A inteligência de Lula da Silva e o STF

Lula da Silva pode ter uma infinidade de defeitos. E certamente tem.  Defeitos que sabemos que ele tem, defeitos que supomos que ele tem e outros tantos defeitos que nunca vamos saber que ele tem.

Entretanto, Lula da Silva tem uma qualidade que não podemos negar: a inteligência.

Estrategista sempre, às vezes se finge de morto, quando lhe interessa, mas continua atuando sorrateiramente, como fogo em entulho. Ademais, ele conta com uma rede de apoio, que vai da base até o topo da pirâmide social e política do Brasil. São seus adeptos, súditos, admiradores, asseclas, amigos, pessoas gratas, et cetera.

Todavia, data venia, a inteligência de Lula da Silva está falhando num ponto: ele gasta fortunas, a título de honorários, para uma equipe de respeitáveis e eficientes advogados, que atuam em diversas frentes, em sua defesa. Não precisa.

Todos os seus recursos e inconformismos irão parar no Supremo Tribunal Federal, inarredavelmente. O STF os apreciará na ocasião oportuna. E lá Lula da Silva tem abalizadíssimos advogados: alguns ministros da Corte.

Lá ministros têm construído entendimentos mirabolantes, deixam de lado o Direito – “a lei, ora a lei” – e tomam decisões ao sabor de suas tendências políticas.

A puríssima e correta ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo, diz que isto não existe no Tribunal. Ah, bom!

Lula da Silva está calmo. Ele sabe que o caminho que o leva a seus advogados supremos está sendo forrado de agradáveis expectativas e certezas. E não vai errar.

araujo-costa@uol.com.br

 

Quando a gratidão está acima do Direito.

O Supremo Tribunal Federal vem passando por evidentes sinais de esquizofrenia em suas decisões.

Talvez por isto, o STF seja a única Corte Suprema do mundo na qual a sociedade – ou parte dela – não acredita e que alguns de seus ministros se escondem nos aeroportos com receio de vaias.

Em Brasília, até criaram um sistema privativo de embarque de Suas Excelências, para não serem vistos pelos demais mortais comuns que frequentam o aeroporto presidente Juscelino Kubitscheck.

Em 26/06/2018, a Segunda Turma do STF composta de cinco ministros, dentre outras decisões esquisitas, mandou soltar o ex-ministro José Dirceu de Oliveira e Silva, em decisão esdrúxula, confusa, embasbacada.

A decisão da maioria da Turma se portou totalmente conflitante com entendimento firmado pelo plenário do próprio Tribunal, que decidiu pela decretação de prisão após condenação em segunda instância, mesmo havendo recursos pendentes de julgamento.

O ministro Dias Toffoli, visivelmente atabalhoado, liderou o argumento de que mandava soltar José Dirceu, porque o mérito de recurso impetrado pelo ex-ministro ainda está pendente de julgamento.

Ou seja, Toffoli afirmou o que todo mundo já sabe: a prisão do condenado somente pode acontecer quando esgotadas todas as fases recursais, embora a esquizofrenia do STF tenha firmado jurisprudência contrária.

Dias Toffoli tomou uma decisão na base do é, mas não é, que foi seguida pela maioria. Mandou soltar José Dirceu, mas assegurou que não questionava, em nada, a prisão em segunda instância, o que dá no mesmo. Se José Dirceu estava sendo posto em liberdade porque o mérito de recurso interposto por ele ainda não foi julgado, o caso é semelhante ao de Lula da Silva e de outros milhares de presos na mesma condição, inclusive aproximados quatorze mil deles só em São Paulo.

Mais esquisito ainda foi o ministro Dias Toffoli dizer que mandava soltar José Dirceu de ofício, porque o mérito do recurso vai demorar muito para ser julgado.

Ora, mas a demora não se dá também com relação aos demais presos? Então, expeçam-se alvarás de soltura para todos eles, com base na demora do Judiciário em julgar recursos penais.

