Jânio Quadros, renúncia e firmeza de caráter.

“A conspiração está em marcha, mas vergar eu não vergo” (Jânio Quadros, 1917-1992)  

Dia do soldado, 25.08.1961: Sob a égide da Constituição de 1946 e eleito em votação histórica com 48% dos votos, Jânio da Silva Quadros renunciava à presidência da República, depois de participar de solenidade militar em Brasília.

Jânio Quadros/Crédito: Jânio Quadros Neto

Assim como hoje, o Brasil estava em crise, experimentando momentos de turbulência política, incompreensão generalizada e incapacidade dos homens públicos de resolverem os problemas nacionais.

Entretanto, a prática da corrupção não habilitava políticos para ascenderem a cargos públicos, tampouco os credenciava para disputas eleitorais. Ao contrário, inabilitava-os para o exercício da vida pública.

Jânio Quadros alegava que o Congresso Nacional e a elite política não o deixavam governar.  

Naquela quadra do tempo – 1961 – a situação era menos grave. O Supremo Tribunal Federal não se imiscuía em política partidária, como hoje, nem se envolvia em assuntos privativos do Legislativo.

Ministros do STF não se reuniam às escondidas com líderes partidários, nem participavam de regabofes em casas de políticos.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal eram magistrados mesmos, o que conferia grande respeitabilidade ao tribunal e à nobreza da toga.

Jânio Quadros era ético, extremamente ético.

Ética, para quem não sabe – e ninguém tem obrigação de saber – é a ciência dos deveres. O que menos se vê, hoje, é autoridade pública cumprir o seu dever sem desvios de qualquer natureza.

A vaidade se sobrepõe ao dever, autoridades se transformam em vedetes diante de holofotes e vivem à procura de jornalistas para pedir entrevistas ou fazer declarações.  

Nos dias de hoje, há uma degenerescência generalizada de caráter das autoridades. As exceções são de fato, poucas, pouquíssimas.

Magistrados se transformam em ditadores, de modo que, para eles, o que menos importa é a lei, mas o submundo de suas vaidades sustentadas pelo dinheiro público.      

Jânio não era assim. Preferiu sair.

Conheci Jânio Quadros, frequentei sua casa em São Paulo e fiquei impressionado com sua altivez e firmeza de caráter, qualidades que faltam nos políticos de nosso tempo.

“Não nasci presidente da República. Nasci sim, com a minha consciência. É a esta que devo atender e respeitar”, disse Jânio. E foi embora.

Jânio não arranhou seu caráter, não ficou de cócoras diante da desmoralização, não se curvou a interesses espúrios.

Tinha uma maneira peculiar de atender ao telefone. Ele mesmo o fazia, sem arrogância, sem assessoria, sem ajudantes:

– “Aqui Jânio, sim”.

Hoje, quando vejo presidente da República descer ao submundo da política, sendo vaiado e falando asneiras, bate uma saudade danada de Jânio Quadros.  

O Brasil precisa de estadista, a exemplo de Jânio Quadros e Juscelino Kubitscheck.

araujo-costa@uol.com.br

Thamara, amor de pai intenso.

Thamara Annelise e Otávio Virginio.

Hoje é dia de amar, de sorrir, de admirar o nascer do sol, o caminhar do sol, a luz do sol, o balançar das flores e, se houver, contemplar a luz e o encantamento da lua.

Às vezes a felicidade traz um bloqueio do dizer, como dizer e, bem por isso, me pergunto: pra quê dizer?

Transcrevo, para reflexão, um texto atribuído a Nilson Furtado.

A vida é, talvez, uma sequência de reticências. Porque sempre há alguma coisa a construir, permanentemente.

Neste dia tão especial pra você, Otávio, Vicente e para todos nós que lhe amamos, desejo-lhe um mundo de felicidade, que não sei descrevê-la, não sei medir, não sei avaliar. Mas sei declarar o amor que sinto.

A luz da vida lhe guiará para um novo tempo. Esta é a certeza deste seu caminhar que se inicia hoje.

Que Jesus Cristo lhe seja seu sustentáculo e que Deus lhe aponte o melhor caminho em sua vida.

araujo-costa@uol.com.br

Brasília, estupidez e barbárie

Às vezes é preciso dizer o óbvio que, neste caso, além de óbvio é cristalino.

