sei se ainda estão lá o imóvel e as letras. Se não continuam lá, é porque extirparam um pouco da história do município, coisa comum nos dias de hoje, em qualquer lugar.

O nome deve ter sido inspirado no clássico Luar do Sertão, do maranhense Catulo da Paixão Cearense, que um colega meu dos tempos da faculdade insistia em dizer que era cearense. Nunca consegui convencê-lo de que Catulo era natural do Maranhão. Hoje acho que era gozação dele.

Composta em 1914, a música alcançou e já ultrapassou cem anos e ainda hoje continua sendo cantada por jovens e velhos.

Catulo sustentava ser o autor de Luar do Sertão, mas a história registra uma controvérsia: o autor seria João Pernambuco, contemporâneo de Catulo.

Em Curaçá vivi parte de minha fase de jovem irrequieto, às vezes afoito com as coisas da vida, outras tantas dedicadas à reflexão e à boêmia, nas horas vagas.

Agora vêm as lembranças que invadem os dias e me trazem a saudade do romantismo daquele tempo, diverso das vicissitudes de hoje. Coisas da idade.

O mundo daquela juventude era a própria juventude. A única droga possível era a bebida alcoólica vigiada pelos pais que nos repreendiam.

O parâmetro que balizava a nossa mocidade era o respeito aos mais velhos e o desejo de ser correto perante a sociedade. Os professores eram nossos melhores exemplos.

Os sonhos eram claros, claríssimos: crescer intelectualmente para a vida, ser irrepreensível em sociedade.

Mais: nunca perder de vista que “a felicidade é o devotamento a um sonho ou a um dever”, nas lições do pensador francês Ernest Renan (1823-1892). 

Guardo nas páginas da lembrança alguns amigos daquele tempo. São tantos! Foram tantos!

Um deles, Wilson José Soares Ferreira. Muito jovem, lembro-o cantando “Último desejo”, de Noel Rosa e “Como vai você”, de Antonio Marcos, gravada por Roberto Carlos. Eu o admirava pela obediência que devotava aos seus pais, José Ferreira Só (Zé de Roque) e D. Elita Soares.

Zé de Roque e D. Elita constituíram uma das famílias mais admiráveis de Curaçá. Zé de Roque era simpático, solícito, carismático, compreensivo. D. Elisa era a sapiência, o exemplo de humildade.

O tempo passou. Passaram-se décadas.

Há algum tempo estive em Curaçá, em viagem de urgência, um tanto incógnito, porque a situação exigia e vi, intacta, a boemia em suas calçadas, nos bares por onde andei e, sobretudo, na firmeza de sua cultura. 

Detive-me, por algum tempo, em frente à antiga SCAB (Sociedade Curaçaense, Artística e Beneficente) e Rua Coronel Pombinho. Lembranças caudalosas me impulsionaram de volta à mocidade. Revisitei, em memória, Astério Xavier, Adelson Xavier, Maria Roselita e o Curaçá Hotel. 

Dei um abraço de saudade na memória de Edvaldo Araújo (amigo de constantes e contínuas farras) e Maria Almeida Araújo (D.Nenzinha), acumpliciei-me com Maria de Lourdes Lopes (Maria de Fortunato), recordei as intermináveis conversas com Herval Francisco Félix e deixei outros amigos para a próxima visita.

Do alto de minha insignificância, que não é coisa pouca, ninguém me viu transitando pelas ruas de Curaçá, ninguém me reconheceu.

Retirei-me de volta e trouxe comigo a saudade do tempo, dos amigos, do lugar.
 

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Omar “Babá” Torres e as Raízes do Cangaço

Omar Dias Torres/foto Brasil de Fato, Petrolina.

Raízes do Cangaço é um alentado livro de 360 páginas lançado por ocasião dos 83 anos do episódio de julho de 1938, em Angicos, Sergipe, que dizimou Lampião e alguns dos seus leais cangaceiros.

O autor é o jornalista e escritor Humberto Mesquita, abalizado conhecedor do assunto e cauteloso pesquisador.

O prefácio honra-nos a todos nós, filhos de Curaçá. É da lavra de Omar “Babá” Torres, que contribuiu decisivamente com as pesquisas e tem, por isto, valiosa participação no conteúdo da obra.