Pois bem, a Segunda Turma do STF decidiu soltar José Dirceu, em decisão de oficio, ou seja, não havia pedido da defesa nos autos neste sentido, mas a Turma decidiu colocá-lo em liberdade.

Salvo melhor juízo, o pedido da defesa era sobre aplicação da pena e não pedido de liberdade.

Qualquer acadêmico de Direito conhece a máxima: “o que não está nos autos do processo não está no mundo”. Logo, o juiz não pode decidir sobre fato não constante nos autos. Todavia, o ministro Toffoli decidiu e mais dois ministros o seguiram.

Em resumo: a gratidão do cidadão Dias Toffoli falou mais alto do que a convicção do juiz Dias Toffoli.

José Dirceu foi patrão de Dias Toffoli, o PT e a CUT foram patrões de Dias Toffoli, José Dirceu influiu na nomeação de Dias Toffoli para advogado-geral da União e depois para ministro do Supremo Tribunal Federal.

Neste caso, evidente que a gratidão está acima da Ciência do Direito. No Poder Judiciário dizem que isto não existe.

Ser grato é uma qualidade exemplar. Sentimento nobre, isto não se discute. É subjetivo, inalcançável, inatingível.

Mas, já que é assim, a gratidão que beneficiou José Dirceu deveria beneficiar também os milhares de presos que se encontram na mesma situação.

Os livros de Direito e o Poder Judiciário dizem que a Justiça é igual para todos.

O humorista diria, “me engana que eu gosto!”

araujo-costa@uol.com.br

 

Bahia: a última batalha de Waldir Pires (1926-2018).

Waldir Pires/Crédito da foto: Câmara dos Deputados

Nesse 22 de junho de 2023 completam-se cinco anos da morte de Waldir Pires, data em que a democracia do Brasil perdeu um de seus maiores esteios e sustentáculos.

Quando Waldir Pires disputou o governo da Bahia em 1986 abriu um comitê na Avenida Sete de Setembro, no edifício da antiga Farmácia Caldas, em Salvador.

Naquele endereço aconteciam reuniões, articulações, definições estratégicas, composições políticas, etc. Era o quartel-general da democracia.

Para lá acorriam políticos, admiradores e esperançosos em geral, com o intuito de fazerem a mudança do statu quo implantado pelo carlismo que perdurou décadas.

Duas qualidades de Waldir, dentre muitas: a combatividade e a retidão de caráter. Homem de convicções admiráveis defendia arraigadamente o ideário que sempre sonhou para o Brasil. Era viciado em democracia.

Waldir Pires disputou a eleição de 1986 tendo como adversário principal o jurista e professor de direito constitucional Josaphat Marinho, apoiado pelo poderoso Antonio Carlos Magalhães (ACM), líder político incontestável na época. Waldir ganhou a eleição, beneficiado pelo alvoroço democrático. O que veio depois é outra longa história.

Na década de 1950, aos 24 anos de idade, Waldir Pires foi secretário do governo Régis Pacheco e, mais tarde, deputado estadual, deputado federal e Consultor Geral da República na presidência de João Goulart.

Esta primeira fase de sua atuação política anterior ao movimento de 1964 foi auspiciosa, rica, valiosa.

Antes, Waldir havia disputado e perdido as eleições de 1962 ao governo da Bahia para o dentista e ex-prefeito de Jequié, Antonio Lomanto Júnior (1924-2015).

Com a queda do presidente João Goulart, Waldir e seu amigo Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil do governo Jango, fugiram num avião monomotor para o Uruguai. Lá ele viveu alguns anos e depois se exilou na França.

Com a anistia, terminou a amargura e voltou ao Brasil. Na França, foi professor na Universidade de Dijon e depois na Universidade de Paris.

No pós-exílio, além de governador da Bahia e parlamentar, Waldir foi ministro da Previdência, ministro do Controle e da Transparência e também da Defesa.

