O Serviço Secreto do Brasil não é secreto

O Brasil é o único país do mundo em que seu serviço secreto não é secreto.

A única exceção deu-se no período dos governos militares, que herdaram a estrutura do Serviço Federal de Informações e Contrainformações (SFICI).

O temido Serviço Nacional de Informações (SNI) criado em 1964 pelo general Golbery do Couto e Silva era, de fato, secreto, funcionava e tinha o objetivo de cuidar das atividades de informações e contrainformações herdadas com a estrutura do SFICI.

Os governos militares mantiveram em todos os ministérios, inclusive nas repartições federais sediadas nos estados, a chamada Divisão de Segurança e Informações (DSI), braço forte e seguro do SNI, que também funcionava nos órgãos de administração direta e indireta.

Noutras palavras: os presidentes militares e seus ministros eram bem informados.  

A esculhambação começou em 1990, quando Fernando Collor de Mello tomou posse como presidente da República.

Antes de cair em desgraça, Collor extinguiu o SNI e criou, em substituição, a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que absorveu a estrutura do órgão extinto. Nomeou um jovem amigo de boemia para administrá-la.

Experiência do amigo, que Collor nomeou para chefe do serviço secreto: profissional da construção civil e criador de camarões. Devia saber tudo de cons trução e criação de camarões e nada de informações.

Não podia dar certo. O serviço secreto de Collor não protegia nem o próprio presidente da República.

Em 1999, o presidente Fernando Henrique Cardosos criou a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que existe até hoje. Uma piada.

Funções legais da ABIN: “investigar ameaças reais e potenciais, bem como identificar oportunidades de interesse da sociedade e do Estado brasileiro, e defender o estado democrático de direito e a soberania nacional”.

A julgar pelo que o presidente Bolsonaro andou falando no Palácio do Planalto, o serviço de inteligência brasileiro desconhece o que acontece no Brasil.

A ABIN foi incapaz de detectar que o dono do conglomerado JBS entrasse no Palácio do Jaburu, residência oficial do presidente Michel Temer, tarde da noite, com um gravador e gravasse toda a conversa com o presidente da República.

O empresário gravou a conversa e saiu do Palácio do Jaburu, pomposo, como havia entrado.

Por outro lado, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que cuida da segurança presidencial – e trabalha em estreito vínculo com a ABIN – não o revistou e nenhum equipamento detectou a geringonça.  

Assunto para humorista.

Esse episódio quase derrubou o presidente Michel Temer.

As demais trapalhadas da ABIN são de conhecimento público.

Agora, no governo Bolsonaro, a situação degringolou. A presidência da República desconhece o que está acontecendo no Brasil e é de interesse de Estado e de Governo.

Por quê? Supõe-se que lhe falta um serviço de inteligência ao menos razoável.

Escândalo recente escancarou a ineficiência do serviço de inteligência brasileiro: supostos investigados descobriram que estavam sendo monitorados pelo Ministério da Justiça. Conheciam até os relatórios reservados.

Fato comum em todos os governos, só no governo Bolsonaro o assunto veio a público, exatamente por falha nos serviços internos de informações.

Desmentido aqui, outro acolá, certo é que o problema foi parar no Supremo Tribunal Federal e desgasta sobremaneira o governo.

Os senhores ministros do STF devem estar dando sonoras gargalhadas das trapalhadas do serviço secreto do Brasil.

Em resumo: o serviço secreto do Brasil não é secreto.

O jornalismo investigativo está mais à frente.

araujo-costa@uol.com.br

Mais decência, senhor prefeito

Orlando Morando, jovem de 46 anos, prefeito de São Bernardo do Campo (PSDB), parece que não gosta de idoso. Pior: vem demonstrando inequivocamente que não gosta.

Em março de 2020, o prefeito editou decreto, restringindo a circulação de idosos acima de 60 anos, em todo o município, sob o pretexto de protegê-los do coronavírus. Medida extrema, sem amparo legal.

