Livros: orelha, posfácio e estrada pedregosa

O autor deste blog/Crédito: Sistema Araújo Costa

Cúmplices das madrugadas, a conversa comprida noite a dentro devia se restringir somente a um encontro entre amigos, dentre os muitos arrastados pela boemia, em décadas.  

Mas a conversa esticada resvalou-se para um pedido, feito já ao alvorecer:  ele queria que eu escrevesse a orelha de um livro, ainda no prelo, com o sugestivo título A estrada pedregosa.

Esquivei-me.

Disse-lhe que de estrada, pedras no caminho e tropeços entendo eu e muito bem, quiçá mais do que ele, porque o sofrimento garranchento da vida se fez presente em meu caminhar.

O sofrimento ainda insiste em se fazer presente, inobstante o meu viver continuamente chafurdando neste naufrágio que é a velhice, tentando passar por cima de seus escombros.

Meu amigo não desiste e pergunta: que tal, então, o posfácio?

Conversa vai, conversa vem, o fato é que chegamos a um acordo e escreverei a orelha do livro – ou o posfácio – falando de estradas espinhosas, poeiras, pedras no caminho, quedas e tropeços.

Desconfio que o livro não vai sair, nunca será lançado e, portanto, não haverá orelha, nem posfácio. Talvez uma ilusão etílica da madrugada.

Posso prestar um testemunho. Há algumas décadas – já vai longe no tempo – comecei a escrever um  livro que intitulei Diálogo dos sinos – artigos, crônicas, observações.

É um apanhado de minha vida, sem nenhuma pretensão de registrar quaisquer resquícios ou viés biográficos.

Não consegui construir ao longo do tempo nenhuma importância, tampouco alguma coisa que possa interessar a qualquer pessoa, mesmo em instância póstuma, que espero demorar.

Sou um peregrino insignificante que costuma escrever baboseiras.

O lançamento de Diálogo dos sinos – artigos, crônicas, observações dar-se-ia em 2023. Não aconteceu, nem tem previsão de acontecer tão cedo. Mas estou a caminho, continuo a caminho.

Há horizontes. Sempre há horizontes.  

Em 01/08/2022 até publiquei uma crônica noticiando-o. Ei-la a seguir:

araujo-costa@uol.com.br

Professora Neusa, defensora da história de Chorrochó

Neusa Maria Rios Menezes de Menezes/Arquivo da família

A professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes é defensora diuturna da história de Chorrochó, o que faz com absoluta seriedade e competência. Conhece como poucos, os meandros dos fatos que serviram de esteios para a edificação da sociedade chorrochoense.

A professora Neusa vem de um tempo, embora não muito distante, em que as instituições locais sustentavam as referências que indicavam o melhor caminho para a juventude.

Por isto que os jovens persistiam em seus sonhos, muitos deles elasticamente distantes, mas razoavelmente possíveis.

Neste contexto estavam as escolas públicas, bases seguras da formação dos jovens de Chorrochó.

Ninguém constrói fortaleza de caráter se não estiver alicerçado em sustentáculo familiar irrepreensível. Assim entendo.

Neusa tem razões de sobra para orgulhar-se de sua construção moral: o pai Vivaldo Cardoso de Menezes, a mãe Estefânia Rios e uma razoável constelação familiar que, ao seu redor, foi educada sob a batuta de regras claramente voltadas para o bem e sustentada em valores sociais modelares. 

Chamá-la tão somente professora não é defini-la bem. Ela reúne mais do que a nobre função de mestra. Somam-se os misteres de historiadora, pesquisadora, vigilante de seu tempo e apego às tradições da Igreja de Chorrochó.

Nossa geração viveu tempos de efervescência cultural no Colégio Normal São José. Ainda em construção de seus valores, enquanto cidade, Chorrochó recebia jovens do meio rural e circunvizinhanças e os agasalhava nas escolas da sede, mormente nos cursos ginasial e colegial.

Neusa, ainda muito jovem, mas já professora eficiente e dedicada, fazia parte desse enredo cultural.

