Na Bahia, um deputado sem nexo e sem rumo

A Câmara dos Deputados compõe-se de variadas bancadas. Há a bancada da bala, bancada ruralista, bancada evangélica e outras até exóticas.

É possível que venha surgir outra bancada, a do gueto, que o deputado federal baiano Igor Kannário (DEM) parece disposto a instituir. A bancada pode ser constituída de um deputado apenas que, inclusive, pode ser líder de si mesmo.

Por definição, gueto é o local em que uma minoria está separada do resto da sociedade. Trata-se de isolamento social, via de regra, permanente.

É esta minoria silenciosa que o deputado Igor Kannário diz representar e defender.

O Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal – caracteriza-se pela pluralidade. É essencialmente democrático. Todas as camadas sociais, em tese, estão lá representadas. Ou deveriam estar.

O deputado Igor Kannário representa um segmento social que sempre esteve à margem das decisões nacionais. Em consequência, é valoroso seu papel parlamentar no sentido de representar quem não tem voz, os habitantes periféricos da metrópole soteropolitana.

Ocorre que o deputado também é simulacro de cantor e, por isto, canta o que esse segmento social, que ele diz representar, vive e pensa. O deputado até se intitula “príncipe do gueto”. O problema é a forma arrevesada com que ele interpreta esse sentimento do gueto.

Entretanto, o que não fica bem é a falta de educação de Sua Excelência. Por vezes provoca a Polícia Militar da Bahia e solta palavrões impublicáveis, o que, convenhamos, não fica bem para um deputado.

Parece que ele tem dificuldade de entender a liturgia do cargo de deputado federal.

É certo que Sua Excelência tem imunidade parlamentar por suas opiniões e palavras, mas a boa educação recomenda que os limites sejam respeitados.

Exageros não se recomendam em lugar nenhum e menos ainda em boca de deputado.

Recentemente em Juazeiro-BA, o Poder Judiciário, a pedido do Ministério Público, recomendou que não fossem contratados para o carnaval cantores cujas músicas, letras e coreografias contivessem teor discriminatório e incentivo à violência contra mulheres, à homofobia, et cetera.

O deputado-cantor Igor Kannário enquadra-se neste cenário, mas parece que se comportou razoavelmente.

Em data mais recente, no carnaval de Salvador, o dito deputado andou ofendendo publicamente a Polícia Militar do estado, conduta incompatível com sua condição de deputado, embora na ocasião do destempero ele não estivesse no exercício da atividade parlamentar. Mas neste caso, é difícil separar o cantor do deputado. São indissociáveis.

Ninguém achou graça nas ofensas do deputado à instituição, nem mesmo Antonio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador e presidente nacional dos Democratas (DEM), partido do deputado.

Todavia, o DEM apequenou-se ao silenciar neste episódio do deputado Igor Kannário.

A gloriosa Polícia Militar da Bahia deve ser respeitada por todos, independentemente de partidos políticos. É patrimônio valoroso dos baianos, instituição respeitável que não se confunde com eventuais e isolados desvios de conduta de alguns de seus membros.

Mas voltando ao gueto. O gueto também gosta de coisas boas, de músicas boas.

Por exemplo, conhecidas boas músicas da boemia carioca foram compostas por moradores dos morros, das favelas, da periferia.

Talvez em razão da ausência de pessoas que lhes representem dignamente, os habitantes da periferia agarram-se em políticos vazios, estrambóticos, desrespeitosos, aventureiros, eventuais. É uma forma de a periferia marcar presença diante de uma sociedade que a rejeita e espezinha.

Morar na periferia não significa, necessariamente, gostar de coisas ruins.

O deputado Igor Kannário parece sem nexo, sem rumo e desconectado do mundo político.

Ainda não descobriu a diferença entre cantar, representar o povo com dignidade e respeitar as instituições.

araujo-costa@uol.com.br

 

O sorriso também deixa cicatrizes

Comumente as cicatrizes são vistas através do lado mais cruel, o sofrimento.

Contudo, elas são marcas deixadas ao longo do tempo e, como tais, também podem resultar de alguma face do caminhar que não sejam somente sinais de tristeza.

