A contribuição de Etelvir Dantas

Etelvir Dantas/Crédito: Câmara dos Deputados

Cearense de Saboeiro, nascido em janeiro de 1935, Francisco Etelvir Dantas notabilizou-se como deputado estadual da Bahia, eleito pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA) para a 9ª legislatura (1979-1983) e, mais tarde, elegeu-se deputado federal pelo Partido Democrático Social (PDS) para o período de 1983-1987.

Agraciado com o título de Cidadão Curaçaense, Etelvir Dantas foi aliado do líder político Theodomiro Mendes da Silva, prefeito de Curaçá por dois mandatos. Ambos empreendedores, Etelvir atuou nos ramos de agropecuária, alimentação, combustíveis e refrigeração, dentre outros.

Theodomiro Mendes cresceu na condição de executivo do grupo Rovel Couros e Peles S/A e depois da Brespel – Compahia Industrial Brasil-Espanha, baseadas em Juazeiro.

A dedicação à vida empresarial não os incompatibilizou para o exercício da atividade política. Exerceram-na simultaneamente.

Em Juazeiro, Etelvir Dantas comandou o grupo Pinguim S/A – Indústria e Comércio e criou um conglomerado de empresas que respondeu pelo desenvolvimento de toda região, a exemplo da Pinguim Veículos, Postos e Restaurantes Rancho Grande e Utilar.

Em 2017, por iniciativa do então deputado Ângelo Coronel (PSD), a Assembleia Legislativa da Bahia concedeu-lhe o título de Cidadão Baiano. À época Etelvir Dantas tinha 82 anos.

Graduado em Contabilidade, antes de escolher o caminho empresarial Etelvir Dantas trabalhou no Banco Econômico e no Banco do Brasil..

Etelvir participou de diversas entidades. Exerceu a vice-presidência da Associação Baiana e Sergipana de Supermercados e foi Diretor da Associação Brasileira de Supermercados.

A esposa Cleonaide Pedroza Torres é filha do distrito curaçaense de Patamuté e vem de família moralmente bem estruturada. É filha de Cleonice Pedroza Torres e de Adonai Matos Torres, dois esteios da construção da dignidade de Patamuté.

Etelvir Dantas contribuiu muito para o desenvolvimento da região sanfranciscana, inclusive gerando empregos, atuando politicamente e criando estrutura para  a indústria, comércio e serviços.  

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Post scriptum:

Matéria publicada em 04/03/2023 e editada para fazer constar que Etelvir Dantas faleceu em 22/08/2025, conforme amplamente noticiado.

Registro do tempo

“Nosso portão era estreito e encimado por um arco de ferro que era um enfeite usado pela arquitetura da época” (Nelson Cano, in Os Sete de Sampa)

O retrato

A cantora e atriz francesa Edith Piaf e a apresentadora Hebe Camargo. São Paulo, 1957 – Teatro Cultura Artística, Consolação, São Paulo.

Fonte/Reprodução: Valkiria Godoy – “Memórias dos Bairros Paulistanos”.

Valkiria Godoy é autora do livro Os Sete de Sampa em coautoria com Aristeu de Campos Filho, Cristóvão José Zygmunt Wieliczka, Edison Roberto Morais, Mara Beatriz Menegotto de Vasconcelos, Maurício Moura e Nelson Cano.

O livro foi lançado em 2022 pela Editora In House.

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Sua Excelência, o vereador mentecapto

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é idiota do que falar e acabar com a dúvida” (Frase atribuída a Maurice Switzer)

Em minha infância na caatinga esturricada da Bahia, os mais velhos diziam que “para encontrar o satanás não é preciso sair de casa”.

Hoje entendo que isto não acontece somente quando se trata de satanás, mas também de idiotas. Há muitos por aí. Eles pululam até em Câmaras de Vereadores.

Vamos aos fatos.

O vereador Sandro Fantinel (Patriota), de Caxias do Sul (RS), em patético e repugnante discurso, espezinhou os baianos, expeliu preconceito pelas ventas e, sobretudo, igualou-se ao esgoto, às valas fétidas, às sarjetas.

