Patamuté se despede de Mundinho

Mundinho e Rosângela Brandão/Álbum da família

Raimundo Brandão Filho (Mundinho) sempre esteve rodeado de familiares, amigos e admiradores. Exemplo de dignidade, pisou com altivez o chão poeirento e garranchento da realidade do sertão.

Mundinho morava na Fazenda Almeida, nas redondezas de Patamuté, salvo engano. Em tempo de memória esburacada, às vezes chego a confundir datas, lugares, pessoas.

Por lá se acostumou com o gibão, guarda-peito e chapéu de couro, parte de sua indumentária de vaqueiro. Manuseou estribo e sela e definiu seu viver com fundamento na simplicidade, decência e honradez.

Mundinho enfrentou a quentura da caatinga, os percalços da vida sertaneja. Cuidou de seus animais, de sua labuta diária, do seu cotidiano de proprietário rural.  

Constituiu e criou família decente e respeitada.

Lutou, tenazmente, na condição de homem do campo, da fazenda. Sustentou sua moral irrepreensível, transmitiu educação e conhecimento à família, incluídos aí netos e demais da descendência.

Mundinho observou o nascer do sol e o crepúsculo, viu a lua que amenizava a noite, clareava a escuridão e suavizava o viver sertanejo. Levantou com a alvorada e cantar dos pássaros.

A esperança do sertanejo se fortalece no alvorecer e nas dificuldades do caminhar.

Mundinho viu as árvores ressequidas em tempo de seca e terra esturricada, alegrou-se com o verde em tempo de chuva, admirou a água que saciava a vida e a sede de seu criatório.

Já se vão, por aí, algumas décadas. Minha geração aprendeu a admirar as pessoas boas, honestas, de bom caráter. Lembro Mundinho, José Brandão, João Brandão, Bonfim, Pedro, Manu e outros tantos que já se foram e faziam parte dessa admiração que todos nós tomávamos como exemplos de vida.

Admirávamos também as mulheres que faziam parte da família desses homens, enfeitavam os lares e amparavam a educação de seus filhos. Elas eram os esteios que os sustentavam na labuta diária.

Mas tudo chega ao fim. É o mistério inarredável da vida e da morte.

“É morrendo que se vive para a vida eterna”, segundo o ensinamento de São Francisco. A fé nos dá esse bálsamo nos momentos de crueldade da despedida.

Beirando um século de vida (1929-2023), Mundinho partiu para a distância inalcançável rumo à eternidade. Seu adeus deixou saudade.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, lhe indique o caminho e Deus o ampare.  

Deixo pêsames à família.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá o atendimento da Prefeitura é confuso

“A lei é como uma cerca. Quando é forte, a gente passa por baixo; quando é fraca, a gente passa por cima” (Coronel Chico Heráclio, 1885-1974).

O lendário coronel Francisco Heráclio do Rêgo, chefe político, dono do poder e proprietário rural de Limoeiro, agreste pernambucano, tinha uma forma peculiar de cumprir a lei. Inventava uma maneira de cumpri-la a seu modo.

Em Curaçá, município baiano do submédio São Francisco, parece que há discípulos do coronel Chico Heráclio.

A Prefeitura disponibiliza ou chegou a disponibilizar, não se sabe a que critério – e isto aqui não interessa – máquinas para proprietários rurais abrirem pequenas aguadas ou cuidarem da manutenção de barragens antigas, o que permite o enfrentamento do difícil período de seca.

Todavia, há casos em que, para a execução do serviço pretendido, foi exigido o combustível do sitiante, que já anda capengando. Não está clara se essa exigência é extensiva a todos ou apenas a alguns, em situações esporádicas e eventuais.

Parece aí que o município precisa fazer alguns ajustes nessa forma de atendimento à população. Ou, no mínimo, esclarecer sobre as condições legais em que a Prefeitura pode ou não disponibilizar o equipamento e se o pagamento do combustível é exigido por disposição legal e, como tal, obrigatório.  

Nalguns casos, para pequenos proprietários rurais, disponibilizar o equipamento sem combustível significa uma forma de dizer não.

Como se diz no Nordeste, “além da queda, coice”.

O pequeno proprietário rural já anda fragilizado com a constante situação de penúria natural da região e, ainda, por cima, o poder público dá-lhe um empurrão em direção à queda, ao precipício.   