Todavia, Francisco Waldir Pires de Souza estava com 91 anos. Nascido em Acajutiba, passou a infância em Amargosa e mudou-se para Salvador. Daí, Waldir saiu para o mundo da grandeza democrática. O despontar para o amanhecer político – dizia ele – se deu em Nazaré das Farinhas. 

Sua história de luta e coragem é um exemplo para aqueles que desejam um Brasil melhor para todos.

Mas a memória de Waldir já dava sinais de cansaço, embora lúcido, ativo, atento às coisas do Brasil. Sua combatividade, entretanto, vinha perdendo o vigor desde 2016, término do mandato de vereador de Salvador.

A esposa D. Yolanda Avena Pires, com quem viveu 55 anos e foi sua companheira de vitórias e infortúnios, faleceu em 2005. Mas Waldir continuou lutando em defesa de suas convicções democráticas.

Em 1986, seu amigo de exílio e da vida, Darcy Ribeiro escreveu: “Waldir tem panca e ideologia de estadista. Seu propósito é, nada menos, do que passar o Brasil a limpo”.

Waldir Pires recolheu-se à sua última trincheira, o mundo da velhice. A derradeira e altiva batalha que travou.

Waldir faleceu na madrugada de 22/06/2018. Deixou um legado de esperança e combatividade em favor do Brasil. Exemplo para todas as gerações.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

São Bernardo do Campo e o Brasil estão envergonhados

Um rapaz de São Bernardo do Campo aparece em vídeo gravado na Rússia e difundido em redes sociais, cantando e dizendo frases ofensivas às mulheres. Esse senhor é formado em jornalismo pela respeitada Universidade Metodista. Pode?

Um vereador de São Bernardo do Campo, ex-secretário de Gestão Ambiental na atual administração do município, teve a prisão preventiva decretada pelo Tribunal de Justiça. A prisão decorre do desenrolar de uma acusação de corrupção atribuída ao vereador e investigada pela Polícia Federal. O homem, além de vereador, fazia parte da gestão que se propôs a acabar com os desmandos em São Bernardo do Campo. Pode?

Ser acusado não significa definição de culpa. Mas há indícios.

Como se vê, os mentecaptos estão se proliferando.

São Bernardo do Campo está com vergonha. O Brasil está com vergonha

Os militares e as eleições de outubro.

 

Carlos Castelo Branco (1920-1993), ícone do jornalismo político, que foi secretário de imprensa do presidente Jânio Quadros e membro da Academia Brasileira de Letras, dizia que “a ansiedade pânica é a matéria-prima dos radicais”.

Vimos isto em 1964 e nos anos da ditadura. As lembranças não são boas.

Agora os radicais estão saindo das tocas, evidente que não mais os mesmos em maioria, mas aqueloutros que os seguem, ansiosos para embaralhar o ambiente político.

Isto não é bom, como não foi em 1964 e tampouco nos anos subsequentes sob os governos militares.

O Brasil enveredou pelo caminho certo, superou percalços e ideias arrevesadas e amadureceu democraticamente. É bastante.

Com o aproximar das eleições de outubro de 2018 surgiram ecos confusos defendendo a volta dos militares ao poder da República, o que está sendo difundido em redes sociais, principalmente.

O equívoco é não dizer qual o caminho pretendido para exigir a volta dos militares.

Os militares podem ocupar espaços políticos, sim, mas através do voto popular. Há uma centena deles pré-candidatos ao Congresso Nacional, por exemplo.

O deputado federal e capitão da reserva do Exército Jair Bolsonaro quer disputar na condição de candidato para a presidência da República. Desponta, com destaque, nas pesquisas de intenção de voto.

O caminho está certo: o voto popular. O voto será sempre o caminho certo.

Bolsonaro é nacionalista e conservador, o que tem incomodado sobremaneira a esquerda, que implantou exageradamente o “politicamente correto” no Brasil, negligenciou o respeito aos símbolos nacionais, alienou jovens com discursos obscuros e até, em certos casos, deixou o Brasil de lado para endeusar-se a si própria. E ao assumir o poder furtou desbragadamente, libertinamente, indecorosamente.