Tenho a honra de ter sido seu aluno e a alegria do saudável convívio nos tempos de minha mocidade.  

Chorrochó nos seduzia. Éramos irrequietos, mas modestos e sonhadores.

A vida de estudantes nos encantava. E o mundo exigia mudança e participação dos jovens, embalados pelos ventos advindos dos movimentos estudantis de 1968.

Tempo de utopia e mudança de costumes. Os meios de comunicação no sertão eram rudimentares e, em razão disto, contribuímos somente com aquilo que nos foi possível, dentro dos limites de nossa humildade interiorana.

Neusa seguiu adiante, contribuiu mais, continuou contribuindo até hoje, certamente contribuirá muito mais.

Todavia, Chorrochó nunca teve apreço por sua memória. Isto se transformou em obstáculo para quem se entrega à empreitada de realizar pesquisas e estudos para compor o caminho trilhado pelas gerações passadas.

Ainda assim, a professora Neusa tem driblado tudo isto e vem escrevendo, com impressionante dedicação e desenvoltura a história de Chorrochó. É agradável reconhecer esta sua nobre tarefa em benefício do lugar.

Avessa a elogios, a professora Neusa não tem conseguido impedir que seus admiradores – e nestes me incluo – reconheçam-na como dedicada e atenta guardiã da história de Chorrochó.

Uma qualidade que mais se destaca na professora Neusa Menezes é o idealismo, que se traduz no apego às tradições, à cultura, à educação e ao engrandecimento de Chorrochó.

Outra qualidade é a modéstia, admirável modéstia sob a qual ampara seu trabalho persistente e constante voltado para o engrandecimento cultural do município.

Tarefa um tanto difícil, tendo em vista que os valores do lugar têm sido espezinhados de tal forma que até nomes de antepassados são omitidos em seguidas administrações municipais, até mesmo em solenidades cívicas.

Dentre sua vasta produção cultural, a professora Neusa Menezes publicou em 2015 o livro História de Chorrochó em coautoria com o Dr. Francisco Afonso de Menezes, ambos abalizados conhecedores da história do lugar.

A professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes é atenta às coisas de Chorrochó. Seu idealismo tem sido de grande valor para a história do município.

Post escriptum

Este artigo foi publicado em 03/10/2015, quando este blog estava no UOL. Agora editado, reproduzo-o aqui, com pequenas alterações exigidas pela passagem do tempo nesses nove anos da primeira publicação.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, tempo de lembrar: Maria Joselita de Menezes.

Família de Antonio Pacheco de Menezes. Em pé, da esquerda para a direita, Maria Joselita de Menezes/Arquivo de Maria Ita de Menezes

O cronista costuma enveredar por caminhos aparentemente desnecessários.

Isto pode significar prolixidade na construção dos meandros de sua escrita ou, quase sempre, desvio estratégico do caminho.

Esse desvio dá-lhe segurança para seguir em frente rumo ao que pretende dizer. E o dizer nem sempre é fácil dizer.

Por conseguinte, o cronista acaba se transformando involuntariamente em memorialista, outras vezes em historiador arrevesado, noutras tantas em narrador ocasional. É o caso deste escrevinhador incapaz e titubeante, mas persistente e até, em certos casos, petulante com as coisas da escrita.

Mesmo assim, vamos lá. Antigamente, embora não muito antigamente, havia o curso primário, sequenciado pelo ginasial e, em seguida, vinha o colegial. Mais tarde, o ginásio e o primário se uniram dando lugar ao formato tal como existe hoje, salvo engano.

Entre primário e ginásio espremia-se o curso de admissão ao ginásio, que correspondia ao quinto ano primário, uma espécie de preparatório para ingresso no curso ginasial.

Faço esta digressão, aparentemente desnecessária – e quiçá errada – para dizer que no Colégio Normal São José, em Chorrochó, dentre as outras disciplinas, havia ensino da Língua Francesa, que mais tarde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação aboliu, extirpando-a da grade curricular.

