Rodelas: em respeito ao senhor João Bosco Soares Santos

De início quero dizer que prezo muito o senhor João Bosco Soares Santos. Leio suas postagens, o tanto quanto me é possível. Muitas delas sensatas, interessantes e respeitáveis. E não é só. Admiro sua estirpe, suas raízes, sua ascendência.

Estas considerações vêm a propósito do comentário do senhor João Bosco Soares Santos em 16/09/2019, no grupo de WhatsApp Notícia com segurança.

Agradeço sua lembrança:  “Esse Walter, que eu já conhecia, apresentado por Iago Lívio, este alto servido da Caixa Econômica, filho do falecido vereador de Chorrochó, José Claudionor – o Nonô…”.

Sou admirador de Iago Lívio, assim como continuo sendo, “in memoriam”, de seu pai e meu amigo José Claudionor Menezes. Iago deve saber desta minha admiração por sua família, incluindo Socorro, exemplo de vida e decência.

Passaram-se décadas, mas minha admiração por Nonô perdurou.

Mas essa é outra história.

Possivelmente o artigo A Bahia e a liderança política do governador Rui Costa tenha sido meu único texto que o senhor João Bosco leu, pelo que agradeço e sinto-me honrado..

O senhor João Bosco disse ainda que sou “um puxa-saco dos condenados Lula e Zé Dirceu”.

Aqui está o seu gritante equívoco. Não sou puxa-saco de nenhum dos dois. Nunca fui.

Vi o Partido dos Trabalhadores nascer. Conheço Lula da Silva e José Dirceu, mas em nenhum momento de minha vida puxei o saco de ambos. Portanto, a expressão “ainda é um puxa-saco” não procede, ainda mais sem nenhum sustentáculo que a ampare.

Tenho amigos fundadores do PT, inclusive em São Bernardo do Campo. Não costumo misturar as coisas. Sou democrata. Eles têm o direito de ser petistas.

Portanto, senhor João Bosco, esclareço que nunca fui petista, mas sou democrata e, conseguintemente, respeito o direito de quem é. Mais: não sou filiado a nenhum partido político.

Na condição de advogado e não de jornalista, tenho argumentado que a prisão de Lula, após condenação em segunda instância, é inconstitucional. A Constituição da República não a autoriza. Há centenas de outros condenados na mesma condição de Lula da Silva que estão por aí, soltos, e até cometendo novos delitos. Bárbaros delitos.

O Supremo Tribunal Federal faz vistas grossas. O STF precisa encontrar uma saída para esse imbróglio: se mandar soltar Lula da Silva – e tem de mandar soltar logo, independentemente de outras eventuais condenações – terá que colocar milhares de outros presos na rua, muitos de alta periculosidade.

Ou a lei vale para todos ou estamos numa hipocrisia jurídica e democrática sem tamanho.

Sabemos que a lei não vale para todos, mas é o que está escrito nos compêndios jurídicos.

Foram alguns ministros do STF que, por vaidade, permitiram a prisão em segunda instância. O plenário do tribunal ainda não decidiu sobre essa barbaridade. Não se sabe por quê.

Quanto a José Dirceu, não há um só artigo meu em que eu o tenha defendido. Ao contrário, venho lamentando que, enquanto líder, ele tenha decepcionado milhões de brasileiros que nele acreditaram. Uma geração inteira.

Não sei, neste caso, onde está minha condição de “puxa-saco”, como diz o senhor João Bosco Soares Santos.

Se José Dirceu não tivesse sucumbido à corrupção, não teríamos em nossa história D.  Dilma Rousseff como presidente. Hoje, pelo que se sabe, um ou outro daria na mesma.

Por fim, o senhor João Bosco diz que “para ser bom e respeitado escritor é preciso ser imparcial”.

Pois bem, senhor João Bosco. Nunca pretendi ser “bom e respeitado escritor”. Mas modéstia à parte, tenho primado pela imparcialidade, não obstante seu entendimento ao contrário.

Quanto ao artigo que o senhor questionou, não posso negar a liderança política do governador Rui Costa na Bahia. Negá-la, aí sim, seria parcialidade.

Aqui ou alhures, não fica bem negar a liderança do governador da Bahia, simplesmente por divergência ideológica.

