O ministro e o padre

Em recente artigo na Folha de S.Paulo, o ministro Ricardo Lewandowiski, do Supremo Tribunal Federal, ao discorrer sobre a crise política e as iminentes manifestações previstas para 7 de setembro vindouro,  acaba alertando sobre a inconveniência da impunidade quanto a eventuais transgressores da ordem constitucional.

Titulo do contundente artigo do supremo ministro: Intervenção armada: crime inafiançável e imprescritível.

Admiro muito o ministro Ricardo Lewandowiski. Foi meu professor na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, quando seus cabelos ainda não tinham sido tingidos pelo tempo e numa época em que o Brasil tinha juízo.

Mestre preocupado com o andar da sociedade e com aquilo que o Direito podia fazer por ela, Lewandowiski brilhava na cátedra e entusiasmava todos nós, seus discípulos. Seus cabelos esvoaçavam à semelhança do poeta baiano Castro Alves.

Qualquer aula de Lewandowiski era memorável, inesquecível, enriquecedora.

Contudo, hoje o ministro Lewandowiski me faz lembrar a história do padre bonito.

Mulheres iam à missa com o intuito de purgar seus pecados, mas quando se deparavam com o padre, diziam que era impossível não continuar pecando, ainda que por pensamento, tamanha a beleza do sacerdote celebrante, já que por palavras e obras não podiam pecar.

O ministro Lewandowiski abomina a impunidade como todos nós, mas  peca, neste particular, pelo apego à teoria e ao excesso de formalismo doutrinário.

Vejamos.

Reiteradas decisões do Supremo Tribunal Federal ou reflexos delas, muitas com o voto de Lewandowiski, mandaram para a rua mais de uma centena de ricos, magnatas e famosos delinquentes que a Lava Jato mandou para os presídios por corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e outros delitos mais, todos adstritos à dilapidação dos cofres públicos.  

Recente notícia veiculada na imprensa diz que, dos sentenciados pela Lava Lato – cerca de 140 ou perto disto – mesmo considerando os exageros da operação, somente está preso Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro.   

Pergunta-se:

Todos os demais são inocentes ou foram alcançados pela impunidade?

É justa a justiça tardia, quando os crimes já prescreveram?

Deixá-los soltos não é impunidade?

É elementar e óbvio que todos os brasileiros devem respeitar nossas instituições.

Devemos respeito ao Poder Judiciário como um todo e, por extensão, ao Supremo Tribunal Federal e aos seus supremos ministros.

Mas é preciso ponderar, sem excluir a obediência às normas legais e às instituições nacionais que o Brasil construiu.

Em respeito ao Direito e à democracia, não podemos admitir que a impunidade preocupe o insigne magistrado Lewandowiski somente em relação a eventuais manifestantes discordantes nas ruas e, ao contrário, se transforme num manto aconchegante e protetor para amparar ladrões do dinheiro público.

Pecar em razão da beleza do padre, como as beatas, é admissível. Mas pecar por conivência com o mal feito é, no mínimo, trair o Brasil, independentemente das leis.

A moral fala mais alto, não é, ilustre professor Lewandowiski?

araujo-costa@uol.com.br

Lula quer amordaçar a imprensa

“Os desenganos vão conosco à frente e as esperanças vão ficando atrás” (Celso Furtado, 1920-2004)

Em espalhafatosa entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador, Lula da Silva desenterrou seu desejo de instituir a censura no Brasil.

A repercussão foi imediata e negativa para Lula, nacionalmente. Vista como sinal de censura à imprensa, a fala do ex-presidente não caiu bem.  

A ideia é sustentada por Franklin Martins, ex-guerrilheiro comunista do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), de extrema-esquerda, que em ação armada com a Aliança Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, sequestrou o embaixador americano Charles Elbrick em 1969 e provocou um quiproquó danado na ditadura militar.

Exilado, Franklin Martins fez curso de guerrilha rural em Cuba e hoje integra a elite abastada da esquerda do Brasil. É um esquerdista que adora dinheiro público, mas esta é outra história.

Franklin Martins foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do segundo governo Lula entre 2007 e 2010 e agora cuida da comunicação da embrionária e possível candidatura presidencial de Lula em 2022.  