As nódoas que se agarram ao nosso viver quase sempre decorrem de tropeços, perturbações que a vida nos permitiu experimentar, mas o passado também teve alegrias, sorrisos, flores no jardim.

A preparação para o envelhecimento pressupõe que caminhemos devagar com as tristezas e as alegrias do passado e, sobretudo, com a altivez do presente.

Somos possíveis hoje e isto nos basta.

As escolhas irreversíveis, o amoldar da consciência, as amizades, as dores e as descobertas fizeram parte da construção de nossos mistérios.

Lágrimas e risos emolduraram o viver até aqui.

Passamos o tempo conjecturando formas de viver. Isto faz parte dos sonhos, da ambição de enxergar mais longe.

A efemeridade da vida encurta o tempo, corrói as forças e torna mais distante o ápice que pretendemos alcançar. Entanto, seguimos. A razão maior do caminhar é a esperança.

Até o amor que sentimos às vezes parece fraquejar.

 “Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor”, dizia o padre Vieira. Mas é preciso força, disposição para a luta, mesmo que ela nos pareça inglória.

Caminhar, sempre.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um dos meus muitos defeitos: sou relapso e desatencioso com os amigos, embora eles me entendam, exatamente por serem amigos.

Na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por uma avenida enorme, ensolarada, seca, barulhenta, entre passantes indiferentes.

Eu às voltas com a exiguidade do tempo e compromissos de agenda e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo, talvez pela aspereza da cidade grande e a fragilidade que o tempo lhe impôs.

Fiz-lhe algumas perguntas como é praxe nesses encontros casuais.

Humilde e reticente, disse: “Rapaz, me perdi. Tem uma rua ali, aquela onde moro, você sabe, diabo, pareço velho”. E apontava para um lado e para outro, braços levantados, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada.

Fiquei preocupado.

O relógio me atrapalhando, confrontando-me com a necessidade de ser-lhe útil, solidário, a lembrança do passado e de nossa amizade a me cutucar.

Deixei-o nas imediações de sua casa, porque já se achava seguro e me despedi mais frágil que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da inevitável certeza da velhice.

Chorar nesses momentos é muito fácil.

Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram naquele momento. Distanciei-me com uma sensação de solidão, mais desamparado do que ele.

Depois, angustiado, fui relembrando nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate-papo desinteressado, as músicas que ouvíamos.

Meu amigo está fragilizado, diminuído, carente diante da vida.

Confessou-me lhe terem escapado as esperanças: “rapaz, acho que não tenho mais jeito”.

Observei seu olhar vazio, semblante maltratado pelo tempo e pelo sofrimento.

Mas ele já sorriu muito. Sou testemunha. E o sorriso também deixa cicatrizes boas, inolvidáveis cicatrizes!

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: Eloy Pacheco de Menezes

Eloy Pacheco de Menezes fez parte de uma época de lutas e turbulências do município baiano de Chorrochó. Integrante de família tradicional, Eloy carregava no nome a marca de uma estirpe muito respeitável naquela região sertaneja: Pacheco e Menezes.  

Em todo o território do município e circunvizinhança, principalmente na zona rural, quando os sertanejos falavam em respeito e dignidade, era comum a referência a “os Pachecos”, como senhores portadores desses atributos tão importantes na vida do povo nordestino.

Um dos legados de Eloy Pacheco de Menezes foi e será a luta constante e intensa que travou, ao lado de Dorotheu Pacheco de Menezes, amigo e confidente, em prol dos interesses de Chorrochó.

Ao consolidar-se a emancipação do município em 12.09.1954, Eloy foi nomeado gestor dos negócios municipais, uma espécie de prefeito provisório, por decreto do então governador da Bahia, Luís Régis Pacheco Pereira. Nessa condição, foi o responsável pela instalação dos serviços públicos do município, enquanto as instituições precariamente se acomodavam.

Todavia, a história registra alguns atributos de Eloy, além dessa arraigada luta política ao lado de Dorotheu: o caráter inflexível, a dignidade e a intransigência quando, eventualmente, sentia sua honra ameaçada. Noutras palavras, era valente, pavio curto e, sobremaneira, decidido. Em defesa da família e de seus valores morais, tornava-se impassível, afoito, corajoso, audaz.