Estudávamos também educação moral e cívica e organização social e política, além das conhecidas disciplinas de praxe.

Um parêntese: a turma da esquerda radical do Brasil faltou a todas as aulas de educação moral e cívica. Se as tivesse frequentado, hoje o Brasil não estaria olhando pelo retrovisor da História, repetindo os mesmos erros barulhentos do passado. Mas esta é outra história. Deixa pra lá.

Município novo, nesse tempo Chorrochó ainda vivia às voltas com a construção de suas estruturas, fincando os esteios das instituições locais. E o São José nascia auspicioso e altaneiro, orgulho da sociedade local, de professores e estudantes.

Construía-se também o caminho de uma juventude esperançosa, alegre e sonhadora.

O Colégio São José teve como embrião o Ginásio Municipal Oliveira Brito, fundado pelo líder Dorotheu Pacheco de Menezes em 08 de fevereiro de 1963.

Já se vão, por aí, mais de seis décadas, suficientes para que as autoridades que cuidam da cultura e da história de Chorrochó tenham esquecido o nome de Dorotheu. 

Naquele mês de fevereiro aconteceu o primeiro exame de admissão ao ginásio, que acolheu os alunos oriundos do curso primário, formou-se o pioneirismo e deram-se passos seguros em direção à solidez da educação de Chorrochó. 

A primeira turma do São José compunha-se de 13 alunos: Antonio Ribeiro da Silva, Cleonice Félix dos Santos, Creuza Félix dos Santos, Etevaldo Barbosa Ribeiro, Elza Maria de Menezes, Helena Barbosa Ribeiro, Isabel Barbosa de Carvalho, João Bosco de Menezes, João Pacheco de Menezes, José Evaldo de Menezes, Maria Edite Soares, Maria Eloiza Ribeiro e Oneide Carvalho Santos.

Ainda estão por aí, vivos, graças a Deus, alunos daquela primeira turma, para não deixarem este cronista se perder na memória e escrever besteiras. Por exemplo, Elza Maria de Menezes.

A professora titular da cadeira de francês numa ocasião era Maria Joselita de Menezes, que mais tarde ingressou no Ministério Público da Bahia – aposentou-se em 1991 – e vinha de uma rica história de contribuição à causa de Chorrochó, inclusive na Câmara Municipal.

Maria Joselita de Menezes ensinava francês, equilibrando-se entre seu dever de ensinar e a compreensão de que nós, seus alunos, muitos oriundos da zona rural, não tínhamos pendor para aprender a língua de Voltaire, o perspicaz defensor das liberdades civis de seu tempo.

De minha parte, caatingueiro de Patamuté, ainda hoje não aprendi a pronunciar qu’est-ce que c’est, mas não atribuo nenhuma culpa à diligente e rigorosa professora Maria Joselita de Menezes, que todos os ginasianos admiravam.    

O certo é que a professora Maria Joselita de Menezes exerceu dignamente seu mister de mestra de francês e de outras disciplinas e ajudou a escrever a história do Colégio São José, que veio se estadualizar somente em fevereiro de 2002.

O progresso e a falta de criatividade derrubaram os históricos alicerces físicos do Colégio, mas permanecem intactos os esteios de suas bases culturais.

A referência à insigne mestra Maria Joselita de Menezes será sempre oportuna para atapetar a história daquele tempo.

Foi lá que o Colégio São José direcionou os sonhos de grande parte da juventude daquela época rumo ao futuro.

araujo-costa@uol.com.br

Escárnio e acinte da elite

“Nos primeiros cinco meses deste ano 781 procuradores do Estado de São Paulo em atividade receberam rendimentos líquidos acima do teto constitucional pelo menos uma vez”. (O Estado de S.Paulo, 18/07/2024)

O teto constitucional é R$ 44 mil.

Um procurador chegou a receber R$ 115,7 mil no mês. 

Outros exemplos:

“Com a gratificação natalina e pagamentos retroativos, os subsídios dos juízes e desembargadores paraenses ultrapassaram a marca de 800 mil reais em valores brutos”. (O Antagonista, 17/01/2024).