Seria atentar contra nossa honestidade intelectual. O senhor sabe disto. Sabe muito bem disto.

No mais, agradeço por ter lido meu texto, embora tenha interpretado arrevesadamente.

Mas respeito o seu direito de interpretá-lo consoante sua visão política.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, um exemplo de vida e decência

“Bafejado pelo êxito, qualquer homem se imagina predestinado a grandes missões. Se estiver à altura das oportunidades, a vitória lhe proporcionará energias imprevistas” (Luís Viana Filho, 1908-1990)

Já se vão, por aí, algumas décadas.

Em 1971, precisamente em janeiro, conheci Dr. Antonio Pacheco de Menezes Filho. Homem de grandes missões, sempre esteve à altura das oportunidades.

A circunstância foi alvissareira para este modesto escrevinhador que, oriundo da caatinga curaçaense de Patamuté, matriculava-me no primeiro ano do curso ginasial em Chorrochó.

Tempo de sonhos, tempo de vontade de seguir avante, tempo de antever horizontes.

À época, Dr. Pacheco era Diretor do Colégio Normal São José, função que desempenhava com dignidade e honradez.

O Colégio São José, então cenecista, obedecia a normas e diretrizes da Campanha Nacional de Educandários da Comunidade (CNEC), instituição de providencial importância para os municípios do interior. Ainda se estava estruturando.

O ensino propiciado pelo poder público nos municípios era demasiadamente ineficiente e deixava lacunas consideráveis. A CNEC, em alguns casos, preenchia esses espaços, fundando escolas e viabilizando professores locais. Assim, estribado nesses princípios, Chorrochó construiu significativos valores que perduram até hoje.

Na ocasião a que me refiro, Dr. Pacheco já havia ingressado no Ministério Público do Estado da Bahia e exercia a função de Adjunto de Promotor na então jovem comarca de Chorrochó, que tinha sido instalada em outubro de 1967. O Dr. Olinto Lopes Galvão Filho era o juiz de direito titular da comarca.

Dr. Antonio Pacheco de Menezes Filho fez brilhante carreira na Bahia e trabalhou em diversas comarcas do Estado, dentre elas Chorrochó, Morro do Chapéu, Euclides da Cunha, Paulo Afonso e Salvador.

Em todas elas alçou posição de destaque no edificante exercício de sua função de promotor de Justiça. Salvo engano, aposentou-se em novembro de 1994.

Dr. Pacheco é casado com a professora Maria Therezinha de Menezes, brilhante senhora da sociedade chorrochoense, ícone da cultura local, lídima, notável e conspícua intérprete das tradições de Chorrochó, com quem constituiu família.

As filhas Fabíola Margherita e Cynthia Cibelle completam o núcleo familiar do casal. E estão, por aí, sempre ao redor, desfrutando a ascendência exemplar.

Não custa acrescentar que o Colégio São José, hoje estadual, ainda desempenha importante papel na educação de Chorrochó. Lá está, seguramente, a semente imorredoura plantada pelo ilustre aniversariante de hoje.

O Dr. Antonio Pacheco de Menezes Filho completa mais um ano, todos bem vividos. É uma data significativa para quem, durante toda a vida, deu monumentais exemplos de bondade e competência profissional para seguidas gerações.

Dono de uma humildade impressionante, Dr. Pacheco construiu uma história de elevada honradez e seriedade. É um exemplo para chorrochoenses, admiradores e familiares.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, derrame copiosas bênçãos sobre o aniversariante e o excelso Senhor do Bonfim dê-lhe o costumeiro amparo em seu dia-a-dia.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá homenageia a professora Tereza Cristina

“Quando eu morrer, minha alma nunca vai andar em São Paulo, se tiver vergonha” (Abílio Gomes, apud Esmeraldo Lopes)

Em 17 do corrente mês, o prefeito de Curaçá, Pedro Oliveira (PSC), inaugurou uma escola na sede do município e, acertadamente, deu-lhe o nome de Escola Municipal Tereza Cristina Gomes Miranda.

Trata-se de louvável reconhecimento da Municipalidade à altivez da professora Tereza Cristina, nossa querida Tequinha, que se dedicou à educação de Curaçá com esmero, seriedade e sabedoria.

