Os parasitas do Poder Judiciário

A história registra que o português D. Rodrigo de Sousa Coutinho, um dos homens fortes do Império, ao saber inevitável a Independência do Brasil, endereçou carta ao nosso patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e o tranquilizou: “Sobre o seu Brasil, pode estar descansado. São grandes os seus destinos”.

É que ele não chegou a conhecer nossos magistrados.

Como se não bastassem os conhecidos casos de juízes e desembargadores que vendem sentenças e se despencam moralmente no antro da corrupção, agora é a vez do Judiciário de Mato Grosso envolver-se com um assunto escabroso.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso compõe-se de 29 desembargadores que, por lei, não podem ganhar mais do que R$ 39,3 mil, que é o teto constitucional auferido por um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Assim diz a Constituição da República do Brasil.

A Constituição, ora a Constituição!

O mandamento constitucional não vale para magistrados, privilegiados e outros parasitas do poder público. Eles fazem o que bem entendem. Editam as normas para se locupletarem sob o manto da legalidade.

Em dezembro passado, cada um dos 29 desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso recebeu, além dos vencimentos, mais R$ 262,8 mil, a título de penduricalhos, tais como: verbas indenizatórias, auxílio-transporte, auxílio alimentação, auxílio moradia, auxílio saúde, serviços extraordinários, eventualidades, auxílio educação e por aí vai, até atingir a estratosférica quantia de R$ 262,8 mil, além dos vencimentos mensais das subidas e intocáveis Excelências.

Deve haver por lá auxílio-falta de vergonha, auxílio-cara de pau, auxílio-acinte à sociedade e outros mais.

Isto significa, nada mais nada menos, do que uma violenta e doída bofetada na cara dos brasileiros pobres que lutam diariamente para conseguir um prato de comida e alimentar seus filhos.

Mais: a dilapidação dos cofres públicos feita pelos magistrados de Mato Grosso aconteceu em tempo de pandemia do coronavírus e na vigência do decreto federal de calamidade pública.

Por si só o ataque aos cofres públicos é imoral e arranha sobremaneira a dignidade dos brasileiros.

A desfaçatez dos magistrados é constrangedora.

Os bolsos dos desembargadores mato-grossenses estão sendo abarrotados de dinheiro público, o que fere qualquer lógica plausível e, no mínimo, atenta contra a ética e a moralidade pública.

Os privilegiados desembargadores dizem que estão amparados em regras do Tribunal de Justiça. Regras que eles mesmos fazem.

O que pode acontecer com Suas Excelências, esses nobilíssimos e honestos magistrados de Mato Grosso?

Nada. Absolutamente nada.  

Risível  é a posição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que tem o dever de coibir esses abusos no Judiciário, embora de de lá não se possa esperar muita coisa: sinalizou que vai investigar se há irregularidades.

O Conselho Nacional de Justiça tem dúvida?

Com esses parasitas do Judiciário corroendo e demolindo as estruturas de nossa República, como sonhar com um Brasil melhor?

Como ser grande o destino de nossa Pátria?

Como evitar a fome dos miseráveis?

araujo-costa@uol.com.br

As façanhas e lorotas do governador de São Paulo

Em São Paulo, estamos jogados às traças.

O arremedo de governador de São Paulo, João “Pavão” Dória, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) sinalizou que a pandemia estava diminuindo no estado, como se ele tivesse o poder mágico de, com um gesto, espantar o coronavírus.

