Abaré: situação jurídica do ex-prefeito Delísio não está clara

“Político sem mandato é como chocalho sem badalo: balança, mas não toca” (José Cavalcanti).

A sabedoria de José Cavalcanti, paraibano de São José de Piranhas, parece não se aplicar em Abaré, simpático município do submédio São Francisco, sertão da Bahia.

Pelo menos quando se trata de Delísio Oliveira da Silva, sertanejo de ideias firmes, corajoso e incapaz de recuar quando precisa revidar quaisquer acusações que lhe façam adversários políticos, imprensa, formadores de opinião, eleitores e palpiteiros em geral.

Há momentos em que Delísio chega a ser rústico, sem tornar-se deselegante.

Embora atravesse um interregno sem mandato, Delísio continua balançando o chocalho do noticiário do município e incomodando circunstantes e adversários políticos. Frio, como asa de avião, comporta-se de acordo com o vento dos acontecimentos.

Em 2018, este blog pediu uma entrevista a Delísio Oliveira da Silva.

O telefone o alcançou cedo, muito cedo, em Abaré. Do outro lado, a voz inconfundível, o atendimento prestativo, a pergunta ríspida, áspera, sem salamaleques: “Não conheço o blog. Quem vai fazer a entrevista? ”.

Feita a apresentação e aparadas as arestas de praxe, prontificou-se a conversar.

Todavia, não conversou. Político experiente, escorregou educadamente e não concedeu a entrevista. Matreiro, avaliou o momento desfavorável e dispensou este escrevinhador. Fato comum no meio jornalístico.

O blog não insistiu, tampouco Delísio demonstrou interesse na entrevista. E a coisa parou por aí.

Delísio Oliveira da Silva é maduro, faz parte da geração de 1951. É seguro de suas convicções e, mais do que isto, preparado para eventuais botes maliciosos de entrevistadores.

Parece conhecer bem as armadilhas da imprensa, talvez por estar acostumado a ser cutucado pelos meios de comunicação. Ele frequenta o noticiário policial e político, quase simultaneamente, com a mesma desenvoltura com que transita pelas estradas empoeiradas do município de Abaré.

O fato é que a liderança de Delísio é inconteste. Seu prestígio político ainda se afigura sólido e, por isto, incomoda.

Nas últimas eleições municipais, abocanhou nas urnas, salvo engano, 48,92% dos votos válidos, em favor do filho e candidato a prefeito, Delísio Oliveira da Silva Filho (Del de Delísio).

Fernando José Tolentino Teixeira, adversário e atual prefeito do município ganhou a Prefeitura com uma diferença de 231 votos. Obteve 51,08% dos votos válidos. Decerto, uma disputa difícil, tensa, buliçosa.

Decreto de prisão

Agora, Delísio está às voltas com a decretação de sua prisão temporária por trinta dias, que até a elaboração dessa matéria, ainda não tinha sido preso, nem a prisão havia sido revogada.

O édito extremo do juiz da comarca de Chorrochó é datado de 02/10/2019 e determina o recolhimento do ex-prefeito à prisão, temporariamente. Lastreia-se no Inquérito Policial 037/2008, que cuida de suposta prática de delito contra a vida ocorrido no município de Abaré.

Apesar de experiente, Delísio cometeu uma gritante ingenuidade: pensou que a lei vale para todos, o que, de resto, é o equívoco de todos os pobres mortais brasileiros. Exerceu o direito de cidadão e fez uma representação contra o promotor público de Paulo Afonso, que responde pela comarca de Chorrochó.

Em 02/09/2019 fez extensa representação contra o promotor, que foi protocolada na Procuradoria Geral de Justiça da Bahia sob número 003.0.28755/2019.