Quando chefe de comunicação do governo Lula, Franklin Martins engendrou um projeto de regulação da imprensa, que não prosperou em razão de pressões contrárias de setores da sociedade.

Mais tarde, D. Dilma Rousseff, sabiamente, desestimulou a desastrada iniciativa do ex-guerrilheiro atabalhoado.

Como se vê, Lula não desistiu do projeto ou não querem que ele desista. O morubixaba petista quer implantar o modelo de Cuba, embora negue.

Em Cuba, que Lula da Silva e os petistas menos moderados se espelham, funciona assim: o Partido Comunista controla os sindicatos, as associações de bairro, as entidades profissionais e artísticas, inclusive teatros, assim como editoras de livros e toda forma de manifestação cultural.

Imprensa livre não existe em Cuba. A imprensa é monopolizada pelo Comitê Central do Partido Comunista e, portanto, a notícia é viciada e publicada de acordo com a vontade dos governantes da Ilha.

Cuba tem uma população de 11 milhões de pessoas. O Partido Comunista tem 700 mil filiados e forma, compulsoriamente, os Comitês de Defesa da Revolução. Esses comitês, são os “olhos e ouvidos da revolução”. Assim dizia o líder Fidel Castro, que foi amigo pessoal de Lula da Silva e seu mentor político.

Os Comitês de Defesa da Revolução vigiam intelectuais e população em geral. Eventuais protestos são punidos com a perda de emprego dos participantes e familiares e com o cancelamento dos restritos direitos civis que ainda restam por lá.

O jornalista Franklin Martins quer que a imprensa do Brasil se transforme numa extensão do Partido Comunista de Cuba e quintal de Lula da Silva e publique somente o que for de interesse dos petistas e de seus seguidores.

Lula da Silva foi claro na entrevista à Rádio Metrópole. Disse textualmente: “Estou conversando com muita gente, ouvindo muito desaforo, leio muito a imprensa e tem setores da imprensa que não querem que eu volte a ser candidato porque, se eu voltar, vou regular os meios de comunicação desse país”.

Daí, não é exagero concluir que, se a imprensa estiver de acordo com ele e apoiar sua candidatura, não será necessária a regulação.

Ato falho ou sincericídio, o fato é que Lula escorregou politicamente.    

Lula de quando em vez dá uma recaída em seu viés autoritário.

É conhecido o episódio de 2004, quando Lula exigiu a expulsão do jornalista americano Larry Rohter, do The New York Times, porque o profissional publicou uma matéria naquele jornal dizendo que o então presidente tem preferência por bebidas alcóolicas, ou seja, gosta de umas canjibrinas, o que passa longe de ser inverdade.

Ao ler a matéria, Lula deu murros na mesa, exigiu a expulsão do jornalista, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu um salvo-conduto para que o profissional americano permanecesse no Brasil e a turma do “deixa disso” convenceu Lula a abandonar a ideia de expulsão.  

O advogado e ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomaz Bastos, teve papel fundamental para debelar a crise de estrelismo do então presidente da República.

Contudo, a rigor, Lula não tem pinta de ditador, não tem jeito de ditador. De vez em quando ele pensa que é Deus, mas depois passa.

Lula gosta mesmo é de lorotas e embromação, sua especialidade. É um sujeito divertido, apaixonado pelo poder.

O estorvo que acompanha Lula é a presença dos radicais do PT ao seu redor, os monstros que ele criou e foram responsáveis pelos seus tropeços morais à frente do governo da República.

Mas Lula não vive sem eles.     

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Jânio Quadros, 60 anos da renúncia

Jânio Quadros/Crédito da foto: Jânio Quadros Neto

“A conspiração está em marcha, mas vergar eu não vergo” (Jânio Quadros, 1917-1992)

Dia do soldado, 25.08.1961: Sob a égide da Constituição de 1946 e eleito em votação histórica com 48% dos votos, Jânio da Silva Quadros renunciava à presidência da República, depois de participar da solenidade militar em Brasília.

Assim como hoje, o Brasil estava em crise, experimentando momentos de turbulência política, incompreensão generalizada e incapacidade dos homens públicos de resolverem os problemas nacionais.