Em razão disto, João “Pavão” Dória (PSDB) tomou algumas decisões, todas equivocadas. Exemplos:

Permitiu que fossem desativados os hospitais de campanha no meio da pandemia e, em consequência, deixou os doentes desamparados;

Endureceu as regras da quarentena em setores econômicos que não podia endurecer;

Abrandou as regras da quarentena em setores econômicos que não podia flexibilizar;

Liberou geral a aglomeração nos dias que antecederam às eleições municipais, porque queria a população na rua para votar em seus aliados;

Escondeu da população e não publicou os dados sobre o número de mortes no estado na semana anterior às eleições municipais;

Nos dias mais críticos da pandemia, aumentou o imposto estadual (ICMS) sobre alimentos, remédios e máquinas agrícolas, que produzem alimentos para a população, dentre outros produtos;

Nos dias mais críticos da pandemia, aumentou o imposto e taxas sobre veículos automotores, inclusive usados;

Nos dias mais críticos da pandemia, tirou a gratuidade do transporte público para idosos entre 60 e 65 anos, no âmbito de sua competência estadual;

Suprimiu empregos e permitiu demissões em massa, em razão de suas decisões estapafúrdias ao fechar estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços;

O governador atraiu a ira de um sem número de prefeitos paulistas, que reclamam de sua arrogância, tendo em vista decisões tomadas sobre a realidade de municípios e regiões que ele não conhece, nunca esteve por lá;

Mandou a população de São Paulo “ficar em casa”, saiu sorrateiramente do País e foi passear nos Estados Unidos. Deu errado. A imprensa descobriu e ele teve que voltar às pressas, com cara de galo.

Fez uso e propaganda política, em seu benefício, a partir da vacina do Instituto Butantan, produzida em parceria com a China;

Resultado: hoje São Paulo já ultrapassou 50 mil mortes em razão do covid-19, média de 200 mortes por dia.

As internações estão aumentando assustadoramente e os hospitais já não dispõem de vagas em enfermarias e UTIs.

E o governador-pavão está aí, com a maior cara de pau (“cheguei, sou o máximo!”) e culpando o governo federal por tudo que acontece de ruim no Brasil para desviar a atenção de seus embaraços.

Os erros do governo federal, que são muitos, não excluem os erros do governador de São Paulo, que são monumentais.

Aqui pra nós, que ninguém nos ouça: os comentaristas do Grupo Globo, inclusive da Globo News,  não tocam nessas façanhas, lorotas e decisões erradas do governador João “Pavão” Dória, do PSDB de São Paulo.

A hipocrisia rola solta.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, tempo de festa e oração.

A Igreja Católica de Chorrochó deu início aos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

A paróquia está triste, em razão da pandemia do coronavírus que chegou a dizimar vidas em Chorrochó.

Mas a Igreja é como um lírio que brota continuamente em meio aos rudes espinhos do tempo e dos escombros das tragédias humanas.

Assim, a Igreja de Chorrochó.

Desta vez mudaram-se as formas de celebração. A  abertura da festa deu-se fora do templo, o que, de certa forma, espelhou a beleza da devoção dos chorrochoenses católicos ao seu padroeiro.

Em meio a tantas atribulações a que as populações estão envolvidas, inclusive o aumento dos índices de violência, de vez em quando o calendário da Igreja possibilita uma pausa para permitir que todos se envolvam em orações.

Em Chorrochó, portanto, realiza-se a festa do padroeiro Senhor do Bonfim. É uma oportunidade para que os católicos abandonem seus momentos de egoísmo e arrogância e deem lugar às orações, normalmente negligenciadas no dia a dia, inclusive em razão da luta pela sobrevivência.

Todos os dias durante o novenário, época de contrição e louvor, após a bênção do Santíssimo Sacramento, o celebrante desperta os fiéis no sentido de que o nome de Jesus é sempre bendito: “Bendito seja Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar!”.

É o louvor em desagravo às blasfêmias, ao indiferentismo com as coisas que dizem respeito à fé.

O celebrante pede para que Deus derrame bênçãos “sobre o chefe da nação e do estado e sobre todas as pessoas constituídas em dignidade, para que governem com justiça”.

Palavras fortes e necessárias – dignidade e justiça – sem as quais nenhum governante desempenha seu papel a contento.

A oração é uma velha fórmula adotada pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMC) do Convento da Piedade, em São Salvador da Bahia, que se estende historicamente deste o século XVII: oração pela pátria, pela Igreja e pelo Santo Padre.