A professora Tereza Cristina amoldou sua formação de educadora no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, tradicional estabelecimento de Curaçá. Lá começou sua caminhada.

Fomos colegas de classe. Lá tivemos os melhores mestres. À época ela já demonstrava impressionante interesse pela área que viria a abraçar anos depois e, servindo-se dela, preencheria robustas páginas da história de Curaçá.

Entretanto, éramos jovens e, como tais, não seríamos capazes de vislumbrar o brilhante futuro que Tereza Cristina teria pela frente, em busca de seguros horizontes para indicar aos seus aprendizes.

Encimei esta página com uma citação de Abílio Gomes da Silva, que transmitiu a Tequinha a firmeza de caráter irrepreensível e a cordialidade tão presente na vida de ambos. Abílio e Tequinha eram pessoas encantadoras.

Em princípio, a frase de Abílio pode parecer fora do contexto da inauguração da escola, evento tão caro aos curaçaenses, mas é inserida aqui para lembrar o caráter, a opinião e o seu jeito espirituoso.

Tendo morado em São Paulo, onde foi cavar meios de sobrevivência, em Curaçá foi-lhe perguntado quando voltaria ao Sudeste. A resposta espirituosa de Abílio fez parte do interesse do sociólogo Esmeraldo Lopes, que entende tudo de Curaçá.

Mais do que isto: Esmeraldo Lopes entende o espírito de Curaçá, a gente de Curaçá, as perguntas e as respostas de Curaçá.

Não é pouco.

O fato é que Curaçá ganha mais do que uma escola. Ganha a sedimentação do pensamento de Tereza Cristina, o escrever de sua história de vida e, sobretudo, o registro de sua contribuição à educação do município.

Ganha também a tradição local, ganha a sociedade, ganha o ensino público.

É um tanto forte o vazio deixado pela professora Tereza Cristina. Todavia é confortador ver o seu nome enriquecendo as páginas da história de Curaçá.

O prefeito Pedro Oliveira, o secretário municipal de Educação e toda equipe envolvida no empreendimento podem erigir os louros que lhes permitiram a realização desse fato histórico.

As boas ideias nunca serão ofuscadas pelas passageiras incompreensões.

A educação é o esteio que sustenta a sociedade, qualquer que seja ela, em qualquer tempo.

Curaçá, nesse particular, está no caminho certo.

araujo-costa@uol.com.br

Sugestão indecente

Um amigo de Patamuté – creiam, ainda tenho amigos por lá – estava em Juazeiro, telefonou-me, fez uma pergunta indecente: por que não me candidato a qualquer cargo em Curaçá? Vereador, por exemplo?

Disse-lhe que somente me arriscaria, se vereador ou qualquer exercente de cargo público trabalhasse de graça, sem salário, sem mordomias, sem benesses e sem outros penduricalhos mais, que deixam o indivíduo com o rei na barriga.

A negativa não quer dizer que não preciso de dinheiro. É exatamente porque não tenho dinheiro, por ser um pé-rapado, que não me meto mais em casa de marimbondo.

Ser político fazia parte de meus sonhos de jovem utópico. Delírios da juventude. Todo mundo pode derrapar na vida. Escorregões são naturais.

Quando o sujeito entra na política, mesmo que seja rico e honesto, passa a ser larápio na boca do povo. E até com razão, em certas circunstâncias. O povo é sábio.

Além do mais, disse ao meu amigo: já sou idoso, segundo fiquei sabendo. Não me meto mais em enrascada.

Notei mesmo que sou idoso por acaso e não observando a cédula de identidade. Dia desses, entrei numa repartição pública em São Bernardo do Campo e na recepção se formava uma fila, como, aliás, em todo lugar que se vai.

Uma senhora, já pra lá de Bagdá, lançou-me um olhar de dó e desprezo e imediatamente dirigiu-se ao atendente:

– “Deixe esse senhor passar na minha frente”.

Fiz uns salamaleques, agradeci a gentiliza e me lembrei de dizer a surrada e idiota frase: “primeiro as damas”.

– “Imagine! Eu estou bem”, disse ela.

Noutras palavras, ela quis dizer mesmo que estou um caco. Comecei a me preocupar. Mas não há de ser nada. Não estou assim tão moribundo.