“O Tribunal de Justiça de Rondônia fez pagamentos milionários a seus magistrados no último mês de fevereiro. Um grupo de 46 magistrados recebeu, cada um, mais de R$ 1 milhão – de um deles, o contracheque bateu em R$ 1,6 milhão brutos. Dez receberam R$ 1 milhão líquidos na conta”. (UOL, 03/05/2024/Estadão Conteúdo,02/05/2024).

“O pagamento de indenização de férias levou a juíza aposentada Maria Izabel Pena Pieranti, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), a receber mais de R$ 1 milhão em novembro passado. O holerite da magistrada foi turbinado com R$ 791.367,33 cedidos como “reparação por férias não gozadas”. Outros R$ 286.474,97 estão ligados à venda de dias de repouso remunerado não usufruídos a que tem direito o magistrado por plantão realizado”. (UOL/05/01/2024/Estadão Conteúdo, 05/01/2024).

No Paraná, “um desembargador recebeu no ano passado R$ 1,012 milhão”. (Plural Curitiba, 16/07/2024).   

O Tribunal de Justiça do Paraná justificou em nota “que sempre honrou a missão de bem servir ao povo paranaense, cumprindo e fazendo cumprir a Constituição e as Leis do País”. (Plural Curitiba, 16/07/2024).

Então tá.

Em 2022, “o IBGE mostrou que 67,19% dos trabalhadores ocupados recebiam até R$ 2.424 por mês, totalizando 65,565 milhões de pessoas. Ou seja, boa parte da população sobrevive com renda que não chega a dois salários mínimos”. 

“Além disso, segundo a pesquisa, aproximadamente: 35,63% da população brasileira recebia até 1 salário mínimo (R$ 1.212, valor da época da pesquisa) – o que corresponde a cerca de 34,766 milhões de pessoas”. (toro investimentos, 10/06/2024).

Como se vê, os vencimentos estratosféricos recebidos por magistrados e procuradores em diversas partes do Brasil são um escárnio e um acinte aos brasileiros que não têm o que comer.

Aqui são apenas alguns poucos exemplos.

É uma ofensa aos demais brasileiros.

araujo-costa@uol.com.br

A política de Curaçá e a arte de subir e descer montanhas

“Os hipócritas, como as setas das encruzilhadas, indicam o caminho que eles não seguem” (Thomas Moore, escritor irlandês, 1779-1852)

Prefeitura de Curaçá/Google (A imagem não é recente)

O que mais se vê na política de Curaçá é vaidade, muita vaidade, chega a ser um quê de prepotência. Nessa pré-campanha para lastrear as eleições municipais de outubro pululam os exageros.

O atual prefeito do município está no tempo de descer a montanha, se preparando para apear-se do poder e, logo, é mais livre para deixar para trás as promessas que não quis ou não conseguiu cumprir.

Seu vice e secretário, candidato à sucessão, está tentando subir a montanha e, por isto, encontra dificuldades, sobretudo por lhe faltar estrutura política de dizer o que pensa, mostrar ao que veio ou ao que virá, apresentar novas ideias, novos caminhos.

O vice parece restrito às amarras delineadas pelo prefeito, mormente a defesa de seu governo e a lembrança de suas realizações que –  parece – não foram tantas assim.

O lado atrelado ao prefeito enaltece seus feitos, que foram muitos, segundo propalam nas redes sociais, o que não duvido.

Há muita hipocrisia – e este não é somente o caso de Curaçá, mas de todos os municípios. É que os candidatos estão em franca campanha, mas a legislação eleitoral, que também é hipócrita, diz que não se trata de campanha, mas de pré-campanha.

Daí porque os candidatos não podem pedir votos, o que caracterizaria campanha antecipada.

Agride a lógica e a inteligência de qualquer um, dizer que comícios, reuniões, discursos políticos e a presença de pré-candidatos em festas de distritos, povoados, arruamentos e fazendas, carregando a tiracolo um séquito de cabos eleitorais e admiradores, não significa pedir votos.  

