A grandeza e a humildade de João Gilberto

O mistério faz parte da construção dos mitos ou, no mínimo, dá-lhes razões para crescerem à sombra das idiossincrasias nem sempre explicáveis.

Assim, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (1931-2019), ou simplesmente João Gilberto, um desses mitos construídos a partir de Juazeiro, sua cidade natal.

João Gilberto abeberou-se na cultura de Barro Vermelho, sertão de Curaçá, onde o pai Joviniano Domingos mantinha raízes culturais e nos encantos ribeirinhos do Rio São Francisco. De lá saiu para o mundo.

Esculpiu um temperamento difícil, solitário, avesso a badalações.

A fama o protegeu das vulgaridades e não lhe permitiu o apego aos holofotes. Fez o caminho inverso daquele seguido pelas celebridades ligadas à música. 

Muito já se escreveu sobre suas manias e esquisitices. São muitas, inumeráveis, algumas delas fazem parte do mito, viraram lendas.

O experiente jornalista Ricardo Noblat conta uma. Entrevista previamente marcada, o repórter ligou o gravador, para começar a conversa. João Gilberto pergunta: “Vai ligar o gravador? Olhe, não ligue não. Eu mudo muito de ideia. As coisas mudam muito, a música, os lugares…”.

Agora, a cantora Joyce, conta outra no livro Aquelas Coisas Todas.

Joyce chegou ao apartamento de João Gilberto, em Nova York e o anfitrião pediu sanduíches. Ao abrir as embalagens, Joyce notou que faltava um garfo. João resolveu a situação: “Pode pegar na lata de lixo, meu lixo só tem coisa boa”.  

Juazeiro, Rua Góes Calmon. Há alguns anos, eu conversava amenidades na calçada da Sociedade Apolo Juazeirense, uma das instituições tradicionais de Juazeiro. Do alto de minha ignorância, não sei se ainda existe e se o endereço continua o mesmo.

O assunto resvalou para João Gilberto.

Lá para as tantas, meu interlocutor ponderou que João Gilberto não visitava Juazeiro porque tinha vergonha dos alagadiços e esgotos da cidade. Maldade. João Gilberto adorava Juazeiro e dizem que até visitava a cidade humildemente, sem estardalhaço.

Já naquele tempo – década de 1970 – os prefeitos Joca de Souza Oliveira e Américo Tanuri prometiam resolver o problema dos pântanos e esgotos a céu aberto existentes em Juazeiro e João Gilberto nunca teve nada com isto. Os administradores subsequentes devem ter resolvido o problema. Certamente resolveram e aquela nódoa deve ter sido extirpada da cidade.

Talvez os esgotos nem fizessem mais parte de suas lembranças da infância vivida por lá na década de 1940. Mas Juazeiro gosta muito dele. É uma honra para o lugar. O Centro de Cultura João Gilberto está aí para atestar o amor de seu povo pelo filho ilustre.   

João Gilberto mantinha uma vida misteriosa. Vivia em reclusão voluntária.

Vizinhos de seu apartamento carioca no Leblon sempre disseram que nunca o viram e que não atendia a porta.

Sabe-se que trabalhava à noite e dormia durante o dia, normalmente até às 17:00 h. Pedia as refeições por telefone e os entregadores nunca ultrapassaram a soleira da porta. Não recebia visitas, exceto familiares e um restrito número de profissionais ligados ao seu trabalho.

Perfeccionista, misterioso, detalhista, dedicava-se solitariamente à música.

Como todo mito, ninguém o via, ninguém o tocava, ninguém o conhecia de perto. Sua grandeza residia na humildade.

João Gilberto deixou a vida e seus mistérios em 2019.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté: memória da professora Beatriz

Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes/arquivo Wagner Reis

“Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro” (José Marti, poeta cubano, 1853-1895)

Esta é uma crônica de saudade, com algum quê de envelhescência. Um olhar sobre a memória e dignidade de uma mestra na arte de educar.

Guardo, com muito carinho, um documento expedido em 10 dezembro de 1967. Trata-se do diploma de conclusão do meu curso primário na Escola Estadual de Patamuté.

Naquele tempo fazia-se o primário em cinco anos, que habilitava o aluno para a admissão ao curso ginasial, que se constituía no sonho da maioria dos estudantes pobres do sertão, inalcançável para muitos.