Mais do que isto. O vereador transgrediu preceitos ínsitos na Constituição Federal, dentre esses o respeito à dignidade humana que, na condição de parlamentar, tem o dever precípuo de obedecê-los.

Disse Sua Excelência idiota, que os baianos não são limpos, vivem tocando tambor e vomitou outros tantos impropérios, como se vê, em resumo:

“Todos que têm argentinos trabalhando hoje só batem palmas. São limpos, trabalhadores, corretos, cumprem o horário, mantém a casa limpa e no dia de ir embora ainda agradecem o patrão. Agora com os baianos, que a única cultura que eles têm é viver na praia tocando tambor, era normal que fosse ter esse tipo de problema”.

“Deixem de lado. Que isso sirva de lição, deixem de lado aquele povo, que é acostumado com carnaval e festa, pra vocês não se incomodarem novamente”.

“A única cultura que os baianos têm é viver na praia tocando tambor”.

“Não contratem mais aquela gente lá de cima”, aconselhando empresários e referindo-se aos baianos.

Em 27/02/2023, o destemperado vereador usou a tribuna da Câmara de Caxias do Sul e, em virulento discurso, tratou os cidadãos baianos de forma preconceituosa e desrespeitosa.

Tudo isto em defesa de empresários de Bento Gonçalves (RS) que recrutavam trabalhadores na Bahia, através de uma empresa de índole duvidosa e os mantinham em suas produções, em situação análoga à escravidão.

Denunciadas, um total de 208 trabalhadores foram resgatados pela Polícia Federal e mandados de volta para a Bahia.

Segundo a imprensa, “o resgate dos trabalhadores que eram mantidos em alojamento apertado e sem higiene, tratados sob ameaças e até agredidos com choques e spray de pimenta está causando enorme repercussão desde a semana passada, pois eles eram explorados em grandes vinícolas da região” (Metrópoles, 02/03/2023).

Como se vê, ao defender a degradante situação por que passavam os trabalhadores baianos, o vereador demonstrou concordar com o trabalho escravo ou análogo, tanto que aconselhou os produtores de uva a buscarem mão de obra de argentinos, que “são limpos” e ainda agradecem aos patrões pelo salário que recebem.

A situação é esdrúxula. Não se sabe se o vereador nasceu idiota, adquiriu a idiotice ao longo da vida ou se trata de um caso isolado e pontual de idiotice, um súbito qualquer que o empurrou ao esgoto da sociedade de onde será difícil sair.

Nada impede que Sua Excelência contrate – ou aconselhe contratar – mão de obra da Argentina. Os argentinos são cidadãos respeitáveis, de boa índole e cultura gigante, et cetera e tal.

Entretanto, isto não lhe autoriza espezinhar nós baianos, que vivemos quietinhos em nosso lugar, sem ofender cidadãos de outros Estados. Ao contrário, os recebemos com ímpar hospitalidade e decência. E até, em alguns casos, ficamos amigos deles.

“Tocar tambor” é uma expressão cultural, sim, Excelência. Isto não diminui nossa capacidade de trabalhar, lutar, progredir, ser honesto, criar nossos filhos e viver decentemente em sociedade.

Não sabemos se Sua Excelência tem essas qualidades que nós, baianos, preservamos. É uma questão de berço, de cultura, de civilidade, de educação.

Está aí a pujança de São Paulo, como exemplo. A robustez econômica paulista deve muito aos nordestinos, baianos inclusive, que ofereceram sua mão de obra na construção de São Paulo, o que se dá até hoje.

Excelência:

Não cheguei a arriscar-me em andaimes, prédios, construções, nem a trabalhar na colheita de uvas. Mas há muitas formas de contribuir para o engrandecimento do Brasil. E certamente não será menosprezando brasileiros.

De qualquer modo, o vereador escancarou sua pequenez de conduta, tendência à delinquência, incivilidade, falta de educação e monumental idiotice.