O cerne do livro tem como fundo as desigualdades sociais no sertão nordestino e o protagonismo e domínio dos poderosos coronéis de então. Aí – parece – estão as raízes do cangaço, tal como entendem o autor e o prefaciador.

Omar Torres diz que “o sertão nordestino é um mundo profundamente complexo e intenso, talvez por isso, fascinante e sedutor”.

O prefácio acrescenta que “as sofridas relações do homem com a natureza, a aridez das caatingas, a tristeza das secas, as alegrias das chuvas, a sólida estrutura de um poder perverso e opressor, a passividade de alguns e a violenta reação de outros, são exemplos das intensas contradições” por que vem passando o Nordeste, mais ainda, à época do cangaço.

Omar Torres estende-se para acentuar que “o autor atravessou caatingas fechadas, trilhou veredas e caminhos de uma história e de um tempo que ainda não acabou”.

O prefácio é enriquecedor e, mais do que isto, sintetiza o retrato de uma época de violência que, de resto, faz-se presente em nossos rincões nordestinos, embora em circunstâncias outras.

Na larga visão de Omar Torres, “Raízes do Cangaço nos traz o conhecimento e a compreensão de como se formou e se estruturou um poder que parece arcaico, distante e ultrapassado, porque assentado ao longo de séculos sobre a violência, a opressão e a concentração, mas também, e esse é um dos seus grandes méritos, não nos permite esquecer que essa estrutura se transforma, moderniza e sobrevive”.

Forças policiais, também chamadas volantes, cangaceiros, coronéis e coiteiros povoam sobremaneira a obra.  Esses elementos sustentaram o cangaço e com ele o medo e a violência nos sertões.

As raízes do cangaço repousam, segundo o autor, na “ação nefasta dos colonizadores que quiseram escravizar silvícolas e negros africanos”.

As desigualdades sociais teriam nascido dessa ganância, mormente para lastrear os latifúndios e viriam desembocar, mais tarde, no cangaço.

Voltando ao prefácio, Omar “Babá” Torres encerra-o dizendo: “E nós, os velhos catingueiros, continuamos aprendendo e nos conscientizando de que é importante sabermos ser enganados pela vida, convencidos de que mais vale uma esperança tarde do que um desengano cedo”.

Crédito Lampião Acesso

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Dias Toffoli, o empresário

Dias Toffoli aqui não é o ministro. É o irmão do ministro.

O Antagonista noticiou – e outros órgãos de imprensa repercutiram – que o cônego José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, ambos irmãos do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, compraram 33,33% de um luxuoso resort em Ribeirão Claro, Paraná.

A diocese paulista de Marília informou que vai afastar o cônego José Carlos de suas funções religiosas, depois do noticiário um tanto inexplicável, embora não seja proibido ser rico.

A imprensa diz que o cônego Dias Toffoli mora numa modesta casa, compatível com sua condição e humildade de religioso e incompatível com tão luxuoso empreendimento do qual ele passou a fazer parte do quadro societário.

O cônego “estará em tempo para descanso, fortalecimento espiritual, apostólico e também de estudo”, segundo nota da diocese.

É possível que o cônego esteja precisando disto tudo. E de reflexão.

É para esse famoso e luxuoso resort, frequentado por gente da elite, que o ministro Dias Toffoli (STF) costuma levar amigos para encontros de lazer.

Leia-se também:

Precisamos de um Brasil decente, onde todos sejam iguais perante a lei e não somente nas páginas da Constituição Federal.

Se o ministro Dias Toffoli (STF) se comporta segundo os artigos acima delineados, não significa dizer que esteja cometendo ilegalidade, mas amparado na legislação que assim lhe permite.

Então, a legislação carece de mudança para, no mínimo, igualar-se à decência.

Precisamos de um Brasil sem fanatismo de direita, de esquerda ou de quaisquer segmentos, mas um Brasil de todos.

É preciso que as novas gerações construam um novo Brasil.

Minha geração fracassou.