Como diria Raul Pompéia (O Ateneu), Eloy tinha “as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter”. Não arredava o pé de seus alicerces, de seus valores, dos ditames de sua consciência.

Embora Chorrochó, através dos órgãos de cultura, salvo melhor juízo, nunca tenha evidenciado o papel de Eloy Pacheco de Menezes na história do município, é inegável sua contribuição para edificar os alicerces de que hoje o município dispõe.

Eloy foi um daqueles senhores intransigentemente engajados na luta em defesa do município. Dir-se-ia absolutamente convicto, seguro dos valores que defendia, apegado aos seus pontos de vista.

Eloy viveu numa época em que se evidenciava a ausência de entendimento entre as lideranças municipais, fato esse que direcionava os assuntos políticos para o terreno das relações pessoais. Tempos difíceis, em que a convivência entre os políticos e líderes locais dava-se de forma arredia, desconfiada, vigilante, atenta.

Naquele tempo, as correntes políticas de Chorrochó mantinham-se diuturnamente vigilantes em relação aos adversários. Entretanto, Eloy nunca subestimou o lado contrário, mas não vergava quando o assunto arranhava sua honra.  Em razão disto, tinha fama de duro, valente, intransigente.

Aqui, o fundo de verdade é de ordem geral. O homem nordestino daquele tempo era sobremaneira zeloso da sua honra e construía a reputação alicerçada no respeito e na palavra empenhada.   

Casado com Maria Argentina de Menezes, elegante senhora da sociedade chorrochoense, Eloy constituiu família honrada e decente que enriquece Chorrochó até hoje, através de sua valiosa e respeitável descendência. Transmitiu aos seus filhos a mesma retidão de caráter que ostentou até a morte.

Eloy, a esposa Maria Argentina de Menezes e os filhos Ernani de Amaral Menezes, Maria Menezes (Pina) José Eudes de Menezes (Iê) e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó) contribuíram, cada um a seu modo, para uma quadra inesquecível da história de Chorrochó, que deve muito a todos eles.

Eloy voltava-se à vida do sertanejo: a luta, o sofrimento, a esperança imorredoura e até o lamento. Admirador do poeta cearense Patativa do Assaré, ouvia, com absoluto respeito, a música “Triste Partida” gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, talvez o melhor retrato sociológico do retirante nordestino.    

Chorrochó precisa retirar Eloy Pacheco de Menezes do esquecimento e colocá-lo à luz do conhecimento das novas gerações, através de seus registros históricos.

Se “um país se faz com homens e livros”, segundo Monteiro Lobato, Chorrochó precisa cuidar da memória dos homens que fizeram sua história já que nunca se preocupou com os livros.

araujo-costa@uol.com.br   

 

Em Chorrochó é possível

“De circunlóquios nada sei.
O caso conto como o caso foi.
Na minha frase de constante lei,
O patife é patife; o boi é boi.”

(Cônego Batista Campos, in “O Paraense”, Século XIX)

Este assunto é um tanto recorrente. Já me falaram dele algumas vezes, mas confesso que não acreditei, tendo em vista o ineditismo da situação.

Noutra ocasião, até andei telefonando para algumas pessoas de Chorrochó com o intuito de certificar-me do caso. É meu dever checar as informações antes de publicá-las.

Todas as pessoas consultadas subiram no muro, algumas chegaram ao telhado. Umas não sabiam do caso, outras disseram que nunca tinham ouvido falar e outra foi mais específica, mas bastante prolixa: “faz tempo que andei em Várzea da Ema”.

Confesso que não entrei em contato com ninguém da oposição de Chorrochó ou simpatizante dela, porque a resposta seria óbvia: a confirmação do fato, mesmo que com alguns reparos.

Por tudo isto, concluí que o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) tem uma rede de proteção enorme no município. Se nada mudar, a legislação permitir e ele for candidato em outubro próximo, certamente será reeleito com folga.

A imprensa costuma ser uma espécie de termômetro. Contudo, as urnas também costumam surpreender.