Excetuam-se dessa avaliação, por óbvio, os casos de tratores e outros equipamentos destinados a comunidades e associações. Razoável entender que, em quadro assim, os custos precisam ser diluídos entre os associados, de modo que a solidariedade é necessária, imperiosa, compreensível.

Morador em sítio do distrito de Patamuté pediu à Prefeitura um caminhão de água para abastecer sua cisterna. A resposta foi curiosa, para dizer o mínimo: o servidor orientou o morador no sentido de colocar calhas na residência para colher água da chuva e abastecer a cisterna.

Orientação valiosa, útil, prestimosa, mas no momento errado.

Noutras palavras o servidor quis dizer: espere a chuva. Mesmo assim, prometeu a ida do caminhão, que não foi. 

De qualquer modo, salvo melhor juízo, não parecem claras as informações que a Prefeitura de Curaçá disponibiliza aos munícipes, mormente no que tange às atribuições de cada setor. Quem deve ser instado a atender o munícipe e se o servidor que o atendeu o fez satisfatoriamente.

Por exemplo. Na estrutura administrativa da Prefeitura, consta como atribuição da Secretaria de Agricultura Sustentável e Ações do Interior:

“XXV – promover, em articulação com a Secretaria Municipal de Fazenda, a elaboração do diagnóstico turístico de Andradas e propor as estratégias do Governo Municipal para dinamizar o setor;” 

A mesma competência é atribuída à Secretaria Municipal de Urbanismo e Serviços Públicos.

Confesso que tenho dificuldade de entender essas atribuições e, menos ainda, porque simultaneamente vinculadas às duas secretarias.

Pode ser burrice deste escrevinhador, ignorância, desconhecimento da realidade local, mania de meter o bedelho.

Mas deve haver alguma desconformidade no agir da Prefeitura de Curaçá, ainda que seja apenas no campo das informações.

Aperfeiçoar não faz mal a ninguém, nem precisa de fuá.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

Por falar em Limoeiro, lembrei do forró de Jackson do Pandeiro:

“Eu fui pra Limoeiro
E gostei do forró de lá
Eu vi um caboclo brejeiro
Tocando a sanfona, entrei no fuá”

As estradas de Patamuté

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes” (Graciliano Ramos, 1892-1953, Vidas Secas)

Amiúdam-se relatos dando conta de que as estradas que permitem o acesso ao distrito de Patamuté estão intransitáveis. Todas elas. Qualquer uma que o usuário escolher vai se arrepender de não ter escolhido a outra.

Situação que não significa nenhuma novidade. Sempre foi assim. Em Curaçá, há precedentes de administradores relapsos, negligentes, preguiçosos, desatentos.

O fato é que se torna difícil chegar a Patamuté, transitar por lá. As estradas estão esburacadas, ruins, difíceis.

O prefeito de Curaçá certamente se espelhou nos antecessores e, pelo que se vê, presume-se que ele entende que está tudo bem em Patamuté.

A título de exemplo, morador de Patamuté informa que o Mercado Municipal está “caindo aos pedaços”, portas danificadas, sem qualquer manutenção, inclusive da pintura.

Como se vê, falta empenho dos líderes políticos locais no sentido de reivindicar, cobrar, cutucar, exigir atenção da Prefeitura.

Quanto à conservação das estradas, trata-se de coisa difícil de acontecer.

E por que não acontece? Porque os homens públicos de Curaçá são politicamente fracos, subservientes, incompetentes. Faltam-lhes altruísmo, vontade de lutar pelo lugar e capacidade de saber exigir. Mais do que isto: consciência de cumprir o dever.

A situação chega a ser constrangedora, dizem relatos mais recentes. Donos de automóveis chegam a carregar enxadas, pás e picaretas, para fazer pequenos reparos nalguns pontos das estradas. Coisa que o poder público tem o dever de fazer, mas não faz.

Os líderes locais se apequenam e contentam-se em tirar fotos ao lado de políticos estaduais e federais com o intuito de espalharem nas redes sociais e mostrar aos eleitores que têm prestígio, de olho nas próximas eleições.

Fotos e imagens de líderes distritais em pré-campanha, ao lado de políticos demagogos, dão um baita resultado: atestado de bajuladores.