Nenhum pré-candidato comparece a esses eventos para participar de desfile de moda ou mostrar sua beleza, mas para angariar votos, mesmo que sutilmente, de forma subliminar.

Por que não o fazem em anos não eleitorais?

De onde vêm os recursos para os deslocamentos e regabofes festivos desses bem intencionados pré-candidatos?

O fato indubitável é que não se faz pré-campanha sem recursos financeiros. Em quadro assim, é razoável duvidar que os partidos políticos, por antecipação, estejam despejando dinheiro no bolso de pretensos candidatos tão longe das eleições, quando sequer se realizaram as convenções partidárias e tenham sido delineados os candidatos que enfrentarão as urnas.

Entretanto, há formas legais que possibilitam os pré-candidatos angariarem meios de sustentar suas pré-campanhas. Mas daí a dizer que eles não fazem campanha, mas pré-campanha, vai uma monumental e ingênua distância.   

Contudo, a arte de fazer política convence até que cobra usa suspensório.

De outro lado, o candidato adversário do prefeito já está fazendo as vezes de futuro alcaide do município, coadjuvado por munícipes deslumbrados com a possível eleição do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) que parece ser um sujeito humilde e decente, atributos fundamentais para administrar o município.  

Entretanto, está faltando cautela e sobrando vaidade aos apoiadores do petista.

Considerando que a Bahia é um feudo do PT, é razoável presumir que a eleição de Curaçá tende a ser definida a favor do candidato petista, embora cedo para se firmarem quaisquer elementos de certeza.

Mas – devagar – barulho de apoiadores não ganha eleição. O que conta é parcimônia, respeito ao adversário e, sobretudo, propostas viáveis e civilidade ao lidar com os antagonistas.

Quem tem mandato, ou já teve – caso do prefeito – está indicando o caminho que não seguiu, enquanto podia escolher as prioridades e o melhor destino para o município.

Quem não tem mandato – caso do candidato adversário – está na expectativa de ser ungido pela vontade das urnas e indicando um caminho que melhor lhe convém indicar.

Dificilmente o seguirá, se eleito.

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Quando ainda se escreviam cartas

Omar Dias Torres/Crédito: Brasil de Fato

“Sonhador é aquele que percebe a aurora antes dos outros” (Oscar Wilde, escritor e dramaturgo irlandês, 1854-1900)

O cronista se perde e se acha, quase sempre tropeça na memória e o faz em razão das saudáveis armadilhas tramadas por seu principal instrumento de observação: o cotidiano.

É sobre o cotidiano que o escrevinhador se debruça em momentos de reflexão para rememorar fatos, pessoas, circunstâncias, quadras históricas e até, em certas ocasiões, rir-se de si mesmo.  

Já vai longe no tempo em que os amigos mandavam cartas dizendo sentir saudades, rememorando fatos, dando e pedindo notícias, reclamando ausências.

Hoje, quando muito – e se ainda são amigos – mandam e-mails ou, brevíssimas mensagens para não arranhar fragmentos do tempo dedicado ao seu mister diário.

Adequamo-nos todos à exiguidade e às exigências do tempo.

Certa vez um senhor me disse que meus textos são longos demais. Só faltou me chamar de jurássico, ultrapassado, descontextualizado da linguagem da internet e das redes sociais.

O tempo, hoje, chega a ser mais importante do que as amizades. É o perseguir constante dos objetivos que todos pretendem alcançar.

Em 12/03/2018 recebi um simpático e-mail de Omar Dias Torres (Babá), já carregando nos ombros alguns anos bem vividos.

Prezo muito esse ilustre curaçaense Babá. Sujeito de boa estirpe, linhagem exemplar, caráter irrepreensível.

Guardo, com zelo e cuidado o e-mail de Babá e aprendi muito com aquelas bem traçadas linhas.

Num certo trecho, ele dizia que discorda de algumas posições deste escrevinhador, o que se afigura muito saudável.