Jânio Quadros alegava que o Congresso Nacional e a elite política não o deixavam governar.  

Naquela quadra do tempo – 1961 – a situação era menos grave. O Supremo Tribunal Federal não se imiscuía em política partidária, como hoje, nem se envolvia em assuntos privativos do Legislativo.

Ministros do STF não se reuniam às escondidas com líderes políticos. Os ministros do Supremo Tribunal Federal eram magistrados mesmos, o que conferia grande respeitabilidade ao tribunal e à nobreza da toga.

Mas Jânio preferiu sair.

Conheci Jânio Quadros, frequentei sua casa em São Paulo e fiquei impressionado com sua altivez e firmeza de caráter, qualidades que faltam nos políticos de nosso tempo.

“Não nasci presidente da República. Nasci sim, com a minha consciência. É a esta que devo atender e respeitar”, disse Jânio. E foi embora.

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Os hipócritas da CPI do Senado

O rabo de palha do senador amazonense Omar Aziz ainda não pegou fogo porque no Amazonas tem muita água.

Presidente da CPI da Pandemia no Senado, Omar Aziz (PSD) arrasta nas costas uma tenebrosa investigação na Polícia Federal por desvio de dinheiro público da saúde, quando governador do Amazonas. 

Três pessoas da família de Omar Aziz, que ele omite, foram presas – e depois soltas – acusadas de participarem do esquema, mas ele escapou do xilindró, por enquanto, porque tem foro privilegiado, o famoso foro por prerrogativa de função. É senador, está acima de qualquer pessoa pobre, por isto, o Poder Judiciário lhe beneficia e o coloca no pedestal.

Alguém duvida que o Supremo Tribunal Federal vá declará-lo inocente?

Outro, que não pode passar perto do fogo é o honestíssimo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Este, petista enrustido, acima de qualquer suspeita e, como Lula da Silva, nascido no município pernambucano de Garanhuns.

O Núcleo de Jornalismo Investigativo da Record TV, tendo à frente o premiado repórter investigativo Tony Chastinet, descobriu algumas façanhas do espevitado senador do Amapá, no mínimo cabeludas, dentre elas, esta: ele recebeu do seu chefe de gabinete no Senado Federal, da mulher deste e do filho, expressiva quantia em dinheiro.

Rachadinha?

Não, que é isto?

O senador Randolfe Rodrigues é honesto. Ele vive condenando a prática de rachadinhas e, convenhamos, não está errado em condenar.

Mas seria Randolfe Rodrigues discípulo do colega senador Flávio Bolsonaro, acusado da prática de rachadinha?

Dentre as façanhas honestas de Randolfe Rodrigues está o fretamento de um avião por R$ 8,9 mil, pago pelo Senado Federal, sábado, 08 de maio de 2021.

A aeronave com capacidade para seis pessoas fez o trajeto ida e volta entre a capital Macapá (AP) e o município de Almeirim, no Pará.

Ocorre que, como se sabe, os senadores não trabalham de sexta a segunda, exceto em situações especialíssimas. E preguiçosos não trabalham, nem em situações especiais.

Logo, Sua Excelência Randolfe Rodrigues não estava a serviço, num sábado, para justificar o fretamento do avião para viagem tão longa com seis pessoas a bordo.

Turismo?

Que é isto? Randolfe Rodrigues é honesto.

Mais: Randolfe Rodrigues, que havia usado verba pública para pagar R$ 561 mil a uma produtora de filmes para fazer sua campanha ao Senado em 2018, agora contratou a mesma produtora para fazer propaganda de sua atuação política e, por esse serviço, pagou R$ 16,3 mil.

Agora em julho de 2021, Randolfe Rodrigues contratou uma empresa de pesquisa para avaliar sua atuação na CPI, por R$ 15 mil, ou seja, para saber como está sua imagem diante dos holofotes.

Quem pagou? O Senado Federal, evidentemente.

Não, não foi o Senado. Fomos nós, pagadores de impostos.

Todavia, tanto Omar Aziz quanto Randolfe Rodrigues são políticos honestos e cuidam bem do dinheiro público, assim como Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI.