Chorrochó, a exemplo de todos os lugares, padece das injunções de uma sociedade violenta, desrespeitosa, degradante, alheia às coisas da Igreja e, sobretudo, tendente à vulgaridade.

É notório que a Igreja Católica não tem conseguido manter em seu rebanho as pessoas que ela mesma batizou, em razão de seu apego a valores sabidamente ultrapassados que a Santa Sé não tem interesse em flexibilizá-los.

Contudo, não deixo de reconhecer que grande parte desse fenômeno deriva da instituição familiar, que se esfacelou de tal forma que se tornou incapaz de educar seus filhos para o caminho da Igreja.

Também é notório que a Igreja persiste em seu caminho sereno em benefício de seus fiéis.

É tempo de lembrar todos aqueles que sustentaram as colunas da Igreja de Chorrochó, quando tudo era ainda muito rudimentar e difícil: Antonio Conselheiro, monsenhor Elpídio Ferreira Tapiranga, celebrante da primeira missa em Chorrochó, em 1886, padre Manoel Félix de Moura, professora Antonina Gomes, João Alves dos Santos, professora Josefa Alventina de Menezes, padre Ulisses Mônico da Conceição, padre Mariano Pietro Bentran e todos os que vieram subsequentemente, como sacerdotes ou colaboradores.

É tempo também de lembrar os bispos da diocese de Paulo Afonso, que delinearam o caminho da fé na Igreja de Chorrochó: D. Jackson Berenguer Prado, D. Aloysio José Leal Penna, D. Mário Zanetta, D. Esmeraldo Barreto de Farias e o atual D. Guido Zendron, que adota o lema episcopal Cristo Redentor dos Homens e tem sido muito presente na vida da Igreja local.

Por fim, é tempo de reconhecer o papel das instituições Pia União das Filhas de Maria e Apostolado da Oração que dignificaram a história da Igreja de Chorrochó.

Chorrochó está em tempo de oração. Rezemos por todos nós.

araujo-costa@uol.com.br

Ditadura não, presidente.

“Na política, a coragem é fundamental. Mas não exagere” (Ulysses Guimarães, 1916-1992).

Em data recente, o presidente Bolsonaro andou misturando alhos com bugalhos – o que ele sabe fazer muito bem – e assegurou que são as Forças Armadas que definem se o País será democracia ou ditadura.

Não é por aí, presidente.

O assunto é inoportuno e o Brasil não está questionando isto. Aliás, estamos indo muito bem carregando nossa tenra democracia, apesar dos corruptos de direita e de esquerda, que ela produz.

Tentando submergir dos escombros de minha ignorância, ouso discordar do excelentíssimo presidente da República.

A democracia é definida pela soberania popular. A voz das urnas, a liberdade de escolha e a livre consciência política são os esteios, dentre outros, nos quais se assentam o regime democrático.

A ditadura, ao contrário, surge de mentes doentias, autoritárias, cruéis, incompatíveis com a convivência patriótica e com os antagonismos.

Assim, foi no Chile, de Augusto Pinochet; na Argentina, de Jorge Rafael Videla; nos países asiáticos e no mundo árabe, a exemplo da Coreia do Norte, Síria, Iraque e outros tantos.

Assim, foi no Brasil, dos marechais Castelo Branco e Costa e Silva e dos generais Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo.

Quando sinalizamos que dependemos das Forças Armadas para definirem o nosso regime político é sinal de que ainda não estamos vislumbrando o futuro, mas continuamos presos ao passado, de resto sombrio e escabroso.

As ditaduras não servem de bons exemplos. Nunca foram bons exemplos, em nenhuma época ou em quaisquer continentes.   

Nas democracias, as Forças Armadas se submetem ao poder civil; nas ditaduras elas se transformam em protagonistas da truculência e do desprezo aos cidadãos.   