Delísio elencou um rosário de falhas que, a seu juízo, teriam sido cometidas pelo promotor de Chorrochó, no exercício da função, ou quem fez as suas vezes, dentre outras as seguintes:

Deixou de apreciar procedimento formulado em 19/04/2017, segundo o qual Delísio questionava a nomeação do procurador geral do município de Abaré;

Deixou de apreciar procedimento formulado em 10/05/2017, segundo o qual Delísio questionava a nomeação de servidores pela Prefeitura de Abaré e acusava o prefeito de nepotismo;

Deixou de apreciar procedimento formulado em 29/05/2018, segundo o qual Delísio questionava a locação de um imóvel em ruínas pela Prefeitura de Abaré;

Deixou de apreciar procedimento de 29/05/2018, segundo o qual Delísio questionava a contração da cooperativa COOPERMAIS, acusando a Prefeitura de Abaré de “obscuridade nas contratações” de pessoas;

Deixou de apreciar suposta notícia-crime formulada em 16/08/2018 pelos vereadores do município de Abaré – Francisco de Assis Jericó e Ana Paula Lima de Sá Cruz – que estariam recebendo ameaças;

Mais: o ex-prefeito Delísio alegou, na representação, que em 07/08/2019 esteve na sala do Ministério Público em Chorrochó e que o promotor “lhe faltou com o devido respeito, de forma deselegante, grosseira e antiética na presença de advogados e serventuários do Ministério Público”.

Um mês depois da representação à Procuradoria Geral de Justiça, adveio a decretação da prisão do ex-prefeito, requerida pelo mesmo promotor que o ex-prefeito Delísio representou.

Coincidência? Pode ser.

Presume-se, todavia, que o representante do Ministério Público agiu consoante suas atribuições estritamente legais. É o mínimo que a sociedade espera de suas autoridades, mesmo porque vivemos num regime democrático e sob a égide da Constituição da República.

O que não parece coincidência plausível é um crime ter acontecido em 2008 e somente, agora, 11 anos depois, o Ministério Público ter-se dado conta de que a prisão do suposto mandante faz-se necessária para esclarecer o delito.

Das duas, uma: ou surgiram fatos novos que justifiquem o pedido de  prisão temporária ou a situação jurídica do ex-prefeito Delísio Oliveira da Silva não está clara.

araujo-costa@uol.com.br

Amigos, discursos, saudade.

Recebi um amigo de longa data, em meu escritório, em São Bernardo do Campo, fora do horário de expediente.

Amigo não deve ser recepcionado em meio a telefonemas, agitação, entrada e saída de clientes, muitos deles nem tão clientes assim, embora digam que seja.

O frege do dia a dia deve ficar longe das boas conversas.

Passamos horas relembrando fatos, passagens da vida, peripécias de nosso tempo da faculdade de Direito, coisas que faziam sentido e hoje não mais.

Para provocar, perguntou se eu ainda fazia discursos. “Você discursou até em enterros”, completou. Boa memória, desfiou uma série de datas, palanques, eventos, etc.

É verdade. Fiz discursos até em cemitério. Hoje não faço mais, porque se escassearam as razões para fazê-los. O encanto das razões políticas então, nem se fala, escafedeu-se.

Cadê nossas perspectivas da juventude? Onde estão os horizontes que sonhávamos? Onde foram parar as palavras que voavam nos discursos utópicos e inflamados que fazíamos?

Naquele tempo, podíamos elogiar governantes, legisladores, membros do Judiciário. Hoje não há mais a quem elogiar. Apequenaram-se todos em meio a interesses pessoais e à vaidade.  Sucumbiram-se à desfaçatez, à arrogância, ao idiotismo.

Nesta quadra da vida, quando nada mais me causa surpresa, só faria discursos se fosse para falar mal, mesmo que de defunto. Há tantos que merecem uma lembrança post mortem!

Falamos de tantas amenidades, de tantos atalhos da vida, de tantas esquinas, de tantas figuras abomináveis.

Lembramos as tribunas parlamentares, os belos discursos que hoje não há mais quem faça, até mesmo por falta de inteligência dos oradores; lembramos a vigilância dos que observam atentamente as ações dos políticos sem nada poder dizer.

Lembramos o vazio das casas legislativas, a pequenez de nossos congressistas.