A Bahia sempre teve simulacros de governantes, figuras opacas, mesquinhas, preguiçosas, narcisistas, arrogantes, politiqueiras, despreparadas enquanto homens públicos.

O peso dos votos de Patamuté e dos eleitores de todo o distrito é insuficiente para pressionar quem tem o dever de cuidar das estradas do distrito – e não somente das estradas. Se sequer terraplenagem é feita regularmente, imaginemos o que se pode esperar.

A Igreja Católica elevou a gruta de Patamuté à condição de Santuário. Não se sabe de nenhum movimento de autoridades do município para fomentar o turismo e movimentar a economia do lugar, pelo menos em ocasiões de romarias.

Veem-se medidas imediatistas, ínfimas, estanques.

Entre 30 de outubro e 1º de novembro deste 2023 realizaram-se os festejos da Gruta de Patamuté.

E o estado das estradas?

Tapa-buracos e paliativos outros, em ocasiões sazonais, não resolvem, mesmo que sejam feitos anualmente, quando feitos.

Sem nenhuma infraestrutura, em tempo de chuva, os romeiros, turistas e outros que tais enfrentam lamaçal, atoleiro; em tempo de seca, poeira, solavancos.

Todavia, o charme de Patamuté reside em suas dificuldades, porque o povo precisa viver e outra maneira não há, senão viver em meio às dificuldades.

Mas nos resta a esperança nos jovens de Patamuté, futuros líderes. E esperança nos professores de hoje, que iluminam os caminhos desses jovens.

As gerações passadas fracassaram. Os sonhos não fracassaram.

Um dia Patamuté chegará ao seu destino.

Basta refletir na hora de votar.

E o que tem a ver a frase acima de Graciliano Ramos com as estradas de Patamuté?

Nada. Apenas saudade da caatinga.

araujo-costa@uol.com.br

O PT e o fracasso da lógica

“A lógica não pode substituir a evidência” (Giovanni Sartori, cientista político italiano, 1924-2017)

Promessas

Nada melhor do que o PT para não cumprir as promessas do PT.

Na campanha eleitoral de 2018, Rui Costa (PT), à época governador da Bahia, elencou 144 promessas que cumpriria, se eleito fosse. E foi. Os baianos o reelegeram com retumbante 75,5% dos votos.

Findo o governo, Rui Costa havia cumprido 63 das promessas de campanha, o que equivale a 43,75% do que disse que faria, dentre outras que as cumpriu parcialmente.

Os dados são do G1 Bahia, 04/01/2023.

Nenhuma novidade, todavia.

Não só o PT deixa de cumprir o que promete. Isto faz parte da malandragem dos candidatos, independentemente de partidos políticos. O que mais se vê é embuste nos palanques eleitorais.

Puxa-sacos e tapinhas nas costas

Eleito em 2022 para o terceiro mandato, Lula da Silva, em discurso, disse que este seu novo governo não precisa de “puxa-sacos” ou “tapinha nas costas” (Veja, 22/12/2022).

Então, se assim for, Lula da Silva precisa repreender o exagerado Flávio Dino (PSB-MA), ministro da Justiça e Segurança Pública.

O ministro Flávio Dino caminha na contramão da orientação do chefe Lula da Silva, que não quer tapinhas nas costas, nem puxa-sacos, neste seu terceiro governo.

Flávio Dino disse que Lula é “homem honrado, honesto, orgulho do Brasil e um dos maiores estadistas do mundo”.

A imprensa publicou. Está gravado. Matéria prima para os humoristas.

Este escrevinhador não duvida que Lula é tudo isto e até mais do que isto, mas um subalterno elogiar assim o chefe é, no mínimo, constrangedor, ainda mais para Flávio Dino, que sonha em ser indicado por Lula para ministro do Supremo Tribunal Federal.  

Só faltou Lula parafrasear o professor Raimundo e dizer: “menos, ministro, menos”.

Culpa das nuvens

Um jornalista perguntou à espevitada ministra Marina Silva (Rede Sustentabilidade), do Meio Ambiente e Mudança do Clima, qual a diferença entre os índices publicados pelo governo (menores) e os índices publicados por órgãos de imprensa (maiores) no que tange ao desmatamento e aos incêndios na Amazônia.  