As democracias sustentam a liberdade e compartilham as decisões políticas e de gestão.

As ditaduras matam, torturam, espezinham os cidadãos e suprimem seus direitos fundamentais, tornam-se senhoras da impunidade, em razão das barbáries que praticam e das regras que elas mesmas editam.

Não é por aí, presidente. Não exagere em sua coragem.

Estamos muito bem assim, convivendo democraticamente.

araujo-costa@uol.com.br

O BNDES, João Dória e Luciano Huck

Juros altos que nada!

João Dória (PSDB), o governador-pavão (cheguei, sou o máximo!) de São Paulo e Luciano Huck, apresentador da TV Globo, foram aquinhoados com financiamentos do BNDES, ainda não bem esclarecidos, para compra de jatinhos particulares da Embraer.

Tudo a juros diferenciados, de acordo com a política de fomento do banco, que eles não são de ferro.

João Dória embolsou R$ 44 milhões do banco, para financiar uma aeronave, ao passo que Luciano Huck abocanhou 17 milhões com o mesmo objetivo. E foram felizes para sempre.

Os demais brasileiros mortais comuns, quando necessitam de financiar veículos populares, recorrem aos bancos privados e pagam juros escorchantes, conforme as regras gerais bancárias, até porque não encontram guarida nos bancos públicos, tamanha a burocracia.

Mas João Dória e Luciano Huck não são mortais comuns, convenhamos.

A notícia não é nova. Esses financiamentos foram feitos em 2010, ainda no governo do PT, mas poderia ter acontecido em qualquer governo.

O governo aqui é o que menos interessa, mas o caminho que eles seguiram até chegar aos cofres do banco público.

Coincidência ou não, esses parasitas do dinheiro público, pretendem ser candidatos a presidente da República em 2022, cada um carregando a hipocrisia a seu modo. Ambos já estão cochichando.

Só pra lembrar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é uma empresa pública federal, que fomenta atividades econômicas através de financiamento a longo prazo e incentiva investimentos.

O perfil de João Dória, magnata notório e o perfil do apresentador Luciano Huck estão longe de pessoas que necessitam de financiamento diferenciado de banco público, menos ainda para a compra de jatinhos particulares.    

A mansão cinematográfica de Luciano Huck no litoral fluminense é conhecida mais em razão de um suposto drible que o apresentador deu nos órgãos do meio ambiente do que, propriamente, por ser seu sofisticado imóvel de lazer.

Luciano Huck vive explorando a miséria alheia e vendendo sonhos em seu programa de televisão global.

A dúvida é saber qual deles o Grupo Globo vai apoiar, vez que, por enquanto, o conglomerado de comunicação está apostando todas as fichas em João Dória (PSDB).

Mas ambos precisam explicar à sociedade as bases dos milionários contratos que entabularam com o BNDES.

É dinheiro público. Todos têm o direito de saber.

araujo-costa@uol.com.br

Os desatinos do jornalismo político

O jornalismo, qualquer que seja ele, há de fundar-se em fatos e não em “ouvir-dizer”, tampouco na opinião de seus profissionais.

O jornalismo político tem uma função mais nobre: mostrar a seriedade dos homens públicos e seus eventuais defeitos éticos e morais. Mas há um fio bastante tênue entre a seriedade jornalística e o viés político que pode contaminar os profissionais de imprensa. 

A rigor, não existe jornalismo político, mas profissionais que se especializam em assuntos do poder político, assim como muitos se interessam por outras áreas da atividade humana, a exemplo da economia, educação, ecologia, polícia, religião, et cetera.

Isto vem a propósito de, às vezes, leitores e telespectadores da imprensa em geral se depararem com interpretações de fatos políticos mais adstritas às tendências partidárias dos articulistas, o que, de certa forma, distorce o conteúdo da matéria e retira o brilhantismo dos profissionais de imprensa, embora muitos desses profissionais deem azo a esse caminho.  