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Chorrochó, conversa de botequim

Há algum tempo vi numa rede social citação ao Bar de Nonon, em Chorrochó. A referência dizia que é “um dos melhores lugares de Chorrochó”, segundo registrava o jovem e conspícuo advogado Luiz Alberto de Menezes Filho (Betinho).

A última vez que estive em Chorrochó, passados quinze anos, o Bar de Nonon ocupava o mesmo espaço do histórico Bar Potiguar. Não sei se ainda está lá ou se mudou de lugar.

O advogado Betinho vem a ser neto de Francisco Arnóbio de Menezes, honra e glória de Chorrochó, um dos mais assíduos frequentadores do desaparecido Bar Potiguar.

Nonon, que é um senhor de respeito, deve ter mantido a urbanidade, a tradição e o bom atendimento que os clientes do Bar Potiguar recebiam.

Modéstia à parte, fui garçom do Potiguar. Garçom não é bem a palavra certa. Eu era um faz-de-conta que exercia o papel de garçom e me dou à jactância e ao vaidoso esmero de dizer que não era um garçom tão ruim assim e até metido a besta.

Neste meu caso, a modéstia dá lugar à vaidade. Guardo um pouco de orgulho de ter sido garçom do Bar Potiguar e de ter construído muitas amizades nascidas ao entorno de seu balcão.

Hoje, acabrunhado pelas dores e atribulações da vida, a memória me leva à juventude, aos melhores anos, à usança do tempo, às conversas de botequim em Chorrochó.

Toda cidade, seja metrópole ou do interior, tem o seu ponto de encontro.

São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, advogados, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.

Chorrochó, minúscula cidade do sertão baiano, também tinha o seu mais famoso ponto de encontro: o Bar Potiguar. Central, arejado, convidativo, respeitado.

Na segunda metade da década de 1960 lá despontou – e durou por muito tempo – uma espécie de sociedade irrequieta, formada de jovens, geralmente estudantes do então Colégio Normal São José, que fazia uma cidade alegre e hospitaleira.

Esses jovens, a maioria proveniente da zona rural, construíram, dentro de seus limites interioranos possíveis, um mundo entrelaçado de fantasia e realidade.

O Bar Potiguar, hoje desaparecido, era o ponto de encontro desses jovens, ávidos por atingir seus sonhos e propensos, todos eles, a trilharem o caminho do futuro em busca dos seus ideais.

O Bar Potiguar também era uma espécie de universidade de costumes. Foi lá que conheci os três homens mais valentes e inflexíveis de caráter, até hoje: Eloy Pacheco de Menezes, José Pires Filho (Ioiô) e José Eudes de Menezes (Iê).

De lá saía o conhaque para o Dr. Olinto Lopes Galvão Filho, primeiro juiz da comarca de Chorrochó e lá frequentou, mais tarde, outro juiz da comarca, Dr. Benedito José Carvalhal de Souza.

A boemia se tornou uma sadia forma de agregação de amizades que perduraram.

Muitas dessas pessoas hoje são profissionais, preocupadas com tempo e objetivo, mas inarredavelmente ligadas àquele passado de ternura e convivência responsável.

Sobressaíam-se, naquele tempo, nesse ambiente de amizade e cordialidade, uns mais jovens, outros mais experientes, como assíduos frequentadores do bar Potiguar: Juracy Santana, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, José Osório de Menezes, João Bosco de Menezes, Neusa Maria Rios Menezes, José Juvenal de Araújo, Antonio Wilson de Menezes, Geraldo José de Menezes, Maria Lenisse Oliveira Alves de Santana, Almira Marques Ribeiro, Eremita Marques Ribeiro, Antonia Marques Ribeiro, Marinalva Araujo, Raimunda Ribeiro Coelho, Ângela Maria Silva, Carlos Bispo Damasceno, Fabrício Félix dos Santos, Ernani do Amaral Menezes, José Eudes de Menezes, José Claudionor Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, José Evaldo de Menezes, Francisco Afonso de Menezes, José Jazon de Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes (Tutu), Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes, José Claudio de Menezes (Dedé de Juca) e tantos outros, alguns já falecidos, mas inesquecíveis.

A lista é extensa, mas limito-me a alguns nomes para evitar um massacre maior da saudade, pedindo vênia pela omissão dos demais.