Crítica feroz do governo Bolsonaro, a ministra recebeu o microfone, passou para um assessor, que passou para outro, que passou para outro, que retornou, sem resposta, para Marina Silva. Visivelmente constrangida, ela declarou:

– São as nuvens. A atualização dos índices acontece em tempo real, mas quando tem nuvens isto não é possível, pode dificultar.

O jornalista esqueceu de perguntar à ministra, se no governo Bolsonaro, que ela tanto espinafra, não havia nuvens.

Déficit zero nas contas públicas

Lula da Silva escolheu o professor paulista Fernando Hadad, presumível futuro candidato do PT à presidência da República – se Lula não puder disputar – para comandar a economia, por enquanto.

Haddad saiu alardeando que em 2024 o Brasil terá déficit zero. O tamanho dos gastos, mais juros da dívida pública, não podem ser maior que a receita. Vai daí que o governo não pode gastar mais do que arrecada. Até aí, tudo bem. Corretíssimo. 

Lula deu corda a Haddad e o ministro pensou que era verdade. Agora, Lula fez caminho inverso, de olho nas urnas de 2024. Disse que déficit zero é muito difícil e que quer os ministros gastando em obras e investimentos.

O PT precisa de votos nas eleições municipais e precisa alimentar os políticos do chamado Centrão e suas bases nos estados, que Lula tanto criticou na gestão Bolsonaro.

Lula não disse, nem precisava dizer, que o PT necessitará de votos nas eleições de 2024.

Pelo jeito, nos governos do PT, dá-se o fracasso da lógica.

araujo-costa@uol.com.br

Morte de Tito Costa enterra um pouco da história de Lula

Tito Costa/Prefeitura de São Bernardo do Campo/Reprodução de O Globo

Antonio Tito Costa (1922-2023), político e jurista, respeitado nas áreas de Direito Constitucional e Eleitoral, ex-prefeito do município paulista de São Bernardo do Campo (1977-1983) e deputado federal constituinte (1987-1990), faleceu em 28/10/2023.

Tito Costa foi o responsável, em parte considerável, pela ascensão nacional de Lula da Silva e seu amigo nos momentos de extrema dificuldade do petista. Chegou a esconder Lula e a família por cerca de 20 dias, em sua chácara, no município paulista de Torrinha, quando a polícia política do general Ernesto Geisel perseguia o então sindicalista.

Na ocasião em que o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) prendeu Lula, Tito Costa não o abandonou.

Quando Lula se debandou para o lado da corrupção, Tito Costa se afastou com uma frase dura: “Decepção. Lula perdeu a chance de ser um operário-estadista. Preferiu outros caminhos” (Diário do Grande ABC, 22/09/2015).

Tito Costa viria a se encontrar com Lula, anos depois do rompimento, em duas ocasiões: na posse do ministro Ricardo Lewandowski no Supremo Tribunal Federal. Lewandowski e Tito Costa eram amigos de muitos anos; a outra, no lançamento da Universidade Federal do ABC.

Nas famosas greves de 1979, quando Lula se despontou e firmou sua liderança sindical e política , Tito Costa cedeu o Estádio Municipal de Vila Euclides para os grevistas se reunirem, em assembleia, sob a liderança de Lula.

Os primeiros contatos de Lula com Tito Costa deram-se em 1976. Lula era dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e Tito Costa candidato a prefeito. Lula o apoiou e recebeu a retribuição do prefeito três anos depois, nos agitados dias das greves dos metalúrgicos.

O apoio do então prefeito do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) a Lula, lhe custou um chamado a Brasília e uma conversa difícil com o general Golbery do Couto e Silva, todo poderoso ministro chefe da Casa Civil do presidente Geisel e com o chefe da Casa Militar.

Tito Costa contou: “Eles me falaram que eu estava colocando muita lenha na fogueira em São Bernardo. Falei que não, que colocava água na fervura” (Entrevista ao Diário do Grande ABC, 16/07/2018).

O distanciamento de Tito Costa e Lula da Silva deu-se mais por razões éticas do que políticas. Tito Costa achava Lula “inteligente e sagaz”.

Lula da Silva foi receber o título de “Cidadão de São Bernardo” na Câmara Municipal. No momento que foi anunciado o nome de Tito Costa, as galerias repletas de lambe-botas lulopetistas explodiram em vaias.