Hoje esse documento – diploma – apequenou-se e é comumente chamado de certificado. Melhor, apequenaram-no, talvez em razão das exigências do tempo.

O diploma traz a assinatura da professora que me ensinou e acompanhou meus dias naquela fase estudantil tão difícil e importante em minha vida: Beatriz Gonçalves dos Reis.

Mais tarde, em razão do casamento com José Gomes Reis Filho, ilustre senhor de família tradicional de Patamuté, ela passou a assinar Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes.

Com a professora Beatriz aprendi a antever novos horizontes, contemplar as perspectivas, expandir os sonhos da mocidade e colocar o pé no estribo em direção ao desconhecido.

Beatriz era lotada no Departamento de Educação Primária do Estado da Bahia e, como tal, professora em Patamuté.

Como se dizia à época, “professora formada”, ou seja, habilitada formalmente, para o exercício da profissão, porque naqueles idos as professoras do interior raramente tinham formação em magistério.

Beatriz tinha formação, porque seu pai, Júlio Reis, um sujeito decentíssimo, permitiu que ela estudasse fora do então modorrento Patamuté.

O documento é importante em minha vida. Será sempre. É o segundo, depois da certidão de nascimento. E importante porque a assinatura da professora Beatriz é uma láurea para este humilde escrevinhador. E se o é, é-o no que concerne à minha satisfação. Eu admirava e ainda hoje a guardo na memória como um dos pilares do ensino em Patamuté e de minha formação.

Beatriz era conspícua, atenciosa, inteligente, educada, elegante. Olhar ativo e altivo, sorriso largo e sincero, irradiava bondade aos circunstantes. Deixou-me sólidos e robustos exemplos de ética, profissionalismo e decência.

Penitencio-me diante de sua memória por ter seguido alguns desses exemplos e outros nem tanto. Mas isto deve ser debitado unicamente à minha fraqueza humana.

Embora não tenha nenhuma pretensão de ser memorialista ou historiador, devo lembrar que Patamuté deve muito à professora Beatriz pelo seu trabalho, quase sempre em condições inóspitas, em benefício da infância e da juventude da época. Sua memória merece mais atenção das autoridades do município de Curaçá, evidenciando-a perante todos, mormente relativamente aos jovens, às gerações de hoje.

Quando Beatriz se dedicava à luta para educar jovens, por extensão estava construindo um novo tempo para Patamuté, que ainda hoje reluta em alcançar.

Se no presente o ensino em Patamuté dá-se em condições precárias, imaginemos cinco décadas atrás.

Deixo aqui meu respeito e admiração aos professores de hoje, em Patamuté, que lutam arduamente em seu difícil mister de ensinar.

As condições de ensino que Beatriz enfrentou eram adversas, difíceis. Todavia, ela nunca abdicou de seu dever de ensinar e o fazia com generosidade, esforço e bravura.

Patamuté deve prestar-lhe reverência. Há muitas formas de fazê-la. É preciso resgatar sua memória do ostracismo. É necessário que a sociedade patamuteense reconheça o seu trabalho em prol da educação e da dignidade de sua gente. E isto deve ser feito através das autoridades do lugar.

Deixo aqui uma sugestão aos vereadores e ao prefeito de Curaçá:

Considerem o nome da professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes para nomear algum equipamento público no distrito de Patamuté. Mais do que homenagem, trata-se de respeito à sua memória.

Se, à semelhança do poeta, não temos o condão de perfumar o século, pelo menos tenhamos a coragem de guardar com dignidade a memória de nossos antepassados.

araujo-costa@uol.com.br   

O PT e os “golpistas”

Quem tinha dúvida de que a principal ideologia do Partido dos Trabalhadores (PT) é poder e dinheiro deixou de ter.

Só há duas categorias de pessoas que acreditam na seriedade do PT: os petistas e os aliados dos petistas.

Com vistas às eleições para a presidência da Câmara dos Deputados, o PT formalizou seu apoio ao candidato do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) do ex-presidente Michel Temer.

Temer comandou a agremiação em diversos períodos e manda no partido desde sempre. As decisões mais importantes do MDB passam por Michel Temer.

Esse alinhamento PT-MDB sempre houve. O principal fiador da chapa Dilma-Temer foi o morubixaba Lula da Silva. Mas depois do impeachment de Dilma Rousseff, as coisas azedaram entre eles. A situação era de vaca não conhecer o bezerro.

