“Furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse” (padre Antonio Vieira, 1608-1697, O sermão do bom ladrão)
Jornalista, militante feminista, vereadora e ícone da esquerda paulista, Irede Cardoso (1938-2000) estava chegando a sua residência às cinco horas da tarde. Ao abrir o portão, um rapaz apontou o revolver:
– É um assalto, dona.
Ambos adentraram a residência. A empregada percebeu, pulou o muro e avisou o vizinho, que chamou a polícia. As barulhentas sirenes se aproximaram rapidamente.
Irede Cardoso orientou o rapaz:
– É melhor você fugir. Saia por aquela porta e volte amanhã no mesmo horário para terminar o assalto.
Dito e feito. O rapaz fugiu e voltou no dia seguinte, na hora marcada, para terminar o assalto.
Irede o convenceu a abandonar a delinquência e ainda arranjou um emprego para o rapaz na conceituada Folha de S. Paulo.
Em 2014, surgiu um movimento apoiado pela maioria dos brasileiros, para atacar os larápios de colarinho branco, políticos com ou sem mandato, grandes empresários, agentes públicos corruptos, et cetera.
A conhecida operação Lava Jato tentou encurralar os corruptos – ou trancafiá-los – mas o Supremo Tribunal Federal, em confusas decisões, vem dizendo nas entrelinhas que não é bem assim, os assaltos devem ser coibidos, mas com calma e coisa e tal.
Em data recente, o Supremo Tribunal Federal anulou sentença condenatória de um ex-gerente da Petrobras, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o que noutras palavras, a decisão do STF equivale dizer: vá para a rua e continue furtando.
Nas entrelinhas de suas decisões, o STF atapetou o caminho para os corruptos seguirem em direção aos cofres públicos e continuarem assaltando, locupletando-se, furtando ou seja lá o que for.
Essa história do assalto com hora marcada, contada pelo escritor Mário Prata, amigo de Irede Cardoso, me faz lembrar os assaltos que os corruptos fazem aos cofres públicos.
Os corruptos conjecturam, tramam, negociam, indicam as contas bancárias que devem ser abastecidas ou as pessoas de confiança que devem carregar as malas de dinheiro. E está feito o assalto. Tudo combinado. Com hora marcada.
Há muitos políticos e outros agentes públicos que entendem bem de furtos, como dizia o padre Antonio Vieira. Mais: furtam com hora marcada.
Exemplos clássicos são os assaltantes da Petrobras (era Lula/Dilma) e as malas recheadas de Geddel Vieira Lima e Aécio Neves (era Michel Temer), segundo acusa o Ministério Público Federal.
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