Dito isto, vamos ao caso: dizem que no simpático distrito de Várzea da Ema, em Chorrochó, há uma escola sui generis: transformou-se num bar.

Presumo que se trate de folclore político ou intriga da oposição ao prefeito.

Como não nasci ontem, reluto em acreditar, até porque suponho que Várzea da Ema tem um representante na Câmara Municipal. Ou não?

Mais: se a escola é estadual ou municipal pouco importa, não interessa. As autoridades do município têm o dever de tomar providências, ajustando-a ao seu objetivo, qual seja, ensinar.

Entretanto, em 23/02/2020, logo cedo, o vereador Luiz Alberto de Menezes (Beto de Arnóbio) do Partido dos Trabalhadores (PT) cutucou o prefeito em uma rede social, por volta das seis horas da manhã, nestes termos: “queria que o prefeito falasse sobre o colégio que agora é bar na Várzea da Ema”.

O prefeito Humberto, que é experiente, deve saber que com oposição não se brinca. E oposição, que é oposição, não dorme. Se o vereador petista insiste no assunto, então tem fundo de verdade ou alguma coisa precisa ser explicada. Mas este escrevinhador continua achando o caso estranhíssimo, esta história de um colégio que virou bar.

Estamos numa quadra do tempo em que os questionamentos são frequentes. São constantes as cobranças às autoridades quanto ao cumprimento do seu dever. Afinal, elas estão no poder para isto, cumprir o dever.

A sociedade está começando a acordar e exigir seus direitos, mesmo nos distantes rincões do Brasil.

Mas daí a acreditar nesse absurdo há uma grande distância.

Com a palavra o Excelentíssimo prefeito Humberto Gomes Ramos.

araujo-costa@uol.com.br

A democracia obscura de Ciro Gomes

A democracia que o ex-governador cearense Ciro Gomes pratica não consta nos compêndios de ciência política.

O senador Cid Gomes (PDT), também ex-governador do Ceará, ameaçou invadir unidade militar com uma retroescavadeira, o que fez até certo ponto, mas foi interrompido por disparos de arma de fogo que o atingiram.

O boquirroto Ciro Gomes, ávido por holofotes, apressadamente foi à imprensa dizer que o gesto arrogante e desvairado do irmão foi tão somente o exercício democrático de direito.

Neste particular, o exercício democrático de direito não se daria através do diálogo, da conversa e da negociação com os amotinados?

Como explicar que a invasão de um prédio público com o uso de uma retroescavadeira é democrática? Para Ciro Gomes é.

Ciro disse que passou toda a vida defendendo a democracia, mas é contraditório a ponto de admitir que, se estivesse com o irmão naquele momento, o desfecho teria sido pior. Noutras palavras: Ciro concorda com a violência e relativiza o diálogo que tanto prega.

A democracia lá em Sobral, terra dos truculentos coronéis Ciro e Cid, deve ser outra ou, pelo menos, distancia-se da democracia que os brasileiros querem praticar.

A oligarquia dos Ferreira Gomes domina o município de Sobral há décadas, com algum interregno. Lá mandam os irmãos Ciro, Cid e Ivo Gomes. Democracia por lá é um bicho difícil de encontrar. Só no discurso.

O diálogo da família Ferreira Gomes é substituído pela arrogância. No caso em questão, por uma retroescavadeira. Não deu certo, não podia dar certo.

Tagarela, Ciro Gomes desanda-se a acusar o governo federal por tudo de ruim que acontece no Brasil, inclusive no Ceará.

A Polícia Militar do Ceará, que agora está amotinada, nada tem a ver, por óbvio, com a administração federal. Mas Ciro Gomes está tentando culpar Deus e o mundo pelas falhas dos governos cearenses, inclusive equívocos dele e do irmão Cid à frente da administração pública.

Ciro insinuou que as milícias do Rio de Janeiro estão invadindo o Ceará. Pode até ser verdade, mas ele esqueceu de dizer que o estado foi governado por ele, pelo irmão e agora senador Cid Gomes e hoje é governado por seu aliado Camilo Santana (PT).

Cadê a eficiência dos governos do Ceará que Ciro Gomes tanto alardeia?