“O fogo da rebeldia juvenil que ainda arde em mim, me leva, por vezes, a discordar de algumas posições por você defendidas. Mas também é imperioso ressaltar que o faço com respeito e merecida reflexão, prevalecendo sempre a convicção de que na minha contabilidade ainda tens imenso saldo positivo”.

Honra-me o saldo positivo que ainda tenho a haver na contabilidade do amigo Babá.

Espero que este saldo tenha aumentado nesses seis anos que nos separam de março de 2018, operadas as somas e subtrações imperiosas.

Memorialista imaginoso, mais adiante Babá se referia ao tempo do Jornal Asa Branca, de Curaçá e ao programa Nossa Presença que ele apresentou durante algum tempo na Emissora Rural, de Petrolina:

“O sonho e a luta pela construção de um mundo mais justo, que poderia começar por Curaçá, ainda sobrevive em mim. Só gostaria de parar no dia que existir uma sociedade onde todos tenham direito ao mesmo ponto de partida, deixando que a capacidade e o esforço de cada um determinem o seu ponto de chegada. Uma sociedade onde não mais existam poucos com muito e muitos com pouco ou mesmo sem nada”.

Também concordo.

Ao final, Babá saiu-se com esta: “Chego aos 70, insistindo na juventude”.

Como se vê, um jovem sonhador.

Antever a alvorada fez parte dos sonhos de minha geração. O problema é que outros a enxergaram primeiro e conseguiram ofuscar o caminho.

araujo-costa@uol.com.br

Juazeiro tem novo bispo

Dom Valdemir Vicente/Crédito AJN1

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) comunicou que o Papa Francisco nomeou novo bispo para a diocese baiana de Juazeiro.

Trata-se do sergipano D. Valdemir Vicente Andrade dos Santos, de 51 anos – nasceu em 05/01/1973 – que estava na condição de bispo auxiliar de Fortaleza, onde foi pároco, vigário geral e diretor de colégio.

Graduado em Filosofia no Seminário Maior de Aracaju, obteve Licenciatura e Licença em Teologia no Ateneu Regina Apostolorum dos Legionários de Cristo, em Roma.

Foi pároco em Aracaju, professor do Seminário Maior, reitor do Seminário Menor e chanceler.

Trabalhou na Itália (vigário na diocese de Albano) e em 2018 foi nomeado bispo auxiliar de Fortaleza.

A diocese de Juazeiro estava vaga desde a transferência de Dom Beto Breis para arcebispo coadjutor de Maceió.

Dom Beto Breis/Crédito Diocese de Juazeiro

Segundo as regras da Igreja Católica, enquanto houver a vacância, os assuntos da diocese são geridos por um Administrador Apostólico. Em Juazeiro, foi eleito o padre Josemar Mota, de Remanso, que exerceu com eficiência e sabedoria esse mister.  

Como se vê, D. Valdemir Vicente tem uma rica trajetória eclesial e certamente usará essa sua experiência em benefício do povo, da diocese de Juazeiro e da Igreja.

As sementes foram bem plantadas pelos redentoristas D. Tomás Guilherme Murphy (1917-1995), D. José Rodrigues de Souza (1926-2012) e os bispos subsequentes D. José Geraldo da Cruz (1941-2022) e Carlos Alberto Breis Pereira (D.Beto).   

É nosso dever dar-lhe as boas vindas à querida diocese sanfranciscana.

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“Quando enxugardes toda lágrima de nossos olhos”

Na oração eucarística seguida pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, do Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Salvador, há uma súplica muito forte sobre os desígnios de Deus e a partida de nossos entes queridos: “Quando enxugardes toda lágrima de nossos olhos”, esperamos também nós a certeza do acolhimento na glória eterna.

É só o que nos resta depois do abalo de nossas estruturas emocionais. Pedir a Deus que lembre e acolha todos aqueles que chamou à sua presença, depois que participaram da morte de Cristo pelo batismo.

D. Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo, dizia que “sempre somos noviços e todos os dias aprendemos a conhecer mais uma face da bondade e misericórdia divinas”.