É comum, por exemplo, redes de televisão contratarem comentaristas para avaliarem tais assuntos e aí, infelizmente, esses profissionais exageram ao defender seus veículos de comunicação e apequenam-se em suas funções de comentaristas imparciais e transparentes.

Os exemplos são muitos, claros, recorrentes e inquestionáveis.

Assim acontece também com repórteres. Muitos saem para a rua com uma pauta e retornam com informações mais convenientes à linha de pensamento dos veículos de comunicação para os quais trabalham. Isto desfigura o exercício da profissão.

Outra maneira de camuflar a verdade é omitir-se sobre assuntos importantes que interessam à sociedade, mas não interessam aos grandes grupos de comunicação, aos governos e autoridades.

O Diário do Poder publicou o vergonhoso esbanjamento de dinheiro público protagonizado pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

Rodrigo Maia usou 882 vezes aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para seus deslocamentos pelo País. Não se sabe se todas as vezes em missão oficial, que ampara o uso dos aviões.

É preciso esclarecer, a bem da verdade, que o presidente da Câmara dos Deputados tem essa prerrogativa, assim como o presidente do Senado Federal, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministros de Estado e comandantes militares.

Mas essa prerrogativa não lhes dá direito a abusos e exageros que deem origem a despesas pagas pelos contribuintes.

O Diário do Poder listou: só em 2020, Rodrigo Maia requisitou aviões da FAB 140 vezes; em 2019, 250 vezes; em 2018, 198 vezes; em 2017, 211 vezes; em 2016, 79 vezes.

Rodrigo Maia anda muito inquieto.

“Aliados de Maia atribuem seu nervosismo à iminente perda da mordomia. Deixando de ser presidente, ele terá de voltar às filas nos aeroportos”, diz o Diário do Poder.

Os comentaristas do Grupo Globo, que apoia Rodrigo Maia, que apoia o governador-pavão João Dória (PSDB), não disseram uma palavra sobre esse desperdício.

Nem vão dizer. Não interessa dizer.

O jornalismo político comete esses desatinos.

araujo-costa@uol.com.br

A Justiça e os vira-latas

O jurista Almir Pazzianotto Pinto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), foi ministro do Trabalho no governo do presidente José Sarney.

Elegante, educado, culto, inteligente, antes Almir Pazzianotto tinha sido advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje Metalúrgicos do ABC.

O presidente do sindicato à época era Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia ficado rico e nem incorporado Lula ao nome. Era simplesmente Luiz Inácio da Silva.

A riqueza de Lula veio mais tarde, depois de muito trabalho. É o único aposentado do INSS que ficou rico. Inteligência é isto e não se discute.

Na condição de ministro do Trabalho, Almir mandou redigir um documento sobre assunto qualquer de sua pasta. Documento pronto, o assessor o levou ao gabinete, para colher assinatura do ministro.

Depois do publique-se, do cumpra-se e da data, como de praxe em todos os documentos públicos, o nome pomposamente grafado: Almir Pazzianotto.

O assessor não achou muito elegante o Pinto do ministro e o omitiu na redação do documento, talvez pensando em agradar o chefe e criar um fato, uma marca no ministério. Sabe como é, puxa-saco e formiga existe em qualquer lugar.

O humilde Almir Pazzianotto correu os olhos sobre o documento e, com ar de reprovação, perguntou:

– Cadê o Pinto do meu nome?

O atabalhoado assessor não sabia como explicar a omissão de propósito, ponderou aqui e acolá, enrolou-se e acabou corrigindo e grafando o nome correto do ministro, que não abria mão do seu Pinto e, convenhamos, o ministro estava correto.

No livro O Aquário Negro (1986), o frade dominicano Frei Betto inseriu um personagem, que vivia à margem da sociedade e dizia o seguinte:

“Lembrei-me de meu pai falando que a Justiça não tardaria”.