E havia, de quando em vez, a frequência dos mais velhos, que nos deixavam mais seguros e nos amparavam em nossas fragilidades de jovens inexperientes: Eloy Pacheco de Menezes, Horácio Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra, Luiz Pacheco de Menezes, Francisco Arnóbio de Menezes, José Pires Filho, Joviniano Cordeiro de Menezes e etc. 

Surgiam presenças fortuitas e rápidas, a exemplo de Dorotheu Pacheco de Menezes.

Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião e de amigo.         

Qual a importância dessas lembranças?

A resposta talvez esteja na certeza de que foram essas pessoas que sustentaram, naquele tempo, em Chorrochó, a melhor escola que se possa ter na vida: a amizade.

Embora às vezes angustiantes, conversas de botequim também enriquecem a convivência, independentemente de jovens, velhos, trôpegos e bêbados.

A embriaguez etílica é mais filosófica do que cômica.

araujo-costa@uol.com.br

Salários atrasados em Chorrochó

De Juazeiro, bonita cidade baiana debruçada à margem do São Francisco, liga-me conhecido e querido leitor que – parece – vive perdendo tempo em ler meus textos.

Sinto-me lisonjeado por isto, embora deva entender que seria mais proveitoso ao digníssimo leitor se ocupasse seu precioso tempo com outra coisa mais importante.

Meus textos são enfadonhos, prolixos, extensos, assim dizia outro dia um amigo de minha querida Curaçá. Não exatamente com essas palavras, mas foi o que ele quis dizer. “Em tempo de internet, ninguém tem tempo para ler textos longos”, advertiu ele.

Tem razão.

Pergunta o leitor de Juazeiro se este escrevinhador sabia que a Prefeitura de Chorrochó está atrasando salários de parte dos servidores.

Não. Não sabia.

Recuso-me a acreditar que a Prefeitura de Chorrochó esteja atrasando pagamento de salários, inobstante a informação partir de fonte fidedigna, que acredito e prezo muito.

Pode ser engano. Deve ser engano.  

Chorrochó é “cidade do progresso e do desenvolvimento”, diz a publicidade oficial do município, ou pelo menos dizia, há pouco tempo, de modo que não conheço nenhum caso em que o progresso e o desenvolvimento se compatibilizem com salários e vencimentos atrasados.  

Ao contrário, qualquer instituição pública ou privada que atrasa pagamento de salários não pode ser desenvolvida, nem pode estar progredindo.

Salários atrasam por duas razões óbvias: má gestão ou dificuldade financeira. Não há outra hipótese por mais plausível que possa parecer.

Modestamente, acho que Chorrochó não passa por nenhuma dessas situações.

Todavia, não devo me alongar com esse assunto. Acho o prefeito de Chorrochó um caso sem jeito.

O homem é sábio em absorver críticas. Deixa-as todas pra lá, não dá bola para adversário e tampouco para jornalistas mentecaptos como eu, que vivem metendo o bedelho em coisas assim.

O prefeito é frio como asa de avião.

E sabe-se que vive muito bem assim, indiferente às reclamações de seus munícipes ou parte deles.  

araujo-costa@uol.com.br

Na Bahia, Ângelo Coronel aguarda o palanque

Um Estado que tem Ângelo Coronel e Otto Alencar como representantes no Senado da República só pode estar politicamente de joelhos.  

O consolo é que devemos respeitar e reverenciar a vontade soberana das urnas. Sempre.

Assim como os demais estados, a Bahia é representada por três senadores. O outro é o petista Jaques Wagner, que sabe tudo de esperteza política.

Sindicalista, Jaques Wagner deve ter aprendido tudo de velhacaria nas greves dos petroquímicos de Camaçari e nos efervescentes gabinetes sindicais, que também foram eficientes escolas de Lula da Silva.

Os sindicatos sempre foram bons negociadores. Por isto, Lula soube negociar tão bem as maracutaias que implantou nos governos petistas. Assim como Lula, Jaques Wagner é exímio negociador.

Em ano eleitoral – 2022 – outra comissão parlamentar de inquérito vai frequentar as páginas da imprensa. Desta vez é a CPMI (mista, deputados e senadores) das Fake News.