De tão gritante a ilegalidade da medida, o processo passeou pelo Judiciário de São Paulo e foi parar no Supremo Tribunal Federal, que suspendeu o decreto, porque contrário à Constituição da República.

Milhares de idosos trabalham para seu sustento e de sua família. Muitos não são aposentados ou a aposentadoria precisa ser complementada com o trabalho diário.

Descendente de família rica, graças a Deus, o prefeito parece desconhecer a realidade dos pobres. Ou desconhece mesmo.

A elite que ocupa o topo da pirâmide não consegue enxergar os seus sustentáculos, que são os pobres e miseráveis.

As elites são míopes.

Em dezembro de 2019, o prefeito regulamentou a gratuidade de 140 vagas de estacionamento rotativo destinadas aos idosos em todo o município.

A isenção da tarifa foi de sua iniciativa. Ele enviou projeto de lei à Câmara Municipal, que aprovou, sem dificuldades.

Entretanto, trata-se de medida irrisória e inócua. São Bernardo do Campo tem aproximadamente 845.000 habitantes. Logo, essas vagas são “conversa para boi dormir”, porquanto insuficientes.

Mais um exemplo: em toda extensão da quilométrica e comercial Rua Jurubatuba, centro da cidade, salvo melhor juízo, não há uma vaga sequer destinada a estacionamento para idoso.  Se tem, não vejo.  E me penitencio, se tiver. E peço desculpa, se tiver.

Em data recente, a Prefeitura fez um largo ao lado da Rodoviária da cidade. Destinou duas vagas de estacionamento para idosos.

Na praça vizinha ao Conjunto Anchieta, também no centro da cidade, a Prefeitura destinou somente uma vaga para idoso.

Em todos os casos e em todas as ruas, abundam vagas pagas. A Prefeitura precisa explicar a disparidade.

O prefeito, em data recente, baixou medida, segunda a qual, idoso passou a não pagar estacionamento nas vias públicas. Antes pagava. Lorota. Não paga se colocar o veículo em vaga destinada a idoso, mas não há vaga disponível.

Ou seja, a previsão legal é incompatível com a realidade. Os fatos diferem da norma.

Então, o idoso paga do mesmo jeito, porque é obrigado a estacionar o veículo em vaga comum e, nesta caso, o pagamento é devido, como se idoso não fosse.

Em março de 2020, o prefeito suspendeu e/ou restringiu a gratuidade do transporte público a que os idosos tinham direito. Em consequência, tornou inválidos os cartões que os credenciavam ao acesso gratuito ao transporte público.

Agora, é possível o idoso usar o transporte público, mas passa pelo constrangimento de ter de apresentar a identidade ao motorista – e não ao cobrador – que autoriza o embarque.

Não conheço caso de recusa, mas de toda forma é desnecessário e constrangedor o procedimento, vez que a lei autoriza a gratuidade e não prevê formalismos para fazer valer o direito.

É de supor que, como as credenciais foram tornadas inválidas, o direito de ir e vir do cidadão idoso ficou arranhado. Nem todo idoso tem dinheiro para pagar passagem. Mas suas obrigações exigem o deslocamento, queira ou não o senhor prefeito.

Parece que está faltando decência, respeito à lei.

Todavia, ninguém se surpreenda, neste ano de eleições municipais – o prefeito é candidato à reeleição – se Sua Excelência passar a frequentar as lives da vida dizendo que adora os idosos.

araujo-costa@uol.com.br

A legislação eleitoral e o direito dos candidatos

Sou bicho do mato. Como tal, nada entendo. E nada entendo daquilo que penso que entendo.

Antes das convenções municipais, os pretendentes a cargos eletivos (prefeito, vice-prefeito e vereador) denominam-se pré-candidatos, por força da legislação eleitoral.

Dentre outros senões, isto evita interpretações equivocadas e coíbe eventuais acusações de campanha eleitoral antecipada, porque com adversário não se brinca.

Quando as convenções partidárias se realizam, esses pretendentes são acolhidos e oficializados pelos partidos. Adquirem a condição de candidatos. Ou não?