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Homenagem da Ordem dos Advogados

Não se trata de ato de narcisismo, mesmo eventual, porque não me compatibilizo com nenhum tipo de vaidade, talvez em razão da origem humilde.

Entretanto, registro essa homenagem que recebi da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo, mais com o intuito de deixar perenizada minha dedicação e responsabilidade no exercício da profissão que exerço, do que envaidecer-me, propriamente.

Profissão espinhosa, difícil, mas eivada de respeito às leis e ao ordenamento jurídico nacional como um todo.

Nessa caminhada, a ampla defesa de meus clientes sempre esteve acima de quaisquer encruzilhadas que não fossem a ética, o cumprimento do dever e, sobretudo, a obediência às leis.

De qualquer modo, a homenagem significa a convicção de que, ao escolher a profissão de advogado, optei por trilhar o caminho mais apropriado na defesa do Direito e da Justiça.

Indignei-me, muitas vezes, ao constatar que aqueles que não têm voz são os mais prejudicados na luta pelo asseguramento de seus direitos e pela Justiça, mesmo que minimamente possível.

Indignei-me, outras tantas vezes, ao constatar que a sociedade é demasiadamente cruel em relação aos menos favorecidos.

Nesse caminhar cheio de pedras, desafios e tropeços, tive como inseparáveis companheiros de jornada a solidão, os livros, a persistência e as noites em claro, mas sempre à espera de um amanhecer de esperança.

Sempre fui um notívago em busca da realização de sonhos que se distanciam em horizontes talvez nunca alcançáveis, mas insistentemente perseguidos.

As circunstâncias do tempo muitas vezes me foram atrozes.

Minha família construiu o esteio para sustentar-me e alicerçou a coragem para continuar lutando.

A solenidade de entrega da láurea deu-se em 01/03/2023 em São Bernardo do Campo.

Reencontrei amigos de início de carreira e colegas de dedicação constante à advocacia, muitos ainda afoitos à luta pela sede de Justiça que quase sempre nos falta.

Post scriptum:

Dedico esta homenagem recebida às minhas filhas Thábata Aline Faria de Araújo Costa, Thamara Annelise Faria de Araújo Costa, Thássia Anneyse Faria de Araújo Costa e ao meu primeiro neto, Vicente Araujo Boscato, que hoje faz 50 dias de nascimento.

Nesse constante caminhar, nunca deixei de acreditar que, quando chega a escuridão, há sempre uma janela que nos permite divisarmos a chegada da alvorada.

Sigo em frente acreditando.

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Vergonha vitalícia: as mulheres dos ministros de Lula da Silva

“Em política, os tolos se contentam com o pouco, os sábios não se contentam nem com o muito, querem tudo” (José Cavalcanti, São José de Piranhas-Paraíba)

Ministro Rui Costa e esposa/Crédito: Folha de S.Paulo

A elite política nacional, seja de direita ou de esquerda, tem como principais características a ausência de vergonha, a hipocrisia e a capacidade ilimitada de menosprezar a inteligência dos brasileiros.

Os exemplos são claros, inequívocos, estarrecedores, vergonhosos.

Rejane Dias, mulher de Wellington Dias (PT), ex-governador do Piauí e atual ministro do Desenvolvimento Social de Lula da Silva foi apadrinhada no cargo de conselheira do Tribunal de Contas do Estado com o generoso salário inicial de aproximadamente R$ 36 mil. Cargo vitalício, ou seja, até os 75 anos de idade, limite para aposentadoria do servidor público.

O ministro Wellington Dias é o responsável pela pasta que cuida do Bolsa Família e diz que quer acabar com a fome dos brasileiros. Há quem acredite.

Pelo que se vê, já está acabando com a fome, começou em casa: empregou a mulher.

Renata Calheiros, mulher de Renan Filho (MDB), ex-governador de Alagoas e atual ministro dos Transportes de Lula da Silva foi guindada ao cargo de conselheira do Tribunal de Contas do Estado com o significativo salário inicial de aproximadamente R$ 36 mil. Cargo vitalício, ou seja, até os 75 anos de idade, limite para aposentadoria do servidor público.