Esses são os hipócritas da CPI, que parte de nossa sociedade e da grande imprensa os enaltecem.

Observação 1:

Para quem está lendo a palavra rachadinha pela primeira vez, explica-se como funciona: o político contrata um auxiliar, geralmente com salário alto. Ao receber o pagamento mensal, o auxiliar devolve parte do salário para o político/patrão. Isto é previamente combinado entre eles e há casos em que o contratado não trabalha, mas recebe o salário.

Como se trata de dinheiro público, a prática configura-se delito previsto nas leis penais. 

Observação 2:

A CPI do Senado é necessária e deve investigar e pedir a punição dos envolvidos em falcatruas, seja presidente da República, ministros, auxiliares, etc.

Mas a CPI deve ser composta de senadores de boa reputação, honestos, sem mácula, moralmente irrepreensíveis.

Não é o que se vê na CPI da Pandemia.   

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Página dispersa de Patamuté

Otaviano Matos Filho/Álbum de família

Palmilhei da juventude à maturidade e, por consequência, à velhice, sempre respeitando os mais velhos e atento aos seus exemplos. Coisa do passado. Hoje não é mais assim.    

E nessa constância, aprendi a admirar algumas pessoas, mormente em minha terra.

Otaviano Matos Filho que, por óbvio, o nome indica, era filho do major Otaviano Ferreira Matos, fez parte de uma estirpe de valor e tradição que se arrastam desde o coronel Galdino Ferreira Matos.

O pai Otaviano Matos, major da Guarda Nacional, uma honraria instituída pelo Império não necessariamente militar e o avô Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté, deixaram os rumos em que se estruturou a construção de sua esteira familiar.

Otaviano Matos Filho foi casado com a professora Ana Mendes Vital Matos que, à semelhança do marido, provém de outra referência de Patamuté, Francisco Ferreira Vital (Chiquinho Vital), senhor culto, atencioso, educado, respeitador, exemplo de caráter.

Guardei seus ensinamentos voltados à moral e aos bons costumes que, confesso, ainda não consegui segui-los à risca.

O esteio familiar de ambos – Otaviano Matos Filho e Ana Mendes Vital Matos – é rico, embora considerações mais detalhadas limitem-se aqui, por conta da ignorância deste escrevinhador. O caminho histórico dessas famílias é rico e brilhante o legado deixado à história de Patamuté.

O que se sabe – e isto é sobejamente conhecido – é que Patamuté foi estruturado também sobre as bases dessas famílias, que acrescentaram, em muito, grandes feitos à história e às tradições do lugar.

Otaviano Matos Filho e seus irmãos, embora de formação urbana, viveram basicamente da pecuária, que se sustentava na tradicional Fazenda Papagaio, nos arredores de Patamuté, hoje uma espécie de relíquia rural ainda em mãos de descendentes da família Matos e Brandão.

Esse registro é fundamental para lastrear a referência aos demais irmãos de Otaviano Matos Filho e situá-los em sua constelação familiar: Cleómenes Brandão Matos (Quezinho), Marieta Matos, Belaniza Matos Torres Leite (Nizinha), Osmário Matos Torres, Adonai Matos Torres, Haidê Matos (Dezinha) e outros que, eventualmente, minha memória não alcança e que, por isto, penitencio-me diante das críticas.

Sustentado no propósito de não mutilar a história de Patamuté – e se instado a fazer por sugestão de algum leitor – o blog acrescentará outros nomes, se aqui omitidos.

Portanto, este blog é receptivo a críticas e sugestões.

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Em Chorrochó, uma cerca no meio da rua

“No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra”

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Ao contrário da pedra no caminho do poeta mineiro de Itabira, em Chorrochó, poeticamente, existe uma cerca no meio da rua ou, pelo menos, dizem que existe, se não for ilusão de ótica.

Redes sociais mostraram a rua e a cerca, estrategicamente fincada, à semelhança de um monumento à vida de nosso sofrido agricultor.

Para nós, nordestinos, as cercas dizem muito de nossa vida esturricada e sofrida. Elas nos amparam de muitos transtornos.  

O que não costumávamos era fazer cercas no meio das ruas, em perímetro urbano.