Mas há um freio legal, segundo o qual, o pretendente a cargo eletivo somente pode qualificar-se como candidato depois de ter seu nome aprovado pela Justiça Eleitoral, ou seja, após o deferimento do pedido de registro da candidatura.

Por isto, mesmo depois das convenções partidárias, os pretendentes aos cargos de vereador, prefeito e vice já homologados, ainda se dizem pré-candidatos e até declinam essa condição nos ambientes virtuais.

Não estão errados, mas convenhamos, a situação é esquisita.

Se o partido político homologou a candidatura do pretendente, ele passou a ser candidato. Ou não? Se a Justiça Eleitoral irá ou não deferir o registro de sua candidatura esta será outra história, a situação passará a ser outra. Mas não retira, até lá, a condição de candidatura do pretendente.

Entretanto, parece que existe um liame legal muito frágil entre pré-candidatura e candidatura, formalismo de nosso sistema eleitoral.

Essa formalidade dificulta o espaço para a desenvoltura dos candidatos e estreita o tempo para tornarem-se conhecidos – quando ainda não são conhecidos – e também de apresentarem suas propostas em benefício da sociedade.

A legislação eleitoral é rigorosa, neste particular. O pretendente a cargo eletivo, que ainda não teve o deferimento de sua candidatura, não pode valer-se de nenhum recurso, tampouco financeiro, em prol da campanha. Seu campo limita-se ao âmbito da gratuidade virtual.

Noutra palavras, os pré-candidatos não podem realizar gastos de campanha.

Com o registro da candidatura e abertura de conta bancária específica, o candidato estará habilitado a angariar recursos, dentro da lei, para sustentar sua campanha. E estes recursos devem ser declarados, rigorosamente, na prestação de contas do candidato, com muita cautela.

E o chamado Caixa 2? A referência é inevitável.

Caixa 2 é como fantasma, ninguém vê. Todo mundo diz que existe, mas nenhum candidato admite que usa. E é bom e recomendável que não use mesmo, porque o uso é ilegal e traz consequências sérias, a mais grave, talvez, seja o cancelamento do diploma, além da tipificação em crime eleitoral.

Aí o cargo vai pelos ares e tudo mais dele decorrente, inclusive o esforço para chegar até lá.

De qualquer forma, tenho dúvidas, que persistem.

A mera formalidade (o uso da expressão pré-candidato ou candidato), não estará restringindo o direito democrático dos candidatos de fazerem plenamente suas campanhas?

A exiguidade do tempo entre o registro das candidaturas e as eleições não asfixia a vontade dos candidatos?

Essa formalidade não retira do eleitor a possibilidade e o tempo necessário para melhor analisar os candidatos?

araujo-costa@uol.com.br

Estrumes e outras excrescências

O presidente da República, num daqueles momentos de destempero verbal inapropriado para o alto cargo que ocupa, chamou de estrume o governador do Rio de Janeiro e também o governador de São Paulo, embora para este último o termo tenha sido mais deselegante, o que dá na mesma.

O governador Wilson Witzel (PSC) foi eleito com a bandeira de combate a corrupção, dizendo-se correto, honesto, impoluto, incorruptível.

Entretanto, nesse período de pandemia do coronavírus, segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, recebeu propina, entregou-se aos braços da corrupção e desviou dinheiro da saúde, dentre outros crimes tipificados na lei substantiva penal.

Em consequência, deixou centenas de pessoas morrerem à míngua por falta de respiradores, medicamentos, leitos hospitalares suficientes, estrutura de atendimento e outras coisas mais.

As provas parecem robustas, tanto que o Superior Tribunal de Justiça o afastou do cargo de governador dos fluminenses e Sua Excelência ainda enfrenta um processo de impeachment na Assembleia Legislativa.

Como se vê, um sujeito com uma conduta dessas não parece passar muito longe do apelido que o presidente Bolsonaro lhe cravou.  

No caso de São Paulo, não é muito diferente. A demagogia do governador João Dória (PSDB) salta aos olhos e não é mais nenhuma novidade para os paulistas atentos.