Em tempo de crise, havia oradores no Brasil que davam à palavra a vibração dos sentimentos da população, interpretavam os anseios populares.

À saída, meu amigo repetiu todos os defeitos que costumava despejar sobre este modesto escrevinhador. Lembrou: “cuidado para não ser expulso dos lugares por onde anda. Você continua sendo muito chato”.

Então, recordamos que, em solenidade, o crítico Agripino Grieco (1888-1973), em inflamado discurso numa cidade paulista banhada pelo Rio Paraíba do Sul, excedeu-se e disse que o Rio tinha tanta vergonha daquela cidade que mais adiante se jogava no mar.

Foi expulso da solenidade.

Meu amigo advertiu: “Convém você não se esquecer disto”.

Não vou esquecer.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia católica está mais forte

Em meio a tantas notícias ruins que a Bahia tem produzido, surge uma boa notícia: a canonização de Irmã Dulce, que a partir de hoje será venerada por todos os fiéis cristãos com o nome de Santa Dulce dos Pobres.

Nascida Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes (1914-1992), Irmã Dulce construiu um complexo de obras sociais na Bahia com destaque para o Hospital Santo Antonio, de Salvador.

A canonização de Irmã Dulce é um alento para os católicos.

Em 1970, 92% dos brasileiros eram católicos. Hoje, esse número caiu para 64%, um declínio atribuído ao surgimento desenfreado de igrejas de denominações evangélicas auxiliado por inegável apatia da Igreja Católica Apostólica Romana.

Mas o Brasil continua sendo o maior país católico do mundo.

Hoje a Bahia católica se ajoelha para a Santa Dulce dos Pobres.

Só a fé é capaz de dar alento a todos nós nessa quadra do tempo em que os governos em todos os níveis são medíocres, o Judiciário vive de costas para a população e o Legislativo segue sem entusiasmo para defender os interesses da população, sobretudo dos mais carentes.

A Bahia fica mais forte com a canonização de Irmã Dulce. Seu exemplo de dedicação à causa dos necessitados pode indicar o caminho para que todos nós deixemos de lado a arrogância, o egoísmo, o narcisismo e a indiferença em relação aos mais humildes.

araujo-costa@uol.com.br

Igreja Católica: o celibato sacerdotal volta a ser discutido

O Sínodo sobre a Amazônia, que está acontecendo na Santa Sé neste mês de outubro, discute temas importantes e caros para a Igreja Católica Apostólica Romana.

Mais do que isto, discute assuntos fundamentais para os povos da região.

Participam pelo menos 250 bispos de todo o mundo.

O Sínodo está se ocupando de temas importantes, tais como as mudanças climáticas, índios, povos ribeirinhos, conflitos da terra e preservação das florestas, dentre outros.

O celibato também está em pauta. É defendido tenazmente pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, órgão da Santa Sé de assessoramento ao Papa, assim como por padres sinodais e outras autoridades da Igreja.

Contudo, há outra corrente dentro do Sínodo, que vê o celibato em declínio.

A ordenação dos viri probati, homens casados ​​de virtude comprovada, está sendo vista como uma hipótese viável para a Amazônia, tendo em vista a dificuldade de vocações sacerdotais na região. Seria uma exceção às normas da Igreja incapaz de comprometer o celibato como um dos esteios da Igreja Católica.

O Sínodo diz, em documento, “que o celibato é uma dádiva para a Igreja, Pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”.

Entretanto, a discussão sobre o celibato não se esgota aí.

O Pontificado do Papa Francisco flexibilizou o entendimento de que a Igreja deve ser repensada. Ou, pelo menos, alguns pontos dela.

Ao longo dos séculos o Vaticano fechou os olhos para a realidade do clero e muitas de suas falhas.

É comum associar-se o celibato à pedofilia na Igreja Católica. Um erro que se sustentou exatamente pela omissão da Santa Sé em colocar o assunto à luz do tempo.

Celibato é um dom. Abraça-o quem quer.

Pedofilia é um desvio de conduta.