Agora, o PT apoia o deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), um dos homens de confiança do ex-presidente Michel Temer, na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, que acontecerá em fevereiro.

O deputado Baleia Rossi fez campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff e votou pela queda da então presidente, assim como os mesmos emedebistas que hoje o PT senta no colo e os afaga.

Ninguém sabe – nem saberá nunca – o que está envolvido nesse apoio do PT ao deputado Baleia Rossi e o que o partido pediu em troca.

O PT diz que Baleia Rossi prometeu independência da Câmara e rejeição de alguns projetos de Bolsonaro que passam pelo Legislativo e contrariam a esquerda. Alguém acredita?

Pergunta-se:      

Para o PT e seus aliados, o MDB e os emedebistas não eram golpistas durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff?

Não eram golpistas durante todo o governo de Michel Temer?

Não eram golpistas ao viabilizarem a ascensão de Michel Temer à presidência da República que, no fundo – diziam os petistas – era um plano para implodir o PT e suas ideias?

O deputado Baleia Rossi não era golpista até ontem?

O PT mudou ou mudaram os golpistas?

Ninguém se assuste se, algum dia, o PT vier apoiar politicamente o pernóstico e grosseiro ex-juiz Sérgio Moro, algoz de Lula da Silva.

O PT faz coisas inimagináveis. Despudoradamente.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, boato e expectativa

O jornalista pernambucano Geneton Moraes Neto (1956-2016), dizia que “o jornalista é o único animal vertebrado capaz de acreditar em boatos, porque nenhum boato é gratuito”.

“O boato é o mais antigo meio de comunicação de massa, muito antes do ouvir-dizer. Ninguém é responsável pelo boato, mas todo mundo está a par dele. A fonte do boato é inacessível, oculta e misteriosa”, diz o professor Jean Noel, que escreveu um livro sobre o tema.   

As urnas não trouxeram surpresas no que tange à composição da Câmara Municipal de Chorrochó.

Aliás, as urnas não trouxeram quaisquer surpresas, quer relativamente à Câmara, quer no que concerne ao Poder Executivo. Mas é preciso considerar alguns aspectos que estão carreando para firmar o contexto da administração municipal que se inicia em janeiro de 2021.

Fechadas as urnas, mais que boatos, surgiram expectativas de que o prefeito reeleito Humberto Gomes Ramos faria alguma construção política no sentido de alterar o desenho da composição da Câmara Municipal, uma espécie de engendramento para robustecer-se ainda mais no Executivo e assegurar a inquestionável solidez de sua base no Legislativo.

A rigor, o prefeito não precisa disto, mas em política não há nada impensável. O prefeito tem estrondosa maioria no Legislativo, quase unanimidade e ampara-se em inegável lastro popular e político no Executivo.

Eventuais acomodações aqui e acolá não significam necessidade de fortalecer-se, vez que o prefeito é politicamente forte, talvez um mimo, um afago político a aliados.  

Mudam-se as peças do tabuleiro, mas o jogo continua o mesmo. O grupo político do prefeito é coeso e cada vez mais se fecha em torno do alcaide, que caminha para duas décadas no comando político de Chorrochó.

Embora ainda não confirmado, tudo leva a crer que o prefeito levará pelo menos duas vereadoras de sua extrema confiança para o Executivo e abrirá espaço na Câmara Municipal para entronizar aliados leais, entre eles o ex-vereador Wellython Luiz Pacheco de Menezes, que ficou pendurado em uma das suplências.  

A razão é compreensível e relativamente simples. Por exemplo, a vereadora Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que deve ser reconduzida à Secretaria de Saúde do município, fato já esperado, ostenta sólida lealdade ao prefeito.

Em política, a lealdade é fundamental, como é em todas as áreas da atividade humana.

Lealdade pressupõe grandeza, firmeza de caráter, humildade, decência e respeito mútuo.

Profissional de destaque, Sheila Jaqueline é descendente de família de caráter irrepreensível. Esteia-se nas raízes políticas do pai e ex-prefeito José Juvenal de Araújo e do avô Oscar Araújo Costa, honra e glória do povoado de Caraíbas.

Oscar foi uma espécie de patriarca respeitado e reverenciado por sua gente de Caraíbas e circunvizinhanças. Ainda hoje persistem por lá os andaimes que ele engendrou em benefício do povo.