Lula da Silva ganhou a eleição presidencial porque teve mais votos.

Jair Bolsonaro perdeu a eleição presidencial porque teve menos votos.

Em democracia, a maioria governa e a minoria se curva à voz das urnas e, se quiser, vai para a oposição e aguarda a próxima disputa eleitoral.

Entretanto, oposição se faz com ideias e não com violência. O debate dá-se entre as ideias e não entre indivíduos.

Paixão política exacerbada e fanatismo, qualquer que seja ele, não se coadunam com vivência democrática, tampouco com o confronto de ideias.

A pretexto de fazer oposição ao novo governo empossado em 01/01/2023, uma turba de delinquentes barbarizou Brasília no domingo, 08/01/2023.

Delinquentes destruíram parte das sedes dos três palácios mais importantes da República: Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal. Mais do que destruição física, o descalabro ofendeu o âmago do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, símbolos maiores de nossas instituições republicanas.

Concordemos ou não com a atuação de membros dessas instituições, elas representam a cidadania que todos nós reivindicamos como sustentáculo de nossa dignidade.

Desrespeitaram o patrimônio nacional e, mais do que isto, o danificaram e espezinharam o viver democrático, apequenaram nossa história política.  

Uma insensatez, uma estupidez, uma barbárie. Menos exercício do direito de discordar, de contestar, de fazer oposição.

A sociedade não pode conviver com esse tipo de comportamento, incompatível com as regras de civilidade.

Os governantes são efêmeros e passam, o Brasil fica.

Os perdedores devem ter a dignidade de entender o resultado desfavorável, os vencedores devem dignar-se a se afastar do revanchismo e, mais do que isto, não misturar ação de governo com vaidade pessoal.

Isto vale para quem está no governo e para quem faz oposição e tem a expectativa de um dia governar.

As instituições bem dirigidas cuidam do resto.

O Brasil não pode se curvar à vontade de baderneiros que se travestem de patriotas e nacionalistas, mas desconhecem o dever de cidadãos.

A democracia é o império das leis. Resta aplicá-las sobre tantos quantos insistem em viver à margem da legalidade, quaisquer que sejam os delitos que praticarem.

araujo-costa@uol.com.br

Data vênia, presidente Lula da Silva.

“O dinheiro é sempre o mesmo. O que muda são os bolsos” (Gertrude Stein, escritora americana, 1874-1946)

Lembremos alguns fatos passados.

Entrevista de Lula da Silva à Folha de S.Paulo, em 26/04/2019, ainda na prisão:“Imagine se os milicianos do Bolsonaro fossem amigos de minha família?”

Discurso de Lula da Silva ao sair da prisão: “Não é possível que um país do tamanho do Brasil tenha o desprazer de ter no governo um miliciano responsável direto pela violência” (Folha de S.Paulo, 05/01/2023).

Discurso de Lula da Silva em comício de 12 de outubro de 2022 no Complexo do Alemão (RJ): Lula chamou Bolsonaro de miliciano e o associou à morte da vereadora Marielle Franco, do PSOL-RJ (Folha de S.Paulo, 05/01/2023).

Discurso de Lula da Silva no Recife, em novembro de 2019, em primeiro ato de rua depois da soltura: Lula disse que precisava libertar o Brasil “dessa quadrilha de miliciano que toma conta desse país” (Folha de S.Paulo, 05/01/2023).

Agora, lembremos alguns fatos presentes.

Lula da Silva nomeou a deputada Daniela Carneiro (União Brasil) para ministra do Turismo.

A imprensa vem mostrando sobejamente que a deputada do município fluminense de Belford Roxo tem estreitas ligações com milicianos, inclusive alguns deles participaram de suas campanhas eleitorais em 2018 e 2022.

Há farta quantidade de fotos publicadas na imprensa da ministra de Lula ao lado de milicianos, um deles condenado e preso.

Matéria da Folha de S.Paulo de 06/01/2023:

“A ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil), mantém elo político com dois outros acusados de chefiar milícias em Belford Roxo (RJ), além do ex-PM Juracy Prudêncio, o Jura.