O presidente da próxima CPMI-Palanque, que já está instalada há algum tempo, é o senador Ângelo Coronel (PSD-BA).

Ângelo Coronel é aquele mesmo senador acusado de ter sido agraciado com polpudo valor proveniente do tão criticado orçamento secreto de R$ 40 milhões em emendas, que o governo Bolsonaro instituiu – ou manteve o que já tinha sido instituído – para adoçar a boca de parlamentares vendáveis e dar sustentação à base governista no Congresso Nacional.

Ângelo Coronel é aquele mesmo senador que, em delação premiada homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), a desembargadora Sandra Inês, afastada do Tribunal de Justiça da Bahia, em razão da prática de supostos crimes no exercício da função pública, cravou a seguinte informação: Ângelo Coronel, enquanto era deputado estadual pela Bahia, teria coagido produtores rurais, e que na época “comentou-se abertamente no TJ-BA que ele tinha recebido uma aeronave como pagamento pela sua atuação”. (TV Bahia e G1 Bahia, 14/10/2021).

Ângelo Coronel já negou que tenha recebido um avião de presente e disse que vai processar a desembargadora. Então, vamos acreditar em Sua Excelência. É o bastante.

Ângelo Coronel quadruplicou seu patrimônio entre 2014 e 2018. Passou de R$ 1,5 milhão para 5,6 milhões. Em 2018 sua mansão no bairro de Stela Mares, em Salvador, estava avaliada em valor superior a R$ 4 milhões.

A aeronave não consta da lista dos bens do senador, mas sabe-se que ele tem uma empresa área de nome Jet Gold Serviços Aéreos e que se desloca em um avião particular abastecido com dinheiro público da quota parlamentar.

Como se vê, o senador baiano de Coração de Maria adora uma rapadura doce.

Imagino como se comportará a hipocrisia na CPMI das Fake News. Ângelo Coronel certamente será pressionado a pedir o indiciamento do presidente da República, ao mesmo tempo em que se beneficia de emenda parlamentar proveniente do chamado orçamento secreto.

O orçamento secreto teria sido estimulado por Bolsonaro para amaciar a opinião e o voto de parlamentares em matérias de interesse do governo federal.

Lula da Silva e o PT instituíram o mensalão. A oposição diz que Bolsonaro criou o Tratoraço.

A diferença entre um e outro é que Lula pagava os parlamentares por mês (mensalão) e Bolsonaro paga de uma só vez (emenda-tratoraço). Ou Lula é cauteloso com seus “credores” ou Bolsonaro é bom pagador.

Entretanto, com dinheiro público, não faz nenhuma diferença. Ambos escorregaram na lama.

Como se diz lá nas montanhas de Minas, “bancam o Tiradentes com o pescoço dos outros”.

A relatora da CPMI é a outrora combativa deputada Lídice da Mata, também do PSD da Bahia, que já sinalizou o caminho que a comissão vai seguir: o palanque político-eleitoral.

Como se vê, a Bahia está desmilinguindo seu caráter político.

Terminada a CPI da Pandemia, sai o opaco senador Otto Alencar, mas permanece outro na CPMI das Fake News, o não menos opaco senador Ângelo Coronel.

Jaques Wagner, político esperto, ficou de fora de ambas comissões, para ter tempo de comandar a degenerescência política e eleitoral na Bahia. Fará com êxito. 75% dos baianos apoiam o PT.

Com um peso desses (75%), dificilmente a Bahia não será afundada. Basta ver os índices educacionais e da pobreza na Bahia.

Como é de se supor, o fim da CPMI das Fake News será igual ao da CPI da Pandemia: rotos falando de esfarrapados.

E milhões de brasileiros acreditando na seriedade dos membros da CPI.

Democracia é assim. Vamos em frente. Sempre com a democracia.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: Elzeneide e a crônica difícil

Em 25/04/2015, publiquei a crônica abaixo transcrita.

Em momento muito difícil e um tanto despedaçado, falava sobre Elzeneide Monteiro Barbosa, minha amiga dos tempos do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de Curaçá.