Em quadro assim, o prefeito Humberto Gomes Ramos se sente confortável para reconduzir a vereadora Sheila Jaqueline às hostes do Executivo, porque conhece seu trabalho e dedicação, o que, de resto, é sobejamente conhecido da população.

A outra vereadora que certamente será guinada a uma secretaria no Executivo é a socióloga Jane Edla Fonseca de Souza, também leal ao prefeito e proveniente de família tradicional e correta de Barra do Tarrachil, maior base eleitoral do prefeito Humberto.

Boatos ou expectativas à parte, o fato é que Wellython Luiz Pacheco de Menezes é uma acertada escolha para a Câmara Municipal. Experiente, já exerceu outros mandatos de vereador, de modo que é um bom quadro para assumir qualquer vaga no Legislativo.  

Ademais, Wellython conhece bem a maçaneta do Legislativo e provém de família respeitável cuja seriedade política não comporta dúvida.

Wellython é filho de Walmir Prudente de Menezes, que deixou exemplo de dignidade e decência e neto de Antonio Pacheco de Menezes, um dos esteios da sociedade de Chorrochó. Isto por si só lhe credencia como homem público, de modo que o prefeito Humberto está bem acompanhado.

Outras costuras políticas podem estar no radar do prefeito Humberto Gomes Ramos.

araujo-costa@uol.com.br

Solidão do dia seguinte

O carteiro que serve minha rua, que é jovem, não viveu a época em que as pessoas mandavam cartões desejando votos de “feliz Natal e próspero Ano Novo” para parentes, amigos, conhecidos e sujeitos de suas relações, ainda que comerciais.

Não só o carteiro desconhece essa época, mas as gerações mais recentes, que vivem nessa confusão eletrônica e necessária a essa quadra do tempo.

Aliás, com os avanços tecnológicos, carteiros já se aproximam da extinção.

Os envelopes continham traços de sinos e adereços alusivos à ocasião e dizeres bonitos, floridos, admiráveis. As mensagens abarrotavam as agências e postos dos correios em finais de ano.

Ao receber as correspondências, perguntei ao diligente estafeta se havia cartões de Natal. Surpreso, diante da novidade, respondeu seco, quase assustado com a minha pergunta envelhescente:

– Acho que não.

Esse costume não existe mais. As comunicações online extinguiram essa forma tão eficiente de relacionamento: as felicitações pela passagem das festas de fim de ano.

Hoje quase ninguém mais manda cartões, chega a ser uma cafonice, um atestado de desinformação e até, em certos casos, um comportamento irrefletido diante de tanta parafernália eletrônica em tempo real.  

Interessante é que a mudança se deu mui rapidamente. Eu tinha o hábito de mandar cartões de Natal, até por educação e etiqueta. Vi-me ultrapassado de repente. Neste 2020 não mandei sequer um. Fui desencorajado pela onda de frieza que assola as metrópoles e para não correr o risco de ser chamado de jurássico.

A indiferença passou a ditar o comportamento, ainda mais neste tempo de pandemia cruel e de distanciamento físico e emocional.

A evolução da sociedade vai dizimando, em seu bojo, as formas simples de convivência, destruindo friamente os relacionamentos e corroendo os vínculos sociais que já eram escassos.

Estamos todos menos calorosos, desinteressados pelos outros, excessivamente críticos e egoístas, de sorte que muitas coisas perderam importância, embora muitos de nossos valores estejam ínsitos nas pequenas coisas.

Em breve os cartões de Natal serão lembranças e relíquias para colecionadores, assim como as cartas que não escrevemos mais e os recados verbais que não mais mandamos para amigos e familiares.

As cartas foram substituídas por mensagens eletrônicas frias, sucintas, às vezes automáticas, insignificantes diante da grandeza humana.

Vivemos à espera da solidão do dia seguinte.  

Desejo a todos próspero 2021 com muita saúde e compreensão.  

araujo-costa@uol.com.br                       i

Se tivessem vergonha

“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados” (Apparecido Torely, Barão de Itararé, 1895-1971)

Primeiro, foram os promotores de São Paulo, do alto de suas intocabilidades, reivindicaram que fossem vacinados contra o covid-19 antes de toda a população de São Paulo, um privilégio escandaloso e inaceitável.