O amadurecimento da democracia vem dificultando “a ansiedade pânica” dos radicais de esquerda, embora eles continuem armazenando “matéria-prima” para usá-la a qualquer tempo.

Tancredo Neves dizia que “quem deve brigar são as ideias e não os homens”. A esquerda não absorveu essa e outras sabedorias e anuvia o ambiente político desnecessariamente.  Um erro.

O certo é que o Brasil mudou. E o melhor caminho para os radicais será aquele em direção à sensatez e à obediência às instituições, por extensão, incluídos os órgãos do Poder Judiciário, Ministério Público e outros tantos que cuidam da regularidade do exercício da democracia.

As eleições de outubro vindouro trarão um cenário um pouco diferente dos anteriores, porque dele fazem parte militares atentos à situação do Brasil, mas com pensamento democrático, o que é um avanço significativo.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

A outra utilidade da panela

Na Bahia, o deputado Geddel Vieira Lima (MDB) guardava R$ 51 milhões de reais num apartamento, em dinheiro vivo. O homem foi vice-presidente da Caixa Econômica Federal e, mesmo assim, não confiava no banco. Nem em outros bancos. Preferiu guardar o dinheiro em casa. É mais seguro.

Em Mauá, simpático município encravado no ABC paulista, o prefeito acondicionava grande quantidade de dinheiro em panelas. Passou aproximadamente um mês no xilindró por conta disto, mas o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, entendeu que guardar dinheiro em panelas não é crime – e parece que não é mesmo – e mandou soltar sua Excelência.

Crime é se esse dinheiro tem procedência nos cofres públicos o que, no caso do prefeito de Mauá, ainda não está provado. Parece somente uma questão de precaução. O prefeito não confia em bancos, mas em suas panelas. Só isto.

A Polícia Federal entende que o dinheiro foi surrupiado dos pratos das crianças de Mauá e provém de merenda escolar. Uma insensatez, se for verdade.

Na mesma linha de raciocínio do baiano e cuidadoso Geddel, o paulista prefeito de Mauá também não confia na rede bancária e prefere guardar o dinheiro em sua cozinha, dentro de panelas. Pelo menos fica de olho nele. É mais seguro.

Em São Bernardo do Campo, também no ABC paulista, o ex-presidente Lula da Silva preferiu lavar dinheiro público, não em panelas, mas em sofisticadas propriedades. A Justiça e o sistema financeiro chamam isto de branqueamento de capitais. Expressão bonita, mas perigosa.

Isto é o que dizem as autoridades – Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário – mas Lula da Silva nega tudo e quem sou eu para dizer que ele é culpado? Ele diz que é inocente. Então, deve ser.

Há muita coisa para acontecer ainda, inclusive a previsível soltura de Lula da Silva no vindouro dia 26 de junho ou próximo disto. Ele deve ser solto, porque a prisão em segunda instância é uma aberração contra a Constituição Federal.

Contudo, o STF construiu um entendimento de que a confirmação da sentença penal condenatória em segundo grau de jurisdição autoriza a levar o condenado para a cadeia, mesmo que ainda existam recursos pendentes de julgamento.

Não é somente Lula da Silva que está nessa situação vexatória. Só em São Paulo, o Tribunal de Justiça expediu 13.887 mandados de prisão entre fevereiro de 2016 e abril de 2018, também por conta desse entendimento, mas o Partido dos Trabalhadores (PT) e aliados, que tanto defendem a liberdade de Lula, não se manifestam em favor desses presos, por uma razão muito simples: eles não votarão nas próximas eleições. Então, podem ficar mofando na cadeia.

Lula da Silva é o único aposentado do INSS que ficou rico no Brasil. O homem é exímio administrador do dinheiro de sua aposentadoria, coisa que os demais brasileiros aposentados não sabem fazer. É esta extraordinária e gigantesca capacidade de administrador que está prejudicando Lula da Silva.