Antes de ser nomeada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Daniela fez campanha no último ano ao lado do vereador Fábio Brasil, o Fabinho Varandão e de familiares do ex-vereador Márcio Pagniez, o Marcinho Bombeiro. Os dois foram presos sob suspeita de comandar milícias”.

Em Belford Roxo, Fabinho Varandão é secretário do prefeito Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho (União Brasil), esposo da ministra.  

Eleito e empossado presidente da República, Lula da Silva mudou o discurso relativamente aos milicianos. Ou, pelo menos, o flexibilizou.

Vejamos o que dizem os ministros de Lula sobre o envolvimento da ministra do Turismo com milicianos, os mesmos que antes condenavam a foto de Jair Bolsonaro ao lado do Queiroz e dos filhos de Bolsonaro com supostos milicianos:

“Até aqui não tem nada que provoque nenhum tipo de desconforto. Nada relevante” (Rui Costa, ministro chefe da Casa Civil).

“Tudo o que apareceu até agora não desabona em nada a grande deputada Daniela” (Alexandre Padilha, ministro de Relações Institucionais).

“Políticas e políticos têm fotos com todo mundo. O fato de ter uma foto com A, B ou C, não significa ter ligação com atividades eventualmente ilegais dessas mesmas pessoas” (Flávio Dino, ministro da Justiça).

Oxente! O lulopetismo mudou o conceito de miliciano? Fotos ao lado de milicianos deixaram de significar ligações com atividades ilegais?

Ou seja, ligações e fotos com milicianos só são comprometedoras e condenáveis quando envolvem Jair Bolsonaro e seus filhos. Quando envolvem aliados de Lula não são condenáveis.

Convenhamos, presidente Lula da Silva. Ou ligações de milicianos são condenáveis quando se tratam de Jair Bolsonaro e de sua família e também quando se tratam de ministros e de aliados do lulopetismo ou não são condenáveis, tampouco comprometedoras.

Data vênia, presidente Lula. O discurso não está sendo compatível com a ação.

Em consequência, ou o presidente Lula da Silva demite sua ministra do Turismo envolvida com milicianos ou a mantém no cargo e pede desculpas pelos impropérios que ele e seus asseclas enxovalharam a família do ex-presidente Bolsonaro.

Aqui não se discute se Jair Bolsonaro e seus filhos são milicianos ou não, nem se está negando isto, até porque não é papel deste escrevinhador. Trata-se de constatar a escancarada hipocrisia do lulopetismo.

Se nem uma coisa e nem outra acontecer, Lula da Silva estará confirmando o que todo mundo já sabe: que nem tudo que ele diz deve ser levado a sério.

Como diz o ditado, “quem tem telhado de vidro não deve brigar com o vizinho”.

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Posse na Câmara Municipal de Chorrochó

Sheila Araújo na Colina do Bonfim/Perfil da vereadora no facebook

Em 01 de janeiro de 2023 às 14 h, Sheila Jaqueline Miranda Araújo será empossada na condição de presidente da Câmara Municipal de Chorrochó e, em consequência, também os demais membros da mesa diretora da Edilidade para o biênio 2023/2024.

Sheila Jaqueline Miranda Araújo vem se despontando como liderança política local lastreada no legado familiar de dois gigantes da vida política de Chorrochó: o avô Oscar Araújo Costa e o pai José Juvenal de Araújo.

Durante algumas décadas, a essência do engendramento político do município de Chorrochó passou, necessariamente, pela família de Oscar Araújo Costa, ramificações dela decorrentes e líderes que gravitaram ao seu redor.

Neste particular, é razoável entender que Oscar foi o esteio, a estrutura, o início do caminhar, olhar voltado para as perspectivas do município.

Líder em Caraíbas e circunvizinhança, Oscar Araújo Costa era casado com a elegante e altiva Umbelina Miranda de Araújo (D. Bela) e com ela construiu base familiar e política sólida e respeitável.

A liderança política de Oscar foi-se transferindo paulatinamente para o filho José Juvenal de Araújo, cuja história de vida e dedicação à causa do município de Chorrochó é sobejamente conhecida e não comporta nenhum acréscimo.