Marília Góes, mulher de Waldez Góes (PDT), ex-governador do Amapá e atual ministro do Desenvolvimento Regional de Lula da Silva foi elevada ao cargo de conselheira do Tribunal de Contas do Estado com o generoso salário inicial de aproximadamente R$ 36 mil. Cargo vitalício, ou seja, até os 75 anos de idade, limite para aposentadoria do servidor público.

Aline Peixoto, mulher de Rui Costa (PT), ex-governador da Bahia e atual todo poderoso ministro-chefe da Casa Civil de Lula da Silva, embora dependa de alguns conchavos na Assembleia Legislativa – e se nada mudar – será guindada ao cargo de conselheira do Tribunal de Contas dos Municípios com o generoso salário inicial de aproximadamente R$ 41 mil. Cargo vitalício, ou seja, até os 75 anos, limite para aposentadoria do servidor público.

Na esteira do “me engana que eu gosto”, o experiente senador Jaques Wagner (PT), criador e padrinho político de Rui Costa, diz que é contra. Então, tá.

Enfermeira por formação, o principal requisito da mulher de Rui Costa para assumir o honroso e importante cargo de conselheira do TCM é ser mulher de Rui Costa. Aliás, essa qualificação lhe garantiu um cargo na Secretaria de Saúde, quando o marido era governador.

Naiane Almeida Peixoto, irmã da mulher de Rui Costa e, portanto, cunhada do ministro, já está alcandorada no Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM). Ela exerce a função de assessora no órgão, apadrinhada pelo conselheiro Nelson Pelegrino, ex-deputado federal petista.        

É inequívoco que a elite política cria tentáculos tais que a mantêm no poder indefinidamente e com isso passa a influir em importantes decisões. Nesses casos apontados, os conselheiros têm o poder de fiscalizar, aprovar ou rejeitar contas de correligionários ou adversários políticos paroquiais.

Critérios técnicos, talvez. Critérios políticos, sempre há.

Cargos vitalícios, mordomias, vencimentos estratosféricos, vantagens permanentes, nepotismo às vezes. Tudo isso faz parte do dia a dia da elite política.

Esquerda e direita sempre fizeram isto acintosamente. Não é privilégio ou atributo ideológico. É falta de vergonha mesmo, mau-caratismo, exploração alheia.

A República vem sendo infestada de políticos de caráter duvidoso desde sua proclamação.

Enquanto a farra rola com o dinheiro público e circunda as famílias de políticos poderosos, os necessitados que passam fome continuam acreditando e votando nesses embusteiros.

E os embusteiros prometendo acabar com a fome.

Uma vergonha vitalícia.

araujo-costa@uol.com.br   

Patamuté, Pastoura e a insistência da saudade

Pastoura e os filhos/Perfil de Herica Alcântara no facebook

Sucedem-se as notícias tristes. O tempo corrói o viver e desmorona nossa expectativa de continuar convivendo com as pessoas que nos são caras.

Em 22/02/2023 faleceu Pastoura Alcântara Leal, o que deixou triste Patamuté e todos nós, filhos e amigos de lá. Notícia dilacerante para todos nós que ficamos por aqui, por enquanto. E somente por enquanto.

Pastoura fazia parte de uma interessante geração, que construía amizades duradouras. Era daquelas pessoas que passavam horas conversando sobre tudo, menos sobre a maldade e defeitos humanos. Conversa aprumada, amena, hospitaleira, convidativa.

Quando Patamuté não tinha energia elétrica nos moldes de hoje – e isto vai longe no tempo – o distrito servia-se de um motor movido a diesel que desligava por volta das 22 h ou um pouco antes.

À noite ficávamos na calçada conversando e nos recolhíamos ao apagar da luz. Pastoura era uma boa e constante companhia nessas conversas despretensiosas, alegres, encantadoras.

Em Patamuté, Pastoura e Israel Henrique de Souza construíram família exemplar, decente, bem educada e alicerçada em caráter irrepreensível.

Família numerosa que se espalhou pelo caminhar da vida, multiplicou e lhe deu genros, noras, netos, descendência alegre e espirituosa.