Por exemplo: Ciro diz a cada entrevista, que o ensino do Ceará é o melhor do Brasil e que os métodos educacionais implantados por ele e pelo irmão Cid no estado são infalíveis.

Crítico de tudo, Ciro fala demais.

Ciro Gomes é autoritário, encrenqueiro, mandão. É um coronel oligarca disfarçado de democrata.

Como dizia o político Leonel Brizola, “se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?”.

O disfarce democrático de Ciro Gomes não consegue tirar-lhe a condição de jacaré.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

 

 

 

Patamuté: lugares e lembranças de minha aldeia

“Tudo está neste lugar: os silêncios, o tempo, o calor, a poeira, a solidão” (José Luiz Villamarim, sobre o sertão nordestino )

Modéstia à parte, nasci em Patamuté, lugar encravado no sertão da Bahia. Em Patamuté, é modo de dizer, porque nascer lá é muita honra e por isto sempre digo que sou de lá, com orgulho.

Mas nasci mesmo foi numa rústica casa de taipa, entre pedras e cactos, na caatinga, na divisa com o município de Chorrochó, nos barrancos do Riacho da Várzea. Esse lugar pertence ao distrito de Patamuté, minha querida aldeia, lá para as bandas do município de Curaçá.

Um amigo metido a filósofo – tenho alguns – depois do terceiro uísque, quis saber a razão de tanto orgulho. Expliquei-lhe. Melhor, perguntei-lhe.

Você sabe o que é nascer ouvindo o canto dos pássaros e a cantiga das cigarras e se criar dividindo espaço com bodes, cabras, ovelhas, tatus, tamanduás, preás, raposas, teiús,  gambás e outros feitos da natureza?

Sabe o que é passar a infância com os pés descalços e as roupas rasgadas – porque, quase sempre, os pais não podiam comprar – e conviver, diariamente, com o sol escaldante do sertão? Sabe o que é beber água de pote?

Você já viu a escuridão ou o luar na caatinga, o fogão a lenha, os galhos retorcidos das árvores em tempo de seca? Já viu o verde, quando Deus manda chuva para alegrar o sertanejo? Já ouviu a conversa despretensiosa do sertanejo, os “causos” que ele conta?

Você já assuntou a sabedoria do sertanejo?

Sabe como é bom tomar banho nas águas barrentas do Riacho da Várzea, que serpenteia, preguiçosamente, em direção ao São Francisco e nem sempre suas águas chegam lá, porque vão se perdendo na secura do tempo?

Sabe o que é beber água salobra de cacimba, em tempo de seca, dividindo o espaço com abelhas e sapos, sentir-se bem por isto e ainda assim agradecer a Deus?

Sabe o que é assistir ao espetáculo de caprinos e ovinos berrando em volta do chiqueiro ao anoitecer? Você já viu a lua na caatinga? As estrelas, o cantar dos pássaros noturnos, o coaxar dos sapos? Você já viu o sol escaldante da caatinga? Já viu o nascer do sol e o crepúsculo na caatinga?

Sabe o que é nascer e ser criado num universo imenso como as caatingas de Curaçá e Chorrochó, onde se faz história de tudo, até do sofrimento de sua gente? Sabe o que é orgulhar-se até do desespero dos desamparados naquele mundão?

Sabe o que é lembrar as lágrimas – e foram tantas – de nossos antepassados? Sabe como um povo consegue ser tão forte, embora em meio a tanto sofrimento e, não obstante, sempre vive alegre e espirituoso?

Tudo isto é muito orgulho, que às vezes fica querendo saltar do peito em direção ao mundo. Tudo isto é muita honra e honra maior é dizer: sou filho de Patamuté.

Os lugares de minha aldeia são muitos, inúmeros, inesquecíveis: os riachos, as estradas, a caatinga, os umbuzeiros, a sombra das árvores, o xique-xique, o mandacaru, a terra quente, a pobreza da casa de taipa onde nasci.

O cenário do sofrimento e o amor que tenho por lá, que nunca saiu de lá, continua me acompanhando onde vou.

araujo-costa@uol.com.br

Fragmentos dispersos de Patamuté

Delanidia Matos (D.Didi) nasceu em Patamuté e mudou-se para São Paulo ainda na infância. Constituiu família na terra bandeirante e por lá vive até hoje, graças a Deus.