Com a morte de José Juvenal, que deixou rica e inquestionável estrutura política e eleitoral, é inevitável constatar que sua liderança foi-se transferindo para os filhos Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que foi vice-prefeita – e integrou o secretariado municipal de Chorrochó – e o irmão Oscar Araújo Costa Neto que, de igual forma, faz parte da estrutura de governo municipal.

Sheila e Oscar Neto continuam ostentando razoável influência na atual administração do prefeito Humberto Gomes Ramos que, se tiver juízo, os manterá ao seu lado, até por gratidão. Contudo, o prefeito tem demonstrado isto, a julgar pela costura política que resultou na eleição de Sheila Jaqueline à presidência da Câmara Municipal. 

Como se vê, o legado deixado por Oscar Araújo Costa se estendeu à história de Chorrochó como um todo e o fato é que Caraíbas se mantém no topo das decisões políticas do município, ressalvada a liderança inconteste do prefeito Humberto Gomes Ramos, de Barra do Tarrachil, que vem costurando eficientemente os acordos políticos e ditando o que se faz de bom e de ruim em Chorrochó .

De qualquer modo, afigura-se difícil apagar a marca e a estrutura política familiar de Oscar Araújo Costa e de José Juvenal de Araújo.

Este Blog deseja êxito para Sheila Jaqueline Miranda de Araújo no exercício de tão nobre função e para os demais membros da mesa diretora da Câmara Municipal de Chorrochó.

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Memória da ditadura: Amália Lucy Geisel

Da esquerda para a direita, Amália Lucy, Ernesto Geisel e Lucy Geisel/reprodução Google

Amália Lucy Geisel, filha do general-presidente Ernesto Geisel (1907-1996), faleceu em 17/12/2022 aos 78 anos.

Em 1974, tempo de ditadura, com o pseudônimo Julinho da Adelaide e para driblar a censura, Chico Buarque de Hollanda compôs Jorge Maravilha. Lá ele dizia “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

Dizia-se na época que era um recado para o presidente Geisel, que não gostava de Chico, mas sua filha Lucy gostava.

Ao jornalista Tarso de Castro (Folha de S.Paulo), Chico disse: “Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança, e no elevador o cara me pediu um autógrafo para a filha dele”.

À revista Almanaque, Chico disse em 2007: “Nunca fiz música pensando na filha de Geisel, mas essas histórias colam, há invencionices que nem adianta mais negar. Durante a ditadura, de um lado e de outro, as pessoas gostavam de atribuir aos artistas intenções que nunca lhes passaram pela cabeça”. 

Mais lenda do que realidade, embora integre a memória da época, o fato é que nunca se teve notícia de que o presidente Geisel não gostava de Chico Buarque, nem que Lucy gostava dele.

Ambos eram discretos, introvertidos, arredios.

Embora famosa, Lucy Geisel não concedia entrevistas e nunca se casou.

Já em tempos de democracia, Chico Buarque disse que de fato cutucava os militares.

O jornalista Elio Gaspari (Folha de S.Paulo, 19/12/2022) conta que Amália Lucy era historiadora e exerceu um cargo no Ministério da Educação.

Ético, quando assumiu o governo, o presidente Geisel pediu que ela deixasse o emprego. Ela obedeceu.

Post scriptum:

Referência: Wagner Homem, em História de canções: Chico Buarque (Leya, 2009) e artigo de Elio Gaspari (Folha de S.Paulo).

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Sua Excelência, o corrupto

Há, nas praias, um crustáceo cavador chamado corrupto.

É difícil capturá-lo porque, ao primeiro sinal de ameaça, ele se infiltra na areia e desaparece.

Habita as areias litorâneas.

Mas há outro tipo de corrupto, que se instala em gabinetes, amparado por mandatos, eletivos ou não, concurso público ou indicação de amigos influentes e poderosos.

Também é difícil capturá-lo, porque este tipo de corrupto se infiltra no poder, enrola-se nas benesses, lambuza-se nas mordomias, apega-se ao padrinho que o indicou para o cargo e se vai em direção ao desmoronamento de seu caráter, confirmando-se um verdadeiro mentecapto.

Habita as cidades, quaisquer que sejam elas, pequenas, médias, grandes, metrópoles.

Esses corruptos acham-se intocáveis, absolutamente intocáveis. E são intocáveis, porque ninguém se atreve a questioná-los, enfrentá-los, empurrá-los para sua insignificância moral.