Todavia, voltando ao assunto da candidatura sugerida, houve um tempo, em que vereador não tinha salário ou vencimentos, qualquer que seja a denominação. O edil representava o povo de verdade, diferentemente de hoje, que cuida mais dos próprios bolsos.

Há alguns anos, pensei em cutucar os vereadores do Brasil pra ver se eles gostavam mesmo do povo ou dos subsídios.

Sem nenhuma maldade, conversei com um amigo deputado federal e lhe sugeri que apresentasse um projeto de lei na Câmara dos Deputados retirando os subsídios dos vereadores a partir da aprovação da medida legislativa, se aprovada fosse.

Os vereadores passariam a ser voluntários, filantrópicos, piedosos, defensores arraigados de  seus redutos eleitorais.

Não tive êxito em minha empreitada. Meu amigo deputado foi rápido.

– Que é isso, rapaz? Você quer acabar com minha carreira política? E minhas bases?”

Deixei pra lá. Ficou o dito pelo não dito.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia e a liderança do governador Rui Costa

“Não tenho vocação para ser coruja que gaba o próprio toco” (Rui Costa)

O governador da Bahia, Rui Costa, concedeu entrevista às páginas amarelas da Revista Veja desta semana.

Sensato, o pensamento de Rui Costa parece distanciar-se do Partido dos Trabalhadores (PT), de que é filiado desde o início da agremiação partidária em 1980. É fundador do partido e fiel às suas ordens, por enquanto.

Líder inconteste na Bahia – em 2018 Rui Costa foi reeleito com mais de 75% dos votos válidos – discorreu sobre tudo que o PT sabe, mas não admite: “O maior desafio do PT é se reconectar com a sociedade brasileira”.

Rui foi mais além para ponderar, sabiamente: “É natural que a oposição, se tiver juízo, recolha o trem de pouso e deixe o presidente governar, até para não ganhar a antipatia da sociedade”.

Rui sabe que a antipatia da sociedade é maligna. Está aí o claro exemplo retratado no antipetismo de 2018, que entronou Jair Bolsonaro na presidência da República.

Os radicais do PT devem estar espumando com a entrevista do governador da Bahia. O que eles menos querem é a sensatez, a responsabilidade, o bem do Brasil. Querem mesmo é abarrotar seus bolsos de dinheiro público à custa dos brasileiros. Estão aí para provar, a Petrobras, a Odebrecht, a OAS e outros tantos conhecidos corruptores ativos.

Rui Costa admitiu, sem reservas, que “o certo era o PT ter apoiado o Ciro Gomes lá atrás”, em 2018. Admitiu que o PT não tinha chances de sair vitorioso nas urnas de 2018.

Por falta desse apoio, Ciro Gomes está magoadíssimo com Lula da Silva de quem foi ministro, espinafra o PT em toda oportunidade que lhe é possível e dá violentas estocadas nos radicais do PT, que o abandonaram e preferiram o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, subserviente a Lula e, mais do que isto, seu fantoche.

Ciro Gomes sabe que o culpado disso tudo é Lula da Silva e não nega isto.

Na entrevista, Rui Costa demonstra claro descontentamento com o PT, a ponto de dizer que o partido precisa condenar os abusos da Venezuela e esquecer o “Lula Livre”. É uma estocada em Gleisi Hoffmann, destrambelhada presidente do PT, que é apaixonada pelos descalabros do ditador Nicolás Maduro. Até foi à última posse do ditador.

Bem informado, o governador da Bahia sabe que o PT está se esvaindo. Hoje o Diário do Grande ABC, de Santo André, traz uma informação preocupante: o PT encolheu 52,1% no berço do partido.

A última eleição interna do partido (PED) demonstrou que, em dez anos, o PT encolheu assustadoramente na região do ABC: em 2009 eram 13.567 militantes. No último domingo, esse número caiu para 6.495 militantes.

O presidente do PT em São Bernardo do Campo, casa e terreiro de Lula da Silva, deu uma violenta repreensão em seus correligionários por isto. Ficou feio. Muitos petistas não querem mais o PT. Só isto.

O fato é que o PT vem se desgastando junto aos próprios militantes, antes aguerridos. Ninguém, entre eles, acredita que Lula da Silva é inocente das acusações de corrupção.