Entretanto, Lula demonstrou grandeza, gratidão e jogo de cintura. Agradeceu a presença de Tito Costa. O  ambiente ficou mais ameno.

Mas Tito Costa tinha uma opinião muito clara sobre o Partido dos Trabalhadores (PT) e os dirigentes petistas: “Ninguém tira da minha cabeça que o PT tinha plano de poder e não projeto de Brasil. Isso foi o Frei Beto quem falou e eu acredito nisso” (Entrevista ao Dário do Grande ABC, 16/07/2018).

A história de idealismo e seriedade da luta sindical de Lula da Silva se foi ficando pelo caminho, despedaçando-se.

A política partidária lhe roeu o idealismo e o colocou na vala comum, igualando-se aos demais do mundo político.

A morte de Tito Costa enterra um pouco dessa história séria de Lula.  

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: José Eudes de Menezes

José Eudes, esposa Marina Araújo e filhos Eloy Neto e Adriana/Álbum da família

José Eudes de Menezes () era filho de Eloy Pacheco de Menezes e Maria Argentina de Menezes.

Todos deixaram um vazio enorme, cruel e inominável na vida social de Chorrochó.

A comarca de Chorrochó foi instalada em outubro de 1967. Já se vão, por aí, 58 anos. José Eudes de Menezes foi o primeiro escrivão dos feitos criminais e serventuário do primeiro juiz titular Dr. Olinto Lopes Galvão Filho.

Todavia, aqui não quero falar da comarca. Já o fiz noutras ocasiões. Tampouco do cargo que ele exerceu com tanta honradez, dignidade e dedicação, tarefa esta reservada a historiadores e memorialistas, que não é o meu caso.

Refiro-me aqui ao amigo Iê. Convivi com ele alguns anos, poucos anos, tempo suficiente para desfrutar de sua amizade. Ele me ensinou datilografia. Disponibilizava sua máquina de escrever portátil para que eu pudesse aprender e treinar no local onde trabalhava, o Bar Potiguar.

À época ginasiano do Colégio Normal São José, ao lado dele construí muitos dos meus sonhos, alguns realizados, outros não.

A máquina de escrever era verde, deve ainda estar por aí, nalgum lugar de Chorrochó e nela o vi, muitas vezes, datilografando certidões forenses no cumprimento de seu dever. Uma escrita limpa, sucinta, cuidadosa.

Para alguns jovens, que nunca viram uma máquina de escrever, o que não é nenhum demérito, explico que não se trata de nenhuma geringonça jurássica, mas um utilíssimo equipamento que antecedeu o computador. O que hoje se diz digitar, antes se dizia datilografar.

O escritor paraibano José Lins do Rêgo escreveu que “a idade nos cura dos achaques da infância”. Outro escritor, este amazonense, Milton Hatoum, diz que “talvez a velhice seja um naufrágio”. Creio que ambos estão certos.

Benditos os achaques da infância. Benditos os caminhos que nos levam à velhice. Benditas as recordações.

O diabo é que a idade não cura também os traumas. Muitos deles ainda carregamos no cambalear de nossos tropeços. A saudade dos amigos que se foram faz parte desses traumas, o martelar da constante ausência desses amigos e, mais do que isto, a crudelíssima certeza de que não será mais possível encontrá-los.

O falecido jurado de televisão Pedro de Lara me disse uma vez numa tarde em São Paulo, que os sonhos permitem tudo, inclusive o encontro com os mortos.

Cético, zombei, duvidei, questionei. Sério, semblante fechado, olhar desafiador, cabelos desalinhados, Pedro de Lara escreveu num pedaço de papel e me passou. Guardo-o até hoje: “você duvida, mas acredita”. Achei-o profundo, filosófico, reflexivo.

Passei a observar: quando sonho com amigos falecidos, ao acordar tenho a sensação de que estavam ali presentes.

Todavia, quanto a , guardo algumas recordações, além da amizade, que é indestrutível, apesar da morte: a boemia, os encontros diários, a generosidade, a lealdade, a convivência, o sorriso.

Espirituoso, vi-o algumas vezes pensativo, mas nunca o presenciei triste e cabisbaixo.

