
Quando o Partido dos Trabalhadores (PT) ainda engatinhava na década de 1980, uma animada turma costumava se reunir no bairro de Perdizes, em São Paulo, no convento dos frades dominicanos.
Dentre outros, essa turma compunha-se de: Lula; Djalma Bom, que foi deputado e vice-prefeito de São Bernardo do Campo; Jacó Bittar, amigo de Lula desde sempre, pai do dono formal do famoso sítio de Atibaia; Devanir Ribeiro, que tinha sido diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema na gestão de Lula; o combativo advogado de presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh; Paulo de Tarso Vannuchi, mais tarde ministro de Lula e o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, frei Betto.
Frei Betto coordenava o grupo e cuidava da comida, experiência adquirida na Ordem dos Dominicanos.
Propósito das reuniões: fazer autocríticas, ouvir os companheiros, confessar erros e equívocos e encontrar caminhos. Uma espécie de confessionário especial e coletivo, embora restrito.
A turma recebeu o nome de “Grupo do Mé”, porque era regado a conhaque e outras bebidas estimulantes do ego, que permitiam a descontração e a expiação dos defeitos de cada um dos participantes, a submissão às críticas e à penitência.
Lula da Silva aprendeu muito nesse grupo. Mais pela autocrítica – que hoje não gosta de fazer – e menos em razão do “mé”, que ele já conhecia de cátedra. Natural. Os sonhos às vezes precisam de estímulos.
As circunstâncias difíceis da ditadura militar exigiam as amizades como bálsamo para o enfrentamento das dificuldades, porque os tempos mais difíceis são aqueles de atrocidades.
Alguns amigos muito próximos e companheiros de Lula já morreram, outros se afastaram, em razão dos rumos que o PT tomou, a partir do Mensalão. Poucos estavam lá ontem no Estádio da Vila Euclides.
Ontem – 16/08/2026 – no lançamento da campanha presidencial de Lula, em São Bernardo do Campo, Djalma Bom estava lá, beirando os 87 anos, mas honrando a amizade de décadas.
O PT arrebanhou militantes dos 7 municípios do ABC e de outras regiões e fretou ônibus para transportá-los até o Estádio de Vila Euclides. A estridente militância petista dos municípios contíguos estava toda lá e inflou o evento.
Todavia, o PT espalhou que o evento contou com 40 mil pessoas. Exagero, visível exagero.
O Estádio de Vila Euclides comporta um pouco mais de 12 mil pessoas e mais um pouco no gramado.
Deixa pra lá, o PT gosta de exagerar.
Lembrei da última metade da década de 1970, áureos tempos de Lula liderando as greves de São Bernardo do Campo e do ABC paulista como um todo, embora vigiado pelos militares.
Naquele tempo Lula construiu seu mundo político e não se cercava de radicais como hoje.
Ontem foi um dia importante para o PT, provável última campanha presidencial de Lula, que estava visivelmente emocionado e fragilizado.
O Estádio 1º de Maio – Vila Euclides – serviu de esteio para que Lula desse o ponta pé inicial em sua exitosa carreira política.
Compreensível a emoção. É sua última trincheira.
Talvez o maior mérito de Lula da Silva foi persistir na luta política. O demérito certamente foi, na condição de governante, deixar contaminar seu redor de radicais.
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