“O único patrimônio do homem é o passado. Quando abandona o passado, o homem fica mais pobre, inclusive de sua razão.” (Jornalista Mauro Santayana)
Ainda jovem, mas já advogado e morando em São Paulo, prestei concurso público para Juiz de Direito da Bahia.
Mais de cinco décadas já se vão, por aí.
Ingênuo, beirando à infantilidade, acreditava que o Poder Judiciário era, em seu todo, formado de pessoas irrepreensíveis.
Com o tempo, a experiência me mostrou que não é bem assim.
Os trancos e barrancos quase sempre nos auxiliam a enxergar, mesmo quando a escuridão tenta impedir a clarividência.
Numa das diversas viagens que fiz a Salvador durante o concurso, encontrei por lá José Evaldo de Menezes, político de Chorrochó, uma das pessoas mais generosas que conheci na vida.
Numa manhã, acompanhei José Evaldo ao escritório do deputado de Entre Rios, João Carlos Paulilo Bacelar (o pai), que ficava na Calçada, bairro da Cidade Baixa, em Salvador, onde ele trataria de alguns assuntos do município de Chorrochó.
No retorno ao hotel na Rua Chile, conversamos muito. Tínhamos seguras expectativas de que eu havia passado no concurso.
Ledo engano. Fiquei sabendo, depois, que fui reprovado na entrevista que aconteceu no Forum Rui Barbosa. A entrevista nada teve a ver com questões de Direito. Era uma forma sutil de eliminação.
Tratava-se de critério subjetivo, não havia o que discutir, o que contestar.
Lembro uma pergunta patética que me foi feita pela banca examinadora: Se, em caso de aprovação, eu me mudaria de São Paulo para exercer a magistratura na Bahia, o que era, no mínimo, uma obviedade ululante.
Ora, se eu estava prestando o concurso, era pressuposto inafastável que me dispunha a exercer a função na Bahia.
Como eu não tinha pistolão que interviesse em meu favor, fiz papel de besta e prestei o concurso.
E não passei.
Este fiasco faz parte do meu patrimônio.
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