Ante o indizível da morte e o indecifrável da vida, resta-nos aceitar os desígnios de Deus.

Deixo pêsames aos familiares de Pastoura.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, lhe indique o caminho e que Deus a ampare.

araujo-costa@uol.com.br

José Dirceu e a imprensa

José Dirceu em 2005/Reprodução Wikipédia

O texto abaixo é de José Dirceu de Oliveira e Silva (PT), ex-ministro chefe da Casa Civil de Lula da Silva e foi escrito quando ele estava sob os escombros da condenação e da prisão, em momentos de agruras:

 “Bastava o insuportável Jornal Nacional, da Rede Globo que, por dever de ofício somos obrigados a assistir. Telejornais que, hoje em dia, não informam, mas opinam sobre tudo, sem que o telespectador tenha perguntado ao repórter, ao âncora, ao entrevistador. Repetem e passam a opinião de seus patrões, dos donos do poder de informar e formar no Brasil. Assistir ao Jornal Nacional era um agravo à pena de prisão que cumpríamos” (Zé Dirceu, Memórias, Volume I, Geração Editorial, São Paulo, 2018).  

Só para lembrar:

O Grupo Globo que Lula da Silva e o PT tanto espezinhavam em tempo de Lava Jato, hoje está a favor de Lula e Zé Dirceu deve estar gostando. A Globo sempre esteve a favor de todo e qualquer governo que lhe enchesse as burras de dinheiro público em publicidade.

A TV Globo cresceu à sombra da ditadura militar, que hoje critica. Sem o beneplácito da ditadura não existiria Grupo Globo. As gerações pós-1964 merecem saber disto, conhecer a história, desanuviar o conhecimento político e afastar o entulho da hipocrisia que insiste em continuar sobre nossas cabeças.

De fato, os comentários e opiniões de alguns jornalistas da GloboNews, por exemplo, são repetidos e constrangedores escárnios à inteligência dos brasileiros.

O experiente Fernando Gabeira é a exceção nesse amontoado de pequenez jornalística. Sabe comentar, sabe opinar, sabe discernir, sabe o que é a grandeza da história.

Ainda no Gabinete de Transição desse seu terceiro governo, Lula da Silva disse que não precisa de puxa saco, mas de pessoas que cobrem ações do governo.

Então, Lula precisa afastar de seu entorno, imediatamente, esses jornalistas lambe botas que enxovalham o jornalismo sério. São bajuladores de plantão, que mudam de opinião à medida em que os ventos sopram favoravelmente em direção aos bolsos de seus patrões.

araujo-costa@uol.com.br

Igreja Católica silencia diante de atrocidades

“Quem luta para não ser oprimido pode se tornar opressor” (Léo Gilson Ribeiro, crítico literário, 1930-2007)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) abriga a nata da esquerda católica, pulverizada, de início, através das chamadas “inclusivistas” Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) vinculadas à Teologia da Libertação, que pugna pela “preocupação social com os pobres e a libertação política dos povos oprimidos”.

O silêncio da Igreja Católica do Brasil relativamente a algumas atrocidades que estão acontecendo no Brasil e no mundo coincide e condiz com a terceira subida de Lula da Silva ao poder, pupilo mais caro da CNBB e do clero brasileiro.

Gigante na luta contra a opressão da ditadura militar (1964-1985), tendo à frente o combativo D.Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo e D. Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, a Igreja Católica se acomodou e hoje não vê a opressão passar ao lado. Querendo ou não, faz vistas grossas relativamente aos opressores de plantão.

Onde está a defesa pela “libertação política dos povos oprimidos”?

Quaisquer que sejam as formas, as ditaduras não merecem acolhida de seus nacionais e tampouco de instituições sérias a exemplo da CNBB que está de cócoras diante de poderosos de ocasião.

Na Nicarágua, país governado por um ditador, o presidente de lá mandou condenar o bispo de Matagalpa, Dom Rolando José Álvarez Lagos, a 26 anos de prisão. Crime do prelado: fazer oposição à ditadura de Ortega.  