Quanto à panela, nesses tempos modernos, ela também passou a ter outra utililidade: cofre.

araujo-costa@uol.com.br

Bahia: o PT está atrapalhando o PT

Há uma frase atribuída ao governador Otávio Mangabeira, considerado o “filósofo da baianidade”, que parece estar em alta: “Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente”.

A Bahia é um dos estados em que o PT vai bem, com alvissareiras expectativas de êxito eleitoral nas urnas, tudo por conta da atuação de Jaques Wagner, que respira política o tempo todo e tendo em vista a incapacidade de articulação dos seguidores do carlismo, que está se esvaindo.

Contudo, há um quiproquó: o governador Rui Costa, pré-candidato à reeleição, trabalha na composição de sua chapa e pretende deixar de fora a senadora Lídice da Mata, aliada histórica do PT na Bahia, em favor do deputado estadual Ângelo Coronel.

Este senhor Coronel vem a ser o presidente da Assembléia Legislativa e faz parte do grupo do senador Otto Alencar.

O governador diz – e parece que acertadamente – que na formação da chapa vai considerar as peculiaridades locais da Bahia e, neste caso, a senadora Lídice não teria espaço, já que a outra vaga ao Senado da República é destinada ao cacique carioca e chefe político de Rui, Jaques Wagner, que tem eleição garantida, salvo se as águas que estão passando por baixa da ponte até as eleições de outubro o arrastarem para as caudalosas surpresas da Lava Jato.

Dentro do PT há um movimento para Jaques Wagner abrir mão da candidatura ao Senado e disputar a presidência da República em substituição a Lula da Silva, que dificilmente terá sua candidatura acolhida pela Justiça Eleitoral, em razão da Lei da Ficha Limpa, exceto uma situação de disputa sub judice, o que é possível.

Todavia, Jaques Wagner parece não estar disposto a abandonar a expectativa de oito anos de mandato no Senado para se dedicar à difícil tarefa de recolher as cinzas políticas de Lula da Silva, não obstante amigos.

É uma aventura, uma temeridade. Deixar o certo pelo duvidoso não parece ser a tradição política do ex-governador baiano.

Todavia, o quiproquó é o seguinte: a presidente nacional do PT, senadora paranaense Gleisi Hoffmann, que entende tudo de radicalismo e nada de política séria, não aceita que a senadora Lídice da Mata seja afastada da chapa majoritária de Rui Costa e insiste em meter o bedelho nas costuras políticas do governador. Até – dizem – Gleisi já gravou vídeos em apoio à candidatura de Lídice, o que não deve ser bom para a senadora baiana.

O destrambelhamento da senadora paranaense pode atrapalhar o PT da Bahia. Gleisi articula mal, mistura alhos com bugalhos e carrega uma agravante nas costas: é politicamente muito confusa.

Em Tocantins, a senadora Kátia Abreu que disputava a governadoria em eleição suplementar, ocupava um folgado primeiro lugar em todas as pesquisas de opinião. Bastou Gleisi Hoffmann gravar um vídeo em apoio a Kátia para a situação degringolar.

Abertas as urnas, Kátia Abreu amargou um mísero quarto lugar. E se escondeu, não se sabe se com vergonha, em razão da derrota inesperada ou para não se encontrar com a senadora Gleisi.

Como se vê, parece não ser recomendável que a presidente nacional do PT tente atrapalhar as costuras do governador Rui Costa. O PT pode se enroscar nas linhas de sua costura e atrapalhar o próprio desempenho eleitoral no estado.

Rui Costa tem um professor de política: Jaques Wagner. E a senadora Gleisi Hoffmann passou longe dessa sala de aula.

Como dizia Otávio Mangabeira, a Bahia tem precedente em todos os absurdos.

Colocar em risco composições políticas seguras feitas por Rui Costa e Jaques Wagner, para atender Gleisi Hoffmann, pode caracterizar um desses absurdos.