Ser celibatário não significa ser pedófilo.

A Igreja Católica Apostólica Romana parece que está se abrindo para essa discussão equivocada.

Sacerdócio é vocação. Não se confunde com nenhum desvio.

araujo-costa@uol.com.br

Assalto com hora marcada

“Furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse” (padre Antonio Vieira, 1608-1697, O sermão do bom ladrão)

Jornalista, militante feminista, vereadora e ícone da esquerda paulista, Irede Cardoso (1938-2000) estava chegando a sua residência às cinco horas da tarde. Ao abrir o portão, um rapaz apontou o revolver:

– É um assalto, dona.

Ambos adentraram a residência. A empregada percebeu, pulou o muro e avisou o vizinho, que chamou a polícia. As barulhentas sirenes se aproximaram rapidamente.

Irede Cardoso orientou o rapaz:

– É melhor você fugir. Saia por aquela porta e volte amanhã no mesmo horário para terminar o assalto.

Dito e feito. O rapaz fugiu e voltou no dia seguinte, na hora marcada, para terminar o assalto.

Irede o convenceu a abandonar a delinquência e ainda arranjou um emprego para o rapaz na conceituada Folha de S. Paulo.

Em 2014, surgiu um movimento apoiado pela maioria dos brasileiros, para atacar os larápios de colarinho branco, políticos com ou sem mandato, grandes empresários, agentes públicos corruptos, et cetera.

A conhecida operação Lava Jato tentou encurralar os corruptos – ou trancafiá-los – mas o Supremo Tribunal Federal, em confusas decisões, vem dizendo nas entrelinhas que não é bem assim, os assaltos devem ser coibidos, mas com calma e coisa e tal.

Em data recente, o Supremo Tribunal Federal anulou sentença condenatória de um ex-gerente da Petrobras, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o que noutras palavras, a decisão do STF equivale dizer: vá para a rua e continue furtando.

Nas entrelinhas de suas decisões, o STF atapetou o caminho para os corruptos seguirem em direção aos cofres públicos e continuarem assaltando, locupletando-se, furtando ou seja lá o que for.

Essa história do assalto com hora marcada, contada pelo escritor Mário Prata, amigo de Irede Cardoso, me faz lembrar os assaltos que os corruptos fazem aos cofres públicos.

Os corruptos conjecturam, tramam, negociam, indicam as contas bancárias que devem ser abastecidas ou as pessoas de confiança que devem carregar as malas de dinheiro. E está feito o assalto. Tudo combinado. Com hora marcada.

Há muitos políticos e outros agentes públicos que entendem bem de furtos, como dizia o padre Antonio Vieira. Mais: furtam com hora marcada.

Exemplos clássicos são os assaltantes da Petrobras (era Lula/Dilma) e as malas recheadas de Geddel Vieira Lima e Aécio Neves (era Michel Temer), segundo acusa o Ministério Público Federal.

araujo-costa@uol.com.br

Amigo: lembrança de primavera

Cantor e amigo de muitos anos, combinou de passar em meu escritório para um papo, um café, um uísque, sei lá o que mais. Nunca apareceu.

Um dia, primavera do ano passado, telefonou alterado: “Pô cara, você não trabalha mais?”

Disse-lhe que estou no batente todos os dias, continuo pobre, preciso ganhar para viver.

Mas quis saber a razão da irritação. Disse-me que passou em meu escritório uma, duas, três vezes, em meses diferentes. Eu não estava, não se identificou, não deixou recado.

Ponderei: se você não deixou recado, como eu poderia saber?

Meu ingênuo argumento foi pior. Deu-me a lição: “se sua assessoria não insistiu em saber meu nome, o problema não é meu, mas seu. Seu escritório é uma m….Cuide urgentemente de corrigir”.

Grande amigo! Tempos difíceis em que nos conhecemos!

Não tínhamos dinheiro para comer, para frequentar “baladas” em finais de semana. Naquele tempo, as amizades nasciam em meio aos tropeços, às quedas, às dificuldades, diferente de hoje, que os interesses estão acima de tudo e se sobressaem.

