
Nesse 22 de junho de 2026 completam-se oito anos da morte de Waldir Pires, data em que a democracia do Brasil perdeu um de seus maiores esteios e sustentáculos de seriedade política.
Quando Waldir Pires disputou o governo da Bahia em 1986 abriu um comitê na Avenida Sete de Setembro, no edifício da antiga Farmácia Caldas, em Salvador.
Naquele endereço aconteciam reuniões, articulações, definições estratégicas, composições políticas, et cetera. Era o quartel-general da democracia, uma trincheira de respeito à Bahia.
Para lá acorriam políticos, admiradores e esperançosos em geral, com o intuito de fazerem a mudança do statu quo implantado pelo carlismo que perdurou décadas.
Duas qualidades de Waldir, dentre muitas: a combatividade e a retidão de caráter. Homem de convicções admiráveis defendia arraigadamente o ideário que sempre sonhou para o Brasil. Era viciado em democracia.
Waldir Pires disputou a eleição de 1986 tendo como adversário principal Josaphá Marinho, respeitado jurista e professor de Direito Constitucional, apoiado pelo poderoso Antonio Carlos Magalhães (ACM), líder político inconteste naquela quadra do tempo.
Waldir ganhou a eleição, beneficiado pelo alvoroço democrático. O que veio depois é outra longa história.
Na década de 1950, aos 24 anos de idade, Waldir Pires foi secretário do governo Luís Régis Pacheco Pereira e, mais tarde, deputado estadual, deputado federal e Consultor Geral da República na presidência de João Goulart.
Esta primeira fase de sua atuação política anterior ao movimento militar de 1964 foi auspiciosa, rica, valiosa.
Antes, Waldir havia disputado e perdido as eleições de 1962 ao governo da Bahia para o dentista e ex-prefeito de Jequié, Antonio Lomanto Júnior (1924-2015).
Com a queda do presidente João Goulart, Waldir e seu amigo Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil do governo Jango, fugiram num avião monomotor para o Uruguai. Lá ele viveu alguns anos e depois se exilou na França.
Com a anistia, terminou a amargura e Waldir voltou ao Brasil. Na França, foi professor na Universidade de Dijon e depois na Universidade de Paris.
No pós-exílio, além de governador da Bahia e parlamentar, Waldir foi ministro da Previdência, ministro do Controle e da Transparência e também ministro da Defesa.
Todavia, Francisco Waldir Pires de Souza estava com 91 anos. Nascido em Acajutiba, passou a infância em Amargosa e se mudou para Salvador. De lá, Waldir saiu para o mundo da grandeza democrática.
O despontar para o amanhecer político – dizia ele – se deu em Nazaré das Farinhas.
Sua história de luta e coragem é um exemplo para aqueles que desejam um Brasil melhor para todos.
Mas a memória de Waldir já dava sinais de cansaço, embora lúcido, ativo, atento às coisas do Brasil. Sua combatividade, entretanto, vinha perdendo o vigor desde 2016, término do mandato de vereador de Salvador.
A esposa D. Yolanda Avena Pires, com quem viveu 55 anos e foi sua companheira de vitórias e infortúnios, faleceu em 2005. Mas Waldir continuou lutando em defesa de suas convicções democráticas.
Em 1986, seu amigo de exílio e da vida, Darcy Ribeiro escreveu: “Waldir tem panca e ideologia de estadista. Seu propósito é, nada menos, do que passar o Brasil a limpo”.
Uma das grandes lições que Waldir deixou foi o amor ao Brasil.
Darcy Ribeiro contava que, ainda no exílio, quando decidiu retornar, Waldir disse a D.Yolanda: “Amor, é hora de voltar. Nossos filhos não hão de falar português com sotaque”.
A primeira vez que vi Waldir Pires – pouco tempo após a volta do exílio – foi na antiga Sorveteria Primavera, em Juazeiro.
Fui-lhe apresentado pelo chorrochoense Francisco Arnóbio de Menezes, que era seu amigo e estava comigo no local. Assim, à semelhança de Waldir, Arnóbio era um sujeito decente, correto, encantador, sem pabulagem.
Fiquei encantado com Waldir. Fala firme, convicções inabaláveis, sorriso encantador.
Difícil não admirar Waldir e sua tenacidade democrática.
Waldir Pires recolheu-se à sua última trincheira, o mundo da velhice. A derradeira e altiva batalha que travou.
Waldir faleceu na madrugada de 22/06/2018. Deixou um legado de esperança e combatividade em favor do Brasil. Exemplo para todas as gerações.