São arrogantes e se espelham na máxima “sabe com quem está falando?”. Flexibilizam o caráter a troco de dinheiro, fama e poder, descem ao esgoto da promiscuidade, chafurdam na lama do maucaratismo.

Esses corruptos andam de jatinhos próprios ou de amigos, encastelam-se em mansões, frequentam hotéis caríssimos, rodeiam-se de dezenas e até centenas de servidores, tais como motoristas, auxiliares diversos e até limpam as nádegas com papel higiênico comprado com o dinheiro proveniente de impostos que todos nós pagamos.

Esses corruptos espalham-se pelo Congresso Nacional (Câmara e Senado), Poder Judiciário, Poder Executivo, Assembleias Legislativas, Palácios Governamentais, Câmara de Vereadores, Prefeituras, estatais, autarquias, empresas públicas, et cetera.

Há corruptos no Judiciário que vendem sentenças, acertam propinas e participam de jantares nababescos; há corruptos no Executivo que surrupiam verbas públicas através de empreiteiras e fornecedores do poder público; há corruptos no Legislativo que manejam verbas públicas em benefício próprio e de seus apaniguados.

Corruptos desse naipe são hábeis negociadores diretos ou por intermédios de terceiros, mas no exercício de seu mister são preguiçosos, vaidosos, interesseiros.

Essas excelências corruptas se escondem atrás do poder e se arvoram entes superiores aos demais brasileiros. Em última análise, são nojentos imbecis que sustentam a vaidade à custa de dinheiro público. Ilicitamente, impunemente, vergonhosamente.

Pergunta-se:

Há leis que os punam?

Não, não há. Evidente que não há. A lei serve para punir pobres, oprimidos, desvalidos, inocentes, desamparados, famintos, relapsos da vida social.

A lei não alcança corruptos de alta posição. Nunca os alcançará. Só se for para beneficiá-los.

E ainda os chamamos de Excelências.

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Patamuté: saudade cutuca, saudade vai, saudade volta, saudade persiste.

Raquel do Carmo Paixão e Joaninha, quintal da casa de Antonio Ferreira Dantas Paixão, em Patamuté (sem data). Esta foto consta no perfil/facebook de Josias Paixão, sobrinho de Antonio Paixão.

Há dívidas que não se pagam nunca. Talvez nem em forma de gratidão, in memoriam.

Devo muito a Raquel e Joaninha: momentos de acolhimento, ensinamentos, humildade, alegria e capacidade de aprender a sorrir, mesmo quando não é possível sorrir.

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Margareth Menezes e o PT

Margareth Menezes/Foto de Cristiano Mariz

A indicada para ministra da Cultura do governo Lula da Silva é Margareth Menezes, cantora baiana de samba-reggae.

A preferida de Lula continua sendo a atriz Marieta Severo, ex-mulher do cantor e intelectual Chico Buarque e amiga pessoal do presidente eleito, mas sabe-se que ela declinou do convite, por enquanto.

Margareth Menezes sempre apoiou o grupo político de Antonio Carlos Magalhães no tempo do antigo PFL e tinha ACM como “um dos motivos de maior orgulho da Bahia”, o que não é nenhum exagero.

Entretanto, na década de 1990, Margareth Menezes passou a ser aliada do PT, mas o governador Rui Costa e futuro ministro da Casa Civil de Lula já se apressou em dizer que Margareth Menezes “não é de esquerda” e, talvez por isto, o PT não digeriu muito a indicação da cantora para comandar a cultura que, segundo consta, é um pedido da mulher de Lula e, como tal, precisa ser atendido.

Mas há um quiproquó. Margareth indicou Zulu Araújo, ex-diretor do Olodum e amigo de Gilberto Gil, para seu secretário executivo, mas o PT vetou e disse que o cargo será do historiador Márcio Tavares, secretário nacional de cultura do partido e o empurrou goela abaixo da cantora baiana e deu como caso encerrado. Entretanto, em política tudo pode mudar a qualquer momento.

Já de início, o PT fez de Margareth Menezes uma ministra faz-de-conta que sequer pode escolher seu principal auxiliar.