Os petistas sentem-se traídos pela confiança que depositaram no ex-presidente. Isto é voz corrente no ABC paulista, em qualquer boteco e reduto de Lula.

Em 2016, o PT perdeu em todos os sete municípios do ABC. Sequer reelegeu o filho de Lula, que era vereador em São Bernardo do Campo. Constrangedor. Rui Costa está atento a tudo isto.

Em resumo: as maiores lideranças do PT estão na Bahia: Jaques Wagner e Rui Costa.

Se o PT tiver juízo, fica de olho neles. Um ou outro será o melhor candidato do partido para a disputa presidencial de 2022, mas Jaques Wagner pode não querer.

Fernando Haddad foi e será um fiasco. Exemplo claro é a recente caravana “Lula Livre”, que ele fez ao Nordeste. Em Recife, só compareceram admiradores dele e do PT. Ninguém mais.

Hoje, o governador da Bahia Rui Costa é a maior liderança do PT no Nordeste, região que vem sustentando os descalabros do partido.

Mas pode mudar.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, o adeus de Maroto

“O peso de sentir! O peso de ter que sentir!” (Fernando Pessoa, 1888-1935)

Curaçá perdeu Juvêncio Ferreira de Oliveira. Maroto, Marotinho e outras qualificações mais com as quais conhecíamos e gostávamos de chamá-lo, carinhosamente, respeitosamente.

Maroto, por si só, era o respeito, a decência, a clarividência de espírito, a consideração, a humildade.

Em Curaçá, de onde nunca saiu, Maroto fez muitas façanhas na vida. Até foi político, exerceu a vereança.

Difícil falar de Maroto! Vem-nos “o peso de sentir, o peso de ter que sentir” e isto nos deixa inexplicavelmente prostrados diante da vida ou da morte.

Sobre Maroto, há brilhante texto escrito em abril de 2014, de autoria do professor Luciano Lugori, admirável inteligência da nova geração de Curaçá.

O autor do texto, registrava a impaciência de Maroto, à época, por volta dos 80 anos vividos, bem vividos:

 “ Eu já estou morto! Não sei por que a morte não me leva logo”.

Não, Maroto. Ainda não era o momento de você partir. Você nos deu a alegria de seu convívio por mais alguns anos. O tempo balizou o parâmetro para delimitar sua presença entre nós, que lhe admiramos.

Maroto era um “vencedor do tempo”. Era natural que, naquela altura da vida – ou do tempo – ele sentisse essa vontade de manifestar o cansaço da vida. Vida correta, honesta, exemplar.

Contudo, Maroto era um cara esperto. Aliás, espertíssimo. Talvez dissesse aquilo filosoficamente, para coadunar com sua forma decente de viver. A vida de Maroto foi muito decente, irrepreensivelmente decente.

Muitas vezes, em anos distantes, participei de conversas agradáveis e costumeiras com Maroto. Conversas animadas, sinceras, convidativas. Suas gargalhadas pareciam uma forma de afastar os tropeços da vida.

Lugori vai longe, despretensiosamente, com essa história de dizer as coisas de Curaçá. E disse-o muito bem sobre Maroto.

À época o professor Lugori dizia:

“Juvêncio é um homem forte e sábio, por isso a morte ignora seu rogo birrento. Ele agora nos escuta com olhos. Basta observá-lo para dizer-lhe algo e ele tão logo retribuirá a atenção, seja com gestos ou expressões. E o seu olhar apontado para diante nós, nos diz muito mais do que a boca e suas próprias palavras seriam capazes de exprimir”.

Agora, com a partida de Maroto, não há o que acrescentar. Eis tudo.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, indique-lhe o caminho e que Deus o ampare.

Meus sentimentos a todos da família de Maroto.

araujo-costa@uol.com.br

E agora, PT? Cadê o Miranda?

O Partido dos Trabalhadores (PT) e seus seguidores arrumaram mais uma tarefa para resolver, dentre muitas outras que não têm conseguido dar conta: além do Queiroz, agora também eles precisam saber onde está o David Miranda, deputado federal do PSOL, tentáculo do PT, que fez exatamente igual ao que o Queiroz fez.