O governador vale-se deslavadamente da pandemia para tentar cacifar-se com vistas à disputa presidencial de 2022. Usa a dor e o sofrimento alheios para estruturar-se politicamente. Não consegue disfarçar.

A frase que o governador de São Paulo mais pronunciou nesses últimos meses foi “salvar vidas”, arrastando para si a eficiência – que não tem – para espantar o coronavírus e elevando-se ao pedestal da arrogância.

Resultado: São Paulo passou a ser o epicentro da doença.

Dados de 10.09.2020 atestam que já morreram no estado 31.821 pessoas, além de um assustador número de infectados: 866.576 pessoas, beirando um milhão de doentes.

Cadê a eficiência em “salvar vidas” do governador Dória, que só ele sabia a mágica? 

O mundo diz, seguidamente, que a ciência ainda está às voltas com os estudos para encontrar a forma de debelar o coronavirus. Doença nova, sem nenhum parâmetro em que a ciência possa se apegar como referência.

O governador de São Paulo não está fazendo nada para desgrudar-se do apelido que o presidente Bolsonaro lhe cravou.

Semelhanças

Semelhanças entre Wilson Witzel, governador afastado do Rio de Janeiro e o ex-ministro Sérgio Moro: ambos foram juízes federais, ingênuos politicamente, vaidosos e hipócritas.

Juízes federais!

Triste Poder Judiciário o nosso, que abrigou pessoas como estas e outras tantas conhecidas.

O governador do Rio já caiu em desgraça. Sérgio Moro está aguardando a vez de sucumbir. Está escorregando no abismo de sua imoralidade.

Vão-se dar mal. Ambos já começaram a descambar para o despenhadeiro da descrença.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: respeito ao direito de divergir.

Stoessel Dourado, nascido em Paripiranga, mas fazendeiro no município de Irecê, foi deputado estadual pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional) da Bahia, reeleito nas eleições de 1974 com 15.113 votos.

Tinha como colegas na Assembleia Legislativa baiana, dentre outros: Roque Aras, eleito com 12.476 votos, nascido em Monte Santo e pai de Augusto Aras, atual Procurador-Geral da República; e Elquisson Soares, nascido em Anagé, advogado e produtor de café em Vitória da Conquista, ambos do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), também eleito em 1974 com 14.114 votos, a maior votação da oposição para a Assembleia Legislativa.

A bancada da oposição era pequena – nove deputados – mas buliçosa e barulhenta e tinha, além de Roque Aras e Elquisson Soares, Archimedes Pedreira Franco, Clodoaldo Campos, Guttemberg Amazonas, etc.

Conhecido por seus virulentos discursos contra o regime militar, Elquisson Soares ocupava a tribuna, quando foi aparteado pelo arenista Stoessel Dourado, advogado e médico veterinário, defensor do regime militar.

– Concedo o aparte, com prazer, mas quero saber quem está aparteando, se o advogado ou o veterinário – provocou Elquissson Soares.

Stoessel Dourado foi rápido:

– Para falar com Vossa Excelência só pode ser o veterinário.

Como dizia o prefeito Odorico Paraguaçu, de Sucupira, “não obstantemente esses entretantos”, as pré-campanhas eleitorais nos municípios, quaisquer quer sejam eles, precisam ajustar-se à civilidade e abandonar a mesmice das acusações tão comuns em pleitos anteriores.

Já se veem em Curaçá, por exemplo, pessoas desengavetando acusações contra adversários, o que, de certa forma, apequena a maneira de fazer política.

Parece razoável entender – e isto chega a ser uma obviedade – que desenterrar picuinhas de eleições anteriores, apenas com o intuito de arranhar candidaturas de adversários, não leva a nada, não afigura-se nenhum mérito, tampouco significa saber fazer política.

A pobreza de ideias e a ausência de propostas estão dando lugar ao vazio e à ponte em direção a lugar nenhum.