A idade de D. Didi não vem ao caso dizer aqui, para não arranhar o “politicamente correto”. Mas – sempre cabe um mas –  a título de registro histórico, presumo que esteja na casa dos noventa e dois anos.

Estar na casa de noventa e dois anos não significa dizer que a idade seja exatamente esta. Pode ser mais, pode ser menos.

Em Patamuté, a família de D. Didi fazia parte do que os antigos costumavam chamar “boa família”, ou seja, gente decente, ordeira, de caráter irrepreensível: a família Matos.

O Matos de D. Didi é da mesma estirpe do coronel Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté.  Por aí se vê, que D. Didi vem de família tradicional e, como tal, é um esteio que sustenta a história de Patamuté.

Galdino Ferreira Matos está enterrado na igreja de Santo Antonio de Patamuté. O enterro em igrejas era uma prática vinda dos portugueses, muito comum na Europa.

“Cabia à igreja ser a intercessora junto aos santos para que o morto tivesse garantida sua salvação. É desta forma, que no Brasil entre os séculos XVIII e XIX, as igrejas passaram a ser o espaço sagrado nos quais eram depositados os mortos e, embora inicialmente tais espaços fossem mais comumente destinados aos membros da igreja como o clero. Com o tempo criaram-se as condições necessárias para que a morada dos vivos fiéis também fosse igualmente a morada dos mortos” (Fernando Rodrigo e Jelly Juliane de Lima, Anais do III Encontro de Discentes de História da Universidade Federal do Amapá).

D. Didi tem um filho – Nelson Matos Cano – paulistano nascido no bairro do Ipiranga, em São Paulo, que se interessa muito pela história de Patamuté. E história, aqui, quer significar também cultura, tradição, costume do lugar e outras coisas mais.

Em data recente, Nelson Matos Cano se interessou em saber quais as maravilhas de Patamuté. Chegou até a sugerir uma votação para aquilatar quais são essas maravilhas.

Sugestão interessante. Quem sabe os professores das redes municipal e estadual de ensino baseados em Patamuté acatem a sugestão e estimulem essa votação. É uma forma de avivar nos estudantes o interesse pelo exercício democrático do voto.

São tantas as maravilhas de Patamute!

araujo-costa@uol.com.br

Ebulição silenciosa no Vaticano

Duas congregações vaticanas estão em constante movimento, embora silenciosas, como é regra secular da Igreja: a Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para a Evangelização dos Povos (antiga Propaganda Fide).

As questões em análise nessas congregações podem mudar alguns dogmas e regras milenarmente caros à Igreja.

Está no meio da discussão o papa emérito Bento XVI, uma das maiores autoridades em Teologia na história recente da Igreja Católica Apostólica Romana.

Em 2007, Bento XVI autorizou a celebração da missa em latim. Essa era uma prática litúrgica antiga, que vinha sendo observada há séculos, mas o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) convocado pelo papa João XXIII, abandonou tal forma de dizer a missa.

Entretanto, milhões de jovens em todo o mundo são adeptos da missa antiga e esses jovens são importantes para a Igreja, para o futuro da Igreja.

As jornadas mundiais da juventude carrearam esses jovens, antes céticos, para o interior da Igreja e com eles a admiração da missa em latim.

Como se sabe, há conservadores e progressistas na Igreja. Mas sempre houve equilíbrio entre eles.

A Santa Sé tem sido o maior exemplo de equilíbrio nesses aproximados dois milênios.

Além da missa em latim, as discussões mais sérias que se processam no Vaticano dizem respeito ao celibato sacerdotal, ordenação de mulheres, comunhão para os divorciados e homossexualidade.

A Igreja não avançou neste particular.

Essas discussões foram ventiladas no recente Concílio da Amazônia. O papa Francisco, jesuíta propenso às mudanças na Igreja, começou a estudar essas mudanças, mas recuou.

O entendimento dos setores mais conservadores é no sentido de que, qualquer mudança pretendida na Igreja deve ser interpretada segundo as tradições milenares. Ou seja, nada muda, por enquanto.