Há algum tempo, um leitor de Curaçá me pediu que lhe mandasse cópia, razão por que peço desculpa pela demora. Invés de mandar-lhe cópia, reproduzo-a na íntegra.

Ei-la:

Desculpe-me, Elzeneide, não entendi. É muito difícil.

Você, que tanto amou sua família, os amigos, seus colegas de profissão. Amou excelentemente a vida e toda a gente de Curaçá.

Você que tanto ouviu Dave Maclean cantar “We said goodbye”, não como adeus, mas como presença de vida e tantas vezes se emocionou com Benito Di Paula cantando “Além de tudo”.

Você que tinha no coração a razão da amizade, o porquê do gostar e a essência da felicidade.

Você que tanto sorria e brilhava em seu caminhar decidido, firme, indubitável.

Logo você, Elzeneide?

Por que agora? Cadê Elzi, Elita, Edelita? Cadê seus irmãos? Cadê a saudade de seu pai Otoni e de sua mãe que você tanto amava?

Cadê seu pessoal de casa, sua descendência? Você os deixou e também a todos nós, seus amigos. Prematuramente, inexplicavelmente. Saudosamente.

Cadê seu sorriso largo, espontâneo, sincero?

Acho que você quis dizer: “felicidade foi-se embora”.

Não era assim que dizia Lupicínio Rodrigues, que tanto gostávamos de cantar, em nossa juventude, nos tempos de estudantes no curaçaense Colégio Municipal Professor Ivo Braga?    

As notícias às vezes são tristes, dilaceram, cutucam, diminuem nosso ser, alquebram a existência.

Começo e termino esta crônica assim: triste, dilacerado, diminuído. Perdi uma amiga, uma confidente, uma parte de minha história de vida: Elzeneide Monteiro Barbosa.

A vida é um emaranhado de circunstâncias. Há de tudo: tropeços, alegrias, vicissitudes, acasos, saudade, angústias e até, raramente, felicidade. Mas quando chega o fim, só resta a resignação para quem ainda continua à espera do ocaso.  

E esta crônica não pode continuar, porque é triste, fala de um momento duro, cruel, difícil de entender. E ninguém gosta de tristeza.

Mas guardo o registro da amizade de Elzeneide: pura, sadia, inquebrantável, inesquecível.

Guardo a lembrança da sinceridade, do desvelo, da prestatividade, da ausência de maldade no viver da amiga sincera e presente em todas as horas.

A distância nunca encolheu nosso contato. Guardo o carinho, o sorriso inesquecível e também a dor do adeus.

Hoje “meu sorriso sem graça chorou” (“Ah! como eu amei”, Benito Di Paula). 

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva e Sérgio Moro

“Só quem não se interessa por nada se cansa de tudo” (Luis Goytisolo, escritor espanhol)

Conjecturar não ofende. Então, vou conjecturar. E, se me permite o leitor, vou opinar.

Dizem os entendidos em política que o ex-juiz federal Sérgio Moro quer ser candidato a presidente da República.

Não acredito.

Não consigo vislumbrar um debate eleitoral entre Lula e Sérgio Moro.

Primeiro, porque Sérgio Moro, quando estudante, deve ter faltado a todas as aulas de Português. Ele não consegue formar uma frase correta, sem tropeçar nas reticências, em bruscos cortes de raciocínio e em erros elementares de gramática.

Segundo, porque Lula tem cruel capacidade de engolir Sérgio Moro em questão de minutos, talvez de segundos, sem pestanejar e sem se engasgar, ainda mais se ele estiver com a garganta etilicamente lubrificada.

Seria desonesto colocar Lula, com a experiência, rapidez de raciocínio, malandragem política e malícia que tem, para debater com o ingênuo Sérgio Moro. Presumo que seria um massacre.

Se Sérgio Moro fosse preparado não teria feito tantas lambanças como juiz federal e como ministro da Justiça.

Exemplo claro de despreparo: O Brasil passa por essa crise política, porque nosso presidente da República não tem preparo para exercer a função com grandeza e também com as limitações a ela inerentes, por exemplo, não falar asneiras.

A dignidade do exercício da presidência da República exige certos requisitos formais, que Bolsonaro não tem, não consegue ter.