Quanto à senadora Lídice da Mata, sua história não será arranhada se, eventualmente, ficar fora dessa chapa majoritária de Rui Costa.

araujo-costa@uol.com.br

Mentiras e invenções

Desde jovem, sempre fui cauteloso e intransigente no que diz respeito à intromissão em assuntos pessoais dos outros. Quero dizer, a privacidade de cada um é um bem inviolável e protegido por disposição constitucional.

Ninguém tem o direito de escarafunchar ou intrometer-se na privacidade de outrem. Isto vale pra todos, sem exceção.

Todavia, de quando em vez, aparecem supostos pesquisadores, curiosos, bisbilhoteiros, fofoqueiros e outras figuras mais, todos ávidos para saber detalhes da vida dos outros.

O passado nada mais é do que a soma de muitos e constantes agoras e, neste contexto, há pessoas que se interessam em saber como éramos no passado, como somos hoje e até o que pretendemos ser no futuro. Sempre com uma pitada de maldade. Tirante a maldade, nada há de estranho nisto. O diabo é acrescentar o sórdido, o asqueroso, a torpeza.

Levanto cedo, porque comumente passo as madrugadas acordado, conversando com a insônia. E chego cedo ao meu local de trabalho, chova ou faça sol. Faz tempo que é assim.

O pesquisador também chegou cedo. Queria saber o significado de uma frase que eu teria dito: “noventa por cento do que escrevo é mentira. Só dez por cento é invenção”.

Deixei-o desapontado de pronto. Disse-lhe que a frase não é minha, nunca foi minha e jamais será minha. É do poeta matogrossense Manoel de Barros e, conhecidíssima, consta em todas as publicações que falam da vida do escritor. Frase bonita, poética, emblemática, talvez um “chega pra lá” nos intrometidos perguntadores.

Ele insistiu, questionou, titubeou: “mas você disse esta frase há pouco tempo, que eu sei”. E daí? Ponderei que, se disse, foi a título tão-somente de citação inserida noutro contexto que não a autoria e com o cuidado de declinar o nome do autor e se escrevi, o que também não lembro, tive igual cuidado de colocá-la entre aspas.

As citações são naturais, comuns, permitidas, desde que creditadas aos seus autores.  É a técnica, é a regra, é a ética, é a decência.

O pesquisador pretendia colocar uma cilada em meu caminho, espalhando-a no ventilador da irresponsabilidade. Ele sabia que a frase não é minha, mas, talvez por falta do que fazer, mente vazia, queria publicar alguma matéria confusa, sabe-se lá onde, no mínimo polêmica, problemática, altamente discutível.

Não foi desta vez, entretanto. Nem será noutra.

O escritor Jorge Amado contava que quando Sonia Braga foi escolhida para viver a personagem Gabriela na televisão, foi-lhe apresentada na casa do Rio Vermelho, em Salvador. Ele não a conhecia, nunca tinha visto e, portanto, a escolha não tinha sido dele, mas dos responsáveis pela novela.

Reunidos todos, antes de Sonia Braga chegar, um repórter de São Paulo presente à reunião, maliciosamente portando uma revista na qual a atriz tinha posado, perguntou maldoso: “por que você escolheu Sônia Braga?”. Esperto, Jorge Amado percebeu a malandragem: “escolhi porque ela é minha amante”. Instantes depois a atriz chegava e Jorge foi logo dizendo: “muito prazer Sônia, somos amantes. Sabia?”

As maldades andam por aí, em tudo quanto é lugar. O que dá audiência em televisão, redes sociais, mídia em geral e permite venda de jornais é a vida privada dos outros, suas fraquezas, inclusive. Então, a privacidade das pessoas às vezes é invadida, acintosa e desnecessariamente, extraindo dela o combustível para o sensacionalismo.

Até hoje não sei como alguém pode deliciar-se com a miséria dos outros.  É sádico valer-se de falhas, deslizes e até de fatos casuais, involuntários ou não, na vida de uma pessoa, para escancará-la diante de todos.