Chorrochó inaugurou esse ineditismo e dizem que a cerca estava lá, até ontem.

Não sei quem chegou primeiro, se a rua ou a cerca, mas o fato é que ambas estão lá e –parece – há moradores da rua que estão incomodados, tanto que alguém foi até um programa de TV e contou a história.

A Rua Aureliano da Costa Andrade, onde dizem que fica a cerca, é um tributo ao primeiro prefeito eleito de Chorrochó, que governou no período de 1955/1959.  

A história registra que Eloy Pacheco de Menezes foi Gestor dos Negócios Municipais, logo depois da emancipação e instalação do município e, portanto, tinha a função de estruturar os serviços municipais, de modo que o primeiro prefeito eleito foi Aureliano da Costa Andrade.

Mas esta é outra história. Assim está registrada.

O fato é que a cerca está lá, disputando galantemente espaço com a rua, pelo menos é o que mostram as imagens que circulam por aí.

Não me atrevo a criticar o alcaide-mor de Chorrochó, neste particular, mesmo porque Sua Excelência deve ter razões plausíveis para manter a cerca ou as posturas municipais assim o permitem.

Se, de fato, a cerca estiver lá – e parece mesmo que está – é porque o prefeito, seu secretário da área e as equipes que os assessoram acham normal e, logo, este humilde escrevinhador não pode achar anormal.

Ou a Prefeitura não tem dinheiro para indenizar o proprietário da cerca e desobstruir a rua.   

Cumbuca esquisita essa. Pode ser um atrativo turístico para Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br        

Curaçá: Colégio Ivo Braga, “Babá” Torres e outras anotações

Quem luta com palavras sempre vive consultando alfarrábios e observando o dizer da vida.

O cronista às vezes se vê saudosista, outras tantas se basta na condição de curioso com as artimanhas do tempo.

Andei remexendo nalguns cartapácios e me deparei com anotações já amareladas pelo tempo noticiando o aniversário do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de Curaçá.

Já se vão, por aí, cinquenta e nove anos de existência do Colégio. O Ginásio Municipal de Curaçá foi fundado em 06 de agosto de 1962. Mais tarde evoluiu para Colégio Municipal Professor Ivo Braga.

Em 2012 realizaram-se as comemorações do cinquentenário da escola. O ponto mais alto, sem dúvida, foi a merecida homenagem prestada na ocasião ao seu fundador, Dr. José Gonçalves, ícone da história de Curaçá. 

À época li o pronunciamento de Omar “Babá” Torres, aluno da primeira turma daquela instituição.

Discurso inteligente, essencialmente histórico e, sobretudo, fiel aos fatos. Babá fez um apanhado desde o nascedouro do Ivo Braga, citou o teólogo francês Jacques Bossuet (“no universo, poucas coisas são maiores que os grandes homens modestos”), o poeta português Fernando Pessoa (“eu sou do tamanho do que vejo”), o dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre os homens que lutam por toda a vida (“estes são imprescindíveis”) e por aí discorreu, competentemente, erguendo sabedoria, conduta, aliás, absolutamente compatível com o proceder de um filho de Durval Torres.

Sabem todos os que admiram Babá – aos quais me incluo – que ele tem o dom de expressar-se humildemente. E nunca é demais lembrar que a humildade é uma característica dos sábios.

A peça oratória de Babá nas comemorações do cinquentenário do Ivo Braga é mais que um discurso. É um templo da história de Curaçá. Deve figurar, doravante, nas bibliotecas e arquivos do Ivo Braga, para servir de parâmetro tanto para seus alunos e jovens de hoje quanto para as gerações futuras.

É um exemplo de como a persistência dos sonhos pode transformar uma sociedade e como “a abnegação, firmeza de ideal e capacidade de doação”, qualidades tão escassas no mundo de hoje, podem dignificar a história de um povo.

Imaginemos as condições adversas, políticas e práticas, enfrentadas pelo fundador do Ivo Braga como, em minúcias, Babá as enumerou em seu pronunciamento. Isto, numa época, quando tudo era difícil, inegavelmente mais difícil.