Trazer ao momento político atual insinuações de que o prefeito A, B ou C prestou ou deixou de prestar diminui os espaços para inserir novas ideias que possam esclarecer o eleitor com vistas ao melhor caminho em direção às urnas.

 O direito de apoiar uma candidatura ou afastar-se dela em benefício de outra não quer significar conduta censurável. É tão-somente exercício do direito democrático de divergir, de contestar, de mudar de rumo.

Uma coisa é divergir; outra coisa é trair politicamente, abandonar acordos, romper estratégias engendradas. São situações diferentes.

O discurso político pressupõe equilíbrio, até mesmo quando feito com ironia, como o exemplo acima.

Em Curaçá, a campanha eleitoral majoritária desenha-se sem nenhuma novidade e, parece, descambando para o desrespeito ao direito de divergir.

Isto não é bom para a seara democrática. Uma das belezas da política é a convivência sadia com os contrários, civilizadamente.

A robustez da coerência política é não abandonar as ideias, perseguir os sonhos. E só.

Mudar de rumo não significa mudar o caráter.

araujo-costa@uol.com.br

Convenções partidárias municipais

Afunila-se o prazo para realização das convenções partidárias, que termina no próximo dia 16 de setembro, um dos momentos altos da democracia e do processo eleitoral.

Em razão da pandemia do coronavírus, a legislação eleitoral precisou se ajustar à nova realidade do País e operou mudanças expressivas.  

A mudança mais significativa é a realização virtual das convenções. Somam-se o registro de presença dos filiados, a elaboração da ata e o registro das candidaturas, tudo virtualmente, o que difere, em muito, do que se estava acostumado a praticar.

Entretanto, quando o partido político dispõe de livro aberto e rubricado na Justiça Eleitoral, mesmo sendo virtual a convenção, pode optar pelo livro e nele registrar as presenças e a ata da convenção.

Independentemente da forma, tudo isto será inserido e compatibilizado com o sistema da Justiça Eleitoral.

O prazo para registro das candidaturas expira-se em 26 de setembro. É a data-limite.

A sociedade vem se adaptando rapidamente a essa nova realidade, de sorte que, mesmo nos municípios distantes dos grandes centros urbanos, com menos recursos tecnológicos, tudo será feito de acordo com essas mudanças impostas pelas circunstâncias.

A Justiça Eleitoral tem sido diligente em orientar, divulgar e portar-se à disposição dos partidos políticos, candidatos e demais interessados, com vistas à regularidade dos procedimentos adotados para as eleições municipais que se avizinham.

O momento democrático é alto, sublime, imprescindível.

Em 2020 não se verá festas e aglomerações nas convenções, por força das recomendações sanitárias, mas isto não tira o brilho da democracia.

Os partidos políticos escolhem, por voto de seus filiados estatutariamente habilitados, os candidatos majoritários – prefeito e vice-prefeito – e os postulantes a cargos proporcionais (vereadores), sorteiam os números dos candidatos e até podem decidir se disputam ou não alguns desses cargos.  

O que os partidos precisam ficar atentos é quanto à publicidade necessária relativamente às datas das convenções. Isto é fundamental para garantir a lisura do evento perante seus filiados e evitar questionamentos, até por conta da novidade virtual nas convenções.

O esplendor da democracia permite que se apresentem muitos postulantes a cargos eletivos, mormente às Câmaras Municipais.

O grande número de candidatos somente engrandece a disputa eleitoral e torna os municípios mais participativos no engrandecimento da democracia.

O encanto democrático se realiza através da sábia convivência entre todos, pretendentes a cargos eletivos e população.

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A extinção dos pequenos municípios

Está em tramitação no Senado Federal a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que discute o Pacto Federativo e, dentre outras coisas, prevê a extinção de pequenos municípios.

Como o nome explica, o pacto é um acordo constitucional entre os entes federativos União, Estados, Distrito Federal e Municípios, versando sobre obrigações financeiras, arrecadação de recursos e normas legais, acomodando tais atribuições no campo de atuação de cada um desses entes.

Então, o pacto é um acordo constitucional, político e administrativo entre esses entes federados previstos na Constituição da República.