O trilho por onde passa a condução da ética está avariado. Precisa de cuidados.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

Brasil provisório: o sono do governo

1. Apesar das constantes crises, tem muita gente dormindo no governo. O Palácio do Planalto vai adquirir 100 colchões de solteiro para a segurança presidencial. Os agentes estão com muito sono, pelo jeito.

Parece que a segurança do presidente Temer anda mesmo dormindo muito, tanto que o dono da JBS entrou na residência oficial do presidente, tarde da noite, com uma geringonça e gravou toda a conversa suspeita e cabeluda com Sua Excelência, sem ser incomodado.

Parece piada, mas não é. Se fosse um país sério, a segurança presidencial teria sido responsabilizada. Autorizar a entrada do executivo à residência oficial tudo bem, mas daí a gravar a conversa com o presidente da República vai uma grande distância. É incompreensível, inexplicável, assustador.

O ocorrido parece mais uma conspiração mal engendrada do que uma falha da segurança presidencial. Beira ao ridículo.

2. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) não conseguiu detectar a ruidosa movimentação preliminar dos caminhoneiros para parar o Brasil. Aliás, feita às escâncaras.

O governo foi alcançado de surpresa. Pior: atabalhoado, não sabia com quem negociar. Continua não sabendo e a situação não está resolvida, com sério risco de nova paralisação dos caminhoneiros.

O serviço de inteligência do governo vai mal, muito mal. Um serviço secreto desses precisa mesmo é de muita cama pra dormir.

3. O presidente Michel Temer anda às voltas com crises, problemas pessoais, investigações, base parlamentar esfacelada, amigos presos e outros na iminência de serem trancafiados. Só não cai porque não tem para onde mais cair. Seu governo já não existe, o que dele resta vai-se capengando até 31 de dezembro.

4. O preço dos combustíveis deve fazer parte de uma política estratégica e perene em benefício do Brasil. O petróleo é brasileiro. Mas governo e Petrobras definem tudo provisoriamente, quando surgem os problemas, sempre de acordo com as regras do mercado internacional, em defesa de investidores externos.

5. A partir de janeiro de 2019 o Brasil vai piorar, se é que o despenhadeiro ainda terá espaço para coisas piores. Basta analisar os pré-candidatos que pretendem disputar a eleição presidencial. Um é pior do que o outro. Qualquer um deles que ganhar não terá credibilidade para mudar o Brasil. É uma excrescência só.
O Brasil, como sempre, continua provisório.

araujo-costa@uol.com.br

 

Estão sacaneando Lula da Silva

Alguns setores da imprensa, mais por gozação do que por maldade, estão sacaneando Lula da Silva.

Houve eleição suplementar no estado do Tocantins. A senadora Kátia Abreu, que conheceu dona Dilma Rousseff na presidência da República e, inesperadamente, passou a ser amiga da presidente “desde a infância”, concorreu ao cargo para a governadoria.

Kátia Abreu estava em primeiro lugar nas pesquisas, longe, muito longe, de todos os concorrentes, com chance até de ser eleita em primeiro turno, segundo as pesquisas.


A senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, gravou um vídeo e leu uma carta do ex-presidente Lula da Silva dando total apoio eleitoral à senadora Kátia Abreu, porque, segundo Lula e Gleisi, Kátia Abreu é amiga de dona Dilma e, por isto, merecia a vitória. E seria as mãos do PT no Tocantins, conforme a pretensão da senadora Gleisi.


Pois bem. Abriram-se as urnas. A senadora Kátia Abreu ficou em quarto lugar e, consequentemente, não teve chance de disputar sequer o segundo turno. Uma derrota acachapante.


Dizem as más línguas – e as boas também – que Lula presidiário e Gleisi Hoffmann falando asneiras, é melhor ser inimigo político de ambos do que aliado. A chance de ser eleito é maior. Sacanagem de parte da imprensa. Não é bem assim. A senadora Kátia Abreu não teve sorte.


araujo-costa@uol.com.br