Uma vez no desaparecido Bar Potiguar, em Chorrochó, um senhor se desentendeu comigo e, estranhamente, dias depois, em atitude duvidosa, passou a andar nas proximidades.

Nada muito sério, mas eu era jovem, inexperiente, não tinha cacife para enfrentar situações embaraçosas, quiçá perigosas.

percebeu e me deu uma cobertura destemida e diária. Difícil esquecer essas demonstrações de lealdade e amizade, mesmo que distantes no tempo.

deixou mulher e filhos. Família bem estruturada, admirável, moralmente sadia.

Prezo todos, admiro todos, gosto de todos. Talvez seja uma marca do que ele me ensinou em nossa convivência: o valor da amizade.

Tempo de Amada amante, A beleza da rosa e Pensando em Marisa, que Roberto Carlos e José Ribeiro alegravam nossa juventude. Tempo dos bailes da antiga Barra do Tarrachil ao som de Izabela, de Renato e seus Blue Caps e Mar de rosas, de The Fevers.

Não importa o tempo, mas a lembrança.

Amigo relapso, não tinha em meus arquivos sequer uma foto de que pudesse ilustrar esta crônica. Vali-me dos préstimos de sua atenciosa família: Marina, Adriana, Taciana e Eloy Neto. Agradeço a todos pela presteza e generosidade.     

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: Eloy Pacheco de Menezes

“A memória é busca do passado, mas também do presente e do futuro e lembrar é reviver o que passou a partir de outro momento” (Silvana Goulart, historiadora).  

Igreja de Chorrochó. Construção de 1885 idealizada e construída por Antonio Conselheiro, o beato de Canudos.

Eloy Pacheco de Menezes fez parte de uma época de lutas e turbulências do município baiano de Chorrochó. Integrante de família tradicional, Eloy carregava no nome a marca de uma estirpe muito respeitável naquela região sertaneja: Pacheco e Menezes.  

Em todo território do município e circunvizinhança, principalmente na zona rural, quando os sertanejos falavam em respeito e dignidade, era comum a referência a “os Pachecos”, como senhores portadores desses atributos tão importantes na vida do povo nordestino. Hoje isto mudou.

Um dos legados de Eloy Pacheco de Menezes foi e será a luta constante e intensa que travou, ao lado de Dorotheu Pacheco de Menezes, amigo e confidente, em prol dos interesses de Chorrochó.

Mas – e  sempre há um mas se intrometendo – na opinião deste escrevinhador, o que Eloy deixou de mais admirável foi seu caráter irrepreensível e inquestionável.

Ao consolidar-se a emancipação do município em 12.09.1954, Eloy foi nomeado gestor dos negócios municipais, uma espécie de prefeito provisório, por decreto do então governador da Bahia, Luís Régis Pacheco Pereira. Nessa condição, foi o responsável pela instalação dos serviços públicos do município, enquanto as instituições precariamente se acomodavam.

Todavia, a história registra alguns atributos de Eloy, além dessa arraigada luta política ao lado de Dorotheu: o caráter inflexível, a dignidade e a intransigência quando, eventualmente, sentia sua honra ameaçada. Noutras palavras, era valente, pavio curto e, sobremaneira, decidido. Em defesa da família e de seus valores morais, tornava-se impassível, afoito, corajoso, audaz.

Como diria Raul Pompéia (O Ateneu), Eloy tinha “as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter”. Não arredava o pé de seus alicerces, de seus valores, dos ditames de sua consciência.

Embora Chorrochó, através dos órgãos de cultura, salvo melhor juízo, nunca tenha evidenciado o papel de Eloy Pacheco de Menezes na história do município, é inegável sua contribuição para edificar os alicerces de que hoje o município dispõe.

Eloy Pacheco de Menezes/Arquivo Margareth Gomes Pires

Eloy foi um daqueles senhores intransigentemente engajados na luta em defesa do município. Dir-se-ia absolutamente convicto, seguro dos valores que defendia, apegado aos seus pontos de vista.

Eloy viveu numa época em que se evidenciava a ausência de entendimento entre as lideranças municipais, fato esse que direcionava os assuntos políticos para o terreno das relações pessoais. Tempos difíceis, em que a convivência entre os políticos e líderes locais dava-se de forma arredia, desconfiada, vigilante, atenta.

