
“A pior solidão é a ausência de si mesmo. O solitário nem sempre está só.” (Afonso Arinos, jurista e historiador, 1905-1990).
Bahia, segunda metade da década de 1970.
Li pela primeira vez o poema abaixo, de Odair José, num momento de solidão, fragilidade e dúvida.
Eu estava na Fazenda Estreito, nas caatingas curaçaenses de Patamuté, divisa com o município de Chorrochó e o anotei num humilde caderno, companheiro e amigo naqueles dias difíceis.
Quadra de minha vida um tanto voltada para a introspecção. Quando a cidade não me dava o amparo, procurava o aconchego de minha mãe na caatinga. E passava com ela dias e dias adquirindo forças, balizando o horizonte, acomodando o turbilhão de inseguranças e conversando com o silêncio.
Releio-o até hoje.
Às vezes, quando nos faltam os amigos, as palavras nos confortam e servem de ombro para o derramar das lágrimas. Eu passava por isto, muitas vezes passei por isto.
Ainda muito jovem e cheio de sonhos, era muito difícil optar entre a humilde casa de taipa onde nasci encravada naquele sertão seco do meu querido semiárido nordestino e a mudança para outro lugar desconhecido e distante, que me permitisse construir o caminho para a realização de meus sonhos. Nunca esqueci esse momento de reflexão em minha vida: a casa, que pedia para ficar e a nova estrada, pedindo para seguir.
Certamente a melhor decisão era seguir o caminho, mas sem abdicar das raízes. Lá estão as forças para o prosseguimento da caminhada, para o afastar das pedras, para o soerguimento após os tropeços. Fiz assim, mas foi uma barra, tem sido uma barra, porque a saudade quase sempre dilacera, cutuca, atormenta.
Com o tempo fui afastando as dúvidas e tapetando a estrada com a coragem possível e as decisões necessárias, segurando as lágrimas e, às vezes, derramando-as, quando não dava para segurar.
Mas segui em frente. Se havia outro caminho melhor não sei, não consegui enxergar, mas sei que não me arrependo do caminho que escolhi.
O poema de Odair José é este:
“Apareceu uma nova estrada e disse:
– Siga-me, pois eu sou o seu futuro.
E minha casa, com medo da solidão, me pede pra ficar, dizendo ser ela o meu passado.
E eu pensei, pensei, pensei…
Pra que futuro, pra que passado, quando na verdade ando perdido nos meus momentos presentes? ”.
Creio ser uma forma de seguir adiante. Mas é inegável que o passado nos serve de sustentáculo para consultar o presente e enfrentar o futuro.
E como é difícil esse equilíbrio!
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