“Prometi a mim mesmo que ia esperar a Justiça e arranjei um amigo, um cachorro vira-lata, cheio de pereba no corpo, fedorento como o diabo, mas muito bom amigo, com quem eu falava como seria o dia em que a Justiça chegasse”.

“Ele dormia comigo e comia da mesma farinha e do mesmo feijão e ele me dizia que tinha orgulho de ser vira-lata e que quando viesse a Justiça, os vira-latas iam tomar conta do mundo”.

Acho que João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo e o presidente da República Jair Bolsonaro estão rodeados de assessores à semelhança do assistente de Almir Pazzianotto Pinto, preocupados somente com detalhes sem importância e não, propriamente, com o conteúdo, o principal: o dever de governar com seriedade e decência.

João Dória vem apequenando a governadoria de São Paulo. Despreparado e pernóstico, agora se rebaixou até mais não poder e usou palavras inapropriadas na televisão contra o presidente da República, simplesmente com o intuito de firmar-se para a disputa presidencial de 2022.

Por sua vez, o presidente Bolsonaro revidou o palavreado sem freio do governador-pavão, também usando expressões inapropriadas para o elevado cargo que ocupa.

A população está definhando, centenas morrendo todos os dias, porque tanto o governo federal quanto os estaduais e prefeitos não tomaram as rédeas de suas atribuições e se descuidaram do avanço da pandemia do coronavírus.

Já falta oxigênio nos hospitais, como é o caso de Manaus, no Amazonas. Há quem esteja recorrendo à Justiça para, pelo menos, conseguir o básico: ar para respirar.

Enquanto isto, à semelhança do personagem de Frei Betto, os vira-latas que somos nós governados, aguardamos a Justiça chegar para dominarmos o mundo. Em vão.

A Justiça não chegará. Nunca chegará.

A Justiça existe para os ricos, para os afortunados, para a elite desavergonhada que dilapida os cofres públicos do Brasil, para os homens públicos inescrupulosos.

Alguns até furtaram o dinheiro destinado ao combate à pandemia do coronavírus.

Ah! Para esses a Justiça chega. Apressadamente. E os concede Habeas Corpus para se livrarem do xilindró e continuarem furtando.

araujo-costa@uol.com.br

Entre jatinhos, traições e dinheiro público.

A campanha para a presidência da Câmara dos Deputados está escancarando o que a sociedade já sabe: dinheiro público sendo esbanjado a torto e a direito, como se crise pandêmica e econômica não houvesse no Brasil e traições, muitas traições, além de promessas presumivelmente inconfessáveis em público.

Os dois candidatos declarados à presidência da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) e Baleia Rossi (MDB-SP) estão percorrendo os estados, para encontros com governadores, aliados e políticos locais, usando jatinhos particulares, geralmente modelos de oito lugares.

Segundo suas Excelências os candidatos, esses sofisticados jatinhos estão sendo pagos por seus partidos respectivos – dinheiro público do fundo partidário, portanto – mas desconfia-se que alguns conhecidos empresários estão financiando, à sorrelfa, dissimuladamente, as duas campanhas e, por certo, vão cobrar a fatura depois, cujo pagamento sairá do bolso do alquebrado contribuinte brasileiro.

Como é praxe, também acontecem traições de ambos os lados. Parte do Partido Social Liberal (PSL), que em princípio havia apoiado Baleia Rossi, rompeu o acordo e se bandeou para o ninho de Arthur Lira, o candidato do presidente Bolsonaro.

Aí surgiu no PSL uma figura estrambótica: a expulsão voluntária, ou seja, a direção do partido sinalizou que os deputados que não honraram o acordo no sentido de votar em Baleia Rossi serão expulsos da agremiação, desde que deixem o partido de livre e espontânea vontade.

É um novo tipo de expulsão, que o PSL inventou. Os humoristas gostaram.