Naquele tempo, as correntes políticas de Chorrochó mantinham-se diuturnamente vigilantes em relação aos adversários. Entretanto, Eloy nunca subestimou o lado contrário, mas não vergava quando o assunto arranhava sua honra.  Em razão disto, tinha fama de duro, valente, intransigente.

Aqui, o fundo de verdade é de ordem geral. O homem nordestino daquele tempo era sobremaneira zeloso da sua honra e construía a reputação alicerçada no respeito e na palavra empenhada.   

Casado com Maria Argentina de Menezes, elegante senhora da sociedade chorrochoense, Eloy constituiu família honrada e decente que enriquece Chorrochó até hoje, através de sua valiosa e respeitável descendência. Transmitiu aos filhos a mesma retidão de caráter que ostentou até a morte.

Eloy, a esposa Maria Argentina de Menezes e os filhos Ernani de Amaral Menezes, Maria Menezes (Pina) José Eudes de Menezes (Iê) e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó) contribuíram, cada um a seu modo, para uma quadra inesquecível da história de Chorrochó, que deve muito a todos eles.

Eloy voltava-se à vida do sertanejo: a luta, o sofrimento, a esperança imorredoura e até o lamento. Admirador do poeta cearense Patativa do Assaré, ouvia, com absoluto respeito, a música “Triste Partida” gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, talvez o melhor retrato sociológico do retirante nordestino em direção às estradas do sudeste em que São Paulo é uma gritante referência.    

Chorrochó precisa retirar Eloy Pacheco de Menezes do esquecimento e colocá-lo à luz do conhecimento das novas gerações, através de seus registros históricos.

Se “um país se faz com homens e livros”, segundo Monteiro Lobato, Chorrochó precisa cuidar da memória dos homens que fizeram sua história já que nunca se preocupou com os livros.

Se me não engano, parece que Chorrochó tem uma secretaria municipal de cultura, uma diretoria de cultura ou coisa parecida, o que se trata de uma boa notícia.

Tenho esperança que esse setor, que cuida da cultura – ou deveria cuidar – retire do esquecimento nomes de pessoas que contribuíram para a história do município, a exemplo de Eloy Pacheco de Menezes e da professora Marieta Argentina de Menezes, evidenciando-os perante as novas gerações.  

araujo-costa@uol.com.br   

A Bolsa Família de Lula da Silva

“Precisa-se ter estômago para engolir cobras, aranhas e jacarés” (Ademar de Barros, que foi governador de São Paulo, 1901-1969)

Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República

Lula está cumprindo à risca o que prometeu nas campanhas eleitorais presidenciais das quais participou.

Ele está extirpando a pobreza. Em sua casa.

“Lula e sua mulher escalaram 74 funcionários, que se revezam 24 horas do dia paparicando o casal. As extravagâncias incluem 11 motoristas para oito carros, aspones, maître, chef de cozinha, garçons, camareiras, fisioterapeuta e diversos outros” (Diário do Poder, 23/10/2023).

Só uma ligeira e parcial amostra das despesas da residência oficial de Lula da Silva em 2023:

Conta de luz: R$ 589,2 mil

Conta de água: R$ 418,5 mil

Conta de gás: R$ 57,3 mil

Conta de água do viveiro do palácio: R$ 265,8 mil, certamente a mais bem empregada.

Portanto, mais de R$ 1 milhão em contas básicas de consumo que os brasileiros pagam para sustentar Lula da Silva e a ilustríssima primeira dama Janja. Somem-se as demais despesas obrigatórias do palácio, tais como estrutura alimentar e bebidas finas, necessárias para receber visitantes, inclusive estrangeiros.    

É uma Bolsa Família de respeito.

Essa estrutura palaciana também foi usada por outros presidentes da República, cada um ao seu estilo. A diferença é que Lula da Silva se diz defensor dos pobres e dos oprimidos. Aí está a incompatibilidade entre a gastança e o discurso.

O PT e seus penduricalhos há muito vêm acabando com a pobreza no Brasil.

Por exemplo, os ministros lulistas Rui Costa (Casa Civil), Wellington Dias (Combate à Fome), Renan Filho (Transportes) e Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) arranjaram emprego para suas mulheres, cargos vitalícios, em tribunais de contas, com salários mensais acima de R$ 35 mil, além das mordomias.