Hoje você é amigo se vestir roupas de grife, se tiver bons carros, se frequentar ambientes de celebridades, se portar cartões de créditos com respeitáveis saldos disponíveis.

Desejo-lhe muitas flores nesta primavera.

Quando puder, apareça. Mas se eu não estiver, deixe recado.

Ainda tenho tempo de corrigir os meus erros.

araujo-costa@uol.com.br

Em Abaré, ex-prefeito Delísio está sob abuso

O Ministério Público da Bahia noticiou que a Justiça da comarca de Chorrochó emitiu decreto de prisão temporária em desfavor de Delísio Oliveira da Silva, ex-prefeito do município de Abaré, além, salvo engano, de mandados de busca e apreensão.

Este escrevinhador pede vênia às excelentíssimas autoridade da Bahia, se não entendi corretamente a matéria divulgada pelo Ministério Público ou se o fiz atabalhoadamente.

Sem nenhuma dúvida, o ex-prefeito Delísio é conhecidíssimo filho de Icozeira e foi vereador e prefeito de Abaré, simpático município debruçado à margem direita do Rio São Francisco sob as bênçãos de Santo Antonio, seu excelso padroeiro.

Dentre outras funções, Delísio exerceu a titularidade da secretaria de administração nas gestões dos prefeitos Josino Soares da Silva (seu pai) e Lucas Gomes de Sá.

Político experiente, com inquestionável lastro eleitoral no município, Delísio foi presidente da Câmara Municipal e candidato a deputado estadual em 1990. Exerceu o cargo de secretário estadual adjunto de Planejamento, Ciência e Tecnologia da Bahia.

Mais tarde, foi assessor e chefe de gabinete da Prefeitura de Chorrochó na administração do ilustríssimo prefeito José Juvenal de Araújo.

Por último, exerceu a chefia da secretaria de administração municipal de Abaré na gestão do prefeito Benedito Pedro da Cruz.

Líder polêmico, sempre às voltas com o noticiário, Delísio Oliveira da Silva enfrenta com inegável sabedoria as investidas de seus adversários políticos, de forma que se molda em consonância com as acusações que lhe fazem.

Entretanto, os últimos acontecimentos políticos de Abaré dão conta de que Delísio praticamente não tem adversários capazes de obstruírem seu caminho, enquanto liderança inquestionável no município. E se os tem, são frágeis, diminutos, impotentes, incapazes.

Por aí se vê, que até as formigas sabem quais são os endereços de Delísio em Abaré ou fora de Abaré.

Conseguintemente, a prisão temporária, salvo melhor juízo, não se justifica. Se a Justiça não o ouviu antes, não é problema do investigado. E se não o ouviu, foi porque não quis.

A Justiça sabia seu paradeiro, indubitavelmente. Se o ouviu e sabe onde ele está, não cabe, agora, a decretação da prisão.

Diz o Ministério Público, salvo melhor juízo, que Delísio Oliveira da Silva está sendo acusado de homicídio perpetrado lá por volta de 2008. Fato grave, se verdadeiro. Aqui não se discute a autoria, não se discutem provas.

Entrementes, a truculência da medida restritiva de liberdade não parece razoável, não obstante a conhecida e inquestionável credibilidade do juiz que expediu a retro aludida medida. Questiona-se aqui a decisão judicial e não o juiz. O juiz é probo, impoluto, inatacável.

Se, durante todos esses anos, o ex-prefeito não foi ouvido, o problema não é do investigado, mas da Justiça, que não cumpriu o seu dever a tempo, diligentemente. Aliás, fato comum no Judiciário, em Abaré ou fora de Abaré.

Portanto, a decretação da prisão nesta altura das investigações, afigura-se injusta, extemporânea, desnecessária.

Os advogados do ex-prefeito Delísio, que certamente pode pagar experientes causídicos, sabem disto sobejamente.