As congregações vaticanas, órgãos de assessoramento direto ao papa, adotaram a “hermenêutica da continuidade” segunda a qual a Igreja deve obedecer estritamente às decisões do Concílio Vaticano II. O Concílio é o parâmetro maior em que se espelha a Igreja.

Como parte dessas regras, que alguns setores da Igreja querem mudar, estão as mudanças urgentes preconizadas pelas alas mais progressistas, a exemplo da flexibilização do celibato e a ordenação de homens casados.

O cardeal Dom Claudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo e ex-prefeito da poderosa Congregação para o Clero, em Roma, é um entusiasta das mudanças na Igreja.

Com ênfase, defendeu tais mudanças no Sínodo da Amazônia e – parece – quer que o papa Francisco dê andamento nas discussões.

O jornalista e escritor Marcelo Musa Cavallari, autor do livro Catolicismo, fez brilhante matéria sobre o assunto. Os católicos devem ler.

araujo-costa@uol.com.br

O governador Rui Costa e a execução do miliciano

Em setembro de 1971, forças de segurança nacional baseadas na Bahia assassinaram o capitão Carlos Lamarca, desertor do Exército Brasileiro.

Calos Lamarca, guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)  e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) rebelou-se contra o Brasil e optou pela guerrilha e contra os governos militares.

Muitos fizeram isto: Dona Dilma Rousseff, José Genoíno, ex-presidente do PT, Franklin Martins, que foi ministro de Lula, o jornalista Fernando Gabeira, José Dirceu de Oliveira e Silva, também ministro de Lula, dentre muitos.

Esses sobreviveram às intempéries da repressão. Mais tarde se especializaram em locupletar-se de dinheiro público nos governos petistas. As exceções são Fernando Gabeira e Dona Dilma Rousssef, que não furtaram, até prova em contrário.

Carlos Lamarca estava escondido em Ipupiara, região de Brotas de Macaúbas, na Bahia. Lá foi fuzilado pela direita debaixo de uma árvore, em nome da Segurança Nacional.

A operação repressiva contou com 200 agentes federais.

Anos adiante, veio a Comissão Nacional da Verdade e recuperou a memória da ditadura. O capitão Carlos Lamarca adquiriu mais espaço na história e a família foi indenizada. O crime que ceifou a vida do capitão Lamarca foi cometido pelo Estado brasileiro. Restou o dever de indenizar.

Agora, a Polícia Militar da Bahia assassinou Adriano da Nóbrega, ex-militar fluminense e miliciano condenado pela Justiça, que estava foragido em Esplanada, homiziado em terras baianas.

Diferença entre Lamarca e Adriano: Lamarca se embrenhou na guerrilha e lutou contra as instituições nacionais. Cometeu crime político; Adriano se envolveu com a delinquência em alta escala. Cometeu crime comum.

Fato comum entre eles: ambos escolheram a Bahia para fugir das forças de segurança. E lá foram fuzilados.

O governador Rui Costa e o presidente Bolsonaro entraram na discussão, desnecessariamente. O governador Rui Costa defende as forças de segurança da Bahia, que é seu dever; o presidente Bolsonaro joga lenha na fogueira política.

A discussão é inoportuna. O intuito da polêmica entre ambos tem como pano de fundo a eleição presidencial de 2022.

O que deveria ser tratado no âmbito do cumprimento de um mandado judicial resvalou para a seara política. Tempos estranhos esses!

O presidente Bolsonaro é candidatíssimo à reeleição.

Rui Costa, o melhor nome do Partido dos Trabalhadores (PT) para disputar a eleição presidencial, só não será candidato se Lula da Silva jogar casca de banana em seu caminho. Quem conhece Lula sabe que ele está disposto a deixar escorregadio o caminho do governador da Bahia.

O candidato de Lula não é Rui Costa. O PT obedece a Lula. Mais do que isto: o PT agacha-se diante de Lula. Lançará quem Lula quiser.

E surge essa discussão estéril sobre a morte do ex-policial do Rio de Janeiro.

A esquerda saiu na frente, atabalhoadamente, sem pensar, para dizer que a morte do ex-policial Adriano da Nóbrega foi queima de arquivo, que beneficiaria a família Bolsonaro.