Como se vê, o combate à fome existe.

araujo-costa@uol.com.br

Exército, ABIN e esculhambação

Estamos todos em risco.

Assuntos veiculados sobejamente na imprensa durante esta semana vêm trazer a constatação de que estamos todos em condição de absoluta vulnerabilidade.

Furtaram metralhadoras e fuzis do Arsenal de Guerra do Exército, em São Paulo. Ou seja, sem arrombamento e nenhuma violência, surrupiaram do paiol de uma de nossas respeitáveis Forças Armadas, 21 armas potentes capazes até de derrubar helicópteros.

A vigilância do Exército não vigilou.

Algumas dessas armas, segundo as polícias do Rio e São Paulo e o próprio Exército, foram encontradas no Rio de Janeiro em área dominada por traficantes e pelo crime organizado que a polícia chama de narcomilícia.  

Chega a ser hilário, embora o assunto seja tão sério. A polícia diz que um dos grandes criminosos se recusou a adquirir as armas do Exército porque, em sua avaliação, não eram eficientes para o padrão de delinquência do grupo criminoso de que faz parte.

Ou seja, o crime organizado está mais bem armado do que o Exército.

Os órgãos de segurança de São Paulo dizem que esse criminoso está sendo monitorado. Ora, se estiver sendo monitorado, por que ainda não foi preso?

Presume-se que um depósito de material bélico do Exército seja altamente seguro, à prova de qualquer tipo de ataque externo, o que parece não ser o caso, tanto que as armas saíram pela porta da frente e, segundo consta, o furto somente foi notado um mês depois.

Supõe-se que, nessa condição de negligência do Exército, até emissários de qualquer país pode adentrar nossos arsenais de guerra e levar as armas.

Como se vê, a história está mal explicada pelo Exército.

Estamos nesse nível de falta de credibilidade do Exército?

Outra notícia, também cabeluda, dá conta de que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) espionou pelo menos 30 mil brasileiros, através de um sofisticado mecanismo de inteligência adquirido ainda no governo Temer e posto em prática no governo Bolsonaro.

A espionagem foi ilegal, segundo a Polícia Federal, porque invadiu e bisbilhotou a privacidade de políticos, jornalistas e outros et ceteras, sem ordem judicial.

Aliás, do jeito que parte do Poder Judiciário, mormente o Supremo Tribunal Federal, está contaminada pelo ativismo político, até uma ordem judicial dessa natureza causaria estranheza e afigurar-se-ia altamente questionável.  

Portanto, estamos todos vulneráveis ou, pelo menos, estivemos vulneráveis por um longo período.

Falta eficiência no Exército.

Sobra ilegalidade na ABIN.

O Brasil está uma esculhambação só.

Post scriptum I

Novo Triunfo (BA), Custódia (PE) e Maravilha (AL) são alguns municípios que, segundo a Folha de S.Paulo de 22/10/2023, criaram turmas fantasmas de alunos com o intuito de desviar verbas públicas.

Novo Triunfo, com 10.660 habitantes, tem 2.151 matrículas no programa EJA (Ensino de Jovens e Adultos), 20% da população. Em 2020 o município tinha 30 alunos na modalidade.

Post scriptum II

Marília Marton, secretária estadual de Cultura de São Paulo, criou uma briga com os conselheiros da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) e se declarou “pós-doutora em pedagogia do constrangimento”.

A arrogância tem vários nomes.      

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Explicações, mais que explicadas

Mais do que explicado – I

Explicada a repentina mudança das críticas do senador Randolfe Rodrigues (AP), líder do governo no Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal: a mulher dele foi nomeada para ocupar um cargo no gabinete da ministra Carmen Lúcia, do STF (site Metrópole, 19/10/2023).

Mais do que explicado – II

Explicado o atabalhoado desempenho da inexpressiva senadora Eliziane Gama (PSD-MA) na CPMI do 8 de janeiro: Lula da Silva nomeou o marido dela para ocupar cargo no Serviço Geológico do Brasil, empresa pública vinculada ao Ministério das Minas e Energia com salário de R$ 27 mil (sbt News, 03/08/2023. Mais: uma irmã da senadora foi nomeada para exercer o cargo de superintendente no Ministério da Pesca no Maranhão (G7, 02/06/2023).

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