Nesse balaio de gatos, o Partido dos Trabalhadores (PT) está apoiando o outrora “golpista” Baleia Rossi (MDB) e, na campanha simultânea para presidência do Senado Federal, este mesmo PT sinalizou que vai apoiar o candidato do presidente Bolsonaro, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Para o PT, coerência é um bicho que corre em disparada, sem nenhuma hipótese de ser alcançado pelo partido.

Só os petistas acreditam que a direção do partido está costurando esses acordos esquisitos e avessos ao pensamento da esquerda, sem nada em troca e tão-somente em nome da convivência democrática.

Diante disto, difícil descobrir o que o “golpista” paulista Baleia Rossi e o senador mineiro Rodrigo Pacheco prometeram ao PT, em troca desses estranhos e inexplicáveis apoios.  

araujo-costa@uol.com.br

Liberdade de opinião e direito de divergir

“No mesmo dia já me chamaram de bolsonarista e radical de esquerda, por desconhecidos da internet, sem nenhum conhecimento de minha história” (Fafá de Belém, cantora).

Este escrevinhador também. Alguns desinformados já me chamaram de bolsonarista e outros lunáticos dizem que sou antipetista e antilulista. Há até quem use a expressão “seu presidente” ao se referir a Bolsonaro. 

Só há uma explicação para pessoas que pensam assim: elas padecem de falta de informação e de capacidade de conviver com os antagonismos de maneira democrática. Não têm respeito às opiniões contrárias e se apegam às paixões políticas.

A liberdade de opinião e a livre expressão do pensamento são bens inquestionáveis e inatacáveis assegurados em mandamento constitucional.

Por óbvio e elementar, ninguém é obrigado a concordar com a opinião de outrem, mas também é insensato sair por aí distribuindo rótulos simplesmente porque pensa de forma contrária. Isto é pequenez de raciocínio, pensamento acanhado.

O político mineiro Tancredo Neves, conhecido articulador e defensor do diálogo entre adversários, dizia que “são as ideias que devem brigar e não os homens”, ou seja, não se devem misturar as coisas.

Lembro da conhecida frase do jornalista Reinaldo Azevedo (O País dos Petralhas), que lhe rendeu gigantescos protestos da esquerda: “Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil”.

Outrora crítico contumaz do Partido dos Trabalhadores e de seus métodos, Reinaldo Azevedo hoje deita-se esplendidamente no colo de Lula e dos petistas, o que significa dizer que as opiniões mudam, os fatos mudam, a realidade se transforma e, apesar disto, o mundo não acaba e, se vier acabar, não será por isto.

Tenho o hábito de acompanhar e comentar os fatos políticos relevantes de minha região, especialmente de dois municípios encravados no sertão baiano, que me são caros: Curaçá e Chorrochó.

É uma forma de contribuir modestamente com o debate político de lá, sem nenhuma pretensão de ofender este ou aquele grupo político ou qualquer pessoa, isoladamente.

Em razão disto, tenho recebido manifestações severas de defensores de grupos políticos locais, embora poucas, felizmente. Sou aberto às críticas, tanto que deixo meu e-mail ao final de cada texto publicado.

Essas manifestações acompanham-se de um quê de rancor incapaz de colocar-se no campo da civilidade.

Contudo, a maioria compreende meu intuito de contribuir para o debate de ideias. Logo, a maioria inteligente “captou a mensagem”, como diria o aluno do professor Raimundo.

De outro turno, esses debates, qualquer que seja o autor – e não somente este escrevinhador – contribuem modestamente para despertar nos jovens e estudantes de hoje o hábito de aprenderem a pensar, de modo que não se transformem mais tarde em massa de manobra de políticos espertos, inescrupulosos e moralmente indecentes.

Ao contrário, quando meus textos versam sobre assuntos nacionais, as críticas são mais amenas, o que significa entender que o acanhamento de ideias ainda se concentra nos pequenos municípios de nossos rincões.

Ou, num raciocínio mais amplo, o enraizamento das paixões políticas ainda não se desvinculou do mandonismo dos chefes políticos locais e da proximidade entre a troca de favores e as urnas.