Talvez, aí, resida a razão por que, embora tropeçando, aprendemos a ter forças para conviver com a ausência das pessoas queridas que se foram antes de nós. Ausência difícil, dilacerante, cheia de lágrimas.

Contudo, antevemos a certeza de uma festiva ressurreição da vida que a fé nos permite enxergar.

Amparados nessa condição de noviços diante da bondade e misericórdia de Deus somos capazes de absorver o entendimento desses mistérios e o abismo entre nossa condição humana e a certeza da morte.

Virgílio Ribeiro de Andrade e familiares anunciaram a missa para “rezarmos juntos” em memória de Maria do Socorro Menezes Ribeiro (1937-2024) às 10h de 20/07/2024 na Igreja do Senhor do Bonfim, em Chorrochó.

Remoendo a saudade e ajustando-a ao meu dever de rezar, também estarei, mesmo distante, unindo-me através da oração aos familiares e amigos de Socorro e elevando preces pela gloriosa vida que ela conquistou na eternidade.

É muito difícil suportar a saudade, as lembranças, o dever de gratidão que tenho por Maria do Socorro Menezes Ribeiro, embora infinitamente menores do que a dor que estão passando Virgílio Ribeiro e família.

A saudade é um despenhadeiro que se precipita em direção à solidão. Mas equilibra a pequenez de nosso andar.

araujo-costa@uol.com.br

Conversa de aniversário: Odilon Soares de Toledo

“Amigo é o que chega quando as outras pessoas estão indo embora” (Walter Winchell, jornalista americano, 1897-1972)

Odilon e sua esposa Conceição/Crédito: Álbum da família

A vida – ou a passagem dela – é feita de pedaços, fragmentos tais que se somam e nos tornam completos, embora frágeis e efêmeros.

Os amigos que encontramos pelo caminho fazem parte dessa soma que nos completa. Terá sido uma soma inquestionável se cada parcela tiver a prova de que não somos medíocres diante deles.

É na juventude que fincamos os esteios do caminhar, vislumbramos os horizontes, perseguimos os sonhos e, sobretudo, começamos a amadurecer para enfrentar os tropeços e as quedas constantes, que são muitas e inevitáveis.

Creio que os amigos que perduram surgem, quase sempre, nessa fase da vida. São essenciais, indispensáveis, necessários. Em certas circunstâncias, preenchem o nosso vazio, diluem as angústias e seguram as fragilidades. Impedem a empáfia, apontam os rumos e aparam as arestas de nossa arrogância. Flexibilizam a inexperiência e ajudam a diminuir os efeitos de nossas ruínas. 

Sou grato a Mauá, que me acolheu, deu-me o primeiro emprego em São Paulo e me preparou para enfrentar o desconhecido e muitas regras de convivência.

Nordestino, passei a viver na terra dos outros e, bem por isto, meu modo de ser e agir precisava de muitas adaptações e constantes ajustes.

Surgiram os primeiros amigos. Dentre poucos, Odilon Soares de Toledo e sua esposa Conceição Gonçalves de Toledo. Prestativos e generosos, estes amigos permitiram a minha presença entre eles por muito tempo e deram-me o apoio que eu tanto precisava longe do meu habitat, o sertão da Bahia.

A convivência com Odilon me permitiu aprender a pensar, a conjecturar, a refletir.

O convívio me foi fundamental para discernir o melhor caminho em busca de outros valores, sem transgredir o meu passado.

Conceição e Odilon casaram-se ainda jovens em 1971, ele por volta de 19 anos.

Passei a frequentar a residência do casal como se fora da família e colher a sabedoria de um lar sustentado na simplicidade, no respeito e na dignidade.

Em sadias reuniões em sua casa, ouviam-se Linda Batista, Aracy de Almeida, Chico Buarque, Lupicínio Rodrigues, Vinícius de Morais, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Caetano Veloso etc.

Lia-se Pablo Neruda e discutiam-se as matérias do periódico Movimento e dos jornais O Pasquim e Opinião, que faziam parte da chamada imprensa alternativa tolerada pela ditadura militar.