Somente um caráter de espinha inflexível como o de Dr. José Gonçalves sustentaria o esteio para segurar a firmeza do ideal que abraçou.

Curaçá seria outro, certamente com cultura mais tênue, se não houvesse o Colégio Ivo Braga. Nesses cinquenta e nove anos ele plantou sementes que germinaram abundantemente.

Muitos dos curaçaenses começaram ali sua história de vida. Embora ainda tropeçando nas pedras do meu caminho e empoeirado em razão das constantes quedas, também comecei no Ivo Braga a vislumbrar outros horizontes que me foram indicados por insignes mestres, a exemplo de Dr. Pompílio Possídio Coelho, Dr. Jaime Alves de Carvalho, Terezinha Conduru de Almeida, Lenir da Silva Possídio, Excelda Nascimento Santos, Noêmia de Almeida Lima, Maria Auxiliadora Lima Belfort, Dionária Ana Bim, Herval Francisco Félix e tantos outros.

Naquele tempo os alunos viam os professores como bons exemplos de vida a seguir e o colégio era o orgulho de todos que o frequentavam. Éramos assim, jovens e sonhadores.

Hoje, muitos de nós continuamos sonhadores, porque os sonhos balizam o prosseguimento da caminhada.

Quanto à juventude, ela nos serviu de sustentáculo para que fosse edificada a construção de nossa vida de hoje.

O Colégio Ivo Braga se permitiu, tenazmente, continuar perseguindo os sonhos do Dr. José Gonçalves e continua sendo o esteio que sustenta a cultura de Curaçá.

araujo-costa@uol.com.br                

Becos e cabras

José Idney, leitor de origem nordestina, cobra-me um artigo que leu nalgum lugar em que falo de becos e cabras.

Confesso não me recordar, José Idney.

Minha memória esburacada tropeça aqui, ali e acolá, de modo que nem sempre encontro o que procuro em meio à bagunça de meus alfarrábios.

Mas presumo que o leitor se refere ao artigo que transcrevo a seguir, versando sobre o povoado de São José, município de Chorrochó, sertão da Bahia.

O texto foi generosamente publicado em 23/04/2013 pelo blog Chorrochoonline do não menos generoso Edimar Carvalho, rapaz de boa cepa, apaixonado pela área de comunicações e que deu certo ou vem dando certo em meu querido Chorrochó e região.

Já se vão, por aí, mais de oito anos da publicação.

Reproduzo o artigo, com algumas alterações indispensáveis exigidas pela passagem do tempo e esclareço o leitor que o texto fala da realidade da época, que hoje pode ser diferente e, portanto, pode estar desconforme os dias de agora.

Ei-lo:   

“O povoado de São José cresceu – ou tentou crescer – com a ajuda possível de seus próprios recursos, advindos, unicamente, do trabalho suado do homem do campo.

Pequenos agricultores que viviam, como ainda hoje, da cultura de subsistência, plantando feijão, milho, abóbora, melancia e batata doce, para criar seus filhos, desesperançados em razão da pobreza do lugar.

A labuta era complementada com a criação de pequenos rebanhos de caprinos e ovinos, quase sempre dizimados pelas constantes secas.

Hoje São José tem, se tanto, aproximados quatrocentos habitantes, causticados pelo sol escaldante, porque o clima lá é cruel, quente, árido, extremamente difícil de enfrentar.

Comum entre seus becos empoeirados, mais do que pessoas, eram o caminhar das cabras e o tilintar de seus chocalhos, assim como porcos e galinhas.

Mas o povoado tinha um líder político que sempre lutou por sua gente: Boaventura Manoel dos Santos.

Vereador por diversos mandatos, com altivez e extrema dedicação, contou sempre com o apoio incondicional de seu povo, que o mantinha na Câmara Municipal de Chorrochó para ser sua voz, seu refúgio, sua retaguarda. E ele, no que pôde, cuidou de São José, diuturnamente.

Para isto, Boaventura teve a ajuda e solidariedade de outro líder político de Chorrochó: Dorotheu Pacheco de Menezes. Ambos viabilizaram a professora “formada”, como se dizia à época, Maria Dias Sobrinho, dando-lhe oportunidade para morar no povoado, ensinar, abrir o caminho para as crianças seguirem em direção ao futuro em busca de novos horizontes.

