Patamuté, a amizade e o caminhar

Maria Batista e as filhas Núbia e Lourdes/Reprodução facebook

Quando éramos jovens, tínhamos sonhos.

Quando mais velhos, refletimos sobre eles, uns realizados, outros não e outros, ainda, permanecem no âmago das ilusões.

É bom acreditar nas convicções. Elas balizam o caminho, quase sempre espinhoso e incerto.

É bom ter um ideal para sustentar as fragilidades. Ele ameniza as dificuldades e ilumina os horizontes.

A compreensão de nosso mundo depende, basicamente, da forma como vemos os outros, com seus defeitos, qualidades e fraquezas. É uma tarefa difícil que nos obriga a descer do pedestal.

É bom atapetar o caminho com a humildade. Ela nos dá o prumo e o equilíbrio do caminhar, o parâmetro entre a reflexão e as agruras da vida, permite aquilatar a diferença do outro em relação a nós mesmos e entender a inutilidade da arrogância.

Em minha juventude, sonhos, convicções e ideais andavam juntos, como de resto, é a veleidade de todo jovem.

Contudo, por vezes, a arrogância se fez presente, talvez por ser um atributo daquela fase da vida, utópica, volúvel, imperfeita, às vezes amarga. Ainda assim, construí amizades que suportavam meus defeitos e compreendiam meu modo de ser.

Sou grato a todas elas.

Quando morei em Chorrochó, ainda jovem, tive a honra de conviver com Maria Batista Rodrigues, que ainda não tinha Souza no nome. Naquele tempo, já professora e enfermeira, ela trabalhava no único posto de saúde que existia lá, o Posto Médico Francisco Pacheco.

Ficamos amigos e o tempo permitiu a continuidade da amizade.

Maria diluiu muitas de minhas fragilidades. Ensinou-me, com sua sabedoria, a aparar as arestas de minha arrogância, compreendeu meus sonhos e convicções e me fez ver a importância e seriedade dos estudos.

Aprendi com ela a definir o caminho em direção ao desconhecido. Caminho difícil, mas necessário. Era preciso seguir adiante. Era preciso caminhar. Era preciso lutar.

Há uma fase da vida que, ao caminhar, surge uma encruzilhada. É nesse momento que, diante da indecisão, a opinião amiga se faz necessária. Em Chorrochó, comigo foi assim.

Anos mais tarde, Maria Batista esteve morando em São Paulo. Visitei-a duas vezes, se tanto. Ambos deslocados do habitat natural, o sertão, parece que a cidade grande nos empurrava de volta às nossas raízes.

Eu fiquei. Maria voltou. Decisão acertada. Foi acomodar suas emoções e sabedoria em Patamuté. Casou, constituiu família bonita e exemplar e por lá ficou enriquecendo o lugar com sua presença.

A presença de Maria foi um privilégio de Patamuté, que às vezes o dividia com Juazeiro e Curaçá.

Maria atravessou momentos difíceis, mas os superou corajosamente, uma de suas admiráveis façanhas. 

Maria Batista era generosa, sábia, correta, humilde. Sensata ao extremo, atenciosa com todos e prestativa demais com as pessoas que gostava.

Tenho saudade do seu sorriso, como se um amparo às minhas fraquezas.

O convívio que tive com ela me dá saudade, uma saudade persistente, itinerante, inominável, cruel.

Todavia, como diz o cantor Peninha, “ter saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio”.

Maria Batista faleceu em 2022.

araujo-costa@uol.com.br

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