A imprensa descobriu a ilegalidade e eles recuaram, não foram adiante. Não fosse isto, teriam formalizado o privilégio junto às autoridades de saúde, com o beneplácito do governador-pavão João Dória .

Risível a justificativa dos promotores: eles trabalham em contato com o público. Esqueceram de dizer que a população em geral tem contato com o público e não somente Suas Excelências.  

Na mesma linha, dias depois, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) endereçou ofício à Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) sinalizando que seus intocabilíssimos ministros e servidores do tribunal deveriam ser os primeiros a ser vacinados, também contra o covid-19.

A séria Fiocruz negou o pedido, obviamente.

Pior, muito pior: semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF), que é o guardião da Constituição, também endereçou ofício à Fiocruz solicitando que disponibilize 7.000 doses de vacina contra o covid-19 para seus supremos ministros e servidores do tribunal.

Servidores aqui compreendem: terceirizados do tribunal, funcionários, cônjuges, filhos, netos, bisnetos, tataranetos, pais, mães, avós, bisavós, todos que fazem parte do ambiente familiar do STF. Os verdadeiros privilegiados, uma média de 636 pessoas para cada dos 11 intocáveis e elitistas ministros..

Nos dois casos, a Fiocruz negou os pedidos sob o sensato e inquestionável argumento de que as vacinas, quando estiverem prontas, serão entregues ao Ministério da Saúde, de modo que a fundação não tem autonomia para assegurar tais privilégios a Suas Excelências.

O presidente do STF, em entrevista à televisão, sem nenhum constrangimento, tentou justificar a desfaçatez, dizendo que o tribunal teve a “preocupação ética” de ponderar que o pedido seria “dentro das possibilidades”.

“Preocupação ética” teria ocorrido se o STF não tivesse pedido as doses de vacina e pretendido furar a fila num claro desrespeito ao mandamento constitucional.

É o famoso “sabe com quem está falando?”, também conhecido como “carteirada”. A elite desavergonhada se acha no direito de pisotear o direito dos demais brasileiros, mormente da classe pobre.

Em última análise, ao tentar justificar o injustificável, o presidente do STF demonstrou não acreditar na inteligência dos brasileiros. Zombou de nossa capacidade de entendimento. Bastava dizer: o STF pretendia transgredir a Constituição Federal e pronto.

O que assusta nisso tudo é o fato de promotores e ministros dos tribunais superiores, que têm o dever de cumprir a lei e dar o exemplo, desrespeitem acintosamente a Constituição Federal, que diz em seu artigo 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”

Essas autoridades precisam aprender a ler a Constituição da República, os compêndios de gramática e os dicionários, para entenderem a expressão ínsita na Constituição, que diz cristalinamente: todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza.

A impressão que fica é que a Constituição Federal e o ordenamento jurídico nacional, como um todo, devem ser cumpridos somente por nós mortais comuns e não por Suas Excelências os privilegiados.

Por outro lado, o governador de São Paulo mandou fechar o estado e determinou que sua equipe desse a notícia ruim, segundo a qual o laboratório chinês não aprovou, por enquanto, o índice de eficácia da vacina Coronavac produzida pelo Instituto Butantan. Deixou o desgaste político para o vice-governador.

João Dória mandou os paulistas ficarem em casa, pegou o avião e foi curtir férias em Miami, na Flórida, com a esposa.

O governador não esperava que aliados políticos, adversários e as redes sociais em geral o detonassem pelo gesto irresponsável: no momento em que aumentam assustadoramente os casos e as mortes por covid-19 em São Paulo, ele virou as costas à população e foi passear, como se vivesse nos melhores dos mundos. Magnata, pouco importa o sofrimento dos outros.

Mas o resultado não saiu de acordo com o figurino do governador. Calhou que o vice adoeceu e ele teve de voltar às pressas para reassumir o Palácio dos Bandeirantes.

Só retornou antes do previsto, em razão dessa circunstância inesperada.

João Dória inventou uma desculpa esfarrapada ao regressar, que não convenceu nem a ele próprio. Disse que foi participar de duas conferências nos Estados Unidos e aproveitou para descansar 10 dias.

Lorota. Embromação. Falta de sinceridade.

O jornalista Alexandre Garcia, conferencista renomado, disse que não é comum a realização de conferências no período entre o Natal e Ano Novo, as chamadas festas de fim de ano, mais improvável agora, em tempo de pandemia que, inclusive, castiga os Estados Unidos.    