Desculpem os admiradores e defensores de Sérgio Moro, que o vêem como salvador da Pátria.

Eu não o vejo assim, nem o admiro, como não admiro Lula da Silva.

Não admirar aqui significa, tão-somente, pensar diferente. Só isto.

araujo-costa@uol.com.br

O Centrão, Bolsonaro e Lula da Silva

“Pedro Caroço, filho de Zé Vagamela, passa o dia na esquina, fazendo aceno pra ela” (Genival Lacerda, 1931-2021, paraibano de Campina Grande, in Severina Xique Xique)

O Centrão aboletou-se na butique do presidente Bolsonaro ou, melhor dizendo, agarrou-se aos cofres públicos nacionais, qual carrapato sugando o que ainda resta de seu sustentáculo alimentar.

O Centrão é um carrapato político vergonhoso. Não se sustenta em ideias, mas em dinheiro público.

Como se sabe, o que se convencionou chamar de Centrão é um grupo de políticos inescrupulosos, formado basicamente de parlamentares fisiologistas, corruptos muitos deles, que disputam regularmente as eleições em seus estados, com o intuito de abarrotarem seus bolsos de dinheiro público.

Lula da Silva, que conhece as entranhas do Centrão desde sempre – o grupo participou de todos os governos petistas – passa o dia nas esquinas políticas acenando pra ele, de olho nas urnas de 2022 e na butique valiosa do dinheiro público.

Lula viu o Centrão nascer no Congresso Nacional. Sabe tudo de Centrão, desde a Constituinte de 1987-1988.

Na Bahia, por exemplo, Lula está à vontade. O Partido Progressista(PP), núcleo do Centrão, está com Lula, como sempre esteve. É uma mistura entre petistas e progressistas, todos se engalfinhando silenciosamente com o intuito de continuarem mamando nas tetas do governo da Bahia.

Experiente, Lula sabe que essa mistura confusa lhe faz bem e que o peso do voto na urna é o mesmo, tanto faz se do eleitor paupérrimo dos distantes rincões do Nordeste, do eleitor do elegante Jardim Europa, em São Paulo ou do eleitor do Corredor da Vitória, em Salvador.   

O vice-governador da Bahia, João Leão (PP), disse que “o PP está com Lula em qualquer posição”. Só não disse qual a posição mais confortável ou se isto não faz diferença.

O vice-governador baiano foi prefeito de Lauro de Freitas e deputado federal por cinco mandatos. Entende tudo da arte de encostar nos cofres públicos.

Raposa política, para não melindrar os progressistas da Bahia que apoiam Bolsonaro, em recente entrevista à rádio A Tarde, de Salvador, Lula disse: “Estou vendo agora Bolsonaro dizer que vai dar um auxílio emergencial de R$ 400,00 que vai durar até o final do ano que vem e tem gente dizendo que não pode aceitar, porque é um auxílio eleitoral. Não, eu não penso assim”.

Vislumbrando as urnas de 2022, Lula sabe que, se for contra o auxílio emergencial de R$ 400,00, mesmo que insuficiente, fica mal com o eleitorado que necessita do auxílio, única renda de milhões de brasileiros.

Em última análise, se contra, Lula estaria criticando o próprio Bolsa-Família, que é o sustentáculo do PT no Nordeste e razão de sua superioridade eleitoral em todos os estados da região.     

No frigir dos ovos, se ainda restarem ovos nesta crise política e pandêmica, o Centrão ficará com quem lhe oferecer mais, Lula da Silva ou Bolsonaro.

Quando não interessa mais a posição que ocupa, o Centrão muda de lado, acintosamente. E começa tudo de novo, independentemente de quem esteja no poder.

O Centrão não gosta do Brasil.

O escritor e diplomata sergipano Gilberto Amado (1887-1969) disse uma frase lapidar, que vale até hoje: “Quem não gosta do Brasil não me interessa”.

Essa frase vale como reflexão na hora de votar.

araujo-costa@uol.com.br  

Demerêncio, a revista e o prefeito de Curaçá

Demerêncio é um desmerecido, humilde e esquecido morador da caatinga de Curaçá.

O telefone tocou logo cedo, como de costume. Demerêncio gosta de reclamar e foi logo reclamando.