Contudo, é estanho agentes policiais procurarem o ex-prefeito altas horas da manhã, horário incompatível para se achar em casa, qualquer político que, diuturnamente, vive em contato com suas bases

No mínimo, houve falha na estratégia policial no cumprimento do mandado. Depois, acusá-lo de foragido, não parece razoável. O ex-prefeito Delísio não tem perfil de foragido.

Independentemente de ser o senhor Delísio mandante, autor ou co-autor do homicídio de que é acusado, o fato é que não parece razoável a severidade da medida, mesmo porque, em quadro assim, afigura-se desnecessária.

Crime da competência do tribunal do júri, a decretação da prisão nessa quadra do tempo, no mínimo afigura-se abuso difícil de justificar.

Os advogados de Delísio Oliveira da Silva derrubarão o decreto de prisão facilmente.

Incontrastável o direito de ampla defesa do ex-prefeito Delísio. Está na Constituição da República. Certamente será exercido.

 araujo-costa@uol.com.brl

Membros do Judiciário envergonham a Bahia

O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia está às turras com a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, porque a instituição ousou sinalizar que pretende ficar atenta no que tange à atuação dos juízes ou parte deles.

Entretanto, o Tribunal de Justiça baiano se acha intocável. Não gostou e desceu a lenha na OAB.

O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia não deve saber que o advogado é indispensável à Justiça, consoante preceitua o artigo 133, da Constituição da República.

Portanto, nesse diapasão, advogado que se preza não aceita pito de magistrado. Coloca-o imediatamente em seu devido lugar. E magistrado que preza por sua dignidade não dá reprimenda em advogado. Apequena-se o juiz que age assim.

Abarrotado de escândalos, a imprensa comumente publica coisas cabeludas sobre membros do judiciário baiano. Há várias. Por exemplo: a imprensa noticiou que um desembargador chegou a cobrar de um prefeito do interior R$ 400 mil, por uma sentença, para livrar o alcaide de uma acusação de corrupção.

O desembargador levou o dinheiro e como lambuja alinda pediu ao prefeito um cargo para apadrinhar a namorada do filho. Quanta preocupação de Sua Excelência em amparar a família!

Também na Bahia, em data recente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou um juiz e cinco desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região. Fundamento: “denúncias apontam indícios de que os magistrados estão envolvidos em um esquema de venda de decisões judiciais e tráfico de influência no estado”, noticia o ministro relator do caso.

Mas não é só na Bahia. No Brasil inteiro pulverizam-se casos de juízes corruptos.

No Ceará, um desembargador do Tribunal de Justiça vendia sentença por WhatsApp. Foi aposentado compulsoriamente e está recebendo sem trabalhar.

No Pará, um juiz cobrou R$ 70 mil pela concessão de habeas corpus e no Rio Grande do Norte outro juiz cobrava R$ 750 por uma liminar.

O problema é que Suas Excelências cometem esses crimes e são “punidos” com uma robusta aposentadoria, ao passo que milhares de outros delinquentes são trancafiados no xilindró por delitos menos graves.

Um exemplo de magistrado corrupto, que foi aposentado compulsoriamente: o desembargador da Bahia, que vendeu a sentença por R$ 400 mil foi aposentado. Consta que em junho último, recebeu R$ 45,7 mil. Está sendo pago com os impostos recolhidos pelos baianos. Sem trabalhar.

O problema não está em aposentar compulsoriamente os magistrados corruptos. O problema está em não revogar a lei que ampara essa imoralidade e envergonha os brasileiros.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó: Memorial Cordeiro de Menezes.

Crédito/Album da família

“Eu vim ao mundo para ter saudade” (Antonio Francisco da Costa e Silva, poeta piauiense, 1885-1950).

Ao apagar das luzes de 2017, a família Cordeiro de Menezes inaugurou importante marco em Chorrochó: o livro Memorial Cordeiro de Menezes, de autoria do Dr. Francisco Afonso de Menezes, chorrochoense de boa cepa, respeitável intelectual  e membro da família objeto do estudo publicado.