Maria Dias era uma criatura humilde, reflexiva, responsável. Deixou a semente para a juventude de hoje. E o exemplo de luta.

O Colégio Estadual Maria Dias Sobrinho, embora ainda funcione em condições precárias, dá aos jovens de São José esperança, estímulo para o prosseguimento da caminhada e, sobretudo, o fundamento para a construção do caráter, espinha que deve nortear a vida de todos nós.

Salvo melhor juízo, o Colégio hoje é uma extensão do Colégio Estadual São José, da sede. 

Nenhum horizonte será possível se faltarem a persistência e a vontade de seguir avante.

Só a escola é o caminho certo.

Conheci Maria Dias Sobrinho, como eu, nascida na caatinga, ainda no início do exercício de sua profissão de mestra, enfrentando dificuldades de toda ordem, até mesmo para receber o salário.

Ainda assim, lutou, sofreu, ensinou, enfrentou a solidão do lugar.

Salvo engano, o Colégio foi fundado em 1981 e, após trancos e barrancos, autorizado a funcionar somente em 2005.

Todavia, pelas informações que me chegaram, ainda está às voltas com o descuido das autoridades. Faltam condições básicas para o exercício de suas atividades, falta apoio permanente ao seu corpo docente e aos alunos. Sobra omissão do Poder Público.

São José é um povoado de pessoas humildes, dignas, resistentes ao tempo e às intempéries.

É um conjunto de casas simples e rodeado pela vegetação da caatinga. Mas tem a semente para germinar o idealismo dos jovens: o Colégio Maria Dias Sobrinho”.

araujo-costa@uol.com.br

                        

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Patamuté e a construção da fé

Já se vão, por aí, um século e mais alguns anos.

A Gruta de Patamuté começou a despontar como referência religiosa em 1903, quando, segundo João Mattos, “um erudito pregador e missionário católico, monsenhor Pedro Cavalcante Rocha, achou-a tão bela que nela terminou a Santa Missão que pregava em Patamuté”.

O cruzeiro do interior da Gruta foi colocado por esse dedicado missionário, como se ali estivesse fincando os primeiros andaimes para alicerçar a construção da fé em Patamuté.

Mais tarde, ainda segundo relato de João Mattos, “em 1905, o padre Manuel Félix de Moura, então vigário da freguesia, transferiu sua residência para a Gruta e nela implantou a devoção ao Sagrado Coração de Jesus”.

Foi o padre Manuel Félix que entronizou a imagem no altar da Gruta oferecida pelos habitantes de Patamuté e, sabe-se, iniciou as romarias ao Sagrado Coração de Jesus, que perduram até nossos dias.

Mas não se pode falar sobre os festejos da Gruta de Patamuté sem associá-los ao núcleo do distrito por inteiro, base da história local e ponto de apoio para as romarias que se realizam há mais de um século, mormente em primeiro de novembro, precedidas de alvorada, cantos e de muita alegria em louvor ao Sagrado Coração de Jesus.

O coronel Galdino Ferreira Matos (1840-1930), cujos restos mortais estão enterrados na Igreja de Patamuté, teve contribuição importante na construção da história religiosa do lugar.

Com os auspícios do coronel Galdino deram-se os primeiros passos para a construção da Igreja de Patamuté, isto por volta dos primeiros anos do Século XX, iniciando-se por lá a sincronia religiosa entre o distrito de Patamuté e a Gruta.

No distrito de Patamuté, o padroeiro Santo Antonio eleva-se altaneiro e excelso; na Gruta, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus faz-se viva a cada ano e atrai fiéis da região e de outros estados.

Peregrinos e devotos que têm a fé como sustentação do único alento da vida sertaneja acorrem anualmente à Gruta de Patamuté.

Anualmente, em 31 de outubro e 01 de novembro dá-se a romaria à Gruta de Patamuté.

A tradição católica comemora em 01 de novembro o Dia de Todos os Santos, data em que, na Gruta de Patamuté, os romeiros se reúnem, participam de missas e manifestações culturais, confessam-se diante dos sacerdotes e acendem velas para significar o pagamento de promessas ou pedido de graças.