Pífio, vergonhoso e insustentável o argumento do governador.

Ficou feio, como tudo que faz o governador-pavão de São Paulo.

O embuste do governador não colou e ele teve que absorver o desgaste. Mais que depressa, gravou um vídeo pedindo desculpas à população, como se o pedido de desculpas reparasse o erro.

O estrago político está feito, não há conserto.

Se nossas autoridades tivessem vergonha, o Brasil seria diferente e estaria noutro patamar de civilidade.

É uma elite escabrosa e defensora das negociatas disfarçadas com manto legal, desde que o povo seja excluído.

araujo-costa@uol.com.br

Os deslumbrados de Chorrochó

A Câmara Municipal de Chorrochó aprovou e o prefeito sancionou duas curiosas leis, neste tempo de pandemia, concedendo vultosos aumentos de subsídios ao prefeito, vice-prefeito, vereadores e secretários municipais.

As leis de 01 de dezembro, editadas em momento de extrema dificuldade por que passa a população, não se adéquam à realidade do município neste tempo de pandemia.

Noutras palavras e em resumo: o prefeito e os vereadores aumentaram seus próprios salários. Ressalva-se, a bem da verdade, que alguns vereadores estão em final de mandato, não foram reeleitos e, portanto, não se beneficiarão desse engendramento jurídico inoportuno.

Argumentar-se-á que se trata de reajuste previsto em lei, o que é verdade, mas também é verdade que a legalidade do ato não está sendo aqui questionada.

A impressão que fica é que o prefeito mandou as leis prontas para a Câmara Municipal e os vereadores disseram amém, muito obrigado, mande sempre e apuseram suas assinaturas.

Há um costume nos legislativos, que chega a ser cultural: quando o projeto de lei proposto é para beneficiar os legisladores, a unanimidade se faz presente, sempre. Silenciosamente, sem estardalhaço.

Discussões acaloradas em plenário são para outros assuntos. Assuntos que interessam aos bolsos de Suas Excelências são tratados com conversa ao pé do ouvido, à sábia maneira dos conchavos.

Em se tratando do ponto de vista legal, não há nenhum reparo a fazer e, se houvesse, não caberia a este humilde escrevinhador laborar neste terreno movediço.

É praxe os legislativos definirem/fixarem aumentos, em benefício de seus membros, para vigorarem no exercício seguinte, de modo que não há nenhuma novidade nisto. Nosso sistema legal permite. De roldão acoplam-se membros do Executivo, também por previsão legal.

Entretanto, esses aumentos de Chorrochó não encontram amparo em nenhum parâmetro moral. Significa dizer que o ato é moralmente insustentável. Fácil explicar.

Grande parte da população do município de Chorrochó enfrenta um pauperismo degradante. Convenhamos, isto não é culpa do prefeito e tampouco dos vereadores.

Trata-se de uma situação que se arrasta há séculos no Nordeste, embora agravada pelo descaso dos governantes em todos os tempos e em todos os níveis, o que não exclui o dever de parcimônia e sobriedade do prefeito e dos vereadores de Chorrochó, se assim desejassem.

O Legislativo e o Executivo de Chorrochó estão na contramão do bom senso.

Entes públicos, inclusive municípios, estão freando seus gastos em razão da cruel realidade econômica imposta pela pandemia do coronavírus, o que pode ser entendido como respeito às suas populações.

Portanto, é no mínimo imoral, conceder agora aumentos e/ou reajustes, mesmo previstos em lei, a membros privilegiados do Legislativo e do Executivo, embora eles insistam em dizer que são defensores do povo.

Todavia, para essas autoridades, o importante é o dinheiro e não o discurso.

Em razão da triste penúria por que passa Chorrochó, quem sabe os vereadores que tomarão posse em janeiro abrirão mão desses aumentos e os destinem a entidades do município que cuidam de pessoas carentes, inclusive crianças, ou mesmo a programas assistenciais mantidos pela Prefeitura.  

Os subsídios previstos nas leis municipais retro aludidas situam-se em valores de R$ 4,5 mil, R$ 7,5 mil, R$ 9 mil e R$ 18 mil, além das demais vantagens pecuniárias de praxe carreadas para os respectivos cargos.