O Judiciário de lá é subserviente à ditadura. Condenou o bispo como “traidor da pátria” e mandou trancafiá-lo até o ano de 2049.

O bispo é acusado pela ditadura de “conspirar para minar a integridade nacional e propagação de falsas notícias através das tecnologias da informação e da comunicação em detrimento do Estado e da sociedade nicaraguense”, conforme a TV Canção Nova, 13/02/2023.

Qualquer semelhança com acusações que nosso Poder Judiciário vem atribuindo a alguns brasileiros será mera coincidência. A ditadura aqui é outra, mas já estamos beirando à fase da escuridão.

O ditador Daniel Ortega já determinou “o fechamento de estações de rádio católicas, a obstrução do acesso às igrejas pela polícia e outros atos graves que perturbam a liberdade religiosa e social”, diz a Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia, que protestou veementemente.

Mais: em data recente o presidente da Nicarágua expulsou 222 opositores do país, dentre esses padres e seminaristas e retirou-lhes a cidadania nicaraguense “por toda a vida”.

A Igreja Católica do Brasil, por pusilanimidade ou leniência, não se manifesta inequivocamente sobre essa perseguição religiosa do ditador da Nicarágua, tampouco sobre os inegáveis excessos que estão acontecendo no Brasil, que caminha a passos largos para momentos de truculência e restrição de direitos, mormente no que concerne à censura e ao controle dos meios de comunicação e consequente sufocamento da liberdade de expressão.

Como se vê, falta à CNBB, pelo menos, expressa manifestação de solidariedade à Conferência Episcopal Nicaraguense.

A Igreja Católica Romana é una, santa e apostólica. É a mesma na Nicarágua. É a mesma no Brasil. É a mesma no mundo.

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Lula da Silva e o PT, saudosismo e mesmice

O escritor mineiro Fernando Sabino contava a história:

O médico proibiu de fumar o poeta e romancista paulista Mário de Andrade.

“Se você largar o cigarro, ainda poderá ter mais uns vinte anos de vida”.

Desencantado, Mário de Andrade perguntou:

“De que me adianta viver mais vinte anos sem fumar?”

A esquerda diurética – vive encharcada de etílico – comenta, à exaustão, os “extraordinários feitos” do terceiro governo Lula e está capitalizando, com inegável eficiência, o despreparo político do esquisito ex-presidente Jair Bolsonaro.

A esquerda voltou a endeusar o PT e o lulopetismo como símbolos da honestidade e do combate à corrupção.

Dá para acreditar?

Segundo o jornal O Globo de 12/02/2023, Lula da Silva vem desagradando aliados, em razão de algumas de suas falas estrambólicas, dissociadas da realidade nacional, dentre elas:

Questionamento da autonomia do Banco Central que o Congresso Nacional aprovou;

Afirmação de que o impeachment de D. Dilma Rousseff foi golpe, não obstante tenha tramitado conforme as normas previstas na Constituição da República.

O afastamento de D. Dilma foi presidido por Ricardo Lewandowiski, amigo pessoal de Lula e então ministro do Supremo Tribunal Federal que, inclusive, deu uma colher de chá a D. Dilma: não suspendeu seus direitos políticos por oito anos, embora previsto na Constituição, em caso de impeachment.

D. Dilma Rousseff ficou livre e disputou uma cadeira no Senado Federal em 2018 por Minas Gerais, mas os mineiros empurraram-na para o quarto lugar, apesar de Lewandowsky.

Lula da Silva hoje está aliado exatamente aos “golpistas” que afastaram Dona Dilma. Basta observar sua base de sustentação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Simone Tebet, ministra de Lula, que votou a favor do impeachment e espinafrava os governos petistas, não é mais “golpista”?

Retomada de empréstimos do BNDES a empreendimentos sediados em ditaduras amigas de Lula da Silva, a exemplo de Cuba, Venezuela e Angola;

Criação de um moeda comum no Mercosul;

Tudo isto faz de Lula e do PT contumazes saudosistas de suas práticas condenadas no passado.