Dia da caça

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) disse que o Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro, movimentou num ano R$ 1,2 milhão em sua conta, sem origem comprovada.

O PT não falava noutra coisa até ontem.

Dia do caçador

Agora, foi publicado que o mesmo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) disse que o deputado David Miranda (PSOL-RJ) movimentou num ano mais do que o dobro do Queiroz: R$ 2,5 milhões, também em movimentação suspeita.

Coincidência gritante entre Queiroz e David Miranda: os depósitos e saques foram fracionados na base de R$ 2.000,00 e R$ 5.000,00. Mais coincidência: ambos estavam ligados a atividade parlamentar no Rio de Janeiro à época dos depósitos e saques suspeitos.

Mais ainda: o volume de dinheiro movimentado é incompatível com a renda de ambos. Queiroz era assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro; David Miranda era vereador.

Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT e Paulo Pimenta, líder do partido na Câmara dos Deputados e muitos outros petistas e admiradores, que a todo instante perguntam onde está o Queiroz, precisam agora explicar a dinheirama que o Davi Miranda movimentou.

Ou então vão ter que dizer que é culpa do Sérgio Moro e do procurador Dallagnol.

O PSOL é um puxadinho do PT e David Miranda se intitula favelado. Talvez seja o único favelado que mora nas regiões nobres do Rio e Brasília e tem renda de R$ 2,5 milhões ao ano.

Sortudo esse David Miranda, não?

Bom aluno do PT, o deputado David Miranda já adotou o surrado discurso: é perseguição.

Só para lembrar: esse deputado David Miranda é o marido do jornalista americano Glenn Greenwald, dono do The Intercept Brasil. Miranda era suplente de Jean Wyllys, também do PSOL e assumiu em seu lugar, tendo em vista a renúncia não explicada do titular.

Considerando o barulho que os petistas e o pessoal do PSOL fizeram no episódio do Queiroz, supõe-se que são pessoas honestíssimas e não se envolvem em maracutaias.

Não duvido.

Só o Queiroz deve ser desonesto.

araujo-costa@uol.com.br

Um comunista que deixa saudade

“O mais difícil é não fazer nada” (ditado judaico).

Aberto Goldman, ex-governador de São Paulo, faleceu em 01/09/2019, início da semana da Pátria.

Comunista até a alma, marxista que migrou para a social-democracia, Goldman transitou da esquerda a todos os espectros políticos, com desenvoltura exemplar.

Conheci-o em 1976, em Mauá, município da grande São Paulo, em plena ditadura militar. Goldman na trincheira contra os excessos do governo. Sério, atento, idealista, intrinsecamente preocupado com o Brasil.

Ainda jovem, aluno da Universidade de São Paulo (USP), ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) de linha soviética. Como todo estudante, acreditava em utopias, mesmo aquelas que os séculos as desmoronaram.

Goldman era idealista. Essencialmente idealista.

Filiado ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Alberto Goldman foi deputado estadual em São Paulo entre 1971 e 1978 e deputado federal por dois mandatos.

Depois de ser ministro dos Transportes (1992-1993), Goldman retornou ao seu convívio em São Paulo para, mais tarde, ser vice-governador de José Serra. Assumiu a titularidade de governador, embora por curto período.

Recolhido à velhice, o atual governador João Dória, num dos momentos de deselegância o chamou de “fracassado, por viver de pijama em casa”.

Infeliz a frase do governador João Dória. Nem sempre é fracassado quem está de pijama, por ter cumprido o seu dever.

Alberto Goldman deixa saudade. Ele acreditava no Brasil.

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A Bahia e a vaidade dos procuradores da República

“Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” (Carlos Drummond de Andrade)

A Bahia de Ruy Barbosa ganha simbolicamente a Procuradoria-Geral da República, se não houver desvio de rota político ou jurídico. E se os vaidosos procuradores da República não acabarem com o Brasil.

No uso de suas atribuições constitucionais, o presidente Jair Bolsonaro indicou o procurador baiano Augusto Aras para chefe da Procuradoria-Geral da República.

A nomeação depende ainda do crivo da Comissão de Constituição e Justiça e do plenário do Senado Federal, que dará a palavra final.

