Curaçá, 1980: A poesia no Jornal Asa Branca

Teatro Raul Coelho, Curaçá-BA/Crédito Acervo Curaçaense

Curaçá, belo município baiano debruçado à margem direita do Rio São Francisco é celeiro de escritores, jornalistas, poetas, músicos, artistas e intelectuais de toda ordem e respeitável grandeza.

A cultura brota diuturnamente em Curaçá.

Há alguns símbolos que retratam a história do município como, por exemplo, o Teatro Raul Coelho, os casarões centenários e, mais recentemente, o Acervo Curaçaense, instituição sabiamente idealizada com o intuito de perenizar a história de seu povo.

Já se vão, por aí, aproximados 46 anos.

José Ascendino Duarte, filho de Fortunato Lopes, curaçaense morador no Rio de Janeiro, mandou esta poesia e o Jornal Asa Branca publicou na edição de 28 de junho de 1980 (Ano 01 – Número 02) com o título Minha Terra Natal:

I

“Nas margens do São Francisco

Esta minha terra adorada

Cercada de arvoredos

Onde canta a passarada

                  II

Quando é tempo do inverno

Que os campos reverdecem

Os pássaros saltitam alegres

Os umbuzeiros florescem

               III

E eu bastante saudoso

Começo então a pensar

Mais tarde a noite vem

Eu durmo então a sonhar

              IV

No sonho eu vejo tudo

Embora seja ilusão

Acordo e fico a pensar

Soltando soluços em vão

         V

Continuo a soluçar

E não me sai da lembrança

O prado de minha terra

Onde brinquei quando criança        

                   VI

E assim meu bom amigo

Como passo a te dizer

Me recordo o canto das aves

Principalmente o Sofrê

               VII

A juriti, o periquito

O papagaio, a vó da lua

Por isso adoro pouco

As passeatas da rua

             VIII

E assim vivo inquieto

Pra minha terra vou voltar

Pois não resisto a saudade

Do saudoso sabiá

            IX

Ao amanhecer do dia

Ouço a bela serenata

Dos pássaros de minha terra

Gorjeando sobre a mata

         X

A peiga de penas lindas

O canarinho também

E todos pássaros bonitos

Que na minha terra tem

         XI

Pelas 5 da manhã

Canta o galo de campina

Que é um cantor afamado

Com sua música divina

         XII

Todo o povo se alerta

E vão das roças cuidar

Só se procura o aposento

À noite para descansar

         XIII

Eis aqui meu bom amigo

Porque me recordo o sertão

Até aqui não encontrei

Conforto em meu coração

         XIV

Curaçá é terra boa

Pra mim não existe outra não

Me recordo noite e dia

Não esqueço meu torrão

         XV

Vá por mim na minha terra

Conhecer o meu torrão

Por mim abrace meus pais

E também meus três irmãos

         XVI

Diga que aqui fico chorando

Soltando soluços em vão

Com fé em Deus me espere

Pela noite de São João.”

Faço este registro para cutucar a história e lembrar dos difíceis tempos do Jornal Asa Branca, que empurrou a porta da incompreensão para alcançar a luz da liberdade de pensamento ofuscada pela truculência política da época.

araujo-costa@uol.com.br

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