O pai de Odilon me ensinou a dar nó em gravatas. Lembro o momento, guardo o ensinamento, prezo a lição de paciência e vontade de ensinar. 

Parece um gesto insignificante dar nó em gravatas. É-o, para muitos. Neste caso, não.

Minha esburacada memória ainda me faz lembrar o delineamento daquele momento eufórico de aprendiz. Eu viria a fazê-lo incontáveis vezes até hoje, por força do exercício da profissão.

Já se vão, por aí, aproximadas cinco décadas dessa convivência.

Quando a memória me leva à ocasião em que fui acolhido por Odilon e Conceição, recordo a frase de Walter Winchell que encima esta crônica.

Não tenho visto Odilon, não tenho visto Conceição, não tenho visto seus filhos. Faço aqui o registro de meu desleixo e de minha indiferença, alguns dos meus defeitos, dentre muitos que tenho.

Hoje é o aniversário de Odilon.

Deixo parabéns e desejo-lhe êxito sempre e à sua distinta família.

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Lula da Silva, o ministro e o professor de grego

O compadrio em política e administração pública se faz presente em nossa história há séculos.

A ineficiência do serviço público deve-se, quase sempre, ao inchaço da máquina administrativa, geralmente ocupada por pessoas despreparadas, a maioria delas içada aos cargos por seus padrinhos políticos.   

É comum o chefe do Poder Executivo (prefeito, governador, presidente da República), no início de seu mandato, abarrotar as páginas da imprensa oficial com atos nomeando pessoas suas ou indicadas por correligionários seus.

E nessa leva, vão os cargos de confiança, geralmente ocupados por pessoas absolutamente despreparadas para exercer qualquer função pública. Todavia, são apadrinhadas porque prestaram favor aos políticos em suas bases e campanhas eleitorais.

Há casos em que até tais procedimentos passam a frequentar as páginas do folclore político nacional.

Durante a ditadura de Getúlio Vargas, o Estado Novo (1937-1945), o presidente nomeou Vitorino Freire, político pernambucano, para interventor no Maranhão, cargo equivalente ao de governador. 

Vitorino tinha um compadre a quem lhe devia favores eleitorais. Chamou-o ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.

– Compadre, já lhe nomeei professor de grego no Ginásio Estadual, aqui em São Luís.

– Que é isso compadre? Mal sei ler português, nunca vi uma palavra grega.

– Não tem importância. Como a disciplina é optativa, não há nenhum aluno matriculado.

Todo mês o compadre do interventor comparecia ao Ginásio Estadual para assinar o ponto e habilitar-se para receber os vencimentos. Sem conhecer sequer o vocabulário grego.

Um dia foi comunicado pela direção do Ginásio que um aluno havia se matriculado para estudar grego. Ficou em pânico. Foi ao Palácio, falar com o amigo governador.

– Compadre tem um aluno matriculado. O que faço?

– Tinha. Não tem mais. Já mandei prendê-lo. Um sujeito que quer estudar grego aqui em São Luís é doido ou comunista.

E o compadre continuou professor de grego.

Juscelino Filho, ministro das Comunicações de Lula, foi indiciado pela Polícia Federal por desvios de verbas públicas, em benefício próprio, enquanto deputado federal pela União Brasil do Maranhão.

A imprensa já havia noticiado a maracutaia, exaustivamente, envolvendo verbas provenientes de emendas parlamentares e atreladas à CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba).

“Juscelino foi indiciado sob suspeita dos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, falsidade ideológica e fraude em licitação”.

O presidente Lula da Silva encontrou uma brecha para manter o ministro no governo, não obstante o indiciamento: sinalizou que só o demite se a Procuradoria Geral da República apresentar denúncia ou o próprio ministro pedir para sair.

Como no tempo de Vitorino Freire, a política de compadrio não mudou.

É assim nos governos de direita. É assim nos governos de esquerda.

araujo-costa@uol.com.br