Na realidade, o pacto já existe, por força de norma constitucional delineada no artigo primeiro da Carta Magna. O que se discute, agora, é a alteração desse pacto, para redefinir a distribuição de receitas entre os entes federativos e promover o equilíbrio fiscal.

Pelo pacto, os municípios de até 5.000 habitantes deverão comprovar, até dia 30 de junho de 2023, se têm sustentabilidade financeira: mínimo de 10% da receita total atribuída ao município.

Na eventualidade de tais municípios não conseguirem comprovar essa sustentabilidade financeira deverão ser incorporados a outros municípios maiores, supostamente autossuficientes. 

Sabe-se que  o Brasil tem, hoje, 1.200 municípios com população inferior a 5.000 habitantes. A maioria, não arrecada receitas próprias suficientes para custear a própria estrutura. E estrutura, aqui, pressupõe ter recursos para se administrar, inclusive investir e não somente pagar despesas necessárias e obrigatórias.

Se prosperar essa regra prevista no pacto, trocar-se-á seis por meia dúzia. A explicação é simples.

Exemplo: no que tange à folha de pagamento, os servidores concursados e/ou vinculados ao município por qualquer motivo ou liames contratuais, não podem ser exonerados, em razão de direito adquirido.

Mais: a máquina pública precisa continuar funcionando, é impraticável a redução de custos sem diminuição da estrutura que gera a despesa, a população precisa ser atendida e os serviços públicos precisam ser prestados eficientemente.

Logo, simplesmente esses servidores vão inchar as despesas do município que o anexou. Ou seja, a extinção não resolve o problema do município extinto, tampouco do município que o anexou.

O fato é, de acordo com a PEC proposta, os municípios que não consigam se sustentar financeiramente terão de ser incorporados por seus vizinhos maiores e bem situados em termos de arrecadação.

Em consequência, o Pacto Federativo vai alterar as regras de criação de novos municípios, a fim de evitar que o Brasil continue se empanturrando de municípios cujas arrecadações não são suficientes para sustentá-los.

A discussão parece ser longa. Há outro ingrediente a ser considerado: a criação de municípios envolve interesses políticos de lideranças locais, além de deputados estaduais e federais e senadores.

O intuito do Pacto Federativo, segundo consta, é fortalecer a federação e promover o equilíbrio fiscal.

Entretanto, o equilíbrio político é fundamental. Ele vai contar muito nos conchavos para alteração deste Pacto Federativo.  

Quanto à extinção dos pequenos municípios, há sinalização de que o presidente da República vai pedir para que tal previsão seja excluída do texto.

O que não está parecendo claro é o silêncio das entidades e associações de municípios que não têm se manifestado sobre a extinção dos pequenos municípios.

De qualquer forma, se as necessidades das populações mais carentes não forem consideradas nesse pacto, ele será “mais mentiroso que epitáfio de cemitério”, conforme dizia o crítico Agripino Grieco (1888-1973).

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Rabiscos políticos e pré-candidaturas

“Conversei longamente com o governador. A cada pergunta, ele dava uma resposta de cinco minutos, a mulher tomava a palavra e falava vinte, trinta minutos”. (Sebastião Nery).

A mulher que mandava no marido – e no governo do marido – era a primeira-dama do Ceará, elegante senhora de respeitável estirpe coronelista.

O marido era o professor Parsifal Barroso (1913-1986), governador eleito em 1958 pelo PSD, ex-ministro do Trabalho de Juscelino Kubitscheck.

Surgiu um ruído, segundo o qual, quem mandava no Ceará era a mulher do governador e não o governador.

Sebastião Nery, jornalista de A Tarde, de Salvador, farejou a notícia e captou o sucesso da reportagem.

Nery foi lá ver, in loco. Andou, conversou, entrevistou, assuntou, anotou, convenceu-se.  

De volta a Salvador, A Tarde deu a manchete: “Quem manda no Ceará é a mulher de Parsifal”. Um jornal cearense reproduziu a notícia.