Segundo o autor, o livro é o resultado de pesquisa acurada durante anos e só consolidada e publicada em 2017. Trata-se de um apanhado cuidadoso, confrontado com depoimentos e documentos sobre os Cordeiro de Menezes, desde a chegada dos ancestrais ao Vale do São Francisco, até os dias de hoje.

A apresentação do livro é da abalizada professora Maria Therezinha de Menezes, ícone da cultura de Chorrochó. Entrementes, o autor confessa gratidão “a outros parentes” que lhe prestaram informações valiosas sobre a família objeto da pesquisa.

A professora Therezinha trata a família Cordeiro de Menezes como “símbolo de união, fortaleza, respeito e honestidade”, com o que, certamente, Chorrochó constata e concorda.

Embora acanhado e inábil, quero tão somente – e mais uma vez – fazer o registro do aparecimento da obra em Chorrochó, sem alongamento desnecessário, estribado em duas razões que se me afiguram essencialmente fundamentais: o ineditismo da iniciativa e a certeza de que Chorrochó aos poucos está resgatando seu passado cultural tão espezinhado ao longo dos anos.

Por conseguinte, nada há a acrescentar, nem tenho condições de fazê-lo. Sou ignorante sobre o assunto e estou apenas a cavaquear. Mania de meter o bedelho, mania de dizer o que penso.

Entrementes, alegro-me em registrar que a história do município se enriquece sobremaneira com este livro, que trata de uma das famílias que se fizeram esteios e sustentáculos das tradições chorrochoenses.

Para emoldurar a obra, atribuindo-lhe maior riqueza, há uma Sinopse da lavra de Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, também membro da família e atento defensor das tradições do município. Jorge faz um apanhado do caminho difícil trilhado pelos Cordeiro de Menezes, de sorte que emprestou ao livro contribuição valiosa.

Aliás, no que concerne às tradições locais, em nome da memória de seus antepassados, o autor mui sutilmente demonstra insatisfação quanto a eventuais arranhões que se vêm fazendo na condução dos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

Diz o autor: “Mesmo com as mudanças que nossa Igreja sempre se propõe a fazer cada ano, ainda não nos retiraram a possibilidade de nós, os remanescentes da Família Cordeiro de Menezes, sentimo-nos enaltecidos, de fraternalmente louvarmos com todo fervor nosso Excelso Padroeiro”.

O livro é bom. Traz informações até aqui desconhecidas sobre os Cordeiro de Menezes, a trajetória, a luta e o interessante caminho como coadjuvantes na construção da história de Chorrochó.

O autor é conhecido. Tem boa e valiosa formação e se porta com absoluta fidelidade intelectual.

Memorial Cordeiro de Menezes é um livro para fazer parte das bibliotecas e escolas do município, de modo que possa delinear para os jovens e gerações futuras o entendimento no que tange à contribuição que cada membro da família Cordeiro de Menezes fez para o engrandecimento de Chorrochó.

O engrandecimento de um povo não se dá apenas economicamente, mas também se materializa através da cultura, mediante a formação do caráter coletivo e, sobretudo, pelo exemplo que passa às gerações futuras.

O Memorial Cordeiro de Menezes também é uma forma de sentir saudade.

Vir “ao mundo para ter saudade”, como dizia o poeta piauiense, é também uma forma de eternizar a memória de nossos antepassados.

Entendo que o livro de Dr. Francisco Afonso de Menezes tem também este papel de trazer a saudade.

araujo-costa@uol.com.br

Conversa de envelhescente

Na segunda metade da década de 1970 havia uma pensão na Rua Brás Cubas, centro de Santo André, coração do ABC paulista.

A pensão não existe mais. O progresso imobiliário extirpou-a do local, mas não conseguiu extirpar as lembranças e a saudade dos amigos de antanho.

A pensão abrigava rapazes, geralmente estudantes e alguns senhores circunspectos, que ainda cavavam a vida. Morei lá, vivi lá, aprendi muitas coisas lá. Dessas, pratiquei umas, abandonei outras e tenho dúvidas se acertei ou errei ao não ter seguido outras tantas.