Como se vê, Chorrochó tem seus deslumbrados.

araujo-costa@uol.com.br

João Soares, a vida e as marcas da vida

João Soares de Carvalho/foto do Facebook

João Soares de Carvalho nos deixou ao apagar das luzes deste conturbado ano de 2020, aos 63 anos completados em junho.

João era filho de Eugênia Soares do Nascimento Arnaldo e Abraão de Carvalho Arnaldo, de estirpe tradicional e bem conceituada de Chorrochó.

João de Abraão, como era mais conhecido entre amigos, deixa a vida e as marcas da vida. Foram tantas!

Ainda muito jovem João deixou Chorrochó e foi para São Paulo, assim como tantos outros milhares de nordestinos. Ele tinha um sonho a mais na bagagem, que lhe acompanhou por décadas: firmar-se como cantor e viver da profissão.  

Joao participou dos mais badalados programas de auditório e de calouros da televisão de São Paulo, a exemplo de Sílvio Santos, Bolinha, Raul Gil, etc.

Não tenho conhecimento de programas do gênero de que ele não tenha participado nos áureos tempos dos jurados de televisão, uns sisudos, outros generosos, mas que sempre lhe atribuíam notas máximas.

João tinha voz admirável, postura e estrutura formal de cantor de grandes palcos. Interpretava respeitados nomes da música, agigantava-se no ofício de cantar. Transitava dos clássicos boleros ao forró pé de serra, do romântico ao popular. No repertório de João não havia barreiras.

Já cantor profissional, embora ausente na mídia, por razões que nunca entendemos, João fundou uma banda e com ela passou a animar bailes e eventos do gênero, com boa estrutura e nome profissional firmado no meio artístico.

Assim, João cavou a vida em São Paulo, honestamente, diuturnamente. Exemplo de profissional dedicado, amealhou muitas amizades, dentro e fora do meio artístico, porque seu feitio era este, desde a juventude.

Todavia, não quero falar aqui somente do João cantor, do João artista, do João que frequentou, com desenvoltura, por muito tempo, os camarins da televisão de São Paulo.

Falo também de João de Abraão, do adolescente educado, colega ginasiano do então Colégio Normal São José, de Chorrochó, lá no começo da década de 1970, das conversas despretensiosas no Bar Potiguar, da realização dos sonhos que nos parecia tão distante. De fato, era distante.

Estávamos no início do caminho para a distância. Caminho longo, desconhecido, cheio de pedras.

Simples, sorriso largo, traço que carregou por toda a vida, João não se enrolava com as intempéries da vida.  

Caminho difícil, não foi, João? Mas uma jornada vitoriosa, trilhada com muita honra, persistência, dedicação e humildade, muita humildade.

No penúltimo contato que tive com João, ano passado, ele escreveu: “Sou seu fã, desde muito tempo”. Ele sabia que o inverso é verdadeiro. Desde nossos tempos de Chorrochó.

Deixo aqui o registro da saudade e os pêsames a todos da família.

araujo-costa@uol.com.br

Vacina contra a insanidade

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida” (Frase atribuída ao escritor americano Maurice Switzer).

Os jornais publicaram que nosso ministro da Saúde perguntou, acintosamente: “Por que essa ansiedade, angústia?”.

O ministro se referia à pressa dos brasileiros pela definição da vacina contra o covid-19 e a cobrança que a sociedade está fazendo sobre a aparente hesitação do governo do Brasil quanto às tratativas para a aquisição das vacinas.

Esta pergunta é imprudente, insensata e inoportuna. É um acinte aos brasileiros.

A resposta que o ministro da Saúde não sabe é simples: já morreram milhares, estão morrendo mil pessoas por dia no Brasil e centenas de outras estão sendo infectadas todos os dias. É o caminho cruel em direção à morte.

Os hospitais em todo Brasil já não dispõem de estrutura para atender a grande quantidade de internações diárias e necessárias, inclusive os particulares, para quem pode pagar.

A rede pública hospitalar se esgotou. Melhor dizer: acabou.

Estamos perdendo diariamente parentes e amigos e muitos brasileiros estão sofrendo com a doença, na difícil luta pela vida.

Estamos assustados, compreensivelmente assustados. Não se trata de pressa, mas de desespero.

Nossa esperança está no governo que a maioria escolheu nas urnas, democraticamente, para cuidar da administração do Brasil e, por isto, exigimos pressa das autoridades.