O Ceará virou um rebuliço. O governo ficou bravo e a oposição contente com a notícia, que todo mundo no Ceará sabia, mas ninguém se arriscava a dizer.  

O assessor de imprensa do governador mandou um telegrama para Sebastião Nery: “Jornalista Sebastião Nery, venha morrer no Ceará”.

Sebastião Nery, respondeu com outro telegrama: “Não vou”. E não foi.

Sebastião Nery conta a história in A Nuvem (Geração Editorial, São Paulo, 2009).

Lembrei-me deste fato, porque, nestes tempos de conturbadas e vaidosas pré-candidaturas municipais, fontes me informam que em Chorrochó, simpático e querido município do sertão da Bahia, nas bandas do sertão do São Francisco, há um aspirante a cargo eletivo que segue à risca as ordens da mulher.

Dizem que a mulher conjectura, engendra acordos políticos, indica nomes, amaldiçoa outros, antevê dias melhores (para o lado dela, é claro) e por aí vai.

O marido faz muito bem em curvar-se às ordens da mulher. Quem sabe, sendo eleito, Chorrochó melhora e sai desse mandonismo insensato que se arrasta há décadas e que muitos discordam, mas esses muitos não conseguem mudar, não têm capacidade de mudar.

Falta-lhes coragem, escapa-lhes experiência política, sobra-lhes comodismo.

É antológica a frase do poeta modernista Menotti Del Picchia (1892-1988): “Quem não muda deixa de ser”.

Chorrochó não muda e, por isto, não está sendo.

A opinião feminina é de grande valia, qualquer que seja o contexto, inclusive em política.

Mas tudo que é demais acaba não sendo bom, inclusive opinião.

araujo-costa@uol.com.br

Lalá de Patamuté

Josiná Possidônio da Silva – Lalá de Patamuté – é um pouco mais novo do que eu. Nascemos no mesmo ano, 1952. Ele em outubro, eu em abril.

Portanto, estamos aí beirando a senectude, porque a envelhescência já bateu em nossa porta faz tempo e nos enxotou em direção ao caminho da senilidade.

Convivemos em nossa juventude, em Patamuté. Lalá sempre foi prestativo, atencioso, respeitador. Incapaz de ofender qualquer pessoa. Atendia a todos com presteza exemplar.

Lalá sempre foi trabalhador. Casou, criou família e hoje – considerando minha capacidade de errar – deve ter mais de uma dezena de netos. Família grande, pois assim Lalá se dignou a construir.

De vez em quando lembramo-nos da infância e da juventude. A adolescência um tanto buliçosa e traumática, no meu caso, em razão da pobreza, mas foi o que Deus me permitiu.

Todavia, é na juventude que se sedimentam as melhores lembranças e lá edificamos as primeiras e duradouras amizades.

Hoje me deu uma saudade doida de Lalá. A última notícia que tive dele é que estava trabalhando no Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Curaçá (SAAE). Se ainda estiver por lá, deve estar bem amparado.

O SAAE, mais do que uma instituição quase sexagenária (foi fundado em 28/02/1963), é um ajuntamento de pessoas boas, com raízes sadias bem fincadas. Lá tive um amigo, exemplo de caráter e de seriedade: Ponciano Pereira Rêgo. Hoje tenho outros, mais jovens, mais afoitos diante da vida, de geração mais irrequieta.

Lalá tem um quê de “doidera”, mas é esperto, impressionantemente esperto. Ele não é ilógico. Às vezes tem olhar distante, raciocínio demorado, como se captando os meandros de nossa insensatez. Insensatos somos nós, ditos normais.

Uma das qualidades de Lalá é a lealdade. Lembro a amizade antológica que ele mantinha com Theodomiro Mendes da Silva, também meu amigo e filho de Patamuté, que foi prefeito de Curaçá.

Theodomiro confiava a Lalá algumas atribuições um tanto difíceis e podia tranquilizar-se. Lalá dava conta de todas, eficientemente.