Também já é tradição os ex-votos, objetos deixados pelos romeiros na Gruta que simbolizam agradecimento e fé.

Em outubro de 2016, por decreto do frei franciscano D. Carlos Alberto Breis Pereira, 4º e atual Bispo da diocese de Juazeiro, a Gruta de Patamuté foi elevada à condição de Santuário Popular Sagrado Coração de Jesus.

A estrutura de Santuário, embora precária, sinaliza que a tradição religiosa da Gruta se fortalece e sedimenta a construção da fé iniciada pelos pioneiros: monsenhor Pedro Cavalcante Rocha e padre Manuel Félix de Moura.

Post scriptum

A linha principal deste artigo está amparada no livro Descripção Histórica e Geographica do Município de Curaçá, de autoria de João Mattos e em anotações esparsas de arquivo deste escrevinhador.

Essa descrição foi apresentada ao 5º Congresso Brasileiro de Geografia em setembro de 1916 e, como se sabe, depois publicada. O livro é um dos sustentáculos e referência da história de Curaçá.

Observação:

Fotos: à esquerda, monsenhor Pedro Cavalcante Rocha e à direita, padre Manoel Félix de Moura (crédito desconhecido)

araujo-costa@uol.com.br   

O ministro e a ética usada pelo avesso

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que preside alguns inquéritos contra o presidente da República, esteve reunido, em almoço, com os líderes da oposição Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara dos Deputados e Rodrigo Garcia, vice-governador de São Paulo, amigo e provável candidato de João Dória ao governo paulista em 2022.

A notícia é da CNN. Imagem mostra o ministro e seus interlocutores, recuados ao canto do estabelecimento, em conversa ao pé do ouvido e incompatível com o honroso cargo de ministro da corte suprema.

O competente advogado e jornalista paulista Caio Junqueira escancarou o encontro incomum e constrangedor.

O encontro deu-se em São Paulo, em dia útil – segunda, 09 de agosto – quando Sua Excelência deveria estar em Brasília trabalhando, embora seja um tanto petulante exigir que o ministro trabalhe, mesmo que paguemos seus salários e mordomias.

Dias antes, o mesmo altíssimo ministro Alexandre de Moraes, se reuniu em sua residência, em Brasília, com presidentes de partidos políticos, para pedir a rejeição da PEC do voto impresso, quando o assunto ainda estava sendo discutido na comissão especial da Câmara dos Deputados.

Aqui não se discute a sandice do presidente Bolsonaro ao defender o voto impresso, mas o contexto da reunião envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal que, por lei e dever ético, há de ficar distante de assuntos partidários.

Algumas perguntas ingênuas, já que é cediço que perguntar não ofende:

O que o ministro do Supremo Tribunal Federal, que preside inquéritos contra o presidente da República e vai julgá-lo, tem para discutir, reservadamente, com membros da oposição ao governo?

O que o ministro do STF e do TSE tem de tão estratégico para se imiscuir em assuntos privativos do Poder Legislativo?

O próprio Supremo Tribunal Federal não defende, amiúde, a independência dos poderes da República?

Mais inexplicável e, por isto, grave, é que as eleições de 2022 serão presididas por Alexandre de Moraes, que assumirá a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em rodízio regimental, razão maior para o ministro não descer à seara política e à promiscuidade partidária.

Este episódio confuso lembra o caso em que o então Procurador-Geral da República Rodrigo Janot foi visto às escondidas, atrás de grades de cerveja, num boteco de Brasília, em conversa reservada com o defensor dos magnatas donos da JBS.

Tempo depois, Rodrigo Janot estendeu tapete vermelho para tais magnatas e engendrou uma delação premiada generosa, que não previa punição para os empresários da JBS. Pior: o ministro Edson Fachin, do STF, homologou o documento.

Espera-se que, à semelhança do ex-juiz Sérgio Moro, o ministro Alexandre de Moraes não renuncie ao honroso cargo de ministro do STF, para ser ministro de eventual governo de oposição eleito em 2022.

Sua Excelência será mais útil no exercício da nobre função judicante.

Mas estamos diante da ética usada pelo avesso.

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