O generalíssimo ministro Pazuello talvez esteja precisando tomar urgentemente uma vacina contra a insanidade.

Ou ficar calado.

araujo-costa@uol.com.br

Queda do secretário de Segurança enfraquece Rui Costa

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o afastamento do secretário de Segurança Pública da Bahia. Em consequência forçada, o governador Rui Costa (PT) formalizou a exoneração.

Segundo alegação do Ministério Público Federal (MPF) acatada pelo STJ, o secretário desempenhava “papel central na garantia da impunidade dos diversos núcleos criminosos” que atuavam na venda de sentenças que envolvia membros do Poder Judiciário baiano, inclusive juízes e desembargadoras.

O MPF diz que a atuação do secretário “consistiria em neutralizar os opositores do esquema criminoso”.

O Ministério Público pediu a prisão temporária do secretário, mas o STJ negou. Aliás, o Ministério Público pede tudo, até o que não pode pedir. Sustentar processualmente a razão do pedido é outra história que não vem ao caso.

O ex-secretário Maurício Teles Barbosa é experiente, formado em Direito, delegado da Polícia Federal, com cursos na área de inteligência na Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), além de ter comandado diversas operações, inclusive contra o crime organizado. Foi superintendente da Polícia Federal na Bahia.

Em quadro assim, é ingênuo acreditar, pelo menos por enquanto, que o ex-secretário tenha se embrenhado na prática de crime tão sofisticado, consoante alega o MPF, embora a palavra derradeira e definitiva seja do Judiciário.  

O governador Rui Costa tem se mantido longe de escândalos de corrupção, o que lhe garante, até agora, a confortável posição de possível candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores em 2022, se o morubixaba Lula da Silva não melar a indicação em favor do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad ou outro que vier a surgir no horizonte do delírio petista.

O escândalo que passou mais perto de Rui Costa, mas não o atingiu, foi o propinoduto por onde transitaram os marqueteiros e publicitários petistas João Santana e Valdemir Garreta e envolveu a famosa Torre Pituba, um sofisticado edifício que os petistas inventaram em Salvador, financiado com dinheiro da PETROS, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras.

William Ali Chaim, ex-guerrilheiro do MR8, que passou pelo histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se filiou ao Partido dos Trabalhadores apareceu como operador de propinas ofertadas ao PT pelas construtoras OAS e Odebrecht. Por suas mãos passaram, segundo investigações, pelo menos R$ 22 milhões de propinas endereçadas ao PT.

O Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8) foi um grupo guerrilheiro fundado na década de 1960, por militantes de esquerda, para combater o regime militar dos generais-presidentes. 

Mas o fato é que Rui Costa passou longe desse dinheiro ou passaram com o dinheiro longe dele.

De qualquer forma, a acusação de envolvimento do ex-secretário de Segurança da Bahia nesse rumoroso caso vinculado à venda de sentenças respinga em Rui Costa, por uma razão muito simples: Maurício Barbosa sempre foi um dos secretários mais próximos do governador e com ele mantém considerável afinidade de pensamento e atuação.

Todavia, parece que os orixás estão conspirando a favor do governador Rui Costa. É curioso o silêncio da imprensa sobre esse quiproquó envolvendo o ex-secretário baiano.

Meio caminho andado. Quando a imprensa dá de ombros para assuntos sérios é sinal de que alguém está sendo beneficiado com o silêncio, mesmo que involuntariamente.

Mutatis mutandis, como dizem os entendidos em direito, se esse secretário trabalhasse no Palácio do Planalto, sem dúvida a cobertura da imprensa seria outra e os comentaristas do Grupo Globo estariam roucos de tanto repetir o mesmo assunto.

Basta lembrar a polêmica que a imprensa criou sobre a morte do miliciano bolsonarista no município baiano de Esplanada. A imprensa transformou a operação policial em ridículo fato político que não se sustentou.

O governador Rui Costa sai enfraquecido desse episódio envolvendo seu ex-secretário de Segurança Pública e os prejuízos políticos podem aflorar na campanha presidencial, se ele for candidato.

No mínimo, o caso servirá de matéria-prima para a campanha dos adversários do Partido dos Trabalhadores, embora na Bahia o PT não tenha adversários, mas aliados disfarçados de opositores.

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