As ruas e os becos de Patamuté guardam boas lembranças de Lalá.

araujo-costa@uol.com.br

O que pensam e dizem alguns leitores

“Não há santo, herói, gênio ou pulha, sem ideias. Só os imbecis não as têm” (Nelson Rodrigues, jornalista, escritor, romancista e teatrólogo, 1912-1980)

A condição mais terrível de quem escreve é ter de penitenciar-se diante das críticas. Mas há de respeitá-las, sim.

A opinião do leitor merece acolhimento, desde que nos limites da educação e civilidade. Sem agredir, sem ofender, sem apequenar-se.

Um leitor de meus textos observou – ou reclamou, não sei bem – quanto à minha falta de estilo. Disse que misturo assuntos no mesmo texto, falo de diversas coisas simultaneamente, embaralho notícia com opinião e por aí vai.

Ele tem razão. Contudo, se equivocou num ponto: eu não dou notícias, comento-as.

Esclareço ao atento leitor. O meu estilo é exatamente este: a falta de estilo. Ou, noutras palavras, não me prendo a regras comumente aceitas. E aí está a sabedoria de quem lê: descobrir que o cronista não está adstrito a escrever somente o que o leitor quer ler.

Ademais, não parece um bom caminho achar que quem escreve é dono da verdade, sabe tudo, é uma enciclopédia ambulante. Não. O cronista, seja ele famoso ou não, é um observador do cotidiano e externa suas impressões sobre as circunstâncias do dia a dia.

O cronista erra e tropeça, como todos, mas vive equilibrando-se entre o dizer e os fatos do dizer. Este é o mérito, se é que existe mérito neste particular.

Quando o leitor acha que o cronista sabe tudo, corre o risco de se decepcionar e quase sempre se decepciona.

O escritor e cronista Mário Prata conta que já recebeu muitos convites para entrevistas para falar sobre todo tipo de assunto, até sua opinião sobre o porquê de o penico ter caído em desuso.

Numa entrevista, a entrevistadora quis saber se ele preferia calcinha branca, preta ou vermelha. Ele achou um despropósito: “Logo eu, que nunca usei calcinha?”  

Em 1987, quando lancei meu livro Fragmentos do Cotidiano, recebi carta de um amigo de grandes e inesquecíveis tertúlias (naquele tempo ainda se escreviam cartas) confessando-se muito decepcionado. Dizia ele que esperava coisa melhor. Não encontrou.

Pensou que eu tivesse escrito sobre política, citado nomes de políticos e algumas patifarias que eles aprontaram, como de costume.  

Por outro lado, o ínclito D. José Rodrigues de Sousa, da Congregação do Santíssimo Redentor, que à época era bispo da diocese baiana de Juazeiro, mandou-me uma comovente observação, segunda a qual as amenidades constantes no livro lhe agradaram sobremaneira. Talvez por educação, talvez por zelo de pastor humilde, talvez pela amizade, talvez para estimular a vida do estreante autor.

Como se vê, duas opiniões antagônicas, mas saudáveis, dentre outras, até comoventes.

Outro equívoco que muitas pessoas cometem é dizer que sou de direita e que defendo somente políticos de direita. Engano. Não defendo direita, esquerda, centro ou coisa parecida.

O que defendo é a seriedade política e o respeito à coisa pública, o que não se vê em nenhum lado ideológico, seja de direita, de centro ou de esquerda.

Outro dia, vi na televisão, imagens chocantes e estarrecedoras de uma família de Irecê (BA) e outra do Maranhão em estado de extrema miséria. Sem comida, sem teto, sem água, sem roupa, sem, calçado, sem esperança, sem mínimas condições de sustentarem a dignidade humana a que têm direito assegurado na Constituição da República.

O ex-presidente Lula da Silva e o PT não dizem, repetidamente, que tiraram toda essa gente da extrema pobreza?

Seria mais razoável se Lula da Silva, petistas, admiradores e aliados admitissem que fracassaram na forma ou na “arte” de mentir.

É por isto que muitos dizem que sou de direita.

araujo-costa@uol.com.br