O ambiente era central e acolhedor, vizinho à bela e histórica catedral diocesana de Nossa Senhora do Carmo, perto de tudo e inserido nos acontecimentos da fervilhante região do ABC.

Ainda hoje visito com regularidade a catedral do Carmo e o túmulo de Dom Jorge Marcos de Oliveira (1915-1989), primeiro bispo da diocese. D. Jorge ostentava o título de ter sido o “bispo mais jovem do mundo”. Em 1946 o Papa Pio XII o nomeou para o episcopado com 31 anos de idade. Trabalhou com D. Helder Câmara na arquidiocese do Rio de Janeiro, ambos bispos auxiliares.

Como é praxe nesses ambientes de juventude, naquela pensão nasceram amizades, sedimentaram-se experiências, dissolveram-se arrogâncias e, mais do que isso, aprendiam-se modos de viver. Aliás, toda pensão e seus quartos têm modus vivendi, regras sociais sadias criadas por seus ocupantes.

Toda pensão é um simulacro de nossa sociedade, às vezes conturbada, outros vezes tranquila, quase sempre incompreensível.

Guardo boas recordações de dois amigos de Chorrochó, que moraram em Santo André naquela quadra do tempo: Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó), já falecido, filho de Eloy Pacheco de Menezes e Antonio Wilson de Menezes, filho de Francisco Arnóbio de Menezes, que hoje mora lá para as bandas do simpático município baiano de Campo Alegre de Lourdes.

Wilson é um amigo que, como diz a música Canção da América, de Mílton Nascimento, “é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”. Além de amigo, foi meu colega ginasiano no Colégio São José, de Chorrochó.

Lembro de outro amigo, Elias Pedro dos Santos. Convivemos lá na pensão, inquietos, barulhentos, combativos. Ele professor de uma respeitável instituição paulista; eu ainda estudante, sem nenhuma âncora profissional, impaciente com as incertezas da vida.

Elias é um sujeito que cultiva as amizades, preocupa-se com elas e, sobretudo, não as abandona. É intransigente na defesa de seus amigos.

Quase quatro décadas depois me localizou e honrou-me com sua visita. Senti-me vaidoso, rejuvenescido.

Como nos tempos de pensão, Elias continua inquieto, buliçoso, bem humorado. Mas a passagem do tempo lhe trouxe uma marca: os cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo. Marca que, além da experiência, significa fidelidade aos seus princípios de berço nordestino.

O escritor Mario Prata adotou uma teoria um tanto lógica e curiosa: o período da envelhescência. Diz ele que essa fase da vida se situa entre a maturidade e a velhice, vai dos 45 aos 65 anos. Sendo assim, nela me incluo. É a preparação para a velhice, aduz o escritor, assim como depois da infância segue-se a adolescência, que é a porta de entrada da maturidade.

Então, creio, a envelhescência traz reflexão e inquietude. Inevitável olhar para trás e perceber o diluir de muitas esperanças, até mesmo as idealizadas em quartos de pensão. Inevitável antever o futuro e observar o pouco tempo que resta para a realização dos sonhos que ainda pretendemos alcançar. A construção desses sonhos claudica diante da exiguidade do tempo. O horizonte se distancia, mas a coragem persiste.

Mas o certo é que na envelhescência adquirimos envergadura para não aceitar mais algumas coisas. Por exemplo, que pessoas empoleiradas no poder nos empurrem goela abaixo coisas que elas se acham no direito de fazer. Os governantes gostam muito disto. Adoram empurrar imbecilidades em nossos orifícios.

Naquele tempo da pensão de Santo André lutávamos por um Brasil melhor. Hoje os momentos de reflexão insistem em dizer que fracassamos.

Como envelhescente a única certeza é que valeu a pena a sequência dos tropeços e a poeira que sacudimos ao caminhar em direção aos nossos sonhos.

araujo-costa@uol.com.br