– Nunca mais vou procurar o prefeito de Curaçá.

Este escrevinhador quis saber as razões de tão radical decisão e ele foi explicando, um tanto chateado:

– Toda vez que vou à Prefeitura procurar o prefeito ele nunca está e um funcionário informa que o “prefeito foi a um enterro”. Se eu continuar indo lá e o prefeito continuar indo “a um enterro”, ele vai enterrar muita gente e eu não quero isto.

Demerêncio reclamou que a última vez que a Prefeitura mandou uma máquina limpar sua pequena barragem foi no governo de Carlinhos Brandão, que lhe deu muita atenção por intermédio de José Valberto Matos Leite, que não procurei saber se à época era ou não vereador.

Portanto, faz muito tempo, exatamente porque Demerêncio não consegue ter acesso ao prefeito ou ao secretário da área que cuida do assunto, se é que tem secretário da área que cuida do assunto ou outra pessoa que se digne dar atenção ao Demerêncio.

Tento argumentar. Todo prefeito é assim mesmo. Bons para uns (sempre para os amigos) e ruim para outros (geralmente para o restante da população).

Procuro amenizar a decepção de Demerêncio e perguntei:

Já falou com o vereador que você apoiou?

– Imagine, disse Demerêncio. Na campanha, quando candidato, ele apareceu lá em casa, jogou uns quais-quais na orelha de minha mulher, ela acreditou e acabou votando nele e eu também. Depois de eleito o sujeito nunca mais apareceu no meu terreiro.  

Agora leio que uma revista de circulação nacional aponta a administração do prefeito de Curaçá como sendo uma das melhores do município, da região e, quiçá, do Brasil, “referência em gestão política”.

Feito extraordinário! É difícil se vê prefeito tão bom assim, em qualquer tempo.

De início, pensei se tratar de uma montagem ou matéria paga, gozação da oposição ou coisa que o valha.

Vasculho as redes sociais e a matéria está lá, estampada, comentada, elogiada, inclusive na página do prefeito.

Descarto a hipótese de matéria paga. O prefeito não faria isto, não tem verba publicitária para isto, o município não tem dinheiro para fazer isto.

Há outras prioridades. Não é o momento para vaidades.

Diante disto, pensei. Agora vou desmascarar o Demerêncio. Onde já se viu falar mal do prefeito de Curaçá?

Homem tão eficiente, tão competente, tão atencioso, que atende todo mundo que lhe procura na Prefeitura, tão bom administrador!

Desta vez, a iniciativa da ligação foi minha.

– Tá vendo aí, Demerêncio? Você reclama de barriga cheia. O prefeito de Curaçá é o melhor. E fui enumerando os feitos do alcaide-mor de meu altaneiro Curaçá.

– A estrada de Barro Vermelho a Patamuté está um brinco, assim como as demais estradas que ligam a sede aos povoados, distritos e fazendas;

– Não há lixo acumulado, nem espalhado, nas ruas de Curaçá;

– Não há esgotos a céu aberto na sede do município;

– Todas as ruas da sede, incluindo os bairros, estão calçadas e recapeadas;

– A situação do lixão de Curaçá está resolvida e não se fala mais nisto;

– As aguadas dos pequenos sitiantes e agricultores são desassoreadas com frequência e regularmente;

–  O prefeito recebe e atende, sem distinção, qualquer munícipe que o procura na Prefeitura;   

E citei uma infinidade de feitos estrondosos da Prefeitura e do prefeito. Coisas de fazer inveja a qualquer município desenvolvido. Está aí o recorte da revista para não deixar dúvida.

Notei que Demerêncio silenciou e, de repente, passou a repetir a mesma pergunta a cada citação e argumento que eu fazia. Ele perguntava:

– É mesmo, rapaz?  

Eu continuava citando os feitos do prefeito de Curaçá e ele repetia a pergunta:

– É mesmo, rapaz?

No fim da conversa, impacientou-se com minha defesa do prefeito e sapecou:

– Vai gozar de outro!

Bem feito para mim. Quem manda acreditar em tudo.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

O nome do munícipe foi substituído ficcionalmente por Demerêncio, por questões óbvias.