Parece que o PT está parafraseando o escritor Mário de Andrade.

De que adiante ficar mais alguns anos no poder sem cometer os mesmos erros?

Vamos em frente.

araujo-costa@uol.com.br

A esquina do tempo e outras esquinas

“Quando o mundo fecha uma porta, Deus abre uma janela. Quando o mundo fecha as portas e as janelas, Deus derruba as paredes” (Lídia Vasconcelos).

Em meio às madrugadas perdidas – foram tantas! são tantas! – tenho refletido sobre a fragilidade a que chegamos até esta quadra de nossa sociedade cruel, difícil e indiferente.

Espaçam-se as certezas entre as amizades que tivemos ao longo do tempo e as que ficaram ou o que resta delas.

Amizades também fracassam. Isto é o que atestam o burburinho e o fervor da juventude e a frieza cruel do amadurecimento.

Ficaram as boas amizades que perduram, se ainda não se foram em direção à finitude da vida.

Ouvi muitas vezes reflexões parecidas sobre portas e janelas fechadas, repetidas por um amigo, em meio às incertezas e aos sonhos de nossa mocidade.

Em Chorrochó, o amigo Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó, para os amigos e Corró, para o irmão Ernani do Amaral Menezes), que tinha nome de nobre português e não está mais por aqui, deixou-me algumas reflexões.

Antonio Euvaldo foi-se antes do combinado, como se diz no interior de São Paulo, mas as frases que ele tanto dizia e repetia sobre o andar da vida continuam cutucando a saudade e dilacerando meus momentos quando me recolho à solidão.

Nunca esqueci essas reflexões nos momentos de tropeços, que foram muitos, são muitos, continuam sendo muitos.

Lembro alguns amigos. Muitos deles conhecidos nas esquinas da vida e no ziguezaguear do tempo.

Todos nós temos uma esquina em nossa vida. Se não é esta mais próxima, será aqueloutra, mais distante e nem por isto menos importante.

Eu tive muitas e ainda as tenho. Em Patamuté, ao lado da casa de José Henrique de Souza, que também abrigava o Cartório do Registro Civil e não mais existe; em Chorrochó, a do desaparecido Bar Potiguar; em Curaçá, a do Teatro Raul Coelho; em Salvador, Rua Chile e Praça Castro Alves; em Petrolina, Rua Maurício Vanderley; em Juazeiro, Rua Coronel João Evangelista; em Santo André, Rua Brás Cubas; em Mauá, Rua D. José Gaspar; em São Bernardo do Campo, a esquina da Alameda D. Thereza Cristina, em frente ao meu antigo escritório.

Nas esquinas encontramos os amigos – ou aqueles que se dizem amigos – colocamos a conversa em dia, sabemos da vida dos outros e, lá também, sabem da nossa. Espairecemos a sisudez da vida e construímos, às vezes, parte de nosso estado de espírito cultural.

Esquinas deveriam ser patrimônio cultural.

Esquinas costumam ser pontos para jogar conversa fora ou trazê-las de volta. Nelas se juntam jornalistas, escritores, políticos, estudantes, boêmios, curiosos, desocupados em geral e outros circunstantes.    

Há notícias boas e más nas esquinas.

As esquinas também testemunham dores. Sei-o agora, em razão da experiência.
Foi numa esquina, no interior de São Paulo, que um telefonema me alcançou e recebi a notícia da morte de minha mãe, momento muito difícil e dilacerante, talvez a primeira vez que me senti fragilizado ao extremo. Um desespero inominável e inexplicável.

O tempo também constrói suas esquinas. São as esquinas da reflexão e da sabedoria, para entendermos as quedas do caminho, os tropeços, o misturar da poeira, o esvoaçar das cinzas.

Surge da queda a grandeza para enfrentarmos as adversidades e há também a esquina para mostrar o horizonte e divisar as luzes da alvorada.

As esquinas da vida também se prestam para muitas outras coisas, inclusive para servir de assunto para uma crônica de saudade e entender que as amizades também fracassam ou desaparecem.

 araujo-costa@uol.com.br