Para as pessoas desvalidas e abandonadas, a promessa de um emprego público ou a limpeza de uma barragem no sertão, para saciar a sede do criatório do sertanejo, estão acima de qualquer opinião ou crítica política.  

Em resumo, o bom da democracia, dentre outros esteios, é a convivência polida com os contrários e a liberdade de opinião, sem excessos, dentro dos parâmetros permitidos por lei.

Temos o direito de divergir, em quaisquer situações.

Todavia, não custa ponderar primeiro os fatos e auscultar a verdade, antes de sairmos por aí apedrejando os outros, tão-somente porque pensam diferente de nós.

araujo-costa@uol.com  

Sobre vacinas, jacarés e escárnios

Toda asneira que o presidente da República diz – e não devia dizer – a imprensa faz estardalhaço porque, ademais, o papel da imprensa é este: informar.

O presidente Bolsonaro andou duvidando da eficácia e segurança de uma das vacinas em estudo e até levantou a hipótese do imunizante transformar pessoas em jacarés.

Evidente que se trata de uma brincadeira sem graça e inoportuna nesta quadra difícil por que a humanidade vem passando.

Todavia, a imprensa não fala de outro assunto. Parece que as besteiras que o presidente fala são mais importantes do que a seriedade dos demais problemas que o Brasil enfrenta.

Com o aumento dos casos da pandemia do coronavírus e o consequente colapso do sistema de saúde, que já se mostra incapaz de absorver e tratar os infectados, melhor que nos vacinemos, quando for possível e nos arrisquemos em ser transformados em jacarés do que faltarem cemitérios para enterrar nossos mortos e a nós próprios.

Pântanos e lagoas há muitos.

O cenário é assustador. Em São Paulo já não há vagas em hospitais.

O governador-pavão de São Paulo, que a imprensa adora e o eleva ao pedestal da hipocrisia, diz que São Paulo vai bem, sim senhor. Mas João Dória não explicou, até hoje, porque concordou em enterrar milhões de reais nos hospitais de campanha e permitiu que fossem desativados em plena pandemia.

Em todo caso, já é hora de o presidente da República deixar que seus assessores falem dos assuntos de governo, inclusive sobre campanha de vacinação e fique quieto para não fragilizar ainda mais o estado emocional dos brasileiros.

Até na ditatura militar (1964-1985) os generais-presidentes tinham porta-voz para falar em nome do governo e não saíam por aí falando impropriedades asnáticas.

Escárnio I

“Sem precisar participar de nenhuma votação e nem sequer pisar em Brasília, a senadora Nailde Panta (Progressistas-PB) poderá receber R$ 52 mil entre salários e verbas indenizatórias por apenas 15 dias no cargo, no recesso parlamentar.

Segunda suplente na chapa de Daniella Ribeiro (PP-PB), a parlamentar tomou posse anteontem, mas só deve ocupar a vaga até o dia 21 deste mês, quando a titular retorna de licença.

Mesmo assim, terá direito a todos os benefícios previstos nas regras do Senado” (O Estado de S.Paulo, 08/01/2021).

Um escárnio, um acinte a todos nós, contribuintes.

Escárnio II

A Câmara dos Deputados paga para cada um deputado a quantia de R$ 33,7 mil, a título de auxílio-mudança.

Ou seja, os deputados federais recebem esse auxílio-mudança no início e no fim do mandato, mesmo que morem em Brasília e não precisem fazer qualquer mudança.

Total da conta que os brasileiros pagam por essa maracutaia indecente: R$ 20 milhões, como ajuda de custo. Isto mesmo, ajuda de custo.

Mais um escárnio, um acinte a todos nós, contribuintes

Esta história é antiga. Só se repete a cada legislatura.

Ninguém muda. Ninguém quer mudar.

As regras são feitas pelos próprios parlamentares que delas se beneficiam.

araujo-costa@uol.com.br