O diabo é que Margareth Menezes está enrolada com a Receita Federal, em razão de dívidas que superam R$ 1,1 milhão, embora isto não seja nenhum defeito, nem impedimento de ordem moral para assumir o cargo.

Segundo a revista Veja, citada em edição de O Globo, “a cifra se refere a impostos não recolhidos pelas empresas Estrela do Mar Produções Artísticas e MM Produções e Criações, responsáveis pela produção de espetáculos e gravação de discos de Margareth. Uma delas, de acordo com auditores, recolhia o INSS de seus empregados, mas não repassava à Previdência”.

Mas isto em si, não é problema. Dever não é e nunca foi defeito. Neste Brasil de pobres e miseráveis, dever impostos é a regra geral que atinge os mortais comuns.

Entretanto, o diabo é que “o Tribunal de Contas da União (TCU) detectou, há dois anos, irregularidades num convênio assinado, em 2010, entre a Associação Fábrica Cultural — ONG fundada por Margareth — e o Ministério da Cultura, no último ano do governo Lula” (O Globo, 16/12/2022).

Trata-se de dinheiro público destinado a ONG da futura ministra, cujo destino está sendo questionado. Pode ser apenas uma falha na prestação de contas, mas pode ser incapacidade de gerir recursos públicos. Não se sabe, ainda.

Sendo assim, não ficará bem para uma ministra da Cultura pendurar-se em irregularidades com o ministério que estará sob seu comando. Soa esquisito, imoral, indecente.

Como ser de esquerda não é nenhuma qualificação para ser ministro da Cultura – e em política valem mais os símbolos e as entrelinhas do que os fatos –  a afirmação de Rui Costa no sentido de que “Margareth Menezes não é de esquerda” pode significar que ele faz parte da turma do PT que não a quer como titular do ministério. E Rui Costa será um dos ministros mais poderosos do governo Lula.

Encontrei Margareth Menezes somente uma vez na vida. Foi nos antigos estúdios do SBT, no Sumaré, em São Paulo, quando ainda não existia a atual e grandiosa estrutura da emissora em Osasco.

Desenvolta, sorriso largo, apaixonada pela cultura baiana, parece se confirmar hoje sua seriedade com o que faz desde muito jovem.

Se o PT deixar, será uma boa ministra da Cultura.

araujo-costa@uol.com.br

Jornalismo às avessas

A colunista Cristina Serra, da Folha de S. Paulo que, de crítica virulenta do PT e dos governos petistas, se transformou em bajuladora de plantão de Lula da Silva e do lulopetismo, talvez num ato falho, publicou em sua coluna de 17/12/2022 a lição magistral de Jânio de Freitas, ícone do jornalismo nacional:

Do alto de seus 90 anos, Jânio disse que há duas maneiras de exercer o jornalismo. “Uma é o carreirismo desbragado, a bajulação, a adesão política e a prestação de serviços contra a ética jornalística. A outra é trabalhar muito. Assim, essa carreira vale a pena”.

Como se vê, o jornalismo de Jânio de Freitas não é o jornalismo que Cristina Serra exerce, o jornalismo às avessas.

Cristina Serra foi além e escreveu: “Muitos de nós ficaram (e ficam) pelo caminho: porque as dificuldades da profissão são imensas, porque os salários são baixos e as pressões, às vezes, insuportáveis”.

Ela se esqueceu de dizer que o bom jornalismo não cede a pressões, tampouco tenha de negligenciar ou maquiar a verdade porque os salários são baixos ou porque o jornalista necessite abdicar de suas convicções profissionais para ajustar-se aos privilégios decorrentes da proximidade com o poder.

Jornalista moldado à seriedade da profissão não bajula Lula da Silva, não bajula Jair Bolsonaro, não bajula nenhum poderoso de plantão, não bajula quem quer que seja.

Hoje, o exemplo mais gritante de como não se deve fazer jornalismo é o acocorar-se da GloboNews diante do lado político que escolheu para defender.

À exceção de Fernando Gabeira, esquerdista decente e de respeito, os demais comentaristas e apresentadores da emissora desceram ao ridículo da falta de credibilidade jornalística. Sem nenhum pudor.

O bom jornalismo se faz com decência, sem bajulações, sem lambidela de botas dos poderosos, etc, principalmente sem o etc.

araujo-costa@uol.com.br