Augusto Aras é filho do advogado, político e ex-deputado Roque Aras, que foi vereador de Feira de Santana, deputado estadual e deputado federal.

Filho de Monte Santo, Roque Aras estudou no Colégio D. Bosco de Petrolina e no Ginásio Juazeiro. Fez carreira política no antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) no tempo da ditadura militar. Teve atividade parlamentar atuante que honrou a Bahia e seu povo.

Entretanto, a indicação de Augusto Aras está sendo contestada pela vaidosa Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), uma espécie de sindicato da categoria disfarçado e intransigente defensor do corporativismo.

Como de costume,  a ANPR fez consulta interna e apresentou ao presidente da República uma lista tríplice que contemplou os mais votados. Debalde, diria Ulysses Guimarães.

O problema dessa lista é um só: o presidente da República, qualquer que seja ele – da esquerda, da direita ou do centro – não é obrigado a nomear o procurador-geral de acordo com essa lista tríplice, porque a lei não lhe obriga. A Constituição Federal é claríssima, não contempla nenhuma lista, tampouco qualquer escolha prévia.

Ao contrário, a Constituição assegura ao presidente a prerrogativa de indicar o procurador-geral. E só.

O que há é uma tradição. Por essa tradição, nos últimos governos, o chefe da Procuradoria vinha sendo nomeado de acordo com a lista tríplice. Tradição não é lei e, logo, o presidente não lhe está adstrito.

A tradição é importante, enfeita a história, mas não tem força de lei.

Lula da Silva e D. Dilma Rousseff seguiram a lista, tão-somente por opção e não por obrigatoriedade. Poderiam ter optado por nomes fora da lista, mas não o fizeram. Não erraram.

O presidente da República Jair Bolsonaro não errou ao indicar o procurador-geral fora da lista, nem a ANPR errou em apresentá-la ao presidente.

Em resumo: neste caso, a lista tríplice e nada é a mesma coisa.

Contudo, há uma briga de foice entre procuradores, regada a vaidade e sustentada pela desfaçatez do corporativismo. O procurador Augusto Aras não faz parte dos defensores intransigentes da lista tríplice.  E por isto está sendo apedrejado pelos colegas.

Como se vê, o Brasil está jogado às traças. Quem tem o dever legal de cumprir a lei não o faz, caso dos procuradores. Isto é perigoso e avacalha as instituições.

Chega a ser constrangedor que os procuradores da Repúblicas contrariem a Constituição acintosamente. São eles – os procuradores – que defendem os interesses da sociedade, ou pelo menos, deveriam defendê-los. São pagos para isto.

Onde está escrito que o presidente da República é obrigado a obedecer a lista tríplice?

Os vaidosos procuradores da República, pagos pela sociedade, acham que o Brasil deve nortear-se de acordo com a vontade deles. São pretensiosos e arrogantes.

“Nenhum Brasil existe”. Só eles, segundo eles.

Não é à toa que a operação Lava Jato, inicialmente séria, está indo pelo ralo da insensatez e da desmoralização.

araujo-costa@uol.com.br

No PT é assim

“Quem tem pescoço sabe que a diferença entre a corda e a gravata está nas mãos de quem ata” (Frei Betto)

No PT é assim.
Os membros do PT não confiam em si próprios.
Em 08/09/2019, o Partido dos Trabalhadores fará eleição para escolha dos presidentes dos diretórios municipais e dos delegados para os congressos estaduais e nacional do partido.
Só em São Paulo, o PT nomeou 200 fiscais, para vigiar o próprio PT, no procedimento interno que o partido definiu como Processo de Eleição Direta (PED): uma embromação que o PT criou para dizer que é um partido político sério e democrático.
Se os petistas não acreditam em si próprios, como os demais brasileiros devem acreditar neles?
Quem duvidar, leia Paraíso Perdido, monumental livro de frei Betto, em minha opinião, a maior autoridade em assuntos do PT. Humilde frade dominicano, amigo e confessor de Lula da Silva e o maior exemplo de humildade que vi até hoje.Conheço-o muito bem.
Frei Betto sabe tudo sobre tudo do PT e suas entranhas. Quem discordar dele em assuntos do PT, mesmo sendo do PT, não conhece o PT.

araujo-costa@uol.com.br