Só não conseguiu explicar qual o interesse da esquerda em participar do assassinato, já que foi a Polícia Militar da Bahia, estado governado pela esquerda, que o executou. Contraditório.

A direita, por sua vez, está confortável. Os tiros que ceifaram a vida do ex-policial não partiram da direita, que está sendo acusada, amiúde, por tudo de ruim que vem acontecendo no Brasil.

O despreparo da Polícia Militar da Bahia foi descomunal. Noticia-se que 70 agentes policiais participaram do cerco e morte ao ex-policial em Esplanada.

Esse número de agentes não seria suficiente para, estrategicamente, mantê-lo vivo?

O quiproquó só aumentou.

Durma-se com um barulho desses.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, o vício do vice-prefeito

“Os vices são como os ciprestes. Crescem à beira do túmulo” (Sebastião Nery).

Em Curaçá, graças a Deus, o vice-prefeito do município não conseguiu emplacar a máxima comum aos vices e, portanto, não cresceu.

Longa vida e saúde ao prefeito Pedro Oliveira (PSC) e ao seu vice-prefeito também.

Conforme a legislação pátria, a possível assunção do vice, em qualquer esfera de poder – municipal, estadual e federal – é sempre uma expectativa de direito. E só.

Por óbvio, a substituição, pelo vice, nos impedimentos e demais casos previstos em lei, ocorre sob os escombros do titular.

Em Curaçá não é diferente, não pode ser diferente.

Entretanto, a imprensa noticiou que o vice-prefeito do simpático município sanfranciscano está um tanto magoado com o titular porque, segundo publicado, o vice sente-se tolhido, inclusive no que tange à estrutura física que lhe foi negada pelo prefeito, gabinete, por exemplo, que entende ser direito seu.

Diz o vice: “Eu não tive direito nem ao meu gabinete”. Este escrevinhador pergunta: e tem?

Parece razoável entender que vice-prefeito é uma função política. Ele deve sustentar-se por si só, independentemente de estrutura custeada pela Prefeitura.

Excetua-se a hipótese de o vice ser nomeado para uma secretaria, por exemplo, ou qualquer outro cargo na estrutura da municipalidade, o que a lei não proíbe.

Mas daí, exigir estrutura – gabinete, por exemplo – parece uma infantilidade, mesmo que a lei permita.

O vice-prefeito desempenha função política móvel e permanente. Pode fazer política em qualquer tempo e lugar, independentemente de ter gabinete fixo ou concordância do prefeito.

O vice de Curaçá aduz, ainda: “foram dez meses tentando diálogo com o prefeito”.

Tirante os exageros, convenhamos que o prefeito de Curaçá não é tão importante assim a ponto de não ter conseguido, em sua agenda, em “dez meses”, sequer uma brecha para atender o seu vice-prefeito e dar-lhe um abraço, mesmo que de urso.

A cidade de Curaçá é pequena. As pessoas tropeçam-se entre si, inclusive prefeito e vice.

O vice-prefeito de Curaçá, que não conheço, parece magoado pela indiferença do alcaide-mor.

O vice está se apequenando: ele existe, por si só, independentemente dos afagos do prefeito. O vice é vice e não depende do titular. A voz das urnas credenciaram-no assim.

O prefeito Pedro Oliveira, que também não conheço, parece mal assessorado, neste particular. Por que não atender o vice?

Todavia, o prefeito deve ter suas razões para não atender o vice, se é que procede esse lenga-lenga, mas política é a arte de conviver com os contrários. Cadê a assessoria política do prefeito?

Este escrevinhador andou telefonando para algumas fontes de Curaçá, tendo em vista o lamento do vice. Todas são unânimes em dizer que “em época de eleição é assim mesmo, todo mundo quer aparecer”. A carapuça parece ter-se adequado ao vice-prefeito.

Há muito chão para pisar até as eleições municipais de 2020. Haverá de tudo em Curaçá, menos grandeza política.

O vício do vice, em Curaçá ou qualquer lugar, é achar que tem as mesmas prerrogativas do titular. Não tem.

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